30 Julho, 2009

Meu eu escritora

Taís Kerche, Digestivo Cultural

“Eis aqui um exercício de metalinguagem. Escrever sobre o ato de escrever. O meu ato de escrever. Tão particular e tão íntimo. Pura introspecção cheia de prazer. O Word aberto, uma tela branca e os dedos no teclado. Tudo parece quieto, mas, na realidade, a mente está a mil por hora, procurando um começo, um meio e um fim. Coesões e coerências. De preferência em períodos curtos, leves, sonoros. Adjetivos, substantivos, vírgulas, sujeitos, conjugações verbais. Tudo isso pensado automaticamente, rapidamente, artisticamente.

Mas nada se inicia sem os fones de ouvido que reproduzam alguma música estimulante, que combine com o astral do dia ou com o tema do texto. Sem eles não há jeito de encontrar o ritmo da escrita. Da música clássica, passando pela bossa nova, chegando num chorinho e, uma vez ou outra, até um rock, para estimular algum lado meu um pouco mais agressivo. Só depois de colocados é que a mente se liberta para dedilhar no teclado as primeiras frases das primeiras ideias que vão surgindo aos poucos. Sinto que a música tem o poder de isolar a minha mente do mundo externo. E o mundo das ideias vai ganhando espaço no mundo das letras.

Mas, antes de colocar os fones, leio alguns textos. Na realidade, alguns trechos de textos. Principalmente dos meus. Este ato é uma forma de me reencontrar com o meu eu escritora. Afinal, desenvolvemos muitos "eus" nessa vida, e o escritora acaba perdido em algum canto, deixado de lado por alguns dias ou às vezes horas e, dependendo da fase, por meses. Ao reler meus textos, acabo o achando, o tiro do canto e o coloco na ativa, intensamente, mesmo que esteja em um dia preguiço ou em outro mais ansioso. O importante é tirá-lo da inércia.

Também procuro ler alguns trechos de outros escritores a fim de buscar inspiração. Ao observar outros tipos de escrita, outras maneiras de abordagem de temas, acabo me entusiasmando com as possibilidades criativas e tento colocar a minha em prática. Não tenho nenhum escritor obrigatório, prefiro os cronistas e colunistas. Simpatizo com textos que abordem temas do cotidiano com uma linguagem leve e despretensiosa. Que me inspirem a olhar para o meu dia a dia e ver nele prosa e poesia. E assim tentar colocar um pouco de literatura nos meus textos.”
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Tumor e humor

Urariano Mota, direto da Redação

“Deve existir alguma relação entre o abismo e o riso, entre a consciência de uma desgraça e a graça. Há indivíduos tímidos que se descobrem de repente humoristas, porque começam a falar o pensamento que antes calavam, porque descobriram que nada mais tinham a perder. No limite, tornam-se humoristas involuntários, e com surpresa veem que uma pequena observação desperta gargalhadas à sua volta, quando eles próprios estão com os olhos duros de dor.

Um amigo, a quem conheço mais do que gostaria, percebeu isso na semana passada. Submetido a exames médicos de rotina, que na sua idade revelam sempre males de rotina, descobriu que possuía o rim esquerdo muito alterado. O médico urologista ao ver as imagens da ultrassonografia, enrugou a testa:

- O senhor tem uma massa tumoral...

- O senhor quer dizer um tumor?

- Sim... Temos que marcar rápido uma cirurgia.

O mundo então se lhe abriu. Porque, como capítulos de uma novela a que não se pode antecipar o fim, o médico lhe disse que de imediato não podia confirmar se aquela imagem indicava um câncer (“O que ele queria?”, me contou o amigo, “que a imagem do meu rim fosse a de um caranguejo?”), que isto só poderia ser dito quando sofresse uma biópsia. E para a certeza do mal...

- Somente com a cirurgia. Ponha já na sua cabeça, programe-se, diga-se: “eu vou fazer uma cirurgia”. É simples, rápido e eficiente. É só uma laparoscopia.

Ao sair do consultório, renasceu, se assim podemos dizer. Renasceu, porque do câncer lhe nasceu um insuspeitado humor. A começar com a sua mulher, que o esperava na recepção:

- O que o médico achou do exame?, ela lhe perguntou.

- Nada... É só uma laparoscopia.

- O que é isto?

- Uma cirurgia certa para o meu tumor. Aqui, à esquerda.

- Um tumor?!

- Sim, mas o doutor me disse que eu tenho muita sorte. Olhando as coisas pelo lado positivo: eu ainda não estou urinando sangue.

E deixou a mulher em casa e saiu sozinho para encher-se de cervejas, sob a desculpa, não de desespero, mas de que sendo portador de um mal nos rins era necessário que se embriagasse de algo muito diurético.”
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29 Julho, 2009

Homem sonhando o mundo

Ronaldo Correia de Brito, Terra Magazine

"Quando tio Gustavo retornou do Sul, era madrugada. Ouvi os latidos dos cachorros, as batidas na porta da nossa casa e o nome do meu pai gritado alto. Depois escutei minha mãe chorando, transtornada com a magreza do tio, seu semblante envelhecido. Tudo se passando junto de mim, em torno da rede em que eu fingia dormir para escutar as histórias que nunca me contavam.

- Menino não precisa saber certas coisas - era o que diziam me enxotando para longe da roda dos mais velhos.
Ofereceram ao tio o pouco que havia em casa: rapadura, queijo, coalhada fresca. Antes, o tio não comia esses alimentos rudes. A fome e o sofrimento na terra distante acabaram seus orgulhos de homem.

- O Sul não existe - falou enquanto mastigava. É pura invenção de violeiro repentista. Eles enchem a cabeça da gente de promessas mentirosas. Viajar é o mesmo que correr atrás de fumaça.
Mamãe olhava o irmão, em seguida olhava meu pai, arrumava a roupa vestida às pressas, sem a ajuda de um espelho. Era a mais inquieta de todos nós, a que menos compreendia o mundo nebuloso de onde tio Gustavo retornava. Para ela, além do Sertão só existiam a Amazônia e o Sul.

- O que é o Sul? Se não perguntam, eu sei. Se me perguntam, desconheço. Meu pai me dava instrução para o dia em que eu tivesse de migrar. Aprendera a ler sozinho e me ensinava tudo o que sabia. Nossos livros estavam gastos, de tanto passar de mãos. Não eram muitos: A História Sagrada, As Mil e uma Noites, o Romance de Carlos Magno e os Doze Pares de França, A Ilíada. Para que precisávamos de mais livros? Toda sabedoria do mundo estava ali. Sem transpor os cercados da fazenda, conhecia as cidades da Terra: as de antigamente e as de agora.”
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A coisa ficou afrodescendente para o humor negro

Helio De La Peña

“King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”

Tomei conhecimento desta piada feita pelo Danilo Gentili através do twitter. Admiro o trabalho do humorista, acompanho a atualização do seu twitter, fiz questão de assistir seu stand up quando esteve no Rio e ri muito, assim como curto suas matérias no CQC. Enquanto representante do humor negro, black ou afrodescendente, resolvi pôr a mão nessa cumbuca quente.

É um tema que provoca discussões passionais. Há os que querem condenar quem faz piada com preto, há os que querem condenar quem reage a uma piada com preto. Sou contra proibir piadas, mas acho que a reação a elas deve ser encarada com naturalidade.

Não tenho problemas com piadas de qualquer natureza, desde que elas sejam engraçadas. Não foi o caso. Quando a piada é boa, não cria constrangimento. E as explicações patinam, não esclarecem nada. No caso, ela me incomodou porque faz um paralelo do gorila com um jogador. Mas não qualquer jogador e sim um jogador preto.
Afinal, a graça estaria aí. Ninguém comenta ou faz piada se um jogador branco pega uma loura. O estereótipo com o qual nós, humoristas, trabalhamos com freqüência é a do jogador negro (ou pagodeiro negro) que subiu de vida e, como tem grana, consegue pegar uma lourinha. O argumento de que não foi citada a cor do jogador é furado.”
Blog do La Peña
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Honduras - O interino

Elaine Tavares, Adital

“Diz o Rubem Alves que as pessoas engravidam é pelo ouvido. E creio nisso, afinal, somos um país oral. A educação - vide voto do presidente do STF, Gilmar Mendes, sobre o diploma de jornalista - não está ao alcance de qualquer um. Ela é relegada aos filhos da elite, esses sim precisam estudar e aprender. Os demais, só precisam da escola funcional, que dá o mínimo de competência para girar a máquina do capital. Por isso, a televisão é que acaba sendo a "universidade" das gentes.

Triste destino esse. Afinal, nada mais servil e mancomunado com a classe dominante do que a televisão. É ali, na telinha, que se expressa a ideologia do sistema capitalista, calcado na opressão. Espaço de meias-verdades e grandes mentiras. Lugar das bocas-alugadas, dos jornalistas a soldo da elite nacional entreguista. Claro que há exceções, mas isso só confirma a regra. Então, para a maioria, que se informa pelo tubo de luz, resta a de-formação, a universidade ao revés.

Nestes dias em que o mundo acompanha o golpe de estado em Honduras, pode-se perceber como o discurso vai mudando. Na primeira semana era o golpe e havia a condenação mundial. Não havia como não anunciar. Mas, ainda assim, os motivos mesmo do conflito ficavam perdidos no meio das dezenas de notícias desconectadas. Assim, ao final do telejornal, permanece apenas a sensação de que algo está passando em Honduras, mas não se sabe bem o quê. O certo é que é culpa de Hugo Chávez, o "monstro" venezuelano que quer ressuscitar o comunismo.

