31 Março, 2011

A rentável miséria da literatura

Lucas Carvalho Peto, Digestivo Cultural

“A literatura está empobrecendo. A literatura como expressão artística por excelência perde espaço dia após dia. Autores como Georges Bataille perdem espaço para contadores de histórias "vendáveis". A verdade é que os leitores aumentam, mas a qualidade de suas leituras diminui significativamente. A transgressão está diminuindo. O poder "revolucionário" da linguagem está sendo deixado de lado. Aqui, o que se questiona é a padronização, e não uma ou outra obra. Esse ou aquele autor. Essa ou aquela editora. Questiona-se a padronização. Os Tertuliano Máximo Afonso, personagem do livro O homem duplicado, de José Saramago, estão perdendo a queda de braço para o senso-comum. Se o Tchítchicov de Gogol, perambulasse, hoje, em uma breve busca por fortuna literária, não encontraria, de fato, muito além de almas mortas. E o jovem Wilhelm Meister, de Goethe, para quem "um poema ou deve ser excelente ou não existir", apaixonado pelo teatro shakesperiano, que em cóleras se consumia a constatar a "ausência de um único comentário sobre o valor poético de uma peça teatral", o que seria dele? O que seria desse mesmo Meister, que se percebia atônito frente à predileção dos atores por questionamentos como: "O que será desta peça? Quanto tempo ficará em cartaz? Quanto ganharemos com ela?". Hoje, encontraria ele os Vinteuil's proustianos, ou Karmazínov's, que, como apontado por Lipútin, em Os Demônios, de Dostoiévski, prezava mais por suas "relações com os homens fortes e a alta sociedade do que com a própria alma e sua arte"?

O que deveria ser uma expressão da subjetividade do autor como em Proust, um retrato político-social como em Victor Hugo, um esboço fictício de ideias filosóficas como em Camus e Simone de Beauvoir, ou, nos moldes parnasianos, arte pela arte, atualmente não passa de cópia da cópia, de uma cópia copiada. O que dizer, então, sobre a inovação? Inovação estética e conceitual, como no Decamerão de Boccaccio, por exemplo. Esta também está escassa. É só entrar em uma livraria e constatar o óbvio. As capas se assemelham. As histórias se assemelham, até as ideias se parecem. "Vivemos no que se pode chamar hoje, sem nenhum exagero, um deserto de ideias. Não há ideias novas, não há ideias que mobilizem, não há ideias que façam levantar as pessoas da sua resignação", disse Saramago. Roland Barthes diria (disse, aliás) que os autores não existem mais, existem apenas scriptores. E por quê? Os autores são os culpados? As editoras? E o leitor, ele não tem "parcela de culpa"?

O affair com a sétima arte tem seu papel nessa questão. Deixa-se de lado uma produção literária reflexiva, epistemológica, existencial, metalinguística ou filosófica para se produzir cinema impresso. Essa é a base genética da predileção pela descrição física das personagens e do ambiente no qual estão inseridas. Alguns dirão que Flaubert já fazia isso. E Proust também, em menor escala. A diferença aqui é o objetivo. Flaubert e Proust tinham um propósito estético puro. Não se pode dizer o mesmo da maioria dos autores contemporâneos. Eles buscam o estético prático e, com isso, furtam de seus leitores um dos pilares da literatura: o imaginário. E o objetivo é preciso, criar personagens que lembrem atores famosos, com especificidades da moda. O cineasta não precisa mais vasculhar os livros em busca de histórias para retratar, os escritores é que se esforçam para levar seus escritos para a tela. É uma inversão de polaridade. Essa é uma das partes que cabe aos autores.”
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30 Março, 2011

Roberto Carlos e a ditadura

Urariano Motta, Direto da Redação

As datas, os aniversários, têm um poder evocativo muito forte. Esta semana me veio de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? Quais canções, que músico seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril?

Num estalo me veio que Roberto Carlos deve ter sido o compositor mais representativo da ditadura. Não sei se num curto espaço conseguirei ser claro. Mas tento. Os mais velhos sabem que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com os rádios, em todos os lugares, tocando

De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar


se você não vem e eu estou a lhe esperar


só tenho você no meu pensamento


e a sua ausência é todo meu tormento


quero que você me aqueça nesse inverno


e que tudo mais vá pro inferno

Quando Roberto Carlos explodiu os rádios do Brasil, ele cresceu em um programa que arrebentou em 65. O programa Jovem Guarda se opunha ao O Fino da Bossa, com Elis. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha guarda do samba e os compositores de esquerda, o Jovem Guarda...

Eu vou contar pra todos a história de um rapaz


que tinha há muito tempo a fama de ser mau..

“O Rei, o Rei não tem culpa...”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa...”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não teve culpa de fazer o medíocre, de falar aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal havia em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? É claro que ele não teve culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool.”
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29 Março, 2011

Manual para o leitor de transporte público

Duanne Ribeiro, Digestivo Cultural

“O ônibus segue a dois centímetros/hora, mas a tensão do trânsito paulista não me engole e é feito Haroldo de Campos que escapo: "o livro me salva me alegra me alaga". Como, onde, quando é que você lê, leitor? Eu geralmente só leio no transporte público, nas duas ou três ou quatro horas (de acordo com o humor de São Paulo) em que passo indo de lá pra cá. Não chego a agradecer a deus por um congestionamento, como se diz de José Mindlin, mas ler me mantém sadio e eu não penso em comer os olhos de ninguém quando uma passeata para a Consolação e a Paulista fica imóvel do Paraíso à Bela Cintra. Não, não. Estou longe. Sou quase um monge budista, de vez em quando olhando os sem-livro incompreensíveis.

Porque o livro é viagem... e esta viagem vertical por ideias se repetindo ao longo da viagem horizontal dos cotidianos me deu método. Compôs-se assim quem sabe a primeira filosofia do bilhete único. A análise de superestrutura ignorada por Marx. Uma pragmática surgindo inequívoca das vias urbanas. Não passa o tempo quando parte do seu rosto está coberto pelo cabelo de alguém e você não consegue mover seus pés nem que seja só um pouco. Não passa o tempo quando uma única fila faz três voltas no ponto, ocupa também a escada do metrô e ainda assim o ônibus não chega. Mas uma Piauí na mão salva seu dia. Por outro lado, você pode ser o sujeito que fita o nada por horas a fio. Pode ser o cara tratando de política ― o Alckmin anda de helicóptero, a gente fica aqui! Ou você pode fazer o melhor possível dessa situação.

Quero dizer, nada de amadorismo. É possível ler de pé, se você segurar o livro com a mão semi-homem-aranha (polegar e mínimo nas páginas, mantendo-o aberto; indicador, anelar e dedo médio na contracapa, formando assim uma espécie de alicate). E é razoavelmente confortável se você consegue encostar as costas em um dos bancos altos, ao lado do banco individual ― o ônibus te impulsiona e fixa contra o encosto. Mas é claro que é melhor estar sentado. E, sim, você pode sentar no degrau que leva à última fileira de assentos ― porém terá que aguentar a quentura tremenda que sobe, sei lá, do motor, e que faz sentir o intestino assando em fogo baixo. Ou pode se acomodar nos degraus em frente às portas, mas vai logo notar que há uma atmosfera chulezenta espessa e insalubre por ali. O ideal é a cadeira, azul como a beatitude. E ao lado da janela, para que o mundo exista de vez em quando.”
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28 Março, 2011

As palavras e o vento

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“São quatro discursos. De alguma forma, na minha cabeça, os quatro se interligam. Representam momentos que exigem reflexão , posturas e atitudes que requerem análise. Pela importância dos seus autores (atores?) , inscrevem-se nos anais da história, ainda que muitos, como os antigos lá atrás nos tempos, tenham desacreditado das palavras proferidas , que o vento levaria (“verba volant”).

