30 Setembro, 2010

Para depois de 3 de outubro

Urariano Motta, Direto da Redação

“Por enquanto, Dilma reina soberana. Nada lhe escapa. Por enquanto, mal conseguimos escrever algumas linhas, sem que nas linhas, pelas linhas, sobre as linhas, nas próprias linhas ela não esteja. Mal nos pomos diante da tela em branco, nos assaltam torturantes e cruciais dúvidas: O que dirá a próxima pesquisa? Onde foi que o Datafolha forçou e manipulou? Qual a jogada do Ibope? Que calúnia de prata virá? Que notícias/armações jogam até sexta-feira? No último debate, que pegadinhas, Serra e sua aliada Marina vão fazer? O que indivíduos serenos, sensatos (como se nesta altura houvesse algum), o que pessoas mais distantes, equidistantes (como se nestes dias houvesse este ponto), o que analistas frios (excluídos, é claro, os analistas muito frios, porque mortos), o que os sensitivos, aqueles videntes infalíveis, que possuem nas mãos o nosso destino, vaticinam sobre o domingo que vem?

Por enquanto, somente podemos adiar as atividades pessoais mais graves, como se o destino de um povo já não fosse uma atividade gravíssima. Por enquanto, fazemos de conta que estamos de férias, em férias, leves, ledos e livres, despreocupados como gringos de camisas floridas no sol dos trópicos. A esperança de vencer nos sorri. Por enquanto a vida se transforma em dois tempos: no primeiro, assistimos à luta eleitoral e política. No segundo, no segundo, bom, a vida que nos assista. Mas isso apenas no segundo tempo. Ainda estamos no primeiro. Pois não é mesmo bom viver a vida em dois tempos, quando todos julgávamos que só possuíamos um, e estávamos na altura do 45º. minuto final? Pois ganhamos mais que uma prorrogação – temos dois tempos. (O que lembra aquelas casinhas pequenas, que o engenho humano separa por cortinas em dois ambientes.)”
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Direita x esquerda: assunto encerrado?

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

"No clima das eleições, escolho como assunto do nosso encontro aqui no DR um tema que acredito venha bem a propósito. Estará realmente extinta, como instrumento de orientação na política, a clássica divisão entre esquerda e direita?

As palavras “direita” e “esquerda” , sabemos, surgiram na ambiência da Revolução Francesa e continuam a fazer parte das crônicas políticas nos dias de hoje, mas há severos críticos que lhes negam validade, argumentando que a complexidade que as sociedades atuais revelam não permite mais essa redução , tida como maniqueísta e, hoje, sem razão de ser. Direita e esquerda não mais existiriam como tais porque estariam superadas as diferenças que justificariam os termos, tendo como marco simbólico dessa superação, entre outros, a queda do Muro de Berlin.

Não sou um especialista em política. Minhas opiniões aqui são a de um ser político, não de um especialista. Vivencio a política como um cidadão atento e é nessa condição que, sem excessivas preocupações teóricas e usando o senso comum e, por que não dizer, o sentimento, coloco-me ao lado dos que não acham que essa distinção esteja sepultada, porque ela talvez seja da própria essência da política, transcendendo o ocasional e tendo a ver com algo que persegue o homem desde os seus inícios.

Creio que a caracterização da “esquerda” e da “direita” reflete a oposição, tão velha quanto o mundo, entre os que se empenham primordialmente pela igualdade entre os homens – porque acreditam que ela tem a ver com um problema social – e os que consideram a desigualdade uma coisa natural, intrínseca à essência da comunidade humana e, portanto, algo pelo qual não adianta lutar.”
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29 Setembro, 2010

Advertência: liberdade de imprensa é enfiar o dedo na cara do Presidente

Marco Antonio Araujo, R7/ Blog: O Provocador

“Esta semana entrou para a história do jornalismo botocudo. No domingo, 26, os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, cada qual no seu quadrado, caíram do muro e tascaram porrada no Lula. Assim que é bom.