Neste sábado chegamos ao paroxismo do deboche. A CNN em espanhol que transmite via cabo para toda a América Latina, desde o começo da quartelada em Honduras tem claramente apoiado os golpistas. Eles são as estrelas, são os entrevistados e a vozes que falam por Honduras. Tudo bem, até aí nenhuma novidade já que a CNN é o braço midiático dos Estados Unidos na América Latina. Mas, desde hoje, a empresa que transmite direto de Atlanta, ainda que em espanhol, começou a chamar o governo de Micheletti de "governo interino". Ora, essa é um pouco demais. Já não é golpe, já não é quartelada, é só um governo interino de transição. Mas de transição a quê?”
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28 Julho, 2009

O Amor em tempos de cólera: Lupicínio Rodrigues e Arrigo Barnabé

As canções interpretadas por Arrigo são também narrativas que tecem, simultaneamente, a compreensão do que é o amor para Lupicínio e para seu cultor. Assim, as canções mesclam revolta, indignação, sentimento de perda, mas também displicência com a amada. E humor.

Olgária Mattos, Carta Maior

“Caixa de Ódio” é a apresentação,no café-concerto Casa de Francisca, das canções de Lupicínio Rodrigues por Arrigo Barnabé com os virtuoses no piano e violão Paulo Braga e Sérgio Espíndola. Essa “caixa” é também a de Pandora, uma escultura com aparência feminina encantadora, criação dos deuses gregos e doada aos homens. Foi ela a vingança de Zeus contra Prometeu que lhe roubou o fogo sagrado. Por isso ela queimará os homens. Mas sua beleza visível contraria sua realidade secreta onde reina um temperamento devorador que “não suporta nem a mediocridade, nem a continência”, como notou o poeta Hesíodo. Resplandecente de beleza e brilho, seduz inapelavelmente os homens, trazendo consigo todos os bens e todos os males. A “caixa de Pandora”, no masculino, é uma “caixa de ódio”. E o ódio exige vingança.

As canções interpretadas por Arrigo são também narrativas que tecem, simultaneamente, a compreensão do que é o amor para Lupicínio e para seu cultor. Assim, as canções mesclam revolta, indignação, sentimento de perda, mas também displicência com a amada. E humor. O enredo então: “Cadeira Vazia” e a mulher que abandona, “Volta” e a presença da ausente, “Aves daninhas”, são “cruéis como punhais”. Ela é “Dona Divergência”, que “com seu archote/espalha os raios da morte/a destruir os casais/e eu, com o batente atingido/sou qual um país vencido/que não se organiza mais.” É preciso ter “nervos de aço”, ela provoca ciúmes, faz o sangue ferver, deixa o amante em estado de confusão mental: amor, despeito, amizade ou horror. E ela é também a traição, vai morar com seu melhor amigo.

Mas há também a revanche, de vez em quando um homem vinga todos os homens, comprometendo a amada adúltera: “ela disse-me assim/tenha pena de mim/vai embora/ele pode chegar/vai me prejudicar/está na hora/e eu não tinha motivo nenhum para me recusar/mas aos beijos caí em seus braços/pedi pra ficar/sabe o que se passou?”. E o cancioneiro se torna conselheiro dos moços, pobres moços que “julgam que há um grande futuro/só o amor nesta vida conduz/Saibam que deixam o céu por ser escuro/E vão ao inferno em busca de luz.”
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MP analisa se humorista do CQC fez piada racista no Twitter

"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?" A frase é de Danilo Gentili, integrante do programa CQC (Band). Postada na madrugada de sábado (25) para domingo no Twitter, a declaração se arrasta numa polêmica que deixou de ser virtual e chegou ao MPF-SP (Ministério Público Federal em São Paulo).

Vermelho.org

Segundo a assessoria de imprensa do MPF-SP, a mensagem de Gentili já foi encaminhada a um procurador, que vai apurar se houve ou não crime de racismo. A ONG Afrobras também se posicionou contra o "repórter inexperiente". "Nos próximos dias devemos fazer uma carta de repúdio. Estamos avaliando ainda [entrar com] uma representação criminal", diz José Vicente, presidente da ONG.

"Isso foi indevido, inoportuno, de mau gosto e desrespeitoso. Desrespeitou todos os negros brasileiros e também a democracia. Democracia é você agir com responsabilidade", avalia Vicente.

Correção de percurso

Alguns minutos após escrever seu primeiro "tweet" sobre King Kong, Gentili tentou se justificar no microblog. "Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?" Mais de uma vez, ele tentou se justificar. "Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com cara porque é famoso. A cabeça de vocês que têm preconceito."

No domingo, o integrante do CQC jogou na web uma foto em que aparece enjaulado: "Obrigado, pessoal. Vocês conseguiram me prender igual a um macaco por denúncias de racismo." Gentili possui cerca de 165 mil seguidores na plataforma (twitter.com/danilogentili).”
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O fantasma do racismo

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Um pequeno incidente na cidade de Cambridge, Massachussets, ganhou dimensão nacional e criou um problema de proporções políticas para o presidente Barack Obama que foi obrigado a se desculpar publicamente por palavras que dissera no dia anterior. E reacendeu a velha discussão sobre o racismo, um tema que, nos Estados Unidos, embora tentem tratá-lo com naturalidade, ele permanece encravado no inconsciente das pessoas e volta e meia reaparece com força total, basta que algum fato inesperado lhe acenda o pavio.

Tudo começou no fim de semana passado quando o professor Henry Gates Jr, um dos vinte mais importantes professores da universidade de Harvard, chegou em casa, em companhia de um amigo, e forçou a porta de entrada porque não tinha levado as chaves. Uma vizinha ligou para a polícia e avisou que dois homens negros com mochilas estavam tentanto entrar na casa.

Daí em diante, as declarações se desencontram. O professor alega que foi vítima de uma atitude arbitrária e racista por parte do policial que, mesmo sabendo que ele era o dono da casa, levou-o preso. O sargento Crowley, que efetuou a prisão, afirma que foi desrespeitado pelo professor e não teve outro jeito senão dar-lhe voz de prisão e nega qualquer ponta de racismo no episódio. O professor acabou algemado e preso, e autuado por desacato à autoridade e por perturbar a ordem pública.

O episódio repercutiu no início da semana, mas já caia para segundo plano na preferência da mídia - superado que foi pela polêmica reforma do sistema de saúde proposta pelo presidente Barack Obama, que está encontrando enorme resistência da oposição republicana e criando uma cisão entre a maioria democrata no Senado - quando aconteceu o inesperado.

Numa conferência de imprensa na quarta-feira, para explicar seu plano para a saúde, Obama colocou lenha na fogueira quando um repórter lhe pediu a opinião sobre o caso do professor. O presidente, sem a ajuda do teleprompter, foi apanhado de surpresa e não mediu as palavras:

A polícia de Cambridge agiu com estupidez ao prender alguém que já tinha provado que estava em sua própria casa...mesmo não considerando este incidente, há uma longa história neste país de aplicação da lei desproporcionalmente contra afro-americanos e latinos.

No dia seguinte, o clima era de guerra. O professor queria ir às últimas consequências por se julgar vítima de racismo, o policial se dizia decepcionado com o presidente por emitir opinião sobre um assunto local, sem conhecer os detalhes do acontecido. O país ficou dividido, organizações de direitos civis de um lado, em apoio ao professor, associações de policiais de outro, em apoio ao sargento.”
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27 Julho, 2009

Extrapolação e colapso do sistema mundial?

Leonardo Boff, Adital

“Como nunca antes, se fala hoje em todos os países e fóruns, de desenvolvimento-crescimento. É uma obsessão que nos acompanha já há pelo menos três séculos. Agora que ocorreu o colapso econômico, a idéia retornou com renovado vigor, porque a lógica do sistema não permite, sem se autonegar, de abandonar essa idéia-matriz. Ai das economias que não conseguem refazer seus níveis de desenvolvimento-crescimento. Vão simplesmente sucumbir junto com uma eventual tragédia ecológica e humanitária.

Mas precisamos dizer com todas as palavras: essa retomada é uma armadilha na qual a maioria está caindo, inclusive Bento XVI na sua recente Encíclica Caritas in veritate, toda dedicada do desenvolvimento. Isso pôde ser verificado quase unanimemente, nos discursos dos representantes dos 192 povos presentes na ONU no final de junho. A grande exceção, que causou espanto, foi a fala inicial e final do Presidente da Assembléia da ONU, Miguel D’Escoto, que pensou para frente na lógica de um outro paradigma de relação Terra-Vida-Humanidade-Economia e subordinando o desenvolvimento a serviço destas realidades axiais. De resto, não se dizia outra coisa: há que se retomar o desenvolvimento-crescimento senão a crise se pereniza.

Por que digo que é uma armadilha? Porque, para alcançar os índices mínimos de desenvolvimento-crescimento de 2% anuais previstos, precisaríamos, dentro de pouco, de duas Terras iguais a que temos. Não o digo eu, disse-o o ex-presidente francês J. Chirac por ocasião da publicação em Paris no dia 2 de fevereiro de 2007 dos resultados do aquecimento global pelo IPCC. Repete-o com frequência o renomado biólogo Edward Wilson e o formulador da teoria da Terra como Gaia, o cientista James Lovelock, entre outros. A Terra está dando inequívocos sinais de estresse generalizado. Há limites intransponíveis.”
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A nova queda da Bastilha

Gian Danton, Digestivo Cultural

(...)
“O filósofo canadense Marshall McLuhan dizia que pouco importa o que os meios de comunicação de massa dizem. O que realmente importa é que eles existem e, como tal, mudam a cabeça das pessoas.

A imprensa mudou o mundo. Como o povão não sabia falar latim, os editores publicavam seus livros em línguas locais, o que reforçou as identidades nacionais, abrindo caminho para os reinos absolutistas. A mesma imprensa abriu caminho para a revolução francesa, ao permitir a mobilização de multidões (não por acaso, todos os líderes revolucionários eram jornalistas). Posteriormente, o rádio, o cinema e a televisão também mudaram o mundo. O rádio e o cinema foram usados de forma competente pelos nazistas para criar uma multidão de zumbis prontos a acatar qualquer ordem do führer. A cena do filme O Grande Ditador, do Chaplin, em que o discurso do tirano pelo rádio se reflete instantamenteamente no barbeiro judeu é uma imagem-símbolo desse poder das mídias, usado de forma tão nefasta por Hitler.

