31 Outubro, 2011

Geração zero à esquerda


Alex Sens Fuziy, Revista Bula

"Nova coletânea de contos realça o sabor estragado da criação literária brasileira, onde a forma é o clérigo e o conteúdo, o coroinha molestado sob a batina de uma literatura superficial. Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem 

Bonitinha, mas ordinária. A expressão criada por Nelson Rodrigues nunca me soou tão sensata. No país da virilha que cobre a roupa, esse mero acessório, ou tapa-sexo, ou tapa-hipocrisia, a literatura segue o mesmo caminho: expõe-se até o último pelo pubiano, perturba a atenção do leitor com sua casca porque o miolo é podre ou, pior, oco. Naturalmente, esse campo dilemático do que é bom ou ruim, o quanto de consciência e inconsciência de si existe numa criação artística, não se encerra na literatura brasileira; ele é tão minado, perigoso, decisivo como a escolha de uma palavra, quanto a superestima de alguns escritores sobre seu próprio trabalho e se espalha insidiosamente como uma erva daninha pela literatura mundial. Todos podem escrever, alguns talentosos e/ou afortunados podem ser publicados, mas quantos são realmente bons? E como encontrá-los, quando são diamantes miúdos perdidos em pedras de carvão do tamanho da inépcia cultural de quem se considera escritor porque (acha que) sabe contar uma história? De quem se considera escritor porque monta uma cadeia de frases mal-escritas publicadas tão somente pela condescendência de um amigo influente?

Depois de organizar e publicar duas controversas coletâneas de contos da chamada “Geração 90”, o mesmo grupo que surgiu fazendo “a nova literatura brasileira” na última década do século XX, o escritor (ou agitador de opiniões) Nelson de Oliveira acaba de fechar a trilogia de ficcionistas nacionais com o recente volume “Geração Zero Zero” (Língua Geral, 408 páginas). O zero duplicado faz referência à chegada do século XXI e os escritores que estrearam no mercado editorial em sua primeira década — também 21 após uma seleção que envolveu cerca de 150 ficcionistas. Neste novo século, desabrochado violentamente como uma flor de íons e bytes, houve a explosão dos escritores virtuais, apoiados na internet e em seu suporte aparentemente simples de exploração e divulgação de textos. Uma grande parte escreveu muito mais do que pensou o ato da escrita, escreveu muito mais do que leu para extrair da leitura sua base técnica, com os dedos voltados para o artista egoico dentro de si e este com um umbigo enorme entalado na garganta; outra pequena parte escreveu muito menos, mas amadureceu, estudou, leu, aprimorou suas técnicas e seus enredos, voltou os dedos para a literatura-coisa e o ego para outros escorregarem onde a casca da banana também foi engolida pelo buraco negro da megalomania.”
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30 Outubro, 2011

Kluge enxerga um Marx esquecido


Arlindenor Pedro, Destaques / Outras Palavras

“Separei este último final de semana para assistir em DVD a obra de Alexandre Kluge, que no Brasil tomou o nome de Noticias da Antiguidade Ideológica: Marx, Eisenstein e o Capital. Em mais de oito horas de duração, distribuídos em 3 DVDs , esta obra do genial diretor alemão, realizada em 2008, no auge da crise financeira mundial, nos faz mergulhar no universo criativo do diretor russo Serguei Eisenstein, do Encouraçado Potemkin, e nas ideias de um dos mais importantes pensadores da humanidade: Karl Marx, articulando-as com a realidade do mundo contemporâneo. Uma bela iniciativa da distribuidora Versátil, em parceria com o Instituto de Tecnologia Social (ITS), o Goethe-Institut São Paulo e o SESC. Obra original, um documentário com expressivas inovações estéticas, que merece ser vista e comentada.

Tudo parte de uma ideia de Eisenstein. Após terminar as filmagens de “Outubro”, ele quis lançar-se à aventura de filmar a maior obra de Marx: O Capital. Desenvolveu um projeto original e ambicioso, nascido da leitura que fizera de Ulisses, de James Joyce, e de suas observações sobre quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Inspirado no personagem de Joyce, queria mostrar em apenas um dia todos os meandros do sistema capitalista – sua engrenagem avassaladora. Uma das suas notas, encontradas após a sua morte, dá a dimensão da tarefa a que se propôs: “A decisão está tomada: irei filmar O Capital, segundo roteiro de K.Marx. Esta é a única saída possível”.

Como se sabe, Eisenstein nunca realizou seu plano. O filme de Alexandre Kluge parte desta ausência. Ele convoca uma grupo de conhecedores de Eisenstein, Joyce e Marx – pensadores, poetas, escritores, atores, maestros – para um exercício. Pede que imaginem como seria o filme do cineasta russo.

Aparece-nos, então, um Marx diferente do que é usualmente mostrado, sem os conceitos reducionistas do marxismo positivista que imperou durante todo o século passado. Ele surge como um pensador que abre caminho para o entendimento do capitalismo em sua mais completa forma existencial, que hoje podemos enxergar mais claramente. Por meio do relato e do debate com convidados, o filme quer revelar o mundo da mercadoria: o que é; como o modo de produção capitalista abriu-lhe o grande teatro da existência; como ela se transformou, ao longo do tempo. Surgem novos elementos para compreender a sociedade contemporânea e o império do fetiche, que nos encanta num mundo desencantado.”
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28 Outubro, 2011

A vida é assim mesmo, meu chapa!


