30 Abril, 2010

Gay Talese ataca “leveza” do Twitter

Euler de França Belém, Revista Bula

“Numa entrevista ao excelente suplemento “Outlook” (32 páginas!), do diário “Brasil Econômico”, Gay Talese é curto e sensato: “Não mando e-mail, não uso Twitter. Eu falo com as pessoas”. Duvido apenas que não envie e-mails, uma das grandes invenções da internet — não é outra coisa senão um correio instantâneo e eficiente.

Rio quando percebo que colegas jornalistas se apaixonaram pelo Twitter (reino da superficialidade e gerador da imagem de que todos são estrelas e têm algo a dizer) e nem leem mais, pois não têm tempo, e por isso concordo com Talese: “O Twitter é um pequeno cartão postal. Mas estamos aqui [na entrevista] falando sobre jornalismo feito com seriedade, sobre meios de comunicação feitos por grandes contadores de histórias. É outra conversa”.
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29 Abril, 2010

Mulheres: uma década depois, ainda sem lugar

Marguerite A. Suozzi, IPS / Envolverde

“Foi um momento histórico para a Organização das Nações Unidas quando, há dez anos, o Conselho de Segurança reconheceu unanimemente “o papel intrínseco das mulheres na paz e na segurança mundiais”. Assim determina a resolução 1325, destacou o embaixador de Bangladesh, Anwarul Chowdhury, ao participar, no dia 22 deste mês, de um painel na sede da ONU sobre os obstáculos que as Nações Unidas enfrentam para sua execução.

“A resolução se baseia principalmente na simples tese de que o acesso igualitário e a plena participação das mulheres em todos os níveis das estruturas de poder, bem como sua plena intervenção na prevenção e resolução de conflitos são elementos essenciais para uma paz duradoura”, explicou A. K. Abdul Momen, representante permanente de Bangladesh junto à ONU e moderador do painel, copatrocinado por Bangladesh, Canadá e Suécia.

Mas os esforços para implementar a resolução 1325 e outras “resoluções irmãs”, como as definiu o vice-representante permanente do Canadá, Herni-Paul Normandin, foram bloqueadas no passado. Chowdhury, também ex-subsecretário geral da ONU, lamentou que apenas 19 dos 192 Estados-membros tenham desenvolvido planos nacionais para pôr em prática essa resolução. Também expressou seu profundo pesar pelo alto número de denúncias de abusos sexuais por parte de membros das forças de paz das Nações Unidas.”
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28 Abril, 2010

Declaração de voto

Frei Betto, Adital

“Voto este ano, para presidente da República, no candidato decidido a implementar reformas estruturais tão prometidas e jamais efetivadas: agrária, tributária, política, judiciária. E que a previdenciária e a trabalhista não sejam um engodo para penalizar ainda mais os trabalhadores e aposentados e beneficiar grandes empresas.

Voto em quem se dispõe a revolucionar a saúde e a educação. É uma vergonha o sucateamento do SUS e do ensino público. De 190 milhões de brasileiros, apenas 30 milhões se agarram esperançosamente na boia de salvação dos planos privados de saúde.

Os demais são tratados como cidadãos de segunda classe, abnegados penitentes de filas hospitalares, obrigados a adquirir remédios onerados por uma carga tributária de 39% em média.

Segundo o MEC, há 4,1 milhões de brasileiros, entre 4 e 17 anos de idade, fora da escola. Portanto, virtualmente dentro do crime. Nossos professores são mal remunerados, a inclusão digital dos alunos é um penoso caminho a ser percorrido, o turno curricular de 4 horas diárias é o verniz que encobre a nação de semianalfabetos.

Voto no candidato disposto ao controle rigoroso de emissão de gás carbônico das indústrias, dos pastos e das áreas de preservação ambiental, como a Amazônia. Não se pode permitir que o agronegócio derrube a floresta, contamine os rios e utilize mão de obra desprotegida da legislação trabalhista ou em regime de escravidão.

Voto em quem se comprometer a superar o caráter compensatório do Bolsa Família e resgatar o emancipatório do Fome Zero, abrindo a porta de saída para as famílias que sobrevivem à custa do governo, de modo que possam gerar a própria renda.”
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27 Abril, 2010

Como morrer bestamente (manual incompleto)

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Pensa numa coisa triste, muito triste. Velório de criança. “Ninguém merece. Jamais presenciei uma situação tão cruel assim na minha vida”. Era o que o povo dizia, com os olhos inchados de tanto chorar. Lágrimas: frutos da saudade, do pavor ou da ignorância? Se é que ela existe, para onde vai a alma, afinal?

Existem poucos provérbios tão óbvios e ridículos quanto “para se morrer, basta estar vivo”. É o que muitas pessoas dizem, abobalhadas, umas para os outras, perante o enigmático fenômeno denominado morte. Elas se solidarizam para aplacar a dor e não perderem a fé. Sempre se corre um risco de desacreditar em Deus...
Porque, ainda que decorridos milênios de peleja no planeta, não nos acostumamos com a morte, o segundo maior mistério a ser desvendado pela humanidade. Como será Deus vem em primeiro lugar. Aliás, Deus, frente às tragédias, talvez se sinta numa situação deveras desconfortável...

Velório é um acontecimento social dos mais interessantes. Presta-se, dentre outras coisas, ao último adeus ao morto, um gesto de solidariedade aos entes queridos, um compromisso incômodo do qual não há como se esquivar. É fundamental preparar o corpo da criatura morta a fim de entregá-la ao pó, antes que deteriore e vaze entre os vivos.

Há assuntos supérfluos e até desrespeitosos nos funerais. Há quem consiga flertar, agendar encontros secretos, ou mesmo arquitetar falcatruas financeiras entre velas e coroas de flores. O odor das rosas, então, mescla-se ao enxofre. Aos que creem no maligno, trata-se de ofício do capeta, uma espécie de deboche, pura diversão defronte à dor dos homens.

A morte, por si só, na maioria das vezes, já representa um episódio demasiadamente ultrajante, repelente, pois desliga do cotidiano um ser ao qual se era afeiçoado. Existem, é claro, as mortes encomendadas, aquelas financiadas pela sociedade (penas capitais), e outras forjadas com muita violência, mas com a anuência do povo (linchamentos justiceiros).”
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26 Abril, 2010

Por uma nova narrativa

A direita, no Brasil “pós-ideológico”, se faz representar pelo inefável Serra que, emblemático do Homo otarius, não é nada – apenas o pós-Lula. E Lula quem seria?