A televisão mudou o mundo a partir da década de 1960. De uma hora para outra, pessoas podiam ver e ouvir informações de qualquer lugar do mundo, criando condição para aquilo que McLuhan chamou de aldeia global e quebrando o mundo inventado pela imprensa. Os protestos contra a Guerra do Vietnã foram um reflexo dessa aldeia global que começava a surgir naquela época.

Da mesma forma que a imprensa, o rádio, o cinema e a televisão, a internet está mudando o mundo, talvez de forma mais radical do que jamais aconteceu. O mundo está se tornando cada vez mais virtual. As pessoas namoram pela internet, compram pela internet, fazem amizade pela internet e até mesmo protestam pela internet. Na verdade, até mesmo o voto tornou-se virtual. O que é a urna eletrônica senão um voto virtual? Não existe voto físico, mas mesmo assim ele é real, ainda assim é capaz de eleger uma pessoa e mandar outra para o ostracismo.

Para a nova geração, as coisas não precisam vir para o mundo concreto para existirem. Uma amizade pode viver anos só no Orkut e no MSN, sem que as duas pessoas se encontrem. Já existem até mesmo namoros puramente virtuais.

Recentemente, até a bolsa de valores se rendeu à internet, acabando com os pregões físicos. Agora todas as operações serão virtuais.

Para a nova geração, nativa da internet, não é necessário ir às ruas para demonstrar seu descontentamento. Mas essa geração tem um poder fenomenal de produzir virais, mensagem que se espalham continuamente. Tanto que a tag #forasarney foi uma das mais difundidas do mundo, mesmo com a concorrência da morte de Michael Jackson.

Há 220 anos, os franceses revoltados e insuflados pela imprensa invadiram e tomaram a Bastilha. Foi um evento que mudou o mundo. Começava ali a era moderna. Naquele mesmo dia era seputada a Idade Média. A Revolução Francesa mudou tudo: criou a república, institucionou a ideia de Rousseau de que o governo emana do povo. Até a moda, a música e a literatura foram transformados com a queda da Bastilha.

Em 1789 as pessoas precisaram se juntar fisicamente para provocar mudanças. A nova queda da Bastilha vai ser virtual. Só os dinossauros não perceberam isso ainda. E, pelo jeito, o Senado está cheio de dinossauros.”
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26 Julho, 2009

A democracia está capengando. Esquerda terá que ser radical

A chamada “democracia eleitoral” dá sinais de esgotamento por todos os cantos do mundo. A democracia está atrofiada e precisa encontrar novas formas para rejuvenescer e que passam por uma participação mais efetiva da sociedade através dos movimentos sociais, mas também pela radicalização das propostas. A esquerda necessita libertar-se do drama de fazer as reformas que a direita sempre quis fazer, para impor uma agenda que amplie e radicalize a democracia. O artigo é de Éric Aeschimann, publicado no Libération e traduzido pelo Cepat (Centro de Pesquisa e Apoio dos Trabalhadores).

Éric Aeschimann - Libération (IHU On-line)

Doença na democracia, nevoeiro nas urnas. É esse o efeito retardado de uma sucessão de escrutínios de resultados embaraçosos para a esquerda? Um movimento de humor diante da democracia liberal triunfal? Nova mania de alguns filósofos? Ou uma crise mais profunda? O fato está aí: a democracia, em todo o caso na sua forma eleitoral, está mal de saúde e os intelectuais vêm à sua cabeceira. Certamente para se perguntar pelo significado deste ataque de febre. Outros, mais radicais, para afirmar que, num mundo mais complexo e mais desigual que nunca, o sistema representativo não permite mais que a grande maioria participe da tomada de decisão coletiva e que se faz necessário se perguntar pelos próprios fundamentos.

Punir os eleitos. Primeiramente, a constatação. Ela atravessa clivagens políticas. Vindos da esquerda antitotalitária, os historiadores das idéias soam o alarme. “A democracia eleitoral incontestavelmente erodiu”, escreveu Pierre Rosanvallon no final de 2006 em La Contre-Démocratie [A contra-democracia]. Próximo da segunda esquerda, ele descreveu as diversas formas da “desconfiança” democrática, da “democracia negativa”: abstenção, manifestações, vontade de vigiar e punir os eleitos. Na introdução do primeiro volume de L’Avènement de la démocratie [O advento da democracia], que apareceu no outono, seu colega Marcel Gauchet prefere falar de “uma anemia galopante”, de uma “perda de efetividade” que ele atribui a uma “crise de crescimento” de grande amplitude. A ironia quer que essas análises se desenvolvam num momento em que, praticamente em oposição ao campo de batalha intelectual, a crítica da “democracia formal”, tão velha quanto o marxismo, conhece uma segunda juventude.

Testemunhando o inesperado sucesso do pequeno ensaio do filósofo Alain Badiou, De quoi Sarkozy est-il le nom ?, verdadeiro ataque da lei das urnas. “Todo o mundo percebe que a democracia eleitoral não é um espaço de escolha real”, escreve. Diante da “corrupção” das democracias pelas potências do dinheiro, teria chegado o momento de definir “uma nova prática daquilo que foi chamado de ‘ditadura’ (do proletariado). Ou ainda, e é a mesma coisa: um novo uso da palavra ‘Virtude’”.
Carta Maior / Tradução: Cepat
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José Saramago lança livro só com notas de seu blog

"Sou como um elefante numa loja de louças: não sigo pauta, nem roteiros." Desde setembro do ano passado, o escritor português José Saramago é um ilustre “elefante” que circula com desenvoltura pela rede mundial de comunicação. Na função de blogueiro, ele abastece sua página na internet (www.josesaramago.org) com certa regularidade, tratando desde temas particulares (sua passagem por São Paulo, no ano passado) até os aguerridos, como suas críticas à atuação do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.

O Estado de São Paulo / Vermelho.org

Aliás, os ácidos comentários ("Na terra da Máfia e da Camorra, que importância poderá ter o fato provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?") impediram a publicação, na Itália, do livro O Caderno (224 páginas, R$ 45), lançado aqui pela Companhia das Letras.

Trata-se de uma seleção de textos que Saramago postou entre setembro de 2008 e março deste ano. Na introdução, o escritor lembra-se de quando os cunhados lhe ofereceram um caderno, em 1993, no qual deveria registrar seus dias na nova moradia, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Saramago jamais rascunhou uma letra ali, mas se inspirou para escrever Cadernos de Lanzarote, publicado cinco anos depois.

No ano passado, com seu site já no ar, o escritor foi incitado a repetir a experiência no formato de blog. Ainda que convalescente de uma doença que quase o levou à morte, Saramago aceitou a empreitada. Na verdade, empolgou-se a tal ponto que, quando sua mulher Pilar pediu para diminuir a quantidade de posts a fim de descansar nas férias, ele ficou triste, acreditando que Pilar não estivesse gostando de seus comentários.

Afinal, ali era seu novo campo de batalha, no qual acariciou amigos (Jorge Amado, Carlos Fuentes, Chico Buarque) e também cutucou políticos, como no texto "Sarkozy, o Irresponsável" e naquele contra Berlusconi que, dono da Einaudi, justamente a editora que publica a obra do escritor na Itália, proibiu o lançamento de O Caderno em italiano. Sobre essa nova forma de expressão (pretende lançar outra seleção de textos em setembro), Saramago respondeu, por e-mail, as seguintes questões do O Estado de S. Paulo, sem esconder um certo tom birrento que se lhe tornou característico.

Depois de alguns meses escrevendo como blogueiro, o que o senhor pensa dessa ferramenta de comunicação? Seria mesmo um revolucionário modo de se comunicar?
A rapidez é a sua grande virtude, mas daí a ser revolucionário vai uma grande distância. Revolucionário foi o telefone; o que veio depois são alargamentos tecnológicos dele, sempre com o mesmo objetivo: chegar mais longe e mais depressa.

Para um escritor, qual a principal utilidade de um blog: útil apenas para exercitar a escrita ou criar um canal quase imediato de comunicação com seu público?
A escrita não se exercita num blog. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de escritores. Mas é certo que o blog permite um contato quase instantâneo com os seus destinatários, de certo modo o mesmo tipo de diferença que existia entre uma carta e um telegrama. A obsessão da rapidez é uma das características da nossa época em todos os aspectos da vida. Mas é uma perigosa ilusão pensar que se pode vencer o tempo.

O senhor definiu, certa vez, a internet como "uma página infinita". Qual a importância da internet em sua opinião?
"Página infinita" era uma definição de algum modo poética que a internet não tem que me agradecer. O que importa, porém, é o que se escreve nela. A tal "página infinita" aceita tudo, aguenta tudo, incluindo o pior. A liberdade de expressão não é boa nem má por si mesma, mas pelo uso que dela se faça.”
Entrevista Completa, ::Aqui::

25 Julho, 2009

A vingança dos porcos

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Estimados e resfriados leitores da coluna. Espero que vocês estejam em melhor estado físico do que o meu, vítima de um ar polar que subiu aqui até minha luxuosa laje de Pinheiros e transformou o meu pulmão em geléia de fruta não identificada.

E isso que eu me vacino, desde uma viagem que fiz com uma moça até a Argentina anos atrás, na qual eu consegui ficar gripado durante o voo, o que, digamos, deixou a viagem bem mais expectorada do que romântica.

Adianta nada. A gente prepara a casa contra temporais e toda uma família de vírus que acaba de sair do forno genético, vem uma mutação e arrebenta com a nossa disposição para os esportes de inverno (aqui, na Mansão Carneiro da Cunha, eles são os já famosos arremesso de vinho merlot, corrida de revezamento na direção do controle remoto, esgrima com garfinho de fondue, formas de bolo assimétricas, e - firme na preferência do público, um tipo de luta greco-romana que os mais maldosos até acham parecido com sexo).

