31 Agosto, 2010

Humorismo brasileiro é uma piada

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Rir. Rir pra não chorar. Numa era em que a violência, o estresse e a corrida tresloucada contra o tempo transformam a vida urbana num inferno, por que não sucumbir à tentação e escancarar um sorriso?

Sorrir. Dar trégua ao coração e à bile. É possível que o riso seja bem melhor que sessões de psicoterapia. Afinal, conhecer a si mesmo, enxergar os defeitos não têm graça nenhuma. Vou me ater somente ao humorismo televisivo. Quanto ao teatro, num país com dimensões continentais como o Brasil, certamente há bons atores encenando textos de humor refinado, ao ponto de extasiar a plateia provocando cólicas no baço e urgência urinária.

Porém, o que me parece evidente é que existe uma onda, uma epidemia de “stand up comedy” (tradução plausível: comédia caça-níquel?!) pipocando em território nacional. Apostando no improviso, jovens atores lotam auditórios com platéias também muito jovens, o que não deixa de ser um mérito, desde que o conteúdo tenha suporte. Bem, na pior das hipóteses, ensina-se à juventude o endereço do teatro. Quanto ao humor na internet, assumidamente, sou ignorante. Não acho tempo nem pra manter atualizado o meu correio eletrônico... É surpreendente como milhares de internautas dedicam-se a vasculhar “orkuts e twiters”. Seguir e ser seguido nas trilhas virtuais... Quem sabe, ao abdicar dos livros impressos, do contato com as pessoas e do sexo (uma das mais interessantes diversões que a vida animal pode proporcionar), sobra tempo suficiente para se embrenhar na rede. Já pensaram se toda esta gente comprasse e lesse livros?! Seria a salvação da lavoura para os escritores brasileiros... Utopia. Há que se baratear bastante os preços para permitir o consumo.

Humorismo de rádio, eu nem sei se existe mais. De soslaio, aqui na minha região, verifico que há várias equipes de radialistas (ou seriam oportunistas?) conversando livremente aos microfones, falando tudo o que vem à cachola. Ao menos para as trupes que fazem tais programas, as conversas improvisadas parecem mesmo muito hilárias, pois a algazarra das próprias gargalhadas torna a compreensão do áudio um desafio. Rir de si próprio — como diria o poeta — é puro desespero?!”
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30 Agosto, 2010

Revendo Dogville

É bom avisar: isto não é crítica de cinema, antes uma exposição de motivos pelos quais alguma coisa neste filme me tocou fundamente”

Márcia Denser, Congresso em Foco

Zapeando na tevê a cabo domingo à noite, revi Dogville, produção de 2003 dirigida por Lars von Trier, em reprise no Telecine Cult. Antes do filme, o crítico Marcelo Janot lembrou que o diretor fez parte do Dogma 95, movimento do cinema europeu que postulava o retorno ao “filme puro”, com pouca ou quase nenhuma produção, cinema que se sustentaria pela força do texto e da dramaturgia, Embora aqui se possa argumentar que sustentado por texto e dramaturgia, ele não se sustentaria como cinema, a proposta vale, porque surgiu precisamente como reação ao excesso de produção - efeitos especiais, explosões e zero de substância – que saturou a filmografia recente, sobretudo norte-americana.

Um filme sem cenários, apenas marcações a giz no chão e três horas de duração, mesmo com atores excepcionais, precisa ter uma história realmente muito boa para segurar o espectador, no caso, uma espectadora como eu, devoradora massiva e entediada de ficção; só uma tremenda história – mais que uma história, uma história com uma essência emblemática – aliada a uma narrativa magistral (ambas não são a mesma coisa: história é o plot, o enredo, narrativa é a forma como é contada, como se desenrola no tempo e espaço). No entanto, a não ser por um final que absolutamente não cola, uma descarada concessão ao esquema comercial da indústria, Dogville tem os dois.

Mas é bom avisar: isto não é crítica de cinema, antes uma exposição de motivos pelos quais alguma coisa neste filme me tocou fundamente. Porque a coisa começa sempre com uma emoção – funda, intermitente – mas ainda indizível (escritor nunca sabe o que quer dizer, escreve justamente para ficar sabendo), por isso é preciso escrever caçadoramente, perseguir o indizível, obrigá-lo a dar o serviço.

Então, é preciso começar a contar pelo mais difícil, mais chato, pelo servicinho do capeta que é recontar por escrito algo que se contou em imagens. A história acontece durante a Depressão, anos 30. Dogville é dessas cidadezinhas natimortas na periferia do mapa dos Estados Unidos com apenas quinze habitantes. Paul Bettany, filho do médico, é um jovem aspirante a escritor e filósofo, que tem por hábito reunir os vizinhos na igreja local propondo questões para a coletividade, tipo, por que Dogville tem problemas em receber presentes?”
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29 Agosto, 2010

Terrorismo: No final da ditadura, bombas contra a democracia

Há trinta anos um atentado terrorista matou a secretária da OAB, Lyda Monteiro; aquela ação fez parte da resistência da direita contra os avanços da democracia e constitui um capítulo ainda não esclarecido da repressão da ditadura de 1964

José Carlos Ruy, Vermelho.org

Na tarde do dia 27 de agosto de 1980 uma explosão na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, no Rio de Janeiro, matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, que tinha 60 anos de idade.

Era uma carta bomba detonada pela própria vítima ao abrir o pacote enviado pelo Correio. No mesmo dia ocorreram outros atentados: uma carta semelhante feriu gravemente, na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, José Ribamar de Freitas, assessor do vereador carioca Antônio Carlos de Carvalho (PMDB), que perdeu um braço e um olho em consequência da explosão. Outras cinco pessoas foram feridas. Antes, na madrugada daquele dia, outra bomba havia destruído a redação carioca do jornal Tribuna da Luta Operária, publicado pelo Partido Comunista do Brasil, que se encontrava em uma situação de semiclandestinidade. Duas outras bombas não chegaram a explodir: uma enviada para a sede da Associação Brasileira de Imprensa e outra, de alto poder explosivo (tinha capacidade para destruir um prédio de quatro andares), em um edifício da Sunab, no Rio de Janeiro.

A ditadura militar estava em crise terminal. A aprovação da anistia, exatamente um ano antes (em agosto de 1979), permitiu uma atividade dos partidos e lideranças democráticos e de esquerda que, embora limitada pela perseguição policial da ditadura que ainda não chegara ao fim, intensificava a luta pela democracia e pelo fim do arbítrio. Era uma situação ambígua onde, graças à anistia "recíproca" adotada pelos dirigentes da ditadura, os agentes do aparato repressivo continuavam ativos contra o avanço da luta democrática.

Um levantamento publicado em setembro de 1980 pelo jornal Movimento ilustra como o aparato repressivo no período do crescimento da luta de massas contra a ditadura mudou a forma de agir. Com menor espaço para atuar sem controle, como ocorria no auge da repressão, partiu para ações armadas contra pessoas e organizações que, nos anos anteriores, eram alvo de prisões, torturas e assassinatos nos porões da ditadura.”
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Fronteira sangrenta

Mauro Santayana, JB Online

“O massacre de San Fernando, junto à fronteira dos Estados Unidos, é mais um movimento da guerra que os traficantes de drogas e de pessoas movem contra o Estado, no México. Os historiadores conseguem ver melhor os fatos atuais, porque encontram, na perversidade das circunstâncias, a origem do duradouro sofrimento do grande povo.

Apesar de sua proximidade com o país que simboliza o cimo da civilização moderna, ou por isso mesmo, o México constitui, com sua cultura, o contraponto à conquista europeia. Mais do que em outros países da América Latina, os mestiços conseguiram alçar-se ao poder político e econômico, desde a independência. Já no século 19, os descendentes dos astecas e de outras etnias nativas da América assumiam papel relevante na política mexicana. Grandes homens públicos – não obstante sua formação de fundo universal – mantiveram, geração após geração, a consciência de seus próprios valores, de sua própria forma de ver o mundo. No México, a presença de sangue indígena constitui razão de orgulho. A dupla alma mexicana – a autóctone, com suas profundas raízes na pré-história do continente, e a ibérica – mantém, com os Estados Unidos, relação difícil. A geografia os condenou à vizinhança, mas não se pode afirmar que sejam povos amigos. Os Estados Unidos roubaram-lhe a maior parte do território, em uma guerra injusta e desigual e, no fundo de cada mexicano que conhece a história, permanece a mágoa e o sonho de retomar o vasto espaço usurpado.

