29 Abril, 2011

O menino de Guantanamo

Paulo Nogueira, Diário do Centro do Mundo

“Quer saber como Guantanamo se tornou o horror que é?

Leia “Guantanamo Boy”, da escritora inglesa Anna Perera. Uma versão em português foi lançada no Brasil pela Editora Agir.

Baixei a edição original no Kindle com um mero clique. Uma espécie de milagre da aparição literária.

É uma ficção baseada na realidade. Khalid é um adolescente inglês. Seus pais são paquistaneses, e acabaram indo para a Inglaterra, como tantos conterrâneos, para fugir da miséria de seu país. Para os ingleses era uma coisa boa, porque os imigrantes representavam mão de obra barata para funções humildes que os nativos não estavam nem um pouco interessados em realizar eles próprios.

Khalid vai visitar a terra dos pais.

Mas estava acontecendo o seguinte. Os Estados Unidos, na chamada Guerra ao Terror, estavam dando um dinheiro considerável a pessoas que denunciassem suspeitos de terrorismo. Era uma cifra que equivalia a meses, talvez anos de trabalho na miséria paquistanesa.

Muitas pessoas inescrupulosas, para pegar o dinheiro, fizeram denúncias sem fundamento. Como não havia julgamento, como não havia advogado de defesa, como não havia procedimento legal nenhum, o delator ganhava uma pequena fortuna sem risco de descobrirem que ele mentira.”
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28 Abril, 2011

A ficção na Globo está esquisita, muito esquisita...

Vera Lucas, adNews

“Confesso que sou noveleira de carteirinha, ao ponto da minha dissertação ter sido sobre o tema. Mas especificamente, sobre as novelas que marcaram época na Vênus Platinada. Discuto personagem, trama, coerência e fico muito chateada quando não adivinho quem é o assassino. Essa minha atração pelos folhetins vem desde pequena. Ao invés de desenhos, eu preferia assistir as histórias interpretadas por Yoná Magalhães e Carlos Alberto. Eu podia não entender nada, mas prestava uma atenção... Por isso, décadas de telespectadora, estou achando as coisas estranhas lá para os lados do Projac.

Com certeza, não sou a única. O Ibope divulgou que a Record atingiu metade do share – participação entre os aparelhos de TV ligados – da Globo. Na semana de 11 a 17 de abril, a Record marcou média de 18 pontos diante dos 36 obtidos pela Globo, em São Paulo. Não é pouca coisa, não. Vale lembrar que até pouco tempo, a emissora carioca reinava absoluta. E o seu carro-chefe é justamente as novelas. Elas continuam primando pelo excelente elenco e padrão de qualidade. Mas os enredos...

Vou começar pela nova temporada de Malhação. Escrita por Emanuel Jacobina – autor do projeto inicial e também de programas consagrados como “Casseta & Planeta Urgente!” e “Sai de Baixo”, a novela para adolescentes poderia se chamar, bem ao estilo Glória Magadan, Tragédias e doenças. Tudo bem que a informação é fundamental para os jovens. Mas não é preciso esclarecer e tratar de tudo em uma mesma obra.Acaba-se explicando mais ou menos, sem aprofundamento.

Pois é... Já tivemos a morte da adolescente grávida, o jovem que foi empurrado e bateu com a cabeça em uma pedra, a blogueira que usou o anonimato para difamar uma família e mais casos de câncer, aids, bipolaridade, anorexia, bulimia, epilepsia, dependência de drogas, alcoolismo, bullying, preconceito social, racial, sexual... Ufa! Alguém disse que, em determinadas situações, menos é mais. Essa é uma delas. Com tantos problemas não sobra tempo para a leveza, a ternura, o romantismo. E, volto a lembrar, é uma novela para jovens! Está faltando equilíbrio. A vida não é um mar de lágrimas.

De Walcyr Carrasco, estamos assistindo a Morde & Assopra. Posso falar de cadeira... Gosto tanto desse autor que fiz um curso de roteiro com ele. Walcyr escreveu, entre outras, “O Cravo e a Rosa”, “Chocolate com Pimenta” e “Alma Gêmea”. Já ouvi críticos falarem que ele só se sai bem nas novelas das 18 horas. Não concordo. Em “Caras & Bocas”, das 19, Walcyr Carrasco colocou um chimpanzé como um dos protagonistas e o último capítulo da trama atingiu 61 por cento de share. Então fica a pergunta, que raio aconteceu com o escritor? Diariamente Júlia (Adriana Esteves) tem longos pesadelos com dinossauros que querem devorá-la. Como ela conseguiu se formar em Paleontologia? Parece médico que não pode ver sangue... E a química entre ela e Abner (Marcos Pasquim) ainda não rolou. Como também não aconteceu, até agora, o personagem Ícaro (Mateus Solano).”
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27 Abril, 2011

Que tal trocar de medo?


A vida é curta, mas ela é muito mais saborosa quando ousamos e aprendemos a lidar com as variáveis

Flávio Augusto, Brasil 247

Todos nós sentimos algum tipo de medo: medo de altura, de escuro, medo do desconhecido, do futuro, da violência urbana, medo de ser demitido etc.

O medo está ligado a um sentimento de auto-preservação comum em todas as espécies. Por isso, se você tem os seus medos, não há motivos para se envergonhar. No entanto, se esse sentimento ultrapassa alguns limites, ele pode se transformar em uma das inúmeras patologias populares da sociedade moderna, como a síndrome do pânico, o pavor noturno, a anorexia, entre muitas outras.

As causas desses transtornos psicológicos geralmente são associadas ao estilo de vida, à correria do dia a dia e ao stress. Eu não sou médico e não tenho autoridade alguma para me aprofundar sobre qualquer uma dessas patologias, porém, há um tipo de comportamento que tenho observado em muitos profissionais ao longo desses mais de 16 anos empreendendo: o medo de fracassar.

