31 Maio, 2010

“Amanhecer Violento” (1984) terá remake...

Mas contra a China!

NovaE / The Observer, reproduzido em The Guardian, UK, em http://www.guardian.co.uk/world/2010/may/30/red-dawn-remake-china

“O filme [ing. Red Down, 1984] foi peça clássica do cinema para adolescentes dos anos 80s, narrado sobre o pano de fundo da geopolítica paranoica da Guerra Fria. “Amanhecer Violento” trouxe Patrick Swayze e Charlie Sheen como adolescentes norte-americanos típicos (foto abaixo), que lideram um movimento armado de resistência contra tropas soviéticas que invadiram os EUA (uma espécie de Hamás-que-a-filha-da-Hillary-curtiu).

Agora, para alimentar a febre de filmes reciclados de Hollywood, “Amanhecer Violento” está sendo refeito com outros jovens simpáticos. Mas com pelo menos uma diferença chave: dessa vez, os exércitos que invadem os EUA são chineses, não soviéticos.
O inimigo remade mostra as mudanças pelas quais passa o mundo desde a queda do muro de Berlin. Primeiro, já nem existe URSS, o que dificultaria os enredos de novelas de ‘resistência’ nos EUA. Segundo, a geopolítica paranoica da Guerra Fria já recomeçou e já atacou toda a política dos EUA, dessa vez ativada pelo crescimento da China.

Só isso explica a distribuição viral de cenas vazadas das primeiras tomadas do filme, mostrando pôsteres de propaganda pró-China – perfeitos para disparar todos os medos dos norte-americanos em tempos de crise econômica brutal. Dado que a culpa não pode ser ‘dos mocinhos’, eles próprios, nem dos banqueiros, agora a culpa será “dos chineses”, que se estariam ‘infiltrando’ no âmago das famílias, seduzindo, primeiro, os adolescentes.”
Tradução: Caia Fittipaldi
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30 Maio, 2010

Elifas Andreato - As cores da Resistência

Carolina Oms, Terra Magazine

“O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição de Elifas Andreato - As cores da Resistência, com cerca de 100 trabalhos, entre capas de discos, cartazes de peças teatrais, fotos de jornais e de cenários criados pelo artista nos últimos 45 anos.

A exposição mostra todos os aspectos da vida e obra de Elifas Andreato, com foco na resistência à ditadura militar. Entre os trabalhos realizados nesse período estão: o cartaz para a peça de teatro Mortos sem sepultura, de Jean Paul-Sartre, e a capa do disco Nervos de Aço, de Paulinho da Viola, além de edições de jornais e revistas conhecidos pela oposição ao regime militar.”
Foto: Reuters
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Ruralistas versus direitos humanos

Maria Inês Nassif, Valor / Envolverde

"O bom senso - único, inescapável - é que o trabalho escravo tem que ser eliminado da vida brasileira."

Existem inúmeras razões para colocar a erradicação do trabalho escravo como a prioridade número um do Século XXI - de ordem econômica, religiosa ou social. O difícil é imaginar alguma razão para defender a acumulação de riqueza por meio da exploração do trabalho de forma desumana e degradante. A despeito de todo horror que causa a existência de seres humanos que, em estado de miséria, são submetidos a condições de exploração extrema, a barreira ruralista que rapidamente se arma a qualquer vaga ameaça sobre a propriedade tenta se impor ao bom senso. O bom senso - único, inescapável - é que o trabalho escravo tem que ser eliminado da vida brasileira.

As atuações das secretarias de Direitos Humanos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foram de ruptura. Sob a liderança de militantes históricos da área - José Gregori, no governo FHC, e Nilmário Miranda e Paulo Vannuchi, no governo Lula -, os governos tucano e petista mantiveram uma agenda que era comum à sociedade civil que, desde a ditadura, lutava por direitos políticos e de cidadania. Talvez por terem a mesma origem, dificilmente - com a triste exceção da desmedida reação conservadora ao 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH-3), apoiada por tucanos por razões que fugiram aos seus compromissos históricos - encontram grandes resistências no terreno de disputa partidária entre as duas legendas que lideram o cenário da política institucional, o PT e o PSDB. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, as tentativas de resgate da memória da repressão política no período militar (1964-1985), o combate ao trabalho infantil, as ações para universalizar o registro civil e vários outros programas dos que se desenvolvem hoje, na SEDH, começaram no período anterior.

O Programa de Erradicação do Trabalho Escravo é um deles. O Brasil tornou-se referência mundial de combate ao trabalho degradante em 1995, quando o governo de FHC reconheceu publicamente a existência do trabalho escravo no país. O Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado (Gertraf) foi criado naquela época e elevado a Comissão Nacional Para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae), órgão colegiado vinculado à Secretaria Especial dos Direitos Humanos, no governo Lula. É de 1995 a criação do Grupo de Fiscalização Móvel - que, de lá para cá, tem tornado relativamente comuns as ações, estampadas pelos jornais, de libertação de mão de obra em regime análogo ao trabalho escravo em fazendas pelo Brasil afora.

O 1ºEncontro Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que acontece desde terça-feira em Brasília, coloca o problema como política pública que envolve Executivo, Legislativo e Judiciário, por demanda de setores sociais engajados em apagar a escravidão da triste história brasileira. O encontro reúne ministros do governo, o ministro Carlos Ayres Brito, do Supremo Tribunal Federal, organizações sociais envolvidas no combate à escravidão, ministros do Tribunal Superior do Trabalho, juízes do Trabalho, representantes do Ministério Público, a relatora Especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de escravidão, Gulnara Shahinian etc. Se, de um lado, reúne consensos, de outro tem um enorme potencial do confronto.”
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28 Maio, 2010

Fora do bla-bla-blá

Janio de Freitas, Folha de S. Paulo

“O sarcasmo sugestivo de Serra contribui como aceno programático na pobreza convencional do bla-bla-blá

A ACUSAÇÃO de José Serra ao governo da Bolívia, dando-o como “cúmplice” na remessa de “80% a 90% da cocaína consumida no Brasil”, tem um sentido velado sob seus componentes diplomático e policial. Nem está na acusação, propriamente. Fluiu da maneira como José Serra a construiu, tornando-a sugestiva de algo que pareceu vir fora da hora.

Sem mencionar o presidente boliviano, Evo Morales, Serra no entanto dirigiu-lhe a acusação. E o fez de um modo sarcástico que não passaria, nunca, apenas por má construção verbal: “Mas 80% a 90% da cocaína vêm da Bolívia, com quem o governo amigo que se fala muito… e etc…”. A ironia contou ainda com o capricho na inflexão.

A cocaína levou à evidência da ideia que Serra faz do governo boliviano e do seu presidente, com quem Lula fala muito. Logo, proporcionou a sugestão de que suas metas presidenciais incluiriam mudança substancial nas relações com a Bolívia de Evo Morales. O que, por sua vez, não teria como ocorrer isoladamente, mas como parte de uma política brasileira com a América do Sul. Ou seja, com reflexos nas relações também entre Brasil e Paraguai, Equador, Venezuela, Uruguai e Argentina. Além do Mercosul já desprezado por Serra.

O sarcasmo sugestivo, ainda que não venha a passar disso, contribuiu como primeiro aceno programático na pobreza convencional do bla-bla-blá que Serra e Dilma Rousseff mantêm. Corrijo: fiel a outro convencionalismo, Serra já prometeu a criação de mais um ministério -o da Segurança. Mas, como pode haver boa segurança sem ministério e má segurança com ministério, fora do ramerrão dos dois fica mesmo a sugestiva mensagem implícita na acusação à Bolívia de Evo Morales, e só.