O novo e complicado fator de conflito é o consumo de drogas, essa peste moderna, que ameaça a coesão das sociedades políticas. Como a dialética não é mero jogo da razão, mas a sua essência, a popularização do uso dos narcóticos se deve aos Estados Unidos, nação criada em raro instante de grande inteligência política, e com suas sementes na seita dos convenants do puritanismo britânico.”
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27 Agosto, 2010

O império da ficção

Mauro Santayana, JB Online

“Fingir é mais do que fingir: é criar realidades novas. Fingere, do latim fingo, vem de uma voz indoeuropeia que significava esculpir o barro com os dedos. Os vasos de barro foram a primeira associação entre a técnica utilitária e o sentimento de arte. Os primitivos ceramistas, como os barristas atuais, imprimiam às peças, destinadas a recolher a água e as sementes, sua marca, nas formas e dimensões; e elas eram também os primeiros adornos. Essa preocupação está presente em todos os escultores da história, e não se afasta dos oleiros mais modestos de nossos dias. Os tijolos gregos angulares, destinados a orientar o esquadro das paredes, quase sempre trazem os nomes dos fabricantes, como se pode aferir nas ruínas do Peloponeso e da Magna Grécia. Toda a experiência posterior do homem se amarra a essa intervenção na natureza, a fim de torná-la servidora do conforto, ainda que rudimentar, de fazê-la mais bela, e torná-la, na posteridade, testemunha de seu próprio viver.

Fernando Pessoa talvez quisesse restringir aos poetas a capacidade de fingir, com seu poema conhecido, e, ao mesmo tempo, de identificar, no fingimento, a autenticidade. Mas não é só o poeta que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Todos nós somos fingidores, e prisioneiros da grande ficção da vida. E se somos todos assim, os políticos não são diferentes.

Os projetos políticos são ficcionais. Em alguns casos, ao imaginá-los, os grandes líderes os realizam. Em outros, a argila é frágil, os vasos se esfazem antes de secar-se, ou, quando secos, esfarinham-se na queima. Na atual campanha presidencial, como em todas as outras, os candidatos, sem exceção, modelam seus projetos, mas sem o engenho e a arte do passado.”
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26 Agosto, 2010

Para salvar a vida: as mulheres no poder

Leonardo Boff, Adital

“Há uma feliz singularidade na atual disputa presidencial no Brasil: a presença de duas mulheres, Marina Silva e Dilma Rousseff. Elas são diferentes, cada qual com seu estilo próprio, mas ambas com indiscutível densidade ética e com uma compreensão da política como virtude a serviço do bem comum e não como técnica de conquista e uso do poder, geralmente, em benefício da própria vaidade ou de interesses elitistas que ainda predominam na democracia que herdamos.

Elas emergem num momento especial da história do país, da humanidade e do planeta Terra. Se pensarmos radicalmente e chegarmos à conclusão como chegaram notáveis cosmólogos e biólogos de que o sujeito principal das ações não somos nós mesmos, num antropocentrismo superficial, mas é a própria Terra, entendida como superorganismo vivo, carregado de propósito, Gaia e Grande Mãe, então diríamos que é a própria Terra que através destas duas mulheres nos está falando, conclamando e advertindo. Elas são a própria Terra que clama, a Terra que sente e que busca um novo equilíbrio.

Esse novo equilíbrio deverá passar pelas mulheres predominantemente e não pelos homens. Estes, depois de séculos de arrogância, estão mais interessados em garantir seus negócios do que salvar a vida e proteger o planeta. Os encontros internacionais mostram-nos despreparados para lidar com temas ligados à vida e à preservação da Casa Comum. Nesse momento crucial de graves riscos, são invocados aqueles sujeitos históricos que estão, pela própria natureza, melhor apetrechados a assumirem missões e ações ligadas à preservação e ao cuidado da vida. São as mulheres e seus aliados: aqueles homens que tiverem integrado em si as virtudes do feminino. A evolução as fez profundamente ligadas aos processos geradores e cuidadores da vida. Elas são as pastoras da vida e os anjos da guarda dos valores derivados da dimensão da anima (do feminino na mulher e no homem) que são o cuidado, a reverência, a capacidade de captar, nos mínimos sinais, mensagens e sentidos, sensíveis aos valores espirituais como a doação, o amor incondicional, a renúncia em favor do outro e a abertura ao Sagrado.”
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25 Agosto, 2010

O velho agoniza e o novo custa a nascer

Leonardo Boff, Adital

“Entre os muitos problemas atuais, três comparecem como os mais desafiadores: a grave crise social mundial, as mudanças climáticas e a insustentabilidade do sistema-Terra.

A crise social mundial deriva diretamente do modo de produção que ainda impera em todo o mundo, o capitalista. Sua dinâmica leva a uma exacerbada acumulação de riqueza em poucas mãos à custa de uma espantosa pilhagem da natureza e do empobrecimento das grandes maiorias dos povos. Ela é crescente e os gritos caninos dos famélicos e considerados "óleo queimado" não podem mais ser silenciados.

Este sistema deve ser denunciado como inumano, cruel, sem piedade e hostil à vida. Ele tem uma tendência suicida e se não for superado historicamente, poderá levar o sistema-vida a um grande impasse e até ao extermínio da espécie humana.

O segundo grave problema é constituído pelas mudanças climáticas que se revelam por eventos extremos: grandes frios de um lado e prolongadas estiagens de outro. Estas mudanças sinalizam um dado irreversível: a Terra perdeu seu equilíbrio e está buscando um ponto de estabilidade que se alcançará subindo sua temperatura. Até dois graus Celsius de aumento, o sistema-Terra é ainda administrável. Se não fizermos o suficiente e o clima atingir até 4 graus Celsius (conforme advertem sérios centros de pesquisa), então a vida assim como a conhecemos não será mais possível. Haverá uma paisagem sinistra: uma Terra devastada e coberta de cadáveres.

Nunca a humanidade, como um todo, se confrontou com semelhante alternativa: ou mudar radicalmente ou aceitar a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida. A Terra continuará, entregue às bactérias, mas sem nós.”
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24 Agosto, 2010

Leitura e Aprendizado

Frei Betto, Adital

“No Brasil se lê, em média, 1,3 livro por ano. Nos EUA, 11; na França, 7; e na Argentina, 3,2. E há em nosso país 2.980 livrarias, uma para cada 64 mil habitantes. A Unesco considera razoável uma livraria para cada 10 mil habitantes.

O Ministério da Cultura garante que até o fim do governo Lula serão inauguradas bibliotecas públicas em 2 mil municípios. Tenho minhas dúvidas. O prazo para captar recursos do governo federal destinados à revitalização de bibliotecas públicas se encerrou em meados de julho. Apenas 300 dividirão os R$ 30,6 milhões liberados.

O que significa que cada município, com apenas R$ 102 mil, deverá modernizar instalações, atualizar o acervo, melhorar o acesso de leitores portadores de deficiências e ainda criar bibliotecas ramais (em distritos, bairros da periferia e zona rural). Também duvido, a menos que as prefeituras descubram como multiplicar dinheiro e capacitação de pessoal.

Há, em todo o país, 4.763 bibliotecas. Uma para cada 33 mil habitantes. Na Argentina há 1 para cada 17 mil. Em 420 cidades brasileiras não existem bibliotecas ou se encontram fechadas. As nossas emprestam, em média, apenas 296 livros por dia, o que é muito pouco. E só 29% delas têm acesso à internet.

Os dados são do Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, realizado pela Fundação Getúlio Vargas a pedido do Ministério da Cultura.

Pesquisa do Observatório do Livro revela que o alto preço é, para 67% dos leitores, a principal razão de se recorrer à copia xerox de um exemplar, embora isso seja proibido por lei. Outros 20% justificam a ilegalidade por não encontrarem o título nas livrarias. E 13% alegam que, nas faculdades, é mais fácil xerocar do que procurar o livro a ser emprestado ou comprado.”
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23 Agosto, 2010

Sandra Gomide: in memoriam

Rui Martins, Direto da Redação

“Meu artigo sobre mulheres apedrejadas no Irã e arredores desagradou muitos amigos. Este aqui vai me arranjar inimigos. Me inspirei num comentário bem inteligente de um leitor no blog do Nassif. O de que o Irã, em revanche às críticas feitas no Brasil, poderia pedir para se processar o Brasil pelo assassinato a tiros da jornalista Sandra Gomide, pois o crime ficou sem punição para o culpado, mesmo sendo confesso e tendo sido julgado.

