30 Novembro, 2010

Centenário de morte de Leon Tolstói, mestre de Gandhi

Leonardo Boff, Adital

“Ocupando lugar central da sala de estar de minha casa há impressionante quadro de um pintor polonês mostrando Tolstói (1828-1910) sendo abraçado pelo Cristo coroado de espinhos. Ele está vestido como um camponês russo e parece extuado como a simbolizar a humanidade inteira chegando finalmente ao abraço infinito da paz depois de milhões de anos ascendendo penosamente o caminho da evolução. Foi um presente que recebi do então Presidente da Assembleia da ONU Miguel d’Escoto Brockmann, grande devoto do pai do pacifismo moderno. No dia 20 de novembro celebrou-se o centenário de sua morte em 1910. Ele merece ser recordado não só como um dos maiores escritores da humanidade com seus romances Guerra e Paz (1868) e Anna Karenina (1875) entre outros tantos, perfazendo 90 volumes, mas principalmente como um dos espíritos mais comprometidos com os pobres e com a paz, considerado o pai do pacifismo moderno.

Para nós teólogos, conta especialmente o livro O Reino de Deus está em vós escrito depois de terrível crise espiritual quando tinha 50 anos (1978). Frequentou filósofos, teólogos e sábios e ninguém o satisfez. Foi então que mergulhou no mundo dos pobres. Foi ai que redescobriu a fé viva "aquela que lhes dava possibilidade de viver". Tolstói considerava esta obra a mais importante de tudo o que escreveu. Seus famosos romances tinha-os, como confessa no Diário de 28/20/1895, "conversa fiada de feirantes para atrair fregueses com o objetivo de lhes vender depois outra coisa bem diferente". Levou três anos para terminá-la (1890-1893). Saiu no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos (hoje Record) em 1994, com bela introdução de Frei Clodovis Boff, mas infelizmente esgotada.”
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29 Novembro, 2010

Apesar do recuo do tráfico, especialistas alertam contra euforia


Apesar do inegável apoio popular à ação da polícia, especialistas alertam que o otimismo excessivo - muitas vezes insuflado por setores da mídia interessados em não desvalorizar a “marca Rio” às vésperas da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 - pode mascarar uma realidade onde permanece evidente o longo caminho que ainda resta a ser percorrido para que o Rio possa realmente viver em paz. "Temos ainda no Rio de Janeiro centenas de comunidades controladas pelo tráfico ou pela milícia. O quadro é complexo, e as avaliações que estão sendo feitas são de um triunfalismo fora de tom”, diz Ignacio Cano, sociólogo e professor da Uerj. A reportagem é de Maurício Thuswohl.

Maurício Thuswohl, Carta Maior

A ocupação pelas forças do Estado das favelas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão, consideradas até então duas fortalezas inexpugnáveis do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, fez nascer na sociedade brasileira - e entre os cariocas em particular - a sensação de que os traficantes estão finalmente sendo enfrentados com seriedade pelo poder público. Mas, apesar do inegável apoio popular à ação da polícia, especialistas alertam que o otimismo excessivo - muitas vezes insuflado por setores da mídia interessados em não desvalorizar a “marca Rio” às vésperas da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 - pode mascarar uma realidade onde permanece evidente o longo caminho que ainda resta a ser percorrido para que o Rio possa realmente viver em paz.

Sociólogo, professor da Uerj e especialista em segurança pública, Ignacio Cano avalia que existe um otimismo exagerado após o recuo dos traficantes: “Definitivamente, eu acho que boa parte da imprensa e um setor da sociedade interpretaram o fato como se fosse a vitória final contra o tráfico de drogas. Essa é uma visão muito simplista, porque não há uma guerra e, portanto, não vai haver uma rendição. Temos ainda no Rio de Janeiro centenas de comunidades controladas pelo tráfico ou pela milícia. O quadro é complexo, e as avaliações que estão sendo feitas são de uma simplicidade e de um triunfalismo fora de tom”.

Ex-membro do Ministério Público e deputado estadual reeleito, Marcelo Freixo (PSOL-RJ) comemora o momento atual, mas também faz ressalvas: “O otimismo se dá em função de um território - que é dos mais complicados e um espaço onde havia uma grande concentração de armas e onde uma determinada facção do varejo da droga tinha muita força - ter sido efetivamente dominado pelo Estado através de suas parcerias políticas com o governo federal. Agora, daí a afirmar que os problemas de segurança pública no Rio estão resolvidos, eu diria que é mais do que euforia, é um tanto fraude”.

O deputado lembra que a venda de maconha, cocaína e outras drogas no varejo realizada nas favelas é apenas uma das pontas de atuação do narcotráfico: “O tráfico internacional que levou tantas armas e tantas drogas ao Rio de Janeiro não está afetado. Esse comércio internacional passa por lugares que não são as favelas, como a Baía de Guanabara, os aeroportos clandestinos ou estradas menos vigiadas. Não existem grandes ações no sentido de coibir esse tráfico de armas e drogas de forma sistemática”, diz.”
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28 Novembro, 2010

Deus me livre de mim!

Edivaldo Lourenço, Revista Bula

"A razão é um atributo do Homo sapiens, uma especificação de fábrica que nos distingue da fauna geral. A razão nos leva a certas práticas que são tipicamente humanas, tais como a cultura, o desenvolvimento do conhecimento e sua acumulação, a reflexão sobre as próprias atitudes e aprender com os erros próprios e dos outros, principalmente a melhoria da condição de vida através da capacidade empreendedora. Talvez seja por isso que ainda nos primórdios da civilização essa capacidade foi reconhecida e legitimada como um mandamento divino. Daí o Deus de Abraão ter ordenado em suas primeiras manifestações formais: Crescei e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.

Este é por certo o mandamento que o homem mais vem cumprindo à risca. Até com certo garbo e arrogância. Porque aqueles outros (não matarás, não roubarás, não desejarás a mulher do próximo, respeitarás pai e mãe, não levantarás falso testemunho etc) o ser humano, como coletividade, não tem dado a mínima. E parece que enquanto mais avança no desenvolvimento das ferramentas, esses ditames ancestrais, que bem poderiam ser perenes, vão caindo no esquecimento coletivo. Já na questão de dominar a terra, de avançar sobre os bens naturais, sem ao menos os importar com os malefícios que nossas ações possam nos trazer, seja para a nossa geração, seja para as gerações futuras, temos sidos convictos, muito além da conta.

Nosso instinto empreendedor está eivado de pulsões de vandalismo. Estudos biológicos comprovam que a parte do cérebro que comanda o nosso senso empreendedor está acondicionada juntamente com resquícios evolutivos de propensão vandalista, do tempo em que as aves eram o tope da linha da criação animal. As aves são vândalas por princípio. Uma galinha, por exemplo, é capaz de jogar tudo pro alto e por terra, numa ciscação medonha, se tiver esperança de encontrar um grão que seja de cereal num ambiente. Outro dia, caminhando pelo Parque Vaca Brava, pude perceber que as flores de um ipê amarelo caiam metodicamente, uma depois da outra, numa sequência frenética e desesperada. Observei que entre a ramada havia um periquito ordinário, cortando flor por flor, numa fúria incontida. Observei, ou deduzi que ele não tirava nenhum proveito derrubando as flores daquele modo. Aquilo apenas atendia à ânsia de empreendedorismo vândalo das aves, ao instinto de promover a bagaceira. Os agricultores sabem que quando as maritacas atacam os arrozais o estrago é total. Não porque elas comem tudo, mas porque elas derrubam os cachos, comendo alguns grãos, aqui e ali. Daí ser preciso vigiar a roça com argumentos de fogos ou alguns espantalhos em forma de palhaços Tiririca, distribuídos em pontos estratégicos.”
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27 Novembro, 2010

Rio: as várias faces do crime


Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“E eis-nos às voltas com a violência no nosso querido Rio de Janeiro. Amplificados ou não por uma mídia que nem sempre faz questão de distinguir a realidade do sensacionalismo e que, por isso mesmo, às vezes acaba contribuindo para estender o alcance das intenções terroristas dos criminosos, esses acontecimentos estão a merecer um posicionamento mais efetivo das autoridades e da sociedade em geral, em diversas frentes.