E, disse a médica que me ascultou todo hoje, gripe pra valer é sempre a próxima. A tal suína, segundo a doutora, não mata mais do que as outras, mas derruba. "Algo parecido com a dengue", disse a médica, com um certo tom de desprezo. Wait! Lá em casa, dengue ainda está listada, como a literatura do Paulo Coelho e show do Roberto Carlos, na categoria "Horror"! Dengue rima com febre amarela, beri beri, malária! Desde quando dengue é coisa normal?

A pessoa doer mais do que a minha cervical durante a criação de mais um romance, tremer, ter febre, ficar com a visão parecendo a tevê da minha avó com aquele bombril na antena - isso pode ser considerado normal? Nunca. Só porque todo mundo tem, quase ninguém morre e vem de novo a cada ano, tipo a Libertadores, isso não torna uma gripe algo normal. Torna simplesmente algo comum. E, quando eu paro pra pensar, quantas coisas comuns nos produzem tanto sofrimento inútil, além de um bom pé na bunda proporcionado pela namorada - como a gripe do momento - mais recente e intensa?”
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Fome de Justiça

Frei Betto, Adital

"Somam hoje 950 milhões as pessoas ameaçadas pela fome crônica. Eram 800 milhões até 2007. De lá para cá o número aumentou, devido à expansão do agronegócio, cujas tecnologias encarecem os alimentos, e a maior extensão de áreas destinadas ao cultivo de agrocombustíveis, produzidos para saciar a fome de máquinas e não de gente.

A fome é o que há de mais letal inventado pela injustiça humana. Causa mais mortes que todas as guerras. Elimina cerca de 23 mil vidas por dia; quase 1.000 pessoas por hora! As crianças são as principais vítimas.

Quase ninguém morre por falta de alimentos. O ser humano suporta quase tudo: políticos corruptos, humilhações, agressões, indiferenças, a opulência de uns poucos. Até o prato vazio. Por isso ninguém morre da falta completa de alimentos. Os famélicos, quando nada têm para comer, levam à boca, para enganar a fome, restos catados no lixo, lagarto, rato, gato, tanajura e variados insetos. A falta de vitaminas, carboidratos e outros nutrientes essenciais debilita o organismo, torna-o vulnerável às enfermidades. Crianças raquíticas morrem de simples resfriado, privadas de defesas.

Há apenas quatro fatores de morte precoce: acidentes (de trabalho ou trânsito); violência (assassinato, terrorismo ou guerra); enfermidades (aids ou câncer); e fome. Esta produz o maior número de vítimas. No entanto, é o fator que menos suscita mobilizações. Há sucessivas campanhas contra o terrorismo ou pela cura da aids, mas quem protesta contra a fome?

Os miseráveis não fazem protestos. Só quem come entra em greve, vai às ruas, manifesta em público descontentamento e reivindicações. Como essa gente não sofre ameaça da fome, os famintos são ignorados.”
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24 Julho, 2009

Cinema nas periferias, a nova meta de Lula para a cultura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a criação urgente de salas de cinema na periferia das grandes cidades. “É preciso ter uma determinação, e aí talvez seja uma combinação entre prefeitura, governo estadual e governo federal para fazer com que essas coisas cheguem definitivamente à periferia, onde está a maioria da população”, afirmou.

Vermelho.org

Nesta quinta-feira (23), em São Paulo, Lula assinou o projeto de lei que criou o Vale-Cultura — a primeira política pública do governo voltada ao consumo cultural, que funcionará no mesmo molde do vale-refeição. Pelo projeto, os trabalhadores receberão R$ 50 por mês, em um cartão magnético, para comprar ingressos de cinema, de teatro, de museus e de shows, além de livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais.

Descontraído durante a solenidade, realizada no teatro Raul Cortez, na sede da Federação do Comércio de São Paulo, Lula brincou com a atriz e cantora Zezé Mota, mestre-de-cerimônia do evento, que repetiu a leitura do nome dos presentes, entre os quais o da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. “A Zezé leu tantas vezes o nome da Dilma que, se tivesse aqui algum juiz eleitoral, a Dilma já estava prejudicada”, disse Lula, despertando risos da plateia.

No discurso improvisado, de mais de meia-hora, Lula explicou que preferiu evitar uma medida provisória. Para recuperar o tempo desperdiçado — já que a iniciativa demorou para ser formatada —, o projeto foi encaminhado com "urgência urgentíssima", o que garante sua tramitação em até 45 dias.

Lula também disse que o mais difícil será a etapa depois da aprovação, uma vez que é preciso trabalhar para que os empresários saibam que ele existe. “Se ele não souber que tem, não utiliza”, declarou, observando que fazer valer a lei é um trabalho não só do governo — mas também de artistas e da "sociedade como um todo".
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Honduras - Estava demorando...

Elaine Tavares, Adital

"Quem assiste TV deve se lembrar. Quando o então senador Barak Obama era candidato à presidência dos Estados Unidos havia uma espécie de "esperança" no sujeito. Era, afinal, um negro, coisa inédita naquele país, bonito, simpático, charmoso, um "democrata". E, por conta disso, a mídia cortesã o pintava como uma novidade, aquele que iria mudar a cara dos EUA , dar uma certa leveza ao império. Bem, substituir George Bush já significava isso. Mas, entre os "arautos da desgraça" - que são os que têm olho crítico e conhecem a história - já se vaticinava. "Não haverá novidades. Os democratas não se diferenciam dos republicanos em quase nada, a não ser talvez numa certa simpatia tal como se pode encontrar em Carter, Clinton e agora em Obama". Havia a certeza de que as coisas não mudariam. Bem, aí está o cenário latino-americano se redesenhando na era Obama. E aquilo que Bush, na sua truculência não conseguiu, o jovem George Bush saiu de cena com um grande osso na garganta: a Venezuela bolivariana. Durante todo seu mandato não havia conseguido dobrar o país de Bolívar, comandado agora por Hugo Chávez. Este, por sua vez, foi comendo o mingau pelas beiradas. Colocou água no plano da ALCA, desestabilizou alguns Tratados de Livre Comércio bilaterais, criou a PetroCaribe, amealhou aliados como a Nicarágua, a Bolívia, o Equador e conseguiu com que alguns dirigentes auto-denominados à esquerda se aliassem em algumas propostas pontuais dentro da lógica da ALBA, o contraponto da proposta estadunidense. Era um avanço e tanto no território de poder dos Estados Unidos que, por seu lado, andava atolado nas guerras do Afeganistão e do Iraque, que ainda não logrou concluir em face da resistência heróica do povo, que podia até não querer os talibãs ou Sadam, mas também não quer nenhum governo de dominação..

Pois agora com a chegada de Obama, os Estados Unidos tentam recuperar as rédeas da sua reserva estratégica de riquezas, a América Latina. E, para isso, nada melhor do que uma boa e velha receita, tantas vezes já utilizada em momentos de tentativas de rebelião da massa do "quintal": o golpe militar. Assim, ao contrário do que fizera Bush, que tentara desalojar Chávez em seu próprio país, num golpe de estado articulado pela mídia e pela classe dominante, a jogada do governo Obama é muito mais inteligente. Organiza e leva a cabo um golpe militar numa pequena república da América Central, periférica ao território "rebelde", mas com algumas ligações políticas capazes de levantar a fúria dos seus aliados. Escolhe Honduras, governada por um latifundiário bem intencionado que já se atrevera a realizar negócios com a Venezuela, buscando melhorar a vida do povo hondurenho.”
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23 Julho, 2009

“Depois a Bergamo foi para o rádio gritar meu nome com aquela voz de taquara rachada...”

Thiago Rosa, Redação Portal IMPRENSA

"O cantor baiano Caetano Veloso criticou, nesta quarta-feira (22), o trabalho jornalístico da Folha de S.Paulo. Em entrevista publicada na capa do caderno "Ilustrada", o artista classificou de "uma pobreza" a cobertura noticiosa do veículo da família Frias. Caetano ainda reforçou as críticas à jornalista Mônica Bergamo, responsável por notícias que relacionavam o artista a financiamento de shows usando a Lei Rouanet.

Perguntado pela repórter da Folha sobre a posição referente aos subsídios estatais à produção artística, Caetano relatou um incidente ocorrido durante entrevista ao mesmo jornal. Segundo ele, uma jornalista do diário - enviada pela colunista Mônica Bergamo - o teria interpelado sucessivamente sobre a Lei Rouanet.

"A moça não só não fez uma única pergunta como na terceira de umas cinco punha na minha boca frases que eu não disse. Ela tinha sido enviada por Mônica Bergamo, que mantém uma página de fofocas meio sociais, meio políticas e o fito era nitidamente me tratar como se eu fosse um misto de Sarney com Dado Doladella", desabafou o cantor. Caetano afirmou ainda que a recusa à entrevista se baseava no fato de que teria sido citado pela Folha indevidamente em casos de uso irregular de dinheiro público do incentivo cultural.”
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22 Julho, 2009

Cuito Cuanavale

Mair Pena Neto, direto da Redação

“Cuba tem um papel proeminente na consolidação da independência de Angola. Em 1975, quando as tropas portuguesas ainda deixavam o país africano, Agostinho Neto solicitou ajuda cubana para conter a ofensiva que sofria pelo norte, das tropas do Zaire, do ditador Mobuto, que apoiavam Holden Roberto e sua Frente Nacional de Libertação de Angola, e pelo sul, pelo exército sul-africano, via o território ocupado da Namíbia. O objetivo de ambos era chegar a Luanda antes da proclamação da independência de Angola, que seria decretada pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderado por Agostinho Neto. Ainda havia a oeste o assédio da Unita de Jonas Savimbi, armada pelos EUA e África do Sul, via Zâmbia.