Este assunto beira ao clichê ou a mais um dos temas corriqueiros de autoajuda. Entretanto, mesmo sendo uma questão tão comum e debatida, percebo que, nos últimos anos, este problema tem ganhado maiores proporções e atingido todos os níveis dentro da hierarquia de uma companhia, podando a criatividade e limitando o potencial produtivo de muitos profissionais.

São várias as razões para o desenvolvimento do medo de fracassar: o desejo exacerbado por aceitação, a busca por admiração ou até mesmo por um impulso compulsivo, sem uma razão consciente, são algumas delas. Seja qual for o motivo, o medo de fracassar tem assombrado milhões de pessoas, de todas as idades, em todo o mundo.”
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26 Abril, 2011

Terra à vista! – ou parcelada em 511 vezes sem juros

Leonardo Sakamoto, Blog do Sakamoto

“Minha singela homenagem à lembrança do 22 de abril de 1500. Lembrando que nada disso é novidade, mas como cismam em comemorar a data…

Nas últimas linhas da carta que relata o início da invasão portuguesa (“descobrimento”? Há! Sei…) de Pindorama a dom Manuel, rei de Portugal, Pero Vaz de Caminha se aproveita do cargo e da oportunidade para pedir um favorziho. Se a graça foi ou não concedida, não faço idéia e nem quero saber. Afinal, Inês é morta, ou melhor, Pero Vaz. Porém, a utilização do público para atender a interesses privados perdurou durante toda a nossa história – situação que permeia das grandes somas das grandes obras ao cafezinho trocado pela multa na beira da estrada. Culpa do escrivão, porque “aqui se plantando tudo dá”? Nem. Culpa nossa.

“E pois que, senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida. A ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz”
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25 Abril, 2011

O Poderoso Chefão 4


Euler de França Belém, Revista Bula

“Nunca houve uma mulher como Gilda (do filme “Gilda”, com Rita Hayworth). Assim como nunca houve um filme com uma legião de admiradores tão intensa quanto “O Poderoso Chefão”, a trilogia de Francis Ford Coppola que melhorou, à larga, o romance do americano Mario Puzo

Nunca houve uma mulher como Gilda (do filme “Gilda”, com Rita Hayworth). Assim como nunca houve um filme com uma legião de admiradores tão intensa quanto “O Poderoso Chefão”, a trilogia de Francis Ford Coppola que melhorou, à larga, o romance do americano Mario Puzo. A história, como a Máfia, parece inesgotável. Tanto que a revista “Gentlemen’s Quarterly” (“GQ”) dedica oito páginas, escritas por Andy Morris, à possibilidade de Coppola, ou outro diretor, continuar a saga, com “O Poderoso Chefão 4”. Críticos severos avaliam que as partes 1 e 2 são o que de melhor o cinema americano produziu em toda a sua história e, em geral, torcem o nariz e os olhos para a parte 3. O diretor teria errado a mão, na história e na escolha de pelo menos uma atriz, Sofia Coppola. Os cinéfilos, ou “poderófilos” (ou “poderéfilos”), não dão a mínima importância aos anatomistas das telas e amam os três “filhos” como “perfeitos” e interdependentes. Mas é possível fazer o quarto “Chefão”? Claro que é — se os produtores e financistas perceberem que poderá render muito dinheiro. Poderófilos, como o poeta Carlos Willian Leite, são contrários. Por quê? Porque avaliam, ao modo de Anton Tchekhov e Henry James, que as histórias não precisam ter fechos totalizantes. As continuidades poderão tão-somente reforçar ou ampliar possíveis pequenas falhas do filme, mas não servirão para iluminar, ainda mais, a grande história da família Corleone, que, originária da Sicília, “tomou” conta dos Estados Unidos, física ou imaginariamente.

Andy Morris recolhe de Coppola: “Nunca pensei em ‘O Poderoso Chefão’ como uma série. O livro era bem completo. Só houve pressão para continuar fazendo porque rendeu muito dinheiro. Essa é a fórmula do negócio dos filmes de hoje em dia, em que as continuações rendem mais que o original. Eu não queria mais nenhum ‘O Poderoso Chefão’ depois do primeiro. E, certamente, eu não queria filmar nem o terceiro nem o quarto”. O leitor pode pensar: Coppola foi claríssimo — não veremos nenhum “O Poderoso Chefão 4”. Mas o mundo real, o das finanças, é outro. As palavras-chaves são: se render muito dinheiro, o filme sai, independentemente de quaisquer interpretações de críticos ou poderófilos.”
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24 Abril, 2011

Verdades debaixo do tapete

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“As semanas de longos feriados servem para se refletir sobre temas que muitas vezes passam ao largo. No Brasil, por exemplo, a criação da Comissão da Verdade está para ser debatida e votada pelo Parlamento para posterior sanção da Presidenta Dilma Rousseff. Ou seja, é um tempo em que dependendo das circunstâncias o país poderá finalmente dobrar a página de um período histórico cinzento e nefasto.

Comissão da Verdade não tem nada a ver com revanchismo, como alguns remanescentes daquele período ditatorial tentam incutir na opinião pública. Muito pelo contrário. Muitos países que passaram momentos históricos hediondos criaram as suas Comissões da Verdade, cada um a sua maneira. África do Sul com Nelson Mandela foi uma coisa, Chile da Concertación, a aliança política que reuniu socialistas, democratas-cristãos e outras correntes, produziu outra versão para passar a limpo o passado e melhor entendimento do presente, já de olho no futuro. Argentina, Uruguai e Paraguai idem.

Nesse sentido, por aqui a Comissão da Verdade, que seja verdadeira, sem subterfúgios, mesmo vindo com algum atraso deve ser saudada por todos os que desejam ver o Brasil fortalecendo a sua democracia. De qualquer forma, todo cuidado é pouco. Alguns exemplos históricos de virada de página podem servir de alerta, para evitar a ocorrência de esquecimentos indesejáveis.

É o caso da Alemanha no pós-guerra. Dividida em duas partes, a Ocidental e a Oriental com regimes diferentes, que finalmente se
reunificou depois da queda do Muro de Berlim, muitos algozes do regime nazista foram reabilitados na surdina e de um modo geral passaram a prestar serviços a um dos lados do tabuleiro internacional, exatamente a própria Alemanha Ocidental e os Estados Unidos.

