28 Fevereiro, 2011

O mundo vai mudar

Rui Martins, Direto da Redação

“Vivemos um momento histórico. O vento da revolução sopra nos países árabes, cujas ditaduras ou regimes de partido único, dirigidos pelos que, no Ocidente se chamavam senhores feudais, vão ser substituídos por regimes pluripartidários e democráticos.

Os EUA e a Europa se posicionam e condenam tardiamente os ditadores, como se, de repente, descobrissem a necessidade de se respeitar os direitos humanos. Mas, nem todos somos de memória curta. Ainda há pouco, todos se banqueteavam com os ditadores, vendiam-lhes armas e os recebiam com tapete vermelho, submetendo-se aos seus caprichos.

A desculpa era a ameaça dos fanáticos islamitas. Não queriam que a institucionalização da democracia tivesse o mesmo resultado das eleições na Argélia, há cerca de vinte anos, quando os islamitas mostraram sua força e poderiam instalar um regime teocrático ao lado da Europa.

Verdade ou desculpa esfarrapada, o fato é que se assim se convenceram os políticos e a opinião pública. Sem Ben Alli e sem Mubarak as hordas de Bin Laden chegariam ao poder e ameaçariam o mundo ocidental. E, já que o menos mal era aceitar tais ditaduras, o jeito era ir negociando com elas, vendendo armas e comprando petróleo.

Dizem que foi a perspectiva de bons negócios que levou o governo de Tony Blair a aceitar a entrega do líbio condenado à prisão perpétua como responsável pelo atentado contra um Boeing da Pan-Am, cujos destroços caíram sobre a cidade de Lockerbie, matando 270 pessoas da equipagem e passageiros, mais onze habitantes da localidade. A ordem teria partido de Khadafi, o herói líbio, em vingança contra um ataque à sua residência por mísseis americanos.

Muita tinta se gastou na busca de quem realmente teria mandado explodir o Boeing. Uma versão aceita por muitos era de ter sido a própria CIA quem praticara o atentado para incriminar o coronel Khadafi. Mas nesta quarta-feira, o próprio ministro líbio da Justiça, demissionário, numa entrevista a um jornal sueco, afirmou ter partido do próprio Khadafi a ordem para derrubar o avião.”
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27 Fevereiro, 2011

Eu vibrei quando Nicky perfurou a jugular daquele bastardo com uma lapiseira


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Calma, leitor. A cena é do filme “Casino”, de Martin Scorsese (1995). O mafioso Nicky (Joe Pesci) toma as dores do até então amigo Sam (Robert De Niro) e agride um brutamonte no balcão de um bar, atingindo o seu pescoço com uma lapiseira (a mesma lapiseira que o atrevido mandara Sam “enfiar no rabo”). O grandalhão desaba e é chutado impiedosamente por vários segundos.

Na cena impressionante, a agressão fica meio disfarçada, com a câmera focando o semblante raivoso de Nicky e a expressão embasbacada de Sam. O corpo da vítima não é exibido, mas, pelos seus gemidos e pelos xingamentos do Nicky (“fuck you” é o mais “light” deles), dá pra imaginar o estrago. Coisas de cinema. Artimanhas dos grandes diretores. Para quem gosta de filmes de máfia, este aqui é espetacular e eu recomendo.

Nos últimos anos, tenho me dedicado, com absoluta satisfação, a assistir aos “melhores filmes de todos os tempos”. É claro: já caí nalgumas ciladas. Todas as semanas, passo numa excelente vídeo-locadora no centro da cidade, na qual realizo as minhas blitz às estantes, orientado pelas mais variadas fontes, principalmente listas, sites sobre cinema, referências dos amigos, e indicações das sempre prestativas funcionárias (como é bom ser atendido com cortesia nestes dias de mundo canis...). É difícil ter certeza, mas é capaz de já ter me transformado num cinéfilo.

Os 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos, Os 100 melhores Filmes de Western, Os 100 Melhores Filmes de Comédia, Os 100 Melhores Filmes de Suspense... E por aí vai. Só não puxei a lista com Os 100 Melhores Filmes de Amor porque o gênero não me interessa. Sim, o amor ainda me interessa. Um pouco. Eu fingiria ser romântico para fazer sexo, por exemplo.

Adoro filmes de western (aos quais eu prefiro chamar filmes de caubói ou bang-bang), suspense inteligente (não gosto do terror, vampiros, mortos-vivos, demônios, exorcistas, enfim, coisas que não existem...) e filme sobre a máfia. Enfim, os filmes com doses alopáticas de violência exercem sobre mim uma curiosa atração. Eu digo curiosa porque detesto violência.”
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26 Fevereiro, 2011

Nunca é tarde para amar

Frei Betto, Adital

“Faz tempo. Trinta e seis anos. Eu morava em Vitória. Havia ali uma comunidade monástica ecumênica, sucursal do Mosteiro de Taizé, na França, que congrega protestantes e católicos.

O mais jovem, Henri, tinha 24 anos. Como quase todo europeu que pisa pela primeira vez em nosso país, estava fascinado com o Brasil: o calor, a luminosidade, as frutas, a religiosidade do povo e, sobretudo, o acolhimento, este dom que a nossa gente tem de ficar amiga de infância cinco minutos depois de conhecer uma pessoa.

Trouxe-o a Minas. Queria que Henri visitasse Belo Horizonte, Ouro Preto, Congonhas do Campo. Já outros europeus que eu convidara às Alterosas haviam se maravilhado com a harmonia barroca da antiga Vila Rica. E mais ainda ao saber que aquelas ladeiras guardam histórias libertárias, enquanto suas igrejas, cujas torres agulham o céu plúmbeo, exibem a arte incomparável de Aleijadinho. Não fosse o Brasil um país periférico, Antônio Francisco Lisboa seria mundialmente tão venerado quanto Michelangelo.

Em Belo Horizonte, apresentei Henri a meus amigos, entre os quais Cláudia, 34 anos, recém-divorciada após oito anos de casamento, mãe de um menino. Cláudia havia morado uns tempos em Paris e, portanto, dominava a língua francesa, o que facilitou a comunicação entre os dois.

Henri ficou tocado por ela. Chegou mesmo a se declarar a ela. A sedução, entretanto, não foi recíproca. Cláudia considerou-o um homem inteligente, bonito, e a diferença de idade pesou menos que o escrúpulo de não querer ver o jovem monge largar o hábito para iniciar um relacionamento após um encontro fortuito.
Meses depois, Henri retornou à Taizé. Durante certo período, sublimou sua repentina paixão na amizade alimentada por cartas frequentes entre ele e Cláudia. Depois, a correspondência esmoreceu, Henri abandonou a vida monástica e dele Cláudia não teve mais notícias.”
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25 Fevereiro, 2011

“O silêncio é ouro e a palavra é prata”

A modernidade, portanto, que tanto exaltamos, exige, mais que nunca, o silêncio da escuta e o desejo sincero de ouvir o outro

Dora Martins, Brasil de Fato

Vivemos em um mundo ruidoso. De muitas palavras. De muito diz que diz. Somos internautas, twiteiros. Temos celulares sempre à mão e em qualquer lugar e hora. Queremos que nos leiam, nos ouçam. Porém, temos dificuldades de parar para ouvir. Quantas vezes impedimos o diálogo: na ânsia de falar não escutamos. Temos muitas desculpas para não ouvir o outro e temos muita vontade de falar. Queremos ser ouvidos, mas não queremos ouvir. Escutar, ouvir é mais difícil. Para ouvir, temos que ficar em silêncio, temos que prestar atenção, temos que esquecer de nossos pensamentos e deixar que a ideia e a voz do outro, que nos fala, entre em nós. Temos que reconhecer que o outro existe e que tem algo de novo para nos dizer. E, ouvindo de verdade o outro, podemos pensar, trocar ideias e aprender e criar novas realidades, juntos.

