30 Novembro, 2009

A paranoia dos outros

Examinar a vida alheia pode provocar a transformação introspectiva do observador

Túlio Moreira Rocha, Revista Bula

“A Vida dos Outros” (“Das Leben der Anderen”, 2006) é um filme erguido a partir da desconstrução de visões do mundo. Neste drama ambientado na Berlim Oriental em meados dos anos 1980, ocorre a tomada de consciência em Wiesler (Ulrich Mühe), propiciada pela observação. Assim como muitos outros filmes algo metalinguísticos – já que observação é a essência do cinema –, este de Florian Henckel von Donnersmarck se baseia na transformação provocada nas atitudes de um indivíduo que se liberta da alienação após se dedicar ao voyeurismo.

Retrato de uma época de evidente paranoia, o filme acompanha a saga de Wiesler, agente da Stasi, polícia secreta da República Democrática Alemã (RDA). Altamente comprometido com os preceitos do Estado que representa, ele é encarregado de vigiar o escritor Georg Dreyman (Sebastian Koch), intelectual aparentemente satisfeito com os rumos tomados pelo governo comunista. O contato com Dreyman, mesmo à distância, desperta em Wiesler outra noção do contexto em que está inserido. O espião, acostumado a privar a liberdade alheia em nome de uma fé cega no regime socialista, passa a perceber que ele também não é livre, tampouco consegue impor à sua vida os verdadeiros anseios de sua personalidade.

Donnersmarck, estreante em longas-metragens, é eficaz ao filmar o processo de mudança do protagonista. A câmera do diretor, espreitando do alto, é o observador que segue o observador. A princípio, Wiesler é quase um robô. Não sente sono, não demonstra fadiga ou qualquer tipo de reação emocional. Os conflitos e as fraquezas de Dreyman e das pessoas que convivem com o escritor despertam no agente sua própria humanidade. Ele é contagiado pela esperança em uma sociedade menos engessada e repressora. Mesmo hesitante no início, Wiesler estabelece uma intimidade com aqueles subversivos que, aos poucos, faz com que ele se torne capaz de cochilar e até mesmo de elogiar um relatório de seu subordinado.”
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Direita repete a velha cantilena

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Para desespero dos oposicionistas de todas as matizes, o governo de Lula está na ordem do dia em muitos rincões deste Planeta. Aqui em Montevidéu, por exemplo, uma das primeiras perguntas dos amigos e de quem fica sabendo que você é brasileiro é perguntar sobre Lula, Copa do Mundo e Olimpíadas 2016. Há quase uma unanimidade em relação à importância hoje do Brasil no cenário internacional.

Tudo isso me ocorre depois de acompanhar os últimos lances de política externa do governo, desde a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad até os questionamentos de Lula em relação ao posicionamento de Barack Obama na questão do meio ambiente. Sobre Ahmadinejad me veio à lembrança a entrevista feita por Jô Soares com o âncora William Waack e os comentários do jornalista e do próprio entrevistador sobre o vilão que veio do Irã. Na verdade, não se pode nem considerar o encontro Waack-Soares como uma entrevista, mas sim um exemplo concreto de utilização do jornalismo como instrumento para desinformação e acirramento de preconceitos, no caso contra o islamismo.

Não se trata de fazer um juízo de valores sobre Ahmadinejad, por sinal uma figura polêmica, mas que quando passou pelo Brasil fez declarações equilibradas que até desnortearam os seus adversários, que tiveram dificuldades em responder. Waak, por exemplo, chegou a dizer que o dirigente iraniano recuou em algumas questões. Lula deixou bem claro a Ahmadinejad posições opostas as dele em relação a várias questões relacionadas com o conflito palestino-israelense. O Brasil credencia-se como país importante nas gestões que visam a terminar com o banho de sangue que jorra no Oriente Médio há pelo menos 60 anos. Dialoga com palestinos, israelenses e persas. Aliás, no tal programa do Jô, deliberadamente ou não o “entrevistador” de Wiliam Waack em um só momento assinalou que iranianos não são árabes, colocando-os como se o fossem. Fica o registro.

Neste domingo, 29, à noite, se conhecerá o resultado do segundo turno da eleição presidencial uruguaia. Todas as pesquisas indicam a vitória do candidato da Frente Ampla, José Pepe Mujica por uma margem entre sete e nove pontos. E quando todos os institutos de pesquisa apresentam tais índices e com um pequeno número de indecisos (entre quatro e sete por cento) todos acreditam que não haverá surpresas. Só mesmo o candidato de direita, Luis Alberto Lacalle andou falando em “revolução silenciosa”, ou seja, que uma parte ponderável do eleitorado está indeciso e não apareceu nas pesquisas, mas na última hora vai decidir por ele. Nesta altura do campeonato, comentam alguns analistas, é o mesmo que acreditar em Papai Noel... Declaração desse tipo faz parte do jogo de não deixar os militantes desestimulados e evitar até que eles deixem de votar.”
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28 Novembro, 2009

Benevides: Mesmo em uma guerra, o torturador seria punido

Carolina Oms, Terra Magazine

"Mesmo em uma guerra oficial, o torturador seria punido", afirma a socióloga e militante dos Direitos Humanos Maria Victoria Benevides que lançou este mês, o livro "Fé na Luta - A Comissão Justiça e Paz de São Paulo, da ditadura à democratização", que trata da trajetória CJP-SP, criada em agosto de 1972, por Dom Paulo Evaristo Arns.

Quando a Comissão iniciou suas atividades, em abril de 1971, seus membros já eram intensamente solicitados para proteger perseguidos políticos. A Comissão assumiu inicialmente o nome de "Comissão Pontifícia Justiça e Paz - Seção Brasileira". Ao se definir como uma extensão da Comissão do Vaticano, ela se protegia da repressão militar, para poder defender os direitos violados pelo regime.

Maria Victoria Benevides explica a importância desse respaldo:

- A comissão sempre foi suspeita, mas ela tinha um apoio. Ela se identificava de tal maneira com o arcebispo de São Paulo, que havia essa proteção, inclusive com apoio no mundo, o papa estava atento permanentemente.

Durante essa época, a Comissão Justiça e Paz, segundo Benevides, foi a única porta que podia receber os familiares, os perseguidos, inclusive os dos países do cone sul, também vítimas de ditaduras militares.

Atualmente a CJP-SP tem atuado, principalmente, em três frentes: Direito à memória e à verdade; A mobilização por uma reforma política democrática e com efetiva participação popular; e a educação em direitos humanos. A socióloga, destaca a luta pelo Direito à memória e à verdade, em relação aos crimes da ditadura militar:

- Não aceitamos, em hipótese alguma, que tais crimes possam ser considerados 'crimes políticos', isso seria uma afronta à Constituição e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. São crimes contra a humanidade e, portanto, imprescritíveis.

E reforça, alfinetando o ministro da Defesa, Nelson Jobim:

- Mesmo numa guerra oficial, isso seria punido. Não há maneira de querer argumentar com a lei da anistia, é só interpretá-la corretamente que isso ficará claro. Eu discordo inteiramente da posição do ministro Jobim, de que a tortura anistiou os dois lados: Tortura, assassinato, ocultação de cadáver, não tem nada a ver com a repressão legal a grupo políticos hostis ao regime.”
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Seu Aristides: o vilão do filme

Vitor Hugo Soares, Terra Magazine

“De Salvador acompanho o bafafá político e cinematográfico em Brasília em torno do filme "Lula, o filho do Brasil" e logo estou de novo voando nas asas da memória para Paulo Afonso, na beira do São Francisco, o rio da minha aldeia. Estertores dramáticos do governo de Getúlio Vargas, tempo da construção da primeira grande hidrelétrica da CHESF no Nordeste, que o presidente Café Filho inaugurou no começo dos anos 50, em dia para nunca esquecer.

Então, o gaúcho Vargas já havia disparado o tiro na cabeça no Palácio do Catete, mas, mesmo sepultado, seguia sendo "o cara" (na época se chamava "o maioral") de um Brasil comovido e indignado. Paulo Afonso era ainda distrito de Glória, cidade onde eu morava. Ali estava um dos maiores formigueiros de operários e engenheiros do País, vindos de todas as partes - até da Rússia - para trabalhar na mega-construção, "orgulho do operariado e da engenharia do Brasil", como proclamava a propaganda oficial.

Na Paulo Afonso daquele período, dois belos e modernos cinemas (com cinemascope e tudo) - o Cine Poty, da vila dos operários, e o CPA, sala frequentada pelos engenheiros e gente grande do lugar, do outro lado do arame que na época dividia a cidade. Eram meus locais preferidos. Dois fantásticos laboratórios de sonhos e de observações de reações humanas, políticas e sociais.

Cabeça já para a esquerda, graças à congênita tendência familiar, e a ajuda das doutrinações de Luiz Gonzaga. Não o notável sanfoneiro de Exu, que também passava muito por lá e virara uma espécie de semideus depois de gravar a antológica música sobre o lugar: "Olhando prá Paulo Afonso, eu louvo nosso engenheiro/ louvo nosso 'cassaco', caboclo bom brasileiro/ Eu vejo o Nordeste erguendo a bandeira/ tem ordem e progressso a nação brasileira/E esta usina feliz mensageira/ vivendo da força da cachoeira". No final, o refrão ufanista empolgava: "Meu Brasil vai, Meu Brasil vai!"
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Árvore milionária e um Feliz Natal... pra quem?

Elaine Tavares, Adital

“Já vem chegando o Natal e, nas ruas da cidade, já se pode notar aquele agitar frenético das promoções, dos descontos e das liquidações. Tudo para alavancar as comprar e fazer o comércio aumentar o seu bolo de lucros. As gentes já circulam irrequietas, fazendo cálculos para gastar o décimo terceiro com alguma coisa que o desejo vem consumindo desde há meses e que, com a crise, não conseguiram comprar. Agora, quem sabe em 24 vezes... Há uma pressa louca em consumir, buscar presentes para amigos secretos, nem tão secretos, amores, filhos etc... E a nave capitalista vai, estraçalhando as finanças de gente que já ganha tão pouco. Mas, fazer o quê? A pedagogia da sedução metralha pela televisão todos os sonhos de consumo. Mais-valia ideológica sugando o sangue do povo.