Houve casos notórios, como o do alemão Klaus Barbie ou Altman, que passou um longo tempo impune na Bolívia, mas acabou extraditado para a França. Enquanto esteve na Bolívia, o carniceiro de Lyon, como era conhecido em função das atrocidades que cometeu naquela cidade francesa, colaborou na prática de torturas contra opositores de governos ditatoriais que contaram com o apoio do Brasil e dos Estados Unidos.

A história de Anne Frank é muito conhecida e serve até hoje de referência para mostrar a que ponto chegou a barbárie na II Guerra
Mundial. No entanto, poucos sabem que ao virar a página de sua terrível história, a Alemanha (no caso Ocidental) deixou passar alguns criminosos que foram recrutados para o seu serviço secreto. Objetivo: combater o comunismo a qualquer custo.”
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22 Abril, 2011

O duelo entre a vida e morte

Leonardo Boff, Adital

“Num dos mais belos hinos da liturgia cristã da Páscoa, que nos vem do século XIII, se canta que "a vida e a morte travaram um duelo; o Senhor da vida foi morto mas eis que agora reina vivo”. É o sentido cristão da Páscoa: a inversão dos termos do embate. O que parecia derrota era, na verdade, uma estratégia para vencer o vencedor, quer dizer a morte. Por isso, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. Ressuscitado, garantiu a supremacia da vida.

A mensagem vem do campo religioso que se inscreve no humano mais profundo, mas seu significado não se restringe a ele. Ganha uma relevância universal, especialmente, nos dias atuais, em que se trava física e realmente um duelo entre a vida e a morte. Esse duelo se realiza em todas as frentes e tem como campo de batalha o planeta inteiro, envolvendo toda a comunidade de vida e toda a humanidade.

Isso ocorre porque, tardiamente, nos estamos dando conta de que o estilo de vida que escolhemos nos últimos séculos, implica uma verdadeira guerra total contra a Terra. No afã de buscar riqueza, aumentar o consumo indiscriminado (63% do PIB norte-americano é constituído pelo consumo que se transformou numa real cultura consumista) estão sendo pilhados todos os recursos e serviços possíveis da Mãe Terra.

Nos últimos tempos, cresceu a consciência coletiva de que se está travando um verdadeiro duelo entre os mecanismo naturais da vida e os mecanismos artificiais de morte deslanchados por nosso sistema de habitar, produzir, consumir e tratar os dejetos. As primeiras vítimas desta guerra total são os próprios seres humanos. Grande parte vive com insuficiência de meios de vida, favelizada e superexplorada em sua força de trabalho. O que de sofrimento, frustração e humilhação ai se esconde é inenarrável. Vivemos tempos de nova barbárie, denunciada por vários pensadores mundiais, como recentemente por Tsvetan Todorov em seu livro O medo dos bárbaros (2008). Estas realidades que realmente contam porque nos fazem humanos ou cruéis, não entram nos calculos dos lucros de nenhuma empresa e não são considerados pelo PIB dos países, à exceção do Butão que estabeleceu o Indice de Felicidade Interna de seu povo. As outras vítimas são todos os ecossistemas, a biodiversidade e o planeta Terra como um todo.”
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20 Abril, 2011

Ser infeliz é o que vale?

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Certa vez ouvi de um diretor de jornalismo de uma emissora de TV que “felicidade não dá audiência”. Na época achei essa frase absurda . Como assim? Quer dizer então que ser feliz é algo tão banal que não desperta interesse no público?

Com o passar dos anos, o mundo das notícias e a própria vida acabaram por me convencer de que a frase do tal diretor não deixava de ter lá seu fundo de verdade. Afinal, quanto mais agressivo, polêmico e até sangrento o assunto melhor, pois isso se traduziria em maior audiência e/ou venda de jornais. Se não vejamos.

Pelos baixos índices de audiência que vêm apresentando, os reality-shows das emissoras só fazem sucesso quando mostram participantes problemáticos, infelizes e deprimidos por algum insucesso ou frustração que tiveram em suas vidas. Se durante as semanas do show surgirem casais que se apaixonam e demonstram total felicidade, parece que há até uma rejeição por parte do público que se reflete nos baixos números da preferência popular.

Nesse caso, o que estaria faltando? Mais infelicidade e menos melação amorosa? Se levarmos em conta a frase do tal diretor de TV, sim. Porque o que garante os pontinhos a mais na audiência são os desencontros e desamores explícitos. Estão ai os personagens das novelas que não o deixam mentir. Quanto mais vilão, mau e sem caráter o personagem, mais o público é atraído, fazendo até que ele se transforme no ponto central da trama.

Quanto aos bonzinhos , estes não tem vez. São sempre chatinhos e desinteressantes. De vez em quando, dependendo do ator ou atriz, um deles se salva na história, mas é tratado como exceção. Para o público, o personagem compreensivo demais, amigável e ético já não combina muito com o mundo de hoje, onde só se vê puxada de tapete ou baixaria parecida, na vida real.”
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19 Abril, 2011

Bicho da Terra oportunista

Edival Lourenço, Revista Bula

“O Homo sapiens, essa cereja do bolo do processo evolutivo, apesar de todo orgulho e jactância, não passa de um produto da Natureza, assim como a ameba, o mofo, a formiga, o ipê-roxo, o puma dos prados e tudo o mais quanto é ser vivente que há.

Como criatura da Natureza, somos oportunistas. Oportunista aqui no sentido de que só pudemos existir quando a Natureza criou as condições bastantes e necessárias para tal. E vamos deixar de existir quando a fila andar e a Natureza retirar as condições que nos permitem viver e alastrar o nosso processo cultural e civilizatório.