O juiz, ao julgar um processo, precisa ouvir as duas partes que estão a discutir e, depois de ouvir, deve decidir quem tem mais razão, quem está mais perto do que se quer por justiça. Mas, a justiça no Brasil anda muito devagar e, com o peso de seus entraves burocráticos (falta juiz, falta funcionário, falta material, falta prestigiar o poder judiciário com um dos poderes da democracia) acaba, às vezes, ouvindo mal, falando tarde, ou falando uma língua que nem todos entendem.

Assim é que temos hoje, no cenário brasileiro e mundial a busca por novos meios de se fazer justiça. Justiça Restaurativa e Mediação, por exemplo, são jeitos de fazer justiça na base da conversa, da escuta do outro, do silêncio para ouvir a razões de cada um, e as histórias que cada um tem para contar. Na mediação uma terceira pessoa, imparcial e tecnicamente preparada, auxilia as partes que estão em conflito, possibilitando que elas aumentem a possibilidade de comunicação entre si e cheguem, elas mesmas, à melhor solução de seu problema. De conversa em conversa, ouvindo as razões e motivos do outro, cada um assume a responsabilidade de sua história, de sua conduta e de sua vida.”
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24 Fevereiro, 2011

A arte de seduzir

Frei Betto, Adital

“Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.

Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.

Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.

"No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini (cabanas de folhas).

Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caras-pálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida.
Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.

Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shopping, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam...”
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23 Fevereiro, 2011

As pessoas mudam? O mundo muda?

Dal Marcondes, CartaCapital

“Uma questão corriqueira da vida das pessoas é sobre a mudança. Serão as pessoas capazes de mudar, de transformar seu modo de ver o mundo e, com isso, implementar mudanças em seu comportamento? Todos os dias a gente ouve frases do tipo: não adianta, as pessoas não mudam. No entanto o mundo passa todo o tempo por transformações e existe a crença de que, com trabalho e esforço é possível mudar pessoas e realidades. Quando o Judiciário manda um transgressor para a prisão para cumprir um tempo de pena é uma aposta da sociedade de que aquela pessoa pode mudar de vida, tornar-se uma pessoa útil, ou ao menos uma pessoa que não seja um perigo ou transtorno para a sociedade.

Acreditar que as pessoas podem mudar é parte fundamental da construção de um futuro onde a qualidade de vida seja a prioridade para a sociedade. O discurso dogmático de que as coisas vão mal e continuarão a ir mal até que o fim é repetido por muitas pessoas. No entanto, a análise um pouco mais distanciada mostra que o mundo é uma realidade em permanente transformação, com pessoas, organizações, empresa e governos em mutação contínua. As pessoas crescem, evoluem, estudam, trabalham, formam novas amizades, se apaixonam e mudam.

Defender ou acreditar na estagnação como sendo a dinâmica do mundo é ter um olhar míope sobre a realidade. É não compreender que a humanidade é movida a desafios, sejam projetos pessoais, ou mais amplos, como desejos sociais. Nos últimos dias vimos, por exemplo, os desejos da sociedade egípcia transformarem a realidade de um país que viveu décadas de ditadura. E não dá para dizer que isto é lá, e não cá, porque aqui também tivemos um grande levante contra a ditadura que culminou na redemocratização do país.”
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22 Fevereiro, 2011

Linguagem

O compromisso de defesa da linguagem é, sem dúvida, em primeiro lugar, um compromisso com a massa trabalhadora

Leandro Konder, Brasil de Fato

As imagens mostradas na TV e a diversidade dos impactos produzidos pelo levante da população egípcia desmoralizaram subitamente a ideia de que esse tipo de revolta explosiva, que o conservadorismo considerava morto, não deveria ocorrer. Em especial, a direita tentou sustentar o reconhecimento da validade de critérios ditos liberais com a comprovação da drástica impopularidade do presidente do Egito.
Quando a gente vê os debates entre certos políticos descambarem para a grossura, só podemos lamentar isso. Pior, contudo, é a perda de tempo em alguns discursos ocos, reacionários, conservadores e prolixos, que nos é imposta pelas transmissões de rádio e TV, como agora acabamos de verificar na disputa pelas cadeiras de chefes do legislativo.
O que leva os políticos demagógicos a indulgir na malandragem? Cada caso é um caso.
As perguntas se multiplicam e se confundem. O filósofo Tales de Mileto declarava que a filosofia começa com o espanto. Quando nos surpreendemos com o fato de o mundo ser como é, estamos começando a filosofar. Lembremos de Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros.
Depois de Tales de Mileto, outros filósofos elaboraram as suas filosofias, porém não deixaram de reconhecer a importância do espanto filosófico. Um setor da realidade, em especial, mereceu grande atenção. Um interesse particular foi concedido à filosofia da linguagem.
A linguagem tem duas funções básicas. Ela pode ser comunicativa ou expressiva. Como comunicação ela informa a aquele que ouve aquilo que o falante acha que deveria informar. Na pré-história, uma parte sumamente importante da função comunicativa era a função nomeadora.
O mundo estava cheio de coisas e de seres que permaneciam anônimos. Os homens eram desafiados a superar esse anonimato. No mundo, os riscos cresciam e a humanidade se defrontava com animais de grande porte, que podiam acarretar a extinção do gênero humano. Para diminuir os riscos, os indivíduos precisavam se comunicar. Precisavam da linguagem.
A outra função era a da linguagem expressiva, que se desenvolveu depois de algumas conquistas básicas da comunicação. Foi o trabalho que proporcionou ao ser humano contrapor-se à natureza, criando o sujeito.”
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21 Fevereiro, 2011

Cidadãos acima de qualquer suspeita

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“É muito grave a crise na polícia do Rio de Janeiro com a série de denúncias envolvendo cidadãos acima de qualquer suspeita. Há poucas semanas, o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame era só elogio ao recém-exonerado chefe de polícia, Allan Turnowski, indiciado pela Polícia Federal com a acusação que teria vazado informação sobre Operação Guilhotina, que prendeu policiais envolvidos em corrupção. Turnowski se diz inocente, vamos ver. Tudo muito nebuloso.

Todo mundo lembra que nas operações de ocupação da Favela Cruzeiro e Complexo do Alemão Turnowski era apresentado pela mídia de mercado como o “grande policial”. O Governador Sérgio Cabral também tecia elogios ao referido. A série de denúncias sobre ilegalidades cometidas pela polícia, denunciadas por moradores e pela entidade Justiça Global passavam ao largo.

Agora, com o estouro da boiada e a prisão de dezenas de policiais, inclusive do delegado Carlos Oliveira, braço direito de Turnowski, que estavam na mira da Polícia Federal, muitas das denúncias de corrupção estão se confirmando.