OBRIGADO

Aécio Neves fez uma gentileza às senhoras e aos senhores ouvintes e leitores de jornal. Fez também, na mesma atitude, uma perversidade com os jornalistas que, muito mais do que o comando do PSDB, multiplicaram expectativas e apelos a Aécio para curvar-se à vice-presidência de José Serra. O ponto final (sic) posto por Aécio Neves nessa lenga-lenga jornalística é, antes de tudo, motivo de agradecimento.

A reafirmação de Aécio foi acompanhada de um comentário de Itamar Franco tendente a ser outro ingrediente de especulação. Há algum tempo, o ex-presidente é citado, fora da imprensa, como solução alternativa para a chapa de Serra, no caso de um forte desempenho em Minas mostrar-se decisivo para dar-lhe condições de êxito.

O comentário de Itamar Franco foi de crítica, pelos elogios de Serra a Lula, porém seguida da ressalva de que votará nele por disciplina partidária. Seu partido é o PPS, aliado do PSDB. É notório que Itamar e Serra não se apreciam. Mas Itamar e Collor não se apreciavam. O novo nome já entrado nas especulações, aliás, está na mesma: é também notório que Serra e Tasso Jereissati estão muito longe de se apreciarem.

Então, amizades e apreços não devem impedir especulações, como não impedirão a difícil escolha de um vice para Serra.”

A lei e a moralidade


Brizola Neto, Tijolaço.com

“Acabamos de assistir a uma flagrante prova da imoralidade da oposição PSDB-DEM. Burlaram, deliberadamente a lei. Sabiam que estavam transgredindo, não subjetivamente, mas objetivamente.

Não foi, num programa tucano, a exaltação de Serra, um de seus integrantes que podia – ou não – ser considerada propaganda antecipada.

Foi violação direta, expressa, objetiva, flagrante, criminosa. Foi fazer algo que se sabia proibido, anunciado previamente.

Quando, amanhã, apresentarem uma defesa pró-forma, às impugnações que sofrerão, a estratégia será a de dizer que a lei eleitoral permite eventos conjuntos de partidos. Verdade, se não fosse um pequeno detalhe: não é um programa eleitoral, regido pelas instruções que o permite. É um programa partidário, regido pela lei 9.096 que, não é demais repetir mil vezes, estabelece que é proibida a participação de pessoas filiadas em outros partidos. Com todas as letras.”
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27 Maio, 2010

Web e livre pensamento

Urariano Mota, Direto da Redação

"Nestes dias, tenho lido “Gabriel García Márquez – Uma Vida”, de Gerald Martin. Além do prazer de suas páginas, que revelam os vexatórios e verdadeiros dias do gênio de Gabriel, no livro mais de uma lição tenho aprendido. Para o objetivo desta coluna, interessa lembrar a lição do tipo de imprensa que forjou o caráter e talento de Gabriel García Márquez.

Nas páginas dos jornais de Cartagena e Barranquilla, cidades da costa da Colômbia, exercia-se a liberdade de imprensa, e de tal modo se exercia, que com mais propriedade mereceria o nome de liberdade de pensamento. Se querem uma divisão mecânica, digamos: os textos ali publicados eram livres na forma e no conteúdo. O que vale dizer: a potência da literatura invadia o jornalismo com toda sorte de armas, armadas e demônios. Isso dá na gente um espanto e uma pergunta ao mesmo tempo: como era possível tamanha liberdade? Penso que uma explicação reside no fato de que em uma província, afastada do domínio imediato da capital e do capital, o mudo todo estava por se fazer. E Gabriel e amigos intelectuais montaram ali o cavalo da oportunidade. E disseram, “aqui vamos, bandidos”.

Que diferença para a imprensa brasileira hoje. A gente não quer ser simplista, raso e rasteiro como um simplificador, mas a realidade autoriza. Ela, imprensa, é grossa como a piada mais chula. Notem que na grande mídia do capital, hoje, andam casados o maior reacionarismo político com a maior pobreza de idéias, com direito a uma amante, a mais miserável expressão da língua. Abra-se, por exemplo, um jornal de hoje. O leitor passa as folhas, envenena-se com alguns fatos, descrê de todos e joga o papel a um canto. Em menos de uma hora, não sabe o que leu, quando leu, e, até mesmo, se leu. Nada fica. Do papel à televisão, resta só a angústia do desperdício. Uma ressaca sem álcool.”
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26 Maio, 2010

O bicho da maçã

"Serra, o candidato do conservadorismo brasileiro, é um político que absurdamente aboliu a política, promovendo o auto-cancelamento"

(O político que não negocia)

Márcia Denser, Congresso em Foco

Na abertura do filme O senhor das armas, o contrabandista Nicolas Cage diz: “Atualmente nos Estados Unidos uma em cada 12 pessoas, possui uma arma. Então nosso problema é o seguinte: como armar as outras 11”? Pois é. Querer o diálogo e a paz quando o que dá lucro é a guerra – e o capitalismo de desastre é prova disto – aparentemente seria algo anacrônico num mundo que adora piadinhas desse tipo.

Contudo, numa visão superficial, embora a coisa até passe por aí – por pacifismo quixotesco, a política externa vitoriosa do presidente Lula só é vitoriosa porque implica uma estratégia extremamente hábil de longo alcance: avançar em conjunto com os grandes países do Bric (além do Brasil, Rússia, China e Índia) e pontualmente, conforme o caso e os interesses setoriais, envolver outros, no sentido de alterar a correlação de forças num mundo unipolar, obrigando a potência hegemônica, representada pelos Estados Unidos, a negociar, neutralizando seu impulso agressivo-expansivo – que não pode ser diferente desde que os norte-americanos escolheram apostar em seu estilo de vida predatório (uma vez que, numa megaescala de consumo, as antigas qualidades ianques desaparecem, ou melhor, se tornam defeitos/anomalias permanentes).

Na coluna "Serra e a direita kamikaze", já tratei especificamente de como se articula estrategicamente a política externa do governo Lula - no fundo, uma primorosa obra de relojoaria diplomática, uma coautoria assinada por Lula/Celso Amorim.

Indo ao ponto: Lula é um político hábil, um estrategista de visão, até porque inteligência nada tem a ver com kultur, com “k”, como a de FHC – sigla que Millôr Fernandes interpreta como “um grau superior de PHD”. Irretocável Millôr!. Um político por excelência no sentido amplo, como alguém que faz acordos, que negocia mantendo sua posição (isto é, a posição dos seus eleitores), que estabelece compromissos, que privilegia essa relação de dar e receber que caracteriza a essência da política. Um estadista reconhecido por especialistas e políticos do mundo inteiro, a começar por Barack “O cara” Obama e a terminar pela Otan, que também elogia seu acordo com o Irã.

Por suas características, Lula é tudo menos personalista. O ego vem em último lugar quando o que está em jogo é um país, seu povo e sua sobrevivência, inclusive no sentido histórico, sobretudo do ponto de vista geopolítico atual, quando tudo está interligado e todos dependem de todos.”
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25 Maio, 2010

Oráculos da verdade

Frei Betto, Adital

“O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo, por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos -"O que é o Iluminismo?"- sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos "oráculos da verdade": a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses os guardiões da verdade que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.
É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, "gado doméstico", arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam "Não pensem!" "Obedeçam!" "Paguem!" "Creiam!" O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: "Não pensem! Gastem!"
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24 Maio, 2010

Ficha Limpa? Ah bom! Fator previdenciário? Ah bom!