Nestes dias, quase ninguém mais se lembra de que o natal é o dia sagrado do aniversário de Jesus, na crença cristã. Dia de oração, de momentos contemplativos. O Papai Noel só entrou na parada bem depois, em 1931, quando a Coca-Cola decidiu usar uma linda história de um bispo turco que distribuía presentes aos pobres nesta época do ano - São Nicolau - para aquecer as vendas. Colocaram nele uma roupa vermelha, as cores da empresa e difundiram a lenda do bom velhinho. Desde então, a figura do menininho Jesus começou a perder espaço diante da sanha pelos presentes.

A cidade de Florianópolis tem como tradição encher suas ruas de luzes no natal, assim como grande parte das cidades do mundo ocidental/cristão. O povo gosta, fica bonito. Mas as gentes se esquecem que isso custa dinheiro, e muito, um dinheiro que de algum lugar sai. É o caso da proposta da construção de uma árvore de natal gigante, de 60 metros, toda em alumínio, que será "oferecida" ao povo nas festas deste ano. O contrato está no Diário Oficial do Município do dia 16 de novembro. É uma árvore-palco que abrigará as festanças do dia de natal. A bichinha custará a bagatela de três milhões e setecentos mil reais. Uma dinheirama. A pergunta é: vale a pena isso aí?”
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26 Novembro, 2009

A democracia pós-moderna

A democracia pós-moderna é "democracia sem democratas". Substituiu o sujeito da intimidade por uma identidade pessoal sem pessoa, baseada não em valores morais admiráveis e dignos de renome, mas no modelo das celebridades e dos "conselheiros em comunicação".

Olgária Mattos, Carta Maior

A democracia moderna se expressa na idéia de espaço público, cuja certidão de nascimento foi a polis grega. Inventora da política, esta significou o advento da isonomia (as mesmas regras válidas para todos os cidadãos), da isegoria (todos podendo tomar a palavra em público) e da democracia, porque todos igualmente legisladores. Findava então o poder privado, cujos modelos foram o pater familias, o comandante militar e o chefe religioso. Por isso, a democracia moderna se fundava em leis pan-inclusivas e universalizantes, baseadas no indivíduo considerado racional e livre. Suas instituições mediavam conflitos e acordos, como partidos, sindicatos, federações patronais, movimentos sociais e organizações de base, que produziam uma determinada representação de si constituindo, assim, sua identidade.

A democracia pós-moderna é "democracia sem democratas". Substituiu o sujeito da intimidade por uma identidade pessoal sem pessoa, baseada não em valores morais admiráveis e dignos de renome - como Sócrates que, por seu modo de vida filosófico, tornou-se o patrono da filosofia -, mas no modelo das celebridades, a que, na política, correspondem "conselheiros em comunicação". Se a democracia moderna valia-se do “decoro e do discreto”, estes indicavam o que deveria estar “ fora do campo de visão”— o obsceno, o “excluído da cena, o intolerável ao olhar ou ao pudor (assassinatos, grandes deformidades corporais, crueldades, pornografia, sentimentos pessoais, emoções, preferências religiosas ou sexuais). A democracia pós-moderna, ao contrário, promove a desinibição, triunfando a visibilidade total, uma vez que tudo merece ser visto, tanto o palco quanto os bastidores, o corpo, a consciência e o inconsciente. Da sala de estar ao quarto de dormir, tudo deve ser “democratizado” porque neles também há injustiça, poder e dominação, como na sociedade.

Desaparece a Lei moderna que postulava os homens responsáveis e iguais, de modo que a justiça pós-moderna os entende “particularizados” em grupos. Porque a pós-modernidade é a da sociedade de massa, do consumo e do espetáculo, a individualidade se faz segundo o que Freud denominou “narcisismo das pequenas diferenças” e René Girard de “rivalidade mimética”. Todos desejam as mesmas coisas porque um outro já as desejou antes de nós e é seu possuidor, devendo, como concorrente, ser destruído.”
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Novas provas de um crime

Mauro Santayana, JB Online

"Começa-se a provar, agora, o que muitos sabiam, e alguns de nós denunciamos: antes dos atentados de 11 de Setembro de há oito anos, os Estados Unidos já planejavam invadir o Iraque e eliminar Saddam Hussein. Entre os mais irados defensores dessa decisão de extermínio se encontrava a senhora Condoleeza Rice. É provável que, daqui a pouco, saibamos muito mais sobre o atentado contra o World Trade Center, e é bom preparar o espírito para o horror que nos podem trazer as revelações.

Não é segredo para as pessoas bem informadas que a eleição do segundo Bush foi precedida de uma conspiração chefiada por Paul Wolfowitz, Richard Perle, Donald Rumsfeld e Dick Chenney, com o famoso Projeto para o Novo Século Americano, elaborado ainda em 1997. O documento é claro em seu objetivo de estabelecer um duradouro império dos Estados Unidos sobre o mundo, ao aproveitar-se da queda do sistema socialista. Mas previne que, para seu êxito, faltaria um fato extraordinário e dramático que empolgasse e unisse toda a sociedade americana. Esse fato ocorreu, menos de nove meses depois da posse de Bush, com os atentados de 11 de Setembro. Como as coincidências têm raízes – conforme o estudo de Koestler – é preciso cavar no solo da História para ver as que ligam os falcões de 1997 à destruição das torres de Manhattan quatro anos depois.

Agora surgem novas provas (porque as evidências já haviam sido identificadas) de que Saddam Hussein já desmantelara todas as suas armas de destruição em massa, desde 1991. O inquérito britânico sobre o envolvimento do país na guerra contra o Iraque, chefiado por John Chilcot, membro ativo do Conselho Privado da rainha, mostra que, muito antes de setembro de 2001, membros dos serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Inglaterra discutiram como eliminar Saddam, mas seus superiores os dissuadiram, porque isso estava contra a lei. Meses antes dos ataques de setembro, o encarregado pela ONU de inspecionar o desarmamento do Iraque, Hans Blix, comunicara ao governo britânico que nada havia a temer, e que Saddam acabara com as instalações suspeitas. Ainda assim, criou-se a fantástica versão de que ele dispunha de meios para, em 45 minutos, destruir qualquer um dos países vizinhos, insinuando-se que o alvo seria Israel.”
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25 Novembro, 2009

Juventude Transviada

Juventude Transviada, o clássico de Nicholas Ray, é um retrato-síntese de uma geração que buscou consolo na fuga e na rebeldia

Túlio Moreira Rocha, Revista Bula

A sequência inicial de “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause, 1955) é emblemática. Jim Stark (James Dean) trata carinhosamente um boneco, acolhendo-o com cuidado paternal. Ébrio, ele protege o brinquedo da mesma forma com que gostaria de ser recebido naquele momento. Trata-se de uma nítida referência ao estado de desamparo por que passa o personagem. Ao longo do filme, o diretor Nicholas Ray constrói uma sensível história que reflete as angústias e os sentimentos vividos pelos jovens da metade do século XX.

Ambientadas numa delegacia, as cenas que se seguem à apresentação de Jim Stark são uma obra-prima à parte, e explicam o espírito do cinema clássico norte-americano. Ray exerce aqui o papel de um investigador histórico, absolutamente eficaz ao solidificar o contexto cultural que pretende captar, interpretar e devolver para o espectador. Recostados em cantos distintos do cenário, os três personagens principais são a demonstração legítima da identidade daquela geração perdida.

Filhos da paranóia surgida com a Guerra Fria, criados por pais distantes que tentam compensar a ausência com presentes e mimos, Jim Stark, Judy (Natalie Wood) e Plato (Sal Mineo) fazem parte de uma juventude relegada pelo mundo dos adultos, e que acaba recorrendo à aceitação coletiva e se fechando em grupos de interesses e afinidades em comum. Na delegacia, Jim imita uma sirene, pelo simples prazer de incomodar os que ignoram seu inconformismo. Judy se sente preterida pelo pai, que reprova seu comportamento extravagante e suas companhias mais próximas. O garoto Plato, por sua vez, desconta em atitudes violentas e ressentimentos agressivos a frustração pelo abandono dos pais. Os três querem fugir de casa e perambular por aí, sem rumo e sem prestar conta das coisas. Eles não precisam de sanduíches de pasta de amendoim ou de bicicletas novas. Querem apenas um pouco de compreensão. No fundo, são indefesos e carentes.”
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24 Novembro, 2009

O encanto dos Orixás

Leonardo Boff, Adital

“Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuína brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.

O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.

O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento incessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso país criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteísmo, mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.”
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23 Novembro, 2009

Por trás das pirâmides, lixo


Marta Reis, CartaCapital

"A menos de vinte minutos das pirâmides de Gizé, principal ponto turístico do Egito, está um lugar que não figura entre os cartões-postais. A Cidade do Lixo é como um canto escondido da capital, Cairo, um tanto por suas imagens chocantes e seus odores repugnantes, mas também por ser a casa da minoria cristã do país. Cerca de 30 mil habitantes vivem praticamente isolados, a coletar e transformar lixo em mercadoria. São os zabbalin, o povo que faz do lixo a sua própria identidade.

“Sou muito feliz e não penso em sair daqui. Esta é a minha vida: encontrar frutas e alimentos em bom estado nestes restos orgânicos”, explica uma das moradoras do bairro, enquanto enfia os braços num saco preto, já tomado por moscas.

O cheiro é de revirar o estômago, mas a mulher manuseia o saco com naturalidade. Os zabbalin parecem nem se importar com as montanhas de dejetos que invadem suas casas. Tudo que é descartado pela população do Cairo vai para a Cidade do Lixo e por vezes até vira brinquedo para as crianças ou objeto de decoração no lar dos zabbalin.

A cidade está localizada na base da montanha Mokattam, que significa “montanha partida”. Segundo uma lenda local, foi palco de um milagre no século X. Naquela época, os cristãos foram desafiados a provar o poder de sua religião. Caso contrário, seriam expulsos do país ou mortos. O desafio: mover a montanha ao fim de três dias apenas com a força da fé.

Centenas de bispos e arcebispos se aglomeraram ao pé da montanha para rezar, mas, diz a lenda, foi um sapateiro chamado Simão quem operou o milagre. A Mokattam se abriu e foi possível ver o sol do outro lado. Depois disso, muitos muçulmanos teriam se convertido ao cristianismo.