Márcia Denser, Congresso em Foco

Um dos elementos mais significativos do já clássico Bem-vindo ao deserto do Real!, de Slavoj Zizek (S.Paulo, Boitempo, 2003), é como o filósofo esloveno se serve da análise cinematográfica e da crítica da cultura para demonstrar como opera a ideologia hegemônica. Ele fundamenta seu ponto de vista ao observar que atualmente é extremamente difícil, até traumático, para o ser humano aceitar que sua vida não é apenas um processo estúpido de reprodução e busca do prazer, mas que ele está a serviço de um propósito transcendente. Em nosso universo “pós-ideológico” é assim que parece funcionar a ideologia: executamos nossos mandatos, incorporamos nossos papéis simbólicos sem admiti-los e “sem levá-los a sério”. A exemplo do sujeito que, apesar de funcionar como “pai”, vive se auto-ironizando, botando tal condição entre aspas.

O sucesso do desenho animado Shrek (Andrew Adamson e Vicky Jenson, 2001), diz ele, expressa perfeitamente esse funcionamento predominante da ideologia: é uma história de fadas padrão, na qual o herói e seu assistente engraçado saem em campo para derrotar o dragão e salvar a princesa. Mas a narrativa vem “enfeitada” (no sentido de adorno, ornamento) com “estranhamentos brechtianos” (que eu chamaria antes de “deslocamentos temporais”) – na igreja, a multidão que assiste ao casamento recebe instruções para reagir: “Aplausos!”, “Rir!”, “Silêncio!”, com a mesma falsa espontaneidade dum auditório de TV; desvios politicamente corretos (depois do beijo, não é o ogro quem se transforma num belo príncipe, mas a linda princesa que vira ogra); reversões inesperadas de personagens maus em bons (o dragão se revela fêmea e apaixonada pelo burrinho co-herói), tudo isso sem contar as gírias e referências a costumes e canções pop.

Mas em vez festejar tais estranhamentos como potencialmente “subversivos”, como uma certa crítica se apressa em fazer, é preciso perceber o óbvio: por meio de todos esses deslocamentos, contou-se a mesma velha história. Em síntese, a verdadeira função dessas “subversões” é atualizar, ou seja, tornar relevante para a nossa época “pós-moderna” a história tradicional – e assim evitar que ela seja substituída por uma nova narrativa. Eis objetivamente o achado crítico do autor.”
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25 Abril, 2010

Os covardes temem a verdade

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

"Um cidadão, nascido na Alemanha e naturalizado estadunidense, voltou às páginas nestes dias para negar o que vem sendo acusado, ou seja, a responsabilidade na participação na Operação Condor, que nos anos 70 reuniu ditaduras do Cone Sul para reprimir opositores. A cidadão em questão é Henri Kissinger, ex-Secretário de Estado norte-americano, hoje com 87 anos. Ele simplesmente negou o óbvio, ou seja, o que todos já sabem há tempos e que agora os tais arquivos implacáveis do Departamento de Estado não deixam nenhum tipo de dúvida.

Kissinger poderia ter evitado o assassinato do chanceler do governo de Salvador Allende, Orlando Letelier, ocorrido em Washington, mas não o fez porque não queria constranger governos aliados como o do Chile, então capitaneado pelo sanguinário general Augusto Pinochet.

Ficou claro uma coisa: Kissinger, hoje ganhando um punhado de dólares para falar a platéias selecionadas em diversas partes do mundo, é tão criminoso quanto Pinochet e Manuel Contreras, chefe do organismo de segurança (Dina) que ordenava a execução de opositores ao regime ditatorial chileno e mandou matar Letelier em Washington.

É preciso que não mais paire dúvidas sobre um fato: só foi possível a ascensão de um Pinochet e outros assassinos do gênero na América do Sul graças ao esquema Kissinger, que teve também o apoio incondicional da ditadura brasileira. É uma mancha histórica que não se pode esconder.

No Chile, criminosos respondem pelo que fizeram em todos os anos de chumbo, da mesma forma que na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. A impunidade só se manteve por aqui. E toda vez que o tema volta à tona ressurgem os defensores de um passado de triste memória que não pode continuar sendo ocultado depois de mais de três décadas.

Sem se conhecer os arquivos implacáveis ainda ocultos nos porões das Forças Armadas não se conseguirá virar de uma vez por todas a página infeliz da nossa história. No mesmo contexto se insere a criação de uma Comissão de Justiça e Verdade, não para revanchismos, como alegam os que se escondem no manto protetor de uma lei de anistia votada sob pressão castrense pelo Congresso brasileiro e que protegeu responsáveis por crimes hediondos.”
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Os Filhotes da Ditadura

Emir Sader

“[Artigo em resposta a texto publicado pelo compositor Nelson Motta , em O Globo e em O Estado de S. Paulo, nesta sexta-feira.

Motta ataca Sader e o dirigente do MST, João Pedro Stedile; defende o Jornal Nacional (TV Globo) e satiriza o programa de banda larga do governo federal.

"Um ex-compositor, em fim de carreira, também se tornou assalariado dos Marinhos, que lhe dão espaço para atacar a esquerda, defendendo o ponto de vista da empresa favorita da ditadura, agora querendo posar de democrática. E o que mais agrada os patrões do que atacar o MST, Cuba, Venezuela, Lula, a esquerda?", pergunta].

A TV Globo surgiu no auge da ditadura militar, quando assinou um acordo com a Time-Life para instaurar seu canal de televisão no Brasil, que rapidamente se tornou o órgão oficial da ditadura militar.
Gozando do monopólio de fato e das graças do regime mais brutal que o país conheceu, fundado no terrorismo de Estado, conquistou a audiência que lhe permitiu consolidar-se economicamente.

Terminada a ditadura - contra as resistências da própria Globo -, a empresa foi pega em flagrante no caso da Proconsult, tentando fraudar a vitória de Brizola nas eleições para governador, em 1982, assim como tentou desconhecer a campanha das diretas e aquela pela derrubada do Collor (seu candidato). Revelava como não tinha mudado desde os tempos da ditadura.