Ricardo Giuliani Neto, Última Instância

“Não vai demorar muito para que todos os que pediram o projeto “Ficha Limpa” e os que detonaram o “fator previdenciário” afirmem em uníssono, tal qual aquele personagem do Jô Soares: “ e eu agrediiteeeiii...”

O show de hipocrisias e de cinismos no Congresso Nacional foi algo absolutamente insuperável. Ver os Senadores Agripino Maia e Romero Jucá, juntos com todos os outros, cobrando decência das Casas da República, somente foi superado pelo ridículo da emenda senatorial aposta ao projeto ficha limpa regulando o tempo do verbo subordinativo do tempo das condenações havidas. Portanto, limpar-se-ão as fichas, a depender da conjugação verbal; explique-se Senador Dornelles.

Constituição? Às favas! A preocupação dos representantes do povo e dos Estados fixou-se nas urnas de outubro. Pão e circo. Ao povo, pão, circo e demagogia da mais barata.

E o pior, há uma montanha de gente de boa-fé sendo enganada pelo embuste patrocinado, lá no comecinho, pela Associação dos Magistrados Brasileiros, mãe do projeto de lei que dá as costas à Constituição brasileira. Sim, o princípio constitucional da inocência ou da não-culpa, sequer foi trazido ao debate pelos senhores congressistas. Os olhos dos congressistas estão nas urnas de outubro, e a consciência dos pais do embuste, na “ingenuidade” romântica de quem faz a política com a toga.

O tema é singelo: o meio cidadão e o cidadão e meio. Ah, e no meio disso tudo existem pedras, gente tentando fazer política séria e decente. Acompanhem os acontecimentos e depois me digam, ou, melhor, digam a vocês mesmos, foi um embuste, ou não?

Não quero entrar no tema relativo ao fator previdenciário aprovado pelo Congresso Nacional juntamente com o aumento do índice de reajuste aos aposentados com vencimento superior a um salário mínimo. É outra bazófia, outra fanfarronice; ou alguém duvida do veto Presidencial à demagogia barata? Por que demagogia barata? É impensável matéria desta complexidade e envergadura sendo tratada como se comprando um quilograma de tomates ou 3 ou 4 bananas.”
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23 Maio, 2010

A riqueza do mundo e a herança dos otários

Edival Lourenço, Revista Bula

“O Homo sapiens, este bípede implume, mamífero por condição e pretensioso de nascença, é um animal encantador, que se diferencia de toda bicharada pelo o uso da razão e pelo porte da moralidade. E é ao mesmo tempo um tanto çinixtro, exatamente por ser moral e dotado de raciocínio e se negar a usar essas faculdades praticamente exclusivas para se resguardar como espécie, neste momento da história em que toda a fauna humana passeia perigosamente numa frágil e movediça passarela sobre os horrores de um abismo.

Poderíamos dizer que a moral é uma invenção platônica, engendrada a partir das ideias de Sócrates (469-399 a.C.). Do ponto de vista formal, esta atribuição não é de toda descabida, mas, do ponto de vista intuitivo, algumas noções de moral, ainda que de forma rudimentar, sempre estiveram entranhadas na consciência do homem, desde tempos neanderthais.

Para a moralidade platônica nada pode fazer mal a uma pessoa de bem. Alguém que aja com senso de ética, justiça e equidade sempre estará resguardada dos solavancos do mundo. Essa noção foi migrada inteira, sem supressões nem retoques, para o arcabouço do cristianismo, onde foi totalmente absorvida. Quem é bom sempre terá a seu dispor um caminho ladrilhado de pétalas de rosas e um horizonte azul onde abrigar seus sonhos, sempre realizando de forma crescente. Paz na terra aos homens de boa vontade, diz o aforismo deôntico. A contrário senso, quem é mau pagará o preço de sua maldade, do jeito de quem cospe pra cima.

Outras religiões de ancestralidade órfica, como o kardecismo, por exemplo, tratam esta questão de forma ampla, abrangente e tranchã: errou, pagou. Não tem escapatória. Não há quem cometa uma besteira impunemente. Ninguém passa por uma situação de perrengue por acaso. A vida é tão somente um balcão de acertos, onde lhe é debitada toda a despesa da vida, seja dos excessos do presente, seja dos excessos de vidas passadas.

Em contrapartida, ninguém usufrui de uma vida augusta sem que seja para receber os créditos pendentes, conquistados num padecimento anterior. Se você veio ao mundo com créditos e bônus, tudo bem; nada deterá sua vocação para ser feliz. No entanto se gastou suas pratas em vidas passadas e ainda deixou a conta da última farra pendurada no cartão de crédito, terá de ralar implacavelmente até o último dia de sua vida, quiçá numa próxima que tiver.”
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A sucessão de catástrofes é casual ou causal?

Mario Soares, IPS / Envolverde

"Até o próprio Pangloss, famoso personagem de Candide de Voltaire, apesar de seu imperturbável otimismo, se veria em dificuldades para enfrentar o mundo contemporâneo. A natureza e a humanidade deram rédeas aos seus respectivos demônios e ninguém pode detê-los. Em diferentes lugares, a Terra reage e nos assesta, sucessivamente: ciclones, maremotos, terremotos, inundações e, ultimamente, a erupção vulcânica na insular Islândia, que paralisou os aeroportos do norte e centro da Europa. Um espetáculo triste e jamais visto.

“Trata-se de fenômenos naturais normais, dirão alguns, os menos avisados. Contudo, para aqueles que têm mais de oito décadas vividas, como é meu caso, e nunca viram nem tiveram conhecimento de nada semelhante a esta conjugação sucessiva de catástrofes, é prudente expor a dúvida: será que a mão inconsciente e imprevista do homem, que agride e maltrata o planeta e compromete seu equilíbrio natural, não tem uma boa dose de responsabilidade nestes fatos?

A recente Conferência de Cúpula sobre Mudança Climática em Copenhague, em dezembro passado, que deveria condenar e enfrentar o aquecimento global, resultou em fracasso devido ao suspeito acordo traçado na última hora por China e Estados Unidos. Por uma coincidência – ou talvez não –, estas duas grandes potências são os maiores contaminadores da Terra. A verdade é que conseguiram paralisar o grupo europeu – ao qual não deram a menor importância – e várias delegações procedentes de outros continentes, que esperavam resultados positivos da Conferência Mundial.

Talvez seja mais preocupante a aparição de alguns cientistas que adotam posturas abertamente contrárias ao pensamento e às advertências da esmagadora maioria dos ecologistas, já que afirmam que o aquecimento global não é causado pelas atividades humanas nem pelo abusivo emprego de combustíveis derivados dos hidrocarbonos. Afirmam e reiteram que se trata de um fato natural. Isto me faz pensar que há pessoas capazes de perseguir a todo custo a ganância e sobrepor a qualquer outra consideração a defesa de seus interesses imediatos sem que isso afete suas boas consciências... Se é que as têm.”
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21 Maio, 2010

Lula, o brasileiro

Pedro Estevam Serrano, Última Instância

“O acordo tripartite Brasil-Irã-Turquia tem, para nós brasileiros, um sentido histórico inegável e apenas timidamente reconhecido por uma mídia nacional, que de tamanha má vontade com nosso presidente já abalou sua credibilidade informativa com parte significativa da mídia global.

