31 Julho, 2011

Espiritas e católicos em comunhão

João Batista Herkenhoff, Direto da Redação

“Não sou espírita. Sou católico. Nasci numa família católica, em Cachoeiro de Itapemirim. Na infância e adolescência respirei um ambiente religioso que não transigia em questões dogmáticas. Só bem adiante é que surgiu João XXIII, o Papa que abriu o diálogo da Igreja Católica com todas as religiões e correntes de opinião.

Vejo na doutrina espírita muita abertura para o próximo, generosidade. Creio que isto é a síntese do Cristianismo. Neste ponto parece-me que podem comungar católicos, espíritas, protestantes e ateus. Incluo seguramente ateus nesta desejada comunhão porque quem ama o próximo, tem paixão pela Justiça, sonha com um mundo de igualdade, esta pessoa vive a essência da Fé porque Fé é vida, e não explicitação verbal. Vejam bem. Eu não desconheço que há aqueles que optam consciente e racionalmente pelo Ateísmo. Respeito esta escolha. Apenas vislumbro a chama da Fé na vida de todo aquele que se consome no amor ao outro, indepentemente de uma subjetiva afirmação teísta.

Se nos debruçarmos sobre os diversos municípios do meu Estado (Espírito Santo) para descobrir, em nossas cidades, instituições que se abrem para o próximo, que se condoem de presos e de prostitutas, que buscam encaminhar crianças, que se dedicam ao cuidado de seres humanos marcados por deficits físicos ou mentais, veremos que muitas dessas instituições, ou a maioria delas, são levadas avante por seguidores do Espiritismo. Acredito que o mesmo fato ocorra em outros Estados do Brasil.”
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29 Julho, 2011

A História de Alice no País das Maravilhas

Marcelo Spalding, Digestivo Cultural

Esses dias estava perambulando pela Livraria Saraiva, aqui em Porto Alegre, quando encontrei o belo livro Contos que a Vovó Lê Pra Mim, da Disney. O livro, de 2009, tem 320 páginas e custa R$ 59,00. A edição tem as bordas douradas e traz na capa inconfundíveis personagens ilustrados no traço da Disney, como Dumbo, Pequena Sereia, Nemo e Bambi. Abri o exemplar e, primeiro, me surpreendi com a mistura de histórias, pois temos desde clássicos como Branca de Neve até histórias contemporâneas como Rei Leão e Toy Story. Até aí, tudo bem, sinal dos tempos. O que me surpreendeu e provocou esta resenha foi chegar na página de Alice no País das Maravilhas e perceber que não havia nenhuma referência ao nome de Carroll, o autor do livro! Procurei nas páginas iniciais, nas finais, no rodapé, mas nada, Alice no País das Maravilhas estava ali incorporado como um conto clássico, sem autoria, apenas a menção do nome de quem o adaptou.

Curioso, fui até a seção de livros infantis e reparei que há outros casos em que o livro Alice no País das Maravilhas não traz referência ao autor, como na Coleção "Livros Sonoros de Contos Clássicos", da Editora Ciranda Cultural. Aqui a história de Carroll é reduzida a seis páginas, com ilustrações de tela inteira e o texto, em caixa alta, resumido em um parágrafo. O grande diferencial é que o "leitor", clicando em botões na lateral do livro, poderá ouvir a narração da história.

Sei que Barthes já escreveu sobre a morte do autor em meados do século passado, que muito se tem discutido sobre Creative Commons nessa era digital, mas a mim pareceu que omitir a autoria de um romance como Alice é criminoso, algo como adaptar Hamlet sem citar Shakespeare (ainda que haja dúvidas sobre a existência real de Shakespeare) ou adaptar Dom Quixote sem mencionar Cervantes. Não são edições amadoras, são edições de grandes grupos editoriais vendidas em uma mega-livraria com ação em Bolsa de Valores, e ainda que a omissão da autoria original esteja protegida pela lei, já que o texto caiu em domínio público, atribuo esse descaso ao fato de tratar-se de literatura infanto-juvenil, pois desafio alguém a encontrar edição de Hamlet sem menção a Shakespeare e de Quixote sem o nome de Cervantes.

Alice no País das Maravilhas (em inglês, Alice's Adventures in Wonderland, frequentemente abreviado para Alice in Wonderland) foi publicado em 4 de julho de 1865 por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, com ilustrações de John Tenniel. Carroll, segundo o polêmico e exigente crítico norte-americano Harold Bloom, foi o gritande mestre da literatura fantástica (ou de fantasia).”
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28 Julho, 2011

Erros e acertos na vida


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Apesar de dizerem por aí que nascemos com vários caminhos a seguir, existem apenas dois na nossa vida : o certo e o errado. Difícil é determinar a atribuição de cada um, porque a concepção de um e de outro muda de acordo com a vivência e as necessidades de todos nós.

Se não vejamos. Antigamente, falar de casamento de pessoas do mesmo sexo era errado. Agora é certo. Quem poderia imaginar que passeatas pedindo a descriminalização da maconha pudessem acontecer? Era errado? Era. Agora, é certo.

E o que era certo antigamente ficou completamente errado, em algumas situações. Por exemplo, mulher não ter o mesmo espaço que o homem no mercado de trabalho era certo. Hoje, é errado, pois muitas estão até em melhores condições e ganhando muito mais que seus parceiros masculinos.

Mas não dá pra ficar aqui observando regras do que é certo ou errado. Nem pensar. Afinal, somos todos diferentes e por isso temos particularidades que nos parecem certas e são erradas , ou vice-versa. Depende da visão de cada um.

O que me fez divagar sobre essa dualidade são os próprios acontecimentos dessa vida tão conturbada da humanidade. Infelizmente, o peso do errado tem sido muito maior que o certo nas questões universais, aquelas que abrangem um espaço que não podemos atingir individualmente, e ai temos que aceitar e lamentar o pior erro de alguém sem que se possa fazer nada para consertá-lo.

Não sei o que pode levar um filho a matar a própria mãe adotiva com a qual vivia há doze anos, esconder o corpo e ao ser descoberto não revelar os motivos para um comportamento tão brutal. O que dizer do outro filho que matou os pais a marteladas, só porque eles não queriam que ele desse uma festa em casa. Eles acharam certa a proibição. O filho achou errado e erradamente resolveu o problema , matando-os (dois casos acontecidos na Flórida na semana que passou).”
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27 Julho, 2011

Maria Madalena

Frei Betto, Adital

“A festa de Maria Madalena é 22 de julho. Considerada santa pelas Igrejas católica, ortodoxa e anglicana, seu nome é mencionado nos quatro evangelhos.