O primeiro discurso remonta a um passado não tão longínquo e tem a ver com um dos momentos mais trágicos que a Humanidade experimentou na sua saga. Foi recentemente “reescrito” no belíssimo filme que conquistou algumas estatuetas na cerimônia do Oscar. O teor do discurso do rei George VI , por si só, já encerrava carga de dramaticidade suficiente: um libelo contra o nazifascismo, no momento em que, depois de algumas recalcitrâncias e indecisões que a história dos vencedores não conta (ou conta mal...) , a Inglaterra finalmente opôs-se militarmente a Hitler. Diante da tragédia coletiva, o filme põe em realce a pequena tragédia particular de um rei gago, para quem as palavras eram um martírio. A partir daí, o discurso que finalmente se produz é, a um tempo, o discurso da liberdade dos homens como um todo e daquele homem em particular. É, em meio à guerra então declarada, um discurso da superação, conquistada à custa de uma postura de dolorida abdicação da arrogância majestática, magistralmente desnudada pela finíssima ironia que constrói o personagem de um nada convencional terapeuta da fala.

Não sei se o mundo ou as pessoas ficaram melhores depois daquele discurso, ou em função das suas consequências . São tantas as contradições do homem em sua história de escravizador de si mesmo que considero que a derrota do Eixo foi apenas um capítulo, ainda muito longe do fim , dessa sequência de maldades e perversidades que vem marcando, desde sempre, os caminhos do homem no planeta.

O segundo discurso é o do imperador Akihito, diante das câmeras de TV, dirigindo-se aos japoneses em função da tríplice tragédia que atingiu o povo nipônico. Sendo um dos raros momentos em que rompeu o silêncio em que se mantém desde que assumiu o trono, ele traduziu a gravidade da situação por que passa o povo japonês (eu diria, a Humanidade como um todo). Lembrando , quem sabe, o pai Hiroíto, que muitos anos atrás fizera uma outra conclamação ao povo, pedindo-lhe que aceitasse a rendição, o atual imperador – que nem de longe tem, hoje, a ascendência ou a importância no cenário do Japão que antes possuíra o pai – tentou construir uma mensagem de esperança e solidariedade e pediu aos japoneses o esforço de uma nova reconstrução.”
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27 Março, 2011

Compartilhamento e cultura

Raphael Tsavkko, Revista Bula

"Com a internet nós ao mesmo tempo eliminamos a escassez dos bens culturais como também os intermediários de má vontade, apenas interessados no lucro

Compartilhamento livre de cultura e os entraves da indústriaCom a internet nós ao mesmo tempo eliminamos a escassez dos bens culturais como também os intermediários de má vontade, apenas interessados no lucro

Soa como clichê afirmar que o século XXI, este agora em que vivemos, é o século — ou talvez a era — do compartilhamento. Com a internet e seu crescimento temos milhões de pessoas compartilhando não só filmes e música, mas também ideias. Estamos diante da total subversão do modelo tradicional de capitalismo de consumo ou mercadológico, pois agora não compartilhamos um CD, um DVD, mas apenas as ondas sonoras, o mp3, ou as imagens de um filme. Não há necessidade mais do meio físico, do intermediário.

Compartilhamos ideias, criamos de forma colaborativa. Não que não fosse assim antes, mas, digamos, escancaramos a situação.

Quando você produz uma música, sem dúvida, está se apropriando de criações anteriores. São as influências. Ninguém produz algo do nada, todos somos influenciados pelo meio, por nosso entorno, por nossos gostos, história, mas com a internet levamos isto a um novo patamar. Não apenas nos inspiramos, mas muitas vezes vamos até a fonte de inspiração criar colaborativamente.

O que antes era “inspiração”, hoje é colaboração, franca e direta. Mesmo empresas vão à rede buscar dentre seus consumidores ideias para nomes de produtos, opiniões e mesmo ideias mais específicas. A pesquisa de mercado não é mais um grupo de pessoas numa sala fechada, mas milhões de pessoas interconectadas opinando, conversando e criando.

Uns poderiam dizer que não muda muita coisa, que deveríamos pagar pela música e pelo filme, mesmo que não se use um suporte físico para que ocorram as trocas. Que nossas ideias continuam sendo nossas, desprezando todo o entorno. Mas onde está o erro?

A economia mundial capitalista é baseada na escassez ou na presumida escassez de um produto. Oras, se eu produzo 1000 CD’s, só posso vender 1000 CD’s, é muito simples. Se eu tenho um CD e te dou este CD, eu fico sem nenhum, então eu coloco um preço nesse bem material para que eu possa me desfazer dele e não sair no prejuízo. Isto é, de forma simples, a economia da escassez, ou seja, o modelo em que você produz bens finitos e cobra pelo privilégio de alguns terem acesso a estes bens.”
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25 Março, 2011

Diálogo entre ciência e fé

Frei Betto, Adital

“Fé e ciência nem sempre tiveram um bom diálogo. As primeiras respostas às indagações do ser humano a respeito do cosmo, dos fenômenos naturais e da vida, foram dadas pela religião. Xamãs, feiticeiros, gurus e sacerdotes faziam a mediação entre o Céu e a Terra.

A religião é filha da fé e a ciência, da razão. Frente às pesquisas científicas dos gregos antigos a religião mirou com os olhos da desconfiança. Não admitia que os fatos narrados na Bíblia fossem apenas mitos e símbolos, sem base científica, como a existência de Adão e Eva, a construção da Torre de Babel e o Dilúvio Universal.

Durante 1.300 anos a Igreja se apegou à cosmologia de Ptolomeu (90-168), adequada à crença de que a Terra é o centro do Universo, no qual Deus se encarnou em Jesus.

Se a fé parte de verdades reveladas que, por sua vez, exigem adesão de fé, sem comprovação experimental, a ciência é o reino da dúvida e se apóia em pesquisas empíricas. A fé apreende a essência das coisas; a ciência, a existência.

Para a ciência, não importa quem ou o por quê, importa o como. A ela não interessa quem criou o Universo e qual a finalidade de nossas vidas. Quer saber como funcionam as leis cosmológicas, como as forças da natureza interagem entre si, como retardar o envelhecimento de nossas células, ampliando nosso tempo de vida.

O diálogo entre fé e ciência iniciou-se quando, na modernidade, a razão se emancipou da religião. Copérnico, Galileu e Giordano Bruno que o digam. Houve atritos e condenações recíprocas, até que a extensa obra do jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) – geólogo, paleontólogo e teólogo – fez a Igreja Católica reconhecer que a fé pode não estar de acordo com o uso que se faz de descobertas científicas, como a fissão do átomo para a construção de ogivas nucleares, mas jamais negar a autonomia da ciência e o modo como ela desvenda os mistérios da natureza.”
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24 Março, 2011

O céu é real

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“A história do menino americano Colton Burpo que disse ter estado no céu quando ficou em coma depois de uma operação de apendicite virou livro e motivo de polêmica nos programas de TV.

Colton está hoje com 11 anos, mas foi aos 4 que ele passou por essa experiência. Os pais dele contam que suas lembranças vieram aos poucos e, entre elas, Colton citou o encontro que teve com o bisavô por parte de pai que ele nunca conhecera. Descreveu-o como um ser iluminado, de cabelos encaracolados e asas enormes. Disse que ele perguntou por seu pai e contou várias histórias de família.

Outro detalhe considerado impressionante foi quando Colton narrou o momento em que uma menina aproximou-se dele dizendo-se sua irmã. Ela confidenciou ao menino que não chegara a nascer e não tivera um nome na terra, mas que estava muito feliz em conhecê-lo pessoalmente já que o via apenas à distância.

Quando Colton contou essa passagem aos pais, os dois se emocionaram e chegaram a chorar. A mãe do garoto havia realmente perdido um bebê de forma natural, sem nem mesmo saber o sexo, e combinou com o marido nunca revelar isso a ninguém pois a perda havia doído muito. Portanto, Colton não sabia do ocorrido pois nem era nascido.

É aí que o mistério começa a aumentar.

