31 Agosto, 2011

Pessoas especiais

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Hoje, resolvi rasgar a fantasia, como se diz quando alguém decide colocar pra seus mais profundos pensamentos. Quer saber? Eu acredito sim que existam seres mais especiais que outros. Pessoas que nascem com a missão de nos fazer aprender e chegar cada vez mais perto do que um dia poderá ser a perfeição.

Se não o que diríamos de Jesus, Budah, Gandhi, Martin Luther King e outros líderes políticos e espirituais, cada um na sua época, que morreram de forma trágica: assassinados, como se estivessem chamando a atenção do mundo para a sua missão de paz nesse planeta?

Cada noite que durmo e cada dia que acordo, fico pensando como dizer a todas as pessoas que creio num outro lugar, numa dimensão ainda desconhecida, onde vamos viver depois da morte do nosso corpo e que ainda não admitimos como verdade. Temos um corpo tão frágil, mas que é tido como fortaleza por nós! Se não pensássemos que seria indestrutível, por que seríamos sempre os primeiros a destruí-lo?

Por que somos os primeiros a não respeitá-lo? Por que somos aqueles que não acreditam que ele é perecível e tem data de validade? Por que somos aqueles que não aceitamos a velhice dos órgãos, das células, dos nervos e dos membros que, queiramos nós ou não, se deterioram e vão-se pelos escuros da vida?

Você deve estar se perguntando, por que ela resolveu escrever tudo isso de repente? Mas não foi de repente. A gente pensa que as coisas acontecem assim, de repente, mas elas estão lá, escritas nas entrelinhas das nossas vidas para quem quiser ver e entender cada etapa da nossa eternidade.

E quanto mais vivo, acho mais difícil confiar nas pessoas! Acho que, cada vez mais, elas estão ligadas no que apenas lhes trará vantagens, prazer e oportunidades. Não consigo ver transparência em grupos que se chamam de amigos somente porque esperam algo em troca. Falsidade pura!”
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30 Agosto, 2011

Planeta dos Macacos, A Origem


Felipe Quintans, Revista Bula

“Corre sério risco aquele que ousa mexer em tradições cinematográficas, refilmando-as, por exemplo; corre igual risco, mesmo que munido das melhores intenções, aquele que decide explicar, num filme caro e claramente trabalhoso e permeado de efeitos visuais, a gênese de uma “série” como “Planeta dos Macacos”.

A duvidosa eficácia das “prequel” (horroroso neologismo hollywoodiano para filmes que explicam as origens de outros filmes) não parece ter assustado os produtores e roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver (nem a Fox, dona do projeto). “Planeta dos Macacos: A Origem” joga com referências aos outros cinco longas (sobretudo o primeiro de 1968, com Charlton Heston), um roteiro simples, embora falho e claramente remendado na montagem, e direção esforçada para realizar uma competente ficção científica.

Como explicar que símios falantes dominaram o mundo e escravizaram os humanos sobreviventes? Jaffa e Silver oferecem cardápio variado: amor, ganância, obstinação, curiosidade e, pasmem, instinto de sobrevivência. O cientista (mal) interpretado por James Franco, trabalha para um gigante da indústria farmacêutica e testa em chimpanzés substância que imagina ser a cura para o Mal de Alzheimer. Sua descoberta pode ajudar muita gente, a começar pelo próprio pai, um professor de música senil (John Lithgow), além de potencialmente encher os cofres da indústria. Mal sabe ele que esta mesma descoberta arruinará a espécie humana e a povoará a terra de símios falantes e durões.”
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29 Agosto, 2011

Sobre o Hino Nacional Brasileiro

Ricardo de Mattos, Digestivo Cultural

"A música está em tudo. Do mundo sai um hino" (Victor Hugo).

Somos do tempo em que o Hino Nacional Brasileiro era ensinado e cobrado com rigor na escola. Era nossa obrigação pesquisar as palavras desconhecidas, copiá-lo determinado número de vezes e decorá-lo para a temível chamada oral e individual. Esta prova era um recurso das professoras, pois as deficiências imperceptíveis em meio aos colegas revelavam-se no cantar isolado. A trabalheira da época converteu-se em gosto sincero pela música dedicada a simbolizar oficialmente nosso país. É comovente quando os primeiros acordes são emitidos e logo as pessoas demonstram lembrar a letra.

Foi surpreendente descobrir que a introdução, hoje apenas instrumental, também já teve uma letra para ser cantada. Recebemos por e-mail o vídeo no qual uma senhora explica como era na sua época e canta a parte até então para nós desconhecida. Ei-la:

"Espera o Brasil que todos cumprais com o vosso dever
"Eia! avante, brasileiros! Sempre avante
"Gravai com buril nos pátrios anais o vosso poder
"Eia! avante, brasileiros! Sempre avante

"Servi o Brasil sem esmorecer, com ânimo audaz
"Cumpri o dever na guerra e na paz
"À sombra da lei, à brisa gentil
"O lábaro erguei do belo Brasil
"Eia sus, oh sus!"