Lucas (8, 1-3) registra que Jesus se fazia acompanhar pelo grupo dos doze (os apóstolos) e por mulheres, cujos nomes o evangelista cita: "Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes; Susana e várias outras, que o serviam com seus bens.”

O "sobrenome” Madalena indica o lugar de origem - Magdala, cidade do lado ocidental do lago da Galileia, cujas ruínas visitei ao escrever Um homem chamado Jesus (Rocco), versão romanceada dos evangelhos. No tempo de Jesus, havia ali um próspero centro urbano dedicado ao comércio de sal.

A tradição associa Madalena à prostituição, devido ao detalhe de que, dela, "haviam saído sete demônios”. Na Bíblia, o número 7 significa "infinito”, assim como, hoje, o símbolo matemático (¥) é parecido a um 8 deitado. Jesus livrou Madalena de seus múltiplos pecados. Os "sete demônios” equivalem, teologicamente, aos sete pecados capitais (gula, avareza, luxúria, soberba, preguiça, ira e inveja).

Há ainda aqueles que, arbitrariamente, identificam como sendo Madalena a "mulher da cidade, uma pecadora”, descrita por Lucas (7, 36-50) como aquela que, num jantar, lavou os pés de Jesus com perfume e os enxugou com os cabelos.

Os relatos evangélicos não foram escritos segundo óticas jornalísticas, históricas ou biográficas, e sim teológicas. Inútil procurar ali detalhes ou informações a respeito da vida íntima dos personagens citados. Contudo, ensina a sabedoria, não lemos nem vemos com os olhos, e sim com a mente. E quem tem mente poluída...

Mateus (27, 56) narra que "muitas mulheres, olhando de longe”, presenciaram a crucifixão de Jesus. Informa ainda que se tratava de mulheres que o seguiram "desde a Galileia e o serviram”. E cita nomes: "Entre elas, Maria Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu.”
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26 Julho, 2011

O nazista norueguês e os racistas nativos


Altamiro Borges, Blog do Miro

“O neonazista Anders Behring Breivik, que já confessou à polícia ter recebido a ajuda de “outras células” terroristas nos atentados na Noruega, pode virar um herói dos racistas brasileiros. No manifesto publicado na internet poucas horas antes da ação criminosa, o direitista cita o Brasil, fazendo duras críticas à miscigenação racial existente no país.

A miscigenação no Brasil

No texto “Declaração Européia de Independência”, com 1.500 páginas, ele condena a pretensa “revolução marxista” no Brasil, que teria resultado na mistura de povos europeus, africanos e asiáticos. Na sua visão racista, esta mistura seria culpada pelos “altos níveis de corrupção, falta de produtividade e em um conflito eterno entre várias culturas”.

O neonazista também condena a existência de “mulatos e mestiços” no Brasil, afirmando que eles são “subtribos”. Os bárbaros atentados em Oslo e na ilha de Utoeya, que causaram 76 mortes (número oficial), objetivariam evitar esta miscigenação na Noruega. “É evidente que um modelo semelhante na Europa seria devastador”, concluiu o direitista.

A força do preconceito

Apesar de a mídia relativizar a ação criminosa do extremista, tratando-o como um maluco – como insinua a Folha no seu editorial de hoje –, as suas idéias têm força em vários países. Na Noruega, o Partido do Progresso, organização de extrema direita da qual o assassino foi militante, obteve 614 mil votos (23% do total) nas eleições de 2009. Nos EUA, os racistas estão presentes no Tea Party, a extrema-direita do Partido Republicano, que prega o ódio aos imigrantes.

Mesmo no Brasil, Anders Breivik tem os seus adeptos. Há grupos fascistas históricos, como a TFP e a seita Opus Dei, e também setores mais recentes, que ficaram indignados com as políticas distributivas do governo Lula. A campanha presidencial do ano passado confirmou a existência destes segmentos preconceituosos, racistas e homofóbicos.”
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25 Julho, 2011

Toda a farsa da Fórmula 1. Acompanhe

Tom Capri, AdNews

“O Mundial de Fórmula 1 de 2011 já está definido, o campeão é o alemão Sebastian Vettel, da Red Bull. Como a Fórmula 1 não pode mais ter campeão por antecipação, sob pena de tomar prejuízo irreparável, em meio a essa crise na Europa, as equipes que disparam na frente (como Red Bull este ano) são obrigadas a tirar o pé num determinado momento (agora).

Mas o título lhes é sempre garantido por aquele tipo de “acordo sigiloso” que o jornalista especializado em F-1 nunca denuncia, por fazer parte da farsa. É por isso que a decisão acaba ficando sempre para a penúltima ou última prova. Só que acidentes e brigas entre os pilotos da equipe que disparou na liderança (neste ano, a Red Bull) podem vir a melar o esquema e o título escapar das mãos dela. Este é apenas um dos componentes da farsa, há outros. E é também o que já começou a acontecer na escuderia de Vettel.

A equipe tem pontos suficientes para se dar ao luxo de ficar em segundo lugar e até mesmo com alguns terceiros, nas dez provas que restam, e ainda assim conquistar com folga o Mundial deste ano. Vettel tem 80 pontos a mais do que o segundo colocado (Webber). E só sete pontos separam o vencedor do segundo colocado de cada Grande Prêmio. Por isso, a Red Bull, líder com grande folga, vai “dar” agora uma “chance” às equipes rivais e deixar que ganhem os concorrentes que vêm imediatamente atrás, como Alonso, Hamilton e Button.

Os três deverão se revezar nas conquistas das próximas vitórias, “para que a Fórmula 1 não fique sem graça”. Mas não é tão simples assim: Vettel vai querer voltar a ganhar, Webber também, Alonso, Hamilton e Button idem, até Schumacher e Massa aspiram vitória este ano. E aí tudo pode se complicar e o título escapar de Vettel. Isto é, a farsa da F-1 ainda pode nos garantir novas emoções até o final. Acompanhe.

É claro que a Red Bull vai ganhar de novo nesta temporada, mas é possível que muito mais com o australiano Mark Webber, que é tão bom se não melhor que Vettel, mas foi contratado para ser “escada” do alemão e ainda não se conformou com isso. Webber já provou que, quando consegue carro igual ao de Vettel, alcança a pole e vence a corrida. No ano passado, em desigualdade de condições e sem o apoio que Vettel recebe da equipe, o australiano quase “roubou” a cena e ficou com o título.”
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24 Julho, 2011

A caixa preta das igrejas


Eliakim Araujo, Direto da Redação
“Silvio Santos bateu o martelo e disse que não vende mais as madrugadas do SBT para pregadores religiosos, mesmo que paguem milhões. Bispos e pastores estavam de olho naquele horário e ofereceram mundos e fundos para conquistá-lo.  As ofertas partiram de todos, desde o bispão Macedo, em sua louca fixação para derrubar a Globo, até Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido por RR Soares,  cunhado de Macedo, que já tem sua TV mas é incansável na busca por mais espaços em outras redes.  Também entrou na disputa um tal Malafaia, aquele que garantiu que iria arrecadar alguns bilhões dos fiéis para ter sua própria TV e deu com os burros n`água.