Muito antes de nós, os insetos e répteis habitavam este planeta conflagrado pelas intempéries. Havia rompimentos e colisões de placas tectônicas descomunais, com erupções vulcânicas repercutindo por todo o planeta, com alteridades climáticas impossíveis de ser toleradas pelos mamíferos. Havia trombadas de copos celestes pelo universo afora, com estilhaços resvalando na Terra em toda parte. Inclusive a Lua seria um pedaço da terra que se soltou numa dessas colisões e acabou por acomodar-se num ponto de equilíbrio gravitacional sob influência de nosso planeta.

Só para se ter uma ideia, a monumental fragmentação e colisão de placas, cerca de 23 milhões de anos atrás, fez levantar na planície amazônica de então a cordilheira dos Andes. Os rios daquela bacia enorme faziam a captação hidrológica de toda a região e desaguavam no pacífico. Com a muralha geológica que se levantou nesse período, formou-se um enorme lago aos pés dos Andes. Com a água se acumulando incansavelmente e a sucessão de outros movimentos da crosta, os rios acabaram por se arrepender, deram marcha à ré e formaram a bacia amazônica do jeito que a conhecemos, colhendo as águas desde a vertente dos Andes até cair no Atlântico. Os Alpes na Europa e o Himalaia na Ásia são outros exemplos de cadeias montanhosas formadas a partir de colisão de placas Tectônicas.”
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18 Abril, 2011

A radiação que ingerimos diariamente

Denise Grady, The New York Times

“Uma das coisas mais amáveis sobre meu marido é que ele tem cinco contadores Geiger.

Não os usava muito até que comecei a escreve sobre a radiação dos reatores nucleares danificados da usina de Fukushima Daiichi no Japão. Recentemente, uma das minhas entrevistas foi no mínimo estranha. Eu perguntei a um cientista sobre os possíveis efeitos sobre a saúde causados materiais radioativos que vazavam da usina e ele começou a falar sobre bananas.

“Por que nós ingerimos material radioativo todos os dias?”, disse ele em tom de dúvida. “As bananas são a fonte mais potente”. Ele explica que essas frutas contêm uma espécie de potássio radioativo desenvolvido naturalmente, mais do que qualquer outra fruta.

“Isso fica em nosso corpo, em nossos músculos”, disse o cientista. “A cada segundo, nossos corpos, seu e meu, recebem radiação”.

As castanhas-do-pará são ainda mais radioativas do que as bananas, ele acrescenta em tom quase regozijado. “O conteúdo radioativo está por toda a parte!” Tentei retomar o foco da entrevista para os reatores nucleares e, por alguns minutos, parecia ter dado certo. Ele disse que exposições desnecessárias à radiação deveriam ser evitadas, mas logo completou: “Adoro bananas. Não desistirei delas”.

Dias depois, tentei conversar com outro especialista, do outro lado do país em que residia o primeiro. Perguntei a ele sobre a descoberta de iodo e césio radioativos no leite e em alguns frutos japoneses. Ele disse que não era muito perigoso, mas que provavelmente ainda era melhor não ingerir os alimentos. E depois ele disse: “Acabei de comer uma banana como almoço”.
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17 Abril, 2011

A propaganda das raposas

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Uma das tendências de um certo segmento que finge não fazer política em nosso país é a de desqualificar o debate ideológico , privilegiando sempre as pessoas envolvidas e raramente os processos que as envolvem. Quando o assunto tem a ver com fraudes, falcatruas, corrupção, demonizam as pessoas corrompidas, mas raramente vinculam os fatos a uma ideologia dominante que, fundada no lucro e no egocentrismo, estimula a sede dos ganhos ilícitos. Seria leviano eu dizer aqui que o roubo é exclusividade do capitalismo, mas que o ambiente é propício, isso é...

Mas não creio que essas posturas, de privilégio do individual, existam apenas para esconder o processo que vincula as pessoas e seus atos. Penso que, no caso, há , paradoxalmente, admitam ou não os seus atores, um forte viés ideológico. A nova indumentária da direita (não tão nova assim, reconheçamos) passa por essa roupagem que tudo centraliza no “eu”, para o bem ou para o mal.

Para os ideólogos do capital e do mercado, é óbvio que não pode nem deve haver um organismo estatal forte, que faça dos programas sociais o seu móvel maior, que rejeite as privatizações oportunistas (pois há as que se justificam), que enxergue o plural na frente do singular e não queira deixar simplesmente ao sabor de uns poucos especuladores multimilionários o destino dos componentes da sociedade como um todo.

Essas considerações vêm a propósito dos debates que estão sendo sugeridos a respeito do que seria, de fato, em uma sociedade democrática, a defesa dos direitos do cidadão e, dentro disso, do maior deles: a liberdade. É um debate importantíssimo, e dele não devemos fugir.

Em primeiro lugar, penso que não se deve confundir liberdade com egocentrismo. É muito antiga e sábia a afirmação de que a liberdade de um indivíduo esbarra nos prejuízos que pode causar ao semelhante, no plano pessoal ou social. Ultimamente, a grande mídia tem repercutido seminários e alugado colunas para bater na tecla de liberdades que estariam sendo arranhadas, ameaçadas ou suprimidas em nosso país, por força da ação do Estado. Será?”
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15 Abril, 2011

Mate-se a vaca


Menalton Braff, Revista Bula

“Meus quatro ou cinco leitores, quase sempre leitores contingentes, fortuitos e aleatórios, já sabem que no me gusta mucho hablar de política. É minha maneira de respeitar a opinião alheia. Nestas questões de paixão ou de fé, como religião, futebol e política, é difícil que alguém se convença de que a opinião dos outros pode ser melhor do que a sua. Prefiro, por isso, ficar calado. Mas não entenda que não tenho opiniões a respeito de religião, de política, e não tenha o meu time do coração.

Bem, o assunto é o modo como algumas nações, na atualidade, agem para impor seus próprios pontos de vista, como se fossem os donos da verdade. Falta-lhes qualquer senso autocrítico. Resumindo, são povos que não conseguem ver o próprio nariz, mesmo diante dos melhores espelhos.