Talvez o Irã não cumpra o acordado, como afirmam as grandes potências, talvez a guerra seja inevitável. Mas há uma dimensão da situação que é certamente inescapável, como afirmam analistas e experts entrevistados pelo portal de notícias UOL. O Brasil passará a ter outro papel na geopolítica global, independentemente até de seu presidente. Estranhamente a mídia não anunciou que passávamos a ocupar um papel relevante no globo por conta também da habilidade de nosso presidente, mas agora anuncia que não dependemos mais dele para ter tal projeção.

Fazer piada com as frases inusitadas de nosso presidente tem se tornado um estranho e muito positivo vaticínio para nós brasileiros. Brincávamos com os erros de português e com a incultura monoglota de nosso presidente —como ele poderia se relacionar com líderes mundiais tendo tamanha ignorância idiomática? Pois o Lula monoglota tratou de ser o presidente brasileiro mais ouvido pelo mundo e seus líderes em toda nossa história. “O cara” como disse Barack Obama, presidente dos EUA.

Todos nós brincamos com a forma infantil, pouco técnica e até arrogante como Lula tratou a gravíssima crise econômica global que chagava ao país. “Marolinha”, disse ele, não teria o condão de descontinuar nosso crescimento. Todos fizemos da expressão uma piada, nossa mídia inclusive. Pois é, hoje, o governo está adotando medidas para conter o “super-crescimento” que ocorre este ano. Era marola mesmo.”
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20 Maio, 2010

A ditadura da tecnologia

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Em 1995, Eliakim e eu, fomos procurados por uma empresa para sermos os protagonistas de um vídeo que ensinava o passo a passo na Internet que estava nascendo ali, naquele momento.

Com uma produção esmerada e cheia de detalhes, trabalhosa mesmo, diante de uma tela de computador, íamos dando as dicas de como navegar naqueles novos mares que estavam despontando como na época dos grandes descobrimentos, de Colombo e Cabral, rumo às novas terras de um novo mundo. Só que num mundo completamente diferente, o virtual.

E foi exatamente assim que nós nos sentimos. Descobridores! Esse vídeo foi feito em VHS e ao vê-lo hoje é como dar corda no relógio ao contrário. Bem, confesso que não foi tarefa fácil assisti-lo já que atualmente os aparelhos de DVD já não possuem as "gavetas"para as fitas VHS.Os blue rays mais modernos então, nem se fala!

Mas, como tínhamos guardado, empoeirado é verdade, um daqueles espécimes raros compatíveis com fitas de vídeo, pudemos assistir nosso trabalho que consideramos um ponto de partida na geração da Internet no Brasil.

Não sei qual foi a vendagem do vídeo. Ele esteve à disposição em livrarias, bancas de jornais e em lojas dos aeroportos. Parece que na época vendeu bem. Temos até hoje dois exemplares aqui em casa e só temos a elogiar a produção impecável que contou também com a narração da atriz Ciça Guimarães.

Falando assim, parece até que tudo isso aconteceu há muito tempo. Mas nada disso! Essa história tem apenas 15 anos e de lá pra cá o avanço da Internet foi acontecendo num ritmo tão alucinante que o tempo passou e a gente nem se deu conta. Quase por osmose fomos nos acostumando com o imediatismo da Internet que hoje nos faz escravos dela. É mais fácil ficar sem TV do que sem a conexão que nos permite assistir filmes, capítulos das novelas, programas e até mesmo elegermos celebridades do momento que se lançam aos borbotões na nova telinha mágica, a dos computadores.”
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19 Maio, 2010

O mal estar da grande mídia por conta do acordo Brasil-Irã-Turquia

Dennis de Oliveira, Revista Fórum

“Este final de semana foi cômico para a mídia conservadora que não conseguiu disfarçar o seu mal estar e incômodo com o acordo obtido pelo governo brasileiro com o Irã a respeito da contenda do programa nuclear da nação persa. Na sexta e no sábado, a tônica unânime da mídia hegemônica brasileira foi que o presidente Lula estaria "perdendo tempo", quie estava "arriscando a credibilidade internacional do país" ao tentar negociar com um governo já qualificado como "pária", "autoritário", "desequilibrado", entre outros.

No domingo, a Folha de S. Paulo estampou na matéria sobre o tema o título "Irã dá ao Brasil um polêmico protagonismo" com duas linhas finas: "Gestões de Lula conseguem reduzir isolamento de Teerã e adiar sanções na ONU, mas dificilmente resultarão em recuo iraniano" e "Esforços por acordo com país persa têm gerado críticas à política externa brasileira; presidente se reúne hoje com Ahmadinejad e Khamenei ". A matéria do jornalista enciado especial a Teerã, Sammy Adghirni começa com o seguinte lide: "A despeito do discurso otimista, a mediação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas conversas sobre o programa nuclear iraniano provavelmente não surtirá efeito" As críticas citadas na linha fina vieram de um analista do jornal Washington Post e de um ex-assessor do governo dos EUA, Bill Clinton. Fontes dos EUA. país diretamente interessado em isolar o Irã p or conta da sua estratégia geopolítica internacional que privilegia o enfraquecimento dos países adversários dos Israel e o fortalecimento deste (que, diga-se de passagem, possui armas atômicas).

O jornal O Estado de S. Paulo vai na mesma linha e busca apoio para esta posição na aparentemente insuspeita candidata do Partido Verde, a senadora ex-petista Marina Silva, que critica a tentativa de um diálogo com um "governo que desrespeita os direitos humanos".

Bem, chega o domingo à noite e o acordo é acertado entre Brasil, Irã e Turquia. A aposta no fracasso dá lugar ao ceticismo com misto de inveja e dor de cotovelo. O portal da revista Veja lembra que o Irã já "descumpriu" acordos anteriores e por isto, nada garante que este vai ser cumprido. Lembra ainda que o acordo está restrito a uma das usinas, mas a secretária Hillary Clinton acreditqa existir outras instalações nucleares no Irã. o portal da Veja só esqueceu de lembrar que o governo Bush também disse que o Iraque tinha armas de destruição em massa e por isto invadiu-o. As investigações posteriores mostraram que esta informação era falsa e tudo não passou de um pretexto para aquela guerra absurda.”
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18 Maio, 2010

A busca da paz, um anseio planetário

Denise Ribeiro, Instituto Ethos / Envolverde

“Pela reação emocionada da platéia, que aplaudiu de pé o teólogo Leonardo Boff, ficou claro o quanto o mundo moderno anseia por lições de paz e democracia. A palestra do professor, que falou sobre o quarto princípio da Carta da Terra, relativo à democracia e à cultura da paz e da não violência, magnetizou a audiência na tarde da quinta-feira, 13 de maio, segundo dia da Conferência Internacional 2010 do Instituto Ethos.

Na abertura da palestra, a escritora e cofundadora do Instituto Palas Athena, Lia Diskin, disse que a sociedade busca vias de recuperar a confiança e o respeito mútuo para fazer frente à violência, matéria-prima da mídia, das conversas, das produções cinematográficas. “Vida é relação, é o cuidar, é o encontro”, diz ela.