Silvio, bom camelô, o homem que conseguiu dar a volta até na CEF, passando-lhe o mico preto do banco Pan-Americano antes que ele explodisse, deve ter pensado: “péra lá, se esses caras querem tanto esse espaço é porque algum faturamento eles vão ter lá na frente”.  Não sei se ele pensou exatamente assim ou simplesmente decidiu preservar sua TV da catequese massacrante dos nossos respeitados bispos, pastores e apóstolos, mas o fato é que decidiu encerrar as negociações.

Penso que é preciso algum tipo de fiscalização para que todos saibam o que está por trás dessa dominação evangélica nas TVs brasileiras. De onde vem essa dinheirama toda?  Vem de dízimos e do valor obtido com doações, mesmo que envolvam imóveis, veículos e doações, sobre os quais não incide imposto de renda. Ao pé da letra, significa dizer que todos os contribuintes brasileiros estão trabalhando em favor da construção desses impérios, não apenas os fiéis das igrejas.  Essa é uma caixa preta que precisa ser aberta e convenientemente explicada.

Sobretudo a Record, cujos diretores estavam na posse de Dilma desmanchando-se em salamaleques com a presidente, merece ser olhada com cuidado. Algo está errado ali. jornais que a rede do bispo desembolsou 38 milhões de reais para tirar José Datena, da Band, onde dava religiosos 6 pontos de audiência ou menos.    Estreou na Record com 12 pontos. Uma maravilha, pensou a bisparada. Mas foi só a ilusão do primeiro dia, a chamada audiência de curiosidade. Como ele não apresentou nada de novo, uma semana depois ele estacionou nos sete a oito pontos. Muito pouco para tão pesado investimento.”
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22 Julho, 2011

Ninho vazio

Lélia Almeida, Digestivo Cultural

Quando o menino nasceu, minhas mãos se encheram de afazeres, meu coração de preocupações e meus dias de pequenas e inusitadas alegrias. Vê-lo crescer, ali, ao pé da árvore hesitante que eu também era me deu, finalmente, o sentimento de pertencimento que eu buscara durante toda a minha vida.

Pois não foi como filha, nem como esposa, nem como profissional que eu achei o meu lugar no mundo. Foi a maternidade que me fez encontrar a minha turma, o meu lugar, junto às outras mães. Estes seres anônimos e sempre tão parecidos e previsíveis, e que repetem uma coreografia inerente, trazida como herança na mais recôndita genética e que é sempre simples e compreensível em qualquer lugar do mundo.

Alimentar o menino, vesti-lo, aconchegá-lo depois do tombo, limpar-lhe o joelho destampado, tênis novo, furado, chulé, pano quente no ouvido com otite no meio da noite, caderno com orelha e letra incompreensível, "Come, por favor, pára de falar e come."

Descortinamos as verdades do mundo e nos tornamos um pouco filósofas, médicas, mediadoras, físicas, na troca comum da descoberta dos dias. Estamos na praia de noite, caminhando e ele diz agarrado na minha mão, "Ué, e não é que apagaram a luz do céu e ficou tudo escuro!".

Choro copiosamente no dia em que o Ayrton Senna morreu, ele acompanha os dias do velório, a espera para o enterro e pergunta solene, "Por que tem pessoas que quando morrem são enterradas embaixo da terra e outras que vão pro céu?"

Catchup, batata frita, gelatina de cereja, ovo molinho e bife milalêis, bicicleta, gato, Cavaleiros do Zoodíaco, Príncipe da Pérsia, Lego, The Strokes, Chaves, Friends, pipoca, moleton com capuz, tatoo, piercing, reunião dançante com cachorro-quente, cinema e cortar o cabelo, unhas pretas, imundas, mais chulé, outro gato, ódio à matemática, Allstar cor-de-rosa, chupão no pescoço, "Não fica triste mãe, nem sempre dá certo, é assim mesmo, a vida tem vida própria", ele me explica. Baseado, porres, contas absurdas de celular, noites sem aparecer e sem avisar, "namoros relâmpago", outros nem tanto, a primeira viagem de excursão da escola, circo, competição de natação, baterista numa banda chamada Blue Velvet.”
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21 Julho, 2011

Contar uma piada pode ser mais perigoso do que cometer um assassinato


"O assassino pode aguardar o julgamento em liberdade. Já o piadista politicamente incorreto aguarda o julgamento na gaiola, sem direitos a fiança

Edival Lourenço, Revista Bula

O respeito é bom, conserva os dentes e eu gosto! Se nunca ouviu este bordão de bazófia e advertência, talvez porque você já seja de uma geração mais nova em que o respeito foi substituído por outra coisa chamada “comportamento politicamente correto”.

O respeito era uma coisa vetusta, arcaica (como também são essas palavras) da sociedade patriarcal, em que crianças “naturalmente” respeitavam os pais, tios e avós, em que os moços respeitavam os velhos, em que a professora não era tia e o aluno respeitava, tanto porque era mais velha como porque havia uma diferença hierárquica a manter um distanciamento reverencial.

O respeito não vinha por determinação legal. Era algo ecológico, nascido dos costumes, vindo de dentro da sociedade, de baixo para cima, feito umidade. Mas o respeito não era politicamente correto. Você podia contar piada de negro ou de viado. De loira ainda pode? Para o bem ou para o mal estamos nos tornando um povo macambúzio e sem graça. Você podia chamar um portador de necessidades especiais de aleijado, sem lhe tirar pedaços. Tive um amigo apelidado de Tião Muletas. Mais do que qualquer outra pessoa o que portava mesmo uma alegria enorme de viver e chegou a se eleger a vereador, sem cotas. Os meninos mais velhos podiam dar cascudos nos mais novos. Os que levavam cascudos hoje eram os que davam cascudos amanhã, sem traumas, como num rito de passagem, no suceder das gerações. Sem constituir bullying. Como os macaquinhos (cuidado com esta palavra) mais fortes que judiam (essa pode ser é ofensiva aos judeus) dos mais fracos, num rito de aquisição de habilidades essenciais e fortalecimento muscular.