Para celebrar o milagre, os cristãos construíram no interior da montanha a Igreja de São Simão, com o formato semelhante ao de uma caverna. As paredes de pedra ganharam ilustrações que detalham o feito do sapateiro. A igreja é bonita e limpa, bem diferente do bairro que dorme aos seus pés.”
Foto: IGFM
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22 Novembro, 2009

Neoliberalismo e o fim da política

"São as empresas soberanas que administram as políticas de sua conveniência, sobretudo as públicas, da TV digital à gestão do aterro sanitário social onde nos metemos até o pescoço"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Nesta Semana da Consciência Negra, talvez seja preciso invocar a evolução da crescente, simétrica e oposta Inconsciência Branca, no mais puro e cocainômano sentido neonazista da cor - ou ausência dela –, o que dá uma inconsistência superlativizada de vários graus, alinhada com todos os preconceitos, racismos, discriminações e assédios, sejam morais, genéricos ou etários.

Reflexão com dor é ironia que custa os olhos da cara, daí a necessidade de voltar à tese da irrelevância da política, aliás atribuída à supracitada inconsciência cínica de uma camada dominante – branquíssima, esta – que sequer se dá mais ao trabalho de se levar a sério, conectada a um capitalismo que dispensa qualquer institucionalidade extra-econômica, salvo a penal, e não por acaso em expansão turbinada.

Então vou me apropriar dumas reflexões de Paulo Arantes – para não ficar citando academicamente, tirando e botando aspas, engessamentos à parte que não combinam com este espaço informal (onde se mata um leão por dia e é preciso ser genial) e espantam o leitor. Quer dizer, vou parafraseá-lo descaradamente, ele e seu estilo encantadoramente virulento.

A certa altura do texto, Arantes, questionado sobre se a política teria perdido a capacidade de dirigir a sociedade, respondeu que algumas revisões ingratas precisariam ser feitas, entre elas, a verificação de que o discurso político dos direitos de cidadania (degradado pela onguinização canalha de mil parcerias fajutas) estava correndo por uma pista inexistente; de que o neoliberalismo não era apenas uma política econômica perversa a ser descartada assim que a correlação de forças fosse menos adversa e substituída por uma macroeconomia de esquerda que resgatasse o Banco Central do seu cativeiro no mercado etc. E por quê?

Na sociedade moldada pelo modo capitalista de produção, ele explica, vigora a lei da troca de equivalente por equivalente, salvo no que diz respeito à força de trabalho, cujo consumo produz um excedente que faz o bolo do capital crescer. Ocultando o mundo subterrâneo da produção, vale para todo o resto o princípio da igualdade, ancorado na troca generalizada, da esfera da circulação de mercadorias ao Parlamento, norma que o movimento histórico da classe trabalhadora tratou de universalizar por meio da luta política contra todos os obstáculos e anacronismos que a burguesia ia botando no caminho. Mas aqui há uma ruptura histórica entre o mundo do trabalho e a centralidade moderna da política.”
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A Arte de Ser Feliz

Frei Betto, Adital

"Recebi de uma amiga este apelo: "Existe alguma receita capaz de fazer uma pessoa se apaixonar por algo - seja o que for??? Nem precisa ser coisa transcendental. Algo que dê um sentido à vida. Não que a vida seja desprovida de sentido, mas desprovida de sabor.
"É claro que estou me referindo a mim, e posso até estar sendo exigente demais, ou cruel demais com a minha pessoa. Mas é esta a reflexão de hoje, de agora. Me dou conta de que não tenho paixão alguma. Pelo menos é o que a minha mente me fala e o que percebo. Isso me faz sentir falta de algo...

"Tem gente que gosta de corrida de carros, de cavalos, de barcos. Gente que ama fazer tricô, escalar montanhas, meditar hoooooras a fio; gosta de ler, de ser médico, jornalista, político até. Puxa vida... como admiro isso. A vida frenética das cidades pulsa em algumas pessoas, e a vida pacata do campo, em outras. Tenho alegrias e uma normalidade ética permeada por um bom senso bem bacana. Mas eu sinto (até irracionalmente), de forma muito forte, a impermanência.
"Um dia você disse que gostaria de ser semente. Refleti sobre e... nada aconteceu. O ritual inevitável da convivência e tudo o que envolve as relações interpessoais, somados a um bom astral, já cuidam disso. Queria me apaixonar. Ter um hobby. Qualquer um.

"Alegrias são muitas. Tenho o sorriso fácil... Mas a felicidade é coisa rara, de frágeis e preciosos momentos. Tenho uma implicância danada com aquela música do Zeca Pagodinho que diz: "...deixa a vida me levar...; vida leva eu..." Quero sentir um sentido. A vida, o planeta, a diversidade religiosa, etc, são assombrosos de tanto infinito. Mas permaneço no raso. Sem querer explorar o seu tempo e os seus insights... digo: gostaria de saber o que você teria a dizer sobre isso."

Fiquei pensativo. Há pessoas que me julgam portador de respostas para os impasses da vida. Mal sabem elas quanto acumulo em minha trajetória. Contudo, sei o que é felicidade. Difere da alegria. Felicidade é um estado de espírito, é estar bem consigo, com a natureza, com Deus. Com os outros, nem sempre. As relações humanas são amorosamente conflitivas. Invejas, mágoas, disputas, mal-entendidos, são pedras no sapato.”
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21 Novembro, 2009

Aldo Moro, Battisti e o “compromisso histórico”

Mauro Santayana, JB Online

“O caso Battisti evoca trágica experiência política do século passado. Os episódios de 1978, que causaram a morte de Aldo Moro, ocorreram diante da insanidade dos extremos e da incapacidade de as elites se reunirem no centro político, que Berliguer e Moro propunham com o seu Compromisso Histórico.

Moro era um católico que estava à esquerda de De Gasperi e de Giulio Andreotti, próximo de pensadores franceses identificados na esquerda, como Jacques Maritain – que provavelmente conhecera, quando o filósofo tomista fora embaixador junto ao Vaticano, entre 1945 e 1948. Ele temia que o confronto ideológico, no movimento católico, impedisse o governo de centro na jovem República italiana. Como líder de sua corrente – a dos “doroteanos” – que dispunha de ponderável votação, Moro participou dos governos democrata-cristãos até 1976, quando a ala direita se impôs com a entrega do governo a Giulio Andreotti, seu principal adversário. Entre 1976 e 1978, Moro articulou a retomada do entendimento entre os comunistas e os democrata-cristãos em busca de uma saída histórica, proposta por Enrico Berlinguer em 1973. O entendimento era combatido com vigor por Andreotti, pelo Vaticano, pela Máfia e pelos Estados Unidos.

Havia 12 anos que, com a criação da República, e o confronto entre as duas correntes partidárias, sob a influência das duas superpotências, a Itália estivera à margem da guerra civil. Em 1978 – com a reabilitação do pensamento de Gramsci, e dez anos depois da invasão de Praga, que eles combateram – os comunistas italianos já estavam muito mais distantes dos soviéticos na construção do diálogo com os cristãos e do eurocomunismo. A situação estava madura para que a Itália se livrasse dos efeitos da Guerra Fria e buscasse um projeto nacional de desenvolvimento e de presença mais forte na Comunidade Europeia que se formava. Nos meses que antecedem o sequestro e a morte de Aldo Moro surge o estranho movimento das Brigadas Vermelhas. O grupo, conforme voz corrente, era liderado pela chefia misteriosa de um Gran Vecchio. Embora, na época, Andreotti não tivesse ainda 60 anos (nascera em 1919), seu porte encurvado dava-lhe aparência bem mais idosa. Há indícios de que as Brigadas teriam sido criadas por Andreotti, com a ajuda da Máfia, da CIA e dos serviços secretos italianos a fim de impedir, com atos de terrorismo, o “Compromesso Storico”, de centro-esquerda. Dele foi aliado intransigente Francesco Cossiga, hoje irado defensor da extradição de Battisti.”
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20 Novembro, 2009

Uma história épica: Irmãs negras

Leonardo Boff, Adital

"A Casa Grande e a Senzala não foram apenas construções sociais e físicas, dividindo por um lado os brancos, donos do poder e por outro, os negros, feitos escravos. Com a abolição da escravatura exteriormente desapareceram. Mas continuam presentes na mentalidade dos brancos e das elites brasileiras. As hierarquizações, as desigualdades sociais e os preconceitos têm nesta estrutura dualista sua origem e permanente realimentação.

A vida religiosa que se insere neste caldo cultural reproduziu em suas relações internas o mesmo dualismo e as mesmas discriminações. Durante todo o tempo da Colônia os que possuíam "sangue sujo", quer dizer, os que eram negros, indígenas ou mestiços, não podiam ser padres nem religiosos. Além de puro racismo, típico da época, argumentava-se que eles jamais conseguiriam viver a castidade. Esta discriminação foi internalizada nestas populações desumanizadas a ponto de sequer pensarem em ser padres, religiosos ou religiosas.
As consequências perduram até os dias de hoje: a crônica falta de clero autóctone no Brasil. Pelo número de católicos, deveríamos ter pelo menos cem mil padres. Possuímos apenas 17 mil e muitos são ainda são estrangeiros.

Mesmo com a revitalização da Igreja brasileira através do processo de romanização inaugurada no final do século XIX com a vinda de congregações religiosas européias, as pessoas negras ou mestiças continuaram sistematicamente excluídas. Mas houve uma ruptura inauguradora. Em 1928 a Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado, fundação genuinamente brasileira, de uma leiga piedosa Maria Villac, apoiada pelo bispo Dom Campos Barreto de Campinas, foi a primeira a abrir a porta de seus conventos a mulheres negras.
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18 Novembro, 2009

"Rio Bravo", de Howard Hawks

André Setaro, Terra Magazine

“Assim como o ano de 1939, pleno de filmes excelentes, obras magistrais, a exemplo de 'O mágico de Oz', de Victor Fleming, 'No tempo das diligências' ('Stagecoach'), de John Ford, 'A regra do jogo', de Jean Renoir etc, o ano de 1959 foi, também, emblemático para a história do cinema com obras do quilate de 'Onde começa o inferno', de Howard Hawks, 'Intriga internacional' ('North by northwest'), de Hitchcock, 'Pickpocket', de Robert Bresson, 'Hiroshima, mon amour', de Alain Resnais, 'Acossado' ('A bout de souffle'), de Jean-Luc Godard, 'A aventura', de Michelangelo Antonioni etc - a citação apressada e de memória pode fazer escapar algum grande filme.