Boff, depois de relacionar os vários tipos de democracia, afirmou que floresce na América Latina um tipo único de democracia participativa: a comunitária, cujo pressuposto é o bem-viver. “Não é o viver melhor, em que a maioria paga o preço pelo o conforto de poucos. Mas um sistema ensinado pelas populações indígenas, que se baseia na economia do suficiente e do decente para todos e não na economia da acumulação”, explica.

Para o teólogo, essa democracia nascente não é antropocêntrica, garante os direitos da Mãe Terra e caminha para a “superdemocracia planetária”, nem que para isso tenhamos, antes, de correr o risco de aprofundar ao máximo a crise em que estamos inseridos. “Sairemos fortalecidos, atentos a valores éticos, a um modo de vida sustentável e à necessidade de gerenciar, juntos, os escassos recursos que temos”, argumenta.”
Foto: Fernando Manuel
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17 Maio, 2010

Uma esponjinha versus a British Petroleum

Pelicano marrom sobrevoa costa de Louisiana, no Golfo do México. Oitenta detentos de uma penitenciária estadual, no sul do país, receberam uma aula sobre limpeza de aves sujas de petróleo

Amália Safatle, Terra Magazine

"- O que nós podemos fazer agora?? Quero ajudar, mas não sei como!

Este é dos comentários postados no site da ONG Greenpeace, sobre a notícia do desastre no Golfo do México, de responsabilidade da British Petroleum e sua fornecedora Deepwater Horizon, e que pode configurar a maior catástrofe ecológica da história dos Estados Unidos. Sem controle, o petróleo da plataforma que explodiu no dia 20 de abril, matando 11 pessoas, continua vazando no mar e alargando a mancha de óleo, cuja dimensão passa do equivalente ao território do estado de Sergipe. Os prejuízos, estimados na casa do bilhão de dólares, também alcançam a esfera política de Barack Obama e devem ser irreparáveis do ponto de vista biológico.

Os comentários são comoventes. Dá para sentir a sinceridade e o desprendimento com que muitos foram escritos. O que nós podemos fazer a agora? Ao escrever "nós", veja como o sujeito se inclui e se envolve com o problema causado por uma empresa de fora, em outro país, movida por outros interesses.

- Também gostaria de poder ajudar (...).Fiz um cursinho de Técnico em Meio Ambiente e qualquer coisa entrem em contato - escreveu um internauta.

- Se eu pudesse, iria com minha esponjinha lá e faria a minha parte!

- disse outro. Alguns entraram em contato com a petrolífera britânica e receberam de volta um comunicado padrão e formal, para aumentar sua indignação.”
Foto: AP
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16 Maio, 2010

Quem joga contra o acordo com o Irã

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“O mundo inteiro acompanha as gestões do Presidente Lula para conseguir um acordo com o Irã que evite o agravamento das tensões envolvendo os Estados Unidos e o regime dos aitolás em função da questão nuclear. Depois de passar pela Rússia e Catar, o presidente brasileiro demonstrou otimismo em relação à possibilidade de um acordo que evitaria a adoção de sanções da ONU contra o Irã. Quer queiram ou não os setores conservadores dos diversos quadrantes, o Presidente brasileiro, para orgulho da América Latina e dos demais países do Terceiro Mundo, está desempenhando um papel da mais alta relevância na tentativa de evitar as sanções que poderia resultar posteriormente até num confronto bélico não desejado por ninguém, com exceção do complexo industrial militar estadunidense.

Nesse sentido, seja qual for o resultado das gestões fica visível como os falcões de Washington e pelo mundo afora tentam de todas as formas evitar que a missão de Lula seja bem sucedida. Madame Hillary Clinton demonstrou total ceticismo, de uma forma tão flagrante como se sentisse incomodada com a possibilidade de um acordo. O Washington Post e o The New York Times desancaram em cima de Lula. E, além do mais, quanto mais se isolar o Irã, mais o país ficará refém de aiatolás linha-dura. É o que querem os falcões do Ocidente e o lobie sionista.

Na verdade, a missão de Lula no Irã, além de incomodar a direita brasileira, por motivos óbvios, deixou furioso setores do establishment estadunidense, que estão fazendo o possível e o impossível para evitar um acordo para a troca de combustível nuclear que poderia ocorrer na Turquia e com a supervisão do Brasil. O fato do regime iraniano num primeiro momento não ter aceitado o que então representou na prática uma imposição dos Estados Unidos de obrigar a troca de combustível em um outro país, não significa necessariamente que a nova proposta apresentada pelo Brasil e Turquia esteja sendo considerada por Ahmadineyad apenas para ganhar tempo, como alegam agora os falcões.”
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Como se prepara uma conquista

Mauro Santayana, JB Online

“Desde que existem fronteiras, existem guerras. As guerras se fazem sobre as fronteiras, para que se abram aos invasores. Ao se abrirem, deslocam-se, em favor dos que vencem, cujo espaço se vê ampliado. Há as fronteiras físicas, eventualmente com suas fortalezas e seus obstáculos naturais, e há as fronteiras morais. O povo invadido não se defende apenas com as armas, por mais poderosas sejam; defendem-se com sua bravura, sua honra, seu sentimento de fraternidade.

É natural que os homens morram na defesa de suas ideias e de sua dignidade, mas para isso devem nelas acreditar como alguma coisa maior do que eles mesmos. Nenhuma outra ideia, nenhum outro compromisso, é maior do que a ideia de pátria, que aceita e amplia o sentimento de família. O homem que morre na defesa de sua pátria, morre na defesa de seus filhos e de todos os filhos, de todas as mulheres, de todos os anciões de seu povo. Por isso, a defesa é mais poderosa do que o ataque – como temos visto em todas as guerras. A defesa se transforma em ataque, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial. A resistência russa, nas portas de Moscou e na gesta desesperadora de Stalingrado, se converteu na cena orgulhosa do soldado que fixa a bandeira vermelha no alto do Reichstag, em Berlim.

As guerras não são fenômenos repentinos na História. Muitos estudiosos vão à mitológica Guerra de Troia, na versão de Homero, com seus paradigmas de astúcia, heroísmo, covardia e traições, para nela encontrar o exemplo clássico dessa patologia: todos os conflitos anteriores e todos os que se seguiram se explicam com a expedição de Agamenon, a astúcia de Ulysses, o inútil “corpo fechado” de Aquiles, com seu calcanhar vulnerável, a coragem de Ájax no confronto com Hector, a enigmática figura de Palamedes.”
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14 Maio, 2010

Grafite, o vitorioso

Urariano Mota, Direto da Redação

"Quando ontem a televisão anunciou a seleção de Dunga e vi a imagem de um guerreiro alto, altivo e talentoso, a minha memória deu um salto a gritar em silêncio: “viva, finalmente”. Ao ver Grafite entre os selecionados, lembrei e guardei alguns fatos, à espera dos jornais deste outro dia. No entanto, nada, nada nos jornais de hoje que recuperasse momentos essenciais na vida desse jogador.

Nos jornais dos novíssimos tempos a memória deixou os repórteres e migrou para os arquivos, que raro são buscados. Restaram repórteres sem história e sem desconfiômetro, que nem suspeitam de que os famosos não nasceram no momento da notícia. Por isso destacaram a declaração de Dunga, sem qualquer moldura ou explicação:

Tem jogadores que jogam cinco minutos e aproveitam. Tem pessoas que têm inúmeras oportunidades e acham que sempre vão ter a próxima. Você não quer que o jogador chegue e arrebente, mas eu quero que, quando ele coloque aquela camisa, tenha uma postura de campeão, a mesma personalidade do clube. Ele fez isso”.

