31 Outubro, 2009

Machismo na Uniban: Existe limite para a imbelicidade?

A Uniban pediu ao site YouTube a remoção de todos as imagens com o incidente envolvendo uma aluna que foi ao campus de São Bernardo do Campo (SP) usando roupa curta. A confusão, no dia 22 de outubro, foi filmada e postada no site no dia seguinte. Os vídeos mostram a jovem sendo hostilizada e tendo de deixar a faculdade com escolta da PM. Em artigo, o diretor da União da Juventude Socialista (UJS) Fernando Borgonovi considera que a perseguição à estudante "revela a desumanização das relações".

Fernando Henrique Borgonovi, Vermelho.org

Com o perdão do fatalismo, acabo de ter a impressão de que os cavaleiros do apocalipse estão em marcha sobre a avenida Paulista. A irracionalidade - para não dizer a imbelicidade - coletiva atingiu seu ponto alto nesta semana, no campus ABC da Universidade Bandeirantes - Uniban, e daqui para frente tudo podemos esperar.

Vamos aos fatos. Aconteceu o seguinte: uma moça apareceu para a aula de vestido curto. Foi o seu "pecado". Bastou isso e uma horda de bárbaros passou a segui-la e ofendê-la pelos corredores daquilo que deveria ser um estabelecimento de ensino. Pasmem: a moça foi obrigada a sair do campus escoltada pela Polícia Militar, coberta por um guarda-pó (esses aventais de professor) e coberta pelos gritos da massa: "Puta", "Puta"!, urravam os imbecis.

A primeira pergunta que me faço é bem simples: e se ela fosse, qual o problema? Porque seria positivo que vivéssemos numa sociedade em que nenhuma pessoa precisasse submeter-se a este ofício, mas não vivemos e a profissão existe. Aliás, sem falsos moralismos: ainda que ela fosse, ainda que não fosse pelo dinheiro e ainda que ela gostasse da profissão, o que teriam a ver com isso os calhordas que humilharam a garota? Nada, rigorosamente nada.

Mas, ao que tudo indica, ela não era. O que traz a outra pergunta, essa mais difícil. O que se passa pela cabeça de pessoas, em sua maioria jovens, para perseguir alguém pela roupa que usa, pelo modo como se comporta, pelo que faz ou deixa de fazer? A coisa é tão reacionária que chega a assustar.”
Foto: YouTub / Reprodução
Artigo Completo, ::Aqui::

Paranóia e preconceito

Taeco Toma Carignato, Terra Magazine

“André Machado, jovem historiador, ao comentar a minha coluna "Dona Maria: a religião de cada dia", chamou a atenção sobre o apego a preconceitos. Ateu por convicção, Machado respeita muito as religiões. Ele recorda que, por exemplo, a crença evangélica possibilita aos deserdados sociais um papel importante em sua comunidade, por ser talvez "um dos poucos lugares em que um pedreiro, semi-alfabetizado, pode ser um orador respeitado". Do outro lado, ele reconhece que os mesmos evangélicos, vítimas de preconceitos por causa do modo de vestir - as mulheres têm cabelos muito compridos e são proibidas de usar calças compridas - e do discurso insistente, também se caracterizam pelo apego à segregação.

O preconceito não está apenas entre os evangélicos. Ele permeia toda a sociedade, manifestando-se também entre os que transitam nas periferias sociais. Nos imigrantes, as contradições são muito evidentes: os imigrantes japoneses discriminam os imigrantes coreanos que discriminam os imigrantes bolivianos, que se discriminam entre si pelas várias etnias às quais pertencem, e daí por diante.

Na Casa do Migrante, verdadeiro laboratório das relações sociais, políticas e culturais, observa-se discriminações em todos os níveis: cor da pele, religião, cultura, classe social, etnia, nacionalidade. Pois, lá convivem imigrantes, migrantes e refugiados brancos, negros, mulatos e indígenas (quéchuas, aimarás e guaranis), portadores de diferentes nacionalidades e com diferentes religiões (católica, evangélica, muçulmana, budista).

Por mais que se trabalhe com a integração cultural, os abrigados segregam-se em grupos e as pessoas são identificadas como "os brasileiros", "os bolivianos", "os colombianos", "os somalis", "os eritreus", "os congoleses", etc. Ou seja, a segregação é interna e externa. E os conflitos são frequentes no cotidiano da Casa.”
Artigo Completo, ::Aqui::

29 Outubro, 2009

A nova ameaça golpista do burguês fidalgo

A mentalidade reacionária, que financiou os crimes hediondos perpetrados pelos ainda impunes facínoras da Operação Bandeirantes, continua vívida e predominante nas entranhas da nata econômico-financeira da sociedade brasileira”

Osvaldo Martins Rizzo, Congresso em Foco

A sociedade é composta de duas classes: os que têm mais jantares do que apetite e os que têm mais apetite que jantares
(Sébastien-Roch Chamfort, século XVIII)

A democracia brasileira sempre esteve ameaçada pela vocação golpista da classe dominante nacional, zelosa da mantença dos seus privilégios seculares, ainda que por meios violentos.

Entusiasmado no discurso de entrega da faixa presidencial ao seu sucessor Jânio, o ex-presidente Juscelino declarou consolidada a democracia no Brasil. O desenvolvimentista mineiro jamais esteve tão enganado, pois, meses depois, o udenista paulista renunciaria ao cargo, e a alta burguesia arquitetou uma ação antidemocrática contra a legítima posse do vice-presidente, o progressista Jango.

O engenheiro Leonel Brizola, outro desenvolvimentista, liderou a resistência democrática aos golpistas distribuindo armas ao politizado povo gaúcho. Sobre o fato, o ex-deputado Moniz Bandeira escreveu: “Só um filho do povo, que nunca renegou suas origens, podia armar o povo. Desde a Revolução Mexicana, na segunda década do século XX, nenhum outro político latino-americano, dentro de uma sociedade burguesa, ousou tomar semelhante iniciativa. Esse gesto jacobino de Brizola as classes dominantes nunca perdoaram”.

Todavia, o poder econômico só permitiu que Jango governasse como o enfraquecido presidente do regime parlamentarista do primeiro ministro Tancredo Neves, o confiável. Um plebiscito restituiu todos os poderes presidenciais a Goulart. Inconformada com a plebiscitária escolha popular, a amotinada burguesia induziu os militares a golpearem, com a violência dos canhões, a frágil democracia brasileira apeando do poder o gaúcho legalmente eleito. Jango, um rico estancieiro, foi rotulado de comunista pelo incendiário udenista Carlos Lacerda.

Após atear fogo ao prédio que abrigava a União Nacional dos Estudantes (UNE), e se divertindo vendo jovens pulando o muro dos fundos para não morrerem queimados, a fidalga burguesia moradora da Zona Sul carioca, das varandas dos seus luxuosos apartamentos com vista para o mar, alegremente comemorou o fim da democracia bebendo champanhe francês, jogando confetes e berrando: “Agora o dólar vai baixar!”. Satirizando e denunciando a instauração da mentira no território nacional, o compositor Juca Chaves ironizou cantando: “E quando o feijão dá sumiço e o dólar se perde de vista, o Globo diz que tudo isso é culpa de comunista”.
Artigo Completo, ::Aqui::

O Dilema de Marina

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“A senadora Marina Silva, tradicional quadro do PT, que mudou-se recentemente para o PV e cogita ser candidata à Presidência da República em 2010, tem um enorme desafio pela frente. Como conciliar sua visão política e ecológica do desenvolvimento do Brasil à aliança dos verdes com as forças neoliberais do país?

Essa dicotomia entre Marina e o partido a que se filiou, e, sobretudo, a seus aliados nacionais, ficou evidente na opinião da senadora sobre a CPI do MST, estimulada por DEM e PSDB, parceiros do PV no projeto nacional. Profunda conhecedora das questões da terra, Marina defendeu que a CPI não se limitasse a repasses do governo a entidades que lutam pela reforma agrária, mas que tratasse da questão fundiária no país em todos os seus aspectos.

Essa visão mais profunda incluiria, naturalmente, grilagem de terras, índices de produtividade, assassinatos no campo e o próprio modelo agrícola do país, o que não interessa aos ruralistas, abrigados principalmente nos partidos aliados ao PV.

Seringueira e defensora de um modelo de desenvolvimento sustentável, condição que a levou a romper com o partido de toda a vida por temer um desenvolvimentismo predatório, Marina não teria como compactuar com ruralistas, responsáveis pelo desmatamento que corresponde a mais da metade das emissões de carbono do país. Tampouco poderia estar ao lado da agropecuária, segunda atividade que mais contribui para o aquecimento global no Brasil.”
Artigo Completo, ::Aqui::

28 Outubro, 2009

Indignação, de Philip Roth

Rafael Rodrigues, Digestivo Cultural

“Philip Roth, considerado por muitos como o maior escritor norte-americano vivo, tem sido, ao longo de sua carreira, agraciado com os mais diversos prêmios literários ― dentre eles o Pulitzer, conquistado em 1998 pelo romance Pastoral Americana. Há anos seu nome é um dos mais especulados para vencer o Nobel de Literatura. Além disso, é o único autor americano que, em vida, teve sua obra publicada pela prestigiada editora (que se diz sem fins lucrativos) Library of America.

Com um currículo desses, Philip Roth poderia simplesmente ter parado de escrever. Ou fazer como a maioria dos escritores consagrados, que, a partir de determinado ponto de suas carreiras, parecem ter resolvido publicar trabalhos no máximo razoáveis, que em nada condizem com suas melhores obras, muitas vezes fazendo arremedos de si mesmos ― como vem acontecendo com Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, por exemplo, e, dizem as línguas ferinas, com Gabriel García Márquez e João Ubaldo Ribeiro.