A evolução da violência no Rio, culminando na perplexidade que toma conta, hoje, dos cariocas, foi muito bem descrita na coluna da Leila Cordeiro. Neste primeiro momento, parece óbvio que os cidadãos conscientes têm que apoiar as medidas repressivas ao tráfico levadas a efeito pela nossa “polícia do bem” (ainda é preciso saber distingui-la), da mesma forma que foram aplaudidas as instalações das diversas UPPs, com seus esperados desdobramentos no campo social.

Nunca é demais, contudo, enfatizar que não estamos diante de um caso policial, mas de um muito sério problema estrutural de uma sociedade adoentada, cujas origens estão na miséria e na pobreza impostas a vastas camadas do povo, aliadas a uma postura de descomprometimento e abandono com que foram sendo tratados os menos favorecidos, ao longo de muitos anos. A exclusão é a mãe do crime, tendo como cúmplice a perversa convivência do poder público com a desigualdade social.

Antes das medidas desencadeadas pelo Governo Sérgio Cabral – que, mal ou bem, romperam a cadeia de passividade diante do crime organizado no Rio e, por isso, contam com o incondicional apoio da populaçao - , o único momento em que, a rigor, tentou-se uma solução de estrutura para o problema situou-se no tempo de Leonel Brizola, ao contrário do que tentam, até hoje, veicular os seus detratores. Naquele instante, entendendo-se o problema em toda a sua complexidade social e vislumbrando-se a sua extensão futura, apontava-se a Educação como um caminho de busca da solução. Os CIEPs pretendiam ser – e creio que seriam – uma alternativa à senda criminosa, com reflexos imediatos (ao retirar os jovens do convívio direto e infelizmente sedutor com o crime, no dia a dia) e mediatos (ao preparar, pela formação, uma geração capaz de rejeitar a marginalidade pela digna inserção social).

Argumentos elitistas “constitucionais”, porém, dinamitaram o projeto de Darcy Ribeiro, alegando que não se podia gastar tanto dinheiro assim em algumas escolas públicas de tempo integral, já que não se podia fazer o mesmo com todas, ferindo, assim, o princípio “democrático” da igualdade. Mas é claro que ali se iniciava um processo que se poderia disseminar, através de políticas públicas que, aumentando as verbas para a Educação, chegassem à universalidade de procedimentos. De qualquer forma, a argumentação revelava uma preferência pelo nivelamento por baixo, que acabou prevalecendo até hoje...”
Foto: Felipe Dana, AP
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26 Novembro, 2010

Desconstruir o preconceito contra o nordestino

Casos de intolerância contra nordestinos mostram como setores da sociedade agem para proteger a estrutura social da qual fazem parte

Eduardo Sales de Lima, Brasil de Fato

A estudante de direito Mayara Petruso clamou, por meio de uma rede social na internet, por um assassinato em massa. “Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado!”. A moça proferiu isso por conta da vitória de Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais, atribuindo sua vitória ao voto dos nordestinos.

A atitude dela, entretanto, apenas traça uma caricatura histórica de alguns setores da sociedade brasileira, especialmente o sulista. É de muito que a infelicidade do preconceito encontra eco nas classes médias e elites do país.

Um exemplo disso. Diogo Mainardi, no artigo “Com Dilma, o PT chega em quinto”, escrito para a revista Veja, esbaldou-se da visão racista do jornalista carioca Euclides da Cunha (autor de Os Sertões, morto em 1909) para criticar o povo brasileiro e nordestino.

Diz o texto de Mainardi: “analisando a campanha de Canudos, Euclides da Cunha delineou perfeitamente o caráter nacional”. O articulista de extrema-direita, ao criticar a vitória de Dilma Rousseff e a continuidade do governo petista, capitaneado com relativo sucesso por um pernambucano, afirma que Euclides da Cunha compreende a mente e o comportamento dos brasileiros quando assemelha os seguidores de Antônio Conselheiro a “retardatários”, dotados de uma “moralidade rudimentar” e com uma série de “atributos que impediam a vida num meio mais adiantado e complexo”.

Construção

Como testemunha viva da história recente brasileira, o sociólogo pernambucano e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) Chico de Oliveira, que trabalhou na Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) ao lado do economista Celso Furtado, cita um exemplo e elucida ainda mais o papel de figuras da elite brasileira e paulista na construção do preconceito em relação aos nordestinos.”
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25 Novembro, 2010

A difícil arte de viver no Rio

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“O que teria acontecido com o Rio de Janeiro? Perguntam-se todos os dias os cariocas que precisam ir e vir na cidade que vive debaixo de um verdadeiro fogo cruzado entre polícia e bandido. Hoje já não se fala mais em violência e sim em guerra, uma guerra que começou silenciosa sem que ninguém se desse conta e hoje está fora de controle.

Antigamente, e não me pergunte quanto tempo faz isso, assaltos pipocavam nos sinais de trânsito, toca-fitas eram roubados nos estacionamentos, era preciso ter cuidado ao andar nas ruas para não ter a bolsa furtada por algum ladrão de canivete que saía correndo depois do roubo.

Tudo isso parecia muito perigoso para quem estava acostumado a passear livremente pela orla da praia, sentar num barzinho da moda para um chopinho, pegar um cineminha no bairro, ir a um show ou uma peça de teatro sem ter que passar pela frustração de ter os pneus do carro roubados.

Apesar de tudo, comparado com os dias de hoje, eram tempos românticos. Era um tempo em que até a violência era mais ingênua, se é que podemos usar essa expressão. Os criminosos eram menos poderosos e a polícia...bem, a polícia podia receber uma cerveja por uma pequena infração cometida, mas não fazia trato com bandidos nem se misturava com eles. Comprar uma arma era bem mais difícil e os pontos de droga só vendiam maconha.

Mas a ampulheta do tempo correu depressa e a criminalidade tomou cores berrantes em cada esquina da cidade maravilhosa. Saía um governo, entrava outro, e a situação piorava sem que os governantes tenham se dado conta, apesar dos indícios cada vez mais fortes e evidentes, de que a criminalidade tornara-se incontrolável.

Os ladrões de canivete de outrora, hoje fazem parte de poderosas quadrilhas que contam com armas modernas e de alto poder de fogo. De dentro ou fora dos presídios, os chefões do tráfico dão as ordens e respondem ao reforço do policiamento com assaltos cada vez mais ousados. Deixaram para trás os morros da cidade e desceram até o asfalto, sem medo de enfrentar e até caçar policiais. Essa é a verdade, a própria polícia parece acuada.”
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24 Novembro, 2010

O preconceito é burro e emburrece


“Numa história em quadrinhos clássica, internacionalmente premiada, Maurício de Souza mostra Cebolinha pintado de verde. É o mesmo Cebolinha de sempre, com a mesma roupa, o mesmo cabelo, o mesmo medo da Mônica, a mesma troca de letras nas palavras, o mesmo gosto pelo futebol, a mesma vontade de envolver o amigo Cascão em seus planos infalíveis para tornar-se o dono da rua.
Mas não era possível: quando viam Cebolinha de outra cor, seus amigos se escondiam, fugiam, não queriam jogar bola, não queriam falar de planos. Queriam apenas ver-se longe daquele ser estranho – que, de estranho, só tinha a cor diferente da habitual.

Burros, né? No entanto, o preconceito existe. Existe preconceito racial, existe preconceito social, existe preconceito de cor, existe agora preconceito geográfico (aliás, não existe, ou só existe para quem é burro: os empresários do Nordeste continuam negociando com os empresários do Sul, os banqueiros de uma região procuram expandir-se para outra; não há intelectual sulista que se preze que tenha deixado de ler Gilberto Freyre e não se delicie com Ariano Suassuna, não há um intelectual nordestino que se preze que não tenha lido de Monteiro Lobato a Fernando Henrique, passando por Sérgio Buarque de Holanda – cuja família, aliás, tem origem em Pernambuco – não há paulista, paranaense, barriga-verde ou gaúcho que não queira passar férias no Nordeste, há raros nordestinos que não têm parentes em São Paulo). O pior do preconceito, entretanto, é o apoio a ele de muitos meios de comunicação: é a tomada de posição antialguma coisa com base em discriminações partidárias, geográficas, políticas ou de comportamento.