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Fazia frio. A chuva fina que caía ininterruptamente há dois dias provocou queda na temperatura. A mudança brusca das condições climáticas de uma cidade do centro-oeste brasileiro, acostumada ao calor seco sempre tão nocivo à mucosa respiratória e ao capim, compromete o humor das pessoas. Geralmente, para menos. Nunca se está plenamente satisfeito com o que se tem, não é mesmo?! 

Pois bem: ele morava com a família num condomínio de luxo. Um apartamento por andar. Quisera ele tivesse também um pensamento por vez dentro da cabeça. Não. O turbilhão de lembranças o deixava zonzo e irritado. 

A esposa saíra com os filhos pequenos. Aniversário de criança. Preferiu ficar em casa tentando desopilar aquele mau humor pegajoso. Gozava apenas da companhia do cachorro, uma criaturinha pela qual não nutria tanto afeto assim. Aliás, há dois anos, fora voto vencido quanto à sua entrada no apartamento. Sentia-se desamparado naquela noite chuvosa. Frente fria é assim mesmo. Parece remorso. Pega a gente quando menos se espera. 

Garimpou na estante alguma música animada que exorcizasse tantos demônios, mas acabou mesmo optando pela coletânea de blues. Colocou bi-bi-quingue pra tocar. Embora não fumasse, desejou um cigarro. O uísque escorria fácil pela garganta e era deglutido em goles apressados. Naquela situação, convinha não adiar o entorpecimento.

 Entretanto, os efeitos do álcool e da chuva deixaram-no ainda mais melancólico, neurastênico, saudosista e — convenhamos — deprimido. Episódios vividos na infância e na adolescência invadiam, vividamente, a cabeça, provocando sentimentos antagônicos que o deixaram bem agitado. Apesar do frescor da varanda, gotículas de suor brotavam na sua fronte a desafiar lógicas meteorológicas. É lógico que ele preferia bodar de vez e embotar tantas lembranças remotas. 

Tomou, enfim, o telefone em suas mãos. Ficou irritado por não se lembrar do número telefônico do irmão, com o qual não falava há uns quinze anos. Briga debutante (quase riu ao pensar nisto).

Cambaleando, serpenteou pela sala em busca da agenda, esbarrando, derrubando, espatifando enfeites frágeis e fúteis da mobília. Tropeçou também no cachorro, aquela criatura inútil (foi assim que esbravejou). Filho da puta! (ele disse, como se o outro fosse humano) Medroso, o bicho foi deitar num canto da sala, com aquele olhar meio constrangido, meio humano, focinho entre as patas, sabe como é?!”
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27 Outubro, 2011

O jornalista que criou Pinóquio


Em 26 de outubro de 1890, morre em Florença o jornalista e escritor Carlo Collodi, um desconhecido diante do personagem infantil que criou: Pinóquio, o famoso boneco de pau com nariz que crescia quando contava mentira. O filósofo italiano Benedetto Croce ressaltou que “a madeira com a qual Pinóquio foi esculpido é a própria humanidade”.

Christiane Marcondes, Vermelho

Carlo Collodi nasceu Carlo Lorenzini em Florença em novembro de 1826. Quando o movimento pela unificação nacional da Itália ganhou força, Collodi mergulhou na política. Aos 22 anos, tornou-se jornalista, lutando pela independência italiana.

Em 1848 fundou o jornal satírico Il Lampione (O Lampião), que acabou em 1849, fechado pela censura. O periódico seguinte, La Scaramuccia (A Escaramuça), teve mais sorte e em 1860 ele ressuscitou Il Lampione. Collodi escreveu também comédias e editou jornais e revistas.

O escritor abandona então o jornalismo, voltando-se para a fantasia infantil. Depois de traduzir para o italiano os contos de fadas do escritor francês Charles Perrault, passou a escrever suas próprias histórias infantis, inclusive uma série sobre o personagem Giannettino.”
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26 Outubro, 2011

Homem e trabalho


Delfim Netto, EcoD

“A organização social em que vivemos é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez maior eficácia produtiva. Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica, que amplia o altruísmo e a solidariedade social, exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.

Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos" de 1844, antes dele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta fora dele as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.

No atual estágio evolutivo, a sociedade divide-se entre os que têm capital e "empregam" o trabalho em troca de salário, e os que detêm a força de trabalho e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital, em troca de salário. Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.

Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável do cidadão de incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global"! Não importam as filosofias ou as ideologias. No presente estágio evolutivo da organização social que o homem continua procurando para fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o coloca na sua posição social e econômica, que afeta sua situação física e emocional e que determina o nível do seu bem-estar.”
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25 Outubro, 2011

Louise, crítica musical


Daniel Cariello, Chéri á Paris

“Talvez ainda seja um pouquinho precipitado pra dizer que ela vai seguir a carreira de crítica, mas a Louise, do alto dos seus 18 meses, já deixa claras suas preferências, tanto em músicas que coloco pra tocar quanto em vídeos que assistimos no YouTube. Tem canções que ela adora. Já outras...

. Pintinho Amarelinho – É o hit do momento. A preferida das preferidas, que ela pede em média 43 vezes por dia, fazendo o gesto de bater o indicador de uma mão na palma da outra, em referência ao “pintinho amarelinho” que “cabe aqui na minha mão”. Na parte do “mas tem muito medo do gavião”, ela esconde o rosto. Sucesso absoluto na Radio Louise.