Dentro de uma sociedade complexa, como ficou a nossa, a cultura do respeito ficou traumogênica e já não dava conta do recado. Não era é mais eficiente para azeitar as relações sociais. Quem garante são os psicopedagogos, psiquiatras, psicólogos e psiblablablás em geral. Daí veio o tal de politicamente correto. A ideia chegou não pela marcha lenta dos costumes, mas pelo torque bruto da lei, pela imposição. Nem é preciso dilatar sobre seus exageros. Basta sabermos que hoje contar uma piada pode ser mais perigoso do que cometer um assassinato. O assassino pode aguardar o julgamento em liberdade. Já o piadista politicamente incorreto aguarda o julgamento na gaiola, sem direitos a fiança.”
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20 Julho, 2011

Argentina mostra o caminho para a Grécia

Marcela Valente, IPS / Envolverde

“Especialistas da Argentina, que em 2001 se declarou em “default” (insolvência) e agora desfruta de uma longa bonança, afirmam que já passou para a Grécia o tempo do ajuste fiscal e das reduções de gastos e que é urgente uma reestruturação de sua elevada dívida. Os economistas locais ouvidos pela IPS garantem que os gregos não têm problema de liquidez, que pode ser resolvido com mais empréstimos, mas de solvência e, por isso, é necessário agir rápido e com apoio internacional para refinanciar seu passivo.

“Quando uma dívida é impagável já não há plano de austeridade que dê jeito”, disse à IPS o economista-chefe da consultoria Orlando Ferreres e Associados, Fausto Spotorno. “O ajuste serviria para a Espanha, que está em uma etapa prévia”, dando como exemplo outro dos 27 países-membros da União Europeia (UE), que também tem o euro como moeda comum. No caso da Grécia, o economista vê que a reestruturação da dívida já é um recurso “irremediável” e, para que seja menos traumático e mais eficiente do que foi na Argentina, recomendou fazê-lo sem demora e com apoio dos credores.

Explicação igual foi dada à IPS pelo economista Ramiro Castiñeira, da consultoria Econométrica. “A Grécia está em quebra, não é que tenha problemas de liquidez. Tentar corrigir agora desequilíbrios fiscais não serve para nada além de ganhar tempo em benefício dos credores”, afirmou. Tanto Castiñeira quanto Spotorno reconheceram que, com as dilações da UE, o que se tenta “é salvar os bancos, não os gregos”. Os resgates não objetivam reativar a economia, mas financiar a saída de capitais, alertaram.

Também o economista Roberto Lavagna afirmou que “a perda de competitividade sistêmica de uma economia não se acerta com mais empréstimos”. A Grécia deve avançar em uma reestruturação de seus compromissos financeiros, “sem quitação e com métodos menos custosos e mais eficientes” do que os improvisados pela Argentina em seu momento, aconselha Lavagna, responsável pela primeira reestruturação de dívida de seu país como ministro da Economia do governo de Néstor Kirchner (2003-2007), falecido em outubro do ano passado.

Ao comparar os dois casos, Lavagna disse que o que se assemelha são as receitas propostas para sair da encruzilhada. “O FMI, a Alemanha e o Banco Central Europeu confundem crise de solvência com crise de liquidez”, alertou em uma coluna jornalística intitulada “Argentina 2001. Grécia 2011”. O governo argentino declarou suspensão de pagamentos da dívida em dezembro de 2001, após três anos de recessão, aumento constante do desemprego e da consequente pobreza, e com um déficit fiscal cada vez maior, que procurou amortizar com a tomada de mais obrigações financeiras.”
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19 Julho, 2011

Estereótipos do Twitter (e do Foursquare)


Fernanda Prates, Digestivo Cultural

“Se tem algo que o Twitter me ensinou, meus amigos, é que existe um vasto grupo de coisas desinteressantes nesse mundo. E qual não foi minha surpresa ao descobrir, mais de 8 mil tweets depois, que faço parte deste desagradável bando?

Sabem, quem diria que dá pra falar tanta merda em 140 caracteres? Surpreendente. Mas cá estamos nós, nessa superação diária, ficando cada vez mais insuportáveis. O Twitter criou uma coisa de opinião compulsiva que, convenhamos, é chata pra caralho. E não estou me tirando dessa, não. Pelo contrário. Sabem, eu nunca fui de acumular fãs, sejamos bem francos, mas pessoas que costumavam me achar no mínimo inofensiva parecem ter desenvolvido verdadeiro asco pela minha pessoa graças ao Twitter. Ele mudou meu jeito de pensar? Não. Fez de mim uma pessoa pior? Não. Eu sempre fui igualmente podre. Mas antes eu precisava articular meus pensamentos podres em posts. É trabalhoso, sabem. E no meio do caminho, a tendência é repensar. "OK, isso pode soar ofensivo demais". Mas o Twitter acabou com isso na minha vida. Eu não ligo se é ofensivo demais. O Blackberry está na minha mão, a ideia na minha cabeça e, pronto, ofendi alguém. Em 140 caracteres. É tudo deliciosamente prático e eficiente e eu... Bem, eu só precisava de uma arma rápida o suficiente para libertar minha bully interior. Eu estou muito on fire.

A graça (e o problema) do Twitter é que lá é onde você começa a realmente ver a personalidade das pessoas. É meio como o BBB. Com aquela facilidade toda de falar, você acaba exibindo sua personalidade em algum momento, mesmo sem querer. Você está lá, com seu smartphone na mão, preso no engarrafamento e... Pronto. De repente, eis um tweet babaca comentando sobre a ineficiência do transporte público no Rio de Janeiro. Você não queria dizer isso, sabe. Você nunca quis ser uma dessas pessoas. Mas sucumbiu. E seus seguidores viram. Com o tempo, as fraquezas se tornam mais frequentes. As pessoas interagem. É um tal de mention e RT tentando você. Você quer ter RTs, você quer ver suas palavras ecoando. As coisas vão acontecendo e, do dia pra noite, pronto, você, é um estereótipo de Twitter. Não se acanhe, meu amigo. Estamos todos no mesmo barco. Somos todos, enfim, gigantescos estereótipos. Eles são vários. Pessoas como eu, propensas à compulsão, tendem a se encaixar em todos. E odiar a todos ao mesmo tempo. É bem confuso, na verdade.