Mas não. Roth vem, do alto de seus 76 anos, publicando livros que, se não são obras-primas, ao menos correspondem às expectativas dos leitores e dos críticos. Homem Comum, por exemplo, penúltimo livro do autor publicado no Brasil, é uma obra tão impactante que ecoa na mente do leitor durante meses ― e isso pode durar anos. Nele, Philip Roth fez uso de toda a simplicidade de que foi capaz para contar a história de um homem comum, um homem irrelevante para o resto do mundo ― como é a maioria dos homens. Seu talento para executar esta novela, uma obra valorosa, foi interpretado por mim mesmo, anos atrás, como uma tentativa não tão bem-sucedida de escrever uma obra-prima. Felizmente, tenho agora a possibilidade de reconhecer minha avaliação falha e de não cometer novamente o mesmo erro com Indignação (Companhia das Letras, 2009, 176 págs.), mais recente romance de Roth publicado aqui.

A narrativa simples, linear, tradicional ― ou seja, sem floreios ou transgressões narrativas ―, além do o estilo curto e grosso de Homem comum estão presentes no novo romance. E, da mesma forma que a obra anterior não arrebata o leitor logo nas primeiras páginas, Indignação faz isso aos poucos, de maneira gradual, precisa e poderosa. Mas se em Homem Comum a velhice era motivo de ojeriza, no novo livro a juventude é que é a vilã. Marcus Messner, um jovem de dezoito anos, é o protagonista e narrador do livro. Nascido em Newark, mesma cidade onde nasceu Philip Roth, Marcus é filho de um açougueiro kosher ― isso significa que a carne vendida por ele obedece a lei judaica; vale citar a explicação de Marcus sobre a diferença entre uma carne kosher e uma carne "não kosher": " (...) para tornar o animal kosher, era necessário retirar todo o sangue. Num abatedouro não kosher, podem dar um tiro no animal, podem dar uma pancada para deixá-lo inconsciente, podem matá-lo da forma que quiserem. Mas, para ser kosher, o animal tem de morrer devido à perda de sangue.". Este trecho, mais próximo do fim do livro, dá uma maior noção a respeito da personalidade do pai de Marcus, porque mesmo depois de seu negócio perder clientes para um supermercado recém-inaugurado que vendia carne mais barata, mesmo ela não sendo kosher, ele manteve a tradição judaica, embora isso representasse uma considerável queda no rendimento do negócio.

Narrando a história de sua vida, Marcus revela também um pouco da história da família Messner e da situação política de seu tempo ― a ação do romance acontece durante o final do ano de 1950 e vai até o início de 1952, ou seja, um pouco depois do início e pouco antes do fim da Guerra da Coréia, que termina em 1953. Logo no início do livro ficamos sabendo que dois primos de Marcus morreram em combate durante a Segunda Guerra Mundial. Com a Guerra da Coréia acontecendo, Marcus tem medo de ser ele próprio recrutado e morrer como os primos. Mas medo maior tem seu pai, que, desesperado, tentando evitar que o filho tenha o mesmo destino de seus dois sobrinhos, faz justamente o contrário e o empurra, involuntariamente, para as frentes de batalha.

Durante as primeiras páginas de Indignação, tem-se a impressão de que este é um livro, acima de tudo, sobre a relação entre pai e filho ― tanto que a mãe de Marcus tem uma participação mínima na história, se comparada com a do seu pai. O tema é, sem dúvida, bastante presente, mas não chega a ser o principal. O cerne de Indignação é, na verdade, a inconsequência juvenil, a sensação que os jovens têm de que podem abraçar o mundo, a arrogância que os faz pensar que sempre têm razão e que seus pais, nascidos em "outro tempo", não sabem mais de nada, afinal, o mundo mudou, o mundo sempre muda, a toda hora.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Filme da Mostra de Cinema questiona inconsistência na mídia


Marcela Rocha, Terra Magazine

“Como parte da programação da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme "Abraço Corporativo" de Ricardo Kauffman, será exibido em quatro sessões. A primeira acontecerá no Museu de Imagem e Som (MIS), nesta quarta-feira, 28, às 19h50, seguida de um debate com o diretor.

Ricardo é jornalista, roteirista e pesquisador. Seu filme conta a busca de um consultor de Recursos Humanos por espaço na mídia e serve como ponto de partida para uma reflexão sobre o crescimento dos espaços de notícia e o papel do jornalismo brasileiro.
Segundo o cineasta, a pretensão do filme é "conversar com todo mundo". Ele explica que não se trata de um filme só para dialogar com jornalistas. "Evidentemente que quem faz comunicação é um público óbvio, mas nas seções prévias que fiz, o tema do filme dá muito pano para a manga", afirma Kauffman.

A primeira exibição foi feita na Oboré, empresa prestadora de serviços em comunicação popular. Sérgio Gomes, diretor da entidade, disse que há 20 anos não via um debate tão acalorado entre jornalistas. "Foram três horas de debate na sede e depois, no bar, a discussão ainda continuou", brinca Kauffman.

Para não-jornalistas, o interesse e a discussão que nasce com o filme é diferente. "O foco do trabalho é questionar por que a mídia publica histórias inconsistentes", explica o cineasta. "Como todo mundo consome muita informação hoje em dia, o tema do filme acaba caindo no cotidiano das pessoas, então o filme dialoga com todos".

"Abraço corporativo" acompanha um consultor de Recursos Humanos "com um discurso completamente clichê", caracteriza o diretor. "Ele não tem restrições estratégicas para aparecer na mídia", diz Kauffman que acompanhou a trajetória desse consultor para ver se ele conseguiria ou não se inserir na mídia.

- Podia dar certo ou dar errado. Mas a mídia recebeu o consultor.
O filme também reúne depoimentos de profissionais da comunicação e políticos que lidam diariamente com a exposição na mídia. Figuras como Juca Kfouri, Eugênio Bucci, Contardo Calligaris, Bob Fernandes e o ex-governador de São Paulo Cláudio Lembo fazem parte do trabalho de Ricardo Kauffman.

A 33ª Mostra de Cinema de São Paulo teve início no dia 23 de outubro e se estende até 5 de novembro com a exibição de 423 filmes. Os ingressos para os filmes podem ser adquiridos nos próprios cinemas e também na Central da Mostra, montada no Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073).”
Foto: Divulgação

27 Outubro, 2009

Deus faz mal à vida?

Leonardo Boff, Adital

“Recentemente esteve entre nós o renomado biólogo darwinista Richard Dawkins afirmando que Deus faz mal à saúde humana e que "Deus é um delírio", título, aliás, de seu livro. Quase simultaneamente saiu um outro livro de um renomado filósofo e teólogo anglicano Keith Ward que, sem pretende-lo, deu uma resposta a Dawkings. Seu livro se intitula: Deus, um guia para os perplexos (Difel 2009).

Ward depois de percorrer mais de três mil anos de reflexões sobre Deus, tranquilamente, com o humor inglês que o caracteriza, poderia escrever: Dawkins, um delírio.

A questão fundamental que seu livro suscita é: o que os humanos querem dizer quando falam "Deus"? Por que as culturas, desde sempre, colocam o tema Deus?

Ward começa com a mitologia grega, cujo panteão é repleto de deuses e deusas. Mas adere à interpretação inaugurada por C. G. Jung e por Campbel segundo a qual no panteísmo não temos a ver com a multiplicidade de divindades, mas com múltiplas formas de presença divina na natureza e na vida humana. As divindades não são seres subsistentes, mas representam energias poderosas e criativas para as quais nos faltam as palavras adequadas para descrevê-las. Então se usam nomes divinos e mitos.

Ward passa pelos grandes representantes do pensamento ocidental, sem esquecer seus paralelos orientais, que detidamente se enfrentaram com a problemática de Deus. Mostra a grande ruptura que ocorreu entre o pensamento clássico greco-cristão para qual Deus representava a eternidade, a imutação e a pura transcendência e entre o pensamento moderno que entende a realidade como mutação e evolução, carregada de virtualidades apontando para várias direções.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Tocaia, quadrinhos e elitização da cultura

Quadrinhos migram cada vez mais dos gibis para os livros. Longe de ser uma conquista, fato expressa os rumos de um mercado para um público cada vez mais restrito e de melhor poder aquisitivo. A elitização do mercado de quadrinhos acompanha uma tendência que se verifica no cinema e no teatro.

Gilberto Maringoni, Carta Maior

Acabo de lançar um livro de histórias em quadrinhos. Chama-se "Tocaia", tem 110 páginas (algumas coloridas) e 14 histórias. Custa 45 reais. Não vou ficar aqui falando do que penso serem as qualidades do livro, o que seria o cúmulo do cabotinismo. Todo autor gosta de ter seu livro vendido, lido e comentado. Espero que todos comprem o livro.

Meu livro não é barato. Cada vez mais os quadrinhos deixam de serem veiculados em gibis e ganham as páginas de livros. Mais que uma mudança de forma, o que está em pauta é uma alteração no mercado de entretenimento, que se elitizou ao longo das últimas três décadas.

Um aficionado por histórias em quadrinhos dos anos 1980 que tomasse um túnel do tempo e fosse catapultado para uma grande banca de jornais dos dias de hoje, estranharia muita coisa. A primeira delas seria estar diante de uma pequena loja de conveniências. Doces, brinquedos, sorvetes, refrigerantes, CDs, DVDs e bugigangas várias teriam quase o mesmo destaque das publicações em papel. A segunda é que quase não encontraria gibis para adultos. Constataria o virtual desaparecimento daquelas publicações baratas, geralmente em branco e preto e impressas em papel jornal. Caso desejasse outras opções, além de quadrinhos infanto-juvenis, teria de ir atrás de uma livraria e gastar algo como dez vezes o que desembolsaria em um gibi.

O espantado leitor de 1980 descobriria que os gibis, com preços equivalentes a uma passagem de ônibus e tiragens acima de 100 mil exemplares, estariam basicamente limitados às edições dos personagens Disney e Mauricio de Sousa. Se formos rigorosos, veremos que apenas este último mantém acesa a velha tradição. É, disparado, o campeão de vendas. Mônica, Cebolinha e sua turma, cada qual em gibis próprios, tiram individualmente mais de 150 mil exemplares por mês, enquanto as revistinhas do criador de Mickey e cia. mal alcançam dez mil cópias cada uma.”
Artigo Completo, ::Aqui::

26 Outubro, 2009

Crises e história

Delfim Netto, CartaCapital

“O criador da sigla BRIC, Jim O’Neill, sabia bem o que estava dizendo quando fez rasgados elogios à conduta do governo brasileiro no enfrentamento da crise que abalou os mercados financeiros a partir de setembro de 2008. Ele anda pelo mundo como chefe de pesquisa econômica global do Goldman Sachs. Esteve em São Paulo recentemente para palestras aos clientes do banco e falou da capacidade que a equipe dirigente do País revelou no auge da crise. Sua referência ao papel desempenhado pelo chefe da nação brasileira foi superlativa: “Dá para argumentar que o presidente Lula é o melhor e mais bem-sucedido gestor político desta década em um grande país”.