E a vaca?”
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14 Abril, 2011

Encontro com Kurt Cobain

André Forastieri, Digestivo Cultural

“Olhos mortos, dentes limosos, cabelo imundo, pele macilenta. Sovaco fedido e hálito pestilento. Kurt Cobain cheirava mal e parecia pior ― um tampinha insignificante e desagradável. Ei ― eu estava lá e é assim que eu lembro. Como aqueles correspondentes de guerra, Christiane Amanpour: “Testemunha Ocular da História”. Estou falando que Kurt Cobain era um merdinha e era.

Vocês jovens de hoje não sabem o que foi aquele período de trevas. O início dos anos 90 está para a semana passada como a peste negra para Botticcelli. Não existia internet nem TV paga nem MTV nem iPod. Para saber de música você lia jornal ou revista. Fazia o que eu fiz no dia em que completei 17 anos: pegar um ônibus em Piracicaba e ir até Campinas para comprar meu primeiro disco importado, The Name of This Band Is Talking Heads.

Essa era a minha vida e a de Kurt Cobain em 1993. Somos da mesma geração, eu mais velho dois anos, e igualmente caipiras ― perto de Olympia, Washington, Piracicaba é Paris. Sonhávamos igualmente em cair fora e ser alguém.

É o sonho do adolescente fã e quem não foi fã não entende. Colegas brucutus e meninas bestas nos tacham de malucos, nerds, otakus, esquisitos, sonhadores, obsessivos ― e somos, claro, e isso é bom, é fundamental e é a chave da vida.

Fanático por gibi, eu fantasiava em desenhar X-men para a Marvel. Louco por rock, eu sonhava em ser... jornalista. E consegui. Aos 27 anos todos os meus sonhos de rockstar já tinham se materializado. Eu era editor da única revista de música do Brasil que importava, a Bizz, cara, o único veículo nacional de rock, e isso era muito melhor que ser um pobre de um músico.”
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13 Abril, 2011

Deixem-me dormir

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Cientistas descobriram essa semana um determinado elemento no DNA de algumas pessoas que faz com que durmam pouco e mesmo assim sejam mais magras, bem-humoradas , otimistas e cheias de energia. Que maravilha, não? Mas acho que não faço parte desse grupo, pois durmo pouco, mas não por causa do DNA, e sim pelo que acontece pelo mundo que volta e meia me tira o sono.

Mas não quero comentar nada disso pois preciso fazer parte do grupo dos que não dormem, verdadeiros “zumbis”dos novos tempos, mais alegres e saudáveis, por isso não vou falar da mãe que em Nova Iorque, por causa de uma disputa com o ex-marido pela guarda dos filhos, colocou as quatro crianças dentro do carro e dirigiu-se às margens do Rio Hudson.

Lá, ela liberou o mais velho de dez anos, e jogou-se no rio com os tres filhos menores de cinco, tres e onze meses de idade.O menino ainda procurou ajuda da polícia, mas quando os policiais chegaram já era tarde, todos já tinham morrido afogados dentro do carro e o filho sobrevivente foi levado para um orfanato.

Nem vou relembrar também o terremoto e tsunami do Japão onde 30 mil pessoas morreram ou estão desaparecidas e a cada dia aumenta o perigo de um desastre nuclear por causa dos danos causados ao principal reator do país. Quero dormir! Prefiro pegar no sono do que ser uma inveterada otimista acordada e pensar nas famílias órfãs de seus filhos mortos na matança da escola de Realengo.

E imaginar que essa monstruosidade toda que tirou a vida de 12 inocentes e feriu mais 12, poderia ter sido evitada se houvesse um maior controle da venda de armas no Brasil. O assassino comprou-as de dois outros bandidos, tremendos caras de pau, que disseram estar arrependidos e que não as teriam vendido se soubessem para o que era. Ora! Para boa coisa é que não seria, não é mesmo? Faça-me rir e dormir...para esquecer tantos acontecimentos ruins e sem explicação.”
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12 Abril, 2011

O escritor que fez a cabeça de Kafka


Euler de França Belém, Revista Bula

“O corrosivo escritor austríaco Thomas Bernhard certamente “preferia” ser herdeiro de filósofos como Schopenhauer e, quem sabe, Nietzsche. Embora sua prosa seja esmagadora, sem concessões, é possível que um de seus pais — inconfesso — seja o suíço Robert Walser. A ironia indireta do romance “Jakob von Gunten — Um Diário” (Relógio D’Água, 161 páginas, tradução de Isabel Castro Silva) é mais, digamos, “sutil” do que os petardos virulentos de Bernhard. Mesmo assim, há certo parentesco, sobretudo na distância que ambos guardam da vida e do pensamento tradicionais. A diferença é que um é indireto e o outro é direto. Walser morreu, “louco” (há quem duvide disto, incluindo o próprio autor, que, perguntado porque não continuava escrevendo no hospício, redarguiu: ‘Eu estou aqui para ser louco, não para escrever”), aos 78 anos, em 1956. Ele era o autor preferido do tcheco Franz Kafka, que, como o suíço e o búlgaro Elias Canetti, escrevia em alemão.

No Brasil, Walser é pouco conhecido e, como somos surrealistas, a fortuna crítica chegou primeiro, com textos de Walter Benjamin, Zé Pedro Antunes, Marcelo Backes, J. M. Coetzee e Elias Canetti. Em 2003, o romance “O Ajudante” saiu pela Editora Arx, com tradução e apresentação de Zé Pedro Antunes. Portugal saiu na frente e publicou outros livros de Walser, como “Jacob von Gunten”, de 1909, seu principal romance. A obra sai agora no Brasil, sob chancela da Companhia das Letras (152 páginas), com tradução de Sergio Tellaroli.