Em um dos maiores esforços logísticos de que se tem conhecimento, Cuba deflagrou a Operação Carlota, assim batizada em homenagem a uma escrava negra que rebelou-se contra seus senhores em Cuba, no século 19, e enviou soldados, técnicos, voluntários e armamentos em seguidas viagens por aviões e navios obsoletos, que cobriram os 10.000 quilômetros entre os dois países em condições inacreditáveis.

Do primeiro contingente, que se uniu aos angolanos no início de novembro, até março de 1976, quando as tropas sul-africanas abandonaram definitivamente o território angolano, foram quatro meses de intensas batalhas que expulsaram os inimigos ao sul e ao norte e consagraram a independência de Angola.

Mas em 1987, a África do Sul racista, com apoio dos Estados Unidos, voltou a atacar e a ameaçar novamente a soberania de Angola, avançando rumo a Cuito Cuanavale, no sudeste do país, onde estava uma antiga base aérea da Otan. Os sul-africanos atacaram as tropas angolanas que iam rumo à fronteira sul do país para desmontar o que restava da Unita de Jonas Savimbi.”
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A invenção dos direitos humanos, por Lynn Hunt

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

“O “pessoal dos direitos humanos”, por diversos motivos, é uma expressão que, frequentemente, se relaciona àqueles que vêm salvar um condenado, reconhecida e unanimemente condenado, de “maus tratos”. Algo como, hoje, reivindicar os “direitos humanos” de transgressores notórios, como muitos dos nossos políticos em Brasília, o artífice por trás do maior esquema de pirâmide da história ou assassinos confessos, televisionados em reality shows macabros. Lynn Hunt, professora de história da Universidade da Califórnia, ao contrário de tudo isso, conta-nos elegantemente a verdadeira história dos direitos humanos – provando que eles são muito mais importantes do que sua aplicação, hipócrita e demagógica, em casos de condenados pop. Hunt refaz a trajetória desde a literatura do século XVIII, que desenvolveu a capacidade (no leitor) de se projetar no seu semelhante (e entender suas razões), passando pela abolição da tortura em julgamentos (e condenações) na França pré-revolucionária, desembocando nas declarações de 1776 (Independência dos EUA), 1789 (Revolução Francesa) e 1948 (Declaração Universal dos Direitos Humanos). Foi um longo caminho desde o fim da escravidão, a liberdade de credo e, mesmo, a igualdade entre os sexos. Hoje tendemos a tomar tudo isso por algo estabelecido, indiscutível e irreversível, mas, em épocas não tão remotas, escravos não tinham, por exemplo, “direito à vida”; quem não participasse da religião “oficial”, não votava; e quem não fosse homem, tinha sua capacidade de julgamento seriamente questionada. Fora questões de classe, privilégios vários e invencionices hoje inimagináveis. Obama e Michael Jackson, por exemplo, teriam sido impossíveis tempos atrás. São avanços que devemos ao estabelecimento dos “velhos” direitos humanos. E todo mundo deveria conhecer a história que Lynn Hunt saborosamente conta...”

21 Julho, 2009

Com Chico Buarque na FLIP

Milton Hatoum, Terra Magazine

"Não foi fácil participar de uma mesa com Chico Buarque na Festa Literária Internacional de Paraty. O assédio a um dos artistas mais talentosos e queridos do Brasil inibe qualquer um. Leitores e fãs viajaram das cidades mais distantes para ver e ouvir Chico Buarque. Encontrei gente de Manaus, do interior da Bahia, do Piauí, de Goiás e do Rio Grande do Sul. Alguns leitores subiram em árvores para fotografar seu ídolo, e por pouco não se jogaram lá de cima. Essa idolatria - que revela um grau exacerbado de admiração - é compreensível. Mas o foco do debate, com a ótima mediação de Samuel Titan Jr., foi mesmo a literatura, como o leitor pode constatar na internet.

Entre vários recursos técnicos bem realizados, duas coisas me impressionaram no romance Leite derramado: a concisão da obra e a linguagem que forjou esse mandamento da brevidade. Em duzentas páginas, a vida de Eulálio e de várias gerações da família Assumpção são evocadas por pinceladas rápidas, mas fortes.

No excelente texto da orelha, Leyla Perrone-Moisés assinalou justamente essa originalidade em relação ao gênero literário. Sagas romanescas pedem centenas de páginas, quando não vários volumes em que se expandem os conflitos e as mudanças de sucessivas gerações de uma família. Chico fez de uma saga balofa um romance fino, e o que poderia ter sido um mural ou painel, reduziu-se a uma bela iluminura.

Na fala delirante de um personagem senil - que às vezes lembra um velho patriarca de García Márquez -, o leitor se depara com personagens de vários estratos sociais do Rio de Janeiro. No tempo em ziguezague da narrativa, o Rio é a sede da corte portuguesa, a capital da República e também a metrópole ferida pela violência da ditadura. Ou seja, é uma cidade em diferentes momentos de sua história, antes e depois da fundação de Brasília.”
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Políticos e jornalistas: paradoxos brasileiros

Que os políticos gozam de pouca confiança, não é surpresa para ninguém. Eles estão entre as oito profissões que, segundo o GfK Trust Index 2009 merecem a confiança de menos de 50% da população. Qual seria a parcela de responsabilidade da mídia na construção de imagem de tal forma negativa dos políticos?

Venício Lima, Carta Maior

O GfK, um dos maiores grupos de pesquisa de mercado do mundo, que opera em mais de 100 países, divulgou no início de junho os resultados do GfK Trust Index 2009, um survey realizado anualmente na Europa e nos EUA, sobre a confiança dos cidadãos em diferentes profissões e organizações (cf. http://www.gfk.es/pdf/pm_trust%20index_june%202009_efin.pdf).

Diante de uma lista de 20 profissões, pede-se aos entrevistados que informem quais são as profissões nas quais confiam mais e confiam menos. Os bombeiros confirmaram o primeiro lugar na confiança popular em todos os 17 países pesquisados e os políticos aparecem, inversamente em último lugar ou em primeiro lugar como a profissão na qual os cidadãos depositam menos confiança.

O press release da GfK chama a atenção para a queda de confiança que atingiu os profissionais que trabalham nos bancos, sobretudo na Suécia, na Inglaterra e nos EUA, entre 2008 e 2009. Presume-se que este seja um dos efeitos da responsabilidade ativa do comportamento ilícito de instituições financeiras globais no processo que levou à crise econômico-financeira mundial.

Merece registro a posição no ranking de confiança/desconfiança de algumas profissões do campo das comunicações. Publicitários, profissionais de marketing e jornalistas aparecem respectivamente em 19º, 16º e 15º lugares, na lista das 20 profissões pesquisadas.

No que se refere aos jornalistas, compreende-se que a profissão esteja em baixa na confiança popular depois da perda de credibilidade provocada pelos casos de manipulação da informação que se tornaram públicos relativos à cobertura da invasão/guerra do Iraque e/ou à rotina da cobertura política em jornais, como o conceituado New York Times. Lembre-se também a queda da circulação de jornais, conseqüência, dentre outros, da disseminação do acesso à internet em todo o mundo.”
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A verdadeira dimensão do homem

Felizmente ou infelizmente, considerando algumas variáveis estatísticas, parece que estamos mesmo sós, nessa imensidade assombrosa. Para existir vida é necessário que haja uma conjunção de fatores, da qual a Terra é um exemplo único conhecido

J. C. Guimarães, Revista Bula

Por que Deus — se existe — se ocupa com um ser tão ínfimo na escala universal quanto o homem? A desproporção parece ridicularizar a Bíblia e outros livros sagrados. Faz sentido? Faz, e a resposta não é necessariamente religiosa. É também científica.

A física é a ciência capaz de conferir ao homem sua verdadeira dimensão, na natureza. De acordo com ela, faria sentido um Deus tão grande dedicar seu tempo a uma criatura tão pequena, por duas boas razões. Primeiro, porque nosso tamanho físico não traduz nossa estatura intelectual. Segundo, porque a probabilidade de sermos únicos no Universo é bastante apreciável. As duas questões relativizam, de saída, o que entendemos por grandeza e mediocridade. Está certo que devemos — e a física paradoxalmente reforça essa postura — devemos ser humildes. Se o homem é maior do que parece, sua casa, a Terra, é por outro lado bastante pequena e frágil. Pode acabar num simples e inesperado evento cósmico, como a colisão com um asteróide (infelizmente, não é ficção científica). De forma que não temos nenhuma garantia de futuro.

Feita a advertência, podemos nos reconfortar. O principal desafio da física, hoje, é confirmar a existência de uma partícula conhecida como bóson de Higgs. Para obtê-lo os cientistas construíram o LHC, que é o maior acelerador de partículas do mundo (um corredor circular de 27 quilômetros de extensão, onde prótons se chocarão entre si a uma velocidade próxima à da luz). Mas, o que é o bóson de Higgs? A menor partícula existente, o tijolo com o qual foi erguido todo o resto. Inclusive o homem. Daí que a chamaram, também, de “a partícula de Deus”. Comparado a esse tijolinho — muitíssimo menor que um átomo -, o homem é uma grandeza. Já o é, se comparado à menor estrutura orgânica conhecida, o DNA, que é igual a 2 x 10 elevado à nona potência. O é, também, se comparado aos seres unicelulares, milhares dos quais habitam o nosso organismo, que podemos imaginar como um universo à parte. Faz sentido, também, nos concebermos como um universo à parte.