Muitos brasileiros concordam. De outra parte, é natural que a oposição reaja amuada diante dos “exageros” de O’Neill, mas quem conhece um pouco da história econômica deve reconhecer que a atitude dos dirigentes políticos é sempre decisiva para enfrentar os momentos de pânico. É impossível negar que o exercício de liderança do presidente Lula foi fundamental para a adesão de empresários e trabalhadores aos estímulos de uma política que conservou empregos, manteve salários e sustentou níveis de consumo, possibilitando uma razoável normalidade à atividade econômica.

Ele foi às fábricas e sindicatos, convocou os empresários a Brasília e os convenceu a manter a produção na indústria. Recentemente, comentei o quanto foi decisiva essa conciliação entre empregados e patrões, diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos. O Brasil tem coisas extraordinárias e nem sempre estão no governo. Peguem o exemplo de como reagiram quatro grandes empresas internacionais e quatro grandes empresas brasileiras logo nas primeiras semanas do apagão financeiro. Os chefões americanos chamaram a rapaziada e disseram: “Procurem o seguro-desemprego e passem bem...” Aqui, as turmas se reuniram, tomaram uns chopes e acertaram a vida por alguns meses até as coisas melhorarem. Houve um mínimo de demissões e logo recomeçaram as contratações.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Raios, trovoadas e técnicos de informática

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Um raio desses enviados por São Pedro e minha placa de rede se foi. Aproveitando que a máquina já não era mais aquela, resolvi turbinar e tunar meu computador. As máquinas de escrever (datilografar ― algo que, na etimologia, continuamos a fazer) duravam mais. Até a vida inteira. Já troquei de computador incontáveis (e incontornáveis) vezes nesses quinze anos de "popularização da informática". E esta é minha enésima torre para um computador de mesa (em que escrevo bem mais confortavelmente do que em portáteis).

A placa de rede estava em curto-circuito. Umas coisas piscando sem parar, outras continuamente acessas. Tudo anormal. Uma peça esquentando demais. O pânico só não me acometeu porque eu havia feito cópias de segurança dos arquivos e, além do mais, o raio não queimara a máquina, apenas a placa que me liga à internet. Arre! Mas isso é muita coisa, camaradas. Ficar sem internet, hoje, é como estar alijado de um universo em que tudo acontece: trabalho, amigos, diversão, contatos, passado, presente e futuro, não necessariamente nessa ordem.

A decisão de desconectar tudo e correr para a assistência técnica mais próxima não podia demorar muito. Sem placa, nada de e-mails. Talvez essa fosse a questão mais grave. Em momento crítico da organização de várias coisas importantes, não ter e-mail é quase a falência dos eventos. A assistência técnica é ali na esquina, literalmente. O custo de vida aqui é menor do que em outras zonas da cidade, sem faltar nada, nem sobrar, o que também é importante. Os meninos que nos atendem na lojinha são caladões, mas resolvem nossos problemas com alguma eficiência. Talvez essa mesma eficiência custasse três ou quatro vezes mais em outro lugar.

Quem vai consertar computador está sempre com pressa, digo, a vítima. É como prestar serviços de revisão, em qualquer setor. As pessoas chegam contando histórias trágicas, de prejuízos e de prazos. O técnico que se vire com tanta encrenca alheia. Fiz o mesmo. Contei casos de prazos e projetos que poderiam ir por água abaixo. É claro que o técnico manteve um sorriso sutil no canto da boca, mas fez cara de quem compartilhava comigo aquela dor de não poder ler e-mails. Quase cheguei a pensar que o havia convencido de que minha máquina merecia mais e mais urgente atenção do que as tantas outras que deviam estar ali no andar de cima, na "oficina". Fiz a pergunta D: "Quando fica pronto? Hoje?". Ao que ele respondeu com um mal-disfarçado risinho de escárnio: "Amanhã ou depois, porque tem um bocado de máquina na frente". Pelo menos não me chamou de "dona". Já me dei por satisfeita. Esses meninos são educados, negociantes educados.”
Artigo Completo, ::Aqui::

25 Outubro, 2009

Fé ou razão?

Marcos Vinícius Almeida, Revista Bula

“Questão complicada, leitor. Tão complicada que foi o tema dos grandes debates teológicos da Idade Média e fez muita gente virar churrasquinho. Não é de hoje que se mata em nome de Deus. O Cristianismo, depois que se tornou a religião oficial do estado romano, vestiu a roupagem do racionalismo de Platão e Aristóteles na edificação da doutrina e, com isso, precisou conciliar a fé cega dos cristãos com a lucidez da filosofia.

A definição de fé, para além da crença vulgar, pode ser encontrada nas palavras de Paulo em carta aos Hebreus: “Fé é a garantia das coisas esperadas e a prova das que não se veem.” Mas que garantia é essa? Que coisas são essas que não vemos? Como dar crédito a crença cega? Afinal, o que é a fé?

São Tomas de Aquino, vai dizer o seguinte: “Quando se fala de prova, distingue-se fé da opinião, da suspeita e da dúvida, coisas em que falta a firme adesão do intelecto ao seu objeto. Quando se fala de coisas que não se veem, distingui-se a fé da ciência e do intelecto, nos quais alguma coisa se faz aparente. E quando se diz garantia das coisas esperadas faz-se distinção entre a virtude da fé e a fé no significado comum(vulgar), que visa à bem-aventurança.” Pode-se notar que Aquino lança a fé sorrateiramente um degrau acima da ciência, apesar de não haver contradição entre ambas, ou seja, as verdades reveladas não contradizem as verdades racionais, elas se complementam. Até aí, fora os crematórios, Concílios, um tira e põe de evangelho, tudo certo.

Num belo dia, um alemão provinciano de rotina bem medíocre entestou com uma ideia besta: “Vou colocar a razão num tribunal!” Pois é, leitor. Falta de mulher deixa o caboclo sem noção...

Mas o tal de Kant, matutou, matutou e chegou a um veredito: Senhores, a ré, razão lógico-discursa-ocidental, não pode penetrar na raiz da realidade; há um limite para o conhecimento; o homem está condenado a conhecer o finito.”
Artigo Completo, ::Aqui::

24 Outubro, 2009

Por que as mulheres odeiam os homens

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Pois saibam os estimados milhares e milhares de leitores que, muito frequentemente, leitoras me pedem para falar sobre um assunto que essa coluna se orgulha em ignorar por completo, ou seja, homens.
Homens? Homens, para esse neto da minha avó Jovita se localizam mais ou menos entre jogos de beisebol, torneios de golfe e novelas do SBT. Nada mais previsível, óbvio e sem graça. Mas, no esforço de agradar, selecionei, entre os milhares de e-mails com perguntas de leitoras ávidas por conhecimento, uma carta, que passo a responder aqui, agora.

Amiga,
Permita que eu me dirija assim, com uma certa intimidade. Em primeiro lugar, permita que eu responda a questão central, mesmo que não formulada no seu mail: Não, ele não quer ser seu amigo. Pior, ele não quer ser sua amiga. Pronto. Vamos às suas perguntas:

1 - Os homens são mesmo frios e insensíveis como parecem ser?
Amiga! Nada mais equivocado. Os homens não são nada insensíveis, tanto que nas horas vagas fazem coisas como compor a Nona de Beethoven, pintar girassóis e construir a Notre Dame. Eles apenas são seres práticos. Se acharem que a noite foi ótima, mas vocês não foram feitos para caminharem juntos pela vida, não vão ligar no outro dia. Mas isso não é frieza e sim, economia. Somos mais insensíveis somente no sentido em que conseguimos lidar melhor com rejeições. Assim, de certa maneira, podemos nos considerar vencedores, por sermos melhor adaptados a sobreviver nessa selva de desencantos que é a vida amorosa de todos nós.

2- Os homens são mesmo vira-latas?
Amiga, amiga. De onde você tirou essa idéia? Os homens são fidelíssimos, especialmente a si mesmos. O que você precisa compreender é que há aproximadamente 65 mil anos, dizem, um vulcão explodiu em Sumatra e sobraram pouquíssimos humanos sobre a Terra. O lado bom é que não teríamos coisas como axé, o templo da Legião da Boa Vontade ou a culinária inglesa. Por outro lado o universo ficaria sem ninguém que pudesse contemplar as estrelas e saber que ele existe. Portanto, os homens se sentiram no dever cívico de renovar a população da Terra, com enorme sacrifício pessoal. Mas, assim que a Groenlândia parar de degelar, prometemos fazer uma cerquinha e nunca, nunca mais pular pro outro lado.

3 - Os homens fantasiam durante o sexo com a gente?
Não, amiga. Durante o sexo, enquanto as mulheres estão ali, olhando e pensando que a lâmpada do teto precisa de uma limpeza, ou que o carpete merece ser trocado, ou que a parede ficaria melhor com um tom mais claro, ou ainda no vizinho barriga de tanquinho do 307, o homem reflete única e exclusivamente no quanto ama e idolatra a sua parceira, e se concentra em adiar ao máximo o seu orgasmo pra não apanhar depois.

4 - Os homens não gostam de ser casados?
Amicíssima, os homens adoram o casamento! O problema está no atual modelo de matrimonio. O casamento deveria ser, na verdade, deveria ser a união entre um homem, uma mulher e a melhor amiga dela. Isso, além das possibilidades pra lá de interessantes, estabilizaria a relação. As mulheres passariam a ter alguém com quem compartilhar Weltanschauungen, suas visões de mundo, e ainda resolver todas as dúvidas na escolha da combinação de roupa e sapatos, em vez de simplesmente ter um cara chato reclamando do atraso para ir ao cinema.

