29 Dezembro, 2011

Coisas que não fiz neste ano e, com certeza, não farei no próximo


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Parar com esta mania chata de fazer listas.

Cumprir nem metade do planejamento estratégico.

Deixar de escrever pra Revista Bula.

Amar o próximo como a mim mesmo. Eu não faria uma sacanagem desta com o próximo.

Conjugar o verbo amar com a mesma naturalidade que faço com o verbo comer.

Aprender a tocar sax. Nesta idade, não tenho mais fôlego para tanto. Quem sabe, uma gaita ou um apito de caçar marrecos.

Caçar marrecos. Atirar num pássaro. Manter algum deles preso numa gaiola.

Compreender a mente de uma mulher e como funciona uma torre de controle do tráfego aéreo de um aeroporto como o de Miami.

Simplesmente aceitar que as pessoas mentem mesmo, que tudo isto é normal, meu chapa.

Jogar moedas na mão de um pobre coitado. Lavar as mãos.

Molhar a mão de um guarda de trânsito. Prefiro a multa.

Destravar os vidros e as portas do carro ao parar no semáforo. Nunca se sabe do que são capazes aqueles mendigos. Vai que eles roubam o pouco de dignidade que ainda resta.

Comprar, ler e indicar um best-seller. Se me virem com o livro do Padre Marcelo no sovaco, mandem-me à internação, ao exorcismo ou à extrema-unção.”
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28 Dezembro, 2011

Da cultura cinematográfica


André Setaro, Terra Magazine

“Alguns leitores, por mensagens diretas para minha caixa postal eletrônica, estranharam que na lista dos melhores filmes de 2011, publicada há quinze dias, tenha incluído na relação O discurso do rei (The king's speech), de Tom Holland. Há, por parte de certa crítica, um preconceito pronunciado contra os filmes que possuam uma estrutura narrativa sem que, nela, haja firulas de linguagem, invencionices, e um repúdio aos filmes contemporâneos que porventura se utilizem de uma narrativa, por assim dizer, acadêmica. Ora, não somente os filmes que procuram desestruturar a estrutura narrativa é que podem ser bons e belos.

O realizador acadêmico também pode proporcionar um espetáculo de excelência, como penso ser este O discurso do rei, obra de perfeita reconstituição histórica, com ritmo adequado, interpretações notáveis, e o embate entre Colin Firth e Geoffrey Rush, que lembra, mudando o que deve ser mudado, o embate do Professor Higgins com Elisa no belíssimo My Fair Lady. A tendência atual parece a de ser considerar apenas o cinema que é de invenção. Tudo bem. Mas que haja talento. Por exemplo: considero O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, um dos cinco maiores filmes brasileiros de todos os tempos. Mas não vamos nos perfilar somente pelos caminhos de Ythaca.

Apoiando-me numa preciosa definição do falecido crítico literário José Paulo Paes, tradutor e ensaísta de grande renome, vou tentar expandir o seu conceito de cultura para o cinema. Disse ele numa palestra: "Cultura não é acumulação de informação, é assimilação de informação, é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. A cultura se revela no modo de falar, de sentar, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica o seu olhar. Não é preciso ler muito, mas ler bem".
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27 Dezembro, 2011

Joey e Johnny Ramone


André Barcinski, Digestivo Cultural

“Dez anos sem Joey Ramone. Dez anos. Como passa rápido.

Em janeiro de 2001, eu editava um site e estava trocando e-mails diariamente com Joey Ramone. Queria que ele escrevesse uma coluna semanal para o site.

A idéia era fazer uma coluna de tema livre. Joey poderia falar sobre o que quisesse.

Claro que a coluna acabaria sempre em música. O cara só pensava nisso.

Joey morava na rua 9, a poucos passos de St. Mark's Place e do Bowery, no meio do burburinho alternativo de Nova York.

Era a região dos clubes ― Continental, Coney Island High e, claro, o CBGB's. No bairro havia também incontáveis lojas de disco e DVDs. Joey estava em casa.

Não era difícil encontrá-lo andando pela rua ou checando a Kim's Video atrás de algum filme de terror bizarro. Ele fazia parte da paisagem local.

Na época, Joey já lutava contra um linfoma. Sua saúde frágil foi uma das razões para o fim dos Ramones, cinco anos antes. O cara não agüentava mais excursionar.

Depois do fim dos Ramones, ele continuou ligado à música, mas tirou o pé do acelerador. Estava cansado. Mesmo assim, fazia shows, produziu um disco de Ronnie Spector e ajudava uma banda chamada The Independents, que adorava.

Fui visitá-lo algumas vezes em seu apartamento. Era um apê muito bem arrumado. Nem parecia que um punk morava ali. Nas paredes, uma coleção de pôsteres originais de shows do Fillmore: The Doors, Jimi Hendrix, Grateful Dead. Discos estavam sempre espalhados pela casa. Ele ouvia música o dia todo.”
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26 Dezembro, 2011

Precisamos aprender a lição


Menalton Braff, Revista Bula

“Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”. 

Bem, o fato de o Santos Futebol Clube, ou seja lá qual for seu nome completo, ter perdido para uma equipe espanhola, teria sido digerido com a maior facilidade, não fôssemos o “país do futebol”.  A mídia, sobretudo a grande mídia, que em um de seus segmentos vive à custa do esporte, cria uma expectativa, forjada à base da repetição (técnica de Goebbels?), que muitas vezes não encontra base na realidade. 