E seria mesmo uma boa se o Irã fizesse isso, deixo aí a idéia para os colegas correspondentes do Irã em Brasília publicarem em seus jornais, em Teerã, qualquer coisa como – Brasil se mete na história da Sakineh, mas no Brasil faz dez anos que mataram a tiros Sandra Gomide sem qualquer condenação. E poderão acrescentar que para mulheres infiéis existe no Brasil o chamado crime de honra ou passional, só que os brasileiros são muito mais clean, não enterram a infiel para jogar pedras. Pode-se dar um ou dois tiros, até pelas costas.

O site Jornalistas & Cia, citado pelo Portal da Imprensa, publicou nesta semana um excelente documento de investigação sobre os dez anos do assassinato de Sandra Gomide pelo ex-diretor do jornal O Estado de São Paulo, Pimenta das Neves, e cita um ótimo livro sobre o caso, O Vôo da Rainha, do jornalista e escritor argentino Thomás Eloy Martínez, tratando da soberda e da prepotência do autor do crime. Extraordinário livro, no qual Eloy Martínez, falecido em fevereiro deste ano, dá corpo literário ao drama.

Você lê o documento do Jornalistas & Cia. e tem a mesma reação do pai da moça, o senhor João Gomide - « não há justiça neste país ». Mas até quando eu, você, seus vizinhos, seus amigos, nós todos, vamos dizer e ver isso provado, sem que nada se faça para mudar ? Será que somos um país de carneiros, de paspalhos, de castrados, de babacas, de palhaços ?

Até quando vamos aceitar que a Justiça brasileira seja essa zorra ? Ninguém percebe que se isso continuar assim, vai virar uma esculhambação – prisão para o povo e liberdade para tudo quanto é bandido, desde que tenha grana suficiente para azeitar onde for necessário e utilizar os mil e um recursos para driblar esse simulacro de justiça ?”
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22 Agosto, 2010

Brasil e America do Sul: adeus à condição de quintal

Luiz Alberto Moniz Bandeira, Envolverde

Extensão territorial, poder econômico e poder militar são três fatores que devem ser considerados para qualificar um país como potência e compreender sua posição na hierarquia entre Estados. Estes são os fatores que permitem a um Estado atuar independentemente e influir sobre outros Estados e, portanto, determinar em que condições ele se expressa como potência regional internacional. Um Estado, que dispõe de potencial econômico, força militar e extensão territorial (assumindo, por suposto, que sua população seja correspondente ao espaço que ocupa), pode tornar-se hegemônico, o líder e o guia de um sistema de alianças e acordos de variado alcance.

Para contar com todos os fatores que garantem a segurança da vitória, tanto quanto seja possível prever-se, é necessário que o Estado tenha capacidade de exercer pressão diplomática, i. e., capacidade para obter parte do que poderia ser o resultado de uma guerra vitoriosa sem necessidade de combater realmente.[1] Mesmo assim, a paz interna, como reflexo do exercício eficiente dos grupos sociais e de sua função interna hegemônica, é indispensável, se o Estado pretende ser una potência internacional. Em outras palavras, como ponderou Kart W. Deutsch, o potencial do status de poder é uma simples estimativa dos recursos materiais e humanos que podem ser usados para prever quanto êxito poderá ter um país em uma disputa contra outro país, se usa seus recursos como vantagem. [2] De acordo com Deutsch, um país tanto mais terá condições de afirmar-se como potência quanto mais extenso for e quanto mais numerosa seja sua população e os recursos que pode mobilizar para a consecução de uma política (57). Poder, pura e simplesmente, é a habilidade de um ator de prevalecer em um conflito e superar os obstáculos, se usa com vantagem seus recursos.

Com mais de 196 milhões de habitantes (em 2007), a extensão territorial de Brasil é apenas pouco menor do que a dos Estados Unidos continental, incluindo o Alaska. Soma 8.514.215 milhões de quilômetros quadrados e seu litoral se estende por 7.367 quilômetros. Tem 15.735 quilômetros (cerca de 8.000 milhas) de fronteiras, sem litígio, com todos os países da América do Sul (exceto Equador e Chile). E dentro deste vasto território, seus recursos naturais são abundantes: terras férteis para a agricultura, reservas imensas jazidas de ferro e outros minerais metálicos, urânio, biodiversidade, enormes reservas de água e recursos hidroelétricos. E, conforme a estimativa da Associação Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP), os campos descobertos na Bacia de Santos, litoral do Estado de S. Paulo, contêm 33 bilhões de barris, o que quadruplica as reservas de petróleo do Brasil de 13 bilhões de barris (provados) para cerca de 46 bilhões de barris. Somente no campo de Tupi (litoral de Santos) há cerca de 5 a 8 bilhões de barris. Os dados são ainda muito imprecisos, mas de acordo com Stephanie Hanson, do Council on Foreign Relations, o volume de petróleo na camada pré-sal, que provavelmente se estende por 800 quilômetros, do Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro, a Santa Catarina,[3] deve ser da ordem de 70 a 100 bilhões de barris, além de grande volume de gás.[4] O Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) do Brasil, conforme a paridade do poder de compra, utilizado pelo Banco Mundial, era em 2007 da ordem de U$S 1,849 trilhão, mais de três vezes maior do que o da Argentina, estimado em U$S 526 bilhões (2005), maior do que o do Canadá, calculado em U$S 1,271 trilhão (est. 2007), do que o do México, U$S 1,353 trilhão (2007 est.), do que o da Espanha ( U$S 1,361 trilhão, est. 2007), igual ao da Itália (U$S $1,8 trilhão, 2007 est.), um pouco menor do que o da França (U$S 2,075 trilhões, 2007 est), que o da Rússia (U$S 2,097 trilhões, 2007 est.) e do Reino Unido (U$S 2,13 trilhão, 2007 est.).[5]

Não sem razão, já em 1976, ao ser interpelado, no House Foreign Affairs Commitee, se os Estados Unidos haviam elevado o Brasil ao status de potência mundial, por terem os dois países assinado um acordo de consulta, Henry Kissinger, então secretário de Estado na administração do presidente Gerald Ford (1974-1977), replicou:

“(…) This agreement does not make Brazil a world power. Brazil has a population of 100 million, vast economic resources, a very rapid rate of economic development. Brazil is becoming a world power, and it does not need our approval to become one, and it is our obligation in the conduct of foreign policy to deal with the realities that exist”.[6]

Segundo Kissinger, o Brasil via o seu relacionamento com os Estados Unidos como similar a dois pilares gêmeos (twin pillars), cabendo-lhe organizar a América Latina, enquanto cabia aos Estados Unidos a mesma tarefa, na América do Norte, duas empresas trabalhando em harmonia, através de freqüente intercâmbio, e articulando seus propósitos comuns”.[7]

A América Latina, a que Henry Kissinger se referiu, significava, em realidade, a América do Sul, como se pode claramente inferir da frase, porquanto a América do Norte, compreendida como o México e os países da América Central, era a área de responsabilidade dos Estados Unidos. E com argúcia Kissinger observou que a igualdade teórica da soberania de cada nação latino-americana, postulada pelo sistema interamericano, não fazia parte do vocabulário brasileiro.[8] Conforme ressaltou João Augusto de Araújo Castro, embaixador do Brasil em Washington (1971-1975)[9], o Brasil jamais considerou suas relações com os Estados Unidos como um capítulo das relações entre os Estados Unidos e a América Latina e deseja cooperar com todos os países do continente, mas não queria ser confundido com qualquer um deles, nem sequer admitia ser confundido com sua totalidade[10]. Com efeito, o Brasil não somente não queria ser confundido com a América Latina, em geral, como não aceitava tal conceito então generalizado e adotado pelas instituições multilaterais, para enquadrar toda uma região onde os diversos Estados apresentavam enormes disparidades e assimetrias. O Brasil não queria ser diluído em um conjunto de países, dos quais se diferenciava pela sua dimensão territorial, demográfica e econômica. Havia, concretamente, uma hierarquia de poderes, em que o Brasil se sobressaía, dado que, ao separar-se de Portugal, não se desintegrara, como aconteceu com a América espanhola, e manteve, sem ruptura da ordem política, a vasta extensão do seu território.”
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Mercado eleitoral

Frei Betto , Adital

“O jogo é um vício nefasto. Ao contrário da bebida e da droga, a pulsão pela aposta não altera o estado de consciência e arrisca os recursos financeiros do jogador. Dostoiévski que o diga.