Atualmente o ensino é obrigatório em escolas públicas e particulares. Ignoramos como isto é feito. Dada a má qualidade do ensino e o desânimo que assola o professorado, suspeitamos que péssima gravação em CD tocada para que alunos insatisfeitos mexam a boca seja um quadro freqüente. Porquanto deficitário o estímulo, apostamos ainda que no futuro recrudescerão as vozes defensoras da substituição da peça ou, ao menos, da "atenuação" da letra. Volta e meia alguém cisma de investigar a este respeito. Em nossa opinião, a única música a altura seria Aquarela do Brasil, de Ary Barroso.”
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28 Agosto, 2011

Pobre gosta de luxo

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Essa onda de reality shows de tudo que é lixo parece não ter fim. E, lamentavelmente, deve ter público, tal a avidez com que as emissoras procuram esse tipo de show. O negócio é mostrar o ser humano do jeito que ele é, embora se saiba que quase tudo nesses programas é editado e alguns deles têm até script.

Os competidores sabem que estão sendo filmados e estão ali apenas em busca de uma oportunidade no mundo das celebridades. E para conseguir tal feito, fazem o que a produção pedir, sem vergonha ou pudor. Câmeras instaladas em cantinhos estratégicos estão lá para registrar festinhas , brigas e até transas dos competidores. Tudo como manda o figurino do sensacionalismo barato.

Quem é do ramo logo percebe que de “realidade” esses shows não têm nada. Para o povão, entretanto, quanto mais escracho, quanto mais tolerância, quanto mais besteirol é o que importa, caso contrário esses bbbs da vida não teriam a audiência que têm e os patrocinadores que disputam uma quota publicitária.

Como disse antes, essa onda de mesmices parece não ter fim. Leio nos jornais de hoje que até a Band, que vive pendurada em promessas de estréias que nunca acontecem, resolveu aderir a esse tipo de programa. E anuncia a “criativa” idéia de imitar o reality americano “Real Housewives”, com o acintoso nome de “Mulheres Ricas”.

Ora, faça-me o favor. Num país onde a maioria das pessoas não tem acesso a bens de consumo modernos e mais da metade da população não tem nem computador, a emissora vai exibir na telinha uma cambada de mulheres fúteis e alienadas que só tem um objetivo na vida: consumir!”
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26 Agosto, 2011

Como assim divino e maravilhoso?

Eberth Vêncio, Revista Bula

Atenção ao dobrar uma esquina Uma alegria, atenção menina! Você vem? Quantos anos você tem? Atenção, precisa ter olhos firmes Pra este sol, para esta escuridão Atenção, tudo é perigoso Tudo é divino maravilhoso Atenção para o refrão: É preciso estar atento e forte Não temos tempo de temer a morte”
(“Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso)

Que todos morreremos um dia é fato. Fenomenal e certo como um sol repetitivo que se põe (e se dispõe aos nossos olhos) no horizonte. Ora, até a esperança morre a cada dia. Morre e ressuscita, fragilíssima, volúvel como a lua, passageira contumaz dos céus cotidianos. Como instituiu a poeta Florbela Espanca, “tudo no mundo é frágil, tudo passa”.

Mas, aos vinte e seis anos de idade, Joice deveria estar preocupada mesmo era com o noivo (se casavam ou não casavam), com o apartamento novo (se financiavam ou não financiavam), com a carreira profissional (se serviço público ou iniciativa privada); com a fé (se ufologia ou evangelho).

Acontece que, futricando em síndromes e exames, médicos descobriram no reto da moça um tumor maligno do tamanho de um limão (ela mostra as supostas dimensões de um limão, fazendo um círculo com os dedos polegar e indicador da mão direita, elevando os três dedinhos restantes. Se ela não falasse de frutas-tumores, um transeunte alheio ao colóquio haveria de supor que, através de tal gesto, Joice simplesmente me mandava tomar no cú).

Mas o problema — eu lamento profundamente — é no ânus de Joice; não é no meu ou do estranho que passa. A junta médica juntou-se e, juntos, que era pra dar mais coragem de se dar notícia ruim, os doutores anunciaram que o câncer ainda era operável, mas o intestino ficaria plugado diretamente na parede abdominal, procedimento denominado “colostomia”, sem data certa do tubo retornar ao leito original.

Além do mais, por causa de metástases e ramificações já identificadas em exames complexos e caríssimos, viriam pela frente quimioterapia, náuseas, vômitos, alopecia, além de graus variáveis de dúvidas existenciais (esta última parte a equipe médica não anunciou assim abertamente, mas, nem precisava, estranhamente estava escrito no semblante dos homens-geladeira).
Pragmática, como sói ocorre aos virginianos, Joice queria a presteza dos números, da estatística, uma data, uma previsão de sobrevida da competente equipe de cavaleiros-do-seu-próprio-apocalipse. Por mais que os parentes suplicassem e o tio-padre intercedesse com suas orações, a moça percebeu que o seu prazo de validade no planeta estaria minguando.”
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25 Agosto, 2011

Vantagens da vida de solteiro

Jardel Dias Cavalcanti, Digestivo Cultural

“O texto "Liberdade é pouco", de Eliza Andrade Buzzo, publicado nesse mesmo Digestivocultural, me despertou a vontade de falar um pouco sobre minha decisão de viver sozinho (uma vida de solteiro divorciado).