Os jornalistas do dia nem imaginaram que a personalidade de Grafite nasceu antes, quando vestia a camisa do São Paulo contra o Quilmes, equipe argentina, em 13 de abril de 2005. Naquela ocasião, ele denunciou o jogador Desábato (alguma notícia do bravo?) por crime de racismo. Em artigo para o site espanhol La Insignia, escrevi então no texto Grafite, o negro, http://www.lainsignia.org/2005/abril/soc_008.htm :

“Quando o jogador Grafite, da equipe do São Paulo, foi chamado de ‘negro de mierda’, de ‘mono negro’, os dirigentes do Quilmes, time argentino, nada viram nisso que merecesse uma denúncia policial. Qué pasa? ‘Si Grafite se va a ofender porque alguien le dice una grosería, entonces que vaya a jugar con las muñecas. No es para el fútbol’.
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13 Maio, 2010

Ministério da vida e da morte

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“O menino holandês que sobreviveu à queda do Airbus A330 da Afriqiyah Airways, em Trípoli, na Líbia, é mais um que entra para a lista de sobreviventes de acidentes aéreos sem uma explicação lógica.

Os técnicos que estão examinando os destroços do avião dizem que é inacreditável que alguém tenha saído com vida do acidente que deixou a aeronave completamente destruída. O menino, de oito anos de idade, teve fraturas pelo corpo, já foi operado e passa bem. Agora, os investigadores estão esperando que ele tenha condições de falar e de se lembrar como conseguiu sair dessa armadilha da morte.

Evidentemente que quando acontece algo assim a tendência é que surjam os achismos de sempre, as especulações, as tentativas de explicar o inexplicável, como, por exemplo, declarações de especialistas em aviação que acreditam que a tenologia cada vez mais avançada dos aviões está permitindo que haja mais sobreviventes a cada acidente aéreo. Não era melhor que essa tecnologia fosse usada para evitar acidentes?

Os mais céticos, mesmo não acreditando em destino, como não encontram resposta melhor, acabam atribuindo a sobrevivência de passageiros em acidentes aéreos à sorte e procuram não se aprofundar no assunto para não se perderem naquilo que não conseguem entender.

Os que seguem a doutrina de que "nada na vida é por acaso" acreditam mesmo que "estava escrito", ou seja, aqueles que sobrevivem a tragédias que envolvem a morte de centenas de pessoas e continuam vivos é porque ainda não era ainda a hora deles partirem dessa para uma outra vida.”
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12 Maio, 2010

A dona da casa

Menalton Braff, Revista Bula

“O silêncio é sua escuridão, por isso viver tornou-se um exercício diário, meticuloso, em que tateia com os pés o piso frio da cozinha, não vá acordar a mãe. Desde o divórcio, vem apalpando a medo os dias e os vazios na consciência da velha mãe, com quem decidiu morar, aproveitando uns restos de responsabilidade familiar. Nossas velhices são amparos mútuos, dizia às vezes, em tom de brincadeira, pois sabe-se tão jovem que nem chegou a pensar ainda em aposentadoria.

Depois de abrir a porta dos fundos, costumava entrar pela cozinha, enfia a mão no espaço escuro, acende a lâmpada e entra com silêncio de ladrão experiente. É preciso fazer um lanche para poder dormir. Lava as mãos sujas de giz na torneira da pia e, mesmo sem enxugá-las, põe a frigideira untada de óleo sobre o fogão. Um ovo mexido com pão é tudo que sua mente cansada e o estômago vazio ambicionam.

Quando o grito estremece o ar iluminado da cozinha, Isaura olha assustada para trás.

− Vagabunda!

A guedelha revolta e toda ela amarrotada pela cama, sua mãe aparece estátua na porta completamente viúva. Isaura não deixa de mexer o ovo na frigideira, fingindo não ter ouvido o insulto, mas sua cabeça baixa permite um olhar de esguelha, por cima do ombro, tendo a mãe como alvo.

− Sua porca vagabunda. Pensa que eu não sei? Meu dinheiro, sua ladra, devolva meu dinheiro. Roubou meu dinheiro pra sustentar aquele animal. Vamos, estou esperando. Você não está ouvindo? Quero meu dinheiro de volta.”
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11 Maio, 2010

O Pecado de Maria

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Maria é uma imigrante mexicana que vive no Arizona. Ela tem três filhos, de três, cinco e sete anos, todos nascidos nos Estados Unidos, cidadãos americanos portanto. De quinze dias para cá, Maria deixou de realizar uma rotina simples, mas que é a alegria e a realização de qualquer mãe: levar os filhos até a porta da escola.

Desde que a governadora do Arizona sancionou uma lei de imigração, de abrangência estadual, Maria ouviu falar que a polícia estava prendendo na porta da escola as mães que não tivessem documentos. Por isso, ela passou a se esconder e evitar locais públicos porque não tem o visto de residência.

Maria vive uma triste e absurda realidade kafkiana: é uma imigrante ilegal no país onde nasceram seus três filhos. Hoje ela deixa as crianças a três ou quatro quadras da escola e, de longe, com o coração apertado, acompanha os passinhos de seus queridos até que ultrapassem o portão da escola elementar.

A história de Maria é apenas uma entre milhares de outras tão ou mais dolorosas do que a dela. Sua eventual prisão vai transformar a vida da família no pior dos infernos: ela será deportada imediatamente e não poderá levar junto os filhos nascidos nos EUA, que serão transferidos para algum abrigo de menores do Estado, quando não oferecidos em adoção. É uma situação desesperadora e humilhante, causada por uma lei arbitrária e desumana.

Em resposta às muitas manifestações de protesto em todo país, os parlamentares e a governadora do Arizona, tentaram iludir a opinião pública incluindo na lei uma emenda que torna ilegal a discriminação racial, como se fosse uma grande novidade no país.”
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Ganhar distância para ver melhor

Leonardo Boff, Adital

“Todos estamos angustiados com as crises pelas quais passa a Mãe Terra e a vida humana. E temos boas razões para tanto, pois estamos nos confrontando com um futuro que pode ser de vida ou de morte. Para vermos melhor a situação, temos que ganhar um pouco de distância. Vamos comprimir os mais de 13 bilhões de anos de existência do universo num único ano cósmico. Vamos ver como ao longo dos meses foram surgindo todos os seres até os últimos segundos do último minuto do último dia do ano. Vejamos como fica o cenário que um cosmólogo amigo me ajudou a calcular.