Há, por exemplo, uma certa proteção da imprensa a jovens bem-postos que, gritando slogans homofóbicos, agridem pessoas e as ferem seriamente. No caso da Avenida Paulista, em que cidadãos pacíficos foram atacados com lâmpadas fluorescentes (além de cortantes, venenosas), pontapés e socos, todos os meios de comunicação informaram que os agressores estudavam em escolas particulares da região. Qual escola, ou quais escolas? No fim, meio a fórceps, soube-se que pelo menos um deles tinha sido expulso há tempos de uma escola conhecida, exatamente por seu comportamento agressivo. Mas, neste momento, onde estaria estudando? Como serão seus colegas? Como é tratada, ali, na escola que hoje frequenta, a questão do preconceito?

Há certo encorajamento, especialmente por jornalistas que perderam posições nas empresas e se dedicaram à internet, ao preconceito contra elites e contra São Paulo; esse encorajamento se repete em veículos impressos, como o que se refere àquela idiota que divulgou em seu twitter ataques a nordestinos, como "a paulista". E não houve qualquer pressão da imprensa sobre a polícia para que investigasse quem é que, também em mensagens pelo twitter, propunha que um atirador de elite alvejasse a cabeça de um candidato à Presidência da República.

O papel dos meios de comunicação é, sem dúvida, relatar os fatos – mas sem maximizá-los, sem incentivá-los. E, se é para tomar posição, que seja a posição do bem, de luta contra os preconceitos em geral. Caso o veículo seja favorável ao mal, aos preconceitos, está protegido pela liberdade de imprensa; mas todos saberão o que é que realmente defende. O que não se pode é tolerar que, fingindo combater preconceitos, órgãos de comunicação incentivem os preconceituosos de seu lado enquanto condenam apenas os adversários. Como disse certa vez John dos Passos, que não o convidassem para condenar meia guerra; que se unissem a ele para condenar a guerra inteira.”

23 Novembro, 2010

Vaticano libera a camisinha

Rui Martins, Direto da Redação

“Enfim, o Vaticano tira do index o preservativo. Mas não para os fiéis.
Ainda no ano passado, o cardeal Ratzinger, transformado no mais reacionário dos Papas modernos, tinha afirmado, numa viagem aos Camarões e Angola, que « o preservativo agravava o problema da Aids ». E insistido para seus fiéis africanos praticarem a abstenção, enquanto seus concorrentes muçulmanos permitem aos fiéis terem até cinco esposas.

Como diria Galileu, « mas a Terra continua girando », e diante do óbvio, das críticas e da perda da credibilidade da Igreja, principalmente diante da juventude, Bento XVI sai do obscurantismo e justifica, numa entrevista, num livro com lançamento nesta semana, o uso do preservativo, dando mesmo como exemplo o caso da prostituição masculina.

É uma revolução no Vaticano. Mas não significa para os católicos devotos o fim do método contraceptivo Ogino Knaus, pois o Papa só fala em casos que reduzam o risco de contaminação. Casais fiéis, que comungam regularmente, imagina-se não viverem o risco de contaminação e os exegetas das santas decisões vaticanianas logo reafirmarão a proibição do uso da camisinha como anticoncepcional.
Para as prostitutas é a grande chance para exigir que seus clientes católicos usem camisinha, mesmo se alegarem não ser correto se chupar bala com o papel.

As organizações anti-Aids saúdam a decisão do Papa, pois a Igreja vinha sendo um sério empecinho para programas de distribuição das camisinhas em festas populares, que geralmente terminam em copulações mesmo discretas. Carnaval e Copa do Mundo com camisinhas serão torneios bem mais seguros, nas intimidades dos foliões, jogadores e seus torcedores.

Imagina-se que os próprios padres pedófilos passarão a usar preservativos nas suas atividades extra-religiosas e que diminuirá o número de afilhados de padres mais ardorosos nas regiões interioranas.

Enfim, pelo que se depreende dessa extraordinária renovação espiritual do Vaticano, o Papa Bento XVI aceitou permitir o uso da camisinha, pelo menos aos prostitutos, diante da evidência de que a castidade, assim como a virgindade, dão câncer.

Hans Kung, em Tuebingen, deve ter sorrido e comentado, « custou mas, enfim, Ratzinger aceitou modernizar a Igreja ». Estava na hora, porque havia associações de defesa dos direitos humanos querendo processar o Vaticano como cúmplice nos casos de infeções com Aids, evitáveis pelo uso do preservativo.”

22 Novembro, 2010

Trânsito para a morte

Frei Betto, Adital

“Comemora-se no domingo, 21 de novembro, o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito. No Brasil, a violência automotorizada ceifa, por ano, 37.000 vidas, e causa lesões em outras 120 mil pessoas, a maioria condenada à invalidez (dados IPEA/DENATRAN/ANTP).

Os gastos com vítimas de acidentes de trânsito somam, por ano, R$ 34 bilhões (resgate, tratamento, perdas de produção e materiais etc.). Isso equivale a mais da metade de todo o orçamento anual do Ministério da Saúde.

O Brasil ocupa, hoje, a 5ª posição mundial em quantidade absoluta de fatalidades no trânsito, depois da Índia, China, EUA e Rússia. Conforme pesquisa divulgada pelo IBGE este ano, em diversos estados brasileiros o trânsito já mata mais do que a violência interpessoal.

Se sérias providências não forem tomadas, nos próximos quatro anos morrerão, em ruas e estradas do Brasil, mais 160 mil pessoas; e mais 720 mil serão hospitalizadas, o que representará um custo de R$ 136 bilhões ao país.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, morrem no mundo cerca de 1,2 milhão de pessoas, todos os anos, por causa da violência no trânsito. Ficam feridas e/ou inválidas mais de 20 milhões. A OMS informa que, a continuar nesse ritmo, as fatalidades em ruas e estradas passarão do 9º lugar (2004) para o 5º lugar (2030) entre os principais fatores de mortalidade no mundo, provocando cerca de 2,4 milhões de mortes ao ano.

Esse índice será devido, principalmente, ao crescimento dos acidentes em países em desenvolvimento, como a Índia, a China e o Brasil, e nos países pobres. É importante frisar que, na faixa etária de 15 a 29 anos, os acidentes no trânsito já são a primeira causa de mortes no mundo, à frente da Aids, da tuberculose e da violência.

Preocupada com esta catástrofe, a ONU declarou 2011-2020 a Década de Ação para a Segurança Viária, e o terceiro domingo de novembro como o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito.”
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21 Novembro, 2010

O preconceito contra as palavras

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Anda circulando pelo noticário, com algumas idas e vindas em termos de definição, o que seria uma tentativa de censurar o livro “Caçadas de Pedrinho”, escrito em 1933, vetando-se sua leitura no âmbito do Ensino Fundamental, sob a alegação de que contém elementos racistas, particularmente vinculados à figura da personagem Tia Nastácia. O documento do Conselho Federal da Educação admite, como alternativa para a continuidade da adoção da obra, a condição de que o professor tenha “a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil” , o que, convenhamos, é observação carregada de imensa subjetividade.

A título de exemplificação, uma das passagens arguidas como racistas dizia: “Tia Nastácia, esquecida de seus inúmeros reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

O assunto envolve um ícone na história da nossa literatura infanto-juvenil, um verdadeiro clássico. Mais de uma geração – e eu pertenço a uma delas – cresceu lendo o grande escritor de Taubaté e apaixonando-se pelo mundo mágico do Picapau Amarelo, no qual um dos personagens mais encantadores era justamente a tia Nastácia, muitas vezes cúmplice ou confidente da garotada do Sítio e suas estrepolias, muitas vezes ingênua, muitas vezes sábia na sua ingenuidade... Foi pela “voz” de tia Nastácia que aprendi muito sobre os tipos representativos do nosso delicioso folclore.