5 - O que os homens querem quando nos convidam para sair?
Bom, essa é fácil. Ele não quer ser seu amigo. Aliás, por que iria querer? Para amigos, ele já tem os seus amigos homens.”
Artigo Completo, ::Aqui::

23 Outubro, 2009

Para que se conheça quem foram Lamarca e Zequinha Barreto

Eduardo Sá, Fazendo Media

“Para entender a importância do evento é preciso conhecer o seu propósito: resgatar a memória dos militantes Carlos Lamarca e Zequinha Barreto, além daqueles que sofreram no processo de resistência na região. Muitos deles morreram e foram torturados. Tentaram emplacar um movimento a partir da guerrilha do campo para a cidade, contra a ditadura militar instalada no Brasil em meados da década de 60.

O primeiro a escrever sobre essa história foi Emiliano José, jornalista co-autor de Lamarca – o capitão da guerrilha, hoje deputado federal pelo PT da Bahia. Emiliano também participou do evento. Na obra, ele descreve a trajetória de Lamarca, desde seu ingresso no exército militar aos 17 anos, quando chegou a atingir a patente de capitão, até sua morte.

Lamarca era um oficial exemplar, mas se deparava com o dilema de estar, em tese, a serviço do povo brasileiro e, na prática, tendo que oprimí-lo. Em 1960, declarado oficial-aspirante, foi designado para servir em São Paulo, no 4º Regimento de Infantaria, em Quintaúna, Osasco. Nessa época, já observava as movimentações comunistas dentro dos quartéis. Em 1962, ocorre um marco: serve pelas forças da ONU na ocupação do Canal de Suez, Oriente Médio. Nessa viagem, toma “maior consciência da pobreza” e acaba se rebelando anos à frente.

Toda sua teoria, acumulada em leituras, passaram à prática. Em 1964, promove a fuga do capitão da aeronáutica Alfredo Ribeiro Dandt, acusado de atividades subversivas. Num ambiente cada vez mais desagradável com a oficialidade, parte para Quitaúna, em Osasco, novamente. Em 1969, já envolvido com movimentos revolucionários, principalmente com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), rouba do quartel armas e munições para a resistência à ditadura, indo para a clandestinidade com a guerrilha em mente.”
Artigo Completo, ::Aqui::

22 Outubro, 2009

A privatização da consciência

"Crueldade, indiferença, egoísmo e assemelhados não são uma novidade, tampouco burrice, alienação e hipocrisia. Já grandeza ou dignidade continuam escassíssimas"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Lendo no blog do Miguel do Rosário a respeito do novo cinismo e a ausência absoluta de espírito solidário dos jovens das classes médias urbanas, filhotes do espírito neoliberal (sobretudo no Rio e em São Paulo), sinto que, no limite, eles estão em sintonia com as novas (e tão velhas) concepções históricas das guerras como um negócio. Ou das guerras como permanentes – “guerra é paz”, já escrevia George Orwell em 1984, um livro de 1934. A crueldade, a indiferença, o egoísmo, a injustiça e assemelhados não são exatamente uma novidade no mundo, tampouco burrice, alienação e hipocrisia. Já grandeza ou dignidade continuam escassíssimas. Sem contar que o Brasil é um país com poucas guerras em seu passado histórico, o que torna tais cínicas posições neoliberais especialmente alienadas.

Autor do livro O negócio da guerra (ainda não traduzido no Brasil), o pesquisador italiano Dario Azzelini argumenta que "a guerra não é mais para instalar outro modelo econômico, ela é o modelo". Em entrevista ao jornal argentino Página 12, divulgada esta semana em
www.cartamaior.com.br, ele traça um painel bastante preciso de como a idéia da guerra se transformou sob a lógica neoliberal: "O sentido da guerra mudou. Tradicionalmente, era para trocar as elites e o controle das economias, ou introduzir outro modelo de domínio econômico ou político. Agora, em muitos casos, as guerras são permanentes. Não se faz a guerra para implementar outro modelo econômico, mas a guerra mesmo é o mecanismo de lucros".

No debate acadêmico e político, a expressão “novas guerras” foi introduzida para denominar o fato de que mais e mais guerras não se dão mais entre países, mas no interior dos países (a guerra contra os civis!) ou, pelo menos, entre um Exército regular e um irregular. Não é que tenham acabado as guerras entre Estados. Ao contrário, na última década, houve aumento. Mas elas mudaram, e a porcentagem das guerras irregulares em comparação com as regulares está crescendo. Isso obedece à lógica neoliberal de aumentar lucros. Agora, em muitos casos, as guerras são permanentes.

Por exemplo, os lucros da Colômbia se devem ao fato de ser um país em guerra permanente há anos. Aliás, durante os últimos 20 anos, a passagem da pequena e média agricultura para a agroindústria se fez com uma guerra. Não fosse assim, não teria sido possível expropriar as terras de milhões de camponeses e fazer “uma reforma agrária ao contrário”, na qual os latifundiários e paramilitares se apropriaram de 6 milhões de hectares de terra. Naomi Klein já discorreu extensamente sobre o “Plano Marshall ao contrário” implantado pelo governo Bush no Iraque.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Querendo ser Deus?

Leonardo Boff, Adital

“Rose Marie Muraro é uma mulher impossível. Com extrema limitação de vista e de saúde escreveu 35 livros e editou cerca de outros 1600. Foi pioneira do feminismo brasileiro. Seu estudo sobre a sexualidade da mulher brasileira, publicado pela Vozes de Petrópolis se transformou num clássico seja pela metodologia seja pelas categorias de análise.

Formada em física, sempre se preocupou com a tecnologia e sua incidência no destino humano. Agora, no avançado dos anos e após muitas pesquisas e manejando mole imensa de fontes, informações e autores nos entrega um livro-síntese com o titulo Os avanços tecnológicos e o futuro da humanidade: querendo ser Deus? É uma publicação da Editora Vozes de Petrópolis da qual foi por 17 anos diretora editorial.

O subtítulo ‘Querendo ser Deus?’ define a perspectiva de sua análise e ao mesmo tempo faz ecoar uma denúncia contra o tipo de ciência e de tecnologia dominantes na história. Na verdade, faz um soberano rastreamento histórico da tecnologia desde os alvores da humanidade quando há mais de dois milhões de anos surgiu o homo faber, aquele que, por primeiro, utilizou o instrumento para se impor à natureza, passando pelos vários períodos históricos com suas respectivas revoluções até chegar aos tempos contemporâneos da engenharia genética, da robótica, da nanotecnologia, da biologia sintética para culminar na fusão entre homem e máquina.

O que Rose nos mostra, ao longo de seu livro, é o calvário da Terra e a lenta e progressiva crucificação da vida e da natureza através do poder da tecnociência, posta a serviço da vontade de poder na sua concretização mais crua e cruel no capital/dinheiro.

Mas nem sempre foi assim. Primitivamente o saber e a técnica estavam a serviço da solidariedade e da partilha, atendendo as demandas humanas e aliviando o peso da vida. Mas do momento em que surgiu a moeda e ela se fez a mediação exclusiva para todas as trocas e se transformou ela mesma em mercadoria com preço (juros) se produz uma perversa revolução. Passa-se da cooperação para a competição, do cuidado para a agressividade. O que vige então é o ganha/perde e não o ganha/ganha. A sociedade é conflitiva com exércitos, muitas guerras e grandes mortandades.

Os senhores do dinheiro sujeitam a si as pessoas, controlam a sociedade e decidem que saber e que técnica cabe desenvolver para reforçar seu poder. Não se produz para a vida mas para o mercado. Não se inventa para a sociedade mas para o lucro.”
Artigo Completo, ::Aqui::

21 Outubro, 2009

Samuel e a estratégia

Mauro Santayana, JB Online

“O presidente Lula pretende conhecer os termos do acordo que permite a Washington manter bases militares no território colombiano. A leitura do texto não será suficiente para conhecer a extensão do convênio. É comum a existência de cláusulas secretas. Além disso, a flexibilidade, no cumprimento de qualquer acordo, em geral favorece a parte mais forte.

A atitude de Lula, no entanto, vale por duas razões. Ela manifesta a natural desconfiança do continente, de que, com todas as declarações em contrário de Uribe e Obama, os Estados Unidos estejam usando do pretexto das drogas e das Farc para manterem suas tropas na América do Sul. A experiência demonstra que o problema das drogas só se resolverá quando se combater o seu consumo, e não a sua produção. O maior mercado de consumo é o dos Estados Unidos. Se um dia não houver um só arbusto de coca no mundo, nem uma só papoula, outras drogas serão sintetizadas, a fim de produzir o mesmo efeito da cocaína e da heroína, além das que já estão no mercado. Quanto às Farc, trata-se de um problema interno da Colômbia. Elas só serão um problema para os vizinhos, se os seus combatentes ultrapassarem as fronteiras. Nesse caso, cabe ao país violado tomar as medidas que considerar adequadas.”
Artigo Completo, ::Aqui::

20 Outubro, 2009

"Bastardos Inglórios" chega perto da obra-prima


André Setaro, Terra Magazine

“O cinema de Quentin Tarantino é uma 'farra' de referências e de alusões cinematográficas, um cinema construído com a memória dos filmes vistos que se reprocessam na estrutura narrativa de seus filmes. O que poderia parecer, à primeira vista, uma colcha de retalhos, uma miscelânea, adquire, porém, um vigor próprio, e se conflui num estilo particular a ponto de se sentir em seus personagens um "homus tarantinianus".

"Bastardos inglórios" ("Inglourious Basterds", 2009) é, a rigor, um filme sobre cinema, uma festa para os cinéfilos, 153 minutos de ação e emoção, e as influências do autor, adquiridas na visão obsessiva de filmes e filmes, adquirem, aqui, um caráter, poder-se-ia dizer, de "fraturas expostas". Mas o que Tarantino recolhe de sua memória, de seus "recuerdos", enquanto espectador, é um material que sofre um processo de manipulação, de marchas e contramarchas, de subversão dos clichês (não apenas pela pretensão de subvertê-los, mas como um recurso de seu estilo, de sua maneira de pensar e refletir o cinema visto), uma manifestação ou, mesmo, uma declaração explícita de amor a determinados "modos" de fabulação e, mais importante, da maneira pela qual o específico cinematográfico é "posto em cena." O resultado de "Bastardos inglórios" é uma obra que revigora e que vem atestar a criatividade num momento em que a arte do filme se encontra no atoleiro da mesmice e da inexistência de inventores de fórmulas.