Primeiro, nos convencem de que o Santos é o Brasil. E não é. Depois vão formulando por vias indiretas o silogismo “Se o Brasil é o melhor do mundo (a premissa maior já é uma falácia) e o Santos é o Brasil (premissa menor é outra), (conclusão) o Santos é o melhor do mundo. Ora, com duas premissas falsas eles criam a tal da expectativa que só pode redundar na frustração dos torcedores, pois não acontece o que se espera. 

Mas deixando a lógica menor de lado, o fato é que perder para o Barcelona, como muita gente assinalou, não é desdouro nenhum. Concordo. Mas perder de 4 a zero, bem, amigos, aí já é mais difícil de engolir a pílula. Já me parece um caso de humilhação. 

E não vamos cair na besteira de pensar no Brasil de joelhos perante a Espanha. Calma lá. Isso é só o futebol. Se a competição tivesse como objeto o analfabetismo, o desemprego, o desenvolvimento das ciências, o nível da saúde pública e do desenvolvimento intelectual de seu povo, sei lá, se fosse algo mais sério, então seria o caso de nos preocuparmos.”
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25 Dezembro, 2011

A invasão tupiniquim


Antonio Tozzi, Direto da Redação

“Os donos e executivos de agências de viagem estão esfregando as mãos de contentamento. Afinal, faz quase vinte anos que eles não vendiam tantas passagens e pacotes turísticos para os Estados Unidos como este ano. Segundo dados da ABAV (Associação Brasileira dos Agentes de Viagem), 2011 pode ser equiparado a 1994, após a implantação do Plano Real que estabilizou a economia e instituiu a paridade entre dólar e real. Em meados da década de 90, era comum vermos hordas de adolescentes caminhando por Miami e Orlando comandados por guias turísticos.

De lá para cá, muita coisa mudou. A primeira delas, com certeza, foi a velocidade da informação. Hoje, os compradores chegam aqui sabendo o que querem comprar, quanto vão pagar e em que lojas desejam comprar. Naquela época, tornaram-se famosos casos de pessoas que levavam para o Brasil mercadorias com defeitos, que não funcionavam e tudo sem garantia. Ou seja, eram lesados. Para tristeza nossa, os principais autores desta pilantragem eram lojistas brasileiros que montavam suas lojinhas no centro de Miami e se aproveitavam da ingenuidade dos turistas neófitos para empurrar produtos de qualidade duvidosa – muitas vezes com a cumplicidade de alguns guias turísticos, que recebiam gorjetas pelas indicações. Criou-se até mesmo a lenda de comerciantes embalavam tijolos em vez de aparelhos de vídeo cassete. E o lesado somente descobria isto quando abria o pacote...no Brasil!

A revolução tecnológica, no entanto, alterou o cenário. Atualmente, a maioria dos jovens brasileiros de classe média fala inglês e, como dissemos, mantém-se perfeitamente informada sobre os preços praticados aqui em comparação com aqueles cobrados no varejo brasileiro.

Outro fator que está contribuindo para essa invasão é a boa vontade dos consulados americanos no Brasil. Antes, tão zelosos na hora de conceder um visto, hoje estão distribuindo vistos como pães quente porque sabem que os brasileiros formam o maior contingente de turistas. E não só em quantidade como também em valores gastos nas compras e nos setores hoteleiro e de entretenimento.”
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22 Dezembro, 2011

Site de 'jornalismo comunitário' do Guardian, N0tice dividirá lucros com usuários


Redação, PortalIMPRENSA

“O site de 'jornalismo comunitário' do britânico The Guardian, N0tice, planeja dividir os lucros de suas propagandas com os usuários. Com o novo modelo, anunciantes do endereço ganham 85% do valor da publicidade, enquanto o jornal fica com apenas 15%.

Lançado em novembro deste ano, o N0tice visa funcionar como uma rede de notícias, que podem ser compartilhadas entre os internautas. Gratuito, o portal possibilita a troca de informações on-line, além de eventos e opiniões sobre acontecimentos.”

Com informações do Editors Weblog.

Precisamos aprender a lição


Menalton Braff, Revista bula

“Há poucos dias fomos alvo de brincadeiras nos jornais do mundo todo, principalmente nos espanhóis. E mexeram justamente em nossa ferida, ou aquilo que a grande mídia elegeu como tal: o futebol. Numa das manchetes publicadas em Barcelona, lia-se o belo trocadilho “Deuses e Santos”. 

Bem, o fato de o Santos Futebol Clube, ou seja lá qual for seu nome completo, ter perdido para uma equipe espanhola, teria sido digerido com a maior facilidade, não fôssemos o “país do futebol”.  A mídia, sobretudo a grande mídia, que em um de seus segmentos vive à custa do esporte, cria uma expectativa, forjada à base da repetição (técnica de Goebbels?), que muitas vezes não encontra base na realidade.

Primeiro, nos convencem de que o Santos é o Brasil. E não é. Depois vão formulando por vias indiretas o silogismo “Se o Brasil é o melhor do mundo (a premissa maior já é uma falácia) e o Santos é o Brasil (premissa menor é outra), (conclusão) o Santos é o melhor do mundo. Ora, com duas premissas falsas eles criam a tal da expectativa que só pode redundar na frustração dos torcedores, pois não acontece o que se espera. 