Depois desses dois momentos, que chegaram a abalar as concepções religiosas da família, Colton contou outros detalhes intrigantes sobre a viagem que ele descreve como uma ida ao paraíso. Disse que naquele lugar, onde tudo é mais brilhante e colorido, as pessoas vestem-se com roupas luminosas e vaporosas, não usam óculos e parecem sempre jovens, felizes e sorridentes.
Numa outra lembrança, Colton disse que esteve sentado no colo de Jesus, e este lhe dissera que ele teria a missão de levar uma mensagem de esperança ao mundo. Ao mesmo tempo Colton revelou que ao lado de Jesus estava também João Batista, que sorriu para ele e o abençoou.”
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23 Março, 2011

Com-paixão: a mais humana das virtudes

Leonardo Boff, Adital

“Três cenas aterradoras: o terremoto no Japão, seguido de um devastador tsunami, o vazamento deletério de gases radioativos de usinas nucleares afetadas e os deslizamentos destruidores, ocorridos nas cidades serranas do Rio de Janeiro, provocaram em nós, com certeza, duas atitudes: compaixão e solidariedade.

Primeiro, irrompe a com-paixão. A compaixão talvez seja, entre as virtudes humanas, a mais humana de todas, porque não só nos abre ao outro, como expressão de amor dolorido, mas ao outro mais vitimado e mortificado. Pouco importam a ideologia, a religião, o status social e cultural das pessoa. A compaixão anula estas diferenças e faz estender as mãos às vitimas. Ficarmos cinicamente indiferentes, mostra suprema desumanidade que nos transforma em inimigos de nossa própria humanidade. Diante da desgraça do outro não há como não sermos os samaritanos compassivos da parábola bíblica.

A com-paixão implica assumir a paixão do outro. É transladar-se ao lugar do outro para estar junto dele, para sofrer com ele, para chorar com ele, para sentir com ele o coração despedaçado. Talvez não tenhamos nada a lhe dar e até as palavras nos morram na garganta. Mas o importante é estar aí junto dele e jamais permitir que sofra sozinho. Mesmo que estejamos a milhares de quilômetros de distancia de nossos irmãos e irmãs japoneses ou perto de nossos vizinhos das cidades serranas cariocas, o padecimento deles é o nosso padecimento, o seu desespero é o nosso desespero, os gritos lancinantes que lançam ao céu, perguntando, "por que, meu Deus, por que?” são nossos gritos lancinantes. E partilhamos da mesma dor de não recebermos nenhuma explicação razoável. E mesmo que existisse, ela não desfaria a devastação, não reergueria as casas destruídas nem ressuscitaria os entes queridos mortos, especialmente as crianças inocentes.

A compaixão tem algo de singular: ela não exige nenhuma reflexão prévia, nem argumento que a fundamente. Ela simplesmente se nos impõe porque somos essencialmente seres com-passivos. A compaixão refuta por si mesma noção do biólogo Richard Dawkins do "gene egoísta”. Ou o pressuposto de Charles Darwin de que a competição e o triunfo do mais forte regeriam a dinâmica da evolução. Ao contrário, não existem genes solitários, mas todos são inter-retro-conectados e nós humanos somos enredados em teias incontáveis de relações que nos fazem seres de cooperação e de solidariedade.”
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22 Março, 2011

Sobre lobos e meninos


Uma página precisa ser aberta no contexto do debate acerca da Comissão da Verdade sob pena de mantermos uma visão parcial dos acontecimentos que envolveram nossos anos-de-chumbo, particularmente no Araguaia: o tratamento dado ao soldado brasileiro.

Paulo Fonteles Filho, Vermelho

Aqui não falo de Bandeiras ou Moogs, Licíos ou Curiós, todos oficiais que atuaram como bestas-feras contra brasileiros, com violência desmedida contra camponeses e guerrilheiros. Também os mandatários da caserna, em tempos de guerrilha na Amazônia, tratavam o mais modesto e popular de seus elementos, o próprio soldado, com bestialidade.

Acontece que o grosso dos soldados que serviram o Exército para combater as Forças Guerrilheiras do Araguaia fora recrutada na própria região conflagrada.

Muitos deles tateavam o inicio do ciclo da vida adulta. Vinham das currutelas e grotas, muitos moravam em castanhais e mal sabiam escrever o nome, eram filhos das populações tradicionais ou de retirantes. Todos, sem exceção, filhos da tragédia brasileira, alargada pela visão de que os pobres eram um problema para a segurança nacional.

Contra estes meninos ouso dizer que os lobos bem-graduados transformaram-nos em seguras cobaias e promoveram um pérfido laboratório.

Vamos a exemplos: alguém aí sabe o que é o Pau-do-Capitão? O Pau-do-Capitão é a versão recruta zero para a Cadeira-do-Dragão. O tal instrumento de tortura fora largamente utilizado contra os moços sob o sol escaldante da Amazônia matando os sonhos de servir a pátria. Há ex-soldados, confesso, que não sonham há mais de trinta e cinco anos não porque torturaram, mas porque foram torturados.”
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21 Março, 2011

Deixa de ser mulherzinha!

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Quando eu era criança (hoje sou um cidadão semiajustado escrevendo crônicas aos 45 anos), os adultos (mulheres, inclusive) e os meus rivais infantis (meninos mais velhos que se divertiam em humilhar, castigar os mais novos), para provocarem em mim uma reação, digamos, mais firme (como não chorar, por exemplo), diziam assim: “Deixa de ser mulherzinha, rapaz!”. Nem sempre a coisa funcionava, e eu permanecia chorando de dor, medo ou raiva.

Tem várias coisas que, feliz ou infelizmente, a gente nunca esquece, a não ser quando estamos com o cérebro carcomido pela demência senil. Na rua onde fui criado morava um fedelho (hoje em dia, “criança hiperativa”) chamado Manoel, o “terror da vizinhança”, que tinha no portfólio de peraltices uma brincadeira deveras cruel: enquanto espremia os testículos da sua vítima (era sempre um garoto mais fraco) mandava que ela assobiasse. Manoel, que atualmente é um renomado veterinário da cidade, só soltava os bagos do moleque após o assobio. É claro que o sopro não saía perfeito da boca de jeito nenhum. Até hoje, quando cruzo pelo doutor Manoel nalgum canto da cidade, meus testículos se encolhem na clausura da bolsa escrotal.

Esse tipo de coisa fica cravado na memória da gente que nem prego na aroeira (é como se diz na roça), não descola fácil de jeito nenhum. Numa época em que tanto se combate o “bullying” nas escolas, lembro-me, melancolicamente, da Valéria, uma colega de Ginásio (não confundam com ginásio de esportes, meus jovens leitores; assim era denominado o Ensino Fundamental, naqueles tempos), uma menina com presumível puberdade precoce, e que tinha as tetas bem avantajadas.

Mal adentrava a sala de aula, a molecada iniciava a algazarra, mugindo como bezerros. Dá pra acreditar que colocaram o apelido de “vaca” na menina?! Creio que o único garoto que não usava a ultraodioso codinome era eu. Afinal, Valéria foi uma musa secreta (até agora), inalcançável, uma paixão doída só comparável àquela que um dia eu nutri pela professorinha da 2ª Série do Primário (de novo, Ensino Fundamental, mancebos...). Paixão platônica, covardia, é tudo a mesma coisa.”
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20 Março, 2011

E se essa merda for verdade?


O ser humano é capaz de produzir tsunamis e terremotos? Há quem acredite que sim

Felipe Neto, Brasil 247

Que levantem as mãos os leitores especialistas em meio ambiente e a capacidade humana em manipulá-lo diretamente para produzir efeitos catastróficos. Aos eretos, talvez este texto não passe de uma reunião de bobagens descartáveis, bem como para tantos outros fechados na cápsula do ceticismo, contudo, não resta dúvida de que as teorias da conspiração tornam-se cada vez mais fortes e presentes. A da vez, no caso, trata-se de mais uma pergunta que, quando feita isoladamente, remete-nos ao descarte imediato pela insanidade presumida: o Tsunami da Indonésia e o recente terremoto do Japão teriam sido causados propositadamente por poderosos seres humanos?