A apontada subversão de clichês se dá, na estrutura narrativa de "Inglorious basterds", pela frustração das expectativas convencionais. Quando o filme parece que se encontra a tomar um rumo determinado, há uma reviravolta capaz de frustrar o espectador habituado à convenção da linguagem cinematográfica e de levá-lo a ter uma surpresa. Tarantino manipula a "mise-en-scène" com um objetivo bem precípuo: o de dar ao espectador o prazer do cinema e fazer deste um exercício de liberdade criadora.

Uma subversão, por assim dizer, partida mesmo do próprio "plot". A ação, que transcorre durante a Segunda Guerra Mundial, as costumeiras vítimas dos filmes de guerra da época, os judeus, assumem, em "Inglorious basterds", a condição de vingadores brutais num processo de inversão. A Alemanha ocupa a França da liberdade, igualdade e fraternidade, e, nos seus primeiros anos, uma mulher, Shoisanna (Mélanie Laurent) testemunha a execução de sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz em interpretação impressionante). A judia sobrevivente ao massacre, no entanto, consegue escapar e foge para Paris, onde muda o seu nome e assume a identidade de uma dona de um cinema 'poeira'. Em outro lugar da Europa, o tenente Aldo Raine (Brad Pitt, outra excelente composição de personagem e mais impressionante ainda em se tratando de Pitt) prepara um grupo de soldados judeus americanos, "os bastardos", que objetiva espalhar o terror contra os alemães e eliminar os líderes do Terceiro Reich.”
Foto: Reprodução
Artigo Completo, ::Aqui::

A mulher tem direito a uma vida livre de violência

Fábio Pierdomenico, Mpost

“Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social”.

Este é o teor do artigo 2º da Lei Maria da Penha, tônica para as reformas, a partir desse diploma, no arcabouço legal de nosso país, no âmbito criminal, visando mais proteção para a mulher contra a violência doméstica.

Com a Lei nº 11.340/06 criou-se marco na luta contra a violência doméstica no Brasil. A lei foi sancionada no dia 07 de agosto de 2006 e recebeu o nome de “Lei Maria da Penha” para homenagear a farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia, vítima de duas tentativas de homicídio por parte de seu ex-marido.

Maria da Penha possibilitou cidadania espetacular para todas as mulheres do nosso país, que vivem em situação de risco de violência na maioria das vezes dentro do próprio lar. Ela mesma, infelizmente, ficou paraplégica em razão de agressões.

O referido diploma legal teve como principal objetivo criar mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil.

Dispôs, também, sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e estabeleceu medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. É forçoso esclarecer que o direito pátrio já admitia diversas formas de proteção à mulher, embora genericamente, na medida em que igualava, na Constituição Federal, homens e mulheres nos termos da Lei.

Nada obstante, via-se que as garantias alcançadas apenas com os instrumentos então existentes nesse tratamento igualizador, eram ineficientes para proteger a mulher contra seu agressor onde se encontrava mais fragilizada: dentro de casa.

Assim, de um modo especial, a Lei Maria da Penha inovou ao definir como formas de violência doméstica contra a mulher, a violência física, a violência psicológica, a violência sexual, a violência patrimonial e a violência moral, agravando, com isso, as penas aplicáveis ao ofensor.”
Artigo Completo, ::Aqui::

19 Outubro, 2009

Gambiarra - criatividade tática

Felipe Fonseca e Hernani Dimantas, NovaE

"A gambiarra aparece como a arte de fazer. A re-existência do faça-você-mesmo. Sem todo o ferramental, sem os argumentos apropriados, mas com o conhecimento acumulado pelas gerações. Fazer para modificar o mundo. Um contraponto ao empreendedor selvagem. Fazer para transformar aquilo que era inútil num movimento ascendente de criatividade. A inovação está presente no DNA pós-moderno, no pós-humano. Numa vida gasosa. Abrimos aqui parênteses para fazer uma crítica ao Bauman com suas diversas modernidades líquidas. O líquido se acomoda ao recipiente. Seja um copo, um vaso ou apenas a terra contra a qual o oceano se deixa existir. O gasoso flui no espaço, no tempo e no ser em existência. Não só líquida ou gasosa, a pós-modernidade é a multiplicidade de estados que se misturam, na confluência da Ipiranga com a São João, na co-existência de todos os níveis de desenvolvimento econômico e tecnológico. Uma gambiarra que remixa, modifica, transforma e se mistura.

Traço comum da inventividade cotidiana, do improviso, da descoberta espontânea, da transformação de realidades a partir da multiplicidade de usos. O mais trivial dos objetos, lotado de usos potenciais: na solução de problemas, no ornamento improvisado, na reinvenção pura e simples. O potencial de desvio e reinterpretação em cada uso. A inovação tática, acontecendo no dia a dia, em toda parte.

Gambiarra é um termo em português que no dicionário denota uma extensão elétrica, mas ali no mundo real adotou (naturalmente?) outro significado ao qual só podemos tentar aproximações:
improviso, solução temporária, bricolage, desconstrução, precariedade. É tida como consequência de uma sociedade ainda não totalmente amadurecida: como não temos as estruturas apropriadas, as ferramentas adequadas, os profissionais especializados (ou o dinheiro para contratá-los), a gente improvisa. Desloca a finalidade desse e desse objeto, soluciona as coisas por algum tempo, e assim vai levando.

Mas a gambiarra é muito mais do que isso. O ideal de sociedade hiper-especializada, com conhecimento compartimentado, guardado em gavetinhas e vendido em embalagens brilhantes, já deu sinais de esgotamento. A aceleração da aceleração do crescimento econômico já começou a vacilar (e nem vamos falar em crise, ok?). O modelo de desenvolvimento do século XX não fechou a conta: os países ricos não conseguiram integrar as populações de imigrantes, criaram uma sensação de estabilidade e prosperidade totalmente ilusória, transformaram toda produção cultural e toda solução de problemas em comércio. Em nome do pleno emprego e de uma sociedade totalmente funcional, as pessoas comuns perderam uma habilidade essencial: a de identificar problemas, analisar os recursos disponíveis e com eles criar soluções. Em vez de usar a criatividade para resolver problemas, as pessoas pegam o telefone e o cartão de crédito. Todos vítimas da lógica do SAC!”
Artigo Completo, ::Aqui::

Estamos bem de mídia

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Quem se lembra da brasileira Paula Oliveira, aquela que moça que inventou a história de que estava grávida e teria sido atacada e torturada por um grupo de neonazistas na Suiça? Pois é, isso foi no início deste ano e os jornais e as TVs nunca mais falaram no caso. Trataram de tirar o corpo fora da barriga em que estavam entrando por conta da notícia dada em “primeira mão” por Ricardo Noblat, blogueiro do jornal O Globo.

Tudo começou quando o pai da moça, um funcionário público graduado em Brasília, acionou o blogueiro do Globo. Noblat, jornalista tido como experiente, com passagens por outros poderosos jornais, comprou a briga sem fazer o minimo que qualquer jornalista deve fazer quando ouve uma história dessa gravidade: não checou a veracidade da informação que estava recebendo de um amigo. Partiu para a denúncia que logo revoltou o país, quando a TV Globo entrou na parada.

Daí em diante foi um deus nos acuda. As principais emissoras e jornais do país despacharam equipes de reportagem para a Suiça, todos prontos para pegar em armas para defender o orgulho brasileiro ferido por um bando de delinquentes neo-nazistas e policiais desonestos que duvidavam da história de Paula. Bom senso, zero.

Fotos da barriga e dos cortes feitos milimetricamente pelos skinheads na barriga e nas pernas da jovem brasileira aumentavam a revolta dos brasileiros. Incendiados por telejornais mentirosos, normalmente, e sensacionalistas, em outras cocasiões, encheram de revolta a população brasileira. Diante do clamor popular, até o presidente meteu a colher no assunto para dizer que “condenava a violência crescente contra a mulher brasileira no exterior”. Por pouco não declarou guerra à Suiça.”
Artigo Completo, ::Aqui::

18 Outubro, 2009

Brasil, país de velhos

Frei Beto, Adital

“O Brasil está cada vez mais velho. Daqui a 20 anos a pirâmide da faixa etária brasileira vai virar de cabeça para baixo. O número de idosos com mais de 80 anos crescerá 6% ao ano (hoje, aumenta 4% ao ano), enquanto haverá queda de fecundidade e a população total começará a diminuir. Em 2010 começará a decrescer a faixa entre 15 e 29 anos. São dados da pesquisa de Ana Amélia Camarano, do Ipea.

Na década de 1980, acreditava-se que a população brasileira chegaria aos 200 milhões em 2000. Não chegou. Hoje, somos 190 milhões. Devido à queda de fecundidade - hoje, de 1,8 filho por mulher - só atingiremos aquele patamar em 2020. Em 2030 o Brasil terá 206,8 milhões de habitantes. Dez anos depois cairá para 204,7 milhões.

Tais mudanças terão impacto na previdência social, que hoje dá cobertura a 60% da força de trabalho do país, sem, no entanto, alcançar os 33,2% de trabalhadores informais.

Haverá também efeitos no mercado de trabalho. Para evitar um número excessivo de inativos, o país terá de investir em saúde ocupacional e derrubar os preconceitos contra o trabalho de idosos. Em alguns países, idosos têm preferência em certas ocupações profissionais.

As grandes famílias, como a minha -8 irmãos-, ficam para os álbuns de retrato. Hoje, a média nacional, tanto entre ricos quanto entre pobres, é de 2,2 filhos por família.

No Brasil, o número de idosos (21 milhões) já supera o de crianças (19,4 milhões). O Rio de Janeiro é o estado com o maior índice de pessoas com mais de 60 anos (14,9%).”
Artigo Completo, ::Aqui::

16 Outubro, 2009

O individualismo tem ainda futuro?