No ocaso dos anos dourados, houve um 'boom' de filmes inovadores que, muitos deles, tornaram-se 'filmes-faróis', a contribuir sobremaneira para a evolução da linguagem cinematográfica. O cinema francês se modificava, a apontar novos caminhos, novas possibilidades expressivas, com a explosão de Nouvelle Vague. O italiano renovava o modelo narrativo pela introdução da 'desdramatização' e da 'antinarrativa', principalmente na famosa trilogia de Antonioni composta por 'A aventura', 'A noite' e 'O eclipse'. Resnais, com 'Hiroshima, mon amour', mudou completamente o cinema, passando a existir um cinema antes de 'Hiroshima' e outro depois dele. Mas, nesta coluna, vamos nos deter em um filme carismático e de particular intensidade: 'Onde começa o inferno' ('Rio Bravo'), de Howard Hawks.

Em 'Onde começa o inferno' ('Rio Bravo'), resposta desse grande mestre ao 'western' psicológico que então emergia no cinema americano, há uma cadência que o distingue dos filmes do gênero que foram seus contemporâneos e, de certa forma, o que interessa ao autor é o estudo de comportamentos de homens numa dada situação. Excetuando-se o tiroteio final, e uns poucos tiros aqui e ali, os seus 144 minutos de projeção se concentram num espaço exíguo, a delegacia da qual é xerife John Wayne, com algumas deslocações dos personagens pelas ruas e pelo hotel onde se hospeda a bela Angie Dickinson - uma das pernas mais bonitas de toda a história do cinema.”
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Rio Bravo (The Song Scene)

Perguntas sagradas

Larissa Pontez, Digestivo Cultural

“Em 2001, a jornalista do New York Times Natalie Angier escreveu um texto chamado "Confissões de uma ateia solitária", sobre as dificuldades que enfrentava ao assumir seu ateísmo na era Bush.

Depois que eu tive a ideia para este texto, demorei uma semana para realmente começar a escrevê-lo. Não exatamente para organizar as ideias na minha cabeça, mas para acalmá-las. Porque ― e isso não é novidade para quem me conhece ― esse me é um assunto sensível. Mas essa sensibilidade não é exclusiva. Na verdade, todo mundo é sensível a esse assunto. Já tive discussões homéricas com pessoas que nem sequer eram religiosas, por discordar de assuntos que simplesmente "não se discutem". Porque, afinal, pode-se ser a favor do aborto, da pena de morte, do suicídio e da legalização das drogas e da prostituição, e isso é democrático. Mas se você é contra religiões, você é nazista.

Portanto, fica o aviso. Você pode se ofender com o assunto deste texto. Aliás, estatisticamente, você vai se ofender com o assunto desse texto. Mas, se mesmo assim quiser continuar a lê-lo, abre-se aqui o debate.”
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17 Novembro, 2009

O poeta de vestidinho vermelho

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Eliosvaldo Neves é um poeta medíocre, mas teve uma idéia genial. Ele finalmente sacou que a sociedade, berço de toda hipocrisia, cultua o podre como se fora o suprassumo da intelectualidade. Apesar do Q. I. limítrofe com a idiotice, ele assim concluiu ao ver pela televisão (Eliosvaldo quase não lê jornais e livros...) a notícia da universitária safadinha que quase foi apedrejada pelos colegas dentro da faculdade por ter comparecido à aula trajando um vestidinho vermelho colado ao seu corpinho gorducho. A pergunta que não cessa: seria a sua calcinha também vermelha?!

Não bastasse o tumulto proporcionado pela fogosa e pelos universitários hipócrita-excitados, a diretoria julgou que seria justo e urgente banir a falsa loira do seu plantel. Eu soube que eles retroagiram na decisão, preocupados com os processos judiciais que certamente pipocariam, garantindo assim alguma grana à protagonista e seu astuto advogado.

Antenado às raras oportunidades para aparecer na fita e mostrar o seu “trabalho”, Eliosvaldo entendeu que, protagonizando uma cena tosca no local certo e na hora certa, certamente a sua poesia viria à tona e o mundo tomaria conhecimento da sua existência, mais ainda, da genialidade e pujança da sua obra (cocô) poética. Teimando com literatura em Goiás tem muito tempo, o dublê de poeta se sentia injustiçado pela comunidade e humilhado pelos demais escritores, intelectuais do pedaço que ele considerava uma verdadeira “panelinha”.
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16 Novembro, 2009

Cesare Battisti: que o STF faça justiça com base na verdade

Eduardo Suplicy, Opera Mundi

“As atenções dos organismos de direitos humanos do mundo voltam-se hoje (12) para o Supremo Tribunal Federal brasileiro. A partir das 14 horas, o STF retomará o julgamento a respeito da concessão de refúgio ou extradição de Cesare Battisti, iniciado no dia 9 de setembro e paralisado pelo pedido de vista do ministro Marco Aurélio Mello. No dia 13 de janeiro deste ano, o ministro da Justiça,Tarso Genro, concedeu refúgio político a Battisti. Atualmente, ele está detido na penitenciária da Papuda, em Brasília.

A história do italiano Cesare Battisti, autor de famosas novelas policiais, perseguido político e ex-membro do grupo de esquerda PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), acusado e condenado pelo governo da Itália por quatro homicídios cometidos nos chamados “anos de chumbo”, tem provocado as mais diversas reações, no país e no mundo. Tenho recebido inúmeras cartas questionando meu posicionamento de apoio à decisão do governo brasileiro de conceder-lhe a condição de refugiado político.

Mergulhei no universo de Battisti em 2007, quando a arqueóloga, historiadora e escritora francesa Fred Vargas me procurou – assim como ao professor Dalmo Dallari, dentre outras pessoas com histórico de defesa dos direitos humanos – para relatar o que se passava com ele. Explicou sua convicção de que ele não havia cometido os homicídios que lhe eram imputados pela Justiça Italiana.

Vale destacar que Fred Vargas, autora de vários livros na lista dos mais vendidos, estudou à exaustão os processos relativos à condenação de Battisti. Com base nos autos, chegou à conclusão de que ele cometeu ações armadas pelas quais foi condenado a 12 anos de prisão, mas nunca assassinou qualquer pessoa. Desde então, tem se dedicado a acompanhar a trajetória de Battisti e a divulgar os fatos que descobriu nos processos que estudou, tais como as falsas procurações usadas no processo que condenou Battisti à prisão perpétua.

Visitei-o pela primeira vez na sede da Polícia Federal, logo que chegou a Brasília. À época, contou-me que ainda muito moço participou de ações do PAC. Mas, quando soube do sequestro e assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro, ficou extremamente impressionado, e tomou a decisão de nunca cometer qualquer crime de sangue, de nunca matar qualquer ser humano. No último ano, Fred Vargas veio ao Brasil várias vezes. Em algumas ocasiões, acompanhei-a em visitas a Cesare.”
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15 Novembro, 2009

Brasil em Copenhague

Feri Betto, Adital

“É uma espinha na garganta do governo brasileiro a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro, em Copenhague.

Todos sabemos que o nosso planeta está doente. Nós, humanos, podemos usar máscaras para nos proteger da poluição atmosférica. A Terra não. Ela está irremediavelmente exposta aos efeitos nocivos de nossas atividades que, na ânsia de acumular lucros, afetam a preservação ambiental.

A Terra é um ser vivo. Os gregos antigos a chamavam de Gaia. É também um milagre da natureza. Um pouco mais ou um pouco menos de calor e a vida não existiria em nosso planeta. Ele seria árido e desabitado como Marte ou Vênus.

Calcula a ciência que o Universo existe há 14 bilhões de anos. A Terra, há 4,5 bilhões. Atingida, durante milênios, por meteoros, períodos glaciais, secas prolongadas, ela foi capaz de autorregenerar.
Porém, nos últimos 150 anos, o bicho homem/mulher causou demasiado estrago em seu habitat. Entupiu de lixo rios e mares, desmatou florestas (a Amazônia, em 17% de sua área), contaminou o ar que respiramos... enfim, provocou tamanha degradação, a ponto de, hoje, Gaia ter perdido 25% de sua capacidade de autorregeneração. Só pode ser salva do apocalipse precoce se houver intervenção humana.

Aqui entra a ‘saia justa’ do governo brasileiro. Nele, no que concerne à questão ambiental, há muitas cabeças e pouco consenso. O Brasil é o quarto maior emissor do mundo de gases de efeito estufa. O presidente Lula, capaz de virar a mesa na defesa da melhoria de renda dos mais pobres, nunca priorizou a agenda ecológica. Prova disso é a liberação de sementes transgênicas na lavoura brasileira, o desmatamento progressivo da Amazônia e o silêncio do Planalto quando ministros lobistas do agronegócio e das empreiteiras se queixam de que o Ibama - que avalia o impacto ambiental das obras - atrapalha o progresso... O PAC, por exemplo, é um primor de anabolizante do PIB e de ameaça ao desenvolvimento sustentável.”
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14 Novembro, 2009

C. G. Jung e o mundo espiritual

Frei Leonardo Boff, Adital

“Coordenei junto à Editora Vozes a tradução da obra completa do psicanalista C. G. Jung (18 tomos), o que o tornou um dos meus principais interlocutores intelectuais. Poucos estudiosos da alma humana deram mais importância à espiritualidade do que ele. Via na espiritualidade uma exigência fundamental e arquetípica da psiqué na escalada rumo à plena individuação. A imago Dei ou o arquétipo Deus ocupa o centro do Self: aquela Energia poderosa que atrai a si todos os arquétipos e os ordena ao seu redor como o sol o faz com os planetas. Sem a integração deste arquétipo axial, o ser humano fica manco e míope e com uma incompletude abissal. Por isso escreveu:

"Entre todos os meus clientes na segunda metade da vida, isto é, com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por terem perdido aquilo que uma religião viva sempre deu, em todos os tempos, a seus seguidores. E nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto está claro. Não depende absolutamente de uma adesão a um credo particular, nem de tornar-se membro de uma igreja, mas da necessidade de integrar a dimensão espiritual".