Nascida das entranhas da ditadura militar, apoiada em um acordo com uma empresa emblemática do império estadunidense, o jornal principal da empresa, O Globo, não poderia ser outra coisa, senão o que é: um órgão sem nenhuma credibilidade.”
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23 Abril, 2010

A Terra sujeito de dignidade e de direitos

Leonardo Boff, Envolverde

"Uma tema central da Cúpula dos Povos sobre as Mudanças Climática, reunida em Cochabamba de 19-23 de abril, convocada pelo Presidente da Bolívia Evo Morales é o da subjetividade da Terra, de sua dignidade e direitos. O tema é relativamente novo, pois dignidade e direitos eram reservados somente aos seres humanos, portadores de consciência e inteligência. Predomina ainda uma visão antropocêntrica como se nós exclusivamente fôssemos portadores de dignidade. Esquecemos que somos parte de um todo maior. Como dizem renomados cosmólogos, se o espírito está em nós é sinal que ele estava antes no universo do qual somos fruto e parte.

Há uma tradição da mais alta ancetralidade que sempre entendeu a Terra com a Grande Mãe que nos gera e que fornece tudo o que precisamos para viver. As ciências da Terra e da vida vieram, pela via científica, nos confirmaram esta visão. A Terra é um superorganismo vivo, Gaia, que se autoregula para ser sempre apta para manter a vida no planeta. A própria biosfera é um produto biológico pois se origina da sinergia dos organismos vivos com todos os demais elementos da Terra e do cosmos. Criaram o habitat adequado para a vida, a biosfera.Portanto, não há apenas vida sobre a Terra. A Terra mesma é viva e como tal possui um valor intrínseco e deve ser respeitada e cuidada como todo ser vivo. Este é um dos títulos de sua dignidade e a base real de seu direito de existir e de ser respeitada como os demais seres.

Os astronautas nos deixaram este legado: vista de fora da Terra, Terra e Humanidade fundam uma única entidade; não podem ser separadas. A Terra é um momento da evolução do cosmos, a vida é um momento da evolução da Terra e a vida humana, um momento posterior da evolução da vida. Por isso podemos, com razão dizer, o ser humano é aquele momento em que a Terra começou a ter consciência, a sentir, a pensar e a amar. Somos a parte consciente e inteligente da Terra.

Se os seres humanos possuem dignidade e direitos, como é consenso dos povos, e se Terra e seres humanos constituem uma unidade indivisível, então podemos dizer que a Terra participa da dignidade e dos direitos dos seres humanos.”
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22 Abril, 2010

Quando se abrem as portas

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“Num tempo de se discutir educação, aquilo que merece ser ensinado na escola, o que é o conhecimento e como ele pode ser alcançado, eu admiro estas paredes e estes arcos de inspiração greco-romana, esta austeridade escolástica que se esfacela nas propagandas coloridas dos bebedouros. Inclino-me diante das janelas de madeira sólida, toco o puxador de metal trabalhado e, ao apoiar os cotovelos num ato de contemplação, o viaduto Santa Ifigênia se levanta como uma dobradura de um livro que se abre. Há poucos minutos o atravessava e podia observar outros espectadores posicionados onde estou agora, com o conforto da distância que faz dos rostos uma massa indistinta, sem o desafio do tête-à-tête.

As salas de aula, de leitura e os parlatórios são ocupados pelas obras da exposição Arte e religiosidade. É a primeira vez que espaços do Mosteiro e do Colégio de São Bento recebem uma exposição de arte contemporânea. A arte religiosa, abstrata, longe de ser um contraponto complementa os cômodos sem apelar para o óbvio, no entanto se torna obscura diante dos detalhes arquitetônicos que, estes sim, tomam conta de sua própria dimensão.

Subo as escadas apoiando-me no corrimão de madeira gasto, a padronagem geométria do chão vai se alterando a passos largos. A sala de reuniões, de cuja sacada os papas saúdam o povaréu, está aberta à visitação. Flores e frutas incrustadas no teto dão o tom tropical-abrasileirado da decoração. Há uma mesa grande, canapés e cadeiras de madeira estofadas, um piano antigo recostado na parede. O Martinelli nos espia por detrás dos outros prédios do Largo de São Bento, enquanto o Banespa oscila magestosamente a bandeira do Estado de São Paulo. Dali o centro parece uma criança inofensiva, carinhosa até.

Os corredores claros com pé-direito alto convidam meus sentidos a rememorar quantos sóis como o deste sábado matinal já não bateram contra suas paredes e clarearam a passagem dos estudantes e professores, e agora dos meros mortais há muito alfabetizados. Que sensação incerta, entre o vivido e o não vivido, entre o querido e o querer propicia um ambiente escolar ― mesmo que morto, repleto de visitantes curiosos.”
Foto: Sissy Eiko
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21 Abril, 2010

Passeio socrático

Frei Betto, Adital

“Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos dependurados em telefones celulares; mostravam-se preocupados, ansiosos e, na lanchonete, comiam mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, muitos demonstravam um apetite voraz. Aquilo me fez refletir: Qual dos dois modelos produz felicidade? O dos monges ou o dos executivos?

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: "Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não; minha aula é à tarde". Comemorei: "Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir um pouco mais". "Não", ela retrucou, "tenho tanta coisa de manhã...". "Que tanta coisa?", indaguei. "Aulas de inglês, balé, pintura, piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: "Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’".

A sociedade na qual vivemos constrói super-homens e supermulheres, totalmente equipados, mas muitos são emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram que, agora, mais importante que o QI (Quociente Intelectual), é a IE (Inteligência Emocional). Não adianta ser um superexecutivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!”
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20 Abril, 2010

O mago

Gian Danton, Digestivo Cultural

“Paulo Coelho é um dos escritores mais lidos do mundo. Já vendeu mais de 100 milhões de livros. É o escritor vivo mais traduzido do planeta. Já foi homenageado por reis, rainhas, xeiques e presidentes, sendo tratado como popstar. No entanto, é linchado pela crítica literária brasileira. Uma figura tão contraditória acaba se tornando um personagem tão ou mais interessante que seus personagens. Assim, não é surpresa que Fernando Morais tenha tido a ideia de escrever sua biografia.

Seguindo uma fórmula já consagrada por Fernando Morais, O mago (Planeta, 2008, 632 págs.) começa de maneira não cronológica: Paulo Coelho, já famoso, desce no aeroporto de Budapeste e não encontra ninguém. Nessas primeiras páginas o leitor já percebe que não se trata de uma biografia chapa-branca (feita para engrandecer o biografado). Enfezado, ele liga para um assistente e rosna: "Não há ninguém à minha espera em Budapeste! Sim! Foi isso mesmo que você ouviu". E repete cada palavra, lentamente, martelando-as na cabeça do interlocutor. Depois desliga sem se despedir. Então ouve um barulho e, ao se virar, abre um sorriso de felicidade: uma multidão de repórteres e fãs se aproxima.