Até agora só encontrei vantagens na vida de solteiro, e já faz 4 anos que me separei. Ao contrário do que pensam os defensores do espírito de rebanho (aqueles que só se sentem bem no meio dos outros e não suportam estar sós), viver sozinho tem sua poesia. E não é a poesia o que interessa na vida?

Depois de mais de dez anos de casamento, decidi me separar, mas não importa agora as razões disso. O que importa é a narrativa das condições de vida de um solteiro que já experimentou o outro lado e que acredita que ser solteiro é mais interessante do que estar casado. Se for necessário, chamarei de volta as lembranças do período da vida de casado, para, como contraponto, acentuar as benesses da vida de solteiro.

A primeira sensação que tive depois que decidi viver sozinho foi a da extrema liberdade. Não a liberdade de sair com todo mundo, me deitar em todas as camas, experimentar todos os prazeres carnais possíveis (não sou mais um adolescente afoito, e prefiro antes a qualidade que a quantidade). A sensação é de que, finalmente, eu pertencia a mim mesmo. Essa sensação não tem preço. Ela resume, talvez, a busca filosófica pela liberdade. E não foi Sartre quem disse que "o inferno são os outros"? Ele estava certo ao dizer isso. E Ezra Pound reforça a idéia dizendo que "o homem livre, necessariamente, é o homem só".

Estando só (eu quase disse "livre"), eu deveria cuidar de mim, criar meu próprio tempo para as coisas que são fundamentais para minha vida, ou seja, inventar uma nova existência, desta vez, sem a sombra de uma outra pessoa que, por mais que te ame, também cria, ou deseja criar, não por maldade, mas apenas por existir ao seu lado, limitações aos seus movimentos e necessidades. E se as pessoas não atingiram uma maturidade intelectual mínima para entender que a vida do outro não é a vida dela, pior para os dois.”
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24 Agosto, 2011

Porte de armas para os gays


Edival Lourenço, Revista Bula

“Pode parecer maluquice, mas acho que pelo princípio da igualdade social, gay deveria ter licença para andar armado. Transportador de numerário não tem porte de armas para se defender da sanha dos meliantes? Pois então. Por que os gays não poderiam andar armados para se defender dos homofóbicos pitibuls neonazistas? De que adianta dizer que o gay pode casar, andar agarradinho, beijar em público, adotar criança, herdar um do outro, essas coisas que constitui o princípio da dignidade humana, se ele na prática não pode sair à rua que logo vem um bando de celerados que lhe dá nos costados até matar? Para permitir, de fato, é preciso proporcionar os meios.

Divaguemos um pouco. Um dos princípios mais estimados da democracia é que todos sejam contemplados pela igualdade. A constituição em seu artigo 5º garante que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Esta é uma das cláusulas pétreas mais paparicada e ao mesmo tempo mais desobedecida, porque para proporcioná-la, o estado de direito (aquele em que estado promulga a lei e a ela se submete, segundo a vontade da população livre e esclarecida) precisa fazer cumprir um princípio auxiliar igualmente importante: o da isonomia. Que consiste em “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de suas desigualdades”. Isso é aristotélico, mas não perdeu a atualidade, nem alcançou sua plenitude. Estado nenhum conseguiu até hoje proporcionar essa igualdade tão plena.

Os regimes socialistas costumam reduzir o mérito dos mais capacitados para permitir que os menos capazes àqueles se igualem. Igualdade por baixo. Uma coisa tosca. Essa é uma das razões que os regimes socialistas viraram munha. A democracia clássica, pelo viés da livre iniciativa, favorece os mais bem dotados e mais bem-postos socialmente, de tal forma que os mais desprovidos vão se afastando inexoravelmente dos bens produzidos pelo conjunto da sociedade, fomentando o surgimento e a manutenção de um vasto contingente na faixa da escória humana. Sem lhes dar, no entanto, a tão sonhada oportunidade equânime.”
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23 Agosto, 2011

Devem os ricos pagar mais impostos?

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“O velhinho da foto é Warren Buffett, que vai completar 81 anos no próximo dia 30 de agosto. Chamá-lo de bilionário é pouco. Ele é um multi-bilionário investidor americano, dono absoluto de não sei quantas empresas e acionista de outras tantas, que está entre as três maiores fortunas dos Estados Unidos.

No início da semana, o NY Times publicou um poderoso artigo de Buffett que até hoje está dando o que falar. Simplesmente porque, em poucas palavras, ele disse ao governo: “eu e meus colegas bilionários não estamos pagando impostos suficientes, aumente nossa carga tributária”.

Pela originalidade da proposta - um rico reclamando que paga pouco em impostos - e pela repercussão alcançada, julgo oportuno trazer o assunto à consideração dos leitores, comentando alguns trechos do artigo.