A função principal da religião, melhor, da espiritualidade é nos religar a todas as coisas e à Fonte donde promana todo o ser, Deus. Esse é o propósito básico de seu grandioso livro Mysterium Coniunctionis (Mistério da Conjunção) que Jung considerava seu opus magnum. Pois nele se trata de realizar a coniuntio, traduzindo, a conjunção do ser humano integral com o mundus unus, o mundo unificado, o mundo do primeiro dia criação quando tudo era um e não havia ainda nenhuma divisão e diferenciação.”
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13 Novembro, 2009

As ideologias são dráculas

Euler de França Belém, Revista Bula

“O notável historiador marxista Eric Hobsbawm avalia que, depois da “libertinagem” capitalista, decorrente da “morte” do socialismo, é provável que a vaga socialista volte, e, quem sabe, com certa força. Mas possivelmente com outro matiz. O encanecido Hobsbawm (bombardeado por Tony Judt, há pouco tempo, por não reconhecer os crimes do stalinismo com a devida correção; o livro de Judt, “O Século XX Esquecido — Lugares e Memórias”, foi editado em Portugal e merece uma edição brasileira) disse isto antes do vendaval Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales. Lula é um caso específico. Mas o socialismo de Chávez pouco tem a ver com o socialismo clássico, porque seu partido é uma ficção. Pouco tem a ver com o partido leninista-comunista. O poder está “assentado” na figura de Chávez, tanto que, se morrer, o “sistema Chávez” desmorona. O regime chavista é, mais do que socialista, nacionalista, mais próximo do peronismo... com a diferença do petróleo. Porque o petróleo é o sangue que movimenta as diabruras e inconseqüências do líder venezuelano. O petróleo é a Bolsa Família do governo da Venezuela. O governo de Correa é mais inconsistente do que o de Chávez e, sem Chávez para emulá-lo, possivelmente seria uma ficção. O de Morales, nem se fala. Golpes à vista. Assassinatos no horizonte. Na Venezuela, no Equador e na Bolívia. É só esperar.

Lula, como disse, é um caso à parte. Ao contrário do que muitos assinalam, Lula é, sim, de esquerda, adepto de um socialismo que se aproxima de um misto de social-democracia e democracia cristã. Mas, como governa um país capitalista, comporta-se como gestor de uma economia capitalista. É um realista. Aproximou-se dos políticos tradicionais e, de certo modo, os tornou subordinados. Esta aproximação, que muitos tendem a ver tão-somente como fisiológica, é responsável por Lula não ter se tornado uma espécie de Chávez. O realismo possibilitou a Lula verificar que o custo de tentar implantar um regime chavista num país continental e cuja democracia é estável, com instituições sólidas (apesar de crises pontuais), seria impagável. O resultado poderia ser um golpe atrás de outro golpe (Lula tem uma gota do sangue de João Goulart nas veias). A desestabilização da política e da economia. Ao se posicionar como moderado, Lula dá provas de amadurecimento e, até agora, tem jogado dentro das regras da democracia. Aqui e ali, tenta impor alguma medida autoritária, mas, contido pela democracia, cede, o que é positivo. No espectro de esquerda, é, sem comparação, o melhor governante da América do Sul, excetuando, possivelmente, a presidente do Chile, a socialista e realista Michelle Bachelet.”
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12 Novembro, 2009

O cravo e as tulipas

Ronaldo Correia de Brito, Terra Magazine

“O escritor argentino Jorge Luis Borges costumava dizer que não havia nada que os seus detratores pudessem escrever sobre ele que o mesmo não pudesse fazê-lo de forma mais rigorosa e contundente.

Alguns críticos trocam a análise de uma obra literária por agressão pessoal e deboche, um subproduto da crítica. A vida e o comportamento dos escritores deveriam importar menos do que suas obras. O único critério justo seria aquele que avaliasse se um indivíduo escreve bem ou mal.

O narcisismo e a vaidade são fragilidades dos artistas. Eles vivem uma contradição: não podem sentir-se satisfeitos com o que fazem e por outro lado precisam defender o que fazem. Já imaginaram um Picasso satisfeito? Não teria passado da primeira fase de sua pintura. E sem a virulência do poeta Rimbaud o manifesto simbolista nunca teria sido escrito, pois implicava na negação de valores consagrados da poesia francesa da época.

É vexatório quando um escritor e jornalista dispara a metralhadora num colega de profissão, atacando-o apenas em supostos defeitos de personalidade, sem analisar uma única linha do que escreve. Isso lembra um velho provérbio chinês que ensina: se vires um homem bom, alegra-te; se vires um homem mau, observa o teu coração. Talvez, os insultos sejam dirigidos a defeitos do próprio caráter.

O papel de um escritor que atua nas bandas de cá do nordeste do Brasil é árduo e conflitante. Muitas vezes ele precisa acender um facho de luz e clarear a própria obra, chamando atenção para ela. Isso pode parecer vaidoso, excessivamente narcísico, um desfile do ego. Mas será também um esforço em chamar atenção para o que ele faz.

Não existe fluxo de informações das cidades do nordeste para o restante do Brasil e do mundo. O poeta pernambucano Carlos Pena Filho dizia que a melhor maneira de continuar anônimo era escrever no Recife. Isso talvez explique porque o contista cearense Moreira Campos, que sempre viveu e escreveu em Fortaleza, é tão pouco lido e conhecido, apesar de sua grandeza.

No Recife, onde existe o movimento cultural mangue, também se conhece a teoria do caranguejo. Vocês já observaram que os caranguejos tentam escapar do cativeiro subindo uns nos outros. Quando algum consegue galgar alturas, o de baixo sai da posição e todos despencam. É o velho pecado capital: a inveja.”
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11 Novembro, 2009

Garota de Ipanema apedrejada

"Falando em marketing: garanta sua vaga na Uniban, ela já vem com linchamento totalmente grátis!"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Que geração é essa, num país cujo verdadeiro hino nacional já foi Garota de Ipanema, que hoje apedreja moralmente uma garota que vem e que passa com um vestido rosa que sequer era a minissaia inicialmente apontada pela imprensa? Que jovens são esses que abrem mão de todo o seu fundamento cultural, pra não dizer humano, em nome do quê mesmo? Dum diploma fajuto pendurado no rabo? Da Unibronco/Unitaliban/Uniesquina? A menos, é claro, que todos sejam viados... mesmo assim, não é desculpa (ainda que São Paulo tenha a maior parada gay do mundo, poderia explicar, não justificar) pra apedrejar moralmente quem quer que seja.

Leio no blog do Luís Nassif: “Temos hoje no Brasil mais de 1.200 faculdades de direito, contra 182 nos EUA e mais faculdades de medicina do que toda a Europa (!!!!!!!!!!!!!!!!). Estamos enganando os jovens e seus pais, formando falsos preparados para nada, uma legião de desempregados diplomados: na recente inscrição para emprego de garis no Rio, inscreveram-se 2 mil com curso superior. Esse tipo de estabelecimento existe por todo o Brasil. São universidades caça-níqueis, sem qualquer compromisso real com a educação, porque não são lideradas por educadores de verdade e sim por comerciantes para quem tanto faz escola como posto de gasolina.”

As melhores universidades norte-americanas e europeias não têm fins lucrativos, são fundacionais e rigorosamente avaliadas pelo corpo discente: ninguém investe o futuro dos filhos em estabelecimentos fajutos; nos EUA, é rara a boa universidade com menos de 70 anos de fundação, as grandes têm dois séculos. Na Europa, daí para mais.”
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10 Novembro, 2009

Muro de Berlim: 223 mortos. Muro que separa os EUA do México: 5,6 mil mortos

Pátria Latina / Opera Mundi

“No aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim, o mundo convive com uma série de barreiras que servem para conter a livre circulação de pessoas. O muro que divide a Cisjordânia de Israel e o que impede a passagem de imigrantes mexicanos para os Estados Unidos são os mais conhecidos, mas há outros.

O exemplo mais recente vem da Eslováquia. Em outubro, uma muralha de 150 metros de comprimento e dois de altura foi erguida na cidade de Ostrovany, uma comunidade rural no nordeste do país, com o intuito de isolar um acampamento de ciganos.

A ação, aprovada em 2008 pelas autoridades locais e colocada em prática na última semana, é o último capítulo da crescente tensão entre os habitantes da localidade e os ciganos. Os habitantes de Ostrovany os acusam de roubar frutas dos jardins privados. Episódios violentos foram registrados, como a morte de um fazendeiro por membros da comunidade cigana e manifestações de grupos de extrema-direita para qualificar o que chamam de “terror cigano”.

O prefeito de Ostrovany, Cyril Revákl, afirmou ao diário eslovaco SME que a medida não é racista. “Sei que há muita gente decente vivendo entre os ciganos, mas ninguém deve passar pelo inferno diário de enfrentamentos”.Já a secretaria que representa a comunidade cigana anunciou que investigará a construção do muro. O responsável, Ludovít Galbavý, classificou a construção como “discriminatória”.
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Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim: Além do fundamentalismo do mercado

Eric Hobsbawm, IPS/Envolverde

"O breve século XX foi uma era de guerras religiosas entre ideologias seculares. Por razões mais históricas do que lógicas, o século passado foi dominado pela oposição entre dois tipos de economia mutuamente excludentes: o “socialismo”, identificado com as economias planejadas centralmente do tipo soviético, e o “capitalismo”, que cobriu todo o resto.

Esta aparente oposição fundamental, entre um sistema que tentou eliminar a busca pelo lucro da empresa privada e outro que procurou eliminar toda restrição do setor público sobre o mercado, nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar o público e o privado de variadas maneiras e de fato o fazem. As duas tentativas de cumprir a qualquer custo com a lógica dessas definições de “capitalismo” e “socialismo” fracassaram. As economias de planejamento comandadas pelo Estado do tipo soviético não sobreviveram aos anos 80, e o “fundamentalismo do mercado” anglo-norte-americano, então em seu apogeu, se fez em pedaços em 2008.