Cara a cara. Na bucha. Sem rodeios. Não gostam dele e pronto. O Estadão foi mais atrevido e manifestou apoio ao Serra. Não que não soubéssemos. Mas é melhor quando o óbvio fica evidente.

Pena que o editorial de declaração de voto do Estadão seja tão mal redigido. A ocasião merecia mais solenidade. Não deviam deixar o dono escrever nessas horas. Pagam redator pra quê?
O editorial da Folha, na primeira página, todo pimpão, é mais limpinho, mas nem por isso deixa de ser meio doidão, esquizofrênico. Fica enrolando meia hora naquela conversinha de ser apartidário, independente e ruralista. Algo assim.

Só diz a que veio no último parágrafo. A chefia mandou pegar pesado. Sem nenhum constrangimento, dão um pito no atual presidente. E na futura. Ato falho: acreditam que tudo se resolve no primeiro turno.

Com um tom bem mal-educado, descascam essa: "Fiquem ambos advertidos, porém, de que tais bravatas somente redobram a confiança na utilidade pública do jornalismo livre".

Depois, dão chilique de novo: "Fiquem advertidos de que tentativas de controle da imprensa serão repudiadas". Ui.

Se falam com o dirigente máximo da nação assim, imaginem como tratam os funcionários. E ainda vêm com esse papinho de bravatas. Olha quem diz. Fanfarrões.

Teve gente que ouviu na sala mais imponente da Folha que o jornal dará a manchete que seria o tiro de misericórdia na campanha da Dilma. A bala de prata. Seria bem divertido ver isso.

Nada como a liberdade de imprensa. Só em um país democrático, no pleno estado de direito, jornais podem enfiar o dedo na cara do presidente da República. "Numa nice", como diria o Serra. Como tem que ser.

Declarar voto a favor e voto contra é positivo e transparente. Agora só faltam O Globo, a Globo e a Veja. Cada qual no seu quadrado, bem apertadinho.

Fiquem os leitores advertidos: imprensa livre é bom e eu gosto! Pena que estejam todos de um lado só. Para que ser livre, então?”

28 Setembro, 2010

Matéria não existe, tudo é energia

Leonado Boff / Envolverde

“O título deste artigo diz uma obviedade para quem entendeu minimamente a teoria da relatividade de Einstein pela qual se afirma ser matéria e energia equivalentes. Matéria é energia altamente condensada que pode ser liberada como o mostrou, lamentavelmente, a bomba atômica. O caminho da ciência percorreu, mais ou menos, o seguinte percurso: da matéria chegou ao átomo, do átomo, às partículas subatômicas, das partículas subatômicas, aos “pacotes de onda” energética, dos pacotes de onda, às supercordas vibratórias, em 11 dimensões ou mais, representadas como música e cor. Assim um elétron vibra mais ou menos quinhentos trilhões de vezes por segundo. Vibração produz som e cor. O universo seria, pois, uma sinfonia de sons e cores. Das supercordas chegou-se, por fim, à energia de fundo, ao vácuo quântico.

Neste contexto, sempre lembro de uma frase dita por W.Heisenberg, um dos pais da mecânica quântica, num semestre que deu na Universidade de Munique em 1968, que me foi dado seguir e que ainda me soa aos ouvidos : “O universo não é feito por coisas mas por redes de energia vibracional, emergindo de algo ainda mais profundo e sutil”. Portanto, a matéria perdeu seu foco central em favor da energia que se organiza em campos e redes.

Que é esse”algo mais profundo e sutil” de onde tudo emerge? Os físicos quânticos e astrofísicos chamaram de “energia de fundo” ou “vácuo quântico”, expressão inadequada porque diz o contrário do que a palavra “vazio” significa. O vácuo representa a plenitude de todas as possíveis energias e suas eventuais densificações nos seres. Dai se preferir hoje a expressão pregnant void “o vácuo prenhe” ou a“fonte originária de todo o ser” Não é algo que possa ser representado nas categorias convencionais de espaço-tempo, pois é algo anterior a tudo o que existe, anterior ao espaço-tempo e às quatro energias fundamentais, a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear fraca e forte.”
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27 Setembro, 2010