Buffett começa lembrando os desvalidos das guerras interna e externa em que o país está metido e os compara com os favores que os ricos recebem do governo:

Enquanto os pobres e a classe média lutam por nós no Afeganistão e a maioria dos americanos luta para sobreviver, temos mega-ricos que continuam a ganhar incentivos fiscais extraordinários. Alguns de nós, gestores de investimentos, ganhamos bilhões em nosso trabalho diário, mas temos permissão para classificar nossos ganhos como "participação nos resultados", conseguindo assim uma pechincha de imposto de 15%. Outros possuem índices no mercado de bolsas por 10 minutos e 60% dos seus ganhos são taxados em 15%, como se fossem investidores de longo prazo.

Mais adiante, a partir de seus próprios ganhos, Buffett denuncia o sistema tributário injusto e cruel com aqueles que vivem de salários:

No ano passado, meu imposto federal - o imposto de renda que paguei, bem como impostos sobre os salários pagos por mim e em meu nome - foi $6.938.744 dólares. Isso parece um monte de dinheiro. Mas o que eu paguei foi apenas 17,4 por cento dos meus rendimentos tributáveis, e que na verdade é um percentual menor do que foi pago por qualquer uma das outras 20 pessoas em nosso escritório. Seus encargos variaram entre 33 e 41 por cento, uma média de 36 por cento.”
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22 Agosto, 2011

Um pouco menos de hipocrisia

Drauzio Varella, Carta Capital

“O uso de droga ilícita é como a moda: vem e passa. Em 1989, comecei um trabalho voluntário em presídios, que dura até hoje. No Carandiru, naquela época, a moda era injetar cocaína na veia. Os presos vinham pele e osso, com os olhos ictéricos e os braços marcados pelas agulhas e os abscessos causados por elas.

Naquele ano, colhemos amostras de sangue dos 1.492 detentos registrados no programa de visitas íntimas: 17,3% dos homens eram HIV-positivos e 60% estavam infectados pelo vírus da hepatite C.

A partir desses dados começamos um trabalho de prevenção que constava de palestras e vídeos educativos. Lembro que o diretor-geral tentou me convencer da inutilidade da iniciativa: “O senhor está sendo ingênuo. Quem injeta cocaína na veia é irrecuperável, não tem mais nada a perder”.

Estava errado, o resultado foi surpreendente: em 1992, a cocaína injetável foi varrida do mapa, fenômeno que se espalhou pelos outros presídios e pelos becos da periferia de São Paulo. A moda do baque na veia tinha chegado ao fim.

Não havia motivo para comemoração, no entanto: naquele ano, o crack invadiu o Carandiru. Para entender o que se passou é preciso conhecer um pouco da farmacologia da cocaína.”
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19 Agosto, 2011

Os feios e a Europa

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

"Now is the winter of our discontent", começa Ricardo III, em mais uma frase criada por Shakespeare para sacudir os nossos ossos. Com ela, o corcunda que deseja ser rei começa sua trajetória de maldades, já que ele descobriu que, se não é belo, inteligente, bem-amado, ele pode muito bem arrumar o que deseja sendo o vilão mais vilão de todos os tempos. Não foi o primeiro, não será o último.

Acontece que, em diferentes momentos nesse mundo vasto mundo, os feios descobrem que os mais belos não os incluem nos seus planos, talvez por preferirem outros igualmente belos ou mais bem cheirosos. Aos mais feios resta a escolha de irem para um canto, agradecendo aos deuses pela invenção da Caras e da chance de ao menos olhar os bonitos enquanto eles enxugam Chandon nos seus castelos, ou, partir para cima e mostrar que a feiúra tem lá o seu charme, ainda mais quando armada de um bom e velho porrete.

Na França medieval, de tempos em tempos acontecia uma jacquerie, uma revolução dos "jacques", os pobres a sofridos camponeses que produziam toda a riqueza que havia, e da qual viam tão pouco. Cuidar do que não comiam era a sina dos jacques, que por vezes cansavam dessa ordem ordenada por Deus e, descobrindo a força dos seus números, acabavam com os nobres e clérigos mais próximos e se esbaldavam por um tempo com o pão e o vinho dos castelos tomados. Na sequência inevitável, o rei reunia seus soldados, ia até os camponeses rebelados, ouvia seus choros justos, prometia mundos e fundos, e enforcava a todos, assim que baixavam as armas.

Até a Revolução Francesa, esse foi o destino de todas as jacqueries, que somente tiveram o script mudado porque em 1789 havia um cansaço com a idéia da divindade dos reis, e uma burguesia disposta a dizer aos jacques o que fazer com o machado.”
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14 Agosto, 2011

A ideologia Slow: da ecogastronomia à crítica da velocidade como vetor da globalização capitalista

Dentro do princípio da ecogastronomia, o Slow Food apoia um novo modelo de agricultura, que é menos intensivo e mais saudável e sustentável, com base no conhecimento das comunidades locais”, explica a psicóloga e professora da PUC-RS, Isabel Carvalho.