O cidadão acima de qualquer suspeita Turnowski deve no mínimo uma satisfação à opinião pública. Se alguém tem como braço direito um policial bandido, é praticamente impossível que o superior hierárquico desconheça.

O Rio vive sobressaltado, inclusive com a ação das milícias em várias comunidades da cidade e a Polícia Federal está demonstrando que a cúpula da Polícia comandada pelo “herói” Beltrame e sua equipe, agora defenestrada, tem culpa no cartório. Beltrame pode até não ter culpa, mas se revelou um gestor relapso ao colocar na cúpula cidadãos gente da banda podre. Ninguém cobra isso do “herói”.

A série de denúncias, inclusive sobre o recebimento de altas propinas por parte de Turnowski, precisa ser apurada com todo o rigor. Outra grave acusação feita pela Polícia Federal, segundo a qual o assassinato do presidente do camelódromo do centro do Rio de Janeiro, Alexandre Pereira, foi planejado por ex-integrantes do Mosssad, o serviço secreto de Israel, não pode ser deixada de lado.

Beltrame, Sérgio Cabral e os Ministros da Justiça não sabiam que agentes policiais estrangeiros agiam no Rio de Janeiro? Por que só agora a denúncia veio a público? Será que o Rio continua terra de ninguém com livre trânsito para agentes ou ex-agentes estrangeiros? Tudo no mínimo estranho, ainda mais pelo fato de o Governo do Estado do Rio de Janeiro ter comprando material bélico de fábricas israelenses. Não deveria ser por isso que ex-agentes secretos podem atuar no Rio, conforme denuncia o relatório da Polícia Federal.”
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20 Fevereiro, 2011

É a comida, estúpido

Reinaldo Canto, Carta Capital

“O mundo, assim denominado “rico e democrático”, comemorou a queda de persistentes e longevas ditaduras na Tunísia e no Egito. Esse mesmo mundo “rico e democrático” também exultou, recentemente, os sinais da retomada do crescimento global no Fórum Econômico de Davos.

Como diria a música da Blitz, “tudo muito bom, bom, tudo muito bem, bem”, se não fosse uma questão que vem sendo tratada de maneira bastante marginal dada a sua importância e urgência: a crise mundial de alimentos!

Quem acompanhou a cobertura passo a passo das manifestações que tomaram, primeiramente, as ruas de Túnis capital da Tunísia e até dias atrás as ruas e a agora globalmente conhecida Praça Tahrir, no Cairo, viu, ouviu e leu, os líderes da oposição e a própria população declararem estar fartos de corrupção, repressão e ávidos por liberdade. Mas esse contundente, basta! ocorreu, no caso da Tunísia, 23 anos depois da tomada do poder de Zine El Abidine Ben Ali e no caso do Egito após 30 anos da ditadura de Hosni Mubarak. E por que só agora?

Ao lado de fatores políticos, sociais e tecnológicos (redes sociais, internet e celulares contribuíram para disseminar as informações sobre os protestos), o aumento no preço dos alimentos é algo que não pode ser visto como secundário nos protestos.

Segundo a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), em dezembro de 2010, os preços do trigo, óleo, milho, arroz, carne e leite tiveram aumentos recordes. O milho sofreu reajuste de 60%, o trigo de 43% e o açúcar aumentou 77%.
O aumento no preço dos alimentos afeta a todos, mas os países africanos estão entre os que importam a maior parte da comida consumida por seus povos. O Egito se destaca como um dos maiores importadores do mundo, principalmente cereais. Como em outros países árabes ao lado do Egito, entre eles a Tunísia e a Argélia, as famílias gastam de 40% a 50% da renda na compra de alimentos.”
Foto: Mohammed Abed/ AFP
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18 Fevereiro, 2011

Como se fazem os heróis


Menalton Braff, Revista Bula

“Nunca dou muito crédito às histórias que o Adamastor me conta, mas algumas delas são interessantes. Esta que aí vai é exemplar. E as histórias exemplares tanto podem ser verdadeiras como ficção que isso pouco importa. O Aristóteles já dizia que o poeta está mais próximo da filosofia do que o historiador. Não sou ninguém para duvidar do Aristóteles.

Na cidade onde o Adamastor nasceu, ele me conta que conheceu um vizinho, bombeiro, homem pacato, sem vocação nenhuma para gestos grandiosos, altos cometimentos. Um bombeiro que não se tratava propriamente de um gigante.

Uma tarde terrivelmente quente de verão, a corporação de seu conhecido foi convocada para debelar as chamas de um incêndio e tentar, ao mesmo tempo, o resgate de duas, três pessoas que ainda permaneciam lá dentro, por trás do fogo, o que era mera ilação justificada pelos gritos que se ouviam e que pareciam vindos do inferno.

Sob o comando de um sargento, alguns bombeiros começaram a jogar água no prédio em chamas, enquanto outros entravam desassombradamente pelos corredores escuros de fumaça. A multidão, em volta, olhava pasma para tudo aquilo, sem nada poder fazer. Alguns, para chegar um pouco mais perto, traziam lenços molhados com que aliviar o calor do rosto e evitar muita fumaça nos pulmões.”
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17 Fevereiro, 2011

Basta de horror

José Inácio Werneck, Direto da Redação

“Há algum tempo vi um filme que me foi mandado pela Internet com a execução, por empalação, pelo Taliban, de um pedófilo. Até hoje não sei se o filme é autêntico ou uma contrafação. Se é autêntico, é de causar compaixão ao mais empedernido dos individuos. Ninguém, por mais monstruoso, pode merecer uma morte assim tão horrenda - e o que é pior, festejada, alegremente, por uma multidão onde havia diversas crianças.

Se não podemos garantir a autenticidade daquele filme, não pode haver dúvida quanto a um que, mais recentemente, passou pela BBC e por diversas outras cadeias de televisão: a da morte por lapidação de um casal adúltero, também infligida pelo Taliban e também sob grande alegria popular.

A mulher aparece ajoelhada, coberta dos pés à cabeça por uma Burkha azul, já numa cova adredemente providenciada. Por mais espantoso que possa parecer, não morre de imediato e fica a gemer no chão, até ser liquidada a tiros. A multidão ri.

O homem surge logo depois, vestido de branco, mas com a cabeça descoberta. Seu apedrejamento é tão selvagem que morre bem mais depressa do que a mulher.”
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16 Fevereiro, 2011

TERRAMÉRICA - Contaminar se conjuga no masculino

Os maus hábitos alimentares e o uso ineficiente do transporte fazem com que os homens provoquem mais emissões do contaminante dióxido de carbono do que as mulheres.

Julio Godoy, Envolverde / Terramérica

A desigualdade de gênero em detrimento da mulher é bem conhecida e documentada. O que não se sabe tanto é que o comportamento masculino também é o maior responsável pela emissão de gases causadores do efeito estufa, que provocam o aquecimento do planeta. A essa conclusão chegaram dois estudos independentes desenvolvidos por cientistas europeus separadamente, ambos baseados em dados estatísticos sobre o consumo e as atividades cotidianas de homens e mulheres em países industrializados.