O século XXI terá de reconsiderar seus problemas em termos mais realistas. De que maneira o fracasso afetou os países anteriormente comprometidos com o “modelo socialista”? Sob o socialismo, eles não foram capazes de reformar seus sistemas de economia planificada, embora seus técnicos tivessem plena consciência de seus defeitos fundamentais, que eram internacionalmente não competitivos e continuavam sendo viáveis apenas na medida em que estivessem isolados do resto da economia mundial.

O isolamento não pôde ser mantido, e quando o socialismo foi abandonado, já o fora pelo colapso dos regimes políticos, como ocorreu na Europa, ou pelo próprio regime, como sucedeu na China e no Vietnã, esses Estados mergulharam de cabeça no que para muitos parecia a única alternativa à disposição: o capitalismo em sua então dominante forma extrema do livre mercado.

Os resultados imediatos na Europa foram catastróficos. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram seus efeitos. Felizmente para a China, seu modelo capitalista não se inspirou no neoliberalismo anglo-norte-americano, mas no muito mais dirigista dos “tigres” do Leste asiático. A China lançou seu “grande salto adiante” econômico com escassa preocupação por suas implicações sociais e humanas.

Este período agora está chegando ao fim, tal como ocorre com o domínio do liberalismo econômico anglo-norte-americano, embora ainda não saibamos quais mudanças trará a atual crise econômica mundial depois de superados os efeitos da sacudida dos últimos dois anos. Somente uma coisa é clara, há um importante deslocamento das velhas economias do Atlântico Norte para o Sul e, sobretudo, para a Ásia do Leste.”
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09 Novembro, 2009

Geisy e o humor na TV


Márcio Alemão, Terra Magazine

“Toda a mídia está se encarregando de massacrar e execrar a atitude da escolinha UNIBAN que expulsou Geisy e que certamente irá erguer um obelisco em homenagem aos seus agressores, que se tornaram vítimas.

De minha parte, no meu assunto, lembrei de muitos momentos nos quais o personagem "aluna gostosa" simplesmente nos fazia e nos faz rir. Essa "aluna" frequentava outras escolinhas de melhor nível que a citada.

Na Escolinha do Professor Raimundo, se não me falha a memória, Alcione Mazzeo chegou a fazer esse papel. Alcione casou-se com Chico Anysio. E depois dela vieram várias outras.

Na hilariante Escolinha do Golias, na década de 90, a aluna gostosa e burra servia como escada e ajudava a piada a ficar mais engraçada. Na Uma Escolinha Muito Louca, que está no ar, na Band, sim, também temos algumas moças exuberantes que não são atacadas pelos coleguinhas.

Sempre foi possível questionar esse tipo de humor sexista ou mesmo chamado de "humor de preconceito", que vai tentar ver graça na burrice, nos atributos físicos das mulheres e na opção sexual dos homens. Em outros tempos também rolava a piada racista, que hoje não existe mais.”
Foto: Terra
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Modo diferente de falar do amor

Leonardo Boff, Adital

“Frequentemente sou convidado para falar sobre o amor. Sinto certo constrangimento porque esta palavra - amor - é uma das mais desgastadas de nossa linguagem. E como fenômeno interpessoal, um dos mais desmoralizados. Para não repetir aquilo que todo mundo já sabe e ouve, costumo fazer uma abordagem inspirado num dos maiores biólogos contemporâneos: o chileno Humberto Maturana. Em suas reflexões o amor é contemplado como um fenômeno cósmico e biológico. Expliquemos o que ele quer dizer: o amor se dá dentro do dinamismo da própria evolução desde as suas manifestações mais primárias, de bilhões e bilhões de anos atrás, até as mais complexas no nível humano. Vejamos como o amor entra no universo.

No universo se verificam dois tipos de acoplamentos (encaixes) dos seres com seu meio, um necessário e outro espontâneo. O primeiro, o necessário, faz com que todos os seres estejam interconectados uns aos outros e acoplados aos respectivos ecossistemas para assegurar sua sobrevivência. Mas, há um outro acoplamento que se realiza espontaneamente. Os topquarks, a primeira densificação da energia em matéria, interagem sem razões de sobrevivência, por puro prazer, no fluir de seu viver. Trata-se de encaixes dinâmicos e recíprocos entre todos os seres, não vivos e vivos. Não há justificativas para isso. Acontecem porque acontecem. É um evento original da existência em sua pura gratuidade. É como a flor que floresce por florescer.

Quando um se relaciona com o outro (digamos dois prótons) e assim se cria um campo de relação, surge o amor como fenômeno cósmico. Ele tende a se expandir e a ganhar formas cada vez mais inter-retro-relacionadas nos seres vivos, especialmente nos humanos. No nosso nível é mais que simplesmente espontâneo como nos demais seres; é feito projeto da liberdade que acolhe conscientemente o outro e cria o amor como o mais alto valor da vida.

Nessa deriva, surge o amor ampliado que é a socialização. O amor-relação é o fundamento do fenômeno social e não sua consequência. Em outras palavras: é o amor-relação que dá origem à sociedade; esta existe porque existe o amor e não ao contrário, como convencionalmente se acredita. Se falta o amor-relação (o fundamento) se destrói o social. Sem o amor o social ganha a forma de agregação forçada, de dominação e de violência, todos sendo obrigados a se encaixar. Por isso sempre que se destrói o encaixe e a congruência entre os seres, se destrói o amor-relação e com isso, a sociabilidade. O amor-relação é sempre uma abertura ao outro e uma con-vivência e co-munhão com o outro.”
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08 Novembro, 2009

A mulher-objeto de SP

Eduardo Guimarães, Cidadania.com

“Agora é oficial: se você é mulher e mora em São Paulo, saiba que, nesta terra de hipocrisia sem fim, você é nada mais, nada menos do que um objeto, um ser que deve medir cada palavra, cada gesto, cada decisão sobre a própria vida pela ótica hipócrita do homem, que só exige comportamento "recatado" das mulheres nos intervalos de suas caçadas sexuais.

A universidade Uniban expulsou a estudante de turismo Geisy Arruda por sua "sindicância interna" ter concluído que a moça foi a culpada por setecentos alunos terem-na hostilizado aos gritos e lhe ameaçado a integridade física. A instituição justificou dessa forma sua decisão em nota publicada neste domingo em jornais paulistas. Geisy seria provocante demais.

Numa sociedade como a paulista, esse moralismo chega ao pior ridículo. Dêem uma voltinha pelas imediações dessas universidades particulares de São Paulo e encontrarão meninas e meninos usando drogas e até fazendo sexo nos carros. Em seguida, os que fazem e os que não fazem isso entram em aula e se escandalizam com o jeito da menina andar e com o comprimento de seu vestido.

O fato é que as setecentas famílias dos setecentes energúmenos que protagonizaram as cenas de horror que vocês viram há poucos dias devem ter caído matando na direção da Uniban ameaçando tirarem seus filhos coletivamente de lá se a cabeça da Maria Madalena paulistana não lhes fosse entregue.

Mas o moralismo de atirarem a primeira pedra nas roupas de Geisy, na sensualidade de Geisy, é efeito, não causa. Ser mulher, em São Paulo, é não ter direitos como o do homem.

A ex-prefeita Marta Suplicy, por exemplo, caiu em desgraça quando decidiu separar-se do senador Eduardo Suplicy. A elite local ordenou à ralé que se arrasta aos seus pés que passasse a tratá-la como "vagabunda". Durante a campanha eleitoral do ano passado, o jornal Valor Econômico tratou do assunto num excelente trabalho jornalístico sobre as novas Senhoras de Santana.

Cabe agora, portanto, não só ao Judiciário, mas acho que até ao Ministério da Educação reparar esse absurdo. E tem que ser logo, pois a própria nota da Uniban divulgada neste domingo nos jornais paulistas serve de confissão de culpa de violação de cláusula pétrea da Constituição brasileira.”

Carta a um jovem internauta

Frei Betto, Adital

“Sei que você passa longas horas no computador navegando a bordo de todas as ferramentas disponíveis. Não lhe invejo a adolescência. Na sua idade, eu me iniciava na militância estudantil e injetava utopia na veia. Já tinha lido todo o Monteiro Lobato e me adentrava pelas obras de Jorge Amado guiado pelos "Capitães de areia".

A TV não me atraía e, após o jantar, eu me juntava à turma de rua, entregue às emoções de flertes juvenis ou sentar com meus amigos à mesa de uma lanchonete para falar de Cinema Novo, bossa nova - porque tudo era novo - ou das obras de Jean Paul Sartre.
Sei que a internet é uma imensa janela para o mundo e a história, e costumo parafrasear que o Google é meu pastor, nada me há de faltar...

O que me preocupa em você é a falta de síntese cognitiva. Ao se postar diante do computador, você recebe uma avalanche de informações e imagens, como as lavas de um vulcão se precipitam sobre uma aldeia. Sem clareza do que realmente suscita o seu interesse, você não consegue transformar informação em conhecimento e entretenimento em cultura. Você borboleteia por inúmeros nichos, enquanto sua mente navega à deriva qual bote sem remos jogado ao sabor das ondas.

Quanto tempo você perde percorrendo nichos de conversa fiada? Sim, é bom trocar mensagens com os amigos. Mas, no mínimo, convém ter o que dizer e perguntar. É excitante enveredar-se pelos corredores virtuais de pessoas anônimas acostumadas ao jogo do esconde-esconde. Cuidado! Aquela garota que o fascina com tanto palavreado picante talvez não passe de um velho pedófilo que, acobertado pelo anonimato, se fantasia de beldade.”
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07 Novembro, 2009

Tas: na presidência, Lula ganhou todos os diplomas do mundo

O apresentador e jornalista Marcelo Tas lançou, na noite desta quinta-feira, 4, Nunca antes na história deste país. O lançamento foi realizado na Saraiva do Shopping Higienópolis, em São Paulo, e foi acompanhada por uma sessão de autógrafos.

Carolina Oms, Terra Magazine

A obra reúne diversas frases do presidente Lula, comentadas pelo apresentador do CQC (Custe o Que Custar), da TV Bandeirantes.