Vende-se um escândalo

Ayrton Centeno, Brasília Confidencial

“É a pechincha do ano. Está à venda um excelente escândalo. Em ótimo estado de conservação, quase sem uso. Ótima procedência, garantia de fábrica com reconhecida reputação na produção de escândalos de diversas modalidades, com direito a holofotes e alarme, porque escândalo sem visibilidade e alvoroço não tem graça. Acompanha um reboque porque quem compra o escândalo leva mais dois, três ou quantos quiser. Desempenho assegurado em qualquer plataforma: rádio, jornal, TV. Penalizado com a mídia, que anda matando cachorro a grito, pegando qualquer coisa para mimetizar em escândalo, proponho esta oportunidade imperdível.

O escândalo fica um pouco fora de mão, no Rio Grande do Sul, mas vale a viagem. E o Brasil inteiro vai ficar de boca aberta para exclamar:

“Isto sim é que escândalo!”

Quem garante sua autenticidade é o Ministério Público Estadual. Não cavalga, portanto, palavra de ex-presidiário, estelionatário e receptador, um tipo de escândalo que anda por aí, convenhamos, de muito pouca classe. Já o escândalo gaúcho dispensa talento de ficcionista para ficar colando declarações aqui com fragmentos dali para tentar oferecer intelegibilidade às conspirações do aquário.

Além do mais, é um escândalo flex. Opera por todos os lados: Executivo, Legislativo, Judiciário. Acha pouco? Então adicione a Polícia, o Ministério Público e a Imprensa. E até a Aeronáutica! Escândalo multiuso, com tração 4×4, trafega em qualquer terreno.

Transita tanto pelas bordas do submundo do achaque e da proteção à contravenção quanto pelos salões palacianos onde o objetivo é violar sigilo e xeretar adversários políticos para garimpar, quem sabe, informações de alta octanagem eleitoral.

Neste escândalo, turbinado tanto pela propina quanto pela arapongagem, o Executivo desempenha o papel de algoz e todos os demais são, quase sempre, as vítimas. O vilão pode estar na periferia de Porto Alegre extorquindo donos de bingo ou no centro do poder estadual espionando as vidas de políticos, procuradores federais, promotores de justiça, delegados de polícia, militares, jornalistas, advogados e empresários.”
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26 Setembro, 2010

Reflexões de um eleitor indignado

Frei Betto, Adital

"Miro a propaganda eleitoral na TV, ouço-a no rádio. E me pergunto: em que galáxia habito? Fico a me perguntar se o desfile mórbido de candidatos difere muito da apresentação dos gladiadores prestes a disputar o direito à vida no Coliseu de Roma.

São tantas besteiras, tantas promessas inconsistentes, tantas ofensas à língua pátria, que chego a preferir um passeio pelo zoológico, onde se pode apreciar, de jaula em jaula, a variedade do animais, sem o incômodo de escutar tanta bobagem.

Claro que incontáveis aparelhos de TV e rádio desligados no horário eleitoral significam um recado óbvio: reforma política já! Como não virá imediatamente, tudo indica que, de novo, a partir de 2011 veremos a nossa representação política - nas Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado - integrada por figuras respeitáveis, competentes, éticas, ombro a ombro com o besteirol: políticos eleitos, não pelo que representam como promotores do bem comum, e sim pela fama na mídia, no esporte, na esbórnia, na exuberância das nádegas e no escracho geral.

Pobre Brasil! A culpa é de quem? Do eleitor? Discordo. A culpa é dos partidos que aceitam filiações irresponsáveis, funcionam como legenda de aluguel, abrem as portas aos arrecadadores de votos, meros candidatos-iscas para robustecer a bancada partidária no Poder Legislativo. Não importa se o eleito não fala lé com cré. Importa é ter amealhado votos em quantidade.