A fantasia de ganho fácil faz naufragar a razão na emoção. O jogador dobra apostas, blefa, convicto de que a sorte, mulher apaixonada, jamais o abandona.

O processo eleitoral, tal como ocorre hoje, não seria um jogo? A maioria dos candidatos é motivada pelo ideal de servir ao bem comum ou pela ambição de ocupar uma função de poder e, assim, assegurar melhor futuro para si e os seus?

Já no século IV a.C., Aristóteles, que defendia a rotatividade no poder como predicado da democracia, observava na Política (livro III) que as coisas mudavam porque, "devido às vantagens materiais que se tira dos bens do Estado ou que se alcança pelo exercício do poder, os homens desejam permanecer continuamente em funções. É como se o poder conservasse em permanente boa saúde os que o detêm...".

Hoje, isso se acentua. Os candidatos, salvo exceções, não têm programas (exceto no papel), mas performance; nem objetivos, mas compromissos com aliados; nem princípios ideológicos, mas o pragmatismo que ignora a ética mais elementar. A política se tornou a arte de simular e dissimular.

Os marqueteiros têm mais poder sobre os candidatos que o partido. Não se trata mais de divulgar um projeto político, e sim um produto capaz de seduzir o mercado eleitoral. O perigo, adverte Umberto Eco, é o político se tornar um produto semiótico, teatralizado.”
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20 Agosto, 2010

Ciganos e judeus: o racismo de volta

Mauro Santayana, JB Online

“Duas notícias de ontem convocam nossa vigilância. Na França se reiniciou, por ordem de Sarkozy, a deportação de ciganos para a Romênia e a Bulgária, países pertencentes à União Europeia. No Rio Grande do Sul, 14 jovens racistas e agressores de judeus somente agora, cinco anos depois do crime, serão levados ao tribunal do júri.

Embora europeus – com direito de ir e vir na União Europeia – os ciganos são indesejáveis no país que aprovou, há 221 anos, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Este é um dos paradoxos da globalização: retorna-se ao livre trânsito para os capitais e as mercadorias, mas se fecha o passo às pessoas. Os ciganos são um povo nômade, sem pátria, com forte cultura própria – e sem dinheiro. Os judeus conseguiram sua pátria na Palestina, mas os ciganos são escorraçados de todos os lugares. Somente em parte da Europa do Leste são tolerados, embora nem mesmo ali sejam amados.

Abre-se pequena exceção para a Andaluzia, onde a tradicional solidariedade islâmica, durante os 700 anos de presença no sul da Espanha, lhes deu acolhida. São, ainda hoje, e ali, los gitanos, grandes intérpretes do balé flamenco e do cante jondo, exaltados por Federico Garcia Lorca e outros grandes poetas espanhóis. Os expulsos da França são cidadãos europeus de pleno direito, mas como se sabe, todos têm os mesmos direitos, menos alguns.”
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19 Agosto, 2010

Só com propaganda a imagem do agronegócio não vai mudar

Wilson da Costa Bueno, Portal IMPRENSA

“Os empresários do agronegócio brasileiro chegaram à conclusão (com um atraso de décadas) de que a atividade não desfruta de uma boa imagem junto à opinião pública e em particular junto a determinados públicos que a contemplam negativamente em virtude de notícias recorrentes sobre trabalho escravo, agressões ao meio ambiente ou sobre o lobby nefasto de bancadas no Congresso que visam sobretudo garantir privilégios a representantes do setor e a parlamentares em particular.

Esta constatação, que é verdadeira, foi debatida recentemente em congresso promovido pela ABAG e, a julgar pelo noticiário veiculado pela mídia (por exemplo, no suplemento agrícola do Estadão de 11 de agosto, página 8), as alternativas para resolver o problema não estão bem encaminhadas.

Os colegas do agronegócio julgam que poderão reverter o desconhecimento da população em relação às virtudes do setor (que são muitas) e também atenuar os preconceitos em relação a ele com marketing e propaganda. A reportagem do suplemento agrícola chega a falar (está no lead da matéria) em investimento de 30 milhões de reais para melhorar a imagem da agricultura brasileira.

Mas é essa mesmo a saída? Evidentemente que não, mas é fácil perceber de onde vêm as sugestões, encampadas por agências de propaganda e veículos, que estão já pensando em como avançar sobre a grana dos fazendeiros.

Propaganda e marketing apenas não vão conseguir mudar o panorama e, se fosse fácil assim, a imagem não seria tão ruim ou tão nebulosa, como se proclama, porque as empresas do agronegócio gastam uma grana preta em propaganda/marketing , subsidiam publicações e programas voltados para o meio rural, fazem promoções, concursos, ações múltiplas para convencer os públicos de sua responsabilidade social e de sua contribuição para a economia brasileira.

O problema não é fazer propaganda, mas praticar a transparência, buscar diálogo com os formadores de opinião, ouvir a população, conversar com o homem do campo, interagir com os que, na maioria das vezes com razão, têm restrições a posturas empresariais associadas a uma arrogância inadmissível.

As empresas do agronegócio, com raras exceções, exibem bocas enormes e orelhas microscópicas , praticam o falatório, o monólogo e se fecham em copas todas as vezes em que há assuntos controversos, avessas que são ao debate franco.”
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Para que serve a ação política

Mauro Santayana, JB Online

“O que fascina os historiadores, no exame do breve relâmpago que foi o sistema ateniense, é a descoberta, simultânea, e ali, das ideias da liberdade, da lógica, das artes e da justiça. A ação política, vista como exercício da ética, tinha como objetivo manter o Estado a serviço da sociedade, na construção do que se considerava ser o bem comum. As vicissitudes históricas destruíram a polis, a partir das derrotas militares, mas o fulgor do projeto permaneceu como inspiração recorrente da civilização ocidental. Os romanos foram os primeiros a assimilar alguns dos princípios estatais gregos (a legislação de Sólon). A elaboração do Direito Romano, ao longo dos séculos, e sua magnífica codificação no Digesto de Justiniano constituem o núcleo das ideias jurídicas modernas. Essas ideias tiveram que adaptar-se – sem prejuízo de seu sêmen ético – aos novos regimes de poder, a partir da razão elementar de que as sociedades fazem as leis.

Os políticos gregos e romanos eram, em sua maioria, homens de ideias e de ação. Em carta notável, dirigida a Einstein, Benedetto Croce lembra que a filosofia não basta para fazer estadistas, e dá o exemplo de Sócrates: antes de discutir os problemas do Estado e da política, o filósofo combateu em Potideia. Mas, se a política é ação, ou práxis, ela se desenvolve melhor quando está fundada nas ideias.

Em nossos dias contamos com Estados poderosos. Eles, ao contrário do que pregam os neoliberais, não minguaram nos últimos anos. A diferença é que o seu poder é exercido preferencialmente em favor do sistema capitalista de produção. Na ponta desse sistema sempre se encontram as empresas de produção bélica.”
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17 Agosto, 2010

Plebiscito pelo Limite da Terra

Frei Betto, Adital

“Entre 1 e 7 de setembro o Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo promoverá, em todo o Brasil, o plebiscito pelo limite da propriedade rural. Mais de 50 entidades que integram o Fórum farão da Semana da Pátria e do Grito dos Excluídos, celebrado todo 7 de setembro, um momento de clamor pela reforma fundiária em nosso país.

Vivem hoje na zona rural brasileira cerca de 30 milhões de pessoas, pouco mais de 16% da população do país. O Brasil apresenta um dos maiores índices de concentração fundiária do mundo: quase 50% das propriedades rurais têm menos de 10 ha (hectares) e ocupam apenas 2,36% da área do país. E menos de 1% das propriedades rurais (46.911) têm área acima de 1 mil ha cada e ocupam 44% do território (IBGE 2006).

As propriedades com mais de 2.500 ha são apenas 15.012 e ocupam 98,5 milhões de ha: 28 milhões de hectares a mais do que quase 4,5 milhões de propriedades rurais com menos de 100 ha.