O jornalista falou à Terra Magazine sobre o comportamento do presidente:

- Resolvi criar essa tese: o Lula não tinha diploma antes de ser presidente, mas com a faixa presidencial ele ganhou todos os diplomas do mundo, ele sabe falar sobre qualquer assunto
E especula sobre os sentimentos de Lula, "ele deve ter dias de angústia também". "Tem dia que ele acorda e diz: "Meu Deus, que merda eu fui fazer? Eu, que fui aquele cara do PT que defendia os trabalhadores e os oprimidos, agora estou aqui com o Collor", imagina Tas.

Terra Magazine - Como foi a sessão de autógrafos?
Marcelo Tas - Foi um massacre, foram cinco horas das sete e meia até a meia noite e meia e eu estava como uma noiva que não sabia o que iria acontecer na noite de núpcias. Foi a minha primeira vez. Não só escrevendo um livro, mas dando autógrafo.
E eu fiquei muito feliz, muito surpreso, me senti assim um Chico Xavier, recebendo uma fila de pessoas pra dar um passe, sabe, assim um pai de santo? Um por um chegava pedia um conselho pedia um passe, pedia uma palavra?
As pessoas querem ter um momento exclusivo com você e que daquele encontro surja alguma faísca, é muito engraçado. Eu não sabia que era assim, mas saí vivo e é engraçado, pode parecer um clichê, mas eu me senti renovado com esse contato direto com gente que as vezes vai no programa mas que não dá tempo de conversar.

E como foi a sua primeira experiência como escritor?
Eu te confesso que foi um pouco traumática porque eu não pensava que daria tanto trabalho. Mas dá trabalho justamente porque é apaixonante. Tem uma hora que o livro pega você e você passa a dormir menos, a ficar acordando no meio da noite e ter medo de esquecer uma idéia que você teve ali na cama e aí você levanta... Aí acabou sua vida, acabou sua saúde.
Mas é apaixonante, é por isso que é tão difícil. Eu já li tantas entrevistas de escritor e agora eu pude comprovar na pele que o único jeito de você realmente viver as coisas é ver exatamente como elas são.

E por que começar logo com o presidente Lula?
Foi um convite da Panda Books, a editora do livro, o Marcelo Duarte me procurou com uma pasta cheia de frases do Lula, em dezembro do ano passado e me perguntou se aquilo daria um livro. E foi assim: dormi com aquele negocio, achei que simplesmente listar frases seria muito pouco, e aí comecei a inventar moda e foi aí que a coisa começou a crescer mais do que a gente imaginou, mais do que a gente esperava."
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A questão nacional

Eduardo Bomfim, Vermelho.org

“Se observarmos o processo histórico e os conflitos das classes sociais em nosso País sob o ângulo da centralidade da questão nacional como eixo fundamental, como elemento decisivo às transformações econômicas e à emancipação social, tanto o passado, o presente, quanto o futuro da nação sempre adquirem contornos mais nítidos e elucidadores.

Na realidade a trajetória de todas as nações que conseguiram superar graves dificuldades relativas à soberania, à integridade de seus territórios, ao sofrimento das maiorias, excluídas de perspectivas de um futuro digno, passou de uma maneira ou de outra pela ampla união dos seus povos em torno de um projeto nacional estratégico.

Quando esse caminho não foi percorrido, prevalecendo um povo fragmentado, dividido, imerso em contradições antagônicas e irreconciliáveis, esses mesmos povos foram derrotados ou pelo menos adiaram a emancipação nacional e a própria soberania social.

No Brasil as grandes batalhas vitoriosas foram aquelas em as plataformas políticas construídas em unidade e sob largos consensos democráticos vingaram e as forças conservadoras ou outras fracionadoras do espírito nacional, algumas posicionadas à esquerda do cenário político, em cada período histórico determinado, foram isoladas e derrotadas.”
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06 Novembro, 2009

Crônica: "A foto oficial"


Manoel Fernandes Neto, NovaE

"Aquela mãe iraquiana teve dúvidas antes de abordar o soldado que fazia prontidão defronte à Casa de Detenção. Como solicitar ajuda para uma simples imagem, diante de alguém com responsabilidades tão rígidas? O uniforme, o fuzil último tipo, a pose incontinente.

Não era possível. Era quase certeza de que a resposta seria negativa. Aquela mãe iraquiana era capaz de compreender que aquele soldado estadunidense não ficaria sensibilizado sobre como fora agonizante a ausência do filho em casa. Sua companhia, suas palavras de apoio em um momento tão difícil pelo qual passava o país. Como os dois haviam estreitado sua ligação depois da guerra. O soldado, ela tinha razões para saber, não perderia seu tempo oficial para uma atitude daquelas. Ele não poderia compreender que o filho fora detido injustamente e que nenhum filho diante de uma mãe é culpado.

Mas os momentos da libertação foram se aproximando, a burocracia foi se dissipando, papéis eram verificados inúmeras vezes e ela ainda não havia se decidido a pedir ou não o favor para a foto que guardaria como um dos momentos mais felizes de sua vida, mesmo com todo o recente dissabor.

Tirou a máquina fotográfica que trazia guardada entre os trajes e em lugar seguro na sua casa. Ela a utilizava para registrar os momentos felizes que encontrava no dia a dia, mesmo diante de toda a destruição. Aquela mãe iraquiana tinha plena convicção de que o sofrimento um dia cessaria, por que sabia que sofrimentos um dia acabam; que as lágrimas um dia param de cair; que a saudade e a dor são provisórias. Sim, naquele dia da libertação do filho ela tinha plena certeza de que a dor e a melancolia não são sentimentos permanentes, mas breves manifestações do Universo, para nos proporcionar crescimento, aprendizado e progresso.”
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Deu a louca nos ricos!

Flavio Aguiar, Revista Brasil / Blog

A proposta não é novidade. Pelo menos conceitualmente. A novidade está em quem a apresentou. 50 homens e mulheres ricos querem pagar 5% de imposto de renda extra

Ou pelo menos em parte deles.

A proposta não é novidade. Pelo menos conceitualmente. A novidade está em quem a apresentou.

Na semana passada um grupo de 50 empresários, empresárias, ou homens e mulheres de outras profissões, mas que podem, todas e todos, ser considerados como "ricos", fez uma manifestação nas ruas de Berlim pedindo que... cobrassem mais impostos de suas fortunas!

A proposta é que o governo, para combater a crise financeira de modo eficaz e com políticas sociais adequadas, cobre um imposto extra de 5% sobre a renda de quem ganha mais de 500 mil euros/ano na Alemanha em 2009 e 2010. Garantem os defensores da proposta que isso garantiria ao Estado 100 bi de euros em dois anos, para aplicação em saúde, educação, geração de empregos. Em 2011 o imposto seria reavaliado.

Os autores da proposta têm uma página na internet: www.apell-vermoegensabgabe.de

A página só é acessível em alemão. Com todo o respeito pela língua de Thomas Mann, Goethe e Brecht, uma página dessas deveria ter material em inglês que, gostemos ou não, está para a nossa época como o latim ou o grego estiveram para a antiguidade. Até os evangelistas se preocuparam em escrever em grego, a língua franca na Europa, naquela época!”
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05 Novembro, 2009

Sete pecados geniais

Ademir Luiz, Revista Bula

“O Pecado Genial serve para proteger os interesses e o espírito livre do pecador. Não é específico, como não matar ou não roubar. Muda segundo a estação e a necessidade. E mesmo o número de sete é maleável, serve apenas como licença poética e referência cabalista

...O Homo Sapiens é o único animal que sente culpa. Grande parte de seus esforços evolutivos foram gastos na arte de criar, hierarquizar e desenvolver motivos para se sentir culpado. Via de regra o agente causador da culpa é o pecado. Sejam mortais, veniais ou capitais. Cada qual com sua especifica carga religiosa, sexual ou ética. E seu devido peso nos diversos tribunais pós-morte. Estes pecados podem ser frutos de tentação, curiosidade ou impulsão, não importa; a questão é que produzem culpa e culpados. E desta combinação se pensa extrair a ética.

Acho, porém, que o fator negativo de um pecado depende muito do ponto de vista pelo qual é encarado. Os pecados de Pandora, Prometeu, Adão e família, Judas Escariotes e mesmo de Lúcifer, foram, em um sentido metafísico, partes de planos maiores. Do mesmo modo, sempre procurei imaginar quais pecados foram cometidos pelas figuras colocadas no limbo por Dante. Com certeza pecados dignos dos homens brilhantes que foram. Geniais pecados, pensei. Principalmente porque preservaram suas consciências.

Acredito que pecar é um direito do ser humano. Manipular o pecado é um direito do ser humano bem pensante. Por isso criei o que chamei de os Sete Pecados Geniais, como forma de defender-me contra a lógica pobre da culpa. Faço o errado se tornar correto, apoiado em três simples motivos: acredito, desejo e mereço. O Pecado Genial serve para proteger os interesses e o espírito livre do pecador. Não é específico, como não matar ou não roubar. Muda segundo a estação e a necessidade. E mesmo o número de sete é maleável, serve apenas como licença poética e referência cabalista.

O Primeiro Pecado Genial surgiu de uma moeda, inspirado em uma das mais antigas e infalíveis trapaças já criadas. E é dono de uma estória. Quando de minha chegada na Universidade passei a dividir meu quarto com um animal ruivo e alienado que, estranhamente, cursava Letras Latinas. Chamava-o de Kafka devido a seu aspecto geral lembrar o de um inseto daninho. Resignado, convivi com ele por um ano, acreditando na máxima biológica de que o homem pode adaptar-se a tudo. Isto não aconteceu. Passado os primeiros meses continuou sendo uma tortura ouvir sua voz rouca e fanhosa repetindo diariamente que seu maior sonho era terminar a leitura do “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha”, no espanhol arcaico original. Fechar com estrondo a última página do último volume e bradar que, enfim, era uma criatura completa, já tendo um filho concebido, uma árvore plantada e um caderno de sonetos escrito, na adolescência. Poderia morrer como um homem completo. Pois, afirmava Kafka, pressentia que morreria tão logo completasse a fatídica, porém, estimulante missão de ler o estupendo calhamaço de Cervantes. Mal poderia ele imaginar o quanto eu torcia para que sua profecia se cumprisse. Não se passava um dia sem que eu lhe perguntasse em qual capítulo estava. Mas, para meu desespero, o inseto lia de modo tão lento e desastrado que julguei ser ele o único ser vivo na natureza a possuir tempo de vida cumulativo e não retroativo.