Frédéric Chomé, consultor francês para questões ambientais e de desenvolvimento sustentável, afirmou que uma mulher francesa típica provoca a emissão de 32,3 quilos de dióxido de carbono (CO²) por dia, em média, enquanto um homem no mesmo período é responsável por 39,3 quilos. “As estimativas têm como base um estudo das atividades humanas dividido por gênero, realizado pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos da França”, explicou Frédéric ao Terramérica.

“Embora nosso método de cálculo ainda seja muito aproximado, creio que o resrultado é um bom indicador das diferenças de poluição ambiental derivadas do comportamento diferente entre homens e mulheres”, acrescentou o autor do estudo “23 Heures Chrono: Votre Bilan Carbone” (24 Horas Exatas: Sua Conta Pessoal de Carbono). A conclusões semelhantes chegaram a sueca Annika Carlsson-Kanyama e a finlandesa Riita Räty em uma pesquisa sobre os comportamentos de homens e mulheres em dez atividades cotidianas na Alemanha, Grécia, Noruega e Suécia.

“Os homens consomem mais carne e bebidas processadas do que as mulheres, além de utilizarem com mais frequência o automóvel e dirigir por distâncias mais longas. Isso os leva a emitirem maior quantidade de CO²”, diz o estudo “Comparing Energy Use by Gender, Age and Income in Some European Countries” (Comparaçao do Uso de Energia por Gênero, Idade e Renda em Alguns Países Europeus). Comentando os dois trabalhos, Corinna Altenburg e Fritz Reusswig, do Instituto de Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (Alemanha), avaliaram que alguns dos hábitos mais poluentes atribuídos à população masculina são motivados pelos papeis que eles cumprem na sociedade.

“No transporte, por exemplo, fazem muitas viagens em avião e automóvel, o que aumenta consideravelmente a pegada ecológica dos homens”, explicaram Corinna e Fritz ao Terramérica. Esse desequilíbrio pode ser compensado “na medida em que a igualdade de oportunidades profissionais permitirem que a mulher suba na escala profissional e os homens assumam mais tarefas domésticas”, afirmaram. Por outro lado, as diferenças na alimentação são determinantes por gênero. “Os homens tendem a comer mais carne e as mulheres mais frutas e vegetais, hábitos difíceis de serem combatidos”, acrescentaram.”
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15 Fevereiro, 2011

A difícil passagem do tecnozóico ao ecozóico

Leonardo Boff, Adital

“As grandes crises comportam grandes decisões. Há decisões que significam vida ou morte para certas sociedades, para uma instituição ou para uma pessoa.

A situação atual é a de um doente ao qual o médico diz: ou você controla suas altas taxas de colesterol e sua pressão ou vai enfrentar o pior. Você escolhe.

A humanidade como um todo está com febre e doente e deve decidir: ou continuar com seu ritmo alucinado de produção e consumo, sempre garantindo a subida do PIB nacional e mundial, ritmo altamente hostil à vida, ou enfrentar dentro de pouco as reações do sistema-Terra que já deu sinais claros de estresse global. Não tememos um cataclismo nuclear, não impossível mas improvável, o que significaria o fim da espécie humana. Receamos isto sim, como muitos cientistas advertem, por uma mudança repentina, abrupta e dramática do clima que, rapidamente, dizimaria muitíssimas espécies e colocaria sob grande risco a nossa civilização.

Isso não é uma fantasia sinistra. Já o relatório do IPPC de 2001 acenava para esta eventualidade. O relatório da U.S. National Academy of Sciences de 2002 afirmava "que recentes evidências científicas apontam para a presença de uma acelerada e vasta mudança climática; o novo paradigma de uma abrupta mudança no sistema climático está bem estabelecida pela pesquisa já há 10 anos, no entanto, este conhecimento é pouco difundido e parcamente tomado em conta pelos analistas sociais”. Richard Alley, presidente da U.S. National Academy of Sciences Committee on Abrupt Climate Change com seu grupo comprovou que, ao sair da última idade do gelo, há 11 mil anos, o clima da Terra subiu 9 graus em apenas 10 anos (dados em R.W.Miller, Global Climate Disruption and Social Justice, N.Y 2010). Se isso ocorrer conosco estaríamos enfrentando uma hecatombe ambiental e social de conseqüências dramáticas.

O que está, finalmente, em jogo com a questão climática? Estão em jogo duas práticas em relação à Terra e a seus recursos limitados. Elas fundam duas eras de nossa história: a tecnozóica e a ecozóica.”
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14 Fevereiro, 2011

Nem lixo, nem extraordinário

Ademir Luiz, Revista Bula

"Em “Lixo Extraordinário” tudo parece pasteurizado: as emoções, as personagens, a paisagem, a denúncia do desperdício burguês, a mensagem pró-reciclagem. Perfeito para o consumo de nossa elite letrada, repleta de responsabilidade social

Certa vez, do alto de sua sabedoria de Buda etílico, o grande Tim Maia afirmou que o Brasil é o único país do mundo onde cafetão sente ciúme, prostituta sente prazer e pobre é de direita. Piada tão sociologicamente correta quanto politicamente incorreta. Paradoxalmente, quase a totalidade de nossa elite intelectual e parte considerável da elite financeira simpatizam com a esquerda. Essa proximidade ideológica concretizou-se enquanto projeto em 2002, com a eleição de Lula, o que pode ser percebido nas reuniões de bastidores de campanha registradas no ótimo documentário “Entreatos” (2004), de João Moreira Salles.

Ação e reação. Uma vez eleito, Lula passou de aposta partidária para mito vivo e líder carismático weberiano. A mesma massa que não votava em Lula por ele ter sido pobre passou a idolatrá-lo por ele ter sido pobre e se tornado presidente. Daí para o culto a personalidade foi um passo. O filme “Lula, o Filho do Brasil” (2010), de Fábio Barreto, deveria ser o principal subproduto desse culto. Porém, sem ritmo, mal escrito, mal dirigido e interpretado com insegurança, o melodrama fracassou nas bilheterias. Mesmo assim, apostando no prestígio internacional do operário-presidente, uma comissão do Ministério da Cultura resolveu indicá-lo como candidato nacional a uma vaga entre os finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro. Não deu certo. Se a inexplicável parceria de Lula com o insano presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad lhe tirou o Nobel da Paz, a qualidade duvidosa do filme de Barreto lhe tirou o Oscar. E quase tirou o Brasil do Oscar.

Quase porque a coproduçãobrasileira/britânica “Lixo Extraordinário”, dirigida pelo trio Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim, registrando os dois anos em que o artista plástico carioca Vik Muniz trabalhou com catadores do aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. Acredito que tem chances reais de vencer, já que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood é mais parecida com a Academia Sueca do que se imagina. Filmes bem-intencionados e edificantes são sempre bem-vindos. Além de aliviar o espírito, são bons para os negócios.”
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13 Fevereiro, 2011

Na luta pelos direitos humanos

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“E Hosny Mubarak foi embora com seus bilhões de dólares acumulados ao longo dos 30 anos de ditadura. O vice Omar Suleiman, o querido de Israel e que cuidava do serviço secreto egípcio, fez o anúncio e passou a bola para o Comando das Forças Armadas, do qual faz parte, entre outros, o Marechal Hussein Tantawi, segundo várias fontes, vinculado aos Estados Unidos e ligadíssimo a Mubarak.