A primeiro de janeiro ocorreu a Grande Explosão (o big bang).
A primeiro de março surgiram as grandes estrelas vermelhas que depois explodiram e de seus elementos, lançados em todas as direções, se formou o atual universo.
A 8 de maio, surgiu a Via Láctea, uma entre cem bilhões.
A 9 setembro, nasceu o Sol, o centro de nosso sistema.
A 1 de outubro, nasceu a Terra, o terceiro planeta do Sol.
A 29 de outubro, irrompeu a vida no seio de um oceano primevo.
A 21 de dezembro, surgiram os peixes.
A 28 de dezembro às 8.00 horas, vieram os mamíferos.
A 28 de dezembro às 18,00 horas, voaram os pássaros.
A 31 de dezembro às 17.00 horas nasceram nossos antepassados pré-humanos, os antropóides.
A 31 de dezembro às 22.00 horas entra em cena o ser humano primitivo, o australopiteco.
A 31 de dezembro às 23 horas, 58 minutos e 10 segundos surgiu o ser humano de hoje chamado de sapiens sapiens, portador de consciência reflexa.
A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 6 segundos nasceu Jesus Cristo, figura central do cristianismo e para os cristãos o salvador do mundo.
A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59,02 segundos Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil.
A 31 de dezembro às 23.00 horas e 59 minutos e 59,03 segundos a Europa começou a ser uma sociedade industrial e a expandir seu poder, explorando o mundo e criando o atual fosso entre ricos e pobres.
A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,54 segundos, se fez a Independência do Brasil.
A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,56 segundos (a partir de 1950) o ritmo da exploração e devastação ecológica se acelerou dramaticamente.
A 31 de dezembro, às 23 horas, 59 minutos e 59,58 segundos Lula foi eleito Presidente, um operário no poder. Pouco depois se constatou o perigoso aquecimento global que pode ameaçar o futuro da civilização.
A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,59 segundos viemos nós ao mundo.”
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09 Maio, 2010

A César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus; e pra mim, 10% tá bom

Eberth Vêncio, Revista bula

“Um dos fragmentos mais conhecidos do Novo Testamento conta um episódio curioso acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo para o povão daquela época (se na atualidade o ser humano esbanja ignorância, imagine só naqueles tempos bicudos).

Durante peregrinação com os discípulos e outros seguidores (e conta-se que eram muitos), Jesus teria sido provocado por um fariseu folgado. O espírito-de-porco perguntou ao Rabi se ele considerava justo que tributos fossem pagos pela população a Roma. Sabido até mandar parar, o mestre deu uma resposta de mestre ao interlocutor malicioso, já o repreendendo nas entrelinhas: “ — Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Na minha leiga interpretação, penso que Jesus sugerisse que não confundíssemos dinheiro com espiritualidade, ou materialismo com a fé. Departamentos avessos, diferentes. Para mim, leitor relapso dos textos sagrados, este foi o recado do Nazareno ao fariseu otário e a todos que já leram esta e outras estórias.

Estranhamente, várias religiões promovem um mix mais que profano (muitíssimo antagônico) entre os bens materiais (principalmente, a grana) e a religiosidade. Esta equivocada e perniciosa relação entre dinheiro e divindade propagada por bispos, pastores e demais domadores das massas atinge o impensável.”
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07 Maio, 2010

Família virtual

Frei Betto, Adital

“A desinstitucionalização da família é um dos aspectos mais marcantes da crise da modernidade. O que é, hoje, uma família? Onde os vínculos inquebrantáveis da instituição agregadora de avós, pais, filhos, tios, primos e netos?

A reconfiguração dos papeis sexuais, a instabilidade dos laços conjugais, o divórcio, o recasamento, fragmentam o núcleo familiar. As crianças circulam entre vários lares autônomos em contato com diferentes adultos que lhes transmitem, como valores, tantas opiniões e atitudes divergentes, que elas ficam absolutamente convencidas de que tudo é relativo.

A crise do modelo familiar tradicional decorre de fatores como a emancipação da mulher, que já não depende do marido para se sustentar; do desprestígio da autoridade paterna; da igualdade de direitos das pessoas; o que embaralha e mina a antiga hierarquia de papéis definidos entre avós, pais, mães, filhos e tios.

Essa atomização do núcleo familiar desordena o conceito de autoridade, o exercício da obediência, o patriarcalismo outrora dominante. A família é, agora, um agrupamento funcional de trocas afetivas e interesses econômicos. Nela, os deveres específicos de cada um perdem nitidez. Os rituais de entrelaçamento e consolidação -refeições em comum, frequência dominical ao culto religioso, férias conjuntas, celebrações de aniversários etc.- se esfumaçam sem que seja introduzida nova liturgia de estreitamento de vínculo familiar.

O que é hoje um lar? Um espaço de moradia onde cada um se locomove de acordo com seus interesses individuais. No lugar da mesa posta com a família em torno, a geladeira como provedora de abastecimento; no lugar da sala como espaço de convívio, o quarto individual como local de refúgio, onde cada um se esconde entretido com a parafernália eletrônica, como TV e internet, que substitui, pelo relacionamento virtual, a sociabilidade calcada na alteridade.”
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06 Maio, 2010

A mentira nossa de cada dia

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Você já foi vítima de alguma mentira? Acho que ninguém escapou dessa. Seja na vida pessoal ou profissional, em algum momento alguém já passou pelo dissabor de ser enganado nas profundezas da sua boa fé. São tantos os casos de mentiras disseminados nos vários segmentos da sociedade que parecem uma praga. Como você, leitor (a) , já vivenciei alguns ou tomei conhecimento de outros.

Tem aquele que nunca foi, gostaria de ter sido e continua não conseguindo ser, mas diz que é. Complicado? Não. Esse é daqueles que vivem tramando golpes contra os bem intencionados que estão sempre lutando para acreditar nas pessoas e em seus projetos mirabolantes. Inescrupulosos, dizem ser o que nunca foram. Acabam desacreditados, não sem antes, infelizmente, terem feito estragos, muitas vezes , irreversíveis na vida de muitas famílias.

Picaretas desse quilate vão desde anônimos desconhecidos a figuras conhecidas mundialmente como o tal Madoff , aquele da pirâmide, que pegou 150 anos mas deixou muita gente na desgraça, inclusive associações beneficentes que com ele guardavam seu rico dinheirinho em busca dos altos rendimentos prometidos. Bem, pelo menos esse está fora de combate por mais de um século, se é que ele chega até lá.

Será que é chover no molhado se eu citar aqui alguns politicos? Nesse segmento não posso deixar de falar do eterno Senador José Sarney, que já foi considerado o número um no ranking dos mentirosos. O homem é tão mentiroso, mas tão mentiroso, que o nariz dele está cada vez maior. E vermelho, parece um pimentão. Pois é, mas apesar de tudo que dele já disse e provou o homem continua lá, firme, dando as cartas no Senado.”
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05 Maio, 2010

A estória do Boneco de Sal

Leonardo Boff, Adital

“Nos últimos tempos temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente às questões ambientais e aos desafios que as mudanças climáticas implicam para o futuro de nossa civilização, para a produção e o consumo.

Nem por isso devemos descurar os problemas cotidianos, a construção continuada de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de desapegar-se.

Todos vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado em possibilidades e nos impõe barreiras de toda ordem, de lugar, de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E às vezes nos sentimos impotentes face a dados que não podemos mudar como a presença de um esquizofrênico com seus altos e baixos ou um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível. Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Há que ser criativamente resignados. Em vez de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental: "se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja a milhares de quilômetros de distância". Se te modificares em teu centro, nascerá em ti uma fonte de luz que irradiará para os outros.

A outra tarefa da autorrealização é a capacidade de desapegar-se. O zen budismo coloca como teste de maturidade pessoal e liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observamos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno; em seguida, da meninice, da juventude, da escola, da casa paterna, de parentes e da pessoa amada. Na idade adulta, despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que irrefragavelmente vão se desgastando, até despedirmo-nos da própria vida. Nestas despedidas, deixamos um pouco de nós mesmos para trás.”
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04 Maio, 2010

Herói sem medalhas

Eliakim Araujo, Direto da Redação

"Por volta das seis e meia da tarde deste sábado, um camelô que vendia camisetas em Times Square, Nova Iorque, avistou uma fumacinha saindo de um carro Nissan Pathfinder, estranhamente parado junto ao meio-fio com o motor ligado. Desconfiado de alguma coisa errada, o vendedor avisou a um policial que passava montado à cavalo. O policial se aproximou do veículo e sentiu cheiro de pólvora.