Elaboremos sobre isso. Um dos estereótipos mais básicos é o povo Foursquare. Veja bem: claro que o povo Foursquare não posta só localização. Falo de um conceito mais abrangente. Em geral, o simples fato de uma pessoa aderir ao Foursquare já diz muito sobre ela. O povo Foursquare é um pouquinho mais sem noção que o resto, no sentido de que não se incomoda de simplesmente falar onde está. É uma coisa na qual obviamente ninguém está interessado, mas e daí? Você quer dizer onde está, sabe-se lá por quê. E diz. A pessoa Foursquare é geralmente aquela que acorda e fala "hum, sono". É aquela que sente fome e diz "hum, fome". É aquela que pode informar, sem maiores constrangimentos, que está vendo televisão. Sem nem especificar o programa, claro. Isso seria trabalhoso demais. Eu sempre recriminei o povo Foursquare, mas agora eu vejo que eles não são tão diferentes de nós, aliás. Na verdade, são até mais práticos. Não precisam nem se dar ao trabalho de digitar uma irrelevância, há um aplicativo que cuida disso tudo. Smart.

Aí, do outro lado, tem a galera da opinião. A galera da opinião está muito convencida de que, bem, tem algo importante a dizer. Eles têm um método. Geralmente atestam um fato, por exemplo: "a polícia matou não-sei-quantos. Acho chato." Vejam bem, os opinativos sentem um pouco de remorso, ao contrário dos "Foursquare". Eles tentam disfarçar a própria irrelevância com uma informação antes. Seduzem o leitor de forma a fazê-lo acreditar que aquilo ali é de alguma maneira importante. E aí, quando você menos espera... Pow!, opinião irrelevante. E eles tendem a terminar a opinião assim, com duas palavras. Talvez três. Pra aumentar o efeito de choque, sabem. Eles não vão simplesmente jogar um fato ou um sentimento. Eles vão contextualizar. E provavelmente usarão memes da década passada para enfeitar aquela opinião. Os opinativos são bem espertinhos.”
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18 Julho, 2011

Cépticos enfim acreditam que haja vida antes da morte


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Cépticos não acreditam nem mesmo em anti-sépticos. Ameaças invisíveis? Se os olhos não veem é porque não existe. Eles são terríveis, terríveis... Alguém aí faz ideia do contingente da humanidade que acredita em vida após a morte? Alinhavando uma tribo remota do continente africano, Nova Déli, Manhattan e Tabocas do Brejo Velho na Bahia, eu apostaria em 98%.

1% dos terráqueos (estatística muito plausível) não creem em absolutamente nada, nem na alma, nem na carne, nem no osso, nem no suposto (escarrado?) “esquema do mensalão do PT”, pelo simples fato de não regularem bem das faculdades mentais, anulados pela demência, poupados de preocupações fúteis objetivas, como dar descarga no vaso após usá-lo, trabalhar mais para juntar mais patrimônio, pagar mais imposto ao Governo, e fomentar mais desavenças entre herdeiros na hora da partilha. Dá pra entender coisas como estas?!

1% responderá assim, de pronto, sem titubear: morreu, acabou. E ponto final.

Fiquei assustado quando Dona Socorro nos contou que o marido jamais deixara de dormir ao seu lado na cama, mesmo tendo morrido há um ano e meio. O depoimento foi de arrepiar. “Será que Alzheimer está afetando a pobre velhinha?” — matutei, com o ceticismo irritante de sempre. Por que simplesmente não aceito determinadas coisas e pronto, eu vivo a me perguntar. Tornaria a convivência com meus pares muito mais descomplicada. “Mas você não acredita em nada, meu filho?!”, é assim que o povo diz, conferindo-me de alto a baixo, como se, ao invés de dúvidas, eu tivesse lepra. Ora, não se trata de um tipo aberrante de “bullying” contra a minha pessoa, caros amigos?!

Alguns suspeitam de fenômeno parapsicológico. Outros, mesmo não sendo psiquiatras e lendo pouco pra caramba, garantem que se trata de depressão profunda seguida por surto psicótico. A maioria acha que é só saudade mesmo. Afinal, o casal morava junto há mais de cinquenta anos. Muitos estão rezando para que a alma daquele velho descanse em paz de uma vez por todas e deixe em paz a pobre senhora. Enfim, há inúmeras especulações para as “aparições”, e nenhuma resposta razoável.”
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17 Julho, 2011

Brasil literário

Frei Betto, Adital

“Participei, de 6 a 10 de julho, da nona edição da Flip – Festa Literária de Paraty. Ouço dizer que, no Brasil, há cerca de 80 eventos literários por ano. Eis uma boa notícia.

Quem lê aprende a pensar, discernir, optar e escrever. A TV mostrou, há dias, jovens diplomados na universidade, versados em inglês, porém reprovados em exames de seleção profissional por não saberem dominar o próprio idioma português. Numa simples carta, erros gritantes de ortografia e concordância!

A Flip ainda é cara nos preços dos ingressos, da hospedagem e da alimentação em Paraty. Ainda bem que, em torno dela, se multiplicam os eventos alternativos, todos gratuitos. Isso permite um contato mais direto entre leitores e autores.

Na conferência de abertura, uma dupla de peso: Antonio Candido e José Miguel Wisnik. Falaram sobre a vida e obra de Oswald de Andrade.

Antonio Candido, como único intelectual vivo que conheceu o autor de "Serafim Ponte Grande”, descreveu-o mineiramente, amenizando a virulência com que Oswald de Andrade atacava autores em suas críticas literárias, sem poupar ênfase na cor da pele e até na deficiência física de alguns escritores. Mas sublinhou que o homenageado jamais guardava mágoa, e foi capaz de tomar a iniciativa de se reconciliar com o próprio Antonio Candido, após esculhambá-lo num texto crítico.

Wisnik, intelectual de múltiplos talentos, que trafega com autoridade entre literatura e música, fez uma descrição mais erudita das ideias de Oswald de Andrade.

Meu primeiro contato com a obra de Oswald de Andrade foi em 1966, quando José Celso Martinez Corrêa, diretor do Teatro Oficina, me convidou para assistente de direção na montagem de "O rei da vela”. A peça me parece melhor que o texto. Marcou o ápice do movimento tropicalista, uma forma irreverente de reação à ditadura militar.”
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15 Julho, 2011

Moralismo é demodé

Desde a liberação sexual dos anos 70, os franceses se tornaram os mais libertinos da Europa. A erótica história de Serge Gainsbourg, hoje nos cinemas, é um símbolo dessa sociedade que ainda acredita em Dominique Strauss-Kahn

Roberta Namour, Brasil 247

Assim como o típico francês, Serge Gainsbourg era franzino, viciado em café e vivia com uma cigarrilha pendurada nos lábios. Mas algo nele fazia as mulheres caírem aos seus pés. E não eram mulheres comuns. Eram verdadeiras deusas, símbolos sexuais da época, como a francesa Brigitte Bardot. Foi com ela que o cantor e compositor protagonizou cenas que escandalizaram o mundo. Essa história boêmia, erótica e provocadora virou filme. O « Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres », do diretor Joann Sfar, estreou no Brasil na última semana.