O problema agora é o chamado pós, ou seja, se vai prevalecer mesmo a voz rouca das ruas que clama por transformações ou acontecerá o velho esquema do mudar para não mudar, esquema preferencial dos Estados Unidos e de Israel. Nesse sentido, os manifestantes da praça Tahir, no Cairo, já criaram um conselho para negociar a transição com os militares e tentar evitar jogadas para continuar tudo como era antes apenas mudando a fachada.

Por falar em Israel, aproveitando o fato de o mundo estar voltado para os acontecimentos no Egito, a aviação israelense destruiu uma fábrica de medicamentos ao bombardear a Faixa de Gaza, o que agravará a situação humanitária do povo palestino naquela área. E isso aconteceu sob quase total silêncio da mídia de mercado, que apenas “informou” em reduzidas linhas ter havido um ataque aéreo a Gaza em represália a ataques de foguetes (caseiros) em território israelense sem provocar vítimas.

O Globo, por exemplo, além de não dar uma linha sobre mais este crime cometido pelo governo extremista de Benyamin Netanyahu, apareceu com uma manchete que dá bem a ideia do tipo de jornalismo que pratica, afirmando que “A Praça derruba o ditador”. Os editores preferiram não arriscar em colocar que “O Povo derruba o ditador”, optando pela “Praça”. E é sempre bom lembrar que só depois de pronunciamentos de Hillary Clinton e Barak Obama contra Mubarak é que o ex-dirigente egípcio passou a ser tratado como ditador pelas Organizações Globo. Antes era Presidente para lá e para cá.

Quanto ao Irã, continua a sofrer pressões não só de Washington como de outros países que se alinham automaticamente com a potência hegemônica. O cachorrinho dos EUA, Tony Blair, foi substituído pelo não menos cachorrinho Primeiro Ministro britânico David Cameron e continua a fazer o que o governo dos EUA exige.”
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12 Fevereiro, 2011

Mudança Climática e conflito social estão associados?

Sérgio Abranches, do Ecopolítica / Envolverde

“Eventos climáticos extremos podem ter tido efeito importante nos levantes populares no Oriente Médio e Norte da África? A mudança climática já está afetando as relações sociais?

A questão pode parecer uma dessas vias forçadas para alertar sobre a mudança climática. Mas não é. É uma preocupação relevante e essa conexão já vem sendo estudada por cientistas das mais diversas áreas, climatologistas, ecologistas, sociólogos, economistas. A pergunta é mais complexa do que ela aparenta à primeira vista. Ela indaga sobre duas relações nada triviais: entre eventos climáticos extremos e mudança climática e entre anomalias climáticas e conflito social.

Os cientistas resistem sempre a atribuir a emergência de eventos climáticos extremos específicos à mudança climática. Argumentam, com razão, que não há base científica para associar um evento em particular ao fenômeno global e de longo prazo da mudança climática. Mas o climatologista Kevin Trenberth, diretor da Seção de Análise Climática do Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica, nos Estados Unidos, defendeu recentemente uma visão diferente desse problema, conhecido na ciência climática como “o problema da atribuição”. Em entrevista exclusiva ao editor do blog Climate Progress, o físico Joseph Romm, Trenberth disse que:

Os cientistas sempre começam com a afirmação de que não se pode atribuir um evento isolado à mudança climática. Mas ela tem uma influência sistemática sobre todos esses eventos climáticos atuais, segundo ele, por causa do fato de que há mais vapor d’água circulando na atmosfera do que se tinha, digamos, trinta anos atrás. É uma quantidade extra de 4% de vapor d’água. Ele aumenta a força das tempestades, dá mais umidade para essas tempestades e é ruim que o público não veja isto como uma manifestação da mudança climática. A perspectiva é que esse tipo de coisa só aumentará e piorará no futuro.

A quantidade de gases estufa na atmosfera, segundo a maioria dos cientistas, já tem um efeito de aceleração do aquecimento da Terra. Portanto, a mudança climática decorrente deve ser vista como um processo em curso com tendência de agravamento ao longo do tempo. Ou seja, é de longo prazo, mas as coisas não acontecem todas no futuro de uma vez só. Vão acontecendo progressivamente, com aumento de frequência e intensidade.

E qual a relação com os fatos no Oriente Médio e na África do Norte?

Tivemos um período atípico de grande quantidade de eventos climáticos extremos em 2010 e no início deste ano. Secas, enchentes, ondas de calor e frio, tempestades intensas, nevascas, queimadas. Esses eventos afetaram negativamente a produção agrícola mundial em todas as partes do mundo: os casos mais exemplares foram no Casaquistão, na Rússia, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos, na China e no Brasil. O resultado foi uma forte alta dos preços internacionais das commodities agrícolas e inflação de preços de alimentos. Uma inflação climática.”
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11 Fevereiro, 2011

69 dicas essenciais para se dar bem no sexo e, quem sabe, no amor e nos jogos


Eberth Vêncio, Revista Bula

“01 — Se for preciso, minta.

02 — Se for impreciso, está perfeito.

03 — Jogue buraco com a mãe dela.

04 — Não jogue a sogra no buraco, a não que ela já esteja morta.
05 — Ajude a encostar a sogra no INSS.

06 — Jamais abra contas conjuntas.

07 — Faça um 69 e todas as outras combinações numéricas possíveis.

08 — Lave suas próprias cuecas.

09 — Nunca palite os dentes num restaurante.

10 — Escreva alguns versos para ela, ainda que as rimas fiquem pobres.

11 — Não vai ficar rico. Então, curtam juntos o pouco que o seu dinheiro consegue comprar.

12 — Evite dívidas.

13 — Odeie dúvidas.

14 — Ponha o lixo para fora.

15 — Não beba tanto assim. Não dormir por causa de um homem bêbado é deplorável.

16 — Simplesmente aceite o papel social do repertório de Roberto Carlos e Erasmo.

17 — Sinta-se à vontade em casa. Pode até andar nu.

18 — Não se atreva a coçar as partes íntimas (as suas, é claro) na frente dela.

19 — Mesmo miseravelmente embriagado, jamais troque o seu nome (o dela).

20 — Não se usa fio dental na frente de uma mulher. Não, não é de biquínis que estou falando.

21 — Ofereça ajuda para lavar a louça suja.

22 — Larga de ser besta. O tamanho do pênis (do seu pênis) não importa.

23 — Para de fazer tantas contas, e compre logo um buquê de flores ou uma caixa de chocolates. Nem pense em escolher o mais barato.

24 — Seja gentil com o garçom.

25 — Nunca cuspa na frente dela. A não ser que ela tenha começado.”
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10 Fevereiro, 2011

Vai começar o festival de Berlim

Rui Martins, Direto da Redação

“Embora já premiado com dois Ursos de Ouro, o cinema brasileiro não participa este ano da Competição, no Festival Internacional de Cinema de Berlim que começa nesta quinta-feira, mas há uma atração na mostra Panorama: a sequência do filme de José Padilha, Tropa de Elite 2, com projeção amanhã para a imprensa, e em outros quatro dias para o público alemão.

Outro filme brasileiro está na mostra Forum - Os Residentes, de Tiago da Mota Machado, e na mostra dos novos cineastas, a mostra Geração, está o filme de Roberto Targino, Ensolarado, já exibido no Festival de Locarno.