Sou um leigo, assim como imagino ser a esmagadora maioria dos que, neste momento, absorvem estas palavras, mas é como leigo que escrevo para meus iguais, pensando não na afirmativa absoluta, mas na dúvida que consome quem decidiu colocar a cabeça pra fora do poço do ceticismo: e se for verdade? Fazendo um comparativo cinematográfico, seríamos como Tom Cruise e Dakota Fanning em Guerra dos Mundos que, aos estarem no meio da pipoca estourando, só puderam se apegar ao sábio conselho do mestre ancião: CORRE NEGADA!

Vamos aos fatos, ou melhor, ao fato principal: tudo indica que o ser humano é capaz, sim, de produzir terremotos e tsunamis. Isso fica quase claro após um rápido estudo do tema que vem acalorando os debates dos teóricos da conspiração: a HAARP (High Frequency Active Auroral Research Program), um programa norte-americano que supostamente funciona para “entender, simular e controlar os processos ionosféricos que poderiam mudar o funcionamento das comunicações e sistemas de vigilância”. Para nós, leigos, a HAARP é definida como uma grande máquina capaz de jogar um bilhão de watts sobre a ionosfera terrestre e possivelmente provocar terremotos e tsunamis controlados. Muitos debates envolvem o tema, mas dois fatos são destacáveis: em 2002, o parlamento russo emitiu um comunicado em que dizia que “Os Estados Unidos estão criando novas armas geofísicas que podem influenciar a baixa atmosfera terrestre”, referindo-se ao HAARP e, antes disso, em 1999, o parlamento europeu demonstrou insegurança indicando que o projeto HAARP “manipulava o meio-ambiente com fins militares”. No fim das contas, a única certeza que tenho é a de que espero nunca ter a absoluta certeza de que o HAARP é de fato capaz de produzir tais eventos, ou passarei a andar de fraldas temendo o dia em que encontrarei uma aurora boreal nos céus do meu subúrbio carioca (diz-se que o efeito acontece quando a HAARP é utilizada e vídeos supostamente comprovam o aparecimento de auroras boreais no céu minutos antes do tsunami na Indonésia e o terremoto do Japão).”
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18 Março, 2011

Atrizes e intelectuais


Fábio de Castro, Agência FAPESP

“Para compreender como São Paulo se tornou, entre 1940 e o fim da década de 1960, um moderno polo do teatro brasileiro, é preciso que a análise se estenda para além do universo teatral. Abordando o teatro daquele período em suas conexões com a cidade, com a universidade e a cena intelectual paulista e com as questões de gênero, a professora Heloísa Pontes, do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estudou a questão ao longo de sete anos.

O resultado é o livro Intérpretes da Metrópole: História Social e Relações de Gênero no Teatro e no Campo Intelectual, 1940-1968, que será lançado no dia 29 de março. A obra teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, o que foi fundamental para a qualidade gráfica e editorial alcançada, segundo a autora..

Heloísa, que também é pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp, explica que procurou escapar de uma abordagem tradicional que trata o teatro como um fenômeno isolado da vida intelectual e cultural, para pensá-lo em conjunto com a produção de novas linguagens e instituições que modelaram a vida cultural da cidade de São Paulo no período.

“Procurei explorar as intersecções entre o espaço urbano, a universidade, as instituições culturais e as formas de sociabilidade, para inscrever o teatro no interior de um quadro mais amplo de questões e ligações", disse à Agência FAPESP.

O estudo correspondeu à sua tese de livre-docência, defendida em 2008 na Unicamp. Esse trabalho, por sua vez, foi fruto de dois Projetos Temáticos financiados pela FAPESP, dos quais participou como pesquisadora: Gênero, corporalidades, coordenado por Mariza Corrêa, também do Pagu-Unicamp e Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo, coordenado por Sérgio Miceli, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

O livro estabelece também um forte diálogo com outro, Metrópole e cultura, de Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP. Maria Arminda, que também fez parte da equipe do Temático coordenado por Miceli, foi orientadora do doutorado de Heloísa, concluído em 1996.

“A questão fundamental era pensar a história social do teatro, da universidade e da vida intelectual em um contexto que permitiu o surgimento, em São Paulo, de algumas das companhias teatrais mais importantes do Brasil naquela época”, disse Heloísa.

A autora procurou fazer a análise do ponto de vista das relações de gênero, investigando como diversas intelectuais e atrizes se destacaram na época. “Observei algumas trajetórias particulares, com o objetivo de pensar como essas mulheres conseguiam, por meio da consolidação de seus nomes e de suas carreiras, adquirir a autoridade cultural, artística e intelectual que fizeram delas protagonistas daquele momento cultural”, disse.

A cena cultural da época é contextualizada a partir de um estudo comparativo entre os intelectuais paulistas da revista Clima e os norte-americanos aglutinados em torno Partisan Review, de Nova York.

“Tratava-se de um contexto de efervescência cultural, com a vinda de diversos artistas que fugiam das perseguições durante a Segunda Guerra Mundial, com a presença das missões estrangeiras que fundaram a USP. Por outro lado, Nova York recebia uma onda de imigração marcada por grandes intelectuais judeus. Em ambas as cidades, a presença desses europeus seria fundamental para o adensamento da cena cultural. Até a década de 1920, os intelectuais e escritores norte-americanos tinham a Europa como rota obrigatória", explicou.

Grandes damas

Após a discussão do contexto, Heloísa compara as trajetórias de três importantes críticas de cultura e escritoras: Lúcia Miguel Pereira, Patrícia Galvão e Gilda de Mello e Souza.

Em seguida, o teatro brasileiro é abordado a partir da análise da trajetória das chamadas grandes damas da cena teatral nacional: Cacilda Becker, Maria Della Costa, Tônia Carrero, Nydia Licia, Cleyde Yáconis e Fernanda Montenegro – todas provenientes do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), criado em 1948.

“Diferentemente das intelectuais, que enfrentaram muitos constrangimentos para estabelecer seus nomes, as atrizes tiveram o respaldo de seus parceiros”, disse Heloísa.

“Com exceção de Cleyde Yáconis, todas as seis grandes damas, depois de deixarem o TBC, criaram suas próprias companhias, nas quais eram as primeiras atrizes, tendo seus parceiros como empresários ou diretores”, contou.

Um dos capítulos do livro faz ainda uma análise sobre a contribuição dos franceses Louis Jouvet e Henriette Morineau e do brasileiro Décio de Almeida Prado para a consolidação do teatro moderno no país.”

Intérpretes da Metrópole: História Social e Relações de Gênero no Teatro e no Campo Intelectual, 1940-1968
Autor: Heloisa Pontes
Lançamento: 2011
Preço: R$ 89
Páginas: 464
Mais informações: www.edusp.com.br

17 Março, 2011

A paixão flamante de Elizabeth Smart e George Barker


Euler de França Belém, Revista Bula

“A canadense Elizabeth Smart (1913-1986) é autora de um romance esplêndido, “By Grand Central Station I Sat Down and Wept” (“En Grand Central Station me Senté e Lloré”, na versão em espanhol). Neste livro, sofrido e prazeroso, conta a história de sua paixão pelo poeta inglês George Barker (1913-1991) — um protegido do vate americano T. S. Eliot. A história, extraordinária e muito bem contada, merece tradução brasileira. Quando penso em Elizabeth Smart lembro-me do britânico D. H. Lawrence, pela relação livre com a sexualidade, ainda que angustiada, e com a natureza. O livro é cult, no estilo (não no conteúdo) de “Werther”, do alemão Goethe. Elizabeth seguia à risca o preceito “penso que um homem põe todo o seu ser em um livro”, de Lawrence. Desconhecida no Brasil, a autora ganhou uma bela biografia, de autoria de Rosemary Sullivan. “Elizabeth Smart” (Circe, 396 páginas, tradução de Laura Freixas) mapeia, com acuidade, a vida, a obra e o tempo da autora. Leio (traduzindo trechos e poemas) a versão em espanhol, editada em Barcelona.