Isso revela algo muito grave: os partidos cada vez menos representam uma parte ou segmento da sociedade. Representam a si mesmos. Viraram clubes políticos destinados a beneficiar seus sócios. Vivem descolados da base social, gabam-se de não ter ideologia, apenas interesses e, em tudo que fazem, buscam, em primeiro lugar, reforçar o próprio poder. E funcionam na base da ação entre amigos, pois quem se elege trata de nomear quem não se elegeu para um cargo público bem remunerado.”
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25 Setembro, 2010

A hora e a vez do Nosso Lar


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Quando leio sobre o sucesso de bilheteria do filme “Nosso Lar” , onde um médico, André Luís, conta toda a sua trajetória depois da morte, não me surpreendo. Nosso Lar, livro psicografado por Chico Xavier, é considerado um clássico da doutrina espírita, exatamente porque relata a experiência pós-mortem de alguém, num plano que racionalmente não existe, mas que aos poucos vem deixando os mais incrédulos intrigados.

Espiritualidade sempre foi um tema polêmico, porque ele não está ligado apenas à crença de uma vida depois da morte ou a reencarnação como forma de evolução espiritual. O tema envolve religiões diversas porque, na verdade, sem querer chover no molhado, espiritualidade é um estado de espírito, ou seja, é como nós todos, seres humanos deveríamos nos sentir, antenados, ligados com a nossa essência de vida e que pode explicar pela lei do livre arbítrio todas essas discrepâncias da nossa sobrevivência. Afinal, nascemos tão nus e inocentes, iguais uns aos outros. Então, porque tantas diferenças? Como pensar que um bebezinho com olhinhos apertados e “carinha de joelho” pode se transformar, um dia, num assassino cruel, num monstro impiedoso, num fanático religioso ou num criminoso sexual? O que o faz enveredar por esses caminhos?

Para nós, seres ditos normais, com virtudes e pecados, isso ultrapassa qualquer entendimento humano e não há lugar para desculpas e perdão a esses seres tão desprezíveis. Como imaginar que mães possam abandonar seus filhos recém nascidos no meio da rua ou até mesmo em depósitos de lixo? Isso não é humano, é mostruoso e revoltante. Inacreditável! Como imaginar pais matando filhos e vice-versa; pensar nos malucos que matam inocentes sem nenhuma explicação, atirando em bares, shoppings, escolas, restaurantes?”
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24 Setembro, 2010

A vida escandalosa da primeira-dama e cantora Carla Bruni


Euler de França Belém, Revista Bula

“A biografia “Carla — Uma Vida Secreta” (Editora Flammarion), da jornalista Besma Lahouri, será publicada em outubro, mas já está provocando polêmica. Os advogados do presidente francês Nicolas Sarkozy estão examinando o texto. Entre seus aliados há quem queira pedir à Justiça que impeça a circulação do livro, que contém informações bombásticas sobre a cantora Carla Bruni, mulher do líder francês.
Lahouri fala dos muitos namorados e amantes de Carla Bruni, de seus vários escândalos, das fotografias nada discretas, das drogas. Entre suas conquistass estão Eric Clapton e Mick Jagger.

A biógrafa diz não temer a pressão presidencial e, numa entrevista, atacou: “Carla é uma mulher que sempre viveu em bairros de ricos, em grandes mansões familiares, rodeada de criados. Não tem o mínimo contato com a realidade e vive em uma redoma dourada. Está muito mal informada sobre a vida do francês médio. Só lhe interessa sua imagem, que tenta controlar por todos os meios. Se diz mulher de ‘esquerda’, mas não fala nada da atualidade. Está convertendo-se em um problema político para seu marido”. A imagem comportada de Carla Bruni é, segundo Lahouri, uma construção dos marqueteiros de Sarkozy. A cantora e agora primeira-dama francesa é, segundo a jornalista, “uma devoradora de homens”. O livro, segundo o diário francês “Le Parisien”, afirma que Carla Bruni é quem seduz os homens, pois gosta de tomar a iniciativa. Apaixona-se e desapaixona-se facilmente.

Carla Bruni diz que não leu o livro e que não quer lê-lo. Mas disse ao “Le Parisien” que está “cheio de erros”. A cantora e primeira-dama concedeu longas entrevistas aos jornalistas franceses Michäel Darmon e Yves Derai, autores do livro “Carla e os Ambiciosos”, sobre sua vida com o presidente.