O ensaio “Robert Walser” (inserto no livro “Magia e Técnica, Arte e Política”, Brasiliense, 253 páginas, tradução de Sergio Paulo Rouanet), escrito em 1929, de Walter Benjamin, tem apenas quatro páginas, mas certamente é o ponto de partida das críticas posteriores. “Walser nos confronta com uma selva linguística aparentemente desprovida de toda intenção e, no entanto, atraente e até fascinante, uma obra displicente que contém todas as formas, da graciosa à amarga”, escreveu Benjamin. Ao examinar a informação de Walser de que não revisava seus textos, o filósofo alemão assinala: “... escrever e jamais corrigir o que foi escrito constitui a mais completa interpretação de uma extrema ausência de intenção e de uma intencionalidade superior. (...) Para Walser, o ‘como’ do trabalho é tão importante, que para ele tudo o que tem a dizer recua totalmente diante da significação da escrita em si mesma. Podemos dizer que o conteúdo desaparece no ato de escrever. (...) Encontramos nesse autor algo de eminentemente suíço: o pudor. (...) A característica de Walser (...) é justamente esse pudor linguístico, tipicamente camponês. Assim que começa a escrever, sente-se desesperado”.
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11 Abril, 2011

Criança, entre livros e TV


Frei Betto, Adital

“Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, que me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a este órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz o nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e inconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos seis anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase entre zero e 6 anos é chamada de "idade do gênio”. Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foram aprendidos até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intrauterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.”
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10 Abril, 2011

A doença de todos nós

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Não queria escrever sobre isso. Pelo menos não o queria fazer agora, quando minhas palavras correm o risco de se confundir com o macabro e oportunista show midiático que, à exaustão, inundou os olhos e ouvidos dos brasileiros e massacrou os nossos corações,em uma quinta-feira que marcará para sempre um dos episódios mais tristes da história recente do país.

Mas sou professor, vivo nas salas de aula desde os anos 60, sou pai e avô, julgo-me um cidadão consciente, e penso que, em qualquer dessas condições, o massacre de Realengo me diz respeito diretamente.

Muitos adjetivos foram aplicados ao jovem que, premeditadamente, a sangue frio, protagonizou o massacre, baleando com requintes de perversidade crianças inocentes e indefesas e, no final, dando fim à própria vida. Autoridades referiram-se a ele como “animal” – o Presidente do Senado caracterizou o ato como “terrorista” - e, a julgar pelas reações populares, é esse o sentimento geral a respeito da figura do assassino.

Pessoalmente, a despeito da repugnância que me move, não quero adjetivá-lo, nem poderia fazê-lo , sob pena de estar levianamente falando sobre o que desconheço. Muito difícil entender logicamente e aplicar um vocabulário lógico a um comportamento que escapa à razão e cujos fundamentos estão lá no abismo ainda pouco conhecido da mente mal formada, ou, quem sabe, deformada por outras mentes. Sinto-me, sim , profundamente desconcertado, entristecido e enlutado, ao perceber como a morte estúpida de tantas crianças, abortando-lhes o futuro, deixa exposta a nossa impotência.

Em todas as manifestações oficiais, menciona-se o repúdio à violência e eu fico aqui pensando na obviedade vazia dessas palavras de indignação. Eu fico aqui pensando que tipo de violência devemos repudiar como causadora de uma tragédia como essa. Será a que se manifestou em um tiroteio cruel promovido por uma pessoa vulnerável, ou aquela muito mais ampla que tem a ver com uma sociedade planetariamente adoentada?”
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08 Abril, 2011

O suplício da pele


Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“Em uma passagem do livro A hora da estrela, de Clarice Lispector, Macabéa enamora-se de uma propaganda de "creme para pele de mulheres que simplesmente não eram ela". Sente desejo de comê-lo às colheradas, diretamente do pote. Faltava-lhe gordura ao organismo, dá como explicação a narradora. Seria este creme, tal qual licor espesso, que poderia lhe restituir um pouco da vida que não tivera? A partir de qual momento necessitamos dele?

Não me parece estranho a personagem, tão carente de vida, necessitar não só do creme, de suas propriedades benéficas e nutritivas, como de sua ideia em geral: consistência, espessura, gordura. E até mesmo, senão principalmente, seu sentido figurado de principal, nata, escol. A palavra até enche a boca do poeta quando ele fala do café, Café Creme. A conhecida cereja no topo do bolo ou o crème de la crème. Brilhante metáfora e ironia clariciana.

Outro dia me perguntei: em qual ponto da vida meu organismo sentiu necessidade de engomar-se, besuntar-se em uma camada de óleo e olor; se até então tinha aversão à viscosidade que o creme imprimia à pele? Por que será que os cremes se tornaram tantos e necessários que nos exigem dinheiro e dedicação? Vamos nos resumir a observar a questão pelas bordas.

A história começa com um pote de vidro com creme de amêndoas. Avermelhado, parecia até mesmo de comer. Mas o cheiro era enjoativo, extremamente adocicado, aquele cheiro de fêmea lisongeira, que chega a dar dor de barriga. Não teria sido de propóstio que a filha deixou o pote escapar das mãos? O vidro do pote, trincado, a gordura estatelada já não teria mais uso.

Vamos voltar para um pouco mais próximos do presente. Também está aí o creme como lembrança da sensualidade. O creme é necessário, sacramental, se o que se trata é a conquista da languidez. A mão que acaria o próprio corpo, o emoliente e flácido contato entre peles, há algo de uma lascívia implícita aí. O rosto rebrilha ao longe e ao se aproximar para um beijo, sente-se o cheiro forte, encorpado.”
Foto: Magaly Bátory
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07 Abril, 2011

Publicidade infantil e os limites da liberdade de expressão comercial

Uma criança deve ser vista como consumidora?

Reinaldo Canto, CartaCapital / Envolverde

Pais e mães sabem que criar filhos é um desafio e tanto. Ainda mais no final da primeira década do Século 21, existem alguns detalhes específicos cujos pais de antigamente, com certeza, não se defrontaram. Claro que os mais velhos vão dizer que esses desafios simplesmente se modificam e não podem ser feitas afirmações de que tal época foi mais difícil ou mais fácil do que outra.

Posso até concordar que a intensidade vai de cada endereço e de cada calo que se sentirá apertado, mas quando se refere aos apelos do consumo, plagiando o nosso ex-presidente Lula, “nunca antes neste país”, eles foram tão grandes.