Algumas das facetas de Paulo Coelho já estão ali, nesse capítulo: a arrogância (que fez com que ele perdesse um emprego, na década de 1970) e o fascínio pelo sucesso, a ganância pelo dinheiro.

Paulo Coelho é do tipo que faria qualquer coisa pela popularidade (até mesmo vender sua alma ao Diabo, como de fato fez, na década de 1970). Seu sonho, desde os mais tenros anos, era se tornar um escritor mundialmente famoso. Ainda adolescente ele fazia planos sobre como realizar seu sonho. Em seu diário, ele anotava providências, como descobrir quem eram os editores de cultura dos grandes jornais e mandar-lhes textos, comparecer a noites de autógrafo e estreias de teatro travando conhecimento com os autores famosos e tentando conseguir um padrinho.”
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19 Abril, 2010

Eu, o papa e o casal Nardoni

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Quisera eu pudesse me sentar à mesa de um boteco (poderia também ser uma mesa do Vaticano cravejada com crucifixos de ouro maciço) tendo a companhia do papa e do casal Nardoni. Tomando cerveja popular em copos reciclados de requeijão cremoso (ou vinho tinto italiano em cálices de prata), haveríamos de debater a respeito dos mistérios da existência humana na Terra. Para início de conversa: como se explica tanta violência contra as crianças ao longo da história?

Recentemente, a imprensa mundial divulgou, com a volúpia que lhe é peculiar, denúncias nas quais o Papa Bento XVI (por que não nunca fui com a cara deste papa?! Seu olhar me lembra aquele da personagem de Jack Nicholson no thriller “The Shinning”...), quando cardeal, teria protegido, acobertado, aliviado a barra de padres pedófilos na Alemanha e nos EUA.

Segundo foi amplamente divulgado pela imprensa, um deles teria molestado mais de duzentas crianças em Miami (total e maliciosa deturpação do preceito cristão “vinde a mim as criancinhas”...). As crianças teriam ido, sim, para o colo do padre, ludibriadas ou forçadas a tal, inclusive meninos surdos de uma escola norte-americana. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!

As denúncias federam e o Vaticano bradou raivosamente, reclamando de uma suposta campanha desmoralizadora da imprensa contra igreja, comparando a “propaganda” ao massacre anti-semita da Segunda Grande Guerra. Os massacrados, no caso, seriam os religiosos, e não as crianças abusadas. Entendeu?”
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18 Abril, 2010

Mulheres conjuradas

Frei Beto, Adital

“Nessa cultura machista que nos assola, quase não se destacam as figuras heróicas de mulheres envolvidas com a Conjuração Mineira liderada por Tiradentes. Mulheres que assumiram a coragem de apoiar os homens que amavam, comprometidos com a principal conspiração de nossa história: a que pretendeu libertar o Brasil do domínio português.

Mulheres que padeceram a dor de ver seus companheiros presos, torturados, degredados, os bens sequestrados, a infâmia proclamada sobre sucessivas gerações, sem a esperança de, no futuro, voltar a abraçá-los. Só uma delas o conseguiu.

Tomás Antônio Gonzaga, quarentão, apaixonou-se por Maria Doroteia Joaquina de Seixas, 23 anos mais nova do que ele. Eternizada sob o pseudônimo poético de "Marília de Dirceu", os poemas apaixonados teriam sido escritos antes de o autor enamorar-se dela. Segundo Tarquínio J. B. De Oliveira, a verdadeira "Marília" é Maria Joaquina Anselma de Figueiredo, viúva enricada, amante de Luís da Cunha Menezes.

Os atritos de alcova entre o governador e o ex-ouvidor de Vila Rica teriam dado ensejo a que este redigisse, sob autoria anônima, as "Cartas Chilenas", nas quais desprestigia Menezes, tratado pela alcunha de "Fanfarrão Minésio".

Gonzaga, promovido para a Bahia, valeu-se do noivado com Maria Doroteia para prolongar sua permanência em Vila Rica e, assim, encobrir sua militância na conjuração. A delação de Silvério dos Reis os impediu de casar. O poeta, degredado para Moçambique, ali constituiu família. Maria Dorotéia faleceu em Minas aos 85 anos.

Bárbara Heliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, teria evitado que o marido, uma vez preso, passasse de conspirador a delator. Ao ser decretado o sequestro de todos os bens dos conjurados, ela conseguiu provar ser casada em separação de bens e, assim, manter a posse do que lhe pertencia.”
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A verdade dos ditados

Menalton Braff, Revista Bula

“A escola, como a conhecemos hoje, está na sua juventude. A verdade é que, na Idade Média, quando as crianças ainda não se queixavam por ter de ir à escola, e era inexistente a necessidade de conhecer o alfabeto e seus correligionários, os valores éticos eram de transmissão oral. A sabedoria popular, como se costuma denominar esse tipo de conhecimento ingênuo da vida, era veiculada pelos ditados populares.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, para incutir persistência (supostamente uma virtude). Supostamente, é claro, pois o filho do meu vizinho, que persiste em desobedecer aos pais, brindando-os com os mais cabeludos palavrões, não acredito que mereça ser chamado de virtuoso. Quem espera sempre alcança, é o que se costuma dizer para aqueles cuja esperança já está acabando. E o mundo está cheio de casos de uma vida inteira à espera sem ter alcançado coisa alguma.”
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16 Abril, 2010

Normalizando a incultura

Na literatura, os escritores não precisam buscar novos caminhos formais ou visões inéditas de mundo, basta reproduzir os valores, a ideologia, a situação social, ética e cultural do seu público. O artista deixa de ser artesão e vira microempresário”

Márcia Denser, Congresso em Foco

Algumas ideias do crítico argentino Juan José Saer (autor de A Pesquisa e Ninguém Nada Nunca, da Cia de Letras) continuam extremamente pertinentes no debate (ele ainda existe?) de como a ideologia neoliberal levou a arte e a cultura à irrelevância. Neste âmbito, a questão toda se coloca na suposta oposição entre moderno e pós-moderno. Num ensaio publicado em 2001, ele afirma que à imensa tirania das vanguardas se opõe o falso democratismo pós-moderno. Em seu oco relativismo, os contrários, quando não se conciliam, coexistem em plano de igualdade – como Paulo Coelho e Guimarães Rosa – apenas porque ambos são romancistas.