Estou de volta ao Festival de Berlim, como jornalista convidado, depois de uma longa ausência. Deixei de vir a Berlim, alguns anos depois da vitória de Walter Salles com o seu extraordinário Central do Brasil. Ainda hoje me lembro dos longos e demorados aplausos do público ao terminar o filme, naquele fevereiro de 1998, numa verdadeira consagração. Gravei e fiz questão de manter os aplausos no fundo, enquanto anunciava para os ouvintes da CBN e previa uma premiação.

Hoje ao desembarcar e até mesmo me perder no metrô de Berlim, me senti feliz por reencontrar a cidade e poder ver, novamente, tantos filmes de regiões distantes que nunca poderei assistir num cinema comercial. Conheci Berlim ainda dividida e com o Muro, asssisti os primeiros anos da reunificação, ainda vendo filmes da Berlinale, no cinema Zoo Palast e sempre admirei a cidade, diferente de Paris com o charme de ser uma porta para o Leste.”
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09 Fevereiro, 2011

Do tempo em que ler "O Pequeno Príncipe" era obrigação

Hoje, é rara a pessoa com menos de 30 anos que o leu

Fatima Oliveira, Vermelho

Quando eu era adolescente, a resposta clássica a qualquer entrevista de uma candidata a miss que se prezasse - o concurso de Miss Brasil arrastava multidões e tinha prestígio - é que "O Pequeno Príncipe" era o seu livro de cabeceira! Nem pensar numa miss que não lera o célebre livro de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), piloto da Segunda Guerra Mundial, escritor e ilustrador francês, que aos 44 anos, pilotando um avião militar, foi abatido pelos alemães, num voo de reconhecimento entre Grenoble e Annecy, na França. Era julho de 1944. Em 2004, os destroços de seu avião foram encontrados na costa de Marselha.

As aspirantes a miss banalizaram um livro, literária e filosoficamente, precioso, cuja leitura era obrigatória em meu tempo de ginasiana. É rara a pessoa com menos de 30 anos que o leu. No máximo conhece algumas de suas belas e filosóficas frases que pululam na web. Já faz tanto tempo em que crianças e jovens liam Saint-Exupéry por obrigação e depois se encantavam com ele para sempre. Em geral, quando falo sobre o tema, ouço: "É a nova! Do tempo em que era obrigatória a leitura de O Pequeno Príncipe!".

Lamento que não seja mais. Por vários motivos. Um deles é que "O Pequeno Príncipe" é uma alegoria em prosa-poema sobre a amizade e a transcendência dela; sobre a sofrença e o encanto do amor e seu entorno filosófico; e nos ensina o valor da ética da responsabilidade e das coisas que não estão à vista, mas no horizonte: "O que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar". Outra razão, é que livros como ele são companhias prazerosas e enriquecedoras a qualquer momento. É engano considerá-lo piegas, apesar de que pieguice tem serventia e hora - nem sempre é coisa boba, condenável ou execrável, podendo, inclusive, ser terapêutica.”
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08 Fevereiro, 2011

Cidade e qualidade de vida

Frei Betto, Adital

“Se considerarmos que o ser humano surgiu há cerca de 200 mil anos, a cidade é uma invenção relativamente recente. Durante milênios nossos ancestrais viveram como nômades coletores e, aos poucos, as técnicas de reprodução dos alimentos os fixaram como agricultores e pecuaristas. Havia, naquele longo período –como ainda hoje nas comunidades indígenas tribalizadas– relação direta, e até venerável, entre o ser humano e a natureza. Nossos antepassados se alimentavam sem alterar ecossistemas, biomas, biodiversidade.

Essa relação se altera com o advento das cidades. E um dos relatos mais significativos de como isso ocorreu é o episódio bíblico da Torre de Babel (Gênesis 11, 1-9), joia literária em menos de dez versículos.

Babel é semantema de Babilônia. Deriva da raiz hebraica "bil”, que significa "confundir”. Narra o texto bíblico que Javé, ao observar Babel, convenceu-se de que os humanos se fechavam em seus próprios e ambiciosos projetos, deixando de acolher os desígnios divinos. "Isso é o começo de suas iniciativas!” – disse o Senhor. "Agora nenhum projeto será irrealizável para eles.”

Segundo o autor bíblico, após o Dilúvio "todos se serviam da mesma língua e das mesmas palavras.” Não havia diversidade de enfoques e opiniões. O ponto de vista de um – o cacique, o chefe do clã, enfim, o poderoso -, era o ponto de vista de todos. E a atividade agropastoril igualava as pessoas.

A invenção do tijolo e da argamassa provoca um movimento migratório do campo para a urbe. Os humanos decidem "construir uma cidade” – Babel.

O versículo 4 registra as propostas de construção da cidade e da torre, e destaca o principal motivo de tal empreitada: "Para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela face da Terra.” Não se tratava de obter felicidade, bem-estar, bênçãos divinas. Importava a fama, possuir um nome sobreposto aos demais, e permanecer segregado, seguro.

A revolução tecnológica representada pelo tijolo (insuperado até hoje) imprime aos humanos a consciência de que não estão mais condicionados pela natureza. A relação se inverte. Agora é o ser humano que condiciona a natureza. Transforma-a em artefato.
Desprendido do ciclo da natureza, o ser humano já não funda sua identidade nos vínculos comunitários da sociedade agrária. Sua consciência se personaliza, ele se torna senhor do próprio destino, livre das mutações ecológicas que antes criavam nele a sensação de fatalidade e de temporalidade cíclica.”
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07 Fevereiro, 2011

Férias de Verão são muito curtas


José Luiz Teixeira, Terra Magazine

“Dizem que o ano começa de verdade, no Brasil, só depois do Carnaval. Não é bem assim. Todas as escolas dão início às aulas logo no início de Fevereiro, bem antes do Reinado de Momo.

Acho esse retorno já no início deste mês algo irracional. No meu entender, as férias da molecada deveriam se estender até a Quarta-feira de Cinzas. Pelo atual calendário, o aluno volta para a escola, finge assistir oito ou dez dias de aula, que o professor finge dar, e sai novamente para uma semana de folga, durante o Carnaval.

Essa programação atrapalha a vida dos estudantes, dos pais, dos professores e estrangula a economia do turismo. Quem tem filhos em idade escolar pode contar apenas com os 31 dias Janeiro para viajar, o que provoca vários transtornos e prejuízos.

O primeiro inconveniente começa no emprego dos pais. Todos os colegas do departamento querem férias em janeiro para viajar com a família. Quase saem no tapa para ver quem consegue essa preciosa data, já que não é possível a todos se ausentarem ao mesmo tempo.

Em um emprego que tive, dividia as férias de Janeiro com uma colega, 15 dias cada um. Todo ano era a mesma briga. Em vez de simplificar e limitar-se a escolher entre a primeira e a segunda quinzena do mês, ela insistia em querer sair do dia 10 ao dia 25. Não sobravam duas semanas inteiras para mim.”
Foto: Luiz Guarnieri, Terra
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06 Fevereiro, 2011

Quer que cospe ou engole?


Eberth Vêncio, Revista Bula

" — Quer que cospe ou engole?", ele disse, concluindo a piada.