É difícil não identificar essa postura do pessoal do CNE como uma manifestação aparentada com a censura. Procurando ser justo, prefiro atribuir esse grande equívoco à febre do “politicamente correto” que vem grassando no país, provavelmente influenciada, neste caso, por certas críticas que conferem a Lobato um posicionamento racista em livros que escreveu para o público ,adulto."
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Silvio Santos enfrenta decadência

Fabio Maksymczuk de Almeida Brito, Portal IMPRENSA

“As últimas semanas foram marcadas por uma tremenda bomba que ganhou destaque nos noticiários. O Banco PanAmericano enfrenta uma terrível crise. Segundo a imprensa, a instituição promoveu uma fraude contábil. Diante do fato, o empresário Silvio Santos pegou um empréstimo de R$ 2,5 bilhões com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para o PanAmericano não quebrar. Silvio deu como garantia do empréstimo o Baú da Felicidade, SBT, Jequiti, entre outras propriedades.

Nos intervalos do SBT, a todo momento, aparece uma mensagem do Banco PanAmericano que explica o fato e frisa que "as pessoas e empresas que confiam no Grupo Silvio Santos estão absolutamente garantidas. Não tiveram e nem terão, em hipótese alguma, qualquer prejuízo".

Aos 80 anos, Silvio Santos enfrenta o processo de decadência. Além do Banco PanAmericano, o dono do "Baú" também não enfrenta um bom momento à frente do SBT. A emissora perdeu a vice-liderança e não consegue sair do letárgico 3º lugar no IBOPE. Até mesmo, agora a Band começa a ameaçar tal posição no ranking das audiências. O empresário até brinca que no SBT tudo é uma bagunça.

O Baú também não tem o charme de antigamente. O tradicional carnê perdeu espaço e está em vias de extinção.

Devido à crise, o canal deverá passar por mais momentos delicados. Segundo boatos, o SBT agora poderá estudar propostas de vendas de horários na madrugada para Igrejas evangélicas. Outros já especulam que o SBT poderá ser vendido para o bilionário Eike Batista. Já o patrocínio do Banco ao Corinthians não deverá ser renovado.

Um fato inusitado merece ser lembrado. No Teleton, Celso Portiolli comentou, após a doação do Grupo Itaú-Unibacno, que era correntista do Itaú. Após a gafe, Portiolli frisou que também tinha conta no PanAmericano. Momento tenso. Nesta oportunidade, Silvio Santos ficou mudo e calado. Sem nenhuma brincadeira. Agora entendemos a razão para isso.”

19 Novembro, 2010

A Piauí tergiversando sobre o fim dos jornais

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

“Em agosto, numa entrevista para a CBN, João Moreira Salles anunciou uma matéria da Piauí sobre o fim dos jornais. O mês de setembro veio, e nada. A edição de aniversário da revista veio, em outubro, e uma chamada, que não era de capa, dizia: “Caro e chato: Branca Vianna investiga a crise do jornalismo investigativo”. Era isso? A matéria sobre o “fim dos jornais” era isso? Aparentemente era. E, lendo, era mesmo. João Moreira Salles teria errado no seu anúncio? Ou teria, então, sido mal compreendido? Na CBN – o áudio segue no ar – ele dizia: “A gente vai publicar uma matéria, no mês que vem [setembro], sobre o futuro do jornalismo. Quais são as tendências para o jornalismo, o que é que está acontecendo no jornalismo...”. (Não era jornalismo investigativo, era jornalismo mesmo.) Continuando com: “Todo mundo acha que... [o jornalismo] é uma profissão que começa a desaparecer. Do jeito como a conhecemos e, portanto, sem saber como ela será no futuro. É um momento em que seu velho mundo desapareceu e o novo mundo ainda não tem forma.” (De novo: jornalismo e, não, jornalismo investigativo.) Para concluir assim: “O que as pessoas dizem é que os Estados Unidos terão [só] um ou dois jornais nacionais. E a informação regional virá de sites e da internet. O papel desaparecerá.” Então, era sobre o fim dos jornais (e sobre o futuro” do jornalismo). Mas o que aconteceu, nesses dois meses, com a matéria da Piauí? Em primeiro lugar: no fim dessa mesma entrevista, João Moreira Salles admitia que o mesmo modelo insustentável, de publicidade, dos jornais, era adotado pela Piauí. E assumia – meio a contragosto – que isso comprometia o futuro da revista. Logo, uma primeira conclusão (para a mudança de rumo na matéria da Piauí) era a de que “falar sobre o fim dos jornais” (ou, se preferirem, “sobre o fim do jornalismo como o conhecemos”) soaria como um tiro no pé.”
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18 Novembro, 2010

A esquerda fantasma

A esquerda estadunidense é um fantasma. É evocada pela direita para rotular Barack Obama como um socialista e usada pela social-democracia para justificar sua complacência e letargia. Ela desvia a atenção do poder das corporações, e com isso, perpetua o mito de um sistema democrático que é influenciável pelos votos dos cidadãos, pelas plataformas políticas e pelo esforço dos seus representantes.

Chris Hedges, truthdig.com / grabois.org

E que mantém o mundo claramente dividido em esquerda e direita. A esquerda fantasma funciona como um conveniente bode expiatório. A direita a acusa pela degeneração moral e pelo caos fiscal. A social-democracia a utiliza para apelar à "moderação". E enquanto perdemos nosso tempo a falar bobagens, a máquina do poder corporativo está, cega, cruel e irrefletidamente, a devorar com gosto o Estado.

O desaparecimento da esquerda radical na política estadunidense tem-se demonstrado catastrófico. Noutros tempos, a esquerda abrigava desde militantes anarquistas a uma imprensa alternativa e independente, passando por movimentos sociais e políticos desatrelados do mecenato corporativo. Mas o seu desaparecimento, resultante da longa caça às bruxas anticomunista, à pós-industrialização e ao silenciamento de quem não subscreveu a visão utópica da globalização, significa que não há forças a se contrapor à nossa regressão ao neofeudalismo corporativo. Esta dura realidade, no entanto, não é exatamente palatável. Assim, as empresas que controlam a comunicação de massa conjuram o fantasma de uma esquerda, e põem nele a culpa por nossa decadência. E nos põem a falar em coisas absurdas.

A esquerda fantasma desempenhou um papel central nas ruas neste fim de semana em Washington. Teve, para Glenn Beck (1), um desempenho admirável, a tal ponto que ele o utilizou em seu próprio comício, como uma espécie de para-raios, para despertar a raiva e o medo. E essa mesma esquerda fantasma mostrou-se igualmente útil para os comediantes Jon Stewart e Stephen Colbert (2), que falaram para a multidão fantasiada de vermelho, branco e azul. Os dois comediantes evocaram o fantasma da esquerda, como os social-democratas sempre fazem, na defesa de moderação, ou melhor, apatia. O argumento que se segue é: se a direita é insana e a esquerda também, então nós, os moderados, somos os razoáveis. Sejamos bacanas. A Exxon e a Goldman Sachs, juntamente com os outros bancos rapinantes e a indústria bélica, podem estar rasgando as tripas do país, nossos direitos básicos – incluindo o habeas corpus – podem estar sendo revogados, mas não nos enfureçamos com isso. Não sejamos histéricos. Não façamos como os lunáticos esquerdistas.”
Tradução: Luiz Lima
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17 Novembro, 2010

Qualquer miserável tem preconceito

Urariano Motta, Direto da Redação

“Em um vídeo que corre na internet, um miserável apresentador da RBS/TV Globo em Santa Catarina (foto) expressa miseráveis ideias, se assim podemos chamá-las sem faltar ao respeito ao adjetivo miserável e ao substantivo idéia. Suas pragas correm em um vídeo no YouTube, ( Veja o vídeo ) onde um animal raivoso vocifera, zurra, ao afirmar que a culpa do caos no trânsito se deve ao fato de que “hoje qualquer miserável tem um carro”.