Hoje precisamos de uma hiperdemocracia que valorize cada ser e cada pessoa e garanta a sustentabilidade do coletivo que é a geosociedade nascente”, escreve Leonardo Boff, teólogo. Segundo ele, “o arraigado individualismo (dos EUA) projetado para o mundo se mostra absolutamente inadequado para mostrar um rumo para o “nós” humano. Esse individualismo não tem mais futuro”.

Leonardo Boff, Envolverde

Há hoje nos EUA uma crise mais profunda do que aquela econômicofinanceira. É a crise do estilo de sociedade que foi montada desde sua constituição pelos “pais fundadores”. Ela é profundamente individualista, derivação direta do tipo de capitalismo que ai foi implantado. A exaltação do individualismo ganhou a forma de um credo num monumento diante do majestoso Rockfeller Center em Nova York, no qual se pode ler o ato de fé de John D. Rockfeller Jr:”Eu creio no supremo valor do indivíduo e no seu direito à vida, à liberdade e à persecução da felicidade”.

Em finas análises no seu clássico livro “A democracia na América”(1835) o magistrado francês Charles de Tocqueville (1805-1859) apontou o individualismo como a marca registrada da nova sociedade nascente.

Ele sempre foi triunfante, mas teve que aceitar limites devido à conquista dos direitos sociais dos trabalhadores e especialmente com surgimento do socialismo que contrapunha outro credo, o dos valores sociais. Mas com a derrocada do socialismo estatal, o individualismo voltou a ganhar livre curso sob o presidente Reagan a ponto de se impor em todo o mundo na forma do neoliberalismo político. Contra Barack Obama que tenta um projeto com claras conotações sociais como a saúde para todos os estadounidenses e as medidas coletivas para limitar a emissão de gases de efeito estufa, o individualismo volta a ser reproposto com furor. Acusam-no de socialista e de comunista e até, num Facebook da internet, não se exclui seu eventual assassinato caso venha a cortar os planos individuais de saúde. E note-se que seu plano de saúde nem é tão radical assim, pois, tributário ainda do individualismo tradicional, exclui dele todos os milhões de imigrantes.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Os brancaleones da modernidade

Taeco Toma Carignato, Terra Magazine

“Brancaleone continua muito atual. Que a gripe suína nos confirme. A genial cena em que o atrapalhado cavaleiro medieval, líder de um exército de guerreiros maltrapilhos, sente-se conquistador de uma cidade (da qual sabe sequer o nome) lembra muito as nossas modernas reações. Quando é informado sobre o motivo do esvaziamento da cidade, o fogoso cavaleiro larga a dama que levava nos braços e sai gritando: a peste, a peste. Isso também acontece hoje: ou ignoramos a virulência da gripe e enfrentamos valentemente a multidão contaminada ou recuamos horrorizados frente à impossibilidade de controlar o grande Mal.

Brancaleone e seu exército esfarrapado (brilhantemente focados no cinema por Mário Monicelli) que perambulavam nos tempos medievais marcados pela guerra, peste e fome, também se reatualizam em outras situações dos nossos tempos modernos. Os exércitos brancaleones de hoje são constituídos por trabalhadores migrantes descartáveis, verdadeiras vidas nuas que, na acepção do filósofo italiano, Giorgio Agamben, não servem nem para o sacrifício. Podem ser vistos como homo sacer, essa figura do Direito Romano arcaico que pode ser eliminada sem lhe atribuir qualquer rito sacrificial que lhe permitiria, pelo menos com a morte, o reconhecimento público simbólico. Biologicamente vivos, são despidos de qualquer significado e sentido da existência.

Tomemos como exemplos, os trabalhadores brasileiros nas linhas de produção japonesas, os chamados decasseguis. Submetidos aos braços mecânicos, à inteligência artificial e aos processos desumanizantes de uma lógica de produção avançada, esses trabalhadores buscam no consumo o sentido para a sua existência. Pois "ganhar dinheiro" - a máxima para os imigrantes do final do século XIX e início do século XX - tornou-se, nas sociedades avançadas, tão corriqueiro quanto "gastar dinheiro".

Como "ganhar dinheiro" deixou de fazer-lhes sentido, esses trabalhadores perambulam entre a casa e a fábrica (os que se dedicam à poupança) e entre as fábricas, as lojas de departamentos, as baladas, as boates e as drogas (os que se atiram à gastança). Se Brancaleone e seu exército maltrapilho visavam à conquista de Aurocatro, os trabalhadores brasileiros não buscam a conquista do Japão, nem sequer de uma posição digna na sociedade nipônica. Muitos deles não sabem porque estão lá.

O dinheiro, mesmo realizando trabalhos sujos, pesados e perigosos, tornou-se facilmente acessível nas sociedades da abundância, deixando de ter um sentido próprio. Para os imigrantes que buscam a acumulação, tendo o seu uso postergado, o dinheiro não significa nada a não ser o medo de perdê-lo. Para os que o colocam em circulação por meio do consumo, também não lhes traz sentido, pois pouco tempo fica em suas mãos. O apego aos bens materiais, tal como acontece com Abacuc, o velhinho judeu que acompanha Brancaleone, sobrepõe-se ao seu próprio desapego psíquico e social em um país que os rejeita e quer mandá-los para casa. Como Abacuc, são tomados como bodes expiatórios quando algo vai mal.”
Foto: Getty Images
Artigo Completo, ::Aqui::

Rio 2016 pelo fim do complexo de vira-latas

Marcelo Spalding, Digestivo Cultural

Em 1958, há meio século, Nelson Rodrigues publicou aquela que se tornou sua mais célebre crônica: "Meu personagem da semana: o escrete"*, na qual cunhou o termo "complexo de vira-latas", até hoje utilizado para ilustrar a "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo", nas palavras de Nelson. A crônica se referia ao escrete canarinho que embarcava para a Copa do Mundo de 1958. Dizia Nelson:

"Eis a verdade, amigos: ― desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios na última batalha ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. (...) E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: ― é ainda a frustração de 50 que funciona".

O final dessa história todo mundo conhece: com Didi, Zagallo, Mazzolla, Garrincha e Pelé o Brasil se consagrou campeão vencendo a Suécia, os donos da casa, por 5 a 2, depois de sair perdendo. Um título inesquecível que abriu caminho para a seleção mais vitoriosa do mundo, hoje com cinco Copas, e projetou aquele que se tornaria o maior jogador de futebol de todos os tempos: Pelé.

Dois de outubro de 2009, meio século depois da célebre crônica de Nelson Rodrigues e do grande título brasileiro, aconteceu de novo. E Pelé estava lá. E Pelé chorou como criança, como aos 17 anos chorara em Estocolmo, sob os olhos emocionados de autoridades do mundo todo: o Brasil vencia uma disputa mundial e o Rio de Janeiro era escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

No Rio, a euforia foi geral, pois o apoio da população era enorme. Mas aqui e ali começaram a se ouvir muxoxos, críticas, ironias: como um país com tantos problemas de saúde, educação, segurança pode se dar ao luxo de sediar um evento deste porte? Quanto ganharão os políticos e as empreiteiras? O que se poderia fazer com os bilhões que serão investidos até 2016?

Nenhuma dessas perguntas escapa a nenhum brasileiro, nem a Nuzman, o herói dessa conquista, nem a Pelé, o emblema do Brasil esportivo, nem a Lula, o fiador deste novo país que se abre para o mundo. E por isso mesmo me parece incrível que mais de 60 autoridades olímpicas dos mais variados continentes, na hora de apertar o botão e escolher entre Madrid e sua riqueza, Madrid e sua estabilidade, Madrid e sua tradição ou o Rio de Janeiro e seus problemas, o Rio e sua incerteza, o Rio e sua inexperiência tenham escolhido o Rio. Foi o mundo que escolheu o Rio, foi o mundo que apostou no Brasil de uma forma que poucos brasileiros teriam apostado. Porque nós ainda temos complexo de vira-latas.”
Artigo Completo, ::Aqui::

14 Outubro, 2009

A grande imprensa e o profissionalismo. Profissionalismo?

A pauta para investigar a grande imprensa hoje pode ser a seguinte: até onde os coleguinhas - fala-se daqueles mais velhos - acreditam no que escrevem? E por que mesmo que a todo o momento exigem a chancela patronal para exporem seus pontos de vista? Onde é mesmo que a palavra "profissionalismo" entra nesta história?

Enio Squeff, Carta Maior

Das críticas que se faz à grande imprensa, há sempre uma constante: a mídia teria abdicado de toda e qualquer imparcialidade, para cumprir o mandamento patronal de jamais conceder ao governo; ou à imagem que ela própria construiu do governo. Fala-se pouco ou quase nada de um problema cada vez mais crônico - a absoluta, a quase inacreditável falta de profissionalismo na composição do que cada dia se caracteriza mais em mais, como tão somente, armações jornalísticas. Ao que parece, aquele aforismo de Voltaire :"Menti, menti, algo restará" seria ainda aplicável num mundo informatizado e, bem pior, num país em que a cada ataque ao presidente Lula, mais e mais a sua popularidade aumenta.

Franklin Martins, quando ainda não era ministro, disse sobre a revista "Veja" (de quem ele ganhou um processo por injúria e difamação), que a "Veja era a maior inimiga da Veja". Seria de se lembrar a recente capa da revista em que à evidência de que o Itamaraty iria vencer a parada em Honduras, era insistiu em que a condução do "affair" pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil, era um rotundo fracasso? Será que algum jornalista ou editor da revista acha mesmo que sem o apoio expresso dos Estados Unidos, os golpistas de Honduras conseguirão se impor?

Nenhuma destas perguntas são respondíveis. Fica só a evidência de que não apenas a Veja mas os jornais e revistas do País, em sua esmagadora maioria, são mesmo inimigos de si próprios. O fato intriga. Para qualquer sujeito de meia idade que cumpriu boa parte de seus anos de jornalismo nos jornalões e revistonas brasileiras, nunca era evidente, que o que se queria seria, realmente, a verdade. Talvez seja especioso discutir se grande parte da população brasileira era a favor da ditadura militar; no entanto, era razoável que se admitisse o fato. Só que não eram poucos os jornalistas mais velhos, os decanos das redações, que, mesmo não sendo favoráveis à milicada e ao seu regime, insistiam na tese de que o povão bem que o tolerava. Vivia-se o pleno emprego: que diferença fazia que, além dos presos comuns de sempre, jovens militantes e velhos homens de esquerda, estivessem sendo massacrados nos presídios? Para quem trabalhou na mídia da época, era decepcionante, mas era isso mesmo. Não havia como escamotear o fato, a inventar uma revolta que o povo não sentia.