. Les crocodilles – Conta as aventuras de um crocodilo que foi para a guerra às margens do Nilo e, encontrando o elefante inimigo, deu no pira. Quando quer ver essa, ela começa a falar “cro cro cro cro” sem parar. Das duas uma: ou passamos o vídeo, ou colocamos tampões nos nossos ouvidos. Geralmente a Louise vence.”
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24 Outubro, 2011

A praça é do povo...


Frei Betto, Adital

“Há algo de novo, e não de podre, no reino da Dinamarca! Verdade que provocado pelo cheiro de podridão. Como suportar o odor fétido de uma Câmara dos Deputados que absolve uma deputada flagrada e filmada recebendo bolada de dinheiro escuso?

A 12 de outubro, manifestantes foram às ruas do Brasil, e de 1.242 cidades dos EUA, emitir protestos cívicos. Aqui, 30 mil pessoas, a maioria em Brasília, exigiram o fim do voto secreto no Congresso Nacional; o direito de o Conselho Nacional de Justiça investigar e punir juízes corruptos; a vigência da Ficha Limpa nas eleições de 2012; e o fim da corrupção na administração pública.

A novidade é que, tanto aqui como nos EUA, as mobilizações foram convocadas por redes sociais. Uma ação espontânea, sem partidos e líderes carismáticos, e que, no mínimo, mereceria o apoio da UNE, da CUT e dos partidos ditos progressistas.

Nos EUA, cresce o movimento Ocupem Wall Street. Ali se situa o centro financeiro estadunidense, protegido pela exuberante estátua do touro que bem simboliza a ganância e a prepotência do capital financeiro.

Semana passada, mais de 1.000 manifestantes foram presos nos EUA, desmascarando a propalada liberdade de expressão da democracia capitalista. Liberdade, sim, de especulação feita por aqueles que Roosevelt qualificou de "monarquia econômica”.

A elite usamericana entrou em pânico, embora as manifestações sejam bem mais pacíficas e ordeiras que as do Tea Party (extrema direita) em 2009. O deputado republicano Eric Cantor chamou os manifestantes de "gangues”. Mitt Rommey, pré-candidato republicano em 2012, acusou-os de provocar uma "luta de classes”...

O fato é que o poder público, aqui, e o poder econômico, lá, estão prensados contra a parede. E agora o movimento se expande pelos países da Europa diretamente afetados pela crise financeira e mais interessados em salvar bancos que empregos.”
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23 Outubro, 2011

Muito além desta vida


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Ninguém discute que o maior mistério da vida é a própria vida e possivelmente uma outra depois da morte.  Até mesmo a ciência tem se rendido às muitas evidências de que existe muito mais além do que a mente humana pode imaginar. Talvez  fenômenos  inexplicáveis de muitos séculos atrás tenham começado a mostrar ao homem que ele nunca esteve só, apesar da sua visão limitada não deixá-lo enxergar um mundo mais sutil à sua volta.

Muitas teorias atribuem a construção dos grandes monumentos seculares, como as pirâmides do Egito, por exemplo, a forças muito mais poderosas do que os fortes, mas exaustos, músculos dos escravos que podem  ter sido impulsionados por algo que nem eles mesmos podiam entender.

Essas mesmas teorias comparam a arquitetura desses monumentos a inspirações interplanetárias, ou seja, formas e desenhos enviados mentalmente por civilizações muito mais adiantadas que, por sua vez, são responsáveis pelo desenvolvimento da humanidade até hoje.

Mas antes que me chamem de lunática, sonhadora, inventora de histórias ou coisa parecida vou parando por aqui nas minhas elocubrações para dizer o porque de eu ter começado meu artigo de hoje dessa maneira. Não sou ligada a nenhuma religião, apesar de ter sido criada em berço católico, simplesmente por não acreditar na materialização da fé. Para mim não dá para misturar as duas coisas.

Não aceito que cidadãos comuns se locupletem do papel de íntimos de Deus  a ponto de regerem nossos pensamentos e nossa vontade através de dogmas criados pelo próprio homem e de acordo com seus interesses particulares.

Os grandes e elevados mestres espirituais que desceram a terra, como o nosso  Jesus, nunca se preocuparam com regras e limites para externar suas palavras. Achavam e diziam o que pensavam com a certeza de estarem no caminho  da verdadeira vida, a espiritual. Cada um trilhou um destino para levar a palavra de Deus a civilizações completamente diferentes.”
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21 Outubro, 2011

Gabriel García Márquez: toda guerra é burra


“Livro recém-lançado do Nobel de Literatura traz discursos anti-bélicos que o escritor colombiano fez desde os 17 aos 80 anos, embasados por sua luta em defesa da unidade e soberania da parte latina e submetida do continente americano.

Marcos Aurélio Ruy, Vermelho

O livro “Eu não vim fazer um discurso” (Editora Record, 2011), de Gabriel García Márquez, apresenta os discursos do autor desde sua formatura no equivalente ao nosso ensino médio, a tantos eventos literários, culturais e políticos por onde passou, sempre denunciando o imperialismo norte-americano e a submissão dos regimes ditatoriais latino-americanos. Sempre um grito em favor da liberdade e dos oprimidos.