A história da bela e irrequieta Elizabeth daria um livro. Daria, não; deu — é o romance “By Grand Central Station I Sat Down and Wept”. Só que conta apenas parte de sua vida e é, claro, um romance. Por isso a biografia escrita por Rosemary é um empreendimento louvável. Comento, neste texto, tão-somente parte da relação de Elizabeth com Barker. Em 1937, aos 24 anos, a autora entrou na Livraria Bester Book e começou a ler um livro de poesia de Barker. “As palavras ardiam. Ali mesmo decorou as poesias, pois não lia livros — devorava-os”, revela Rosemary. “Tenho que me casar com um poeta. É a única solução”, escreveu a poeta e prosadora. “Este é o homem que estava buscando.”

Sem nada saber sobre Barker, conhecendo apenas sua poesia, Elizabeth começou a caçá-lo. Aos amigos, perguntava: “Conhece George Barker?” Pedia para ser apresentada ao poeta e dizia: “Quero me casar com ele”. Barker ficou sabendo da procura, mas, no início, não a levou a sério.

Em agosto de 1937, relata Rosemary, Elizabeth “menciona Barker pela primeira em seu diário. Está lendo ‘Janus’ (1935), ‘Poems’ (1935) e ‘Calamiterror’ (1937) e procurando seus poemas em todas as pequenas revistas literárias. Leu a breve biografia que figurava nos seus livros, descobriu que tinha a idade adequada [ambos nasceram em 1913] e decidiu que ele era o homem que estava buscando”.
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16 Março, 2011

Tsunami Nuclear

O dramático desastre sísmico no Japão, com seus trágicos efeitos sobre aquele povo, traz de volta, de cambulhada, o debate sobre o uso da fonte atômica para geração de energia elétrica. O rompimento de uma turbina em usina de Fukushima alarmou não apenas o Japão.

Jaime Sautchuk, Vermelho

A primeira conclusão que se retira do acidente é a de que propalada segurança da tecnologia mais avançada nesse campo não é lá tão segura assim. Das 20 centrais nucleares da região mais afetada pelo terremoto e pelo decorrente tsunami, apenas nove seguiram funcionando.

Com isso, parte da cidade de Tókio, a capital, e outras oito cidades de médio e grande portes ficarão sem eletricidade pelo menos até o final de abril. A previsão é da empresa Tokio Eletric Power Co. (Tepco), que opera parte da energia distribuída naquele país, inclusive a dessa usina.

O físico brasileiro José Goldemberg, reverenciado mundo afora, disse que o ocorrido em Fukushima “é o maior acidente nuclear desde Chernobyl”. Ele se referia ao episódio de 1986, quando houve o vazamento de um reator de usina daquela cidade da Ucrânia, com gravíssimas conseqüências até os dias de hoje.

Outro físico brasileiro, o também respeitado Luiz Pinghelli Rosa foi um pouco além. “O que houve neste caso foi falha técnica, a tecnologia empregada é que falhou”, afirmou ele em entrevista à imprensa. Governos também reagiram. O da Alemanha decidiu fechar duas de suas usinas, consideradas obsoletas.

O governo japonês foi cauteloso ao tratar do caso, decerto por não querer mudar o foco das atenções sobre os demais efeitos do terremoto e do tsunami. No entanto, de imediato adotou medidas que, pelos remédios prescritos, davam dicas sobre o tamanho do mal.

No momento seguinte ao terremoto, já se tinha como certo que aquela usina havia sido atingida. Depois, surgiu imensa nuvem de fumaça, seguida de labaredas incontroláveis. Era novo alerta. Primeiro, o governo determinou medidas de proteção numa faixa de 10 km ao redor da usina, cuja população foi retirada.”
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15 Março, 2011

A história do diário que comoveu o mundo


Alex Sens Fuziy, Revista Bula

“Em junho de 1942 uma menina alemã ganhou em seu décimo terceiro aniversário um caderno axadrezado branco e vermelho. Dele fez seu primeiro e único diário, mais tarde reiniciado em outros dois cadernos de exercícios; em 1944 foi reescrito e revisado em mais 324 folhas avulsas de papel colorido, quando, já com quinze anos, esta menina veio a ser presa, deportada e morta num campo de concentração em Bergen-Belsen. Três anos depois este diário foi publicado como uma narrativa do Holocausto.

O diário, a princípio um feliz presente para alguém que desejava dar vazão às suas proclividades literárias, tornou-se um dos livros mais vendidos no mundo, um emblema da história moderna e um testemunho ocular de uma época de terror. Nada disso por acaso, afinal foram o desejoso ardoroso e a paixão criativa desta menina chamada Anne Frank, de ser reconhecida como uma escritora e de querer até mesmo sobreviver de alguma forma à morte, que a fizeram transformar um simples relato de seu trancafiado cotidiano em um romance histórico intitulado de “O Anexo Secreto”. Em “Anne Frank - A História do Diário que Comoveu o Mundo” (292 páginas, Editora Zahar, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges), Francine Prose, uma das maiores críticas, ensaístas e ficcionistas americanas atuais, ex-professora em grandes universidades como Harvard e Columbia, fez um laborioso estudo sobre o famoso diário, mergulhando profundamente na vida de Anne e analisando seu registro não apenas como histórico, mas também artístico, encarando-o como verdadeira obra de arte.

Prose, além de fazer o leitor conviver com Anne Frank em seus últimos anos, mostra como a menina de temperamento difícil e humor instável sofria em seu processo criativo, escrevendo fervorosamente semanas antes de ser presa com outros sete judeus, criando rascunhos e editando continuamente seu trabalho literário; como ela se transformou de criança em adolescente e em escritora decidida pelo jornalismo; como sua letra sofreu mudanças enquanto esteve reclusa no anexo secreto do número 263 da Prisengracht, Amsterdam, por 25 meses; além de, é claro, como e porque o diário foi e ainda é tão superestimado, sendo publicado em todos os continentes, adaptado de forma discutível para o teatro e para o cinema, estudado em escolas, destrinchado por admiradores e ferozmente criticado por quem vê em Anne uma garota banal eternizada tão somente por sua trágica morte.”
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14 Março, 2011

Meu dente (quase) caiu

Ana Elisa Ribeiro, Digetivo Cultural

Meu dente caiu é o nome de um livro da fantástica Vivina de Assis Viana. É dessas obras escritas para as crianças e, provavelmente, com alguma especificidade para aquelas que se identificam com o drama dos dentes de leite versus a dentição permanente. "Meu dente caiu" é a frase que toda família escuta quando tem um guri em torno dos 6/7 anos de idade. E o dente cair é sinal de mudança de ciclo.

Na atual crise da queda de dentes pela qual vem passando minha família, resolvi me deter nos sentidos que os dentes têm na nossa batida cultura popular. Não conheço dentistas (além do que trata meu dente protocolarmente), não há odontólogos na família, nem entre os namorados passageiros de primos e tios. Remotamente, há o irmão de uma amiga, mas mal o vi uma ou duas vezes. Então não tenho qualquer cacife para avançar por teorias científicas sobre mordidas e dentes. No entanto, com a vasta experiência de gente que morde, posso arriscar umas lendas dentais.

O menino que eu pari, cirurgicamente, há quase 7 anos, anda babando por todo canto por manter a boca semiaberta, na tentativa vã de segurar o dente de leite na arcada inferior, logo ali, bem na frente do sorriso. Ele não quer que o dente caia, teme que sangre, tem pânico de ficar com as famosas "janelinhas", que, em tese, o deixariam menos lindinho. O curioso é que um dente, o vizinho, caiu faz tempo e já, inclusive, cedeu lugar a um mais robusto e ainda serrilhado. A experiência, no entanto, não bastou para que o garoto perdesse o medo da nova queda dentifrícia.

O primeiro dente caído deveu-se a um esbarrão mais forte num primo mais velho, numa daquelas brincadeiras sacanas e estúpidas que os meninos aprendem mais cedo e melhor do que as meninas. O dianteiro de baixo amoleceu, dependurou-se e ficou por um fio. Uns dias depois, em outra sessão de brincadeiras imbecis, agora com o avô, o guri deu uma mordida no braço do velho e lá ficou o dentão espetado. A situação engraçada, no entanto, abafou qualquer tentativa de crise de choro ou de pânico.”
Ilustração: LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)
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13 Março, 2011

Risco de retrocesso na ABL

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“E por estas bandas, depois da perda irreparável que representou a morte do escritor Moacir Scliar (foto), um expoente da literatura brasileira, começa a corrida na Academia Brasileira de Letras para o preenchimento da vaga deixada por ele.