Mas deixando a lógica menor de lado, o fato é que perder para o Barcelona, como muita gente assinalou, não é desdouro nenhum. Concordo. Mas perder de 4 a zero, bem, amigos, aí já é mais difícil de engolir a pílula. Já me parece um caso de humilhação.”
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21 Dezembro, 2011

A pior profissão do mundo


Ricardo Fort, meio&mensagem

“Quando eu trabalhava na Índia e era responsável pelo marketing do Butão, Nepal, Bangladesh, Maldivas e Sri Lanka (além da Índia), recebi um ranking das melhores cidades do mundo para viver (Mercer’s 2010 Quality of Living Survey).

A cidade de Daca, capital de Bangladesh, aparecia no último lugar da lista. Logo, Daca é a pior cidade do mundo para viver.

Se você já foi à Daca, pode confirmar ou não este título.

A qualquer hora do dia, você levará 3 horas pra percorrer os 15 quilômetros que separam o aeroporto do centro. O ar é irrespirável o ano todo. No verão, chega a faltar eletricidade por 12 horas vário dias seguidos.

Há algumas semanas, um outro ranking (elaborado pela CareerBliss.com) foi publicado pela CNBC: as 10 profissões mais odiadas.

Diretores de Marketing têm a segunda profissão mais odiada do mundo (segundo eles – ou nós - mesmos). Só perdemos para os profissionais da área de tecnologia.”
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20 Dezembro, 2011

O Natal de antigamente: velho e sempre novo


Leonardo Boff, Adital

“Venho de lá de trás, dos anos 40 do século passado, num tempo em que Papai Noel ainda não havia chegado de trenó. Nas nossas colônias italianas, alemães e polonesas, desbravadoras da região de Concórdia (SC), conhecida por ser a sede da Sadia e da Seara, com seus excelentes produtos de carne, só se conhecia o Menino Jesus. Eram tempos de fé ingênua e profunda que informava todos os detalhes da vida. Para nós crianças, o Natal era culminância do ano, preparado e ansiado. Finalmente vinha o Menino Jesus com sua mulinha (musetta em italiano) para nos trazer presentes.

A região era de pinheirais a perder de vista e era fácil encontrar um belo pinheirinho. Este era enfeitado com os materiais rudimentares daquela região ainda em construção. Utilizavam-se papel colorido, celofane e pinturas que nós mesmos fazíamos na escola. A mãe fazia pão de mel com distintas figuras, humanas e de bichinhos, que eram dependuradas nos galhos do pinheirinho. No topo havia sempre uma estrela grande revestida de papéis vermelhos.

Em baixo, ao redor do pinheirinho, montávamos o presépio, feito de recortes de papel que vinham numa revista que meu pai, mestre-escola, assinava. Ai estava o Bom José, Maria, toda devota, os reis magos, os pastores, as ovelhinhas, o boi e o asno, alguns cachorros, os Anjos cantores que dependurávamos nos galhos de baixo. E naturalmente, no centro, o Menino Jesus, que, vendo-o quase nu, imaginávamos, tiritando de frio, e nos enchíamos de compaixão.

Vivíamos o tempo glorioso do mito. O mito traduz melhor a verdade que a pura e simples descrição histórica. Como falar de um Deus que se fez criança, do mistério do ser humano, de sua salvação, do bem e do mal senão contando histórias, projetando mitos que nos revelam o sentido profundo dos eventos? Os relatos do nascimento de Jesus contidos nos evangelhos, contem elementos históricos, mas para enfatizar seu significado religioso, vêm revestidos de linguagem mitológica e simbólica. Para nós crianças tudo isso eram verdades que assumíamos com entusiasmo.”
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19 Dezembro, 2011

O que em mim sente está lembrando


Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Fernando Pessoa, aquele poeta português que era muitos, anda me soprando umas ideias. Não sei se o que em mim pensa agora está sentindo. Ou se o que em mim sente não consegue pensar. Ou se o que em mim lembra atravanca meu pensamento. Se minha correção é resultado de meus sentimentos ou de meus pensamentos. Se o que me parece lembrança é, na verdade, sonho. Se o que me parece memória é, de fato, invenção. Estou sem saber se posso pensar direito com estas lembranças.

Em um mês uma vida inteira se passou. Em cinco dias ou pouco mais o trecho inédito de uma história passou ininterrupto, mas aguardando a cena final. Ninguém sabia como ela seria, à maneira dos últimos capítulos de novela. Não havia um mistério a desvendar ou um assassino a revelar. A qualquer momento, qualquer um de nós dois poderia habitar o cadafalso. Uns dias, uns meses, uns anos. Impossível saber o calendário dessa história, assim como de qualquer outra. No entanto, esta parecia ainda mais provisória. Daí um conflito doloroso entre deixar-se levar (e viver, como ensinam alguns, ou curtir, como ensinam outros) e o cortar o mal pela raiz (como alegam os mais prudentes e os medrosos).

Acertando contas com o passado, uma experiência dessas bem inteiras, que vêm com respiração própria e trilha sonora envolvente, aconteceu nos espaços que eu habito. De repente, todos os cantos da casa, do terreiro e da minha vida foram tomados por uma presença comedida. Não era um assalto, desses que provocam sustos. Era um alagamento. O espaço era tomado por algo líquido, que se apropriava de cada fresta, canto, aresta e se impregnava no ar. E música complica tudo.