Diante deste quadro de grave desigualdade, não se pode admitir que imensas propriedades rurais possam pertencer a um único dono, impedindo o acesso democrático à terra, que é um bem natural, coletivo, porém limitado.

O objetivo do plebiscito é demonstrar ao Congresso Nacional que o povo brasileiro deseja que se inclua na Constituição um novo inciso limitando a propriedade da terra - princípio adotado por vários países capitalistas - a 35 módulos fiscais. Áreas acima disso seriam incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.”
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16 Agosto, 2010

Mesquita em NY incendeia debate nos EUA

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Numa atitude corajosa, mas de alto risco político, o presidente Obama declarou-se na última sexta-feira a favor do direito de os muçulmanos construirem um centro cultural, incluindo uma mesquita, em área próxima ao Ground Zero, onde estavam as torres gêmeas derrubadas pelos atentados de 11 de setembro de 2001. “Opor-se ao projeto é ir contra os valores da América”, declarou Obama aos convidados do tradicional jantar na Casa Branca que comemora o inicio do mês sagrado do Ramadan.

"Como cidadão e como presidente, acredito que os muçulmanos têm o mesmo direito de praticar sua religião como qualquer outra pessoa neste país, isso inclui o direito de um construir um local de adoração e um centro comunitário no sul da Manhattan, de acordo com as leis e regulamentos locais. Esta é a América e nosso compromisso com a liberdade religiosa deve ser inquebrantável", destacou o presidente.

Essa tomada de posição de Obama aumentou a ira das lideranças mais conservadoras do país, à frente a ex-governadora do Alaska e ex-candidata a vice, Sarah Palin, que lidera uma cruzada nacional de "volta às raízes", uma expressão aliás muito perigosa porque pode embutir, na caça aos imigrantes ilegais, o preconceito racial. Palin e seu grupo pregam o direito de todo cidadão possuir e portar uma arma e combatem ferozmente as novas conquistas sociais como o direito ao aborto e o casamento homossexual. Palin considera “um sacrilégio” o projeto islamita.

Em nome da liberdade religiosa, Obama está novamente no centro de uma polêmica. A posição por ele assumida publicamente, diante de vários líderes religiosos, coloca em risco a já enfraquecida campanha dos democratas nas eleições de novembro, que vão renovar a totalidade das cadeiras da câmara dos representantes (435) e um terço das 60 cadeiras do Senado.”
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Dois 'meninos' perigosos e sua herança

Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil

“Parece amarga ironia que hajam sido batizadas de “meninos” (Little boy e Fat boy) as duas bombas atômicas que há 65 anos caíram sobre Hiroshima e Nagasáki, no Japão, lançadas por aviões norte-americanos. No dia 6 de agosto, o avião Enola Gay deixava cair seu fardo destruidor sobre Hiroshima. Três dias depois, era a vez de Fat boy ser lançada sobre a cidade de Nagasáki. As duas bombas mataram cerca de 140 mil pessoas em Hiroshima e 74 mil em Nagasáki. Este número aumentou expressivamente nos anos seguintes devido às sequelas causadas pela radiação.

Menos de uma semana depois dos ataques nucleares, em 15 de agosto de 1945, o Japão se rendia e a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, deixando atrás de si o maior saldo de mortes da história da humanidade: mais de 50 milhões, além dos cerca de 28 milhões de mutilados. O genocídio do povo judeu ceifou quase 6 milhões de vidas.

A amargura da ironia se torna maior. À destruição causada pela guerra se acrescenta outra ainda maior. Para deixar de matar por um lado, mata-se mais e mais cruelmente pelo outro. O mundo parece um doente terminal que, ao ser tratado de um mal, outro é desencadeado, e ao tomar um remédio que cura uma doença desperta outra no organismo frágil e esgarçado.

O capitão Theodore Van Kirk, tripulante do avião que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima, entrevistado, não deixou transparecer um único sentimento de arrependimento pela violência que protagonizou. Ao contrário, disse sentir-se orgulhoso da missão que, segundo ele, salvou muitas vidas e pôs fim a uma odiosa guerra. Declarou que, assim como seus companheiros, tinha pleno conhecimento sobre o tipo de armamento que levavam. Isso fez com que passassem a noite anterior ao lançamento da bomba jogando pôquer, já que não podiam dormir. O “menino” explosivo que carregavam requeria vigilância permanente. Acrescentou, no entanto, que esse tipo de arma não deveria voltar a ser usado nunca mais.”
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15 Agosto, 2010

Filme chinês ganha o Festival de Locarno

Rui Martins, Direto da Redação

“Terminou hoje, depois de dez dias de projeções de filmes de todo o mundo, o Festival Internacional de Cinema de Locarno, com a cerimônia de entrega dos prêmios Leopardos de ouro e de prata.

Os brasileiros Helena Ignez e Ícaro Martins, diretores do filme Luz nas Trevas, que estreou no Festival de Locarno, como uma continuação do Bandido da Luz Vermelha, só ganharam um prêmio de um grupo paralelo de críticos de cinema, o prêmio Boccalino. Nenhum prêmio foi concedido ao filme brasileiro pelo júri oficial.

O mesmo ocorreu com Ricardo Targino, diretor do curta-metragem Ensolarado. Mas o cinema de língua portuguesa ou lusófono teve seu prêmio, o Leopardo de Ouro de curta metragem foi para Uma História de Mútuo Respeito, codirigida pelos jovens portuguêses Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt em Brasília e nas Cataratas de Iguaçu. O curta-metragem de 23 minutos fez parte da paralela Leopardos de Amanhã. Ambos já tinham sido premiados no festival IndieLisboa com o Media Recording por esse mesmo filme.

Confirmando ser um festival de filmes de autor, o Leopardo de Ouro para filme de longa-metragem foi para o filme chinês Han Jia, Férias de Inverno, de Li Hongqi, com conversas e debates entre quatro jovens sobre temas como o amor e sua influência sobre os estudos e a importância da formação escolar.”
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14 Agosto, 2010

Mídias Sociais: muito cacique para pouco índio

Léo Luz, Revista Bula

“De todas as profissões de moda dos últimos anos — de jornalista a profissões relacionadas ao petróleo, passando pela engenharia ambiental — nenhuma causou tanto barulho e fez tanto barulho no mercado de trabalho como a profissão de analista de mídias sociais. Antes gostaria de esclarecer: sou escritor, roteirista, webwriter e analista de mídias sociais. Pois é. Eu também sou analista de mídias sociais. Portanto, vou cortar na minha própria carne.

Mas por que esta profissão relativamente nova faz tanto barulho e atrai tanto os jovens? Em primeiro lugar: comodidade. Caímos aqui na estória do “eu gosto de me comunicar, vou fazer comunicação”. Só que a frase muda para “eu gosto de redes sociais, vou ser analista de mídias sociais”. Mas gostar e ser heavy user de redes sociais NÃO faz de ninguém um profissional nisso. Assim como o fato de eu usar óculos desde os quatro anos de idade não faz de mim um oculista, ou o fato de eu dirigir 30km pro trabalho todo dia não me faz um engenheiro mecânico ou piloto profissional. Mas é claro, não sejamos xiitas: em alguns casos o gosto pode ser transformar em profissão. PODE, vejam bem. Não necessariamente.

Porém, isso tem sido uma constante no mercado. E como hoje em dia a maioria das empresas se preocupa mais em conseguir mão de obra barata que faça mil coisas ao mesmo tempo, elas contratam estas pessoas. E como poucos clientes entendem realmente de mídias sociais, eles vão empurrando o trabalho com a barriga, enganando a si próprios e ao cliente. E neste exato ponto nasce o outro problema: o analista de mídias sociais caga-regras.”
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12 Agosto, 2010

Colômbia e Venezuela retomam relações, para azar do Serra

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“Após um encontro entre Hugo Chávez e o novo presidente colombiano Juan Manuel Santos, Venezuela e Colômbia retomaram as relações diplomáticas, interrompidas pela permanente postura beligerante do ex-presidente Álvaro Uribe, aliado incondicional dos Estados Unidos, que sempre desempenhou o papel de fustigar Chávez.