E mais orneja, como se falasse: “o sujeito mora apertado numa gaiola,que hoje chamam de apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E esse camarada casado, como não suporta a mulher dele, nem a mulher suporta ele, sai. Vão pra estrada. Vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar suas frustrações, com excesso de velocidade. Tem cabimento o camarada não vencer a curva? Como se curva fosse feita para vencer... Então é isso, estultícia, falta de respeito, frustração, casais que não se toleram, popularização do automóvel, resultado desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro. É isso”.

É claro que nesse gênero de expressão ele não está só, como vimos nas últimas manifestações de preconceito contra nordestinos em São Paulo. A unificar tais coices avulta sempre um poderoso preconceito de classe. Salta aos olhos nos últimos tempos a raiva, a indignação da classe média frente aos novos consumidores de bens que ela julgava ser sua exclusividade. Pois os pobres, de repente, ao fim do governo Lula, danaram-se e começaram a entrar e sair dos aeroportos – “qualquer miserável hoje anda de avião”. De repente, acharam de jantar com a família nos restaurantes aos domingos – qualquer miserável hoje paga um jantar em restaurante bacana. Ousaram – suprema ousadia - comprar imóveis. Qualquer miserável hoje pode largar o pagamento do aluguel.”
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16 Novembro, 2010

Hippies e Yuppies

Marcos Fayad, Revista Bula

“O musical "HAIR" acaba de estrear no Rio de Janeiro. Ainda não assisti essa montagem, mas vi trocentas vezes a primeira nos anos 70, era amigo de um monte de atores que trabalhavam na peça como o Armando Bogus, Sônia Braga, Laerte Morrone, começava a fazer teatro e ia assistir de graça umas três vezes por semana por puro deleite de ver tão claramente exposta a ideologia da minha geração sobre o palco. Era ideologia, não era moda. As ideias de "HAIR" causaram tanto medo aos poderosos do mundo inteiro que chegaram a inventar um sistema de créditos nas universidades pra nos dividir, não permitir que as mesmas pessoas se encontrassem nas mesmas turmas por anos a fio e pudessem se articular. Amizade e convivência eram um perigo. Cada um fazia seus créditos em turmas diferentes e isso prevalece até hoje. Mas primeiro tentaram nos reprimir e amedrontar de todas as formas conhecidas. Foi “HAIR” que deflagrou tudo isso porque pregava a desobediência civil de diferentes maneiras conforme o País onde viviam os jovens. Nos EEUU eles se recusavam a alistar como soldados pra guerra do Vietnã. Queimavam seus documentos em praça pública.

As músicas de "HAIR" traduziam exatamente nossa filosofia de vida e a mais conhecida e amada delas "Era de Aquarius" tem versos que nos definiam: "Olhos cheios de esperança e um amor que não se cansa na madrugada da Era de Aquarius" — uma coisa linda demais que nos fazia crer que íamos, finalmente íamos, mudar o mundo senil e doido em que vivíamos. O espetáculo era uma porrada na cara dos caretas hipócritas, mas eles lotavam os teatros durante meses e meses, abismados com o que viam, as cores, a desobediência às normas estabelecidas, a nudez coletiva, os temas, os beijos na boca entre pessoas do mesmo sexo.”
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15 Novembro, 2010

O negócio do jornalismo televisivo

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Um fato no mínimo curioso aconteceu na semana que passou no jornalismo televisivo dos Estados Unidos. Keith Olbermann, o mais radical entre todos os opinativos âncoras - considerados de esquerda da MSNBC -, foi suspenso por ter feito contribuições financeiras a candidatos democratas na eleição do dia 2 de novembro. Segundo a direção da emissora, ele infringiu regras internas que não permitem doações partidárias, aparentemente, porque caracterizariam uma tomada de posição.

Ora, certamente essas regras já deveriam ser letra morta há muito tempo, desde que os canais MSNBC e FOX deixaram de lado o compromisso de transmitir notícias com isenção e transformaram o jornalismo televisivo em um negócio rentável com base na opinião de Olbermann, Rachel Maddow e Chris Matthews (MSNBC) e Glenn Beck, Sean Hannity e Bill O’Reilly (FOX). Esses seis âncoras, comentaristas, jornalistas, ou seja lá que nome se queira dar à função que desempenham, se transformaram hoje em armas na guerra entre as duas organizações que amealham grandes lucros com suas análises e comentários decididamente parciais.

Cada uma delas optou pela conquista de um segmento. A FOX, do magnata australiano, Rupert Murdoch, é ostensiva e abertamente republicana, de oposição sem trégua ao governo Obama. Aparentemente lidera a disputa pela audiência entre as emissoras de notícias da TV a cabo. Pesquisa de 2009 indicava que o sinal da emissora entrava em 102 milhões de lares americanos. Seus comentaristas tiveram participação decisiva na recente vitória republicana na eleição de meio de mandato.

Em sentido contrário, trafega a MSNBC – que surgiu de uma parceria entre Microsoft e NBC, embora hoje a empresa de Bill Gates tenha apenas 18% das ações – que resolveu investir no público de pensamento democrata e seus âncoras são considerados de “esquerda”. Em 2009 era vista em 78 milhões de lares.”
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14 Novembro, 2010

Brinde assassino


Antonio Tozzi, Direto da Redação

“Com a recessão que toma conta dos Estados Unidos, os comerciantes vêm apelando para promoções criativas para atrair os consumidores. Assim, algumas lojas de móveis incluem uma TV colorida de tela plana de 50 polegadas no conjunto de sofá oferecido aos clientes. Certas lojas de pneus anunciam que você compra três pneus e ganha o quarto grátis. Como sabemos, as promoções nem sempe são exatamente bons negócios para os clientes, mas servem como chamariz para atrai-los e concretizar algumas vendas.

Nada, porém, supera a ousadia da Nations Trucks, revendedor Ford da região central da Flórida, perto de Orlando. Os proprietários querem incrementar as vendas dos trucks, caminhonetes bastante apreciadas pelo americano médio que vive no interior do país. Geralmente, o perfil deste americano é o de um sujeito branco, politica e religiosamente conservador e apegado aos valores dos ancestrais.

Por isto, não surpreende que este público forme o grande contingente de membros e simpatizantes da NRA (National Rifle Association), a entidade que defende o porte de arma para cada cidadão americano, conforme consta da Constituição dos Estados Unidos.

Pois bem, pensando em atrair esta clientela, os donos da Nations Trucks estão oferecendo de brinde uma arma para cada comprador de uma caminhonete nova. E não é qualquer arma, não. É uma AK 47, submetralhadora de assalto russa!”
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Segredos dolorosos


Vitor Hugo Soares, Terra Magazine

“Os principais diários de Salvador e os grandes jornais do País - com seus estranhos e incompreensíveis cadernos B e suplementos culturais cada vez mais grudados no que acontece ou vem de fora, alheios ou indiferentes ao que se passa diante do nariz -, praticamente ignoraram o principal fato da música e da cultura esta semana no Brasil. Um caso acontecido na capital baiana, é verdade, mas bem emblemático da confusão nestes dias de faz de conta na mídia em geral, na cultura, na política e no poder.

Segunda-feira (08), Caetano Veloso saiu do histórico palco do Teatro Castro Alves visivelmente extenuado. Os sinais de tensão e emoção ainda permaneciam à flor da pele do artista, como se ele tivesse acabado de participar de uma experiência semelhante à da maratona enfrentada pela atriz Jane Fonda, no demolidor filme de Sidney Lumet, "A Noite dos Desesperados" (Não se matam mais Cavalos?), joia premiada do cinema político e social dos anos 70.

Pode parecer exagero, mas esta é a primeira imagem comparativa que vem à cabeça do jornalista diante do espetáculo protagonizado pelo filho querido de Santo Amaro da Purificação, na cidade que o projetou para o País e o mundo. Agora, beirando os 70 anos de idade, Caetano havia acabado de vencer com a mesma garra e brilho (mesmo despedaçado física e intimamente) um teste demolidor.