Imediatamente, o policial avisou aos superiores e recebeu ordens de evacuar e interditar a praça, onde está a maior concentração de teatros da cidade, a mundialmente famosa Broadway, ponto de visita obrigatória de milhares de turistas.

Neste domingo de manhã, 12 horas depois do alerta que deu ao policial, o camelô esperava a desinterdição da praça para voltar ao seu ponto de venda e recolher a mercadoria que deixara para trás quando veio a ordem de abandonar o local.

Descoberto pela mídia e identificado por um tag que trazia ao pescoço, Lance Orton, o vendedor de camisetas, viu-se cercado por câmeras e microfones. Sem querer tinha virado um herói. Cansado e desconfiado, ele queria apenas deixar o local e voltar para casa para descansar. Mas os repórteres não o deixaram em paz. Enquanto caminhava, ouvia aplausos dos funcionários dos fast food das proximidades.”
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03 Maio, 2010

Quem "controla" a mídia?

Enquanto na América Latina, inclusive no Brasil, a grande mídia continua a “fazer de conta” que as amaças à liberdade de expressão partem exclusivamente do Estado, em nível global, confirma-se a tendência de concentração da propriedade e controle da mídia por uns poucos mega empresários.

Venicio A. de Lima, Vermelho.org

Você já ouviu falar em Alexander Lebedev, Alexander Pugachev, Rupert Murdoch, Carlos Slim ou Nuno Rocha dos Santos Vasconcelos? Talvez não, mas eles já “controlam” boa parte da informação e do entretenimento que circulam no planeta e, muito provavelmente, chegam diariamente até você, leitor(a).

Enquanto na América Latina, inclusive no Brasil, a grande mídia continua a “fazer de conta” que as ameaças à liberdade de expressão partem exclusivamente do Estado, em nível global, confirma-se a tendência de concentração da propriedade e controle da mídia por uns poucos mega empresários.

Na verdade, uma das conseqüências da crise internacional que atinge, sobretudo, a mídia impressa, tem sido a compra de títulos tradicionais por investidores – russos, árabes, australianos, latino-americanos, portugueses – cujo compromisso maior é exclusivamente o sucesso de seus negócios. Aparentemente, não há espaço para o interesse público.

Na Europa e nos Estados Unidos
Já aconteceu com os britânicos The Independent e The Evening Standard e com o France-Soir na França. Na Itália, rola uma briga de gigantes no mercado de televisão envolvendo o primeiro ministro e proprietário de mídia Silvio Berlusconi (Mediaset) e o australiano naturalizado americano Ropert Murdoch (Sky Itália). O mesmo acontece no leste europeu. Na Polônia, tanto o Fakt (o diário de maior tiragem), quanto o Polska (300 mil exemplares/dia) são controlados por grupos alemães.

Nos Estados Unidos, a News Corporation de Murdoch avança a passos largos: depois do New York Post, o principal tablóide do país, veio a Fox News, canal de notícias 24h na TV a cabo; o tradicionalíssimo The Wall Street Journal; o estúdio Fox Films e a editora Harper Collins. E o mexicano Carlos Slim é um dos novos acionistas do The New York Times.”
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02 Maio, 2010

Reflexões & outras heresias

Márcia Denser, Congresso em Foco

“Para ler e pensar no Dia do Trabalhador

Às vésperas deste 1º de maio – que mui filhadaputamente este ano cai num sábado – para atender nosso bicho preguiça que bem se amolda a esta cultura de mosaico, eis algumas reflexões político-culturais, minhas e dos outros, entretecidas ao longo de muitas colunas:

"Considerado pela Time (além de El País, Espanha, e Le Monde Diplomatic, França, e não vou nem considerar a News Week, The Economist, The New York, onde o Brasil decolava, de dar crise de urticária na "oposição" para o resto da vida) como o político mais influente do mundo e precisamente por seus programas sociais (contra a fome, educação), presidente Lula se confirma como autor da nova narrativa a que me referi coluna passada e deu tanto pano para mangas. Para quem duvidava, o castigo veio a jato. Lula realmente botou o Brasil no mapa. Quem é artista, escritor, etc. no Brasil - padecendo eternamente de baixa auto-estima -, é minimamente inteligente e enxerga um palmo diante do nariz, tem que estar adorando. Porque o Brasil, suas artes, sua cultura, sua gente, começará a ser visto de outra forma pelo olhar estrangeiro. Imaginem, minha agente literária - que eu não via há meses - acaba de ligar de Frankfurt!" (by myself)

Se o voto mudasse as coisas, ele seria ilegal. (de um filme esquecido)

Os Estados Unidos vivem uma ditadura dirigida por um idiota total que só se ocupa em arranjar dinheiro para sua patota. O demente de Washington lembra Calígula, com a diferença que o imperador romano era mais civilizado. (Gore Vidal about Bush)

A bolsa de valores intelectuais é emotiva e calculista como todas as bolsas. Hoje temos talento, amanhã não. Éramos bons poetas na circunstância tal, mas já agora estamos com o papo cheio de vento; somos demasiado herméticos, demasiado vulgares, nosso individualismo nos perde; ou nosso socialismo; chegamos a dois passos da Igreja, o que nos falta é o sentimento de Deus; nossa prosa é lírica, nossos versos são prosaicos (Carlos Drummond de Andrade, CDA, poeta e terrorista, precursor de todos os outros vindouros e passadouros, uma vez que, desde Elegia 1938, já propunha detonar a ilha de Manhattan)

Um escritor desprovido duma interpretação pessoal e original do Brasil nunca chegou (nunca chegará) a produzir uma grande obra literária. (Silviano Santiago não-sei-onde)”
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Grito da terra, clamor dos povos

Frei Betto, Adital

“Os gregos antigos já haviam percebido: Gaia, a Terra, é um organismo vivo. E dela somos frutos, gerados em 13,7 bilhões de anos de evolução. Porém, nos últimos 200 anos, não soubemos cuidar dela e a transformamos em mercadoria, da qual se procura obter o máximo de lucro.

Hoje, a Terra perdeu 30% de sua capacidade de autorregeneração. Somente através de intervenção humana ela poderá ser recuperada. Nada indica, contudo, que os governantes das nações mais ricas estejam conscientes disso. Tanto que sabotaram a Conferência Ecológica de Copenhague, em dezembro de 2009.

A Terra, que deve possuir alguma forma de inteligência, decidiu expressar seu grito de dor através do vulcão da Islândia, exalando a fumaça tóxica que impediu o tráfego aéreo na Europa Ocidental, causando prejuízo de US$ 1,7 bilhão.

Em reação ao fracasso de Copenhague, Evo Morales, presidente da Bolívia, convocou, para os dias 19 a 23 de abril, a Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Esperavam-se duas mil pessoas. Chegaram 30 mil, provenientes de 129 países! O sistema hoteleiro da cidade entrou em colapso, muitos tiveram de se abrigar em quartéis.

A Bolívia é um caso singular no cenário mundial. Com 9 milhões de habitantes, é o único país plurinacional, pluricultural e pluriespiritual governado por indígenas. Aymaras e quéchuas têm com a natureza uma relação de alteridade e complementaridade. Olham-na como Pachamama, a Mãe Terra, e o Pai Cosmo.”
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