O fruto do tórrido romance com a ousada Brigitte Bardot foi a famosa música “Je t'aime... moi non plus”. De conteúdo considerado erótico – a letra é um diálogo gemido entre dois amantes – ela foi condenada pelo Vaticano e proibida nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha e no Reino Unido. Mas na França, se tornou o símbolo da liberação sexual dos anos 1970.”
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13 Julho, 2011

A difícil arte de ser careta

Romeu Prisco, Direto da Redação

“Não sou da direita e nem da esquerda. Sou careta, agora publicamente assumido. No meu tempo de jovem e adolescente não era nada fácil ser careta, algo que nos dias atuais tornou-se praticamente impossível. Leva-se pedrada de todos os lados. A direita e as religiões mais sectárias não querem a regulamentação do aborto em termos menos inflexíveis ? Pois sou favorável. A esquerda não quer a privatização generalizada de atividades estatais ditas rentáveis ? Pois sou favorável.

Comecei a fumar muito cedo e larguei antes que fosse muito tarde. Não consegui ser suficientemente careta para recusar participar do tabagismo, porque fumar, então, era a marca registrada dos "machões" cinematográficos, verdadeiros ídolos. Felizmente, passei batido pela maconha. Drogas nem pensar. A mais conhecida era o LSD, cuja cor do comprimido sequer cheguei a conhecer. Anfetaminas e barbitúricos podiam ser livremente adquiridos nas farmácias e seus usuários, dos quais nunca fui um deles, ingeriam-nos juntamente com bebidas alcoólicas.

Coincidência, ou não, atualmente, a minha caretice se faz mais presente em situações defendidas com ênfase pela esquerda, geralmente relacionadas com os chamados "direitos humanos". Na verdade, muitas dessas situações também são encampadas pela direita. Acontece que a esquerda, quando contrariada por um careta, sempre se mostra mais agressiva, enquanto a direita se mostra mais tímida. Seja como for, para exercer a arte de ser careta é preciso ter coragem e estomago. Coragem por que o risco de ser havido por discriminativo ou preconceituoso é grande. Estomago para engolir cobras e lagartos despejados por quem discorda.

Pesquisa realizada pelo "Journal of Personality and Social Psychology", uma publicação da "American Psychological Association", chegou à conclusão de que, na troca de mensagens e bate-papos via internet, a possibilidade de os leitores entenderem corretamente os dizeres dos seus interlocutores é de apenas 50%. Entretanto, tal possibilidade não se aplica somente às mensagens e bate-papos, mas, igualmente, aos artigos, crônicas, ensaios, obras didáticas e literárias. Obviamente, os textos produzidos pelos caretas não estão fora desse índice. A mesma pesquisa ainda revelou a seguinte curiosidade: 90% dos leitores desses escritos acham que os entenderam perfeitamente.”
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11 Julho, 2011

Tributo ao pênis

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Certa vez, um escritor já falecido contou-me que jamais abriria mão do prazer sexual. Não posso revelar aqui o nome do sujeito. Vai que a família desgosta e pronto: leva-me às varas da justiça. Hoje em dia, todo vacilo é motivo para se arrancar trocados de um cidadão descuidado. Até dizer a verdade tornou-se um perigo.

O vate teve a língua amputada cirurgicamente por conta de um câncer na boca, e já não conseguia a ereção ideal para penetrar uma fêmea, devido ao tabagismo inveterado e a cirrose que lhe arruinava o fígado. Próximo da ceifada da Senhora Morte, ele se conformava com o fato de ainda possuir vinte dedos (dez nas mãos, mais dez nos pés), com os quais poderia facilmente “se virar”, mantendo a sexualidade em dias. “Se for preciso fazer sexo anal pra sentir prazer, não tô nem aí”, ele brincava entre goles de uísque que lhe aumentavam o bom humor, o edema nas pernas e a barriga d’água.

Recentemente, li um divertido texto-desabafo da escritora Carolina Mendes, publicado na Revista Bula, intitulado “Eu, eu mesma e minha vagina”. Fiquei tão excitado com o texto (excitado, assim, no sentido “agitado, alvoroçado, impelido”) que decidi, embora sem procuração da classe, escrever uma réplica em defesa dos homens, pobres diabos que, regra geral, morrem primeiro que as mulheres. Coincidência, meninas?! Até que nos é bem feito. Concordo com vocês.

Uma vez que os ânimos entre gays e anti-gays andam exaltados na mídia, vou logo avisando que não se trata de um manifesto em defesa dos homens que preferem homens, nem dos machistas que se sentiram machucados (ai!) após a leitura da crônica de Carolina.

O título “Tributo ao pênis” pareceu-me anatomicamente adequado e foi o que me ocorreu à primeira vista. Não sou supersticioso, mas também não sou tolo o bastante ao ponto de desperdiçar uma inspiração repentina ou uma ereção matutina, ainda que urinária.”
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10 Julho, 2011

O luxo e o lixo


Minha experiência frustrada num badalado resort baiano

Luciana Rebouças, Brasil 247

“Fiz neste ano minha primeira viagem a um resort na Bahia. Grande expectativa e a promessa de que eu passaria dias de conforto e luxo em uma destas hospedagens que concorrem com a entrada no paraíso. Pois bem, a encomenda não saiu como o planejado.

Foram dois dias cobrindo um evento, resort com lotação máxima e confusões já na chegada. É consenso que, para trabalhar no setor de turismo, tem que se gostar de trabalhar com gente. Mas os prestadores de serviço na Bahia ainda não ensinaram este conceito para os seus funcionários. Resultado: encontrei uma recepcionista completamente mal humorada e indisposta a resolver meu problema.

Ela não era a única, descobri com o passar dos dias em que fiquei no hotel. Tive que fazer uma nova visita à recepção. Todos os quartos do resort já estavam com a nova padronização das tomadas brasileiras, mas, evidentemente, nossos notebooks não! O resort até disponibilizava adaptadores, porém o número não era suficiente e eu tive que me satisfazer em esperar que algum hóspede devolvesse um dos adaptadores. Porém, o detalhe: a segunda recepcionista não estava nada feliz em me atender para contar que não tinha adaptador.

Ainda no primeiro dia, percebi que a insatisfação não era só minha. A internet wireless, que está disponível apenas no saguão do hotel, funcionava a passos lentos. Resultado: motivo para os turistas nacionais lembrarem a maldita piada de que na Bahia tudo funciona com um pouco de preguiça. Ouvi de todas as pessoas com quem conversei a mesma queixa: a internet estava lenta.”
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08 Julho, 2011

Voracidade consumista

Frei Betto, Adital

“Para o filósofo Edgar Morin, a ciência, ao buscar autonomia fora da tutela da religião e da filosofia, extrapolou os próprios limites éticos, como a produção de armas de destruição em massa. Os cientistas não dispõem de recursos para controlar a própria obra. Há um divórcio entre a cultura científica e a humanista.