García Márquez nasceu em 06 de março de 1927 e enfrentou diversas dificuldades, inclusive financeiras, até consagrar-se como escritor. Justamente por sua opção política na defesa dos interesses nacionais e do povo de seu país e contra toda forma de opressão, transformou-se em um dos maiores representantes latino-americanos do chamado “realismo mágico”, uma escola literária que usa do absurdo para mostrar a realidade, numa maneira de driblar a censura existente na maioria dos países na parte sul do continente. Para alguns, uma resposta latino-americana à literatura fantástica europeia, só que diferentemente, aqui, não apresenta teor niilista em seu conteúdo. Pelo contrário, vislumbra um futuro melhor. Márquez sempre acreditou na necessidade de unidade dos países latino-americanos e de uma luta conjunta, permanente, contra a sombra do imperialismo e do fascismo no continente.

Grandes nomes escolheram o caminho do fantástico para escrever seus livros, entre eles os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, o venezuelano Arturo Uslar Pietri, considerado o pai do realismo mágico no continente, o cubano Alejo Carpentier e, mais recentemente, a chilena Isabel Allende, filha de Salvador Allende e a mexicana Laura Esquivel, entre outros. Alguns autores brasileiros também enveredaram por esse caminho, como Murilo Rubião e José J. Veiga, ou o dramaturgo Dias Gomes nas novelas que escreveu para a televisão.

Já aos 17 anos, ao pronunciar discurso de despedida na escola em que estudou, o colombiano mostrava ao que veio. “Toda esta série de acontecimentos cotidianos que nos uniram através de laços inquebrantáveis com este grupo de rapazes que hoje abrirá caminho na vida”. E seu caminho foi se abrindo a duras penas, porque ele escolheu um rumo de luta e de soberania contra a classe dominante ditatorial, elitista e antinacional. Num outro discurso sobre literatura ele explica como e por que começou a escrever. “Comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”, afirma, e complementa, ao contar o motivo que o levou a escrever seu primeiro conto e enviá-lo para o jornal publicá-lo: “Eduardo Zalamea Borda, diretor do suplemento literário do ‘El Spectador’ de Bogotá, publicou um artigo no qual dizia que as novas gerações de escritores não ofereciam nada, que não se via em lugar algum um novo contista ou um novo romancista”. Provocado, Márquez escreveu um conto e o editor reconheceu o engano e pediu desculpas.

Em seus discursos. o escritor sempre colocava sua posição política em favor da liberdade, da igualdade, da soberania dos povos e da justiça social. Mesmo em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, ele denunciou o preconceito com o qual éramos vistos pelos europeus, assim como a situação de penúria e opressão vivenciada na América Latina de então, diferente de hoje, quando vislumbramos luzes no fim do túnel em todos os aspectos da vida.”
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20 Outubro, 2011

O que você faria se fosse imortal?


Edival Lourenço, Revista Bula

“Já imaginou o que faria se descobrisse que por alguma razão você tivesse se tornado imortal? Ter consciência de que o tempo continuará passando irremediavelmente para os outros, mas para você ele estará para sempre estancado?

O fato por certo traria grandes alterações de perspectivas em sua vida. Poderia levá-lo a percorrer novos e diversos caminhos, dependendo obviamente de seu temperamento e de suas escolhas.

Poderia, já que é imortal, cair num hedonismo aventureiro e doidivanas, curtindo cada momento de sua vida com toda intensidade, colhendo orgasmos pela vida, que nem borboleta que oscula flores.

Poderia, já que é imortal, dar início a projetos grandiosos, desses que não cabem no manequim de uma vida singela. Poderia edificar bibliotecas circulares, escadas infinitas, ou qualquer obra que pudesse trazer redenção para a humanidade. Escrever uma nova “Odisseia”, uma nova “Comédia Humana” ou um novo “Em Busca do Tempo Perdido”. Poderia até empreender viagens interestelares, dessas em que se gastam milhares de anos-luz para percorrer. Mas um dia, quando a vida na Terra já tivesse ido pro beleléu, você chegaria ao destino, são e salvo, com os genes humanos ainda intactos, pronto para multiplicá-los, num planeta distante e seguro. Afinal, você tem consciência de que jamais será alcançado pela ceifa da morte.

As possibilidades são infinitas. Vão depender unicamente de sua imaginação. E você terá, não o tempo, mas a eternidade inteira para imaginar o que quiser.

No Brasil temos algumas pessoas que foram brindadas com a imortalidade. Não me refiro àqueles senhorzinhos que vestem fardões geriátricos e atravessam os umbrais da vetusta Academia Brasileira de Letras, chamando-se, iludidamente, de imortais. Assim, de cabeça, me lembro de Oscar Niemeyer e José Sarney (seria coincidência os dois terem Y no nome, ou um distintivo genético da imortalidade?).”
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19 Outubro, 2011

O tempo em que podemos mudar o mundo


“Immanuel Wallerstein, provocador: capitalismo está condenado, resta saber quê irá substituí-lo. Transição não será apocalíptica, dependerá das escolhas que fizermos agora.
 
Entrevista a Sophie Shevardnadze | Tradução: Daniela Frabasile para o Outras Palavras.

A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a enxergar melhor o período tormentoso que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein, acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.

Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”

É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.

As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT (abaixo). A transcrição e a tradução para o português são iniciativas de Outras Palavras.

Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?

Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.

Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?

Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?

Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.

Qual a sua visão?

Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.

Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?

Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.”
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18 Outubro, 2011

Reecontrando a infância


João Batista Herkenhoff, Direto da Redação

“Reencontrar a infância é descobrir o menino que vive dentro de nós. Esse reencontro exige um despojamento. Libertar-se de amarras.

Grilhões nos prendem: agenda, compromissos de mil espécies, coisas a comprar, projetos de “ter”. Ter cada vez mais, como se a vida fosse uma conta-corrente. Mais importante é “ser”: ser falho, ser autêntico, ser pessoa, ser feliz.

Fernando Sabino e Rubem Braga foram sócios numa editora que fundaram e afundaram. Já pelo nome escolhido para a casa – Editora Sabiá, podemos concluir que o projeto era mais poético do que econômico. O sabiá é uma ave especialmente amada pelos poetas: "minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá - as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá" (Gonçalves Dias); "vou voltar para o meu lugar - e é lá - que eu hei de ouvir cantar - uma sabiá" (Chico Buarque).

Fernando Sabino, bem mineiro, estava preocupado com compromissos que se acumulavam sem as competentes providências. Rubem Braga desanuviou a mente do companheiro de aventura editorial: “Desde quando temos de resolver todas as coisas, Fernando”?

O mundo precisa mais de sonho do que de pragmatismo. Esse povo que faz guerra, que joga bomba em cidades matando populações civis, não pertence ao grupo que sonha. Esse povo justifica sua conduta em argumentos pragmáticos.”
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17 Outubro, 2011

Que canção lhe faz doer por dentro?


Eberth Vêncio, Revista Bula

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
como um deus, e amanheço mortal
E assim, repetindo os mesmo erros
dói em mim ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal?
Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
o que não pode ser dito, afinal
ser um homem em busca de mais, de mais
Afinal, feito estrelas que brilham em paz, em paz
Lenine / Dudu Falcão

“Recomendações preliminares: crônica para se ler e ouvir. Se possível, tente prosseguir a leitura deste texto ouvindo a canção “O silêncio das estrelas”, na voz do cantor nordestino Lenine. Se preferir, faça uma cena: queime depois de ler. Tô nem aí.

Fico pensando o que seria de mim sem a música. Imagino meu castigo maior, o quanto viver tornar-se-ia insuportável se eu ficasse, de repente, deteriorado no juízo ou nos ouvidos.

Sinto certo grau de indignação ao supor que os malvados (celerados e canalhas outros), além de possuírem reserva moral para o amor, — refiro-me ao amor sensual, aquele sentir a falta do (a) amante —  têm lá as suas preferências musicais. Sabe-se, por exemplo, que Hitler, um dos maiores vilões da História, além de ter-se afeiçoado por Eva Braun e pelos cachorros, gostava de ouvir Wagner.

Similarmente, imaginei um torturador chegando à casa, tirando a camisa suja de suor e sangue de tanto bater numa pessoa sem defesa, jogando ao canto da sala os sapatos respingados de dor e com os quais chutou as costelas da sua vítima, reclamando de cansaço à esposa, beijando-a com paixão na boca, tendo uma ereção, abrindo a braguilha e uma garrafa de cerveja, desfilando de ceroula, e escutando música, enfim, só pra relaxar. O dia foi duro, beibe... Certa vez, ao assistir a um documentário cujo nome não me lembro, um dos entrevistados —  ex-preso político que fora torturado no período da ditadura militar brasileira —  contou que, durante as sessões de tortura, os seus algozes colocavam na vitrola sempre a mesma canção, em volume máximo, a título de provocação e, acima de tudo, humilhação, para que a vizinhança não escutasse gritos, choros e “outros sinais de fraqueza humana”. A canção era “Apesar de você”, de Chico Buarque. Hoje em dia, aos primeiros acordes desta música, o ex-torturado estremece, perde as estribeiras e quase se urina.

Por outro lado, leitor, que canção lhe faz doer por dentro (no melhor sentido imaginável: a dor de amor, a beleza nua e crua)? Que música lhe faz levitar? Que som você escolhe para embalar a noite quando vai “fazer amor” (detesto esta expressão; prefiro “divertir-se com o corpo alheio”)? Aliás, na hora do sexo: samba, roque pesado, baladinha ou téquino-brega? É possível gozar ao som de “Sandra Rosa Madalena” (Sidney Magal) ou “Florentina” (Tiririca)?! Calma lá. Jamais subestime a capacidade do ser humano em fantasiar.”
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16 Outubro, 2011

Morrer é transvivenciar


Frei Betto, Adital

“A morte de toda celebridade provoca impacto midiático. Por isso, os arquivos da mídia guardam obituários da rainha Elizabeth II e do papa Bento XVI, de Pelé e Neymar, de Demi Moore e Sebastien Vettel.

A morte nem sempre manda aviso prévio. Se uma celebridade deixa a vida por acidente, como Ayrton Senna e Lady Di, ou por causa inesperada, como Michael Jackson e Amy Winehouse, as redações precisam ter pronto o perfil biográfico do falecido.

Agora, Steve Jobs morreu aos 56 anos. O impacto é tanto maior quanto mais prematura e irreparável a perda: não há como clonar cérebros e talentos geniais. Há pessoas, sim, insubstituíveis. Como já não estão entre nós, ficamos sem parâmetro de comparação, sem saber o que fariam no lugar de quem lhes sucedeu.

Sim, sabemos todos que ninguém é imortal. Em determinado dia, mês e ano do calendário cada um de nós deixará este mundo. O que choca é ver alguém morrer antes do tempo... Sobretudo quando se respira uma cultura de preconceito à velhice.