Digamos, então, que a pauta para investigar a grande imprensa hoje deva ser a seguinte: até onde os coleguinhas - fala-se daqueles mais velhos - acreditam no que escrevem? E por que mesmo que a todo o momento exigem a chancela patronal para exporem seus pontos de vista? A isso soma-se um fato ainda mais constrangedor: onde é mesmo que a palavra profissionalismo entra nesta história, se a dimensão da farsa é muito maior que as evidências que inventam o contrário?”
Artigo Completo, ::Aqui::

O que explica Rio-2016? A vocação inata do Brasil para a felicidade


Juan Arias, El País / UOL

O fato de o Rio de Janeiro ter ganhado a disputa para hospedar os Jogos Olímpicos de 2016, deixando para trás cidades de grande prestígio como Madri, Chicago e Tóquio, já foi analisado de todas as formas. Tudo foi dito. Que a América do Sul já merecia uma Olimpíada. E é verdade. Que o Brasil é hoje a potência econômica emergente da região. Também é verdade, assim como que boa parte da vitória se deveu à enorme popularidade mundial do carismático ex-metalúrgico e hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E com ele a atuação do deus do futebol, Pelé, e do mago carioca Paulo Coelho, que soube ganhar a simpatia das mulheres dos delegados do Comitê Olímpico Internacional (COI), as quais convidou para jantar em um restaurante em Copenhague, em um clima de felicidade brasileira. Ou terão sido só as imagens das belezas únicas da mágica cidade carioca? Também, mas não só.

Existe outro elemento pouco destacado, que é a vocação inata do Brasil e dos brasileiros para a felicidade, que acaba se irradiando internacionalmente, contagiando o mundo.

Se houvesse sido feita uma pesquisa nacional, teria aparecido que nesse dia 100% dos brasileiros se sentiram felizes quando o presidente do COI abriu o envelope e apareceu Rio de Janeiro como vencedora da competição para realizar os Jogos Olímpicos de 2016. Os brasileiros, que gozam de uma formidável coesão nacional, estão sempre abertos para acolher qualquer motivo para ser felizes. E abrigar os jogos lhes causou orgulho e felicidade. E não escondem isso - outra característica do brasileiro.

Em minha primeira entrevista com a atriz de cinema e teatro Fernanda Montenegro, quando cheguei ao Brasil, há dez anos, ela me disse algo que nunca esqueci e que mais tarde pude tocar com a mão: "A diferença entre um europeu e um brasileiro é que o brasileiro não se envergonha de dizer que é feliz, e o europeu, sim".

Qualquer um que passa pelo Brasil, por turismo ou trabalho, sente-se rapidamente capturado pela cordialidade, a exuberância afetiva, o acolhimento alegre de sua gente, do norte ao sul do país. "É que com os brasileiros não se pode brigar, porque sorriem até quando você fica nervoso", me disse um correspondente argentino. É verdade. A vocação do brasileiro é mais para a paz, a amizade, o entendimento mútuo, o desejo de agradar, do que para a guerra ou a disputa. E então, o que acontece com a violência que mata no Brasil mais que em outros países? Não é uma violência brasileira, mas produzida pelo câncer do tráfico de drogas.

A melhor arma do brasileiro continua sendo o sorriso. O catedrático de estética da Universidade do Rio Isaías Latuf foi indagado em plena na rua em Buenos Aires se era brasileiro. "Como percebeu?", ele perguntou. E a resposta foi: "Por seu sorriso".
Artigo Completo, ::Aqui::

13 Outubro, 2009

Vida besta

Márcia Denser, Congresso em Foco

“Jamais pensei entrar numa livraria e não querer comprar nenhum título em exposição, mas foi exatamente o que aconteceu ao passear pela book shop da sala de embarque do aeroporto Santos Dumont, voltando para São.Paulo da Bienal do Livro no Rio. À vista, nenhum elemento de ficção em meio a dezenas de auto-ajudas fajutíssimas, market neoliberal, cem mil maneiras de gastar papel, tinta e jogar meu dinheiro fora no formato 14X21, pocket ou capa-dura.

Naturalmente nem pensar nas revistas tipo Caras, Poderosos, Bons Fluídos, Boa Forma, Bravo, Criativa, Cosmopolitan, Casamento, Corpo, Cabelos, Casamento, Exame, Época, IstoÉ, Veja, Vida & Saúde, Vida Simples, Women’s Health, CAR, COOL, RUNNING, VIP, UMA. Me senti literalmente desesperada no meio disto e a perspectiva de duas tediosas horas sem nada para ler. Até porque ler isto te deixa besta.

A escritora Marina Colasanti definiu bem essa sensação quando diante da estante promocional da Barnes & Noble na sétima avenida em Nova York[1]. Sob o rótulo “Fábulas da Mulher Moderna” proliferavam os seguintes títulos: Slave of fashion (Escrava da moda), Good in bed (Boa de cama), Filthy rich (Terrivelmente rica), The accidental virgin (A virgem acidental), I do but I dont’ (Eu faço mas não faço), The dominant blonde (A loura dominadora), The dictionary of failed relationships (Dicionário das relações fracassadas), ao todo 36 livros na mesma linha. De deixar qualquer um maluco, uma lobotomização definitiva a preços imperdíveis.

E todos prometendo “muita diversão”, se dizendo “engraçadíssimos”, que as leitoras iriam “morrer de rir”. Naturalmente, eu e Marina não achamos graça nenhuma, porque só podemos interpretá-los como sismógrafos da presente “falta de espírito de época”, ou ausência absoluta de “presença de espírito” – e isto seria um mero jogo de palavras não fosse a “presença de espírito” a pré-condição do humor genuíno.”
Artigo Completo, ::Aqui::

12 Outubro, 2009

Encontre seu motivo para blogar

Adriana Baggio, Digestivo Cultural

“Meu primeiro post foi aos 26 anos, no início de 2001. Havia acabado de trocar Curitiba por João Pessoa e ainda não tinha emprego, ocupações e vida social na nova cidade. Passava boa parte do tempo escondida do sol no fresquinho do apartamento. E nessas horas eu escrevia.

Aliás, quando soube que iria para João Pessoa, a primeira coisa que pensei foi em aproveitar a mudança geográfica para mudar também de vida. Em Curitiba, um ou dois anos após a faculdade, passei em uma seleção para o cargo de redatora em uma agência de marketing direto. Eles nem me pagavam salário com a justificativa de era um "período de experiência". Mesmo assim eu curtia. Durou umas 2 semanas até me chamarem de uma outra agência, bem maior e mais famosa, desta vez para a área de atendimento.

O glamour e a perspectiva de ganhar algum salário, ainda que não fosse muito, me seduziram. A experiência foi ótima e serviu para eu descobrir que escrevia briefings excelentes, mas era péssima na politicagem com os clientes. Nos anos seguintes zanzei por uma e outra área da comunicação. Quando surgiu a oportunidade da mudança, decidi aproveitar e voltar para a área de redação.

Escrever blogs não tem nada a ver com ser redatora. Contei essa historinha pra explicar que, quando fiz meu blog, estava com muita vontade de escrever, coisa que eu sempre gostei. Só que escrever sem ninguém para ler não tem graça. Os diários secretos nunca tiveram apelo para mim. Na adolescência, adorei quando chegou a moda das agendas. A gente escrevia, às vezes em código, e mostrava para as amigas. Elas liam, comentavam, davam conselhos. Além do texto havia os desenhos com canetinha, os adesivos, os recortes de revista. Vivia atrás dos anúncios do Club Med porque tinha escolhido o tridente da marca do resort como sinal de conteúdo relativo a um certo menino por quem era apaixonada - veja só, mesmo na agenda já usava tags!

Nos primeiros dias de João Pessoa, teria sido mais romântico sentar nas areias da praia de Manaíra, pedir uma água de coco e preencher páginas e páginas de um lindo caderno com capa em rosa pálido e folhas de papel creme. Ele seria o único testemunho da solidão que acomete os forasteiros em novas cidades ou da incredulidade em relação a costumes tão diferentes do seus.”
Artigo Completo, ::Aqui::

11 Outubro, 2009

Quarto Poder não é mais aquele

José Luiz Teixeira, Terra Magazine

“O 'Estadão' completa, neste fim de semana, 72 dois dias sob censura prévia. Foi-se o tempo em que um editorial desse jornal derrubava ministro. Hoje, ele é mais uma prova de que as autoridades já não se importam com o que diz a Imprensa.

Tanto é verdade que a Justiça está enrolando, deixando o tempo correr, sem dar logo uma solução para o processo que resultou na proibição de que o jornal publicasse notícias sobre investigações a respeito de Fernando Sarney.

Aliás, o próprio pai do rapaz, recentemente, foi alvo de denúncias diárias na mídia e nem por isso deixou a Presidência do Senado.

As reportagens contra ele, capazes de provocar um tsunami institucional em priscas eras, desta vez não ultrapassaram a linha do joelho do senador - foram apenas marolas, como diria 'o cara'.

Comecei a me dar conta desse processo de enfraquecimento da Imprensa, o outrora Quarto Poder, dia destes, quando fui matar a saudade dos tempos de repórter e visitar a Sala de Imprensa da Assembléia Legislativa de São Paulo.

Surpreso e decepcionado, descobri que os deputados estaduais haviam acabado com a Sala de Imprensa. Desmontaram, literalmente, a sala. Simples assim.

A Assembleia simplesmente 'deletou' um espaço que foi trincheira da resistência democrática - dali, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Lula e Leonel Brizola, entre outros, davam seu recado contra a ditadura.