Nos últimos anos até que a ABL estava deixando para trás os tempos em que até um general da ditadura brasileira, Aurélio Lira Tavares, ocupou uma cadeira. Nomes do primeiro time foram escolhidos nos últimos anos. Por lá passaram, entre outros, Darci Ribeiro, que dispensa apresentação, e seguem Ana Maria Machado, Nélida Piñon e Cícero Sandroni, entre outros.

Pois bem, não é que agora aparece um pleiteante, uma figura que representaria um retrocesso para a ABL se fosse escolhido. Trata-se do colunista de O Globo, Merval Pereira, autor de um livro intitulado “Lulismo no Poder”, um trabalho que politicamente se inscreve na categoria de panfleto de direita. E só.

Para se ter uma ideia, o referido jornalista, em setembro do ano passado, portanto, em plena campanha eleitoral, esteve no Clube Militar junto com Reinaldo Azevedo, da Veja, destilando ódio contra o então Presidente Lula e fazendo proselitismo reacionário contra a candidata Dilma Rousseff. Foi ovacionado por vários oficiais da reserva que rezam a mesma cartilha de Merval Pereira e do outro.

Parte do receituário apresentado aos que tinham comando durante a ditadura encontra-se no livro que ele apresenta e com isso pretende pleitear a vaga de Scliar.

Espera-se que os acadêmicos não se dobrem ao esquema plim-plim, que além de um retrocesso representaria uma ofensa à memória de Moacir Scliar e à própria literatura brasileira. Eles farão justiça e dignificarão a Casa se escolherem, agora em abril, o escritor, aí sim um escritor na verdadeira acepção da palavra, baiano radicado no Rio de Janeiro, Antonio Torres, autor de consagradas obras, algumas circulando no exterior, como “Essa Terra”, “Um cão uivando para a Lua”, “Balada da infância perdida” e “Um táxi para Viena d’Áustria”, entre outras.

Não há grau de comparação entre um e outro. Com a palavra os acadêmicos.”
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11 Março, 2011

Da importância da mulher esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Mulher no volante, perigo constante. O provérbio é antiquado e irrita, com toda razão, o mulheril. Há poucos dias, presenciei um abalroamento macarrônico no trânsito infernal da cidade. Alertada pela luz amarela do semáforo, uma jovem motorista meteu o pé no freio (acertadamente, embora dirigisse calçando um sapato de salto 15, não recomendável) e seu carro foi atingido na traseira por outro, cujo condutor teve o impulso contrário (erroneamente), ou seja, acelerou a máquina mortífera para escapar do sinal vermelho.

Ora, vejamos: todo mundo sabe que a luz amarela significa “atenção, reduza a velocidade, pois o sinal vermelho vem aí”. Quase todo mundo. A cada dia, cresce o número de cretinos ao volante. Só pra exemplificar, a legislação do Conselho Nacional de Trânsito manda que os novatos sejam submetidos a vinte aulas de volante (treinamento prático), além do curso teórico, antes de retirarem as CNH.

Na prática, muitas autoescolas ignoram a lei ao fazerem “pacotes promocionais” (que é para baratear pro aluno e driblar a concorrência), ministrando poucas aulas para “pessoas com alguma experiência prévia ao volante” (será que os candidatos conseguiram esta experiência prévia ao volante brincando em vídeo games e autoramas ou dirigindo sem habilitação?!). Juntando a inexperiência dos motoristas emancipados (ambos os sexos) com a epidemia de motos e automóveis que empapuçam as ruas (fruto de incentivos governamentais duvidosos, aliada à falta de investimento no transporte coletivo), surge o monstro chamado trânsito caótico, que tem infernizado o dia-a-dia dos cidadãos urbanofílicos.

Voltando ao acidente heterossexual a que me referia no início, o sujeito ficou mesmo muito irritado com a mocinha que não parava de chorar, mesmo que ninguém houvesse se ferido. “Apenas danos materiais” e algum desarranjo emocional extremamente fugaz. Cego pela raiva, ciente do inusitado prejuízo financeiro (afinal, ele teria que pagar o conserto dos dois veículos), o rapaz perguntou à algoz (é assim mesmo que as pessoas se sentem no trânsito: algozes umas das outras) por que é que ela “não largava mão de dirigir um carro pra esquentar a barriga num fogão e esfriá-la no tanque”.
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10 Março, 2011

Que merda é essa?

Rui Martins, Direto da Redação

“Nem tudo é Carnaval no Brasil pós-Lula, como provou a polêmica levantada pelo bloco com camisetas desenhadas pelo cartunista Ziraldo, mostrando o escritor Monteiro Lobato agarrado numa mulata. Mas Que merda é Essa, ironizava Ziraldo, diante da celeuma provocada pelo Conselho Nacional de Educação ao considerar impróprio para a criançada, por racismo, o livro Caçadas de Pedrinho, do consagrado autor do Sítio do Picapau Amarelo, paulista de Taubaté.

Com sua costumeira irreverência, Ziraldo quis por um fim na polêmica « Lobato era racista ? » mas sua brincadeira teve o efeito de merda jogada no ventilador, e o próprio Ziraldo, nesta quarta-feira de cinzas deve estar sorrindo amarelo. Sua explicação de racismo com ódio e racismo sem ódio não convenceu e foi interpretada como conversa de quem é racista enrustido.
Na verdade, Ziraldo nisso não é exceção. A maioria da sociedade brasileira é racista enrustida, o que o jornalista Dojival Vieira, da comunidade negra Afrokut, define como « racismo bonzinho » na versão ipanemense de Ziraldo. Se o racismo bonzinho brasileiro não deu origem à criação de um Klu Klux Klan brazuca, como lamentava Monteiro Lobato, em sua correspondência revelada pela escritora negra Ana Maria Gonçalves, se manifesta numa sociedade de pessoas cor-de-rosa e pessoas marrom, como bem retrata o livro O Menino Marrom, do próprio Ziraldo.

Ziraldo queria protestar zombeteiramente da exclusão do livro Caçadas de Pedrinho das escolas pelo Ministério da Educação, por veicular racismo entre as crianças. Para o cartunista isso seria censura ao velho Lobato e quis provavelmente reagir com caçoada, ele que também escreve para crianças « mas que merda é essa minha gente, deixem o Lobato em paz! ». Só que o racismo no Brasil não se resolve com brincadeiras e caçoadas.”
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09 Março, 2011

O Pierrot apaixonado

Mazé Leite, Vermelho

“Dias de carnaval, dias de alegria no Brasil. Dias de esquecer tudo o que não seja, e não dê, prazer. Dias em que milhares de Pierrots, Arlequins e Colombinas se espalham em todos os sotaques brasileiros, ocupando as ruas, como uma grande, imensa Comédia.

Mas o Pierrot e o Arlequim, imersos na folia carnavalesca, nem sempre estão esfuziantes de alegria, como mostra a música mais triste de todas as músicas do carnaval (a de Zé Keti): “Oh quanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão, Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão.” E mesmo na música de Noel Rosa, “O Pierrot apaixonado que vivia só cantando, por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando...”

Mas de onde vem essas figuras que habitam nosso carnaval, misturadas a tantas outras? E por que elas carregam essa dupla face, a de um palhaço triste e a de um malandro inquieto? Qual a imensa tristeza presente atrás das máscaras da alegria do carnaval?

No século XVI na Itália, trupes de artistas saiam pelas ruas, entretendo as pessoas, contando suas estórias, fazendo rir, fazendo chorar. A Commedia Dell”Arte italiana era, no começo, caracterizada pela sátira social e ironizava a vida e os costumes das classes dominantes de então. As peças apresentadas eram improvisadas na hora, como o são hoje os repentes e o rap. Ao chegarem nas cidades, se apresentavam em suas carroças ou em palcos improvisados. Mas tinham personagens mais ou menos fixos, que cumpriam certos papeis, como o Pierrot, o Arlequim e a Colombina e seguiam mais ou menos o mesmo roteiro, inicialmente chamado de “canovaccio”. Alguns atores viviam o mesmo papel durante toda a vida.