Pense numa criança pequena sendo bombardeada por produtos na televisão, no DVD, no computador, no cinema, no supermercado, na casa do vizinho, na escola e sacrilégio maior, até na farmácia da esquina. Todos eles expondo de maneira até desavergonhada, os personagens que apenas deveriam entreter e melhor ainda educar nossas crianças. Mas não, eles vendem de tudo! Desde salgadinhos pouco nutritivos, fast foods, pastas de dentes e um sem número de bugigangas e quinquilharias de qualidade bastante duvidosa.

Trabalho árduo

Entidades de defesa da criança e do adolescente como o Instituto Alana já promoveram discussões e pesquisas sobre a urgente necessidade de se reduzir a exposição de crianças à publicidade.
Trabalhos divulgados pelo Instituto, entre eles os livros O que Fazer para Proteger Nossas crianças do Consumismo e Por que a Publicidade faz Mal para as Crianças, buscam orientar pais, familiares, educadores e interessados no tema, sobre o problema do consumismo infantil. Veja www.criancaeconsumo.org.br

Segundo a Alana, “algumas empresas ainda não atentaram para o fato de que responsabilidade social envolve respeito à infância e continuam trabalhando na velha lógica do lucro”.
Foto: folhapress
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06 Abril, 2011

O dia que durou 21 anos

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“Se todas as razões exaustivamente expostas ainda não fossem suficientes para justificar uma emissora pública de televisão no país, a exibição da série “O dia que durou 21 anos”, na TV Brasil, já seria suficiente para explicar a necessidade de sua existência. Sim, porque só uma emissora pública coproduziria e abriria espaço para um documentário que expõe toda a participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964, com base em documentação do arquivo norte-americano, que permaneceu secreta por 46 anos.

Seria inimaginável uma emissora comercial destinar três dias da sua programação para o documentário realizado pelo jornalista Flavio Tavares e seu filho Camilo. A TV Brasil já brindara seu público ano passado com a série “Era das Utopias”, de Silvio Tendler, fruto de 20 anos de pesquisa do documentarista brasileiro, exibida durante toda uma semana útil.

Compromissos com patrocinadores e foco exclusivo na audiência levam as emissoras comerciais a apostarem em programas fáceis e de apelo barato, desprezando produções históricas e mais profundas, como documentários. A TV Brasil vem cumprindo seu papel nesse campo e colaborando para o conhecimento e reflexão sobre a nossa história, condição essencial para a formação de verdadeiros cidadãos.
“O dia que durou 21 anos” enterra qualquer inocência sobre a origem e execução do golpe militar de 64 apenas como fruto do anseio dos militares e de parcela da população civil brasileira. A ação começa a ser orquestrada dois anos antes, quando o presidente John Kennedy toma as primeiras medidas, impressionado com os relatos alarmantes do embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, que via o país como uma segunda Cuba.

É Gordon quem sugere que Jango seja levado à base militar de Nebraska, na visita do presidente brasileiro aos EUA, em abril de 1962. Jango conhece de perto a sala de comando capaz de destruir o planeta sem entender o porque de toda aquela exibição. Jango não tinha nenhum problema particular com os Estados Unidos e as reformas que propunha são as mesmas que (infelizmente) continuam ocupando a agenda brasileira sem que fantasmas comunistas sejam vistos.”
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05 Abril, 2011

iPad bate o papel em "Capitolio"

O livro de fotografia do canadense Christopher Anderson é o primeiro lançado para tablets -- a versão digital custa US$ 5 e a física, US$ 75

Carla Romero, Brasil 247

O canadense Christopher Anderson, reconhecido como um dos maiores expoentes da fotografia atual e membro da mítica agência Magnum, lança "Capitolio" (editora RM), o primeiro livro de fotografia criado especialmente para o iPad. A obra retrata a Venezuela no estilo do fotodocumentarismo autoral praticado por Anderson. O fotógrafo quebra a exigência de imparcialidade e objetividade imposta aos documentaristas e se mistura com suas fotografias, imprimindo um olhar bem pessoal às imagens. O trabalho tem inspiração clara no clássico "Americans", do fotógrafo Robert Frank, que nos anos 1950 apresentou o povo americano e os Estados Unidos com uma visão muito particular e inédita para a época. O livro de Anderson não tem a obrigação de nos apresentar à Venezuela. Ele fala sobre o país, mas também conta o que o país representa para ele. Violência, caos e sensualidade dão ritmo à obra, que é cheia de metáforas.

As imagens são escuras. O preto predomina e dá certa tensão às fotografias. Mas a principal característica das imagens é o movimento. As fotos parecem frames de um filme para o cinema. Segundo o fotógrafo, o projeto foi quase todo concebido com o olhar em movimento. Anderson chama o conjunto de fotografias de curta-metragem. Para mergulhar na proposta cinematográfica de Anderson, o iPad leva uma grande vantagem em relação ao livro impresso - na versão digital, as imagens aparecem coladas umas às outras sem espaços em branco e a agilidade na passagem das páginas, graças à tecnologia do touchscreen, confere velocidade à leitura que, de fato, aproxima a experiência do cinema. No geral, a opinião entre os amantes da fotografia é que o livro é o melhor suporte para abrigar uma imagem, é o lugar onde ela fala mais alto, mas parece que a foto encontrou no espaço digital um suporte onde ela pode falar ainda mais alto. As vantagens não param por aí: a versão para o iPad, que traz entrevistas em vídeo com o autor como extras, custa US$ 5. A obra no papel sai por U$ 75.”
Foto: Chistopher Anderson