Uribe deixou o poder tentando passar a seu sucessor uma agenda de conflito com o país vizinho, retomando a velha acusação de que a Venezuela abrigava as Forças Armadas Colombianas (Farc) em seu território e tomando a medida política e sem amparo legal de entrar com uma ação contra Chávez no Tribunal Penal Internacional sem a existência de processo prévio que a justificasse.

Embora apoiado por Uribe, o novo presidente colombiano preferiu apostar na paz e após um encontro pessoal com Chávez selou acordo para a retomada das relações, apostando em um diálogo “franco, direto e sincero” sem a contaminação de influências alheias aos países do continente.

O entendimento entre os dois presidentes pode levar a uma incorporação das Farc ao processo político colombiano, encerrando um conflito de 50 anos, que não foi resolvido antes, entre outros motivos, pelo Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos, para um suposto combate ao narcotráfico, que na verdade visava eliminar o grupo guerrilheiro.

Sem a interferência dos EUA, os países sul-americanos são capazes de se entender, como aconteceu agora, numa negociação mediada pelo ex-presidente argentino Nestor Kirchner e cuja evolução será acompanhada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul), uma comunidade criada em 2004 para integrar o continente e mediar seus conflitos.”
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11 Agosto, 2010

Crise, luta e esperança

O fim da atual crise de civilização é imprevisível. Inevitável, conduzirá ao desmoronar do capitalismo ou a uma era de barbárie.

Miguel Urbano Rodrigues, Resistir.info / Pátria Latina

Prever datas para o desfecho seria, porém, um exercício de futurologia.

Mas uma certeza se esboça já no horizonte: a derrota espera o imperialismo nas guerras criminosas que os EUA desencadearam para manter e ampliar o sistema de dominação mundial do capital.
Os EUA estão atolados em guerras perdidas no Afeganistão e no Iraque e a sua aliança com o Estado neofascista de Israel é um fator de tensão permanente no Médio Oriente. As estratégias agressivas que desenvolvem na América Latina, na África e na Ásia Oriental são também incompatíveis com as aspirações dos povos ameaçados, contribuindo para o subir da maré anti-americana.

Nesta fase, iniciada com as agressões no Médio Oriente e Ásia Central, o imperialismo estadounidense encontrou situações históricas muito diferentes da que precedeu o seu envolvimento no Vietname e a humilhante derrota que ali sofreu. Nos EUA somente uma minoria percebeu que a guerra estava perdida quando Giap desfechou a ofensiva do Tet. A resposta de Johnson e Kissinger, cedendo aos generais do Pentágono, foi a ampliação da escalada. A agressão alastrou para o Laos e Washington enviou mais tropas para a fornalha vietnamita, semeando a morte e a devastação no Sudeste Asiático.

Transcorreram anos até à retirada dos EUA. Os povos foram lentos a compreender que o desfecho da trágica agressão ao Vietname era o prólogo de uma crise que significou a perda da hegemonia que Washington exercia sobre a economia do Ocidente desde o final da II Guerra. Nada foi igual desde então.”
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10 Agosto, 2010

Podrão, o meu cachorro, viu o Jornal e teve um ataque de nervos

Ricardo Giuliani Neto, Última Instância

“Desta vez passo-lhe a faca. Ah! sim, de vez, corto-lhe os hormônios. Confesso, o bicho é realmente proporcional: o que tem de carinhoso tem de impertinente. Agora chegou ao ponto de fazer sexo com o solo e, dia desses, de manhãzinha, num ataque de fúria, espatifou o jornal. A coisa tá ficando feia!

Já lhes contei uma das histórias do Podrão. Na verdade, podrão é alcunha, o nome verdadeiro é Habeas Corpus Bartolomeu. Errei, é Bartholomeu, como podem ver, com “th”. É basset tricolor, branco, preto e marrom, um paradigma estético, e, quiçá, ético. Mas é histérico e incontrolável. O Podrão é aquele que precisa de um analisterinário, lembram-se? Sim, ele tem complexo de galo, começa a latir exatamente às 6 da madrugada. Isso, seis da matina e lá está a corneta rouca a romper os ouvidos do bairro. Uma graça de animal! Sério! não fosse isso, o resto, tirando o sexo solo e o ataque de fúria, não haveria reparos.

O Podrão pratica dois esportes: enche o saco do Processo, o meu bulldog campeiro, e pressente manchetes do jornal. Rapaz!? Quando a manchete vem do mundo jurídico, não queiram saber – pode ser porque sou advogado – o mundo cai.

Os jornaleiros aqui de casa – como imagino, os de todas as casas – praticam detonação de jardins à distância. Isso, a precisão é tanta que as plantas, especialmente as flores, nem bem recuperaram-se da paulada anterior, e tome jornal nas fuças.

Mas como dizia, o Podrão adora torrar o Processo e atordoar o mundo. Dia desses, exatamente quando o Conselho Nacional de Justiça condenou dois Magistrados Federais à aposentação compulsória, com R$ 25 mil reais garantidos até o fim da vida, o Podrão silenciou. Naquele dia não houve cantorias pela manhã e o solo da minha casa permaneceu virgem. O Podrão, desalentado, parecia saber do acontecido e, perambulando pra lá e pra cá, terminou por deixar o Processo em depressão; Processo é o meu bulldog campeiro, o alvo dos latidos roucos do Podrão.”
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Maitê Proença pede que o machismo "salve o país de Dilma"

Está aberta a temporada de polêmicos depoimentos eleitorais de personalidades. A atriz Maitê Proença, que declara simpatia a Marina Silva (PV) e José Serra (PSDB), já declarou que talvez a discriminação contra as mulheres "venha a calhar nesse momento de eleições" para salvar o país de Dilma Rousseff.

Vermelho.org

"A mulher ainda é tratada como escrava na África, Ásia, países árabes, na maior parte do planeta. Só no ocidente houve progressos, muitos, mas ainda há discriminação. Quem sabe a própria venha a calhar nesse momento de eleições, atiçando os machos selvagens e nos salvando da Dilma?", disse a atriz, em entrevista ao "Estado de S.Paulo" nesta segunda (9), ao ser perguntada se "o feminismo já era ou a mulher ainda precisa lutar contra as discriminações da sociedade?".

A declaração de Maitê Proença lembra o episódio polêmico, ocorrido em 2002, quando uma outra atriz global, Regina Duarte, apareceu no programa eleitoral de José Serra dizendo que tinha "medo" da possibilidade de eleição de Lula. O discurso do medo acabou voltando-se contra o próprio candidato tucano, que foi derrotado por Lula no segundo turno, numa campanha vitoriosa do candidato petista que tinha como mote "a esperança vai vencer o medo".
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09 Agosto, 2010

Se o senhor não tá lembrado: 100 anos de Adoniran Barbosa

Pedro Nathan, Brasil de Fato

“No dia 6 de agosto, o sambista Adoniran Barbosa (cujo nome de batismo era João Rubinato) completaria 100 anos de idade. Embora exista toda uma polêmica em torno do ano exato de seu nascimento, são incontestáveis os motivos para se comemorar essa data: seja por sua obra musical, por toda a sua contribuição para o samba de São Paulo (e por extensão, para o samba em geral), por sua atuação no rádio e no cinema, além de inúmeras outras razões. Sem deixar de reconhecer todo esse legado que o compositor nos deixou, vamos aqui nos limitar a recordar um outro lado de Adoniran Barbosa: o de cronista da cidade e do cotidiano dos trabalhadores de sua época.

Contexto de sua obra
“É o progresso
É o progresso
Mudou tudo
Mudou até o clima...”
(Praça da Sé, Adoniran Barbosa)

É verdade que esse lado de cronista não chega a ser uma novidade; tanto que ele já chegara a ser chamado de Noel Rosa de São Paulo (aliás, Noel Rosa é outro sambista que completaria um século de nascimento neste ano de 2010), graças à sua galeria de personagens, típicos das ruas da cidade.

Boa parte dos sambas mais conhecidos de Adoniran datam do começo da década de 1950 (Iracema, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto, por exemplo), período de profundas transformações na estrutura do país, que até então era rural em sua maior parte. Transformações essas que incluíam em seu bojo a implantação da indústria pesada no país, a entrada massiva de empresas transnacionais estrangeiras, as migrações para os centros urbanos e o repentino inchaço desses territórios nos anos que se seguiriam.