Era uma espécie de território ficto dos cronistas parlamentares e da oposição. Para quem não sabe, território ficto é como uma embaixada, soberana dentro de seus limites - a diferença é que na nossa sala os políticos tiravam o chapéu ao entrar.

Acabaram com esse espaço e tudo ficou por isso mesmo. Está explicado porque se lê e se ouve tão pouco a respeito dos atos dos deputados estaduais de São Paulo. Obviamente, a intenção deles era exatamente esta: agir longe dos holofotes.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Dia da Criança: Cidadã ou Consumista?

Frei Beto, Adital

“Na próxima segunda, 12 de outubro, comemora-se o Dia da Criança. Momento de refletir o que temos feito com as nossas. Estamos formando futuros cidadãos ou consumistas?

Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar 4 horas por dia na escola e o dobro de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias destinadas a crianças ou que as utilizam como isca de consumo.

A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.

Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, constatou a pesquisadora, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.

Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Ora, sabemos todos que o tombo é proporcional ao tamanho da queda. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, impositiva, indisciplinada em casa e na escola.

A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.

Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais de que, um e outro, queriam se ver livre dele no fim de semana.

Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente "adulta". Encurta-se, assim, seu tempo de infância. A fantasia, própria da idade, é transferida à TV e ao apelo de consumo. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.”
Artigo Completo, ::Aqui::

10 Outubro, 2009

Das mentiras que executivos de jornal contam a si próprios

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

“Numa verdadeira encruzilhada, entre desaparecer como papel, vender seu conteúdo ao Kindle da Amazon e fechar seus sites na internet, os jornais, como empresas que são, talvez tenham um problema ainda maior: de cultura. Quem afirma é Judy Sims, uma blogueira de Toronto, que se especializou em mídia on-line. Em “10 mentiras que os executivos de jornal estão contando a si próprios”, Sims conclui que talvez os jornais não tenham mesmo salvação – por um problema, como diz o pessoal da publicidade, “de DNA”. Primeiro, os executivos de jornal disseram que poderiam administrar a “mudança de paradigma” mantendo a organização unida. Judy Sims discorda: as operações de internet dos jornais nunca vão deixar de ser deficitárias, se ficarem eternamente sob o “guarda-chuva” da edição em papel... Em segundo lugar, as forças de vendas dos jornais não estão conseguindo vender anúncios para a edição impressa junto com anúncios on-line. O ideal, segundo Sims, seria, justamente, separar as forças de vendas. Conclusão: juntar “impresso” mais “internet”, tanto para jornais quanto revistas, gera acomodação nos sites (dessas empresas), que desistem de lutar para sobreviver (sendo que o papel vai acabar...). Em terceiro lugar, o Google não está matando os jornais, como muitos dizem – se alguém matou os jornais, lá atrás, foi o Craigslist (o maior site de anúncios da internet). Quarto: “fechar o nosso site criará ‘escassez’ e valorizará seu conteúdo” – outra mentira, segundo Sims, porque quando não conseguirem entrar, os internautas vão simplesmente procurar (e ler) em outro lugar... Quinto: “nossos leitores já pagaram por notícias antes; um dia voltarão a pagar” – Sims ironiza: “Será que pagaram? E será que um dia eles vão voltar?”. Sexto: “receitas on-line não são suficientes para sustentar as nossas redações” – verdade, brinca Sims; por isso os jornais têm de diminuir suas redações... Sétimo: “ninguém faz reportagens como nós, jornalistas” – Sims: “O blogueiro que melhor cobre a parte policial de Chicago, hoje, tem... 16 anos!”. Oitava mentira: “nossos leitores não são confiáveis, quanto mais essa história de ‘jornalismo colaborativo’...” – Sims: “seus leitores só irão se desenvolver se um dia vocês mesmos deixarem...”. Nona: “a democracia estará ameaçada sem os jornais” – Sims? “Lamento informar que esse ‘vácuo’ será preenchido, de algum modo...”. Décima (e última): “eu, como jornalista, posso dar um banho nesses blogueiros de agora, mesmo estando off-line”. Sims? “Pare de sonhar, jornalista, e olhe em volta: você acaba de ficar obsoleto”.

Bandido por um dia

Marcelo Cury / Sítio: Wanderley Nogueira

“São Paulo. Tenho parente e amigos policiais militares e sei a tarefa árdua que esses profissionais enfrentam diariamente. Mas sei também que muitos policiais (uma parcela pequena, é claro) não honram a farda dessa instituição centenária.

Todos nós já ouvimos, e ainda iremos ouvir estórias absurdas sobre o comportamento inadequado de policiais no cumprimento do dever. Mas, pior do que ouvir e se indignar com isso, é passar momentos desagradáveis nas mãos desses policiais.

Foi nesta segunda, 05, às 13h30 aproximadamente. Eu estava caminhando na Avenida Pompéia, em Perdizes, após um delicioso café da manhã no Fran's Café. Estava de folga. Mas, mesmo assim, com o celular em punho estava registrando flagrantes de desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro, por estar em uma região pouco freqüentada por mim. Na altura do número 1.709, eu passei por uma viatura da PM estacionada em cima da calçada na contramão. Os PMS estavam conversando dentro de uma revenda de automóveis. Como eu estava em local público, me achei no direito de registrar o fato. Ainda mais por ser um repórter de trânsito e possuir um blog de denuncia irregularidades. Sempre falo no blog que o poder público para ter o direito de punir, tem que dar o exemplo. Em caso de emergência, sim, o Código de Trânsito Brasileiro abre uma exceção. Mas, muitos funcionários públicos e até agentes da CET, por que não, banalizam esse tipo de conduta. Ao perceber que a viatura foi fotografada, o 3º Sargento Leovan Dias Santos, de uma maneira não muito amistosa, se aproximou de mim querendo saber do que se tratava. Eu expliquei que possuía um blog de trânsito e que registrava flagrantes pelo celular. Fui informado de que não poderia fazer esse tipo de serviço. Sem desrespeitá-lo o informei que poderia sim, por estar em local público registrando o fato de um agente público. Irritado, pediu os meus documento, o que foi prontamente atendido. Não satisfeito, pediu que eu entregasse o meu celular, o que foi prontamente negado. Claro, meus registros estavam lá, como poderia entregá-los ao policial. Ele tomou a minha atitude como desobediência e mandou outro policial me algemar. Eu comecei a exigir os meus direitos de jornalista, o de trabalhar sem ser ameaçado e intimidado. Mas em nenhum momento reagi ou ofendi a autoridade policial. Apenas dizia que não havia necessidade para tamanha violência. Não admitia agressão por parte dos policiais. Sim, porque para algemar eles aprendem que tem que dar uma chave de braço no meliante antes de apertar a algema (uma forma enrustida de tortura). Um terceiro policial, de bom senso, Nildo Jr., convenceu o sargento a tirar as algemas de mim, o que acabou ocorrendo. Sentindo-me um pouco menos marginal, esperei o superior averiguar o meu documento de identificação. Enquanto isso entregava a minha credencial da Jovem Pan ao Nildo Jr.

Chegaram a me acusar de portar uma falsa credencial, acreditem se quiser. Estava totalmente a mercê deles. Após a consulta, o sargento falou que eu poderia me complicar se fosse levado ao DP, dando a entender que era melhor eu nada publicar e “morrer” a coisa por lá mesmo. Recusei-me, alegando que não fazia nada de errado e que não temia ser levado ao DP. Neste momento liguei a filmadora do celular e comecei a registrar a negociação. Percebendo minha atitude, o sargento tentou tomar novamente o celular da minha mão. Num gesto instintivo protegi o aparelho e comecei a ligar para a Jovem Pan a fim de relatar o que eu estava passando. Fui informado que eu não teria a direito de ligar, só poderia no DP. Foi-me dado voz de prisão por Desobediência, Desacato e Resistência à prisão. Na verdade, eu não resistia a prisão e sim protegia o celular que continham as provas que me seriam úteis, principalmente o vídeo. Eu queria apresentá-las no DP e não entregá-las ao policial. Fui jogado em um capô de um carro no interior de uma loja pelos três policiais. Mesmo algemado com as mãos pra trás, segurava com força o celular na mão esquerda. Torceram o meu dedinho até conseguirem pegar o aparelho. Estou com o dedo bastante inchado, sem poder dobrá-lo. Apertaram ao máximo a algema e me jogaram dentro do porta-malas adaptado de um veículo Corsa (espaço pequeno e totalmente lacrado, sem ventilação).”
Relato Completo, ::Aqui::

09 Outubro, 2009

A imprensa embriagada

Biaggio Talento, Terra Magazine

“Quem imagina que o genial diretor Billy Wider desfechou os mais duros golpes cinematográficos contra a imprensa sensacionalista, precisa assistir A Embriaguez do Sucesso, um filme de 1957, do desconhecido Alexander Mackendrick (baseado num conto do jornalista e escritor Ernest Lehman).

Foi lançado em DVD no Brasil, discretamente, sem qualquer publicidade, o que deixaria irado Sidney Falco, o ambicioso e golpista assessor de imprensa da história. Falco (interpretado por Tony Curtis), no entanto, é apenas uma peça na engrenagem do poderoso colunista J.J. Hunsecker (o magistral Burt Lancaster) do não menos poderoso tabloide de Nova Iorque.

Hunsecker é o principal alvo de Lehman, que conheceu os intestinos da imprensa marrom americana no início de carreira. Personagem baseado no colunista Walter Winchell, do tabloide Daily Mirror, Hunsecker se gaba deter 60 milhões de leitores e telespectadores (também apresenta um noticiário televisivo) e ganha a vida, basicamente, publicando notinhas enigmáticas capazes de destruir e reabilitar reputações.

A Winchell (o colunista da vida real) é justamente atribuída a "criação" do estilo de notas curtas, "plantadas", que visam mandar mensagens cifradas (ou não), escondendo sempre algum interesse escuso, geralmente com o objetivo de extorquir dinheiro de alguém. Em A Embriaguez do Sucesso, o imenso poder de J.J. não é suficiente, no entanto, para evitar que sua irmã caçula se apaixone por um jovem músico de bar, rapaz íntegro, honesto e, portanto, sem condições de entrar no clube dos homens de sucesso.”
Artigo Completo, ::Aqui::
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...