Chamar, hoje, alguém de velho é uma ofensa. No máximo, admite-se "idoso”. E haja eufemismos para qualificar quem passou dos 60: terceira idade, melhor idade etc. Vi escrito numa van: "Aqui viaja a turma da dign/idade”.

Como velho que sou, rejeito tais artimanhas da linguagem. A melhor idade é dos 20 aos 35 anos (embora a ditadura, ao encarcerar-me, tenha me roubado 4). Se é para inventar eufemismo, melhor ser realista e considerar, nós velhos, a turma da eterna idade, já que estamos naturalmente mais próximos dela...

Nossa cultura pós-moderna lida muito mal com a morte. Busca ansiosamente o elixir da eterna juventude: academias de ginástica, anabolizantes, macrobiótica, cirurgias plásticas etc. Na minha infância, criança era quem tinha de zero a 11 anos. Adolescente, de 11 a 18. Jovem, de 18 a 30. Adulto, de 30 a 50. Velho, mais de 50.”
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13 Outubro, 2011

Como lidar com o desejo infinito?


Leonardo Boff, Adital / Envolverde

“O desejo não é um impulso qualquer. É um motor que põe em marcha toda a vida psíquica. Ele goza da função de um princípio, traduzido pelo filósofo Ernst Bloch por princípio esperança. Por sua natureza, não conhece limites como já foi visto por Aristóteles e por Freud. A psiqué não deseja apenas isto o aquilo. Ela deseja a totalidade. Não deseja a plenitude do homem, procura o super-homem, aquilo que ultrapassa infinitamente o humano como afirmava Nietzsche. O desejo se apresenta infinito e confere o caráter de infinito ao prejo humano.

O desejo torna dramática e, por vezes, trágica a existência. Mas também, quando realizado, uma felicidade sem igual. Estamos sempre buscando o objeto adequado ao nosso desejo infinito. E não o encontramos no campo da experiência cotidiana. Aqui somente encontramos finitos.

Produz grave desilusão quando o ser humano identifica uma realidade finita como sendo o objeto infinito buscado. Pode ser a pessoa amada, uma profissão sempre ansiada, a casa dos sonhos. Chega o momento que, geralmente, não tarda muito, em perceber uma insatisfação de base e sentir o desejo por algo maior.

Como sair deste impasse, provocado pelo desejo infinito? Borboletear de um objeto a outro, sem nunca encontrar repouso? Temos que nos colocar seriamente na busca do verdadeiro objeto de nosso desejo. Entrando in medias res, vou logo respondendo: este é o Ser e não o ente; é o Todo e não a parte; é Infinito e não o finito. Depois de muito peregrinar, o ser humano é levado a fazer a experiência do cor inquietum (coração inquieto) de Santo Agostinho: Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova.Tarde de te amei. Meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em Ti. Só o Infinito Ser se adequa ao desejo infinito do ser humano e lhe permite descansar.

O desejo envolve energias vulcânicas poderosas. Como lidar com elas? Antes de tudo, se trata de acolher, sem moralizar, esta condição desejante. As paixões puxam o ser humano para todos os lados. Algumas o atiram para a generosidade e outras para o egocentrismo. Integrar, sem recalcar tais energias, exige cuidado e não poucas renúncias.

A psiqué é convocada a construir uma síntese pessoal que é a busca do equilíbrio de todas as energias interiores. Nem fazer-se vítima da obsessão por uma determinada pulsão, como por exemplo, a sexualidade, nem recalcá-la como se fosse possível emasculhar-lhe o vigor. O que importa é integrá-la como expressão de afeto, de amor e de estética e mantê-la sob vigilância pois temos a ver com uma energia vital não totalmente controlável pela razão mas por vias simbólicas de sublimação e por outros propósitos humanísticos. Cada um deve aprender a renunciar no sentido de uma ascese que liberta de dependências e cria a liberdade interior, um dom dos mais apreciáveis.”
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12 Outubro, 2011

Fanatismo de fã é histeria


Romeu Prisco, Direto da Redação

“O fanatismo de fã leva seu portador a rejeitar qualquer crítica ao ídolo, por mais verdadeira que seja. Assumida a condição de fã ao extremo, o ídolo se torna intocável, por pior que sejam suas atitudes fora de cena. Por ele se faz qualquer sacrifício, mormente em grupo. É o caso das admiradoras de Justin Bieber. Para ver um rápido aceno de mão do ídolo, que nem sempre acontece, as fãs permanecem horas a fio, debaixo de sol e chuva, frio e calor, olhando a sacada de um hotel e esperando freneticamente aquele momento.

Quando o ídolo não aparece, as fãs se contentam em cumprimentar e tirar fotos com a equipe de segurança, postada na entrada do hotel ! Até aí, nada de mais, pois o prejuízo fica por conta apenas do tempo perdido. Entretanto, há ídolos, conforme suspeitou uma comentarista da TV Gazeta, após o primeiro "show" do jovem cantor canadense, que se apresentam dublando seu repertório, somente se movimentando no palco, acompanhando a gravação do "playback". Madonna também já se valeu deste expediente, em turnês pelo Brasil. Mas as fãs, presentes ao "show", não estão nem aí, mesmo sendo solenemente enganadas. Tomadas de histerismo coletivo, esquecendo-se da enorme dificuldade para chegar e entrar no local do espetáculo, principalmente dos valores desembolsados para aquisição dos ingressos, passam a chorar e a berrar palavras incompreensíveis.