Quase três horas de música e conversa sobre a vida, a poesia, a juventude e a velhice, os colegas e amigos, a profissão, a família, a religião, a política, a prisão, o exílio, a volta e a permanência. Uma catarse pessoal diante da plateia que ocupava todos os lugares do TCA em festa, como em suas noites mais memoráveis.

Por exemplo, aquela do reencontro (também na incrível década de 70) de Chico Buarque de Holanda com Caetano na volta do compositor baiano do exílio em Londres, imposto pela censura e o tacape da ditadura que então imperavam por aqui.”
Foto: Fernando Vivas, Futura Press
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12 Novembro, 2010

A menina que calou o mundo

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO 92, realizada no Rio há 18 anos, eu morava na Barra da Tijuca, perto do local onde estava acontecendo a Conferência.

Devo reconhecer que durante o tempo que durou o evento o bairro nunca esteve tão policiado e organizado. O trânsito comandado por policiais, e a presença ostensiva das Forças Armadas, fluía tranquilamente apesar de ruas interditadas e caminhos desviados. Houve um planejamento perfeito para que os diversos Chefes de Estado que por ali trafegassem se imaginassem no paraíso do meio ambiente com tudo funcionando às mil maravilhas, como manda a natureza, a divina e a dos homens.

Não bastasse o bom andamento do trânsito, a violência também deu uma trégua à cidade.Praticamente não houve manchetes de crimes em jornais, revistas ou na TV - na época não existia ainda a Internet. Também nesse quesito o esquema de segurança agiu com competência e conseguiu, pelo menos, disfarçar, transformando o Rio numa pacata e tranquila cidade pra se viver.

Bem,mas apesar de tanta maquiagem, lá dentro, no pavilhão onde acontecia a convenção, as discussões sobre a fome no mundo e a violência do homem contra a natureza eram acirradas. Os mais fracos querendo culpar os mais fortes pelo descaso com a sobrevivência das espécies a longo prazo. Os ricos e poderosos tentando justificar suas falhas fazendo promessas que nunca poderiam cumprir.

Mas em meio a tanto blá-blá-blá, vazio e de frases feitas, uma menina canadense de apenas 12 anos de idade, Severn Suzuki, subiu ao palco e começou um emocionante discurso com palavras que fizeram calar o mundo tal a verdade que continham. Até porque havia percorrido favelas no Rio e viu de perto que a realidade era bem outra além dos limites da Barra da Tijuca!”
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11 Novembro, 2010

Declaração emigrante pós-votação

Rui Martins, Direto da Redação

“Embora quase ninguém saiba no Brasil continental, depois das eleições presidenciais, havia, entre os emigrantes, outra eleição – a destinada a eleger um pequeno Conselho junto ao Itamaraty.
Antes de serem conhecidos os resultados, previstos para o fim desta semana, talvez valha a pena uma declaração. Isso porque, uma possível e mesmo previsível derrota, nos tirará a oportunidade de tocar no tema emigração durante algum tempo.

Discordamos desta recente política da emigração brasileira aplicada pelo MRE e pelo ministro Celso Amorim. Apesar de apoiarmos o governo Lula, achamos ter havido uma falha fundamental na abordagem da questão emigrante, com a entrega de sua elaboração a diplomatas e não aos próprios emigrantes.

Desde as primeiras horas da I Conferência Brasileiros no Mundo defendemos uma política de autodeterminação dos emigrantes, independente do Itamaraty. Nunca entendi que tipo de identidade pode haver entre diplomatas e emigrantes, se na diáspora são distantes e muitas vezes antagônicos.

Nessa mesma Conferência, levantamos um abaixo-assinado, majoritário, para a criação de uma Comissão de Transição mista, composta de emigrantes e de membros do governo, para que a Subsecretaria ds Comunidades Brasileiras no Exterior, criada pelo Itamaraty, fosse devolvida aos emigrantes.

O abaixo-assinado foi ignorado pelo MRE, não se falou mais em Comissão de Transição e se está a aplicar uma política onde os emigrantes são representados num subsubgrupo, de assessoria, de consultoria, sem qualquer importância, sem qualquer possibilidade de levar ao governo as reivindicações dos emigrantes e de criar a normatização necessária (estatuto, leis, regulamentos, decretos norteadores da emigração). Os nossos 3,5 milhões de emigrantes merecem coisa melhor que esse subgrupo, impedido pelos filtros do Itamaraty e seus diplomatas, de chegar diretamente ao presidente e à Casa Civil.”
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10 Novembro, 2010

Aos nossos filhos

Frei Betto, Adital

“Não tenho filhos. Mas, obviamente, sou filho, em companhia de mais sete irmãos. Se me faltam filhos biológicos, tenho-os espirituais ou por vínculos de parentesco. Sobrinhos são 16. Sobrinhos-netos, 14, dos quais nove com menos de cinco anos de idade!

Quando se fala em legado aos filhos há quem, de cara, pense em dinheiro. Tudo bem que os pais queiram fazer um pé de meia de olho no futuro de seus rebentos. Mas... cuidado! Não é dinheiro o que um filho mais espera dos pais, ainda que não saiba expressá-lo. É amor, amizade, apoio e, sobretudo, exemplo de vida. Thomas Mann dizia que um bom exemplo é o melhor legado dos pais aos filhos.

Ainda que os pais, bafejados pela roda da fortuna, deixem a seus descendentes gordas heranças, estas não deveriam ser o principal legado. Nada mais perigoso a um jovem que centrar sua autoestima na conta bancária ou no patrimônio familiar. É meio caminho para se tornar arrogante, preconceituoso e vulnerável às drogas. Sobretudo à cocaína, cujo efeito anaboliza a prepotência. Ao primeiro revés, o herdeiro despencará no abismo, despreparado para enfrentar a realidade.

Quem não se sente subjetivamente valorizado corre o risco de querer nutrir sua autoestima através de valores financeiros e patrimoniais. O ter suplantando o ser. Como o desejo tem fome de infinito, o tamanho da ambição costuma ter a medida da profundidade da frustração. Na Roma antiga os filósofos aconselhavam a considerar o necessário o suficiente. Uma sábia dica para saber lidar com a avassaladora pulsão consumista que assola o mundo.”
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09 Novembro, 2010

São Paulo sem Macunaíma?

Uma herança maldita deixada pela campanha eleitoral pessedebista: as forças obscuras que antes pareciam desmanteladas, ressurgiram de uma forma assustadora durante a campanha para a presidência da República, espalhando ódio e preconceito. Passada a eleição, eleita a Presidenta Dilma Rousseff, a velha elite paulista, retrógrada e conservadora, agora mostra os dentes tintos da mais repugnante xenofobia. Para isso usa, como emissários, seus filhotes internautas.

Mazé Leite, Vermelho.org

Macunaíma, romance do paulista Mário de Andrade, nasceu junto com o movimento modernista brasileiro, na esteira da famosa Semana de Arte Moderna de 1922 e do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. Eram tempos de descoberta de novos paradigmas trazidos pela modernidade e, como conseqüência, eram tempos de descobrir o Brasil, de conhecer o povo, a cultura e a língua brasileira. Do estrangeiro, propunha Oswald, abocanhemos o que trouxerem de bom, como bons antropófagos que somos.

Mas o Macunaíma de Mário de Andrade, publicado em 1928, é a síntese do povo brasileiro. Nessa história, Mário revoluciona a escrita literária, trazendo palavras e expressões tiradas diretamente da fala do povo que ele pesquisou de norte a sul. Em Macunaíma, Mário reúne as várias regiões do Brasil, e também une, num só personagem, as três raças brasileiras: negro, índio e branco. Macunaíma nasceu no meio da floresta amazônica, “preto retinto, filho do medo da noite”.