A partir desse contexto, o samba de Adoniran ganha corpo, resultante de tradições e costumes regionais, próprios daqueles que construíram a cidade – muitos deles oriundos do campo (conforme se pode perceber no próprio sotaque caipira-italianado de suas músicas) – e da nova dinâmica do grande centro que se tornava São Paulo.

Para alguns de seus biógrafos e estudiosos, tais sambas registram bem o movimento dessa realidade, porém, sempre a partir dos que mais sofriam com esse processo. Em outras palavras, o “povão”.
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08 Agosto, 2010

Debate infrutífero


Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Agora o Brasil ingressou mesmo na campanha eleitoral que culminará no próximo dia 3 de outubro com a escolha de quem ficará no lugar de Lula nos próximos quatro anos a partir de 1 de janeiro de 2011.
O primeiro debate, na TV Bandeirantes, entre quatro candidatos – Dilma, Serra, Marina e Plínio – foi morno e sem grandes novidades. Faltaram alguns temas para serem esmiuçados, como, por exemplo, política externa, cultura e a questão da mídia, sendo este último quase desaparecido do cardápio político eleitoral.

Na verdade, as regras engessam os debates, que a seguirem dessa forma dificilmente trarão grandes novidades. Serra e Dilma polarizaram o debate que mostrou algumas poucas diferenças entre os dois, embora ambos representem projetos distintos.

Serra é a própria contradição. Ao mesmo tempo em que diz não estar disposto a olhar no espelho retrovisor, isso para evitar vir à tona o desastroso governo do prócer FHC, volta e meia fala do seu passado com presidente da UNE. E aprofundando ainda o retrovisor lembrava sempre dos “mutirões” na área de saúde, na verdade emergenciais e que não podem ser considerados soluções para os graves problemas do setor.

E Serra na maior hipocrisia fala que não aparelhará empresas do Estado se for eleito presidente. Pena que não houve oportunidade de perguntar como explica a nomeação do deputado pernambucano Roberto Freire como conselheiro de uma estatal paulista com um salário superior a 10 mi reais? Freire, o ex-comunista, no atual PPS, que entregou de bandeja os arquivos do antigo PCB para a Fundação Roberto Marinho, estava no debate a convite de Serra. O que teria a dizer o referido?”
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Desigualdade social no Brasil

Frei Betto, Adital

“Relatório da ONU (Pnud), divulgado em julho, aponta o Brasil como o terceiro pior índice de desigualdade no mundo. Quanto à distância entre pobres e ricos, nosso país empata com o Equador e só fica atrás de Bolívia, Haiti, Madagáscar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

Aqui temos uma das piores distribuições de renda do planeta. Entre os 15 países com maior diferença entre ricos e pobres, 10 se encontram na América Latina e Caribe. Mulheres (que recebem salários menores que os homens), negros e indígenas são os mais afetados pela desigualdade social. No Brasil, apenas 5,1% dos brancos sobrevivem com o equivalente a 30 dólares por mês (cerca de R$ 54) O percentual sobe para 10,6% em relação a índios e negros.

Na América Latina, há menos desigualdade na Costa Rica, Argentina, Venezuela e Uruguai. A ONU aponta como principais causas da disparidade social a falta de acesso à educação, a política fiscal injusta, os baixos salários e a dificuldade de dispor de serviços básicos, como saúde, saneamento e transporte.

É verdade que nos últimos dez anos o governo brasileiro investiu na redução da miséria. Nem por isso se conseguiu evitar que a desigualdade se propague entre as futuras gerações. Segundo a ONU, 58% da população brasileira mantém o mesmo perfil social de pobreza entre duas gerações. No Canadá e países escandinavos este índice é de 19%.

O que permite a redução da desigualdade é, em especial, o acesso à educação de qualidade. No Brasil, em cada grupo de 100 habitantes, apenas 9 possuem diploma universitário. Basta dizer que, a cada ano, 130 mil jovens, em todo o Brasil, ingressam nos cursos de engenharia. Sobram 50 mil vagas... E apenas 30 mil chegam a se formar. Os demais desistem por falta de capacidade para prosseguir os estudos, de recursos para pagar a mensalidade ou necessidade de abandonar o curso para garantir um lugar no mercado de trabalho.”
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06 Agosto, 2010

Nem gênios nem estúpidos

Ethevaldo Siqueira, Estado de S.Paulo / AdNews

“Há coisas que são óbvias: os jovens e garotos desta geração têm uma facilidade impressionante para lidar com as novas tecnologias. Isso não significa que eles sejam gênios. Nem que os adultos com mais de 40 anos sejam estúpidos, por sua imensa dificuldade em dominar as tecnologias digitais e equipamentos como o computador, a internet, o celular, os iPods, os videogames e outros. São dois fatos óbvios e indiscutíveis.

Retorno ao tema de meu artigo da semana passada porque parece não ter ficado muito clara a tese central da professora Charo Sádaba Chalezquer, diretora do Departamento de Empresa Informativa da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, segundo a qual pais e professores precisam compreender essa nova geração interativa, como sintetizei no título do artigo: É essencial compreender a geração interativa.

A mensagem central da entrevista que a professora espanhola me concedeu é de que os jovens não devem ser julgados de forma apressada, com base nos padrões de comportamento de nossa geração. Em lugar de mover uma guerra contra os jovens, seria melhor que os pais e professores dialogassem, orientassem e protegessem esses garotos dos riscos da internet, do excesso de tecnologia da informação e do entretenimento eletrônico.

A maioria dos comentários que recebi dos leitores, entretanto, discordou não apenas das conclusões da especialista, mas até do diagnóstico do problema. A culpa talvez seja muito mais minha, como jornalista, do que da professora entrevistada.

Voltemos ao tema para lançar um pouco mais de luz sobre a questão. Sem nenhuma modéstia, eu me sinto em uma posição privilegiada para observar e julgar tanto as novas gerações diante das novidades tecnológicas, quanto das velhas gerações de analfabits. Sou o velho culturalmente digitalizado por força dos longos anos de trabalho profissional nessa área.”
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05 Agosto, 2010

Humor na TV tem limite

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Nada contra os irreverentes Pânico na TV, Legendários e CQC mas parece que as equipes desses programas ouviram o galo cantar mas não descobriram onde, pois vivem pisando na bola em relação à ética e aos limites da brincadeira, muitas vezes inconveniente e agressiva.

O CQC, por exemplo, já botou as barbas de molho. Sofreu duas punições em apenas uma semana exatamente por ter falado demais. Primeiro a turma de Marcelo Tas foi condenada a pagar multa de R$ 153 mil a uma atriz pornô, Pâmela Butt, depois de chamá-la de prostituta no ar. Agora, de acordo com informações da midia , as cantoras do grupo Sexy Dolls terão que ser indenizadas pelos rapazes do CQC com R$ 100 mil, pois também foram chamadas de prostitutas com todas as letras.

Ano passado, a 20ª Vara Cível do Rio de Janeiro condenou a RedeTV a indenizar em R$ 35 mil a atriz Carolina Dickman por danos morais. A atriz disse que foi perseguida pela turma do Pânico para dar entrevista no quadro “As sandálias da Humildade” . Como teria se negado, Dickman alegou que teve sua privacidade invadida quando os humoristas do programa entraram em seu condomínio com um guindaste e um megafone gritando seu nome.

Todo esse escândalo chamou a atenção dos vizinhos e expôs seu filho que ficou assustado, com isso além de pagar a indenização o Pânico foi proibido pela justiça de se aproximar ou até mesmo de citar o nome de Carolina no programa. Recentemente o mesmo Pânico criou uma enorme saia justa com jornalistas e artistas quando uma bizarra personagem criada pela turma de Zurita, chamada de “Mulher Arroto” tentou arrotar na cara da atriz Laura Cardoso que tem mais de 80 anos.”
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04 Agosto, 2010

Por que persiste a Igreja-poder?

Leonardo Boff, Adital

“Vou abordar um tema incômodo, mas incontornável: como pode a instituição-Igreja, como a descrevi num artigo anterior, com características autoritárias, absolutistas e excludentes se perpetuar na história? A ideologia dominante responde: "só porque é divina". Na verdade, este exercício de poder não tem nada de divino. Era o que Jesus exatamente não queria. Ele queria a hierodulia (sagrado serviço) e não a hierarquia (sagrado poder). Mas esta se impôs através dos tempos.