Ao fazer do público a instância decisiva do processo criador, o pós-modernismo legitima: a) o endeusamento do “popular”; b) a rejeição da complexidade formal. O pseudo-democratismo pós-moderno é a expressão da ideologia ultraliberalista – que decretou o fim da história – levada à cultura. Apesar de suas reivindicações de liberdade, está vinculado à ideologia neoliberal, aliás, é instrumento desta. Reivindica ao debate frouxas e vagas categorias de consenso com o que exclui toda tentação de ruptura. Assim como o público é juiz supremo da pertinência artística, o academicismo é um novo classicismo e o discurso artístico se confunde com os valores da opinião.

Na literatura, os escritores não precisam buscar novos caminhos formais ou visões inéditas de mundo, basta reproduzir os valores, a ideologia, a situação social, ética e cultural do seu público. O artista deixa de ser artesão e vira microempresário. Não há mais movimentos literários em torno de uma filosofia ou uma estética como os modernistas, os concretistas, os românticos, etc., mas empreendedores isolados com obras de acordo com demandas do mercado – o que melhor fixa a marca de um autor –com produtos derivados (merchandising), onde outros trabalham até anonimamente.”
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15 Abril, 2010

O medo e os princípios

Mauro Santayana, JB Online

“Não podemos continuar sacrificando os princípios ao medo”, escreveu o ex-senador democrata Gary Hart, ex-candidato à Presidência dos Estados Unidos, ao comentar o artigo The price of assassination, de Robert Wright, publicado na edição eletrônica do New York Times.

Wright analisa a ordem de Obama para o assassinato do cidadão nato norte-americano Anwar al-Awlaki, nascido no Novo México, que estaria no Iemen. Gary Hart tem autoridade moral para intervir no tema: foi membro da importante Comissão Church, do Senado dos Estados Unidos, que investigou o envolvimento de Washington nos assassinatos e tentativa de assassinatos de líderes políticos estrangeiros, em 1975. Entre outros alvos dos serviços secretos norte-americanos, a Comissão Church apontou Patrice Lumumba, Fidel Castro (cinco tentativas), Rafael Trujillo, da República Dominicana, os irmãos Diem, do Vietnã, e o general René Schneider, do Chile. A mesma comissão investigou também a participação dos mesmos serviços na conspiração e no golpe contra Allende, o presidente do Chile, morto ao resistir no Palácio de Governo em setembro de 1973.

Segundo Wright, ao contrário do que imaginam os partidários desses assassinatos no exterior, a “decapitação” dos grupos de “terroristas” inimigos não os esmorece: estimulam-nos. Cita estudo da professora Jenna Jordan, da Universidade de Chicago, que examinou 298 atentados entre 1945 e 2004. Sua conclusão é a de que, a cada atentado exitoso, o assassinado é substituído por um líder mais competente, e o número dos militantes cresce para atuar com maior força. A política dos killing targets é, assim, além de moralmente condenada e juridicamente contestada, prejudicial à segurança dos Estados Unidos.”
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14 Abril, 2010

Os negócios e a soberania

Mauro Santayana, JB Online

“O ministro Nelson Jobim, sem que o Congresso e o povo fossem ouvidos, assinou, em Washington, tratado militar com os Estados Unidos. O objetivo é restaurar o acordo que existia antes e que o general Geisel rompeu em 1977. O governo cometeu erro político de que se dará conta no futuro. O Tratado, dizem seus defensores, é igual ao que temos com outros países do mundo. Não é: desafia-se o ministro Jobim a firmar um equivalente, em todas as suas cláusulas, com a Rússia de Putin ou a China Continental. Como todos os tratados, ele favorece o signatário mais forte. Benjamin Franklin aconselhava tratar bem o vizinho, mas manter o portão bem trancado. Jobim abre a porta do quarto. O tratado prevê o treinamento de militares brasileiros nos Estados Unidos. Quem treina, adestra, e quem adestra, busca obter certos resultados, entre eles, o da fidelidade.

Os convênios militares são necessários quando um inimigo comum aos contratantes ameaça atacá-los em conjunto, ou em separado. É natural que juntem seus recursos, humanos, militares e econômicos, para a defesa. A que necessidade corresponde a submissão do Ministro Nelson Jobim? Estamos em paz com nossos vizinhos e com países distantes. Não temos contencioso algum que não possa ser resolvido com a diplomacia. Ao contrário: a grande ameaça que sofremos, a da perda de soberania sobre o território amazônico, vem, desde o século 19, exatamente dos Estados Unidos. O único acordo de defesa que a realpolitik nos aconselha é o tratado da Unasul, que reúna todos os recursos dos países do continente, a fim de enfrentar as ameaças externas à região.”
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13 Abril, 2010

Rio: a falta dos ‘profetas da ecologia’

Leonardo Boff / Adital

“Entre os dias 5-8 de abril do corrente ano, o Estado do Rio de Janeiro (a cidade e outras vizinhas, especialmente Niterói) conheceram a maior enchente histórica dos últimos 48 anos. Houve grandes alagamentos nas principais ruas, deslizamentos de encostas, subida de um metro e meio da águas da Lagoa Rodrigo de Freitas provocada, em parte, pela elevação da maré que impediu o desaguar das águas pluviais. O mais terrível foi a morte de centenas de pessoas, soterradas por toneladas de terra, árvores, pedras e lixo.
Entre outras, três causas parecem as principais causadoras desta tragédia, que, de tempos em tempos, se abate sobre a cidade, encantadora por sua paisagem que combina mar, montanhas e floresta, associada a uma população alegre e acolhedora.

A primeira são as enchentes propriamente ditas, típicas destas áreas subtropicais. Mas ocorre um agravante que é o aquecimento global. A tragédia do Rio deve ser analisada no contexto de outras ocorridas no Sul do país com tufões, prolongadas chuvas com enormes deslizamentos e centenas de vítimas e da cidade de São Paulo que durante mais de um mês seguido sofreu enchentes que deixaram bairros inteiros ininterruptamente debaixo de águas. Analistas apontaram mudanças nos ciclos hidrológicos causadas pelo aquecimento das águas do Atlântico, como vem ocorrendo no Pacífico. Este quadro tende a se repetir com mais frequência e até com mais intensidade à medida que o aquecimento global se agravar.