O herói sem nenhum caráter, como diz o subtítulo do livro, vem para São Paulo atrás de sua pedra (um talismã conhecido da cultura indígena), sua Muiraquitã, que foi roubada pelo gigante comedor de gente Venceslau Pietro Pietra que morava aonde? “No fim da Rua Maranhão olhando para a Noruega do Pacaembu”, ou melhor, em Higienópolis, mesma rua, mesmo bairro de um certo FHC pessedebista. Coincidência?

Como o gigante-ladrão morava em São Paulo, “cidade macota do igarapé Tietê”, Macunaíma e seus irmãos descem o rio Araguaia e vão para a metrópole na tentativa de recuperar sua Muiraquitã. A maior parte do romance se passa em São Paulo, onde acontecem diversos embates entre Macunaíma e Venceslau Pietro Pietra. O autor, nessas refregas entre os dois, satiriza alguns aspectos da vida paulistana provinciana. Ao final, Macunaíma mata o gigante e recupera seu amuleto, partindo de volta para o Uraricoera, seu lugar de origem. O defunto Venceslau é um dos únicos do romance que não se transforma numa estrela cadente no céu...

Macunaíma é a síntese do que é ser brasileiro, essa mistura de raças, essa heterogeneidade cultural que é nossa riqueza. É o negro, o índio e o branco convivendo em paz e gerando essa linda gente bronzeada e plena de valor, lembrando o samba de Assis Valente.”
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08 Novembro, 2010

Por que não uma menina?

Mitch Moxley, da IPS / Envolverde

“Cada vez é maior o número de chineses com recursos econômicos como Li Xiaoxue e seu marido, Dai Chunlin, que se propõem a driblar a política nacional de filho único para ter uma menina. “Se meu filho quiser ir trabalhar longe de casa, a menina poderá ficar e cuidar da gente”, explicou Li, de 34 anos. O casal tem uma empresa de computação em Pequim e renda equivalente a US$ 75 mil ao ano, suficiente para se esquivar dessa política.

A lei prevê multa de acordo com a renda anual da família, que pode variar entre US$ 45 mil e até mais de US$ 100 mil. “É muito caro ter um homem, especialmente em grandes cidades como Pequim e Xangai. Temos de comprar-lhe pelo menos um apartamento, porque do contrário será difícil ele encontrar uma noiva”, disse Li. O caso de Li e Dai não é o único. A preferência histórica pelo filho homem neste país causou um grande desequilíbrio de gênero. Porém, a situação começou a mudar nas cidades.

De 3.500 futuros pais entrevistados para um estudo feito em Xangai, em 2009, 15% disseram preferir uma menina e 12% um homem. Para o restante, era indiferente. Li tem muitas amigas que também querem meninas, pois estão conscientes de que o desequilíbrio de gênero se tornou perigoso. Para ela também parece antiquada a ideia de que as mulheres não podem fazer o mesmo que os homens. “As mulheres também podem herdar o negócio familiar. São tão capazes quanto os homens”, afirmou.

São vários os fatores que explicam a mudança de atitude, segundo sociólogos e demógrafos. O grande crescimento econômico criou mais oportunidades para as mulheres, especialmente nas cidades. O aumento da renda acabou derrubando as razões tradicionais para preferir um menino, como a de que ganham mais dinheiro e são capazes de ajudar os pais idosos. Algumas pessoas, como Li, pensam que é muito caro criar um filho homem e que uma filha tem condições de cuidar delas dentro de alguns anos.”
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07 Novembro, 2010

Civilização ou barbárie

Emir Sader, Carta Maior / Blog

“Esse é o lema predominante no capitalismo contemporâneo. Universalizado a partir da Europa ocidental, o capitalismo desqualificou a todas outras civilizações como ‘bárbaras”. A ponto que, como denuncia em um livro fundamental, Orientalismo, Edward Said, o Ocidente forjou uma noção de Oriente, que amalgama tudo o que não é Ocidente: mundo árabe, japonês, chinês, indiano, africano, etc. etc. Fizeram Ocidente sinônimo de civilização e Oriente, o resto, idêntico a barbárie.

No cinema, na literatura, nos discursos, civilização é identificada com a civilização da Europa ocidental – a que se acrescentou a dos EUA posteriormente. Brancos, cristãos, anglo-saxões, protestantes – sinônimo de civilizados. Foram o eixo da colonização da periferia, a quem queriam trazer sua “civilização”. Foram colonizadores e imperialistas.

Os EUA se encarregaram de globalizar a visão racista do mundo, através de Hollywood. Os filmes de far west contavam como gesto de civilização as campanhas de extermínio das populações nativas nos EUA, em que o cow boy era chamado de “mocinho” e, automaticamente, os indígenas eram “bandidos, gestos que tiveram em John Wayne o “americano indômito”, na realidade a expressão do massacre das populações originárias.

Os filmes de guerra foram sempre contra outras etnias: asiáticos, árabes, negros, latinos. O país que protagonizou o mais massacre do século passado – a Alemanha nazista -, com o holocausto de judeus, comunistas, ciganos, foi sempre poupada pelos nortemamericanos, porque são iguais a eles – brancos, anglo-saxões, capitalistas, protestantes. O único grande filme sobre o nazismo foi feito pelo britânico Charles Chaplin – O grande ditador -, que teve que sair dos EUA antes mesmo do filme estrear, pelo clima insuportável que criaram contra ele.”
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06 Novembro, 2010

Estado laico e pluralista e as Igrejas

Leonardo Boff, Adital

“A descriminalização do aborto e a união civil de homossexuais, temas suscitados na campanha eleitoral, ensejam uma reflexão sobre a laicidade do Estado brasileiro, expressão do amadurecimento de nossa democracia. Laico é um Estado que não é confessional, como ocorre ainda em vários países que estabelecem uma religião, a majoritária, como oficial. Laico é o Estado que não impõe nenhuma religião, mas que respeita a todas, mantendo-se imparcial diante de cada uma delas. Essa imparcialidade não significa desconhecer o valor espiritual e ético de uma confissão religiosa. Mas por causa do respeito à consciência, o Estado é o garante do pluralismo religioso.

Por causa dessa imparcialidade não é permitido ao Estado laico impor, em matéria controversa de ética, comportamentos derivados de ditames ou dogmas de uma religião, mesmo dominante. Ao entrar no campo político e ao assumir cargos no aparelho de Estado, não se pede aos cidadãos religiosos que renunciem a suas convicções religiosas. O único que se cobra deles é que não pretendam impor a sua visão a todos os demais nem traduzir em leis gerais seus próprios pontos de vista particulares. A laicidade obriga a todos a exercer a razão comunicativa, a superar os dogmatismos em favor de uma convivência pacífica e diante dos conflitos buscar pontos de convergência comuns. Nesse sentido, a laicidade é um princípio da organização jurídica e social do Estado moderno.

Subjacente à laicidade há uma filosofia humanística, base da democracia sem fim: o respeito incondicional ao ser humano e o valor da consciência individual, independente de seus condicionamentos. Trata-se de uma crença, não em Deus como nas religiões que melhor chamaríamos de fé, mas de crença no ser humano em si mesmo, como valor. Ela se expressa pelo reconhecimento do pluralismo e pela convivência entre todos.

Não será fácil. Quem está convencido da verdade de sua posição, será tentado a divulgá-la e ganhar adeptos para ela. Mas está impedido de usar meios massivos para fazer valê-la aos outros. Isso seria proselitismo e fundamentalismo.”
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05 Novembro, 2010

Livro garante que Hitler e Elvis moraram juntos na Argentina. Já o Paul McCartney, este morreu mesmo

Eberth Vêncio, Revista Bula

"De acordo com o pesquisador boliviano Oscar Cocacuela, existem documentos irrefutáveis a garantir que Hitler não estourou os próprios miolos, e fugiu, sim, para a América Latina no apagar das luzes das bombas da Segunda Guerra Mundial. Quem fora suicidado à época em seu lugar (e também de Eva Braun) se tratava, na verdade, de Karlitos (um inexpressivo artista circense que imitava Charles Chaplin em Berlim), juntamente com a bela Fran, sua companheira engolidora de facas e cuspidora de suásticas.