04 Abril, 2011

Correspondência Walter Benjamin e Gershom Scholem


Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

“Um contraponto à ascensão de Hitler, na recente biografia de Kershaw, é a Correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem, lançada pela editora Perspectiva, em 1993. Benjamin, já considerado um dos maiores escritores da língua alemã em sua época, vaga sem destino, pela Europa, naturalmente perseguido em sua condição de judeu. As cartas têm início em 1933 e se encerram em 1940, com o suicídio de Benjamin (que suportara, até então, estoicamente). Ainda que flerte com a possibilidade de tirar a própria vida desde a primeira missiva, é com sua saída da Alemanha que começam seus tormentos. Nota, já em 1933: “[a] simultaneidade quase matemática com que me devolveram manuscritos em todos os lugares possíveis, foram interrompidas todas as negociações em curso ou prestes a chegar a uma conclusão, e as minhas interpelações não obtiveram sequer resposta”. Nem Max Brod, o homem que legara ao mundo a obra de Kafka, poderia ajudá-lo. Quase sem publicar seus escritos em periódicos ou sequer editá-los em livro, Benjamin reconhece já em 1934: “O mais elementar da existência tornou-se tão precário que não toco no assunto [dinheiro] sem necessidade; quanto àquilo que não é tão notório, sem por isso deixar de ser precário, a minha produção lhe dá uma ideia de vez em quando”. Lembraria, com nostalgia, “[os] tempos em que comprar um livro era a coisa mais natural do mundo para mim”. E, mesmo com a existência em frangalhos, seguiria produzindo: “Fico admirado de encontrar forças, que não sei de onde vêm, para iniciar outro [trabalho]”.
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03 Abril, 2011

Assassinos uniformizados

Eliakim Araujo, Direto da Redação

"Na manhã de 15 de janeiro do ano passado, os militares do 3 º Pelotão da  Quinta Brigada, baseada em Seattle, Estado de Washington ,  deixaram Kandahar em direção ao interior,  e chegaram a Mohammad Kalay, um vilarejo agrícola isolado, escondido atrás de alguns campos de papoula. Como a área era muito pobre, e o terreno não passava de um amontoado de lama e palha, os soldados desceram dos caminhões e seguiram a pé, espalhando-se pelas vielas da localidade.

Mas em vez de combatentes armados ou evidências de posições inimigas, os soldados foram recebidos de maneira familiar por agricultores afegãos barbados e com os dentes destruidos e crianças maltrapilhas ávidas por balas e dinheiro, numa localidade onde não havia eletricidade e água corrente".

Em tradução livre,  é assim que começa a reportagem da revista norte-americana Rolling Stone desta semana, cujo título é “Esquadrão da Morte” e o subtítulo  “Como soldados dos EUA no Afeganistão mataram civis inocentes e mutilaram seus corpos – e como seus oficiais não conseguiram detê-los. E mais: as fotos exclusivas dos crimes de guerra censuradas pelo Pentágono”.

Segue a reportagem:

"Enquanto os militares conversavam com um ancião da aldeia, dois soldados do Terceiro Pelotão se afastaram até o fim da aldeia. Lá, em campo próximo da plantação de papoula, eles começaram a procurar alguém para matar. Eles achavam que ninguém iria testemunhar.

Foi então que o cabo Jeremy Morlock e o soldado Andrew Holmes viram um jovem agricultor, trabalhando sozinho. E o escolheram para a execução. Era um garoto imberbe, cerca de 15 anos de idade, pouco mais jovem do que Morlock, de 21, e Holmes, de 19. Ele não tinha nada nas mãos que se parecesse a uma arma, nem mesmo  uma pá.  "Ele não era uma ameaça", Morlock confessou mais tarde.

Eles o chamaram. E Mudin, o  nome do garoto, caminhou inocentemente em direção a eles. A certa altura, eles pediram que ele parasse. O jovem obedeceu. Neste momento, os dois se esconderam atrás de um muro e Morlock atirou uma Granada em direção a Mudin.  Depois da explosão os dois caminharam até o corpo do garoto e fizeram vários disparos com metralhadora e fuzil M-4".

O caso do garoto Mudin (foto), que teve o dedo mindinho decepado por um deles que o guardou como um troféu, por ter matado o primeiro afegão, é apenas uma das atrocidades cometidas por soldados norte- americanos no Afeganistão e relatadas pela Rolling Stone.”
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01 Abril, 2011

Das diferenças


Menalton Braff, Revista Bula

“De meu falecido pai aprendi algumas lições. Hoje penso que nem todas foram muito importantes, pois nós tínhamos nossas diferenças que deveremos carregar para o reino de Hades. Uma delas, contudo, a do respeito pelas diferenças, veio-me dele. Apesar de que, na prática, muitas vezes, ele tenha deixado de aceitar opiniões minhas diferentes das opiniões dele. Só bem mais tarde aprendi que discurso pode ser intenção, e que intenção pode não corresponder ao ato.

Tempos atrás um jovem repórter me pediu uma entrevista, e tenho por norma jamais me recusar, mesmo sob condições adversas. Tenho consciência do que representa a mídia para mim e aprendi a respeitá-la.

Como fecho da entrevista, o jovem me pediu a indicação de algum livro, com algumas palavras sobre ele. Se desde muito cedo vivo entre livros, e os manipulo diariamente, não foi difícil escolher um, cuja leitura me parece fundamental para uma pessoa culta. Mas o repórter não estava satisfeito. Acabou pedindo a indicação de um DVD. Arregalei os olhos, e ele, gentilmente, explicou: algum show que o senhor recomende. Quando percebeu minha atrapalhação, olhou-me com sorriso sardônico: — Mas nenhum? O senhor, então, não gosta de música?

O jovem fez-me sentir um paquiderme, um ser fora de seu planeta. Não tive como responder na fogueira do tempo, mas agora tento explicar-me.

Meu caro jovem, se você está lendo esta crônica, e se você, por qualquer acaso gosta de ler, eu amo a música, que estudei até certa altura da adolescência. Eduquei meu ouvido para sutilezas de timbre, combinações, variedades rítmicas. Tenho necessidade de música, que costumo curtir muitas vezes de olhos fechados, para não perder nada. De show não, de show não entendo. Mas me parece que não é música o que se busca em um evento desses, senão a comunhão com os da tribo, numa espécie de rito que não me diz nada.

Nem melhor, nem pior, apenas diferente.”
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