As representações teatrais das trupes da Commedia dell’Arte sempre ridicularizavam os poderosos, desde reis e rainhas, militares, padres, negociantes e nobres em geral. O esquema de criação era coletivo, havia um roteiro mais ou menos fixo, mas os atores tinham liberdade de improvisação. Muitas dessas trupes carregavam consigo uma pintura bem grande, com uma rua, casa ou palácio, pintados, que servia de cenário.”
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08 Março, 2011

Dois personagens do carnaval



Marcel Pilatti, Revista Bula

Aproveitando a época de Carnaval, vale analisar duas figuras que serão homenageadas pelas principais escolas de samba do Rio de Janeiro em seus desfiles: Nelson Cavaquinho (tema da Mangueira, em virtude de seu centenário) e Roberto Carlos (que completa 70 anos em abril e receberá homenagem da Beija-Flor).

São dois personagens distantes e próximos: distantes pelo sucesso comercial, mas próximos pela simplicidade, qualidade e reconhecimento no meio musical.

Muitas pessoas, até hoje, torcem o nariz ao ouvir falar de Roberto Carlos: “acho brega”, “é produto da Globo”, e “quem compunha pra ele já morreu” são algumas das principais pérolas; da mesma forma, ainda há grande quantidade de pessoas que expressam espanto quando escutam o nome de Nelson Cavaquinho: “quem?!”.

É provável que o leitor da Revista Bula se encaixe no primeiro grupo. Virou uma espécie de senso-comum as pessoas, para se mostrarem refinadas ou alternativas, irem contra algo que seja muito popular, conhecido ou comentado: evocando famosa frase de Tom Jobim, “fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal”.

Já quanto a Cavaquinho, a culpa é da pouca divulgação de seu trabalho e de sua memória. Fiquei intrigado, por exemplo, ao ler o belíssimo texto da colega Carolina Mendes e não ver nenhuma vez o nome de Nelson citado, ainda que seja ele o autor de duas das canções por ela mencionadas como essenciais.

É desnecessário fazer aqui um resumo da trajetória de ambos. Mas é preciso que se faça justiça às suas relevâncias históricas: Roberto Carlos nada deve a Chico Buarque, Caetano Veloso, ou Gilberto Gil. E Nelson Cavaquinho não é menor que Noel Rosa, Cartola ou Vinícius de Moraes. Falamos aqui de astros, todos, de primeira grandeza.”
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07 Março, 2011

Os 80 anos do homem que mudou o mundo

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Passou quase despercebido pela grande mídia o aniversário do homem que mudou a história recente do mundo. Mikhail Gorbachev, o homem da Perestroika e da Glasnost, que foi secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética de março de 1985 a agosto de 1991, completou 80 anos no último dia 2 de março.

Gorbachev foi o último líder da extinta URSS e talvez não imaginasse que suas propostas tivessem um alcance tão grande que levariam ao fim do socialismo e à destruição do Estado soviético.

Em 1985, foi dele a iniciativa de convencer o Comitê Central do PC de que alguma precisava ser feita para restaurar a economia soviética, estagnada durante os anos do governo de Leonid Brejnev. Nascia assim a “Perestroika”, que quer dizer reconstrução.

Mas logo logo Gorbachev descobriu que a reconstrução da economia não seria possível sem a implementação de profundas reformas políticas e sociais que colocariam em risco o próprio regime comunista, àquela altura dominado por velhos dirigentes de conceitos superados e que resistiam a qualquer mudança.

Gorbachev superou esse pessoal da velha guarda do PC e, à medida que suas reformas iam sendo implantadas, a cara da União Soviética ia mudando diante do mundo. Surgia assim a “Glasnost”, que significa abertura, no sentido de transparência da livre discussão dos problemas sociais.

Faltava, entretanto, à União Soviética mostrar-se ao mundo através de uma nova diplomacia, aberta ao diálogo com todos os países, mesmo com os que praticavam um tipo de capitalismo selvagem e contrário aos ideais solicalistas.”
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06 Março, 2011

À beira da estrada?

Está na hora de parar, sentar e degustar uma boa laranja, a fruta que, infelizmente, virou suco

Marcio Alemão, CartaCapital

Pois, na minha opinião, a laranja de feijoada deveria ser, sempre, a laranja-da-baía. Tem de ter essa personalidade. Lima, nem pensar. Para não sair do tema, colocar lima na feijoada é tirar o John Coltrane e colocar o Kenny G.

Mas, atenção, longe de mim querer comparar uma lima com o Kenny. Nenhuma lima deste mundo merece isso. Eu me refiro à composição, ao conjunto.

Laranja-lima sempre representou um desafio para mim. Tínhamos um sítio e nesse sítio ainda era possível comer fruta de pé franco. Pé franco é aquele que não recebeu enxerto de nenhuma espécie. Sim, leitores amigos e leitoras amigas, o Júnior também atua com determinação e criatividade em outras áreas. Deu de cruzar sementes que geraram coisas extravagantes. Nenhuma aberração, é fato (eu, pelo menos, não tive conhecimento), mas passou a ficar difícil comer uma singela laranja de pé franco. Mexerica, então, nem pensar.

Por conta do tal sítio, que tudo dava em abundância, na época das laranjas elas nos chegavam às caixas. Todo domingo meu avô abria o porta-malas de sua Rural Willys e nós as colhíamos. Isso tem muitos anos. Era o tempo em que a música do Ataulfo Alves, Laranja Madura, fazia sentido. Hoje, quem consegue imaginar laranja madura na beira da estrada?

Chegava a hora do jantar. Todos à mesa. Depois da indefectível sopa de mandioquinha, que marcas profundas deixou em minha vida, e depois de um trivial variado, uma tigela grande com as tais laranjas. E assim começava o espetáculo: ver meu pai descascar as laranjas. O lado bacana era sentir aquela clássica admiração. Poder chegar na escola, encher o peito e dizer com um baita orgulho: meu pai é o maior descascador de laranja do mundo. Sinto não tê-lo feito. Imagino que não encontraria rival para réplica.”
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Em busca da adrenalina perdida

Marta Barcellos, Digestivo Cultural

“Havia alguma expectativa de, durante a viagem, descobrir por que eu nunca quis ir à Disney. Algo estranho na infância, quem sabe um desejo velado, inconsciente pela impossibilidade de realização do sonho, ou um traço de personalidade intocado pela análise. Outro adulto do grupo, também estreando por insistência dos filhos, atribuiu o desinteresse comum ao antiamericanismo que acompanhou nossa geração. Pode ser. Mas, diante da primeira "parada" de personagens, acenos da Minnie e do Pateta, encontro uma explicação mais simples: a intuição de que aquilo seria tolo, mesmo na infância. Sempre preferi Asterix ao Pato Donald.

Com a rotina de parques se estabelecendo, porém, pareceu surgir uma motivação. Para tudo. Para a noite econômica no avião, a paisagem barra-da-tijuca de Orlando, a comida horrível. Tudo seria compensado por dois minutos e meio em uma montanha-russa radical. É preciso se superar, colocar a Sheikra no currículo, despencar na vertigem furiosa do Hulk, enfrentar a escuridão alucinada ao som do Aerosmith, temer o confronto de trilhos dos Dragons, mergulhar de cabeça na Manta, ou de costas no Everest. Atrás do tal sentido, me submeti.

Fomos programados para receber altas doses de adrenalina na juventude, quando deveríamos sobreviver a ataques de animais ferozes, vencer privações e estresses inimagináveis, reagir rápido ao imponderável da natureza. Agora, com vidas seguras e previsíveis (especialmente na Flórida), pré-adolescentes e jovens adultos buscam sua droga nas armações metálicas intimidadoras, na superação de limites prometida pelas novas tecnologias. Os simuladores se sobrepujam e enganam os sentidos recém acostumados à ilusão do brinquedo anterior: é preciso dissimular a realidade. Sempre. Harry Potter me acena, e sigo suas manobras ousadas em minha vassoura, esquecendo os 40 minutos de fila.