Cocauela não diz o que houve realmente com a esposa do tirano no trajeto do casal até a Argentina, mas é certo que ela não desembarcou. Há relatos contundentes (ele afirma) que o Führer a teria empurrado do convés e seu corpo precipitado no mar. Uma vez instalado na capital portenha, o carismático nazifascista fora discretamente recepcionado pela comunidade alemã local, uma turma que já havia debandado da Europa para escapulir da loucura da guerra.

A primeira providência tomada pelos conterrâneos foi raspar o bigodinho quadriculado e colocar o novato aos cuidados intensivos de uma professora de espanhol, pela qual (aí não resta qualquer dúvida) ele se afeiçoou profundamente (ora, vejam só!), ao ponto de experimentarem um curto romance.

Diz o ditado que a necessidade faz o sapo pular. Então, Hitler adaptou-se rapidamente à vida latina. Inteligente que só, aprendeu com facilidade o idioma nativo e começou a trabalhar como estivador no cais. Ralou também numa salsicharia como enchedor de linguiças. Além disto, fez “free-lance” como auxiliar de garçom em vários bares e restaurantes de Buenos Aires.”
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04 Novembro, 2010

A cretinização da América

José Inácio Werneck, Direto da Redação

Outro dia usei o verbo pervadir na frase "…pervade nossa sociedade". Mas, ao ler a coluna, já publicada, temi que houvesse criado um neologismo e pedi ao editor que trocasse para "…impregna nossa sociedade".

Não achei "pervadir" no Aurélio, embore o achasse no Aulete, que me deu um ou dois exemplos que não me convenceram de todo. Se é neologismo, pervadir deveria ser adotado, pois, afinal, vem do latim "pervadere" e significa invadir e difundir-se pelo organismo invadido.
Tem a mesma raiz de invadir, mas um sentido mais específico.

Hoje uso no título uma palavra que não é neologismo, é uma palavra forte mas, acho, bem adequada ao que acaba de ocorrer nas chamadas eleições de meio-termo nos Estados Unidos. Como é possível que, apenas dois anos depois de eleger Barack Obama, os americanos possam devolver o poder na Câmara dos Deputados aos mesmos republicanos que foram responsáveis por oito anos de desastrosa política econômica?

Mas não é tão difícil assim de entender, quando sabemos que Barack Obama falhou na missão de comunicar sua mensagem ao público e quando lemos nos jornais palavras como a de um eleitor que se declarou contra o programa governamental de combate ao aquecimento global, nos seguintes termos: "A Bíblia nada fala de aquecimento global e, portanto, ele não existe".

Bem, a Bíblia não fala em vírus, eletricidade, internet ou transmissões radiofônicas, para ficarmos nos ítens mais prosaicos, e entretanto eles existem. A avalanche de votos para os republicanos significa que eles criarão todos os obstáculos imagináveis para que os Estados Unidos enfrentem um problema que, afinal, foi criado em sua maior parte pelos americanos.”
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03 Novembro, 2010

Desafios e vitórias das mulheres


Leila Cordeiro, Direto da Redação

O que diria hoje Betty Fridman, que lançou em 1963 nos EUA o movimento feminista, denunciando a opressão da mulher diante de uma sociedade totalmente machista e defendendo direitos femininos iguais aos do homem no mercado de trabalho? Com certeza, ela, que foi tão combatida na época, ficaria orgulhosa com o desempenho da categoria, outrora considerada apenas sedutora e submissa à vontade masculina, sempre mais poderosa e autoritária por tradição.
De alguns anos para cá, a própria mídia passou a ver a mulher sob outra ótica. Ao lado das popusudas, existem as que lutam pela transformação do mundo. Vejamos alguns exemplos.

Nos EUA, a democrata Hillary Clinton, sobrevivente de um dos maiores escândalos de traição de que alguém já foi vítima em todos os tempos, quase elegeu-se presidente, dando a volta por cima na fama de mulher enganada pelo marido, Bill Clinton, então presidente da república, que acabou rendendo-se à coragem, determinação e talento da esposa que de “pobre coitada traída”, passou a mito feminino e referência para mulheres do mundo inteiro.

A ex-candidata à vice presidente na chapa republicana, na época, governadora do Alaska, Sarah Palin, surgiu de repente no cenário político tomando conta até do espaço do cabeça de chapa, John McCain. Ela é que parecia estar disputando o maior cargo executivo americano tamanha a garra e paixão com que se lançou na campanha eleitoral. Palin errou por não saber dosar o seu talento e força de persusão. Tornou-se persona non grata na mídia americana por causa de suas gafes e demonstrações de intransigência política.

Perdeu, mas renasceu das cinzas, pediu demissão do cargo de governadora, lançou um livro, é protagonista de um reality show, lançou uma corrente xíita republicana dentro do próprio partido, o Tea party, e já é considerada candidata em potencial à presidência dos EUA em 2012.”
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Papa e aborto

Leonardo Boff, Envolverde

“É importante que na intervenção do Papa na política interna do Brasil acerca do tema do aborto, tenhamos presente este fato para não sermos vítimas de hipocrisia: nos catolicíssimos países como Portugal, Espanha, Bélgica, e na Itália dos Papas já se fez a descriminalização do aborto (Cada um pode entrar no Google e constatar isso). Todos os apelos dos Papas em contra, não modificou a opinião da população quando se fez um plebiscito. Ela viu bem: não se trata apenas do aspecto moral, a ser sempre considerado (somos contra o aborto), mas deve-se atender também a seu aspecto de saúde pública. No Brasil a cada dois dias morre uma mulher por abortos mal feitos, como foi publicado recentemente em O Globo na primeira página. Diante de tal fato devemos chamar a polícia ou chamar médico? O espírito humanitário e a compaixão nos obriga a chamar o médico até para não sermos acusados de crime de omissão de socorro.

Curiosamente, a descriminalização do aborto nestes paises fez com que o número de abortos diminuisse consideravelmente.

O organismo da ONU que cuida das Populações demonstrou há anos que quando as mulheres são educadas e conscientizadas, elas regulam a maternidade e o número de abortos cai enormente. Portanto, o dever do Estado e da sociedade é educar e conscientizar e não simplesmente condenar as mulheres que, sob pressões de toda ordem, praticam o aborto. É impiedade impor sofrimento a quem já sofre.

Vale lembrar que o canon 1398 condena com a excomunhão automática quem pratica o aborto e cria as condições para que seja feito. Ora, foi sob FHC e sendo ministro da saude José Serra que foi introduzido o aborto na legislação, nas duas condições previstas em lei: em caso de estupro ou de risco de morte da mãe. Se alguém é fundamentalista e aplica este canon, tanto Serra quanto Fernando Henrique estariam excomungados. E Serra nem poderia ter comungado em Aparecida como ostensivamente o fez. Mas pessoalmene não o faria por achar esse cânon excessivamente rigoroso.”
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01 Novembro, 2010

Elite de Miami elege Serra

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Pois é, se dependesse dos brasileiros do sul da Flórida (Miami, principalmente), Dilma não teria a menor chance. Ela tomou uma lavada de 3.340 a 692, segundo números divulgados no site do Consulado-Geral do Brasil em Miami Clique aqui . A abstenção foi absurda, mais da metade dos inscritos não compareceram. Votaram 4.173 pessoas, o que equivale a apenas 40,6% dos eleitores inscritos.

A que atribuir essa vitoria de Serra nesse microcosmo brasileiro encravado no sul dos EUA?

Bem, vamos começar pela questão da representatividade. Em um universo estimado em 300 mil brasileiros nessa área, pouco mais de 10 mil eleitores inscritos, convenhamos, é um número rídiculo que está longe de representar a enorme comunidade patrícia.

Esses acanhados números, por si só, caracterizam a presença de uma elite econômica e, certamente, sem problemas com a imigração americana, na votação deste domingo 31 de outubro. Não que houvesse qualquer restrição ao voto do brasileiro não legalizado, mas é voz corrente que a grande massa de brasileiros indocumentados evita aparecer em eventos públicos que caracterizem um risco de serem apanhados.”
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