Redação IHU / Envolverde

“Há uma cultura equivocada da eficiência que relaciona um modo de vida do tipo workaholic como sinal de produtividade. Esta cultura da colonização da vida pessoal pelo trabalho está crescendo e produzindo mais doenças relacionadas ao estresse profissional do que efetiva produtividade”, declara Isabel Carvalho, em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail. Segundo ela, a vida tumultuada da modernidade está interferindo na saúde da população, especialmente porque as pessoas não conseguem dedicar tempo para preparar uma alimentação saudável. “Quem hoje tem condições de investir um tempo significativo na seleção e preparo de alimentos frescos para si e sua família?”, questiona.

Na avaliação da pesquisadora, a indústria alimentícia relacionada às mídias determina “muito do que comemos”. Apesar disso, “o consumo tem se tornado um campo de luta política, de ações afirmativas e, portanto, um campo de possíveis contestações e dissidências em relação às políticas da indústria do alimento e das mídias que trabalham para vender esses produtos”.

Com base no conceito de Slow Food, Isabel Carvalho propõe uma ecogastronomia, quer dizer, a alimentação saudável deve ser entendida como um direito dos cidadãos. “A gastronomia como um direito humano já nasce em profunda sintonia com o movimento ecológico”, aponta.”
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12 Agosto, 2011

Crime e castigo

Anteprojeto de lei quer criminalizar o bullying. Para especialistas, educação e prevenção ainda são as melhores soluções para amenizar o problema.

Tory Oliveira, Carta Capital / Envolverde

Assediado pelos colegas de escola desde a segunda série, o australiano Casey Heynes tornou-se um símbolo do bullying depois que um vídeo seu espalhou-se pela internet. Captado por celular, o vídeo mostra o gordinho de 15 anos sendo provocado por um valentão. Tudo muda quando, depois de levar um soco, Casey revida, levantando o agressor no ar e jogando-o no chão, em um golpe parecido com o do personagem de videogame Zangief. Apelidado de Garoto Zangief, Casey declarou à televisão australiana que chegou a pensar em suicídio.

O bullying, definido como violência física ou psicológica gratuita realizada dentro de uma situação de desequilíbrio de forças, pode ganhar no Brasil uma nova dimensão: a de crime. A Promotoria da Infância e da Juventude de São Paulo apresentou um anteprojeto que o criminaliza, com pena de até três anos de reclusão para menores de 18 anos.

Um dos redatores do texto-base, o promotor Mario Augusto Bruno Neto, explica que um aumento gradativo no número de bullying relatados à Promotoria da Infância e da Juventude de São Paulo, nos últimos cinco anos, trouxe o assunto à tona. “Ano passado, tivemos casos graves em escolas de São Paulo e reparamos que estávamos desaparelhados para lidar com o problema”, explica.

O texto do anteprojeto prevê pena mínima de um ano e máxima de 30 anos (em caso de morte) para maiores de 18 anos. Menores de idade que cometerem bullying receberão, de acordo com a gravidade, uma das seis medidas socioeducativas previstas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que vão desde uma advertência e prestação de serviços até internação na Fundação Casa, a nova Febem. A internação poderá ser aplicada em casos violentos, com grave ameaça ou reincidente. “Vamos imaginar que o menino venha a ser processado pela prática desse tipo penal. Da primeira vez, não ocorrendo violência ou grave ameaça ou morte, ele recebe, por exemplo, uma medida de prestação de serviços à comunidade. Se ele persistir, teoricamente, é possível a internação”, exemplifica Bruno Neto. A internação, pelo ECA, é limitada a um prazo máximo de três anos.”
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11 Agosto, 2011

As mulheres e o consumo sustentável

Izabella Teixeira, EcoD

“Um novo fenômeno mundial chama a atenção de estudiosos de tendências do mercado: o crescente protagonismo das mulheres nas questões de consumo.

Dos alimentos ao vestuário, da casa ao carro, dos bens culturais às viagens de férias, são elas que estão decidindo o presente e o futuro do consumo e, obviamente, o futuro da produção. Estudos recentes mostram que mais de 60% (em alguns casos, 80%) das decisões de compra são tomadas por mulheres.

Além de já integrarem cerca de 50% da força de trabalho e de ingressarem em maior número nas universidades, as mulheres vêm se constituindo em força política que pode ser significativamente transformadora em vários campos.É preciso explicitar o elo entre o poder de transformação das mulheres e a extraordinária oportunidade que se apresenta de imprimirmos qualidade diferente àquilo que se chama "consumo de massa".

Por trás da expressão que dilui identidades está o consumo de famílias, de indivíduos e de consumidores coletivos. Pessoas e instituições compram e consomem bens e serviços e movimentam a economia, para o bem e para o mal. Contribuem, desejem ou não, com o crescimento dos índices dos empregos verdes e decentes, dos negócios sustentáveis, da economia da reciclagem, ou do seu contrário.