Instituições autoritárias possuem uma mesma lógica de autoreprodução. Não é diferente com a Igreja-instituição. Em primeiro lugar, ela se julga a única verdadeira e tira o título de "igreja" a todas as demais. Em seguida cria-se um rigoroso enquadramento: um pensamento único, uma única dogmática, um único catecismo, um único direito canônico, uma única forma de liturgia. Não se tolera a crítica nem a criatividade, vistas como negação ou denunciadas como criadoras de uma Igreja paralela ou de um outro magistério.

Em segundo lugar, se usa a violência simbólica do controle, da repressão e da punição, não raro à custa dos direitos humanos. Facilmente o questionador é marginalizado, nega-se-lhe o direito de pregar, de escrever e de atuar na comunidade. O então Card. Joseph Ratzinger, Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, em seu mandato, puniu mais de cem teólogos. Nesta mesma lógica, pecados e crimes dos sacerdotes pedófilos ou outros delitos, como os financeiros, são mantidos ocultos para não prejudicar o bom nome da Igreja, sem o menor sentido de justiça para com as vítimas inocentes.”
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03 Agosto, 2010

De bomba atômica e cegueira da ambição

Edival Lourenço, Revista Bula

“O Homo sapiens sempre se sentiu ameaçado e ao mesmo tempo atraído por profecias escatológicas. Desde as religiões arcaicas até as cientológicas de hoje em dia, todas, invariavelmente, têm um viés apocalíptico segundo o qual a redenção da espécie há de passar por uma mortandade espetacular e coletiva, seguida de uma prestação de contas da vida terrena e um processo de classificação final: os bacanas serão expostos em regozijo nas vitrines celestiais e os malas lançados nos autofornos do inferno, numa tribulação radical e eterna, sob o olhar vermelho e os adornos cornoicos do capeta. A história que nos contam do dilúvio, seja o de Noé, seja o de Gilgamesh, foi apenas um ensaio, um teste da maquinaria sinistra, uma prévia do que poderá ser um apocalipse em condições pra valer.

O pensamento mágico e exacerbado sempre foi a base dessas profecias catastróficas. Um certo alopramento tem orientado todos os profetas e videntes. São Malaquias, um padre irlandês que viveu no século XI, atrela o fim do mundo com o fim dos papas. Segundo seus intérpretes mais afinados, esse Bento XVI, com seus gestos sestrosos e olhar demoníaco, seria o penúltimo da série papal. Quando este for sucedido, amigos, entraremos na esteira que leva à boca do matadouro. Várias interpretações das centúrias de Nostradamus davam o ano de 2000 como um alvo para a realização de suas previsões macabras. Um dito lapidar de origem incerta e controversa assombrou muito a minha geração de ascendência rural e religiosidade ingênua: o mundo de um mil passará, mas dois não interará. A primeira vez que entendi o que isto queria dizer, foi da boca de minha avó, que já um tanto cansada da vida bradava em tom de alívio e vingança contra todos que supostamente lhe queriam mal. Confesso que perdi o apetite e por algum tempo curti uma depressão lascada.

Exegetas bíblicos, de vários matizes, especialmente aqueles mais focados no dízimo que na salvação eterna, deram também o ano de 2000 como baliza para o desfecho da desgraceira prevista pelo Apocalipse de João. Também os segredos de Fátima, especialmente o terceiro, supostamente (porque é segredo) indicava o final o milênio como referência de um grande atoleiro, onde a humanidade enterraria sua saga.”
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02 Agosto, 2010

Primeira lição de economia

Wilson Figueiredo, JB Online

“Ainda em Pernambuco, na juventude que ficou para trás, conta o presidente Lula que comprava cerveja em supermercado, punha as garrafas num balde, deixava-as resfriar num poço e se beneficiava da diferença de preço, para mais, quando as revendia. Quando chegou ao Planalto, aplicou o princípio em escala social e alavancou as categorias sociais D e E ao nível que permite ao pessoal botar o pé na letra C (que deve querer dizer consumo). Lembra que (com ele) o Brasil melhorou, e hoje existem geladeira e energia elétrica, sem esquecer a cerveja, nos pontos mais distantes da geografia nacional.

O presidente antecipa, em cinco meses, que vai deixar ao seu sucessor “um país infinitamente mais sólido, justo e democrático”. Não explicou o que quer dizer mais sólido e se esqueceu do aumento da produção de cerveja, que deixou o Brasil ainda mais líquido. Mais justo, sem ofensa à Justiça, no plano social, sim. Mostrou resignação democrática por três candidaturas sem sucesso e aceitou a reeleição, à qual era visceralmente contrário, antes de ter o mandato na mão.”
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O polimento da vida

João Bosco Leal

“Na nascente do rio, as pedras lascadas, vindas das profundidades, das rochas partidas, são pontiagudas, com suas faces retas, cortantes, e a água, nesse ponto, ainda não possui forças suficientes para empurrar tanto peso rio abaixo. Mas vai lavando suas laterais, que vão perdendo pequenos grãos, adquirindo limo em seu entorno e assim diminuindo seu peso e ficando mais lisas. Em um dia de chuva forte a mina produz mais água, que, juntamente com aquela vinda do céu, consegue virar a pedra para um pouco mais abaixo.

É o início do seu polimento, daquilo que essa pedra se tornará ao atingir a foz desse rio, anos depois. A diferença das pedras entre a nascente, ao longo e na foz dos rios é enorme. Enquanto levadas pelas águas, vão se atritando com outras pedras e objetos e vão sendo polidas. Na foz do rio, já estarão lisas, com as faces arredondadas, sem nenhuma aspereza, muito mais belas. Lavadas, são usadas em aquários, jardins, pesos para papeis, enfim, em qualquer lugar serão úteis e não prejudicarão nada à sua volta, não sujarão os papéis que prenderão e nem as águas dos peixes no aquário. São perfeitas para qualquer uso.

Assim é a vida, durante a qual os seres humanos vão sendo polidos. O primeiro atrito pelo que passa é físico, ao nascer, atritando-se com o corpo da própria mãe e sofrendo, pela primeira vez, o impacto do oxigênio em seus pulmões, que lá chegou após passar, também pela primeira vez, por todas as suas vias respiratórias. O choque da luz do centro cirúrgico diretamente em seus olhos é enorme. Todos aqueles sons, entrando por seus canais auditivos sem os filtros do líquido amniótico, do útero e da própria barriga da mãe, são de uma violência enorme.

A mudança de temperatura, os primeiros contatos físicos em sua pele, tudo é novo, e aí o susto, o choro. É assim, como a pedra na nascente do rio, o início de seu polimento como ser humano, que ocorrerá durante toda a vida. E será sempre assim, com atritos, contatos, tombos, sons e pancadas, maiores ou menores, que a vida lhe tratará. Só seus pais passarão a mão em sua cabeça, dando-lhe afeto, carinho e perdoando-lhe todos os erros. A vida não. A vida lhe dará respostas proporcionais às suas ações e, dessa maneira, dará a oportunidade dele mesmo escolher, de como aprender, se relacionar, enfim, de como viver, com mais ou menos facilidade, caindo mais ou menos, apanhando mais ou menos, tendo mais ou menos sucesso e, principalmente, de como será lembrado, pois dependendo de suas escolhas, poderá permanecer sendo lembrado entre os homens durante séculos.

O que importa é que, na maturidade, independentemente da facilidade ou dificuldade com que lá chegou, pois as escolhas foram sempre suas, o ser humano estará polido, pronto, sabendo os “como e porquês” e poderá, então, por um determinado tempo, enriquecer as rodas de bate-papo com a conversa agradável, inteligente, aquela da sabedoria com simplicidade. Pena que por um período pequeno, bem menor que o já vivido, pois começa então uma nova fase, a do retorno, quando perderá todas as capacidades adquiridas e viverá novamente como um bebê, com os filhos fazendo o papel que era seu, determinando-lhe tudo.

Aí, meu amigo, é o fim, mas isso já não importa, pois essa pessoa não se lembrará nem do começo, nem dos amigos, nem dos filhos e muito menos de que a próxima etapa se aproxima, mas, se teve a felicidade de chegar até esse ponto, de ter vivido todas as fases, de ter passado por todo o polimento, terá chegado, como a pedra na foz, a um universo muito maior.

Estarão, nesse ponto, tal pessoa e a pedra, prontos para uma nova etapa, desconhecida, e de uma amplitude muito maior, inimaginável.”
João Bosco Leal
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