Qual experiência com música pode ser facilmente apagada? Daqui a cinquenta anos, quando eu ouvir isto ou aquilo, seja lá em que dispostivo for, testarei de novo aqueles dias de vida e de respiração compartilhada. Dezenas de anos à frente e estas memórias ainda estarão vivas. Memória vive de diversos acionamentos. A música é, certamente, um deles.”
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16 Dezembro, 2011

Bem longe do latido


“Enquanto a mídia ignora as denúncias de Privataria Tucana, Ivan Ângelo surge com seu novo livro de crônicas, Certos Homens

Márcia Denser, Congresso em Foco

A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. (Geração Editorial), já se tornou best-seller e um dos mais vendidos da semana na “Livraria da Folha”, apesar do silêncio absoluto da mídia hegemônica a respeito. Ao contrário dos badaladíssimos Lula, minha anta , de Diogo Maynard, e O País dos Petralhas, de Reinaldo de Azevedo, ambos da Record, para os quais a mesma mídia abriu espaços inusitados. São casos sintomáticos, pontuais, de como os jornalões e a grande mídia se posiciona. Dois pesos e duas medidas, ou você está a favor ou contra nós, não importa, o “poderoso Nós” é a referência, o “nó” do big problem.

Um livro que está dando pano para mangas. Com denúncias de corrupção na venda de estatais de telefonia no governo Fernando Henrique e de lavagem de dinheiro pela família do ex-ministro José Serra, motivou um pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Deputados. E, no Congresso, opôs os dois principais partidos envolvidos e interessados, PT e PSDB. Enquanto líderes petistas defenderam investigar o conteúdo do livro – cautelosamente, diga-se, já que a cúpula do partido procura mais subsídios quanto à forma de lidar com o assunto –, os tucanos rotulam-no sem mais aquela como “requentado” e de autor sem credibilidade.

A abertura de uma CPI foi solicitada pelo deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal (PF). Nesta terça-feira (13), ele afirmou já haver coletado mais de 100 assinaturas – precisa de ao menos 177. Questionado pela imprensa: “Qual o foco do requerimento da CPI?”, disparou: “O foco são as privatizações. Elas prejudicaram o país e proporcionaram desvio de dinheiro público. É um livro importante, independentemente se o partido é o PSDB ou o PT”.

Ainda não li, mas para além das estratégias do market editorial de boas festas – presenteie com o livro mais polêmico do ano! – a pressão, inclusive policial, em cima do autor do livro, além da proposta de CPI, são indícios alarmantes e mau sinal de a quantas anda a censura econômica no país, caso o sujeito queira investigar e escrever sobre procedimentos políticos & assuntos públicos.”
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15 Dezembro, 2011

Miles Davis: Deus era negro


Cezar Santos, Revista Bula

“Vinte anos depois da morte do maior gênio do jazz, sua obra segue sendo relançada, como o álbum “Bitches Brew”, que ganhou edição de luxo comemorativa pelo 40º aniversário

Escuro. Denso. Lisérgico. Esquisito. Complexo. Caleidoscópico. Desconexo. Cacofônico. Anárquico. Belo, muito belo... Todos esses adjetivos servem para classificar o álbum “Bitches Brew”, da lenda do jazz Miles Davis, mas talvez o que mais abranja a totalidade do que ele provoca no ouvinte seja hipnótico.

“Bitches Brew” não é fácil de ouvir. Como tudo o que é radical, pode provocar repulsa. Já ouvi mais de uma pessoa dizer que aquilo não é música. Já me perguntaram como alguém (eu) pode gostar daquilo. É uma música que vai a áreas pouco exploradas do aparelho auditivo. Potencializa os efeitos do som nos centros auditivos do tronco encefálico e do córtex cerebral.

Já na época de seu lançamento, em 1970, o vinil duplo sofreu reparos até mesmo de críticos especializados. Miles foi chamado de “traidor”, aquilo não era jazz. A dose é mesmo meio amarga. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo em músicas complexas e longas — a que dá nome ao álbum tem 27 minutos; outra tem mais de 20 minutos. O resultado é desafiador mesmo para muitos que acham que conhecem o gênero.”
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14 Dezembro, 2011

Como governar sete bilhões de pessoas?


Leonardo Boff, Adital

“Tratamos já do desafio de como alimentar sete bilhões de pessoas. A escalada da população humana é crescente: em 1802 éramos um bilhão; em 1927, 2 bilhões, em 1961, 3 bilhões, em 1974, 4 bilhões, em 1987, 5 bilhões, em 1999, 6 bilhões e, por fim, em 2011, 7 bilhões. Em 2025, se o aquecimento abrupto não ocorrer, seremos 8 bilhões, em 2050, 9 bilhões e em 2070, 10 bilhões. Há biólogos como Lynn Margulis e Enzo Tiezzi que vem nesta aceleração um sinal do fim da espécie à semelhança das bactérias, quando colocadas num recipiente fechado. (capsula Petri). Pressentindo o fim dos nutrientes se multiplicam exponencialmente e então subitamente todas morrem. Seria a última florada do pessegueiro antes de morrer?

Independentemente desta ameaçadora questão temos o instigante desafio: como governar 7 bilhões de pessoas? É o tema da governança global, quer dizer, um centro multipolar com a função de coordenar democraticamente a coexistência dos seres humanos na mesma pátria e Casa Comum. Esta configuração é uma exigência da globalização, pois esta implica o entrelaçamento de todos com todos dentro de um mesmo e único espaço vital. Mais dia menos dia, uma governança global vai surgir pois é uma urgência impostergável para enfrentar os problemas globais e garantir a sustentabilidade da Terra.