A primeira edição do livro sai com 25 mil exemplares e é considerada pequena pelas livrarias, que já estão recebendo centenas de encomendas.”

23 Setembro, 2010

Não vi e não gostei

Rafael Casé, Observatório da Imprensa / Envolverde

“Diz o bom senso que para se criticar um programa de TV é preciso assisti-lo. Mas, quando se trata de um programa como o Hipertensão, da Rede Globo, mando o bom senso às favas e me recuso a ver.

O que assisto nas chamadas, durante a programação, já me basta.

Fazer uma pessoa quase se afogar em um cubo de acrílico cheio de leite, fazer com que seres humanos comam uma pizza que, entre outros ingredientes desagradáveis, é recheada com vermes, baratas, minhocas e olho de peixe é algo inacreditável.

Será que é só o prêmio (R$ 500 mil) que faz com que essas 16 pessoas se submetam a este "circo dos horrores" em rede nacional? Ou a promessa dos tais 15 minutos de fama fala mais alto?

Segundo os sites que acompanham a programação da TV, o primeiro episódio, comandado pela apresentadora Glenda Kozlowski, alcançou 15 pontos de audiência, ou seja, cerca de 30% dos aparelhos ligados no horário. Não há, no entanto, um consenso entre esses próprios sites se esta audiência pode ser considerada boa ou não. Mas o certo é que existe uma fatia do público que acha interessante ver pessoas tentando, por exemplo, beber um tipo de vitamina que mistura banha e sangue.

Acho incrível o fato de uma pessoa se sentar numa poltrona, em frente a um aparelho de TV para ver outra sofrer. Trata-se de um coeficiente de sadismo que vai além da minha compreensão. Deve ser aquele mesmo motivo que leva motoristas a passarem devagarzinho no local de um acidente para ver os detalhes da tragédia. Ou aquele impulso de levantar o plástico preto para ver um defunto no meio da rua.

Pra que serve controle remoto?

Esta não é a primeira edição do programa e também este artigo não é a primeira crítica a ele. Em 2002, o jornal O Estado de S. Paulo questionou a validade de uma atração como esta e noticiou a iniciativa de um advogado e professor universitário paulista de entrar com um recurso no Ministério Público pedindo que fosse impedida a exibição de provas que atentassem contra a dignidade das pessoas. Na época, a TV Globo emitiu a seguinte nota, reproduzida pelo jornal: "O programa coloca os interessados em disputar suas provas frente a frente com seus medos e os desafia a superá-los, física e psicologicamente. A cada um deles é dada a possibilidade de desistir da realização das provas durante a gravação do programa."
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22 Setembro, 2010

O que faltou nos debates políticos

Leonardo Boff, Adital

“Nos debates políticos da campanha presidencial, temas fundamentais sequer foram tocados: que papel o Brasil vai desempenhar diante do horizonte sombrio que se está armando, para os próximos anos, sobre o planeta Terra com a acelerada exaustão de bens e serviços naturais e a gravidade dos eventos extremos de secas, enchentes e desertificação crescente, sem falar dos milhões de refugiados climáticos que não param de crescer?

Somos um país com vantagens comparativas inigualáveis em termos de água, de florestas úmidas, de biodiversidade e de fontes de energia alternativa e limpa, entre outras. Tais vantagens implicam uma responsabilidade irrenunciável de nossa parte, no sentido de ajudar nações em crise e na busca do equilíbrio perdido do sistema-Terra. Sobre tais questões quase nada se falou, à exceção de Marina Silva. Não queremos que se torne verdade o que advertiu recentemente o físico Stephen Hawking: "O ser humano precisa abandonar a Terra nos próximos 100 anos ou tornar-se uma espécie extinta".

O Brasil está repleto de contradições. Por um lado, participa da tragédia global da humanidade pelas injustiças sociais que carrega e, por outro, possui todos os ingredientes para uma alternativa civilizatória de significado universal, como já o apontava, há tempos, o senador Cristovam Buarque.