Depois, quando aparece um abusado escritor-jornalista, dizendo que isso cheira a estelionato, será ele acusado de grave ofensa ao ídolo, mesmo atribuindo parte da responsabilidade pela "pirataria" aos organizadores do evento. Se é para ver o ídolo apenas rebolando no palco, amparado por um som eletrônico ensurdecedor, melhor assistir a um DVD em casa, confortavelmente instalado numa poltrona, cercado de salgadinhos e refrigerantes. Se a dublagem ocorre no palco de uma emissora de televisão, sem espaço suficiente para comportar todo aparato musical e sem cobrança de ingresso para a platéia, é aceitável, nunca, porém, numa apresentação de super montagem e altíssimo custo.

Já passei por outras situações incomodas com a minha sinceridade, além daquelas decorrentes do meu último texto. Nem por isso vou desistir. Certa vez critiquei Rita Lee, não por suas qualidades artísticas, mas por uma declaração sua, quando alegou que "paulista não sabe fazer festa". Ora, não bastasse Rita Lee ser paulistana de nascimento, essa declaração se deu em função das festividades projetadas para comemoração do aniversário de fundação da cidade de São Paulo, sendo ela, Rita Lee, artista contratada, mediante remuneração, para fazer publicidade institucional da programação.”
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11 Outubro, 2011

Matrix


Flávio Paranhos, Revista Bula

“(O pequeno artigo abaixo saiu em 2006 na Bula, mas estou ressuscitando-o por conta de ter visto “Matrix” numa lista de filmes mais bem avaliados do site IMDB, em que figura na vigésima primeira posição) 

Em junho de 2003 publiquei um artigo no jornal “O Popular” (Descarregando Matrix), em que aproveitava o gancho do filme para traçar um paralelo entre os arrasa-quarteirões hollywodianos e a situação geopolítica norte-americana. Resumindo, eu dizia que as estorinhas batidas desses filmes invertiam o que acontecia na prática. Nos filmes, uma minoria de lunáticos que acreditava ser capaz de vencer forças do mal incomparavelmente mais poderosas, acabava vencendo mesmo, against all odds. Na vida real, os EUA é que eram os Matrix e Darth Vader da vida. Eu ficava (e ainda fico) curioso em saber como o americano médio se comportaria se tivesse essa clarividência.

O fato é que, como aproveitei pra descer a lenha nesse filminho de luta metido a besta, recebi tanta porrada por e-mail que quase entrei pra mesma academia de Neo, aquela em que se aprende rapidinho e sem esforço. Pois caí na besteira de descer a lenha nessa porcaria outra vez, contraindicando-o na Bula. Pelo visto, apesar de ter um ou outro admirador contido e racional, ciente das (muitas) limitações do filme, “Matrix” enseja a existência de fanáticos que competem com os de “Jornada nas Estrelas” pelo troféu de campeão de falta de noção de ridículo.”
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10 Outubro, 2011

Como lidar com o desejo infinito?


Leonardo Boff. Adital

“O desejo não é um impulso qualquer. É um motor que põe em marcha toda a vida psíquica. Ele goza da função de um princípio, traduzido pelo filósofo Ernst Bloch por princípio esperança. Por sua natureza, não conhece limites como já foi visto por Aristóteles e por Freud. A psiqué não deseja apenas isto o aquilo. Ela deseja a totalidade. Não deseja a plenitude do homem, procura o super-homem, aquilo que ultrapassa infinitamente o humano como afirmava Nietzsche. O desejo se apresenta infinito e confere o caráter de infinito ao prejo humano.

O desejo torna dramática e, por vezes, trágica a existência. Mas também, quando realizado, uma felicidade sem igual. Estamos sempre buscando o objeto adequado ao nosso desejo infinito. E não o encontramos no campo da experiência cotidiana. Aqui somente encontramos finitos.

Produz grave desilusão quando o ser humano identifica uma realidade finita como sendo o objeto infinito buscado. Pode ser a pessoa amada, uma profissão sempre ansiada, a casa dos sonhos. Chega o momento que, geralmente, não tarda muito, em perceber uma insatisfação de base e sentir o desejo por algo maior.

Como sair deste impasse, provocado pelo desejo infinito? Borboletear de um objeto a outro, sem nunca encontrar repouso? Temos que nos colocar seriamente na busca do verdadeiro objeto de nosso desejo. Entrando in medias res, vou logo respondendo: este é o Ser e não o ente; é o Todo e não a parte; é Infinito e não o finito. Depois de muito peregrinar, o ser humano é levado a fazer a experiência do cor inquietum (coração inquieto) de Santo Agostinho: Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova.Tarde de te amei. Meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em Ti. Só o Infinito Ser se adequa ao desejo infinito do ser humano e lhe permite descansar.

O desejo envolve energias vulcânicas poderosas. Como lidar com elas? Antes de tudo, se trata de acolher, sem moralizar, esta condição desejante. As paixões puxam o ser humano para todos os lados. Algumas o atiram para a generosidade e outras para o egocentrismo. Integrar, sem recalcar tais energias, exige cuidado e não poucas renúncias.”
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09 Outubro, 2011

Estudar muito até ficar burro

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Vivendo e aprendendo a jogar. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas, aprendendo a jogar.” (Guilherme Arantes)

Não sei quem começou tudo isto, que maldita escola desta cidade decidiu ministrar aulas aos sábados, domingos e feriados. Impaciente, Júlia me provoca, na autoridade inquisitiva de seus 13 anos, qual a importância real futura de se saber que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.