A idéia em si não é nova. Como pensamento, estava presente em Erasmo e em Kant; mas ganhou seus primeiros contornos reais com a Liga das Nações, após a Primeira Guerra mundial e definitivamente depois da Segunda Guerra Mundial com a ONU. Esta não funciona por causa do veto antidemocrático de alguns países que inviabilizam qualquer encaminhamento global contrario a seus interesses. Organismos como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, da Saúde, do Trabalho, das Tarifas, do Comércio (GATT) e a UNESCO expressam a presença de certa governança global.”
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13 Dezembro, 2011

A nova face da luta pelos direitos humanos


João Batista Herkenhoff, Direto da Redação

“A luta pelos Direitos Humanos deixou de ter o caráter solitário que marcava sua presença num passado recente de Brasil. Os que se engajam nesta causa já não recebem, como uma constante, a etiqueta de “subversivo”, ou de “protetor de bandidos”.   
     
Os Direitos Humanos perdem cada vez mais seu caráter individualista e liberal para alcançar uma dimensão social e solidária.  Prestam-se, em contínua evolução, ao papel de fundamentar o catálogo de lutas de todos os oprimidos da Terra.

A luta pelos Direitos da Pessoa Humana, em sociedades como a brasileira, marcada pela exclusão social de milhões de pessoas, é ainda uma luta que rompe com os padrões dominantes, inclusive com os padrões dominantes no pensamento e na prática jurídico-social.
Comecemos por visitar aquele espaço comunitário onde se inicia a gestação, de forma sistemática, da mentalidade dos jovens e dos profissionais de nível superior: o espaço da universidade.

O novo currículo jurídico, em cuja elaboração teve papel relevante a OAB, dá chance a que as faculdades recepcionem os Direitos Humanos, possibilidade essa que  Aurélio Wander Bastos destaca e elogia.

A abertura proposta pela OAB obteve algum resultado, mas não obteve o amplo eco desejável.  Em algumas faculdades está ausente do currículo a matéria “Direitos Humanos” e não há práticas complementares equivalentes.

Observa-se, contudo, uma reação a esse tipo de postura, reação que advém, não dos organismos universitários mas dos próprios estudantes, através dos Centros Acadêmicos.”
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12 Dezembro, 2011

Anoitecendo


Menalton Braff, Revista Bula

“Mais de duas horas aqui sentados neste barranco de rio sem qualquer sinal de vida, qualquer mensagem, as boias ali à toa na superfície da água, nos encaramos desistentes. As promessas não se cumpriam, apesar de nossa paciente insistência. O sol, estilhaçado e frio, cai sobre o remanso de onde esperávamos alguma notícia. É um momento meio triste, pois o dia definha irreversível e com alguma lentidão: morrente. 

Sabe o quê, a gente, pra não perder a viagem, ainda pode nadar um pouco. E as roupas começam a voar para cima dos arbustos. Mas eu não sei nadar muito bem, alega meu amigo para justificar sua relutância em se jogar na água. Mesmo assim, já está pelado, a pele branca arrepiando-se com a brisa que desce das copas escuras, então arroja seu corpo de pele branca na direção da água e levanta um turbilhão de pingos que aproveitam os restos do dia para brilhar no espaço antes de se misturar novamente ao sorvedouro. A água é quase sempre uma alegria do corpo: o prazer despudorado.

Soltei os braços puxando o rio para trás, com a velocidade de quem quer chegar: o fingimento dos músculos. A cabeça ora afundava ora emergia acima da correnteza, os pés em movimentos rápidos, um ritmo só. Atravessei o remanso e o sorvedouro, e de lá, do outro lado, aonde o mato vem molhar os pés, grito para meu amigo que não tente a mesma reta. O caminho mais longo pode ser o mais seguro. Volto na mesma velocidade pela parte mais funda do rio, atravesso a correnteza e subo a uma pedra escura em função de plataforma. Do alto, aonde cheguei em poucos segundos, solto um berro de vitória: guerreiro. Então me jogo novamente no rio.” 
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11 Dezembro, 2011

Tudo na vida é passageiro


Francês adora discutir, mas detesta perder a classe.

Daniel Cariello, Chéri à Paris

- Táxi!
- Ei, ele é meu.
- Não, é meu, eu vi primeiro.
- Você viu primeiro, mas fui eu que chamei antes.
- Você chamou antes, mas eu já pensava em chamá-lo há tempos, mesmo antes dele aparecer. Táxi em Paris é tão raro quanto um sorriso.
- Agora é tarde, é meu.
- Eu não vou sair da frente.
- Ah, vai sim. Senão eu bufo.
- Pois eu sei bufar também, ó: buffff.
- Se é assim, eu digo: você é chato!
- Oh!
- E repito: chato, cha-tão!
- Pois prepare-se que agora vou te ofender pra valer.
- Estou preparado.
- Você é um limitado.
- E você é um tolo.
- Tolo, eu? Melhor do que ser um inútil.
- Prefiro ser inútil do que um bobalhão como o que vejo na minha frente.”
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09 Dezembro, 2011

Todo mundo é bonito


Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Não é bem assim, eu sei. O que é bonito para você? Não sei. Não me perguntem o que vejo em todo mundo que me parece prazeroso, mas eu vejo. Melhor: eu tenho visto. Não é sempre assim. Talvez eu não tenha me apercebido de que os detalhes costumam ser melhores do que o conjunto da obra. Às vezes o contrário: o todo é melhor do que as partes, sem ser sequer a soma delas. Não é. E isso sem falar no jeito, no charme ou na ginga, na aura ou no clima, que fazem com que a beleza aumente ou diminua. Isso sem falar que a trilha sonora melhora muita cena. Que o título amplia o sentido do texto. Que a qualidade da tinta nem sempre sustenta o quadro.