Além da significativa contribuição ecológica que pode oferecer, vejo, entre tantos valores relevantes de nossa experiência como povo, dois que podem configurar positivamente a fase planetária da humanidade: nossa criatividade o nosso capital de esperança.

A criatividade pertence à essência do ser humano, pois ele não é um ser pronto, mas está sempre por fazer. Criatividade supõe capacidade de improvisação, descoberta de saídas surpreendentes e espontaneidade na ruptura de tabus ligados a traços culturais. Penando sob a colonização e a escravidão, o povo inventou mil formas de dar um jeito na vida, de resistir, de negociar, de protelar e de sobreviver, nunca perdendo o sentido de humor, de festa o encantamento pela vida.”
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21 Setembro, 2010

Prefácios

Frei Betto, Adital

“Não faço prefácios de livros. Nem apresentações. Decisão tomada há cinco anos ao não suportar pressões de neoescritores para que eu escrevesse o quanto antes. Deixar de lado meu trabalho literário para ler obra alheia, fora do meu campo de interesse naquele momento, fazia-me perder o fio da meada. Pior quando eu não gostava do texto e, ao apontar falhas ou imaturidade na escrita, e recusar o prefácio, criava uma saia justa e, em alguns casos, perdia uma amizade.

Escritores têm muitas virtudes, como a persistência de tecer (daí texto) letrinha por letrinha e de conter a ansiedade até sentir que deu o melhor de si. Porém, somos um balaio de defeitos. O mais notório é a vaidade literária. Você ousa dizer à mãe que o filho dela é horroroso? Do mesmo modo, escritores acreditam que suas obras são o máximo! Se alguém fala mal do livro, não é o livro que não presta, é o detrator que é burro, ignorante, carece de cultura para apreender o valor da obra...

Você conhece algum clássico da literatura de ficção precedido de prefácio? Prefácio é para obras antigas que requerem contextualizar o leitor hodierno. Fora disso, funciona como cartão de apresentação. Ora, se alguém vem a você apresentado por seu melhor amigo, nem por isso significa que seja simpático e confiável como seu amigo. Do mesmo modo, não há prefácio que salve a má qualidade de uma obra de ficção. Pode ser assinado por James Joyce ou Gabriel Garcia Márquez. É o livro em si que cativa ou não o leitor. Aliás, tentei três vezes ler e apreciar Ulisses do Joyce, atraído pelo prefácio de Antônio Houaiss. Devido à minha obtusidade, fracassei.

Entendo que um escritor iniciante queira ver a sua obra recomendada por autor consagrado. Também não escapei da tentação de pedir a Tristão de Athayde e Dom Paulo Evaristo Arns para prefaciarem meus dois primeiros livros: Cartas da Prisão (Agir) e Das Catacumbas (hoje incluído no volume da Agir).”
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20 Setembro, 2010

Parece que foi ontem


Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Os leitores mais velhos e os estudiosos da história brasileira vão se lembrar deste trecho de um documento histórico de 56 anos atrás, ainda muito atual:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim! Não me acusam, me insultam; não me combatem, me caluniam. E não me dão o direito de defesa” .

Trata-se do trecho inicial (acima) da Carta Testamento de Getúlio Vargas, tornada pública a 24 de agosto de 1954, quando ocorreu o desfecho de uma crise fabricada pela direita. Como agora, a direita se valia dos grandes proprietários dos veículos de comunicação para fabricar crises. Um deles, o histórico Roberto Marinho, com O Globo, que tem a UDN em seu DNA. O jornal da família Marinho transformou-se nesta véspera de eleição de agora em um partido político de direita, da mesma forma que a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Veja nem se fala. Perderam a compostura.

Como se tudo isso não bastasse, o Clube Militar, que reúne a maior quantidade de golpistas de 64 por quilometro quadrado no Brasil, decidiu promover um seminário com o título “A democracia ameaçada: restrições à liberdade de imprensa”. E sabem quem serão os palestrantes? Merval Pereira, de O Globo, Antonio Carlos Pereira, mais conhecido como Tonico Pereira (TV Globo), Reinaldo Azevedo (Veja), Ives Gandra Martins (Opus Dei) e Valdemar Zweiter, integrante de uma família que sempre teve vínculos profundos com a clã dos Marinhos.