Graficamente, o desenho de muitas estruturas microscópicas que compõem os nossos órgãos parece ser análogo ao das estruturas macroscópicas que existem no firmamento. A grande “teia cósmica”, que corresponde ao maior aglomerado de galáxias observável, é semelhante por exemplo aos nossos neurônios. Existe, assim, em escalas muito diferentes, certos padrões gráficos que fazem confundir aquilo que somos com aquilo que está acima — muito acima - de nós. É como se nos repetíssemos, em tamanho e complexidade, ao infinito. Deus, quem sabe, seria o limite extremo desse processo. Voltando aqui à primeira questão — a relatividade de nosso tamanho -, pode-se dizer que o que nos faz muito maiores do que o nosso corpo é a capacidade de conceber o Universo. Há formas poéticas e mitológicas de fazê-lo, como a religião. Mas há, também, uma forma verificável, que é a científica. E a física é o caminho, o método, para traçarmos já o seu esboço. Nem mesmo os céticos podem resistir ao encanto dessa capacidade.”
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Free Hugs Campaign


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20 Julho, 2009

Um vivo e um morto

Tou de olho. Não posso cochilar. Aqueles moleques de ontem. Tão arrodeando. Se voltarem hoje vou mandar prender

Reila Márcia Miranda da Silva , Silvia Adoue / Brasil de Fato

Tou de olho. Não posso cochilar. Aqueles moleques de ontem. Tão arrodeando. Se voltarem hoje vou mandar prender. Acham que tou de brincadeira? Faço meu serviço. Fico atento. Na fábrica ninguém entra sem permissão dos homens. Tem que mostrar o papel.
Carimbado. Sou responsável por este negócio. Cuido do portão e das janelas. Esses moleques fazendo zoeira. Não pode jogar pedra não! O teu pai não te deu educação? É assim: faltou cinto, entortou. O pessoal que entra aqui é pra trabalhar. Tem três turnos, que a fábrica não para. Vagabundos, longe daqui. Eu cuido que não venham fazer vandalismo. Essa janela aí que quebraram foi quando eu não estava. Quando eu estou, boto os moleques pra correr. Fico aqui a noite toda. Fico de dia. Faço hora extra. Mas nessa hora não estava não senhor. Quando eu estou no turno não tem essa de jogar pedra.

Já trabalhei na produção. Oito horas na frente da injetora. Hora extra, eles pagam direito. Nunca faltei. Ganho prêmio de freqüência. Prêmio de pontualidade. Deu pra comprar o lote. Deu pra fazer o barraco. Depois, alvenaria. Aos poucos. Comprava o material levantando primeiro um cômodo, depois outro. Aos domingos. A mulher queria cimentar tudo. Os meninos crescendo.

Lá vêm eles. Eu vou botar pra correr. Não brinco em serviço. Cês dois, pode voltar pelo caminho que vieram. Não quero ver vocês nessa calçada!

- Desculpe, tio.

Tio, uma ova! Não sou seu tio! Eu quero lá sobrinho vagabundo? Pode se mandar! Conheço esses dois. Conheço esses maloqueiros de boné. Boné é pichação na certa. Nesse muro da fábrica ninguém picha. Que eu tou aqui tomando conta. Não ta vendo o uniforme? Sou vigia! Já fui da produção. Agora cuido do portão e do muro. Comigo aqui não tem pichação. Aquele homem falou. Tem serviço procê lá na fábrica. Tinha colocação de pião. Diz que tinha cartaz: A-di-mi-te-se, serviço geral. Que é pião. Eu pegava no pesado. Fazia tudo que mandava. Depois fui pra injetora. Serviço de responsabilidade. Comigo não tinha essa de licença médica. Não tinha essa de greve. De sindicato. Vagabundage. Quero distância de vagabundo. Bando de moleque. Tenho mais o que fazer. Nunca deixei cair a produção. O supervisor confia.”
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Um troglodita político

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Ao completar cem dias do governo israelense de Benajmin Netanyahu, paira quase um total silêncio sobre o que está acontecendo na área palestina. Nada avançou em termos de resolução do conflito palestino-israelense, apesar dos discursos do Presidente Barack Obama repetindo o que se fala há mais de 20 anos, ou seja, a necessidade da criação de um Estado Palestino. Israel continua construindo colônias na área da Cisjordânia, na prática com o sinal verde do protetor Estados Unidos.

Comparando-se com os acontecimentos em Honduras, onde o presidente constitucional Manuel Zelaya foi deposto por um golpe militar, o que acontece no Oriente Médio tem algo parecido em matéria de posicionamento da Casa Branca. Barack Obama condenou o golpe, mas não moveu uma palha no sentido de cortar a ajuda militar que os Estados Unidos fornecem ao Exército hondurenho ou mesmo retirar o embaixador. Quando foi falar com a Secretária de Estado, Hillary Clinton, Zelaya obteve respostas evasivas e pedido de calma.

E o que ocorre em relação a Israel? Obama em um determinado momento chegou até a falar contra a construção de novas colônias israelenses na área palestina, mas no frigir dos ovos tudo ficou apenas no discurso.

Israel tornou-se um Estado guerreiro e até mesmo delinquente ao desafiar as leis internacionais. E tudo fica por isso mesmo, pois tem a proteção de Washington, independente de quem esteja no governo.

Para se ter uma idéia, há poucos dias Israel deteve um pequeno barco que saiu de Chipre e levava suprimentos, inclusive remédios, para a população da Faixa de Gaza, que continua sob sítio, agora ordenado pelo governo extremista de Benjamin Netanyahu. No barco viajavam figuras ilustres, inclusive a ex-candidata a Presidente da República dos Estados Unidos e ex-congressista Cynthia McKinney. Nenhuma nota de protesto, pelo menos que tenha sido divulgada, foi emitida pela Casa Branca contra a medida arbitrária envolvendo cidadãos estadunidenses.”
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19 Julho, 2009

Há um corpo estendido no chão

Glória Fernandes, Digestivo Cultural

“Durante a exposição da World Press Photo 2009, que acontece até o dia 19 de julho no Museu da Eletricidade, em Lisboa, uma das fotos chamou mais a atenção dos visitantes. Por coincidência, em meio a fotos do mundo inteiro, essa era brasileira. Um corpo estendido no chão. Em volta dele, crianças, risadas e conversa jogada fora. Como num bar, num encontro casual de amigos. Tudo normal. Como numa tarde qualquer, em que se sai para se divertir e distrair a cabeça. Porém, com um detalhe: há um corpo estendido no chão.

A foto em questão é de Eraldo Peres e ganhou menção honrosa na irônica categoria "Cotidiano". Foi tirada durante uma reportagem sobre violência em janeiro de 2008 para a agência de notícias The Associated Press (AP). Na imagem, é retratado o assassinato de Thiago Franklino de Lima, de 21 anos, morto na Favela do Coque, no Recife. Thiago permanece ali, sob a indiferença dos olhares dos moradores. O que antes chocava, agora é ignorado.

Até que ponto a violência se tornou normal para a população das grandes cidades brasileiras? O corpo, estendido e ensanguentado, passa a ser apenas mais um elemento que compõe a foto. Como um carro, um cachorro, uma bicicleta que passa. Ou até mesmo como uma pedra no chão. Honestamente, fotos que contrastam uma tragédia com a normalidade das pessoas já não são raras hoje em dia Infelizmente já vi muitas. Mas a risada farta da garota choca. O que será que levou a garota a uma risada tão aberta frente a um cenário tão ruim? Será que ela conhecia a pessoa que está ali caída? Será que era um vizinho? E as crianças, ainda de chupeta, o que fazem tão tranquilamente próximas a um cadáver? Tornou-se tão banal que nem mesmo as crianças ligam para a cena. Seus pais, então, se estiverem presentes, muito menos. A foto só conseguiria passar mais a sensação do quão banal esse tipo de cenário se tornou se, na composição, existisse um grupo jogando baralho, quem sabe dominó, ou até mesmo futebol.

A legenda explica para os estrangeiros que Recife é duas vezes mais violenta do que o Rio de Janeiro e possui uma média de 90 homicídios por 100 mil habitantes. Há anos a cidade vem se destacando nas linhas de estudo sobre criminalidade. E, pelo que parece, os moradores da favela onde Thiago morreu já consideram os fatos uma coisa normal.”
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Macaco Simão: censura de Juliana Paes é "medieval"

Claudio Leal, Portal Terra

"Nem duas gotas de um colírio alucinógeno ajudariam o humorista José Simão a enxergar os motivos da zanga da atriz Juliana Paes com suas colunas no jornal Folha de S. Paulo. Incomodada com as referências a sua personagem na novela "Caminho das Índias", da Rede Globo, Juliana moveu dois pedidos de indenização, um contra o colunista, outro contra o jornal.

Por decisão do juiz João Paulo Capanema de Souza, do 24º Juizado Especial Cível do Rio de Janeiro, "Macaco" Simão está proibido de se referir a Juliana Paes, misturando-a com a personagem "indiana" Maya, sob pena de desembolsar R$ 10 mil.

- Eu acho medieval. Mas, sinceramente, processo é o direito de qualquer pessoa (...) Agora, essa medida cautelar é censura. É diferente. Eu tenho o processo, mas tenho essa medida cautelar em cima. Isso é censura - protesta Simão.

O juiz Capanema deferiu "a antecipação dos efeitos da tutela para que o Réu se abstenha de fazer publicar nos meios de comunicação escritos e falados em que atua e vier a atuar (Jornais, revistas, rádio, portais de internet, sites, blogs, twitter, Orkut, etc.), referências feitas sobre a casta e castidade da Atriz e Autora Juliana e sobre seu casamento com uma bananeira, incluída principalmente a referência sobre ela descascar a banana do convidado e, transando com uma bananeira, ser a definição do termo banalidade".

Ele determina que o humorista "se abstenha de se referir diretamente à Atriz Juliana Paes, confundindo-a com sua personagem Maya".