Dia desses falávamos, em dois ou três num conversê à toa, dentro de um carro ou numa mesa de bar, não me recordo, sobre o padrão. Não, não era nada disso. Era um almoço pós-trabalho, num restaurante comum em Brasília, quando tivemos tempo de falar de coisas cotidianas. E ali estávamos dois mineiros, um carioca, um paulista e um paraibano falando da beleza, das pessoas e dos delírios de lindeza. Na diversidade de nós mesmos, ali, naquela mesa tão improvável, já fazíamos parte da amostragem propensa aos gostos e às modalizações mais outras. Um paraibano de olhos claros, um carioca muito magro, um paulista de cabelos lisos, um mineiro forte e uma mineira Frida Kahlo. E dizíamos do que a publicidade reforça que a cultura não deixa. Neste mundo de imprudentes padrões A ou B, a nossa existência genotípica desobediente ajuda a atrapalhar as campanhas para que sejamos mais ou menos iguais. Quem não levou uma foto da atriz ao cabeleireiro? Faça assim, por favor? Meus resultados foram sempre trágicos porque meu cabelo é brasileiro, enquanto a atriz era europeia. Quem não invejou um braço, uma perna ou um peito? Mas quem é que traz essas sensações de que o que eu tenho não serve de modelo? Que o digam estas sobrancelhas atípicas, que às vezes querem que eu desbaste... mas só quando não estão na moda. Minha alegria mais sossegada é quando Malu Mader, Patrícia França ou Marisa Monte estão na moda, saem nas capas e dão entrevistas. As sobrancelhas cheias podem dormir em paz, até a próxima novela.

É dizer que bonita é a lourona peituda. É dizer que bacana é o macho polígamo. É dizer que magrelas são preferíveis a gorduchas. É dizer que cabelos lisos são o sonho de consumo de um país inteiro de encaracoladas. É dizer que homens altos estão em falta. É dizer que não gosto de artifícios e mal uso batom. É dizer que homens preferem as carnes aos ossos. E assim fomos tecendo uma tarde inteira de recomeços sobre a beleza.

Se a publicidade reforça um estilo Juliana Paes ou Carolina Dieckman, nossas vidas vão nos ensinando as rechonchudas que comem hambúrguer com batata frita. É na estria que a mulher se confirma? Não. É na celulite, muito desconhecida dos rapazes, que não sabiam nem diferenciar coisa de outra. São aquelas rajadas ou aquelas bolinhas? Eu quero é pegar.

E lá íamos nós atravessando as bonitezas todas, quando chegamos à negação do padrão publicitário. Sentimos muito, Gisele, mas a minoria é só no banheiro. Aqui pra nós só vemos coxas que balançam e peitos de todos os tamanhos e jeitos. Caímos na gargalhada ao lembrar que sobrancelhas, cílios e bocas têm seus afetos e delícias. Todos.”
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08 Dezembro, 2011

Irmãos*


Urariano Mota, Direto da Redação

Carlos havia, pensava, enterrado os seus mortos - passo necessário para esquecê-los. O problema é que vez por outra as almas dos defuntos voltavam. Batendo à porta, ou esperando-o à frente da pensão. O endereço haviam conseguido pela voz do próprio Carlos, que por excesso de sinceridade fora imprudente. Apareciam, voltavam. Na pessoa do irmão, com os cabelos revoltos e face de adolescente que descera aos infernos. Acompanhado, era fatal, das notícias de um mundo que deveria estar soterrado. Carlos nem precisava ouvi-lo. De olhos fechados, em penitência, calava, que o tema, introdução e desenvolvimento já eram conhecidos. Uma voz, num fluxo de mágoa, descia:

- Carlinhos - dizia-lhe o irmão, coçando-se sucessivas vezes no peito. - Carlinhos, a situação lá em casa tá preta.

E Carlos pontuava, ao ouvir um silêncio de pausa que era mais que um regatinho choroso:

- Sei.

- Eu tenho feito de tudo pra arranjar um emprego - continuava o irmão, e, de olhos fechados, Carlos sabia que esse “tudo” resumia-se à declaração da impossibilidade de conseguir um emprego. - Mas eu tô sem roupa, um emprego bom fica difícil. Os meninos não me emprestam mais as roupas deles, eles pensam que eu tenho sarna.... Carlinhos? ...

- Sei.

- Eu deixei de beber ... assim, eu tô bebendo muito pouco, quase não bebo. Eu só leio Dostoiévski.

- Sei.

- Papai já nem reclama. Ele passa o dia todo calado. Olha, tem dia que eu almoço na casa de Jorge, outro dia eu vou à casa de Bete, pra almoçar eu me viro. Ando a pé, não tenho nem a passagem do ônibus .... Carlinhos? Esse disco de Sidney Miller é bom? Se eu tivesse um toca-discos...Carlinhos? - E agora vinha o desfecho, inevitável: - Você me arruma algum dinheiro?”
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07 Dezembro, 2011

O massacre sexual e vital das crianças e adolescentes no Brasil


Luiz Flávio Gomes e Mariana Cury Bunduky, Última Instância

“Além da constatação de que os adolescentes, entre 12 e 17 anos, são grandes vítimas de homicídio, tendo sido assassinados (no mundo) 81 mil só em 2009, a Unicef, por meio do estudo Situação da Adolescência Brasileira 2011 – O direito de ser adolescente também constatou a alta vulnerabilidade das crianças e adolescentes aos crimes sexuais. 