Consta que o segredo do sucesso da Disney, multiplicado por outros parques de Orlando, é a fidelização. As pessoas — famílias e grupos — voltam. Por isso, além do serviço impecável, é preciso oferecer novidades de última geração. A cereja do bolo é a montanha-russa-troféu, onde todos provam sua bravura, com mais ou menos sofrimento. Descubro que a atração foi mesmo inventada na Rússia, onde trenós desciam por montes especialmente construídos no gelo. Não sei como era naquele tempo, mas hoje as únicas habilidades necessárias são a coragem de entrar no carrinho e a paciência para resistir à fila.”
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04 Março, 2011

Confissão de um fraco


Menalton Braff, Revista Bula

“Nunca me imaginei tão fraco como agora me descubro. Sem querer imitar o Estrangeiro que não parava de fazer perguntas ao Teeteto, para que entre ambos houvesse comunidade de entendimento, preciso começar determinando com mais clareza que tento me referir. É claro que existem muitos tipos de fraqueza e só me confesso fraco para alguns dos tipos. Se me ausculto, por exemplo, procurando fraquezas físicas, não encontro grande coisa. O desgaste natural da máquina, lógico, vai-se tornando evidente. Também não tenho mais dezenove anos. Um joelho perrengue, já farto de tanto trabalho e exigindo sua aposentadoria, uma vista da qual as principais virtudes debandaram, o ouvido que fica procurando lábios alheios com a insistência de quem gostaria de não perder o que se diz, e por aí vai. Nada que um bom geriatra não consiga lenir. E, se não conseguir, devo encarar como natural a curva descendente.

Não, não é na carcaça que encontro a fraqueza, mas em órgão que geralmente não se mostra em público, e que, às vezes, quando cheio, ameaça estourar. Enfim, ainda não se fabricam de aço. E um presidente da república, um dia, disse que o tinha roxo. Mas a cor não interessa, no caso, e sim sua resistência. Do meu já anda perto do fim.”
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03 Março, 2011

Obama (re) descobre o Brasil

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“E finalmente o presidente americano Barack Obama desembarca no Brasil com a família a tiracolo, Michelle, Malia e Sasha. Na ala vip do aeroporto o esperam criancinhas de escolas carentes acenando com bandeirinhas dos dois países, representantes de entidades negras e dos gays com um enorme troféu em forma de arco-íris para agradecer as posições favoráveis de Obama em relação às causas homossexuais. E é claro, não podiam faltar as passistas, ritmistas, portas-bandeiras e mestres-sala de várias escolas de samba para saudar a família.

Antes mesmo da visita do presidente Obama ao Brasil,o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já destacou que ele é “praieiro”. Nascido no Havaí, adora uma praia e estava super interessado em conhecer as belezas naturais da cidade maravilhosa. Parece, segundo dizem, que Dilma não gostou nem um pouco de São Paulo não ter sido incluída no roteiro de visita. Mas isso ela logo vai perdoar quando vir o presidente americano de perto, com aquele sorrisão largo e simpático, elogiando as maravilhas do Rio.

Vale lembrar que Obama foi um incansável garoto-propaganda da cidade de Chicago na disputa com o Rio pela sede da Olimpíada de 2014. Depois, voto vencido, ele acabou rendendo-se às maravilhas cariocas, e só de ouvir dizer, heim? Imagine agora em sua visita oficial? Vai querer ver tudo de perto, para conferir se a escolha foi mesmo a mais acertada.”
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A poetisa, a mística e a gata

Leonardo Boff, Adital

“A Igreja Católica italiana apresenta em sua história uma contradição fecunda. Por um lado há a presença forte do Vaticano, representando a Igreja oficial com sua massa de fiéis mantidos sob vigilante controle social pelas doutrinas e especialmente pela moral familiar e sexual. Por outro, há a presença de cristãos leigos e leigas não alinhados, resistentes ao poder monárquico e implacável da burocracia da Cúria romana mas abertos ao evangelho e aos valores cristãos sem romper com o Papado embora críticos de suas práticas e do apoio que dá a regimes conservadores e até autoritários.

Assim temos a figura de Antônio Rosmini no século XIX, fino filósofo e crítico do antimodernismo dos Papas. Modernamente identificamos figuras como Mazzolari, Raniero La Valle, Arturo Paoli, a eremita Maria Campello. Entre todos, destaca-se Adriana Zarri, eremita, teóloga, poetisa e exímia escritora. Além de vários livros, escrevia semanalmente no diário Il Manifesto e quinzenalmente na revista de cultura Rocca.

Era duríssima contra o atual curso da Igreja sob os Papas Wojtyla e Ratzinger a quem acusava diretamente de trair os intentos de reforma provados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e voltar a um modelo medieval de exercício de poder e de presença da Igreja na sociedade. Veio a falecer no dia 18 de novembro de 2010 com mais de 90 anos.

Visitei-a por algumas vezes em seu eremitério perto de Strambino no norte da Itália. Vivia só num enorme e vetusto casarão, cheio de rosas e com sua gata de estimação Arcibalda. Tinha uma capela com o Santíssimo exposto para onde se recolhia várias horas por dia em oração e profunda meditação.

Na conversa com ela, queria saber tudo das comunidades eclesiais de base, do engajamento da Igreja na causa dos pobres, dos negros e dos indígenas. Tinha um carinho especial pelos teólogos da libertação por causa da perseguição que sofriam por parte das autoridades do Vaticano que os tratavam, segundo ela, "a bastonadas”, enquanto usavam luvas de pelica aos seguidores do cismático Mons. Lefebvre.”
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01 Março, 2011

A porta dos fundos do ensino “superior”

Reinaldo Canto, Envolverde

"Primeiro contato de muitos jovens com a faculdade começa com trotes violentos e humilhantes. O que esperar depois?

Todos os anos, nesta época, a triste cena se repete em dezenas de universidades. Calouros chamados de bichos são agredidos e obrigados a cumprir ordens de veteranos alterados e histéricos. Por vezes alguns desses novos universitários enfrentam situações ainda mais graves sofrendo traumas psicológicos, ferimentos e nos casos extremos, até mesmo a morte.

O mais comum é vermos jovens cobertos de tinta pedindo dinheiro nos cruzamentos para a compra de bebidas alcoólicas. As pessoas, com algumas poucas exceções, observam esse espetáculo, mais parecido com um circo de horrores, com complacência e mesmo simpatia. Claro, diriam muitos deles, são jovens comemorando um momento especial de suas vidas. Será mesmo?

Então, vejam abaixo algumas das manchetes de imprensa selecionadas aleatoriamente nas duas últimas semanas:

- Trotes com álcool levam calouros a posto médico;

- Faculdade é criticada por trote violento;

- Trote teve direito a desfile de “bixetes” sobre passarela de calouros;

- Universidade investiga trote com fezes de animal e urina;

- Três calouros são internados em coma alcoólico após trote.

(Tomei o cuidado de não citar os estabelecimentos e as cidades, pois fiz apenas um apanhado sem qualquer pretensão estatística, só ilustrativa).

Bem, diante desses fatos fartamente divulgados pelos veículos de comunicação, proponho uma reflexão:

O que esperar do futuro desses jovens? Qual a responsabilidade desses estabelecimentos ditos de ensino superior?

Os administradores dessas faculdades e universidades costumam fazer vistas grossas aos trotes. A alegação mais comum é de que não é possível controlar a ação dos estudantes que ocorrem em pontos diversos, muitas vezes fora do estabelecimento de ensino.

Lavar as mãos não parece ser a atitude correta de dirigentes universitários responsáveis pela formação das futuras lideranças do país. É preciso romper esse círculo vicioso e gratuito, e criar junto com seus estudantes, familiares e funcionários, alternativas mais amigáveis e construtivas.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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