Há muito se fala em empoderar as mulheres, o que é correto e está na ordem do dia. Basta lembrar o discurso de posse da nossa presidenta Dilma Rousseff. Porém, pouco se fala em como mobilizar as mulheres para ações que façam a diferença nas estratégias de sustentabilidade econômica.”
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10 Agosto, 2011

Pelo direito de ser puta, e deixar de ser


Carolina Mendes, Revista Bula

“Ah, essas lindas que povoam o imaginário masculino, e despertam a inveja feminina. Mulheres de curvas sinuosas, sorriso malicioso, cabelão loiro, pele bronzeada, seios apetitosos. Ah, como eu queria ser uma delas. Trocaria qualquer suposto dom literário que eu tenha, pelo corpo da Eva Mendes. Nunca teria lido os livros que eu li, nunca teria ido ao show da Cesária Évora, nunca teria chorado com rejeições. Saberia ler Caras, escrever SMSs lascivos e sorrir libidinosamente em jantares românticos.

Pelo menos é assim que eu imagino que seria.

Claro, não comeria jamón pata negra, ou beberia cerveja com os amigos no bar quatro vezes por semana. Não dormiria até as10 da manhã e não faria siesta depois de comer. Teria uma rotina de dieta e exercícios, os prazeres dionisíacos limitados e o mundo aos meus pés.

Pelo menos é assim que eu suponho que seria ser gostosa. Que a vida seria um eterno ciclo de amores, viagens para Paris, joias de presente, homens e pele impecável. Gostaria de ressaltar, que estou comendo um belíssimo prato de macarrão e bebendo vinho, enquanto escrevo.

Mas aí eu ligo a televisão e vejo essas moças que eu suponho que podem tudo, fazendo coisas que não refletem esse poder todo. E vem o problema: onde é que está o erro? Onde a coisa se perde e se afasta da realidade que eu inventei? Essa invenção que me faz não comer um segundo prato na esperança de um dia ter uma fração do poder que eu imagino que elas têm?

Sério, porque gostosas ainda não tomaram o poder? Elas estão por toda parte, elas conseguem a grande maioria das coisas que querem, elas não são burras como a gente gostaria de acreditar que são. Ou são?”
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09 Agosto, 2011

O Dia do Medo Macho

Eliane Brum ,Época

“Quando li nos jornais que a Câmara de Vereadores de São Paulo tinha aprovado um projeto de lei criando o “Dia do Orgulho Hétero”, minha primeira reação foi de indignação. Como cidadã que tem crises de bronquite por causa da poluição da cidade, em que ônibus, carros e caminhões circulam deixando nuvens de fumaça com monóxido de carbono, entre outras porcarias, sem que ninguém pareça fiscalizar.
Como cidadã que tropeça nos buracos de calçadas quando anda a pé e já sofreu trancos na coluna quando anda de carro por causa da péssima pavimentação das ruas. Como cidadã que passa horas todo dia num trânsito empacado e é empurrada e machucada em trens e ônibus lotados porque o transporte público é insuficiente e ineficiente e a população que dele depende é tratada como gado. Como cidadã que testemunha a péssima qualidade da educação pública e do atendimento nos postos de saúde. Como cidadã que sofre nos períodos de seca com a qualidade do ar, mas teme a chuva porque ano após ano os mais pobres morrem soterrados ou têm suas casas destruídas por causa do descaso do poder público e de obras adiadas. Como cidadã que vive tudo isso na cidade mais rica de um país que é a sétima economia do mundo, ao ler a notícia minha primeira reação foi de indignação.

Afinal, será que os vereadores que deveriam honrar o voto da população não têm problemas reais para discutir no seu tempo muito bem pago com dinheiro público? Mais ainda ao saber que o autor do projeto, o vereador Carlos Apolinario (DEM) apresentou a proposta em 2005 e só conseguiu aprová-la, em primeira votação, no ano de 2007. Botou de novo a proposta em discussão em junho deste ano e, desde então, segundo a imprensa paulistana, estava emperrando a análise de outros projetos para, como chegou a ser dito, “vencer pelo cansaço”.
Quem é Carlos Apolinario, o homem que está tão preocupado com os gays? Como lembrou Fernando de Barros e Silva, colunista da Folha de S.Paulo, Apolinario é um adepto do troca-troca, pelo menos na política: “Já esteve no PMDB, passou por um tal de PGT, frequentou o PDT e hoje se abriga no DEM”. Mas, pelo empenho demonstrado, parece que aprovar o “Dia do Orgulho Hétero” era uma questão de convicção e de fidelidade para o vereador. E o projeto foi aprovado por 31 de 55 vereadores que só estão lá porque seus eleitores pensaram que fariam um bom trabalho.

Datas como o “Dia do Orgulho Gay” ou o “Dia da Mulher” ou o “Dia da Consciência Negra” fazem parte da luta pelos direitos básicos de parcelas da população que historicamente sofreram – e ainda sofrem – as consequências da discriminação e do preconceito por aquilo que são. Os gays, por exemplo, contra os quais o “Dia do Orgulho Hétero” se opõe, têm sofrido diariamente por séculos e continuam a ter ainda hoje sua vida ameaçada mesmo em cidades como São Paulo, em que os casos de homofobia aparecem com frequência alarmante nas manchetes da imprensa. Dezenas de pessoas são assassinadas por ano no Brasil por causa de sua orientação sexual. E, em julho, um homem teve parte de sua orelha decepada no interior de São Paulo ao abraçar seu filho porque foram “confundidos” com um casal homossexual – como se isso justificasse a violência.”
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07 Agosto, 2011