Por outro lado, Felipe, o irmão mais velho, deixou de praticar piano e abandonou a galera do futebol porque os professores incutiram que é preciso estudar mais, muito mais, se quiser vencer a concorrência do vestibular no final do ano.

Exigência do mercado, cobrança dos pais ou márquetim das escolas? Mais que adestrar adolescentes é essencial educá-los. E existe forma mais transformadora senão através das vivências? Então, que ensino é este?

Semírames, por exemplo, embora pertença a uma velha geração desprovida da informática (sim, meus jovens, houve um tempo em que sobrevivemos — razoavelmente bem — sem o mister de orcutes, tuíteres e sexo virtual), também se entregou de corpo e alma aos afazeres acadêmicos e à carreira profissional.

Semírames estudou fora da cidade natal praticamente uma vida inteira. Aos quinze anos, foi morar de favor na capital, na casa de uma tia, onde concluiu o colegial (hoje denominado Ensino Médio). Não fazia outra coisa senão ir para o colégio e para a igreja (raciocínio da tia-tutora: tomar conta dos filhos dos outros sempre exige cuidados adicionais, uma vigilância diuturna contra os estrogênios e o capeta). Lazer? Mais ou menos. Torcia para que as segundas-feiras chegassem logo.

Passou no vestibular de Medicina, com sobras, na primeira tentativa. Mesmo que não suportasse ver sangue, sentir o olor sofrido de seus pacientes pobres, e dissecar cadáveres formalizados, “venceu a fraqueza” e se formou doutora após seis anos hibernada em livros, plantões e um bocado de solidão.

Depois, foi pra São Paulo fazer residência médica em Psiquiatria. Cada louco com sua mania, diz o ditado. Passou em primeiro lugar no concurso. Três anos de labuta na terra da garoa.

Cismou em fazer mestrado na Espanha, onde permaneceu por dois anos. Já que estava na Europa mesmo, calculou que não custava nada um esforço adicional e se embrenhou num doutorado no Reino Unido, onde viveu mais uma temporada.

Na semana passada, encontrei Semírames numa cafeteria. Lia um livro cujo título em francês na capa eu não fui capaz de decifrar. Eu não a via desde os tempos de colégio, época em que até tentei um resvalo, um afér (do francês, só conheço afér e jetami), uma exposição consentida dos gametas sob o eflúvio da testosterona. A tentativa de ejaculação-namoro, claro, foi malfadada. Prossigamos.”
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07 Outubro, 2011

A era das grandes responsabilidades


“Manter a qualidade de vida para mais de 9 bilhões de habitantes vai exigir da humanidade uma visão mais pragmática de suas responsabilidades diante do planeta.

Ignacy Sachs, Envolverde

Tudo indica que antes da Rio+20, programada para meados de 2012, a Comissão Estratigráfica Internacional vai oficialmente proclamar que desde o início da revolução industrial no século XVII, entramos numa nova era geológica – o antropoceno – caracterizada por um forte impacto das atividades humanas sobre o porvir da Nave Espacial Terra. Não que sejamos “mestres da natureza”, como o pensava Descartes. O recente tsunami que assolou as costas do Japão, nos arredores de Fukushima, nos lembrou a nossa impotência frente eventos naturais deste porte: três enormes ondas de quase 40m de altura, avançando a 300Km/h e entrando 10Km no interior das terras, destruindo portos, aldeias, derrubando casas, carregando barcos e carros, danificando uma central nuclear, acabando com a safra de arroz desta importante província agrícola do Japão e com 80 mil empregos.

Necessitamos de uma postura pró-ativa, avaliando com realismo a nossa capacidade de atuar, valendo-se da qualidade única à espécie humana representada pela nossa capacidade de imaginar o futuro. Em outras palavras, devemos aprender a difícil profissão de “geonautas”, neologismo proposto por Erik Orsenna. Assim, 2012 vai passar à história como uma censura duplamente importante na história imediata e na “longue durée”, ou seja, na longa coevolução da nossa espécie com a Nave Espacial Terra. Provavelmente, historiadores futuros deixarão de lado a dicotomia “antes e depois de Cristo” e falarão da época anterior ao antropoceno, e o antropoceno, salientando que o reconhecimento tardio da nossa entrada do antropoceno foi precedido de uma forte aceleração da história imediata durante o breve século XX que, segundo Eric Hobsbawm, começou com a primeira guerra mundial em 1914 e terminou com a queda do muro de Berlim em 1989.

Os geonautas nunca devem perder de vista a absoluta necessidade de enfrentar simultaneamente as questões de sustentabilidade ambiental e de justiça social. Ao sacrificarmos no altar da sustentabilidade ambiental o postulado da justiça social, corremos o risco de aprofundar ainda mais as distância abissal que já separam as minorias abastadas ocupando os camarotes de luxo no convés da Nave Espacial Terra das massas que se disputam o triste privilégio de labuta nos seus sótãos. Por outro lado, a busca da justiça social não nos deve levar a comportamentos destrutivos do meio ambiente ao ponto de provocar mudanças climáticas deletérias, pondo em risco a própria sobrevivência a termo de nossa espécie.”
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