O Clube Militar em vários momentos históricos esteve dividido. Em 1954, uma parte estava de mãos dadas com o conspirador mor Carlos Lacerda, Na época da criação da Petrobras, parte dos associados apoiou a campanha do Petróleo é Nosso. Em 1964 reuniu os golpistas que levaram o país para uma longa noite escura.

Na sede do Clube há placas alusivas ao fato.

E, vejam bem, apoiaram todos os tipos de restrições à liberdade de imprensa. Muitos dos associados tiveram participação ativa nos anos de terror que se seguiram a derrubada do Presidente constitucional João Goulart. E agora, a diretoria, integrada por golpistas históricos, promove o tal seminário que conta com o apoio do Instituto Millenium, uma entidade semelhante a outras do gênero que foram criadas para dar respaldo aos golpistas de 64.”
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19 Setembro, 2010

De volta ao passado


Rui Martins, Direto da Redação

“Na rua, alguns carros levantavam uma poeira avermelhada, criada pela estiagem de três meses, e o sol forçava os passantes a escolher o lado da sombra ou a colocar um chapéu de boiadeiro.

Meu relógio marcava pouco mais de meio-dia e, de pé, aguardava o atendimento, na fila de um banco, na cidade vizinha ao meu vilarejo natal. O espaço era diminuto, mas situado no primeiro andar, nos protegia dos escaldantes raios solares. Será o calor que nos faz falar e trocar idéias com desconhecidos ? Por que as populações meridionais parecem mais falantes e mais extrovertidas ? Quantas situações similares já vivi em Paris ou Genebra, mas num tedioso silêncio, enquanto aguardava chegar minha vez.

Conversávamos. Para mim, recém-chegado, reouvir pessoas falando na minha língua é sempre um agradável reencontro que agora, renovo anualmente. A questão passou a ser documentos e a maneira mais rápida de se obter sua carteira de identidade, possibilidade criada pelo Poupa Tempo. Já havia ouvido falar e o tema me interessava porque preciso orientar minhas filhas sobre como tirarem a carteira de identidade. Um senhor, pouco distante na fila, contava com alguém de sua família renovou sua identidade em tempo recorde, nesse serviço na Praça da Sé, centro de São Paulo.

Agradeci a informação e como tenho a tendência de falar demais, contei que, por viver no Exterior, tenho de me reatualizar periodicamente sobre as novidades brasileiras. Uma coisa puxa outra e, logo me perguntaram desde quando vivo no Exterior, dei uma resposta precisa e já repetida tantas vezes – desde 1969, exílio durante a ditadura militar.

Longe estava de imaginar que essas palavras provocassem, lá dentro, o levantar de uma poeira, negra e irrespirável, no corredor apertado, onde esperávamos nossa vez.

« A época militar foi a mais próspera deste País », vaticinou um senhor, que se identificou como ex-militar, agora aposentado. E, de repente, ali na minha frente sorvido por uma espécie de buraco negro, tive a impressão de ter retornado àquela época conturbada da ditadura, do receio de ser preso, das arbitrariedades policiais, das torturas, do silêncio forçado.”
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18 Setembro, 2010

Filme brasileiro que vai disputar o Oscar sai no dia 23

adNEWS

“O Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, vai anunciar na próxima quinta-feira (23), a partir das 12h, o nome do filme escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira na 83ª Premiação Anual promovida pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences - Oscar 2011.