Exemplo paradigmático desse divórcio é a atual crise econômica. Quem é o culpado? O mercado? Concordar que sim é o mesmo que atribuir ao computador a responsabilidade por um romance de péssima qualidade literária.

Um dos sintomas nefastos dos tempos em que vivemos é a tentativa de reduzir a ética à esfera privada. Fora dela, tudo é permitido, em especial quando se trata de reforçar o poder e aumentar a riqueza. Obama admitiu torturar os prisioneiros que deram a pista de Bin Laden, e não houve protestos com suficiente veemência para fazê-lo corar de vergonha.

A globocolonização, inaugurada com a queda do Muro de Berlim, conhece agora sua primeira crise econômica. E ela explode no bojo da fragmentação da modernidade. "Tudo que é sólido se dissolve no ar...” Vale acrescentar: "... e o insólito, no bar”.

Esfareladas as grandes narrativas que norteavam a modernidade, abre-se amplo espaço ao relativismo. O projeto emancipatório se dilui no terrorismo e no assistencialismo compensatório guloso de votos. O futuro se desvanece.

Para os arautos do neoliberalismo, "a história terminou”. O presente é, hoje, o moto perpétuo. O passado, mera evocação, como a pintura que se contempla na parede de um museu. Nada de querer acertar contas com ele.

Graças às novas tecnologias, o espaço se contraiu e o tempo se acelerou. O outro lado do mundo está logo ali, e o que lá ocorre é visto aqui em tempo real. Tudo isso impacta nossos paradigmas e nossa escala de valores. Paradigmas e valores soam como contos da carochinha comparados a ensaios de bionanotecnologia.

O mundo real se cindiu e não condiz com o seu duplo virtual. Via internet, qualquer um pode assumir múltiplas identidades e os mais contraditórios discursos. Agora, todos podem ser simulacros de si mesmos.”
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07 Julho, 2011

Eterna meia-noite em Paris


Marcelo Franco, Revista Bula

“Este não é apenas um texto sobre o novo filme de Woody Allen. É um ensaio sobre Paris. Um guia literário de uma época. Um grande passeio pela Paris dos intelectuais, das histórias, dos escritores e artistas que ficaram gravados no inconsciente coletivo do mundo

Todos os que escreveram sobre o último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, captaram bem a sua essência (e o próprio Dr. Flávio Paranhos, woody-allenista da linha de frente, já deu o seu aval ao filme). Agradeçamos aos santos padroeiros do cinema por Woody Allen não ser adepto do hermetismo cinematográfico, esse mal que lota cineclubes e esvazia cinemas: em “Meia-noite em Paris” claramente entendemos que ele questiona se haveria uma idade de ouro melhor do que os tempos atuais em que vivemos. O protagonista do filme volta, por conta de uma mágica qualquer, à Paris dos anos 1920 e passa a conviver com Scott e Zelda Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, Man Ray, Cole Porter. Vê Josephine Baker se exibindo no Bricktop's e dança com Djuna Barnes numa festa, o que lhe permite uma ótima piada: “Aquela era Djuna Barnes? Não me impressiona que ela quisesse liderar” (outras boas piadas acontecem quando ele antecipa o roteiro de “O Anjo Exterminador” para Luis Buñuel, que não o entende — “Por que as pessoas ficam presas na casa?” —, e quando cita uma frase do próprio Hemingway para o escritor, “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’”, mas Hemingway, em resposta, apenas lhe pergunta se ele gosta de boxe). Contudo, a mulher por quem Gil Pender, o personagem interpretado por Owen Wilson, se apaixona naqueles roaring twenties, prefere a belle époque, e de novo, por causa de uma espécie de magia, eles recuam ainda mais no tempo e sentam-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Woody Allen parece concluir que não há uma época de ouro e que é preciso viver da melhor maneira possível o presente; o filme é assim uma apologia do “ubi sunt?” e do “carpe diem”.

O filme, é também imperdível: Woody Allen nos reconcilia com a parte boa da vida, sempre escondida por nossas agruras habituais. E tudo isso com humor e leveza — como já disse um crítico sobre outra pessoa, não há no filme profundidade, apenas uma infinidade de superfícies, o que em cinema não é defeito, mas sim uma grande qualidade (não me recordo do nome do crítico e tampouco da pessoa sobre quem a frase foi escrita: à medida que envelheço a passos largos, a capacidade de lembrar nomes vai dolorosamente diminuindo: sei agora que o terror da meia-idade é um rosto conhecido que pergunta “lembra-se de mim?”). Quem está no mundo para reclamar poderia dizer que Gertrude Stein parece mais esfuziante do que rabugenta, que Hemingway, que não bebia tanto em 1920, está mais beberrão do que disciplinado, como realmente era então, ou que Picasso não parece tão imponente quanto deveria ser (Gertrude Stein dizia que ele dominava tanto um ambiente que, quando saía, parecia deixá-lo pouco a pouco: “Peu a peu il quitte la pièce”). Não importa: o filme é mesmo muito bom.”
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06 Julho, 2011

Caylee, uma história americana

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“O resultado do julgamento de Casey Anthony, acusada de matar a própria filha Caylee, de dois anos, parecia final de campeonato esportivo nesta terça-feira. Todos os olhos do país estavam voltados para a TV na expectativa da decisão do corpo de jurados, formado por 12 pessoas, que iria definir o futuro da ré, Casey Marie Anthony. Na porta do tribunal, em Orlando, Flórida, uma multidão esperava pela deliberação: culpada ou inocente?

Mas a expectativa não foi só entre os que estavam ali ao vivo, em manifestações na rua, em casa não houve quem não acompanhasse pela TV o epílogo do maior e mais verdadeiro reality-show dos últimos tempos na TV americana, transmitindo todo o julgamento que durou mais de um mês, acompanhando cada relato das cem testemunhas do caso, cada reação da ré, do juiz e dos advogados, contra e a favor de Casey.

Durante tres anos, ela ficou presa esperando o julgamento, era chamada de assassina pela mídia americana que influenciou muito a opinião pública, jogando-a contra Casey. a jovem bonita e mentirosa. Aquela que inventou o sequestro de Caylee por uma babá que nunca existiu, aquela que levou 31 dias para dizer à família que a filha simplesmente desaparecera escondendo a verdade com mentiras impressionantes.