A tragédia climática trouxe à luz a tragédia social vivida pelas populações carentes. Esta é a segunda causa. Há mais de 500 favelas (comunidades pobres), dependuradas nas encostas das montanhas que serpenteiam a cidade. Elas não são culpadas pelos deslizamentos, como apontava o governador. Elas moram nestas regiões de risco porque, simplesmente, não tem para onde ir. Há uma notória insensibilidade geral pelos pobres, fruto do elitismo de nossa tradição colonial e escravagista. O Estado não foi montando para atender toda a população, mas principalmente as classes já beneficiadas. Nunca houve uma política pública consistente que inserisse as favelas como parte da cidade e por isso as urbanizasse, garantindo-lhes habitação segura, infra-estrutura de esgoto, água e luz e, não em último lugar, transporte. Sempre houve políticas pobres para os pobres que são as grandes maiorias da população e políticas ricas para os ricos. A consequência deste descaso se revela nos desastres que vitimam centenas de pessoas.”
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12 Abril, 2010

A Igreja ainda tem futuro?

Rui Martins, Direto da Redação

“Quando tomei o trem para me encontrar com o teólogo Hans Kung (em alemão com trema no u), na cidade de Tubingen, via Zurique e Horb, tinha digerido um volumoso livro com mais de 700 páginas. Em alguns dias, minhas anotações e orelhas lhe deram uma feição de livro batido e envelhecido.

O título – Memórias, uma Verdade Contestada, uma foto de Hans Kung, ele sim um intelectual idoso de 82 anos, mas lúcido, vivo e de hábitos bem suíços, nascido que foi em Lucerna. Mal cheguei em sua casa, que é também sede do seu Instituto de ética planetária, já nos sentamos para a entrevista que gravei no meu digital mini-disk profissional, para evitar qualquer dúvida depois da publicação.

A quase íntegra ocupa uma página no Expresso, deste sábado, jornalão semanário de Lisboa. O título – O grande problema é o celibato dos padres, com um sobretítulo – teólogo reformador diz que é urgente agir. Kung queria que falássemos só do conteúdo do livro, respondi que para isso não precisaria ter viajado mais de quatro horas. Aceitou, me deu um máximo de 45 minutos, que acabaram sendo mais de uma hora e disparei – a Igreja ainda tem um futuro ?

Hans Kung é um teólogo contestador que se poderia também dizer provocador. Não foi proibido de falar, como aconteceu com o nosso Leonardo Boff, mas há vinte anos, a Cúria romana lhe tirou o direito de ensinar a teologia católica na Universidade de Tubingen. Naquela época não se falava em pedofilia, mas num dogma duro de se engolir, mesmo para um teólogo católico apostólico romano – o da infalibilidade papal. Kung escreveu um livro contestando, lembrando que, no primeiro milenário cristão, isso não existia, mas que o absolutismo da Igreja veio bem depois.”
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11 Abril, 2010

A internet já é muito mais do que uma rede de computadores

Carlos Castilho, Observatório da Imprensa

“Ela se torna cada dia mais a plataforma para uma nova estrutura social baseada em redes de pessoas interconectadas. Esta mudança está acontecendo debaixo dos nossos olhos e a maioria de nós ainda não se deu conta.

Dito assim pode parecer algo insignificante ou até um certo exagero, explicável na boca de um nerd ou tecnófilo. Mas quando a gente pára para pensar os dados começam a se somar e percebemos que estamos diante daquilo que o físico norte-americano Thomas Khun classificou de quebra de um paradigma mundial.

Quase todos os dados sobre crescimento da internet, da Web e das redes sociais são tão vertiginosos que chegam a assustar. Basta saber que a Web chegou ao seu primeiro milhão de usuários num tempo 200% menor do que o gasto pela televisão e quase duas mil vezes mais rápido do que o jornal impresso.

Por isto é que temos que começar a ver a rede não mais como um conjunto de computadores mas como a base de uma nova organização da sociedade. A economia mundial já não consegue mais viver sem a internet, as relações humanas estão cada vez mais condicionadas pela tecnologia digital, que está se espalhando dos países ricos para os pobres, das metrópoles para o interior.

Quase todos os países do mundo estão acelerando os planos para aposentar toda a estrutura baseada nos fios de telefone para substituí-la pelo sistema wireless e no cabeamento com fibras óticas para permitir a banda larga.

Não é só a troca de uma tecnologia por outra. É todo um sistema de comunicação que está mudando e com ele hábitos, rotinas e valores. São empresas outrora sólidas que resistem à mudança e estão sendo atropeladas por outras menores, movidas a alta tecnologia.”
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10 Abril, 2010

As conseqüência da chuva

Mair Pena Neto, Direto da Redação

"Criticar autoridades em período de tragédia é fácil. De fato, elas têm grande responsabilidade pelas conseqüências terríveis de chuvas como as que se abateram sobre o Rio de Janeiro esses dias, mesmo que o volume tenha sido tanto e as condições da cidade, tão particulares, que nem o melhor dos administradores teria evitado que algo de ruim acontecesse.

Mas a dimensão poderia ter sido bem menor se houvesse uma política de prevenção, manutenção e de ação para socorrer as vítimas. Tudo isso parece faltar. Mas numa hora dessas é preciso observar as reações da sociedade quando se fala em retirar as pessoas das zonas de risco e colocá-las em condições dignas de moradia.

Recentemente, li que uma antiga fábrica da CCPL, no subúrbio do Rio, abandonada e ocupada há uma década, será substituída por um projeto habitacional para famílias de baixa renda do programa “Minha casa, Minha vida”. Serão construídos 40 novos prédios, com apartamentos de dois quartos e varanda, e área de lazer no entorno, com praças e quadras esportivas.

Passei diversas vezes em frente a esta fábrica e constatei as condições degradantes dos que lá viviam. Por se tratar de uma fábrica, não tinha as divisões de apartamentos, e famílias separavam seus espaços com pedaços de pano. Assim como a ex-fábrica da CCPL, comunidades importantes do Rio de Janeiro, como Rocinha, Manguinhos e Alemão, estão sendo atendidas por obras, que incluem remoção de áreas de risco e urbanização para inclui-las na cidade formal.”
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09 Abril, 2010

Vinde a eles as criancinhas?

Frei Betto, Adital

“As sucessivas denúncias de pedofilia e abuso sexual cometidos por sacerdotes e acobertados por bispos e cardeais envergonham a Igreja Católica e abalam a fé de inúmeros fiéis.

No caso da Irlanda, onde mais de 2 mil crianças entregues aos cuidados de internatos religiosos foram vítimas da prática criminosa de assédio sexual, o papa Bento XVI divulgou documento em que pede perdão em nome da Igreja, repudia como abominável o que ocorreu e exige indenização às vítimas.