A referência ao ato de "descascar banana", num sentido bem mais dilatado do que tirar literalmente a casca com a mão fechada, se deve a uma coluna de 6 de fevereiro do "esculhambador-geral da República", como Simão se define. Abre travessão:

- Par romântico, Juliana Paes e Márcio Garcia. Amor impossível: Juliana Paes é de uma casta, e Márcio Garcia, de casta inferior. Porque veio da Record. Rarará! (...) E é complicado, tudo por castas. A Juliana Paes é da casta das gostosas. Aliás, a Juliana Paes não é nada casta! A Juliana Paes é da casta das nada castas! E sabe o que um amigo meu vai gritar no casamento com a bananeira? Juliana Paes, quero descascar a minha banana!”
Foto: Marcelo Pereira (Terra/2006): Juliana Paes sem calcinha!
Entrevista com Macaco Simão, ::Aqui::

18 Julho, 2009

Adeus às almas

Eugênio Bucci, Observatório da Imprensa

“O leitor desta página não quer mais ler sobre Michael Jackson. Com razão. Desde que morreu, no dia 25 de junho, o chamado Rei do Pop monopolizou o noticiário. A humanidade só tem olhos para o cantor de Ben. O tão propalado pensamento único parece que existe mesmo e seu nome é Michael. O pensamento único é um videoclipe, uma trilha sonora. Há dois dias o rádio noticiou que são dele quatro dos cinco discos mais vendidos em Londres. Na terça-feira da semana passada, as atrações de seu funeral apoteótico reuniram 11.500 fãs num ginásio de esportes, o Staples Center, de Los Angeles. Outros 250 mil ficaram de fora, dançando ou chorando. Lá dentro, cantores e oradores se sucederam em performances para o caixão e para as câmeras de 19 redes americanas. Só nos Estados Unidos, foram 30 milhões de telespectadores. No Brasil, quatro redes puseram no ar vários trechos da cerimônia, que foi estruturada como um réquiem pop. Teve até área VIP.

O jornalista Jotabê Medeiros, enviado especial do Estado à Califórnia, estava lá: "Assisti aos shows do funeral do Rei do Pop na área reservada aos familiares e amigos. Mike Tyson estava ali. Mickey Rooney passou perto da minha orelha. Jesse Jackson sorriu para mim e posou para uma foto."

No tempo da Jovem Guarda, havia festas de arromba. Agora, surge o velório de arromba, que impulsiona o mercado fonográfico e abastece a imprensa por dias e dias. Ainda esta semana os jornais se ocupam das polêmicas em torno da guarda dos filhos do astro. O assunto é inesgotável - e estafante. Por isso mesmo o leitor há de se espantar: mas até aqui, nesta página, teremos de falar disso?

De minha parte, digo que sim. Não por tietagem, mas para registrar algo que, apesar do falatório global, não foi bem diagnosticado. O funeral de Michael Jackson explicitou, como nenhum outro episódio, o modo como a indústria do entretenimento engoliu as outras esferas da vida - a religiosa em particular. A ribalta devorou o púlpito. É verdade que, já em 1997, nas despedidas de Lady Di, Elton John se apresentou atrás de seu piano e de seus óculos, mas ele foi cantar dentro da Abadia de Westminster, o templo em que o culto foi celebrado. Desta vez foi diferente: os pastores é que subiram ao palco dos entertainers. Atenção, irmãs e irmãos: o altar se dissolveu no palco.”
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17 Julho, 2009

ARE BABA!

Justiça proíbe José Simão de citar ''castidade'' de Juliana Paes em coluna

Redação, Última Instância

“A Justiça do Rio de Janeiro proibiu o humorista José Simão de fazer referências sobre a “castidade” da atriz Juliana Paes em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo.

Segundo o juiz João Paulo Knaack Capanema, do 24º Juizado Especial Cível da Barra da Tijuca, o colunista ultrapassou os limites da ficção ao relacionar o comportamento da atriz com o da personagem Maya, interpretada por ela na novela “Caminho das Índias”, da Rede Globo.

Em uma de suas colunas, Simão teria dito que Juliana “não é nada casta”, em um trocadilho com o sistema de organização social e política indiano retratado na novela. Na ação que move contra José Simão, a atriz alega que os textos do jornalista tem repercutido sobre sua honra e moral.

Ao conceder a liminar, que estabelece multa de R$ 10 mil por cada nota publicada ou veiculada na imprensa, o juiz João Paulo Knaack Capanema chega a entrar em detalhes da trama da novela.

"O fato da personagem vivida por Juliana na novela ter se desvirtuado dos costumes e tradições de sua família e da religião hindu ao se envolver com um homem antes do casamento e com ele ter tido um filho, e por isso dar motivos para ser tida pelos seus semelhantes como impura, traidora, etc., e finalmente perder a sua "casta" na sociedade, não confere ao jornalista réu o direito de ofender a moral da mulher Juliana Couto Paes, seu marido e sua família", ressaltou o magistrado.”
Foto: ator José de Abreu, “o Guru” em Caminho das Índias / foto-divulgação

Farofa de tanajura

Paulo Costa Lima, Terra Magazine

“Ivete ou Carla? Marlene ou Emilinha? Brahms ou Wagner? Perotinus ou Leoninus (conhece esses caras; acho que são metais...)? Jovem Guarda ou MPB? Rock ou Samba ou Reggae? Tonal ou Atonal? Ópera ou Sinfonia?

O amor da música. Escrevo no embalo de uma sempre inalcançável teoria das preferências musicais, que aponta para um vasto domínio - aquele que pode ser imaginado entre a fantasia intimista, a teoria da música, o sistema de decisões da mídia e do consumo, a psicologia, antropologia, sociologia, informática, política e, por que não, alguma metafísica...

Se alguém ama uma música (e alguém sempre ama uma música), então pensa que a tal tem determinados atributos, embora, evidentemente, não saiba muito bem quais são. Como se vê, o assunto é nebuloso mesmo. Mas também é muito prático, rolam milhões de dólares.

Diante da vasta capacidade de amor musical das comunidades humanas, não houve alternativa para a indústria cultural: controlar a oferta, moldando-a de acordo com as intenções de lucro. O resultado não é muito distinto da perda de biodiversidade com a queima das florestas.

A humanidade construiu em cada canto do planeta verdadeiras florestas sonoras, cheias de idéias musicais criativas. E além disso, desenvolveu no Ocidente o fenômeno da vanguarda que valoriza a criação de novos mundos sonoros. E embora tenha sido o século XX aquele que mapeou o mundo sonoro e que estimulou as vanguardas, foi também o século da implementação de um sistema globalizado de homogeneização da oferta.”
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16 Julho, 2009

O rodapé de Gore Vidal

Luiz Antonio Magalhães, Observatório da Imprensa

“Muita gente já aconselhou este observador a não perder tempo com Diogo Mainardi. De fato, comentar os textos do colunista da revista Veja é até aborrecido, ele vive repetindo os mesmos preconceitos e destila seu ódio contra o presidente Lula. Mas vez por outra, quando Mainardi se supera, vale a pena registrar, digamos assim, o novo patamar alcançado.

E na edição desta semana (nº 2121, de 15/07/2009), Diogo Mainardi subiu mais um degrau. Seu texto, reproduzido ao final desta nota, é um retrato acabado do pensamento da ultradireita tupiniquim. Desta vez, ele escreve sobre o compositor e escritor Chico Buarque de Holanda, a quem qualifica de "uma fraude". Vale a pena ler a coisa toda apenas para perceber como são ridículos os "argumentos" do colunista do semanário mais lido do país.

A construção do texto é centrada na figura de uma tal Edna O´Brien, escritora irlandesa que "entendeu" a fraude chamada Chico Buarque e não conseguiu dormir em Paraty por causa da irritante "batucada" que não parava durante a noite. Pior, também não dormiu no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, por causa da festa de casamento do jogador Alexandre Pato. Bem, para resumir a história, Mainardi jantou com a azarada O´Brien e parece que Chico Buarque foi o grande assunto do repasto. Ela "entendeu" algo que Dioguinho sempre soube: Chico nada entende de literatura e o Brasil é um país atrasado, onde a batucada nunca silencia.”
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A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

Leonardo Boff, Adital

“A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam ameaças severas sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos senão uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas atuais que vão da crise econômica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projeções sobre um Governo mundial da Globalização. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do Magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever-ser.

Como não faz análise da realidade atual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções e não contradições. Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: retificações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta:"conversão".

Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao atual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade incontida da sociedade de mercado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ilimitado. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.”
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15 Julho, 2009

Democracia cultural

Frei Betto, Adital

“O homem e a mulher são os únicos seres vivos que se contrapõem à natureza. Os demais, das abelhas arquitetas aos macacos africanos que ordenam seus recursos de sobrevivência, são todos determinados pela natureza. Esse distanciamento humano frente ao mundo natural faz a realidade revestir-se de simbolismo e produz a emergência transcendental do imaginário.

Do interesse pelo fogo produzido pelo relâmpago nasce o conhecimento que desperta a consciência. Voltada sobre si mesma, a consciência humana sabe que sabe, enquanto os animais sabem, mas ignoram a reflexão. Através do símbolo e do significado, o ser humano se relaciona com a natureza, consigo mesmo, com os semelhantes e com Deus.

Nasce a cultura, o toque humano que faz do natural, arte. A vida social ganha contornos definidos e explicações categóricas. Do domínio das forças arbitrárias da natureza chega-se às armas que permitem a imposição de um grupo cultural sobre o outro. Porém, cultura é identidade e, portanto, resistência. Mesmo assim, a absolutização de sistemas ideológicos oferece o paraíso, induzindo o dominado a sentir-se excluído por não pensar pela cabeça alheia.”
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14 Julho, 2009

Era uma vez no oeste

André Setaro, Terra Magazine

“O DVD de "Era uma vez no Oeste", de Sergio Leone, lançamento em edição especial, cheia de extras, que estava, há pouco tempo, no saldão de conhecida loja de departamentos, é, simplesmente, uma beleza. O filme, com o passar do tempo - é de 1968, ficou ainda melhor, não perdendo em nada do seu impacto inicial, quando o vi pela primeira vez na gigantesca tela do cinema Tupy em cópia de 70mm. Ainda que a dimensão da tela doméstica não possua o mesmo poder de envolvimento e êxtase - sim, é a palavra correta em se tratando de uma obra-prima como essa, momento, sem exagero, de rara inspiração em toda a história da arte do filme, vejo "Era uma vez no Oeste" como se fosse uma sinfonia, como se uma música de imagens.