Até mesmo os policiais que ouviram os depoimentos de Casey ficaram horrorizados com a cara de pau da moça e de como fora astuta e maquiavélica em suas invenções que, entre outros absurdos, incluíram um falso emprego na Universal Studios em Orlando, a fictícia babá sequestradora, amigos e amigas inexistentes e até um namorado rico que iria dar a ela e Caylee a vida que sempre mereceram.

Histórias fantásticas de uma jovem desajustada que sempre vivera na mentira, enganando os pais, roubando talões de cheques da família e de alguns amigos, enganando todos que conhecera na vida. Assim Casey foi descrita na Corte pelos promotores que a acusaram de ter matado a filha e ido viver a Bella Vita que gostava e que tatuara com todas as letras em suas costas.”
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04 Julho, 2011

Eu, eu mesma e minha vagina


Carolina Mendes, Revista Bula

“Cara Vagina,

Não está fácil o mundo aqui fora. Como você deve saber, somos mulher, e isso não exatamente ajuda.

Há quem discorde, e diga que mulheres têm muito mais facilidades do que homens. Porque somos fisicamente mais fracas, e porque a sociedade machista quer nos agradar e nos levar para cama, o que deveria abrir certas portas. Talvez, mas implica em te usar quando os outros querem, e não quando eu quero. Te colocaria meio que a serviço deles. Te curto vagina, e levo a sério seus sentimentos e vontades. Tento sempre que possível, atendê-los. Ouço e levo em consideração.

(Sigo te devendo o Javier Bardem. Tá difícil, mas não desisti).

Não é tarefa fácil. O mundo não exatamente curte o tipo de relação que nós temos. O mundo prefere que a gente não se entenda e que eu não te dê ouvido ou voz. Que eu não consiga te entender e te agradar. O mundo fica mais tranquilo quando mulheres e vaginas são inimigas.

O mundo mina nossa relação tratando meu temperamento quase insuportável como se fosse consequência de negligenciar suas vontades e desejos. Ah, se eles soubessem o que se passa aqui...

Mas não sabem. E não só no que diz respeito a você. O mundo não entende nada de mulher. E prefere assim. Prefere fingir que tudo se resume a TPM, muito sexo, pouco sexo, nenhum sexo, vontade de procriar e competitividade entre vaginas. Eles acham que é assim simples. Que somos assim óbvias.”
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03 Julho, 2011

Em busca do pastor assassinado

Rui Martins, Direto da Redação

“Era o ano de 1980 e eu tinha ido ao Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, como reporter da Rádio Suíça Internacional, para entrevistar o reverendo Charler Harper sobre questões ligadas à defesa dos direitos humanos no Brasil.

Sob ditadura militar, o Brasil, naquela época, era alvo de numerosas denúncias por torturas, assassinatos e desaparecimentos, nos jornais europeus. E nosso país tinha um papel importante de apoio à chamada Operação Condor utilizando seus consulados e suas embaixadas e onde os adidos militares eram ativos, prestando serviços aos países governados por ditaduras militares do Cone Sul latinoamericano, desde Montevideu, no Uruguai, a Santiago, no Chile.

A Rádio Suíça Internacional, onde eu acabara de entrar vindo de Paris, assim como a BBC e a RFI, teve um papel importante na divulgação dos crimes da ditadura brasileira e divulgava para o Brasil, em ondas curtas, o que se revelava, principalmente em Genebra, através de relatos de exilados e relatórios de organizações internacionais.

Essa Rádio tinha sido uma fonte de informação, na Europa, sobre o sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher pela VPR, em dezembro de 1970, cuja libertação ocorreu em troca de 70 presos políticos enviados ao Chile e ali libertados. Entre eles, Alfredo Sirkis. Em 1981, com a publicação do livro de Sirkis, Os Carbonários, contando com detalhes o episódio, tive a oportunidade de me encontrar com Bucher, em Lugano, na Suíça italiana, que me deu sua versão do sequestro, publicada no jornal Le Matin de Lausanne.
Mas voltando a Genebra, onde tinha entrevista marcada com Charles Harper, sua secretária me informou haver um atraso, pois Harper estava em conferência com o pastor James Wright.
Não consegui disfarçar minha surpresa – James Wright ? Para mim, aquela era uma coincidência extraordinária.”
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01 Julho, 2011

A vida aprisionada nas redes sociais?


Eberth Vêncio, Revista Bula

Eu não espero que você entenda
Depois de ter causado tanta dor
Mas, de novo, você não é culpado
Você é apenas um humano, uma vítima do insano
Estamos com medo de todo mundo
Com medo do sol
(Isolamento)
O sol jamais desaparecerá
Mas o mundo pode não ter tantos anos
(Isolamento)
“Isolation”, John Lennon

Foi bonito o show de Guilherme Arantes com a Orquestra Filarmônica de Brasília. Além de ouvir novamente música popular brasileira de boa qualidade (coisa das mais difíceis para quem gosta de rádio), eu me identifiquei bastante com o cantor. Primeiro, porque ele também está ficando careca. Segundo, por conta dos preâmbulos divertidos, estórias contadas antes da execução de cada música.

Eu não sei se o Guilherme é assim na maior parte do tempo (ninguém é 100% feliz, por mais que pareça), mas o bom humor foi contagiante, transformou a noite. Dentre tantos depoimentos humanistas (às vezes me esqueço que artistas são feitos de carne, osso, dor e um monte de fraquezas), um deles, em particular, foi hilário e, ao mesmo tempo, provocativo.

Referindo-se às questões da modernidade e do uso cada vez mais intenso das chamadas “redes sociais na internet”, Guilherme Arantes declarou-se meio avesso a elas. “Sou do tempo do orelhão e da carta. Espero, sinceramente, que um dia a gente volte a sentar nos bancos da praça pra conversar, olhando nos olhos, sentindo os odores uns dos outros...”.

Dizem que este tipo de pensamento saudosista é sintoma inequívoco de velhice. Deve ser isto mesmo. A cada dia sento-me mais pressionado pela velocidade das engrenagens mundanas e da rasura nas relações interpessoais.

É praticamente certo que a tecnologia não encontre limites. O homem é inteligente. Ele constrói, mas também destrói. Tudo é uma questão de tempo, até que alguém surja com alguma novidade, uma descoberta para deixar a vida da gente mais confortável, ainda que vazia, meio sem sabor.

Em matéria de comunicação, o futuro permanece aberto ao imaginário. A tecnologia se transmuta numa velocidade tão alucinante que fica difícil a gente absorver as mudanças, compreendê-las e, mais importante que tudo, encontrar locais onde expurgar tanto lixo industrial. O que os olhos não veem, o coração não sente... Então, os mananciais de água são lugares perfeitos para imergir tralhas e sucatas.”
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