No nosso país as meninas são as principais vítimas dessa violência, representando 80% das vítimas de exploração sexual, 74% das vítimas de tráfico de crianças e adolescentes, 79% das vítimas de abuso sexual e 73% das vítimas de pornografia, de acordo com dados da Secretaria dos Direitos Humanos/Disque-Denúncia. 

O estarrecedor é que se trata de agressor, em geral, parente, cônjuge ou pai do agredido, trazendo além de danos físicos, graves danos psicológicos às vítimas. Segundo a Unicef, ainda, as agressões não estão apenas ligadas à pobreza ou à exclusão social dos ofendidos, mas se relacionam profundamente com as relações de poder e domínio do adulto sobre a criança e do homem sobre a mulher. 

O abuso sexual é a espécie de violência mais recorrente, representando 65% dos casos registrados em 2010, seguida da exploração sexual, que representou 34% do total.”
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06 Dezembro, 2011

Marcel Proust e o tempo reencontrado


Jardel Dias Cavalcanti, Revista Bula

“Com o romance Em Busca do Tempo Perdido (À la Recherche du Temps Perdu, no seu título original), Marcel Proust constrói, em sete volumes, um dos maiores monumentos literários do ocidente. No seu romance o autor perpassa, acima de tudo, a vida interior, as sensações, as paixões, sentimentos e emoções do narrador e demais personagens, todos implacavelmente analisados pelo escritor.

Um dos aspectos mais revolucionários na elaboração de Em Busca do Tempo Perdido é o uso que Proust faz da memória involuntária para a construção do seu romance.

Para Proust não existe forma de manter a constância do EU se não através da memória. Pois se o tempo destrói, com certeza a memória conserva. Para o escritor tudo está no pretérito, sendo reencontrado e salvo do aniquilamento pelas potências recriadoras da memória.

Os momentos mais intensos da vida passaram, desapareceram no passado. O romance proustiano quer nos dizer que esses momentos podem ser indestrutíveis se um incidente fortuito (um barulho, um perfume, uma melodia) reanimar esse passado.

Diz Proust em O Tempo Reencontrado: "Tal nome lido num livro de outrora contém entre suas sílabas o vento rápido e o sol brilhante que havia quando líamos. Na menor sensação produzida pelo mais simples alimento, pelo cheiro do café, reencontramos essa vaga experiência de um belo tempo que constantemente nos sorria quando o dia estava ainda intacto e pleno, na incerteza do céu matinal. Uma hora é um vazo cheio de perfumes, de sons, de momentos, de humores variados, de climas".

No seu livro Contre Saint Beuve, Proust afirma que as "impressões passadas" formam a "única matéria da sua arte". Diz ainda: "parte do meu livro é uma parte da minha vida de que me havia esquecido e que, de repente, reencontro ao comer um pouco de madaleine mergulhada no chá". Podemos assim ver Em Busca do Tempo Perdido como a reconstituição do passado pala memória involuntária.”
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05 Dezembro, 2011

Despertar a dimensão xamânica


“O xamã vive um estado de consciência singular que o faz entrar em contato íntimo com as energias cósmicas”

Leonardo Boff, Congresso em Foco

A categoria sustentabilidade, tomada em seu sentido amplo e não apenas reduzida ao desenvolvimento, significa toda a ação que visa a manter os seres na existência, porque têm direito de coexistir conosco e só a partir desta convivência utilizamos com sobriedade e respeito uma porção deles para atender às nossas necessidades, e preservando-os também para as futuras gerações. Dentro deste conceito, cabe também o universo. Sabemos hoje pela nova cosmologia que somos feitos de pó das estrelas e somos sustentados e atravessados pela inominável Energia de Fundo que tudo alimenta e que se desdobra nas quatro forças – a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e forte – que, agindo sempre juntas, nos mantém assim como somos.

Como seres conscientes e inteligentes, temos o nosso lugar e nossa função dentro do processo cosmogênico. Se não somos o centro de tudo, seguramente somos uma daquelas pontas avançadas pelas quais o universo se volta sobre si mesmo, vale dizer, se torna consciente. O princípio andrópico fraco nos concede dizer que, para sermos o que somos, todas as energias e processos da evolução se organizaram de forma tão articulada e sutil que permitiram o nosso surgimento, caso contrário não estaria aqui escrevendo agora.

Através de nós, o universo e a Terra se vêem e se contemplam a si mesmos. A vista surgiu há 600 milhões de anos. Até lá, a Terra era cega. O céu profundo e estrelado, as Cataratas do Iguaçu, onde escrevo agora, o verdor das florestas, aqui ao lado, não podiam ser vistos. Pela nossa vista, a Terra e o universo podem ver toda essa indescritível beleza.