A partitura do maestro Ennio Morricone está tão entrosada no filme que faz parte dele, e, neste caso, poderia dizer que Morricone é uma espécie assim de co-autor da obra da mesma maneira como Michel Legrand o é de "Os guarda-chuvas do amor", de Jacques Demy. Morricone, com sua extraordinária musicalidade, exerce, aqui, em "Era uma vez no Oeste", não apenas uma complementação da narrativa, mas uma "mise-en-musique".

E Leone é um esteta, um mestre absoluto, que sintetiza, neste "western sui generis", toda a sua primeira fase constituída de obras que "rascunham" esta belíssima reflexão sobre a estética westerniana num prisma novo e insinuante, apátrida, singular e original. Quem viu "Por uns dólares a mais", "Por um punhado de dólares" e "O bom, o mau e o feio" - também conhecido por "Três homens em conflito" - pode testemunhar que estes filmes são uma "anunciação" de "Era uma vez no Oeste".

A sua revisão comprova a magnificência de Sergio Leone que, nos anos 80, com seu canto de cisne, "Era uma vez na América", traumatizou toda uma década, realizando uma das maiores obras de toda a história do cinema. Pena que a morte prematura - ia fazer 60 anos - o tenha levado embora.

Morricone compôs quatro temas fundamentais destinados a cada um dos personagens principais: Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson e Henry Fonda - magnífico no papel de vilão, cínico, cruel, frio, super-maquiado, super-estilizado, capaz de matar até criancinhas com irrepreensível sangue frio. Quando os personagens se cruzam, as partituras também entram em rodízio com um resultado impressionante em se tratando da relação música e imagem.”
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Once Upon A Time in the West, “Opening Scene”



Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

Menalton Braff, Revista Bula

"Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam.

Eu caminhava apressado e descontente, olhando às vezes para o céu com a sensação de que tinha caído numa armadilha de onde não conseguiria escapar jamais. O céu que me restava era apenas uma estreita faixa cinzenta de nuvens que se moviam sem direção definida, mas de maneira mais ou menos frenética. Só nós dois, o vento e eu, passávamos pela rua àquela hora da tarde. Sobre o vento, sei que é de seu destino às vezes varrer as ruas. Quanto a mim, não consigo me lembrar do que fazia por lá: o lugar parecia não ter afinidade alguma comigo. Lembro-me, entretanto, de que o céu estava escuro e baixo, como a tampa cinza de um alçapão, quando o vento, encanando por aquele desfiladeiro, levantou poeira tamanha que me vi forçado a proteger os olhos com as mãos. Com a poeira, alçou vôo uma folha de jornal cujas manchetes amarfanhadas gritavam que a chuva era iminente e, além de gritarem, embaraçavam-me as pernas que tentavam correr em busca de abrigo.

Os primeiros pingos da chuva eu os ouvi na pureza de sua individualidade: alguns pesados, líquidos e sonorosos, pérolas que se espatifavam ao cair, e caindo levantavam o pó do passeio. Apenas os primeiros, porque em seguida desabou o aguaceiro de pingos homogêneos, massa contínua de sons sem identidade: água jorrada. Não me alcançou, pois começou a cair exatamente na hora em que cheguei à esquina e saltei para dentro do bar, feliz ainda por ter podido escapar.

Depois de tomar o primeiro copo da cerveja que me justificava no interior do bar, voltei à porta para matar um pouco daquele tempo agora inútil, mas também para ver a chuva caindo — aquele modo estrepitoso de cair. Foi então que deslumbrado a vi: colada à parede suja e de reboco carcomido, no outro lado da rua, ela tentava proteger a cabeça com um jornal aberto ao meio, e o peito, com a mão esquerda espalmada. Seu vestido azul, seco ainda, tremulava ao vento sem temer o escândalo de seu gesto nervoso.”
Crônica Completa, ::Aqui::

Filme brasileiro é premiado pela Unesco

AdNEWS

“Depois de ter conquistado o prêmio do júri popular no Festival de Curtas de Tóquio no mês passado, o filme A Menina Espantalho acaba de ganhar dois prêmios no Uruguai. O curta participou da mostra competitiva do Divercine - Festival Internacional de Cinema Infantil de Montevidéu, onde ganhou o prêmio de melhor curta de ficção, além do prêmio da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

Selecionado pelo Edital Curta Criança em 2007 - uma iniciativa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura e da TV Brasil, o filme tem 13 minutos de duração e conta a história de Luzia, uma menina que mora no campo com seu irmão Pedro e seus pais. Quando Pedro começa a frequentar a escola, Luzia manifesta vontade de acompanhar o irmão. O pai autoritário não respeita o desejo da filha e ainda a obriga a espantar os pássaros da plantação de arroz. Mesmo vivendo essa adversidade, Luzia dá a volta por cima e aprende a ler no meio do arrozal.

Escrito e dirigido por Cássio Pereira dos Santos, o curta estreou no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2008, onde recebeu uma menção honrosa, prêmio de melhor roteiro e troféu da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

As cidades mineiras de Cruzeiro da Fortaleza e Brejo Bonito, na região do Alto Paranaíba, foram o cenário da história de Luzia. À exceção de Vinícius Ferreira, ator profissional de Brasília, todo o elenco foi formado por atores não profissionais de Cruzeiro da Fortaleza: Pâmela Silva, nove anos, protagonista do curta, Otávio Santiago, nove anos, no papel do seu irmão Pedro e Jane Silva, que interpreta a mãe da protagonista.”

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A Menina-Espantalho

13 Julho, 2009

Eduardo Galeano: a palavra e a publicidade

Se você busca a verdade, beba a cerveja Heineken. Quer autenticidade? Fume cigarros Winston. Busca a rebeldia? Compre uma máquina Canon. Está inconformado com a situação do mundo? Coma um hambúrguer da Burger King. Deseja afirmar sua personalidade? Use um cartão Visa. Quer defender o meio ambiente? Espelhe-se no exemplo da Shell. Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo. O texto é de Eduardo Galeano.

Eduardo Galeano, Carta Maior

Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.

“Busque a verdade”: a verdade está na cerveja Heineken.

“Você deve apreciar a autenticidade em todas suas formas”: a autenticidade fumega nos cigarros Winston.

Os tênis Converse são solidários e a nova câmara fotográfica da Canon se chama Rebelde: “Para que você mostre do que é capaz”.

No novo universo da computação, a empresa Oracle proclama a revolução: “A revolução está em nosso destino”. A Microsoft convida ao heroísmo: “Podemos ser heróis”. A Apple propõe a liberdade: “Pense diferente”.

Comendo hambúrgueres Burger King, você pode manifestar seu inconformismo: “Às vezes é preciso rasgar as regras”.

Contra a inibição, Kodak, que “fotografa sem limites”.

A resposta está nos cartões de crédito Diner's: “A resposta correta em qualquer idioma”. Os cartões Visa afirmam a personalidade: “Eu posso”.

Os automóveis Rover permitem que “você expresse sua potência”, e a empresa Ford gostaria que “a vida estivesse tão bem feita” quanto seu último modelo.

Não há melhor amiga da natureza do que a empresa petrolífera Shell: “Nossa prioridade é a proteção do meio ambiente”.

Os perfumes Givenchy dão eternidade; os perfumes dão eternidade; os perfumes Dior, evasão; os lenços Hermès, sonhos e lendas.

Que não sabe que a chispa da vida se acende para quem bebe Coca-Cola?

Se você quer saber, fotocópias Xerox, “para compartilhar o conhecimento”.

Contra a dúvida, os desodorantes Gillette: “Para você se sentir seguro de si mesmo”.

12 Julho, 2009

A verdadeira história do Dia da Pizza

Lecticia Cavalcanti, Terra Magazine

"Tudo começou com Carlito Maia, "publicitário do ano" em 1978, provavelmente o maior de seu tempo - até morrer, por excesso de álcool, em 2002. Dele ficaram expressões famosas - "jovem guarda" e "calhambeque"; e frases - "Brasil? Fraude explica", "Acordem o progresso", "Evite acidente, faça tudo de propósito", "Deixei de usar gravata porque sentia um nó na garganta"; e campanhas - "oPTei", "Lula Lá" e "Sem medo de ser feliz". Numa carta que escreveu aos filhos, está o resumo de sua vida: "Eu não sei até onde a liberdade poderá levar-me, a que praias remotas, a que abismos... Não sei. Mas eu irei com ela seja para onde for".

Foi esse Carlito genial que, depois de uma bela pizza paulistana, sugeriu: "É preciso criar o dia da pizza". E tanto insistia nessa tese que, numa noite, suas palavras afinal encontraram eco. Um grupo de amigos, reunidos na casa de Caio Pompeu de Toledo (Secretário de Esporte do Prefeito Olavo Setúbal), votaram a criação desse dia. Aprovado por unanimidade. Depois, decidiram que a data deveria ser criada por lei; e incumbiram, de preparar o projeto, o então Secretário de Turismo do governador Franco Montoro, Caio Luis de Carvalho. Faltava só escolher a data. E começaram as sugestões.

Um queria que fosse o nascimento de Dante Alighieri (29 de maio), autor da Divina Comédia. Outro preferia Leonardo da Vinci (15 de abril). Ou Michelangelo (6 de março). Houve até quem sugerisse 25 de novembro, em homenagem a João XXIII - papa dos pobres e famoso glutão. Até que Caio Luis de Carvalho encerrou o barullho: "como sou eu que vou preparar o projeto, vai ser o dia do meu aniversário". Dito e feito. 10 de julho acabou o "dia internacional da pizza". E a invenção de Carlito Maia se espalhou por todo o Brasil.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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