Faltou ao pontífice determinar punições da Igreja aos culpados, ainda que tenha consentido em submetê-los às leis civis. O clamor das vítimas e de suas famílias exige que a Santa Sé aja com rigor: suspensão imediata do ministério sacerdotal, afastamento das atividades pastorais e sujeição às leis civis que punem tais práticas hediondas.

A crescente laicização da sociedade europeia reduz drasticamente o número de fiéis católicos e a freqüência à igreja. O catolicismo europeu, atrelado a uma espiritualidade moralista e a uma teologia acadêmica, afastado do mundo dos pobres e imbuído de um saudosismo ultramontano que o faz ignorar o Concilio Vaticano II, perde sempre mais o entusiasmo evangélico e a ousadia profética.

Dominado por movimentos fundamentalistas que cultivam a fé em Jesus, mas não a fé de Jesus, o catolicismo europeu cheira a heresia ao incensar a papolatria e encarar o mundo não mais como vale de lágrimas e sim como refém de um relativismo que corrói as noções de autoridade, pecado e culpa.”
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A mulher que assusta os homens?

Marcelo Rubens Paiva, estadão.com.br

“Eles namoravam na casa do cara.

Assim que terminaram, ela se levantou rápido, olhou o relógio, checou mensagens do celular, sorriu e começou a se vestir. Ele ainda arfava, nem tinha tirado a camisinha, ficou olhando surpreso e perguntou:

‘Pô, você já vai embora?’

‘Tenho que ir. Acordo cedo amanhã.’

Ele ficou mudo enquanto ela calçava as botas. O que eu fiz de errado? Foi ruim? Não, ela gozou duas vezes, forte. Mas ela nem beijou depois. Ela nem olhou com aquele ar apaixonado que toda mulher faz depois de gozar.

Tudo bem, era a primeira vez. Conheceram-se o quê, há uma semana, naquele restaurante? É. Onde rolou a troca de olhares. Onde rolou aquela conversa tola, enquanto aguardavam os carros. Onde ela deu o telefone do escritório, quando ele chegou perto, perguntou seu nome, o que fazia, elogiou sua roupa, disse na cara-dura que queria vê-la de novo, e ela ditou o número de seu telefone sem hesitar, e ele teve de decorar, ela disse que era arquiteta e zarpou, ele teve que pedir a caneta a um manobrista para anotá-lo na mão, e quando chegou em casa teve de se esforçar para decifrar aqueles números confusos em sua pele suada, para transpô-los para uma agenda em que anotou ‘garota do restaurante’, já que se esquecera do seu nome e teve de enrolar a secretária do tal telefone três dias depois — porque ele sempre ligava três dias depois —, porque se esquecera do nome da arquiteta que trabalhava lá, descreveu à secretária impaciente, até milagrosamente transferirem a ligação, e, sim, ela o atendeu, oi, sou eu, o restaurante, claro, ela se lembrou, conversaram alguns assuntos, marcaram um cinema, porque descobriram uma afinidade, filmes brasileiros, e tinha um bom em cartaz, em que foram dois dias depois, e mais um jantar.”
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07 Abril, 2010

O comerciante abissínio

Guilherme Montana, Digestivo Cultural

"Ele era um comerciante habilidoso. Sabia, como por um dom clarividente, as ervas para todas as necessidades, os tecidos para todas as indumentárias e acessórios, os animais para todos os trabalhos. Este saber nada tinha de mágico, na verdade. Era a manifestação de uma aguda sensibilidade, tanto de espírito quanto de sentidos.

Um andarilho. Harar, Aden, Tadjoura, Zeila... O deserto. O vazio. As cidades. Os mercados. Visitou cada um deles. Mercados apinhados, com cores e rostos distintos, à algaravia de vários idiomas. Entre essa gente, nosso comerciante andarilho, oferecendo cretone adamascado, merinó azul, flanela vermelha, pérolas Decan & Co.; botões ornamentados, fitas douradas, brillés. Panelas, tesouras, couro de bode. Ouro, almíscar. Seda, crepe, lona, algodão.

Item por item, ele conhecia um por um. Assim como as pessoas. A quem vender, a quem não vender. Por quanto vender: o preço justo para quem compra e lucrativo para ele. E o que e com que fim vender: o cretone adamascado, matéria-prima das maréchates, as mantas que vestem os abissínios; Bloknote, uma marca de blocos de papel, ideal para o alfabeto amárico ― debdabies amara ― por suas linhas estreitas; seda azul da Índia, adequada para confecção dos djanos, outro modelo de manta abassi. Assim por diante. Com precisão cristalina, ele comercializa bens: "Tecido de algodão, de trama cerrada, quente, espesso, com a resistência dos panos leves para vela, cortados no comprimento com faixas vermelhas e azuis de cinco centímetros de largura, separadas entre si por vinte centímetros".

Riqueza, longe disso. Mas, sim, próspero, à sua maneira. Nunca lhe faltou trabalho. Havia tanto o que comerciar, por sinal, que ele se aventurou a vender armas, seduzido pela chance de ganhos astronômicos. Mas a transação deu errado. Esta incursão pelo tráfico de armas, temperada com subornos absurdos e caprichos da realeza etíope, deixou um gosto amargo em sua boca. Voltou então a trabalhar entre aromas, fragrâncias, texturas, metais. Sua vocação.”
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05 Abril, 2010

O segredo do argentino

Alexandre Xavier, Terra Magazine

“Sabe quando bate uma leve vontade de chorar, mas o ato de ir às lágrimas não é consumado? Sobra um gosto meio amargo, meio anestésico na garganta...

É como se as lágrimas ficassem latentes. Não se mostram fortes o suficiente para conseguir alcançar os olhos. Elas cedem à gravidade e ao consciente, mas te deixam mais vulnerável.

O diretor Juan José Campanella filmou uma história cujo resultado é deixar o espectador com esse gosto peculiar na garganta. E levou o Oscar de melhor filme estrangeiro por isso.

"O Segredo de Seus Olhos" provoca uma rara e balanceada mistura de emoções, sem deixar seus nervos em frangalhos. Muito pelo contrário até. É tudo muito sensível, belo. Marcas do cinema argentino.”
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04 Abril, 2010

Pileque precoce

Frei Betto, Adital

“Pesquisas indicam que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século XX, queriam mudar o mundo.

Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar "venham todos ao meu reino", pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3.

A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética.

O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado.

É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo.
No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV -concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool.

Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool.”
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A intolerável alegria daqueles pequenos estranhos

Eberth Vêncio, Revista Bula

“A camionete avançou o sinal vermelho e derrubou no asfalto o motoqueiro. Eu vinha logo atrás, distraído, enclausurado numa cápsula sobre quatro rodas. Um carro. Apenas mais uma peça da nefasta engrenagem que se tornou o trânsito desta metrópole.

A picape arrancou em velocidade, sem prestar socorro ao acidentado, desaparecendo na paisagem urbana. Não tive tempo de anotar a placa, mas no vidro traseiro havia um adesivo que anunciava em letras garrafais: DIRIGIDO POR MIM, GUIADO POR DEUS. Uma sacrílega parceria atribuída ao suposto criador do universo, ainda mais naquela situação de erro e fuga.

Não fosse pelas escoriações e constrangimento, o sujeito até que se safou bem. Ele sabia que era apenas mais um motociclista entre tantos que se ferram no trânsito. Bateu as mãos sobre a roupa despregando a poeira da rua, pesquisando sangue, e agradeceu a Deus por não ter se ferido. Seria o mesmo Deus no qual cria o fujão da camionete?! Subiu na motoca e tocou em frente, misturando-se aos demais crentes e ateus.

Observar atentamente a cidade é uma forma de amá-la. Diariamente, numa famosa alameda perto da minha casa, há dezenas de pessoas praticando corrida. Os atletas amadores treinam ali mesmo numa beirada da rua, sob a sombra dos pinheiros (jamais poderia supor que pinheiros sobrevivessem ao inóspito clima quente desta região; da mesma forma que os passarinhos, à saga mortífera dos seres humanos). A presença dos corredores tem gerado alguma polêmica e está irritando vários motoristas que por ali transitam, a maioria deles sempre apressada, atormentada pelo tempo, arruinada pela própria bílis.”
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03 Abril, 2010

Portas da realidade

Descer o cacete nos manifestantes e depois processá-los judicialmente, este é o modus operandi exemplar dum candidato a presidente que, em ano eleitoral, até por razões estratégicas, deveria mostrar sua face mais amável?

Márcia Denser, Congresso em Foco

Desta vez eu canto a bola, coleguinhas & hidrófobos demotucanos, até porque aqui, de Sampa, a porta da realidade não é a Rede Bobo, tampouco as chamadas dos jornalões Folha e Estadão, mas a realidade circundante, a cotidiana, a realidade dos fatos ao meu redor, a mais pedestre e epidérmica. Ei-la: dia 19/3, sexta-feira, tipo 15h, casualmente, desci do metrô na Avenida Paulista (esquina com Brigadeiro Luís Antonio). Metrô lotado, inclusive por professores estaduais que iam à manifestação da categoria. À saída da Estação, eles foram entusiasticamente aplaudidos pelo distinto público circunstante (including me), aquela multidão que habitualmente se espalha pelos corredores e escadas rolantes. Pensei: algo definitivamente está mudando.

Mas existem outras portas da realidade (e da percepção) – os blogueiros do bem da web – Azenha, Eduardo Guimarães, André Lux, Miguel do Rosário, Nassif, Argemiro Ferreira de Nova York, Altamiro Borges, Paulo Henrique Amorim, Celso Lungaretti (que vez-em-quando escreve aqui) e sobretudo ultimamente os editoriais da Agência Carta Maior, cujos melhores – de março e fevereiro ¬- reproduzo abaixo.

By the way, aviso aos coleguinhas & hidrófobos demotucanos: estou realmente prestando um serviço ao leitor de Congresso em Foco, pois não adianta procurar no site. Os editoriais on-line são renovados dia-a-dia, às vezes a cada doze horas (tipo celular de traficante) e não há arquivo disponível.

“Com arrocho sobre o funcionalismo que presta serviços à população --em especial, áreas da educação e saúde, cujos salários não foram sequer corrigidos pela inflação; com taxa de homicídio em alta no setor da segurança pública; com níveis de aprendizado que fazem um aluno de SP concluir o ensino médio sem ter assimilado nem mesmo o que se espera de uma criança ao final da 8º série; com a aura de gestor eficiente dissolvida nas inundações de verão deste ano em SP; com um legado político cujo símbolo maior é o desmoralizado prefeito de SP, Gilberto Kassab, Serra deixa hoje o governo do Estado para assumir oficialmente o papel de líder da oposição conservadora ao governo Lula. Uma frente de sindicatos e organizações populares saudará o bota-fora do candidato demotucano com manifestações na Av. Paulista, nesta quarta-feira.” (Carta Maior – 31/03)”
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01 Abril, 2010

Literatura & amnésia histórica

Hoje as artes e a literatura estão expostas a um perigo diferente: não se veem ameaçadas por uma doutrina ou um partido político, mas sim por um processo econômico sem rosto, sem alma e sem rumo”

Márcia Denser, Congreesso em Foco

Refletir sobre a situação atual da Literatura não deixa de ser uma operação essencialmente política, tantas as mediações envolvidas. De forma que, inspirada por umas leituras de Octávio Paz, tentei articular algumas características que marcam a Literatura no início do século 21:

- O deslocamento dos estudos humanísticos que deixaram de ser o centro dos sistemas educativos; o cientificismo que leva o discurso da física, da química ou biologia a domínios como a história e as ciências humanas. Por exemplo, deixar de ler a Odisséia como texto literário, para ler como relato histórico ou reportagem etnográfica, é como estudar mineralogia na Catedral de Chartres (que, entre outras coisas, é feita de pedras);

- Fora da universidade, a tradição poético/literária é corroída pela hipertrofia da indústria editorial que, aliada à publicidade, converteu em mercado financeiro o intercâmbio de idéias, valores, gostos e opiniões. O mundo literário sempre foi um comércio de bens materiais e espirituais, livros são objetos, mas principalmente objetos simbólicos, porque veículos de idéias e formas estéticas;

- A indústria editorial tende a dissolver a diversidade de públicos em massa. E isso não é deliberado, mas algo inscrito na própria natureza do sistema de produção. O mercado editorial é movido apenas por considerações econômicas – o valor supremo é o número de compradores. É bom ganhar dinheiro, bem como produzir para um grande público, mas nesse processo, infelizmente, a literatura morre e a sociedade se degrada se o propósito básico é a publicação de best-sellers, obras de entretenimento e de consumo popular. E a História da Literatura no Ocidente, sobretudo na Idade Moderna, tem sido a das minorias: escritores rebeldes, críticos da ordem estabelecida, poetas e romancistas inventores de novas formas, artistas herméticos e difíceis. A lógica do mercado não é da literatura;”
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