68, a geração que queria mudar o mundo

Urariano Motta, Direto da Redação

“Organizado por Eliete Ferrer, editado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no livro participam 100 autores em 170 relatos. Em mensagem coletiva no grupo da internet “os amigos de 68”, Eliete informa que nele se encontram “histórias reais ocorridas desde 1964 até a abertura política - nas reuniões, na militância, nas manifestações, nas discussões, na prisão, nas ações armadas ou não, nos treinamentos, na clandestinidade, no Brasil ou no exterior, no exílio. O diferencial do nosso livro caracteriza-se pela revelação do lado humano e afetivo daqueles que não aceitaram a prepotência do Golpe de 64, concebido e engendrado nos Estados Unidos”.

De fato, se em alguns relatos individuais as angústias e o heroísmo de militantes socialistas nem sempre se acham realçados, na maioria dos textos e no seu quadro geral se depreende uma história rica da vida de jovens, de homens e mulheres na última ditadura, que, setores à direita queiram ou não, está na agenda do mundo político do Brasil. O livro vem numa luta que exige resposta da civilização brasileira aos assassinatos até hoje encobertos. Mais precisamente, na batalha incansável dos familiares dos mortos que continuam a busca dos corpos dos filhos, pais e irmãos. “68 a geração que queria mudar o mundo” é parte ativa da consciência do país que deseja uma punição exemplar para crimes contra a humanidade, que são imprescritíveis por todas as convenções internacionais do Direito.

O melhor e mais agradável em “68 a geração que queria mudar o mundo” é que ele não é um volume de teses. Em seu conjunto lêem-se relatos plenos de frescor, isso quer dizer, de sangue vivo, da hora, recuperado com o frescor da memória. É um livro necessário, porque nele estão as chamadas fontes primárias, as pessoas fora dos arquivos, contando o que viveram, penaram ou mesmo imaginaram nos anos do terror da ditadura brasileira. Delas vêm os documentos primários da luta dos malditos anos. É um livro urgente, para ser lido e divulgado.”
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05 Agosto, 2011

ADITAL - A voz dos sem voz

Frei Betto, Adital

“Desde 1981 visito a Itália, anualmente, para proferir uma semana de palestras a convite da associação de solidariedade internacional Rete Radié Resch, de perfil cristão.

Em 1999, numa pequena cidade do interior da Toscana, veio ao meu encontro um homem de avançada idade, trajes simples, barba por fazer, interessado em conversar sobre Teologia da Libertação. Este senhor, um rico empresário, havia se reconvertido à fé cristã por leituras dessa corrente teológica progressista. Entusiasmado com a visão evangélica da Teologia da Libertação, insistia em difundi-la pelo mundo a partir de seu local de origem – a América Latina.

Expus a ele as dificuldades com as quais lidamos em nosso Continente para realizar tal proeza. Foi então que ele propôs fundarmos uma agência de notícias, cuja ótica predominante fosse inspirada na Teologia da Libertação. Com que recursos? indaguei. Ele não titubeou: sugeriu que eu me dedicasse a tal empreitada. Ele se encarregaria de providenciar os recursos.

Falei de minhas múltiplas atividades, mas logo pensei em um amigo, o padre Ermanno Allegri que, na época, dirigia uma pequena agência noticiosa vinculada à pastoral da arquidiocese de Fortaleza. Quem sabe ele aceitaria assumir o projeto? Com a vantagem de morar numa importante capital do Nordeste brasileiro, o que significaria descentralizar esse tipo de veículo, pois quase todas as agências noticiosas do Brasil se situam no Sudeste do país.”
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03 Agosto, 2011

Mister Tarantino, eu lhe escrevi um roteiro


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Nunca se sabe do que um ser humano é capaz. Um bicho acuado não se entrega facilmente, não clama ao agressor por misericórdia, nem exige interferência divina nos seus dilemas mais fatais. Ou foge, ou luta. Ou morre, ou mata.

Observem: num campo de batalha, cada corpo adversário que tomba agonizante ou sem vida é comemorado como um gol, um touchdown, um peixe graúdo apanhado no anzol. Imaginem só a parede da sala de estar, ornamentada com cabeças de Homens, alces, ursos e outros mórbidos troféus.

Eu jamais imaginava ferir uma pessoa. Aliás, sendo um médico a serviço do sistema público de saúde, meu compromisso era com a vida, com o bem estar da comunidade, com o alívio da dor e do sofrimento daquela gente pobre. Eu rezava convicto na cartilha de Hipócrates. Até que, num dia de fúria, o mal sorriu para mim (já ouviram esta estória antes?!). Mais que isso, penso que ele sorriu de mim.

"— Mãos pra cima, doutor", alguém gritou.

Quando dei por mim, estava prensando o funcionário da lanchonete sobre a chapa de assar hambúrgueres. O cheiro de cabelo queimado dissipou rapidamente dentro daquele cubículo, um trailer improvisado e sujo. A cena apavorou os poucos gatos pingados que matavam a fome naquela melancólica noite de domingo. A minha noite era igual à deles, mas a fome, diferente: eu quis matar aquele homem.