As gargalhadas cortaram o ambiente enfumaçado do botequim, aumentando ainda mais a zoeira que já deixava o local deveras tumultuado, principalmente a quem se mantivesse sóbrio. Era o caso dele, que sempre fora um bundão (assim são chamados os otários que seguem regras e leis), e jamais dirigia após ter bebido.

Aliás, a chamada Lei Seca no trânsito parece transformada noutra piada brasileira de mau gosto (lembram-se daquela que exigia kits de primeiros socorros nos portas-luvas de todos os carros? Na época, muita gente agradecida subiu na vida fabricando gaze e esparadrapo... Caixinha, obrigado!), já que as autoridades se cansaram de fiscalizar, a não ser quando um motorista bêbado atropela pessoas na calçada ou entra com carro e tudo pela vidraça de uma locadora de vídeos.

Sentiu certo nojo ao meditar sobre a piada espermática que o sujeito acabara de contar. O correto, de acordo com a gramática portuguesa, seria “Quer que eu cuspa ou engula...”, ele raciocinava, silenciosa e bestamente, pondo reparos onde não devia, como se piadas seguissem normas gramaticais, dogmas religiosos, preceitos morais. Os discursos políticos, estes sim, até para servirem de exemplo, deveriam respeitar todas as normativas, com o orador vigiando plurais, concordâncias, discordâncias e a saga pessoal pelo dinheiro. Se bem que muitos discursos (e muitos políticos também) se constituam verdadeiras piadas sem a menor graça. Por que votar em bestas quadradas?! Bem feito...

Na verdade, nem se tratava, propriamente, de um chiste, mas de “um causo baseado em fatos reais” (deu pra perceber nitidamente que o sujeito estava sendo irônico ao descrever um episódio da sua vida pregressa), uma aventura protagonizada na chamada boca do lixo de um antigo bairro da capital, reduto freqüentado por boêmios, viciados em drogas, escritores medíocres ou geniais em busca de reconhecimento, prostitutas, garotos de programa, gente pobre e gente rica, territórios marginais razoavelmente separados por limites invisíveis muito bem conhecidos pelos frequentadores contumazes.”
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05 Fevereiro, 2011

Minha vida no corredor da morte

Wilbert Rideau, IPS / Envolverde

"Absolutamente nada de nossa vida anterior pode nos preparar para viver em um corredor dos condenados à morte. A pessoa é como um repolho em uma horta: plantado, forçado a levar uma existência estática durante a qual um dia é igual ao outro e ao seguinte. Só que, ao contrário do repolho, essa vida não tem propósito algum. A pessoa é apenas um número que ocupa um lugar e aguarda a vez para ser levada à câmara onde será executada. Até chegar esse dia o sofrimento será perpétuo.

No dia 11 de abril de 1962 apanhei, fui algemado e levado para o corredor da morte na prisão de Louisiana, onde havia outros 12 homens vivendo nas 15 celas do local. As baratas fugiram em todas as direções nem bem entrei na cela número 9, que tinha o tamanho de um banheiro: aproximadamente 1,80 por 2,40 metros.

A vida em espaço tão pequeno só podia ser de contínua inquietude e incômodo. Havia lugar apenas para alguns movimentos físicos deitado, agachado ou de cócoras, não dava para exercitar adequadamente todos os músculos do corpo. Permitiam que saíssemos da cela por apenas 15 minutos duas vezes por semana para tomar uma ducha. Passamos anos dessa maneira, sempre dentro da prisão, sem ver nem mesmo a luz do Sol.

Pior do que o tributo físico exigido de nossos corpos era o que cobrava de nossas mentes. O corredor era todo alvoroço e confusão, um coro infindável de descarga de banheiro, de maldições gritadas de uma cela para outra por condenados inimigos entre si, de disputas triviais sobre virtualmente nada, de aparelhos de rádio com volume no máximo para competir uns com outros. A maior parte desse pandemônio era provocada pela enlouquecedora monotonia, o profundo tédio, a grave marginalização emocional e a carência de normalidade como marco de referência para as vidas dos detentos.

Éramos como animais humanos em um dos zoológicos ao velho estilo, antes de entender-se que era desumano confinar grandes animais em uma estreita jaula. E como o tigre que obsessivamente se move de um lado a outro em sua jaula de grades, nós passeávamos pelo pequeno pedaço de chão além de nosso catre. Em determinadas ocasiões, um homem, por estratagema, podia bater sua cabeça contra as barras de aço e a perda de suficiente sangue podia provocar sua ida para o hospital destinado a criminosos psicóticos, onde as condições são melhores e o rótulo de doente mental adia a execução.”
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04 Fevereiro, 2011

Duros tempos da vida moderna

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“O coração bate mais forte, as pupilas se dilatam, as mãos se movimentam em manobras precisas e ele solta um urro de satisfação. Tal qual tubarão rondando sua presa submersa, pois estamos realmente mergulhados, não no mar, mas na terra úmida, cercados de tubos, canos, concreto, cancelas, levemente asfixiados pelo pesado ar subterrâneo, pressentimos quem sai da toca, se aproxima, para então abocanhar a fina mercadoria prestes a ser liberada: uma vaga!

Antigamente, mas nem tão antigamente assim, a situação era diferente ― os estacionamentos dos shoppings eram amplos, ao ar livre e gratuitos. Aliás, parece que foi no Paleolítico que nosso ancestral nômade, um caçador disputando por espaços privilegiados, comportava-se de forma mais agressiva e instintiva. O que aconteceu então para essa volta ao passado? O que fez de nós vorazes perscrutadores de vagas de estacionamento de shopping?

O paulistano frequenta cada vez mais suas praias artificiais, assim como o número delas na cidade nos últimos anos só fez aumentar. E do mesmo modo as expansões dos shoppings centers estão acontecendo, sujeitas a mais expansão ainda. Só que tudo isso se deu sem o aumento do número de vagas de estacionamento. Até mesmo os shoppings interligados em estações do metrô têm seus parques lotados.

A mania VIP é mais uma idiossincrasia a ser considerada de tais estacionamentos. O espaço para essas vagas ― com manobrista, sala de espera, parede de MDF, e o que mais inventarem para justificarem o preço e a exclusividade de serviços irrelevantes ― aumentou, em detrimentos daquelas dos pobres mortais. Nada mais justo numa sociedade marcada pela concentração de renda ― tirar da cesta dos pequenos para colocar no saco dos grandes, afinal não há batatas em abundância para todos. Para começo de conversa, logo que o homem atual emboca o carro na entrada do estacionamento ele se dá conta de que acaba de ser relegado a uma segunda categoria. Pois se nos trens, navios e aviões há a primeira e a segunda classe, por que nos estacionamentos não haveria essas distinções que o dinheiro trata de enaltecer? Assim, enquanto alguns tem a sua caverna muito importante, outros neandertais vociferam na louca caça por abrigo.”
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03 Fevereiro, 2011

Múmias se levantam

Revoltas populares no Oriente Médio e Norte da África exprimem desejo de mudanças de povos oprimidos, mas fazem ressurgirem mistérios e até múmias se levantam. O ditador do Egito, Hosni Mubarak, há três décadas amparado pelos Estados Unidos, se agarra ao poder e busca apoio nos sarcófagos de outros ditadores mortos-vivos da região.