Os povos originários,  dos andinos aos samis do Ártico, se sentiam unidos ao universo, como irmãos e irmãs das estrelas, formando uma grande família cósmica. Nós perdemos esse sentimento de mútua pertença. Eles sentiam que forças cósmicas equilibravam o curso de todos os seres e atuavam em sua interioridade. Viver consoante essas energias universais era levar uma vida sustentável, serena e cheia de sentido.”
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04 Dezembro, 2011

Educação em 140 caracteres


Alexandre Sayad, Aprendiz / Envolverde

“O que mais se discute, e se reflete, em relação à educação brasileira é a escassez – em todas as áreas. As greves de educadores, que minam o estudo do mais pobres, tem como pano de fundo a reivindicação de um salário menos ralo; se os jovens pudessem entrar em greve, pediriam certamente aulas menos esporádicas. Os secretários municipais, por sua vez, culpam a falta de qualidade do ensino pela escassez de recursos repassados da União, já intelectuais bradam contra a insuficiente porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) para a área.

Na educação, menos nunca significou mais. No entanto, no combate à falta de sentido que a escola tem hoje para o aluno, há experiências em que a teoria minimalista pode se valer.

O escritor José Santos é um educador que buscou na economia de palavras, e nos caminhos da comunicação, uma maneira inteligente e sensível de unir aprendizado, identidade e sentido. Suas oficinas itinerantes de “micropoemas” valorizam a descoberta do verso pelas crianças e jovens – e o uso da poesia como expressão.

O autor usa delicadeza e para desvelar os segredos de poemas curtos, inspirados muitas vezes na essência dos haikais japoneses. Mais que isso, ele estimula os estudantes a produzirem os seus próprios, que devem sintetizar desejos e refletir a vida de cada um – inclusive seu entorno comunitário.”
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02 Dezembro, 2011

O que você fez em 2011?


Edival Lourenço, Revista Bula

“Parece que foi ainda agora que a gente sugeriu 101 coisas para fazer em 2011. Mas 2011 já vai se encaminhando para o encerramento. Assim se passa um ano, a juventude, a maturidade, a vida, enfim. De vez em quando é bom dar uma paradinha e conferir como vai o andamento das coisas. É claro que a lista tem propósitos mais de divertir do que de edificar. Mesmo assim, vale a pena revê-la e conferir o que você pensou em fazer e o que de fato fez. E eventualmente melhorar o desempenho no mês que ainda resta.

101 coisas para fazer em 2011 

1 — colocar esta lista em ordem;

2 — fazer um checkup;

3 — fazer um exame de consciência;

4 — deixar o script alheio e viver o seu próprio;

5 — derrubar uma árvore (que ameaça cair sobre sua casa);

6 — trocar a fiação da casa (antes que ela incendeie);

7 — clarear os dentes;

8 — clarear as vistas;

9 – retirar as manchas da pele;

10 — retirar (ou assumir) as manchas da personalidade;

11 — retirar os caroços do corpo (exceto os essenciais);

12 — indignar-se com a injustiça difusa;

13 — combater as injustiças objetivas;

14 — ver o eclipse solar;

15 — retirar suas ideias do eclipse;

16 — deixar de querer ser bom, segundo a concepção do guru

17 — mandar o guru praquele lugar;

18 — dizer não e sim com a mesma naturalidade;

19 — cortar os punhos de alguma rede social;

20 — redescobrir a força existencial do abraço;

21 — recompor a ternura com o cônjuge;

22 — se não for possível, compor uma separação amigável;

23 — salvar-se dos escombros das necessidades impostas;

24 — viver a sua vida com dignidade com 50% a menos de lixo;

25 — salvar o planeta na cota-parte que lhe cabe;

26 — brincar com o filho sem fazer dele um bibelô;

27 — repreender o filho com a mesma naturalidade com que o estimula;

28 — tomar um porre;

29 — não fazer do porre uma rotina;

30 — não querer tirar lições do porre;”
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01 Dezembro, 2011

Alguns sonham, outros não


Sócrates, CartaCapital

“Eu tenho um sonho.” Essa frase praticamente define a ação do grande líder Martin Luther King (o rei da causa negra, eu diria), que passou a vida lutando pela igualdade de direitos entre brancos e negros nos Estados Unidos, em um tempo que privilegiava o homem branco no transporte, nas escolas, na cidadania. Foi assassinado em 1968 exatamente por lutar pelas conquistas que ele ajudou a serem alcançadas. Com destemor e liderança, enfrentou os maiores obstáculos, insurgiu-se contra a guerra e a discriminação. Marcou época em um período de grandes transformações sociais.

O mesmo ano de 1968 ficou marcado pelas manifestações dos estudantes na Sorbonne parisiense, que ergueram barricadas em sua luta por mudanças. “Nós somos judeo-alemães”, era o grito que ecoava; queriam demonstrar que todos somos iguais, sejamos negros, sejamos árabes ou brancos. Esse era o slogan daquela juventude que lutava por liberdade, autonomia e independência. Provocaram muitas mudanças, colocaram de cabeça para baixo qualquer tradição ou vício social. Antes, as mulheres eram tratadas como menores e as opções sexuais como fantoches. Daniel Cohn-Bendit simbolizou aquele movimento. Dani,comotodos os outros, também tinha um sonho.

Ellen Sirleaf, a primeira mulher a ser eleita presidente da Libéria; Leymah Gbowee, também liberiana e que liderou a chamada greve de sexo de suas compatriotas; e Tawakul Karman, ativista iemenita, figura fundamental no país onde praticamente se iniciou a Primavera Árabe, que derrubou boa parte dos antigos regimes de várias nações árabes neste ano, foram agraciadas pelo Nobel da Paz de 2011 por suas lutas pelos direitos das mulheres africanas, pela paz e pela democracia. Essas fortes mulheres também têm um sonho.”
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