"— Solta ele, senão eu atiro", alguém ameaçou.”
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02 Agosto, 2011

A consolidação do malufismo na Saúde Pública

O objetivo principal das sucessivas administrações privatistas paulistas vem sendo exterminar de vez com a gestão direta no setor da Saúde. Infelizmente, o “modelo” paulista vem sendo copiado por outras administrações estaduais e municipais Brasil afora, sob o comando dos mais diversos partidos políticos.

João Paulo Cechinel Souza, Carta Maior

Desde que a lei 9637 foi promulgada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, o estado de São Paulo vem passando oficialmente suas instituições públicas para as mãos de empresas privadas, que vem utilizando o pseudônimo de “Organizações Sociais” (OS). Além de avanços fenomenais nesse sentido nas áreas de Educação e Cultura, o objetivo principal das sucessivas administrações privatistas paulistas vem sendo exterminar de vez com a gestão direta no setor da Saúde. Infelizmente, o “modelo” paulista vem sendo copiado por outras administrações estaduais e municipais Brasil afora, sob o comando dos mais diversos partidos políticos, sem distinguir se aliados ou opositores do Governo Federal.

Para as empresas escolhidas pelo (pseudo) gestor público, já que não existe licitação para tal escolha, é uma grande jogada: recebem dinheiro público para administrar uma instituição construída com dinheiro público, não têm ônus algum em termos de investimento e devem apenas cumprir as metas mínimas estabelecidas pelos contratos com as respectivas Secretarias de Saúde. Metas essas que, na maior parte das vezes, não são atingidas – muito embora o dinheiro continue sendo repassado. E mais: como não existem contas correntes específicas para movimentação dos recursos gerenciados pelas OS da Saúde (OSS), a necessária transparência relativa à movimentação financeira das unidades de saúde torna-se impraticável e inviável.

Embora lidando com dinheiro oriundo do erário público, essas empresas não fazem concursos para contratação dos profissionais de saúde e tampouco daqueles alocados em suas áreas administrativas. Esses mesmos trabalhadores costumam ter um relativo acréscimo (em média, 30 a 40%) em seus dividendos, se comparados com seus pares, entretanto, carregam contra si contratos de trabalho mais “flexíveis”, mais instáveis – em suma, precarizados. No geral, passam a não reivindicar melhorias com medo de serem demitidos. Apesar disso, e com uma significativa contribuição da quase ausência de concursos públicos na área, vem aumentando o número de funcionários das OSS no município de São Paulo, que hoje atinge um valor próximo de 32 mil, enquanto aqueles contratados diretamente pela Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP) somam pouco mais de 28 mil servidores.”
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01 Agosto, 2011

Deixa de ser mulherzinha!

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Quando eu era criança (hoje sou um cidadão semiajustado escrevendo crônicas aos 45 anos), os adultos (mulheres, inclusive) e os meus rivais infantis (meninos mais velhos que se divertiam em humilhar, castigar os mais novos), para provocarem em mim uma reação, digamos, mais firme (como não chorar, por exemplo), diziam assim: “Deixa de ser mulherzinha, rapaz!”. Nem sempre a coisa funcionava, e eu permanecia chorando de dor, medo ou raiva.

Tem várias coisas que, feliz ou infelizmente, a gente nunca esquece, a não ser quando estamos com o cérebro carcomido pela demência senil. Na rua onde fui criado morava um fedelho (hoje em dia, “criança hiperativa”) chamado Manoel, o “terror da vizinhança”, que tinha no portfólio de peraltices uma brincadeira deveras cruel: enquanto espremia os testículos da sua vítima (era sempre um garoto mais fraco) mandava que ela assobiasse. Manoel, que atualmente é um renomado veterinário da cidade, só soltava os bagos do moleque após o assobio. É claro que o sopro não saía perfeito da boca de jeito nenhum. Até hoje, quando cruzo pelo doutor Manoel nalgum canto da cidade, meus testículos se encolhem na clausura da bolsa escrotal.

Esse tipo de coisa fica cravado na memória da gente que nem prego na aroeira (é como se diz na roça), não descola fácil de jeito nenhum. Numa época em que tanto se combate o “bullying” nas escolas, lembro-me, melancolicamente, da Valéria, uma colega de Ginásio (não confundam com ginásio de esportes, meus jovens leitores; assim era denominado o Ensino Fundamental, naqueles tempos), uma menina com presumível puberdade precoce, e que tinha as tetas bem avantajadas.

Mal adentrava a sala de aula, a molecada iniciava a algazarra, mugindo como bezerros. Dá pra acreditar que colocaram o apelido de “vaca” na menina?! Creio que o único garoto que não usava a ultraodioso codinome era eu. Afinal, Valéria foi uma musa secreta (até agora), inalcançável, uma paixão doída só comparável àquela que um dia eu nutri pela professorinha da 2ª Série do Primário (de novo, Ensino Fundamental, mancebos...). Paixão platônica, covardia, é tudo a mesma coisa.”
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