Posso garantir que o que aqui afirmo não consistia em simples destempero de minha parte. Kafka cultivava o hábito de esquecer-se de minha existência. Costumava trancar a porta do alojamento e desaparecer, com a única chave disponível, invariavelmente deixando-me trancado. Do lado de dentro ou do lado de fora. Horas depois retornava, pedindo desculpas, exibindo um ar grotescamente ingênuo. E havia mais: Kafka cuspia no chão. Kafka sofria de sonambulismo. Kafka comia porcamente. Kafka colecionava lixo e, finalmente, Kafka e suas roupas cheiravam naftalina.

Problemas burocráticos e de espaço físico no Parthenon impediram minha troca de dormitório. Passei então a tramar um modo caseiro de extermínio. Descartada a possibilidade de homicídio, restou-me a opção da fraude. Felizmente, o indesejável cobiçava dois objetos de minha posse: um belo relógio de corrente trabalhado em ouro e uma centenária ampulheta árabe de bronze. O primeiro sem engrenagens e o segundo sem areia, mas ambos dotados de enorme valor simbólico. Costumavam ocupar lugares de honra no acervo do principal museu de meu burgo natal. Nada mais natural do que incluí-los no plano.

Alimentei a cobiça de Kafka até fazê-lo aceitar participar de um aparentemente ingênuo jogo de moeda, regado a álcool. Nas primeiras jogadas perdi meus dois objetos. Sentido-se com sorte, e já devidamente bêbado, Kafka aceitou apostar sua vaga no quarto contra a posse de minha alma. Para evitar dúvidas fiz com que ele próprio jogasse, não sem certa dificuldade motora, a moeda escolhida, aparentemente ao acaso, dentre várias, para resolver a disputa. Escolhi coroa, caiu coroa. Não houve discussão, o infeliz não poderia negar o que fez com as próprias mãos.

Naquela noite dormi vingado. Sonhei com um inseto sendo esmagado por uma gigantesca moeda de face dupla. Ambas coroa. Portanto, deste modo nasceu o conceito do Primeiro Pecado Genial: não hesite em subestimar, se você tem certeza da tolice de seu adversário.

A partir deste dia Kafka tornou-se uma figura folclórica no campus. Era o ruivo que dormia nos bancos, na grama ou sob os carros estacionados. Contudo, mais de uma vez foi obrigado a expulsar de minha propriedade Kafka e sua amante, uma acadêmica de matemática baixa e franzina

Os outros pecados surgiram em uma seqüência natural.”
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O Ministro Che Guevara

Mair Pena Neto, Direto da Redação

"Terminei há pouco a leitura de “O ministro Che Guevara, testemunho de um colaborador” (Garamond), do engenheiro químico Tirso Saenz, que trabalhou com o Che no Ministério das Indústrias logo após a revolução cubana e com quem teve contato estreito até a partida deste para a Bolívia, onde morreria em 1967.

O interessante do testemunho de Saenz deriva da maneira como se uniu à revolução, após a vitória liderada por Fidel Castro. Engenheiro químico formado nos Estados Unidos, Saenz conheceu de perto o american way of life, trabalhava na filial da Procter & Gamble em Havana e se considerava um anticomunista, “mesmo sem saber muito bem o que era isso”.

Com a nacionalização da empresa pelo governo revolucionário, foi convidado a trabalhar em um alto cargo nos EUA, opção que chegou a considerar. Munido de uma carta da Procter & Gamble, dirigiu-se ao consulado norte-americano e só não deixou Cuba por ser maltratado por um vice-cônsul arrogante que duvidou de sua formação. Irritado com a postura do funcionário e atormentado pela idéia de deixar o país que amava, mandou o diplomata à merda e ficou no país.

Com a evasão de cérebros cubanos após a revolução, Saenz logo assumiu funções técnicas e em pouco tempo foi indicado para a vice-diretoria do Instituto Cubano de Petróleo (ICP). Com sua retidão de caráter e a responsabilidade diante da função que lhe era oferecida, sentiu-se no dever de explicar a Che Guevara, que comandava o Instituto Nacional de Reforma Agrária, a quem o ICP se vinculava, as circunstâncias de sua decisão de permanecer em Cuba.”
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04 Novembro, 2009

Revista da ESPM sobre E-commerce

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

“Enquanto os jornalistas ainda insistem na primazia do papel, têm dúvidas se a internet é o futuro e teimam em falar mal dos blogueiros, os publicitários não perdem tempo e já usam a Grande Rede a seu favor vigorosamente. A prova é a nova edição da Revista da ESPM, da Escola Superior de Propaganda e Marketing, inteira dedicada ao E-commerce. Afinal, serão R$ 10 bilhões em vendas neste ano, o velho varejo não é mais o que era antes e ainda há espaço para crescer duas ou três vezes mais nos próximos anos. A Revista traz uma boa entrevista com Pedro Cabral, criador da AgênciaClick, a maior da internet brasileira, e uma verdadeira aula com Flavio Dias, diretor geral de e-commerce do Walmart. Cabral fala da mentalidade antiga dos nossos homens de mídia, que sempre insistiram na hegemonia da televisão, embora a própria TV Globo, hoje, tenha medo da internet. Já Flavio revela que os velhos profissionais do antigo varejo não servem para trabalhar com e-commerce, obrigando até o Walmart a recrutar executivos de empresas jovens como a Submarino. Outros destaques são Adriano Amui, numa boa recapitulação da economia da época da bolha; Anna Gabriela Araujo, abordando cases de e-commerce fora do mainstream; e Rodrigo E. Tafner decifrando o chamado “S-commerce”, o Social Commerce – enquanto reproduz achados de Jeremiah Owyang em “The Future of Social Web” (relatório do onipresente Forrester Research). Owyang prevê que, em 2011, grupos on-line de consumidores suplantarão as marcas, direcionando a comunicação (e, não, o contrário), enquanto empresas de relações públicas servirão às comunidades on-line e não só às empresas. O gran finale fica por conta da tradicional mesa-redonda da Revista, dirigida pelos editores Francisco Gracioso e J. Roberto Whitaker Penteado, com as participações de Pedro Guasti, da e-bit, Fábia Georgetti Juliasz, do Ibope Nielsen Online, Marcelo Tripoli, da iThink, Pedro Waengertner, do Grupo Connectt, e Marcelo Lobianco, do iG. Conforme a venda recente do Buscapé e a explosão, no Brasil, do Twitter indicam, posicionar-se bem na internet não é mais urgente, é “pra ontem” – coisa que os publicitários já entenderam, mas os jornalistas...
Revista da ESPM sobre E-commerce

Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia

Jardel Dias Cavalcanti, Digestivo Cultural

“Havia em Florença um gigantesco bloco de mármore que havia sido esboçado por Agostino de Duccio, mas que foi abandonado antes de se transformar em escultura. Dois artistas disputavam a honra de esculpir o bloco para transformá-lo em uma obra de arte: Leonardo da Vinci e Andrea Sansovino. Mas seria Michelangelo quem ficaria responsável pela tarefa, devido à sua já consagrada fama de genial escultor por causa de seu Baco e de sua Pietà (esculpida aos vinte e três anos).

Michelangelo esculpiu Davi nesta enorme rocha de mármore, entre os anos de 1501-1504, como uma das mais belas representações do corpo humano. A escultura, um colossal adolescente de mais de quatro metros e meio de altura, foi colocado no centro da cidade de Florença para admiração pública. A nudez do Davi acabou despertando a ira pudica dos Florentinos que várias vezes o apedrejaram. Aretino, que criticou a indecência e as liberdades anticlássicas do Juízo Final, pediu ao artista, em 1545, que cobrisse com folhas de parra em ouro as partes vergonhosas do seu belo colosso.

Se para os outros era uma imagem pagã, para Michelangelo tratava-se da mais perfeita forma criada por Deus: o corpo masculino. Como anotou Romain Rolland, "para este criador de formas admiráveis, que era simultaneamente um piedoso crente, um belo corpo era algo de divino ― um belo corpo era o próprio Deus surgindo sob o véu da carne".

Essa Ideia de que é no corpo humano que a beleza divina melhor se manifesta é comprovada nos versos que Michelangelo dedicou a seu amante Cavaliere, quando diz que: "em nenhum lugar Deus se mostra mais a mim em sua graça do que em alguma bela forma humana; e só isso amo, pois nisso Ele se espelha".

Mais do que a simples representação de um adorável corpo adolescente nu, a obra de Michelangelo trazia para dentro de si as proposições máximas da estética e da filosofia do Renascimento. Superando o imperativo da Antiguidade da "semelhança com a natureza", contida na ideia de imitação, o que se pode ver é outra concepção, a de um triunfo da arte sobre a natureza, que se realiza graças à imaginação e à inteligência do artista que pode recriar a beleza absoluta que se acha incompleta no mundo natural, mas que está guardada perfeita na sua alma.

Para o Renascimento o grande escultor seria aquele que pela habilidade técnica produzisse o simulacro, a ilusão de que a vida habitava o mármore. A antiguidade clássica, que inspirava os renascentistas, baseava-se nessa proposição, e Virgilio,a eneida, alude tipicamente a "bronzes que respiram suavemente e rostos vivos feitos de mármore".

Concepção essa típica também dos tratados artísticos da época de Michelangelo, como em Dürer: "E entende-se que um homem trabalhou bem quando consegue copiar com precisão uma figura de acordo com a vida, de modo que o seu desenho se assemelhe à figura e se pareça com a natureza. Sobretudo se a coisa for bela, a cópia será considerada artística e fará jus aos mais altos louvores".

Leonardo da Vinci e Leon Battista Alberti eram de parecer de que a representação perfeita dos sinais físicos da emoção e dos estados de espírito constituíam a tarefa máxima e mais difícil para o artista, pois, como registrou Leonardo, a figura mais admirável é aquela que por suas ações melhor exprime o espírito que a anima. O objetivo, então, era expressar as operações do espírito através da forma, sendo a arte o melhor lugar de sua tradução.”
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