Jaime Sautchuk, Vermelho

Enquanto as manifestações mais intensas se davam na Tunísia, com relativo sucesso, estava tudo sob controle dos padrinhos ocidentais. Ao cair, o presidente Zeni El Abidini Bem Ali, trocou seis por meia dúzia e formou um governo de araque em seu lugar, mas o povo não aceitou e segue em luta.

Mesmo eventuais respingos em outros países do Magrebe, em especial Argélia e Marrocos, não chegam a assustar. Ainda que todos se lembrem de como foi violenta sua libertação do jugo da França, o poder colonial nesses territórios até meados do Século passado.

Mas o Egito é diferente. Não apenas por ser um país de 80 milhões de habitantes, com forte economia, mas pelo seu papel estratégico. Esse país vinha sendo poderoso respaldo na instabilidade do Oriente Médio, como fiel aliado de Israel e servil representante da política dos EUA para a região.

A pesada interferência americana naquela parte do mundo e mesmo as intervenções diretas, como no Iraque, vinham tendo o aval incondicional do governo egípcio. Mas a administração direitista de Mubarak agora se desmascara e é forçada a revelar o tamanho da ajuda de Washington à sua ditadura.

São 3 bilhões de dólares diretos nas mãos de Mubarak todos os anos. Sem contar outros tipos de ajuda, no campo militar e mesmo no econômico. No que os governantes egípcios vêm usando esse dinheiro não se sabe. O que se tem certeza é de que a corrupção campeia solta no país.

A situação deixou o presidente americano, Barack Obama, em maus lençóis. Por azarada coincidência, quando tiveram início os protestos de rua em todas as cidades do Egito, missão daquele país estava em Washington tratando da subvenção deste ano, que por ora foi suspensa.

Numa primeira fala sobre o tema, Obama disse torcer por uma solução pacífica aos confrontos, mas deixou no ar sua posição sobre a permanência ou não de Mubarak. Confirmou, porém, que a ajuda americana aguardaria um desfecho na situação.”
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02 Fevereiro, 2011

O tempo tem passado tão depressa...

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Outro dia, me vi frente a frente com as mudanças rápidas da tecnologia em todos os segmentos eletrônicos. Primeiro, ao arrumar gavetas que já não mexia fazia tempo, encontrei verdadeiras relíquias de museu. Veja só!

Um toca-fitas portátil e, pasmem, junto com ele várias fitas cassete. Incrível, mas não faz muito tempo, talvez uns dez anos no máximo, que a gente tinha esses equipamentos como os mais modernos do pedaço. Depois eles foram ficando pra trás na linha de fabricação das empresas até desaparecem das lojas. Hoje estão esquecidos no fundo de nossas gavetas.

Remexendo um pouco mais, descobri uma máquina fotográfica que usava disquetes para bater as fotos. Adorei reencontrá-la. Uma digital Mavica Sony (foto) com bateria recarregável, grande e robusta. No painel de controle alguns artifícios para se fazer efeitos nas fotos, um visor de bom tamanho e um zoom razoável. Uma precursora das atuais digitais.

Tentei ver se funcuionava ainda, mas como recarregar a bateria? Onde estaria o bendito carregador que acompanhou a compra da máquina há mais de dez anos. E aquela bateria, seria ainda possível encontrá-la à venda? Mas mesmo que tivesse conseguido fazê-la funcionar, onde eu compraria os disquetes? E depois, como conectá-la a um computador para ver as fotos se os equipamentos modernos não tem entrada para acessórios tão antigos?”
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01 Fevereiro, 2011

Morte de Rubens Paiva permanece obra aberta


Euler de França Belém, Revista Bula

“Com apoio de amplos setores civis, tanto nas elites quanto entre populares, militares derrubaram o presidente João Goulart, no início de abril de 1964. O primeiro presidente militar, Castello Branco, planejou uma transição com candidato civil para substitui-lo. O mineiro Bilac Pinto, um liberal, era uma de suas apostas. Não deu pé. A linha dura, liderada por Costa e Silva, optou pela continuidade da caserna e manteve o poder. A manutenção de partidos políticos, Arena e MDB, e portanto de eleições contribuiu para que a ditadura, embora autoritária, não se tornasse totalitária. A cassação de mandatos, com evidentes exageros, não impediu que políticos de proa da oposição, como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, se manifestassem com frequência. Uma das principais falhas da historiografia patropi é concentrar-se demasiadamente na ação armada dos guerrilheiros, de resto útil aos militares duros para tornar o regime ainda mais fechado, e menoscabar a oposição legalista e os liberais arenistas (que nada tinham de truculentos). Políticos emblemáticos como Ulysses e Tancredo (poderia citar outros) pressionaram o regime o tempo todo e permaneceram na oposição. Liberais da Arena, ainda que omissos em alguns pontos, também contribuíram para que o regime fosse menos cruento. É possível que a omissão pública tenha sido menor do que a pressão interna — o que cabe aos historiadores, como os rigorosos Carlos Fico, Elio Gaspari e Ronaldo Costa Couto (autor de um magnífico livro sobre a Abertura), investigar. Sobretudo, arenistas e emedebistas, especialmente os liberais, sugeriam, mesmo quando falavam pouco, que havia uma alternativa democrática ao sistema ditatorial. Tanto que, 21 anos depois do golpe de 64, os civis voltaram ao poder, numa combinação de um emedebista (peemedebista), Tancredo, com um arenista (pedessista), José Sarney. Mas tudo foi possível mais cedo porque havia uma tendência liberalizante tanto nos quarteis quanto no partido governista. Ao assumir a Presidência da República, em 1974, o general Ernesto Geisel se impôs uma missão — “matar” a ditadura por meio da Abertura. Geisel e Golbery do Couto e Silva eram, por assim dizer, discípulos de Castello Branco. Liberalizaram o regime de tal forma que João Figueiredo, mesmo com alguns duros no governo, não tinha mais energia nem legimitidade para fechar o regime. O processo de Abertura havia envolvido a sociedade política e a sociedade civil de tal forma que recuar era praticamente impossível.

Mas por que o regime, depois de Castello Branco, “endureceu”? Não se pode culpar apenas os guerrilheiros da esquerda, porque, mesmo antes da consolidação da Ação Libertadora Nacional (ALN), do MR-8, da VAR-Palmares e outros grupos minoritários, Costa e Silva, ainda como ministro da Guerra do primeiro governo militar, já comandava um grupo radicalizado que acabou dando as cartas até o governo do presidente Emilio Garrastazú Medici. A radicalização à direita precede a guerrilha. Mas é fato que, com a guerrilha, os militares duros conseguiram “provar” que suas teses estavam “certas”, que os movimentos de esquerda queriam tomar o poder com o objetivo de instalar uma ditadura teoricamente proletária. Uma ditadura comunista. Militares e militantes radicais, à direita e à esquerda, passaram a se “alimentar”. Os contraditórios se “exigiam”, com os duros levando a melhor. Trocaram chumbo de 1968, com a ascensão da ALN e outros grupos, a 1974 (ou 1975), com o fim do foco comunista do PC do B na Guerrilha do Araguaia. Militares e políticos civis que preferiam a democracia, que a esquerda renegava chamando-a de “burguesa” e a direita militar atacava como “corrupta”, ficaram em segundo plano, ainda que sem deixar de trabalhar pelo retorno à legalidade.”
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