O anúncio será feito pelo secretário do Audiovisual, Newton Cannito, durante entrevista coletiva à imprensa, logo após a decisão da Comissão Especial de Seleção, que estará reunida desde às 10h, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

Em uma iniciativa inédita, o Ministério da Cultura abriu enquete em seu site oficial, onde os internautas podem votar em um dos 23 filmes que se inscreveram para participar da seleção. O objetivo é estimular o público a assistir a produção nacional de cinema e apontar seu filme favorito. Também faz parte da estratégia de democratização da escolha do filme, a inclusão de representantes da sociedade civil organizada, por meio da Academia Brasileira de Cinema, na Comissão de Seleção.”
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17 Setembro, 2010

Getúlio, o Dasp e a corrupção do poder

Mauro Santayana, JB

“Quando o presidente Getulio Vargas criou, em julho de 1938, o Dasp, e instituiu o concurso público de admissão aos quadros da burocracia federal, buscou moralizar o sistema, até então submetido exclusivamente às indicações políticas. É certo que foram criados os chamados “cargos isolados de provimento efetivo”, sempre os mais bem remunerados, como os de fiscais tributários e de tesoureiros. Mas, para os demais lugares, instituiu-se o sistema de mérito. Estabeleceram-se planos de ascensão nas carreiras, e os servidores foram recrutados em seleção democrática e justa.

Servir ao Estado é uma honra, e muitos governos dispõem de burocracia estável, que se altera muito pouco, quando se mudam os governantes. Em quase todos os sistemas republicanos os servidores dos mais altos gabinetes do poder são selecionados entre os melhores quadros de toda a administração. Os cargos de confiança estrita dos mandatários são reduzidos à sua secretaria pessoal. Não tem sido esse o nosso critério. Os políticos encontraram o meio de fugir à meritocracia, mediante os cargos em comissão. No caso da administração federal, o problema se agravou com a mudança da capital para Brasília. Não podendo impor compulsoriamente a mudança dos servidores federais para o Planalto, o governo se viu forçado a estabelecer vantagens excepcionais para os que se dispusessem à transferência, e a nomear interinos, logo efetivados.”
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16 Setembro, 2010

O jornalismo punido

Ayrton Centeno, Brasília Confidencial

“Jornalismo, assim com J maiúsculo, não depende necessariamente do poderio econômico do veículo. Um pequeno e audacioso jornal de Porto Alegre possui um troféu que nenhum diário dos grandes conglomerados da mídia do Rio Grande do Sul pode ostentar: é dono, na categoria nacional, de um Prêmio Esso de Jornalismo, o mais disputado da imprensa brasileira. Sua trajetória soma muitas outras premiações, prova da excelência do seu trabalho, malgrado seus parcos recursos. Entre suas vitórias figuram, por exemplo, o prêmio da Associação Riograndense de Jornalismo (ARI) e outro Esso, este regional, ambos em 2001. Naquele ano foi premiado por narrar, com começo, meio e fim, a mais alentada falcatrua da história do Rio Grande do Sul e uma das maiores do Brasil. Porém, se de um lado foi premiado, de outro foi condenado. Acabou punido pela prática de jornalismo, aparentemente um crime hediondo naquele estado outrora “o mais politizado do Brasil”, hoje carcomido pela autocomplacência.

O pecado do jornal Já e do seu editor, Elmar Bones da Costa – piloto do lendário Coojornal, alternativo que se tornou referência jornalística nos anos de chumbo ao lado de O Pasquim, Opinião, Movimento, Ex e Versus – foi fazer aquilo que os flácidos jornalões não fizeram. Cedendo à tentação de uma pauta arrebatadora com fôlego de romance policial, desbravou uma monumental papelada, checou versões e realizou entrevistas para contar uma fraude ocorrida no fim dos anos 1980 que surrupiou R$ 800 milhões – em valores atualizados – dos cofres de um Estado empobrecido.

Como condimento da trama, duas mortes brutais: uma garota de programa jogada nua do 14º andar de um edifício, no centro da capital gaúcha, e o assassinato, com um balaço no olho direito, daquele que é apontado como o arquiteto da falcatrua. Mais um assalto à mão armada, uso de drogas, uma CPI e a letargia do Judiciário que há uma década e meia ainda não responsabilizou ninguém pela pilhagem. E, como se fosse necessário mais um tempero, a vítima fatal e artífice do rombo era diretor da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), nomeado por exigência de seu irmão, o então deputado estadual Germano Rigotto (PMDB). Deputado federal por três legislaturas, Rigotto seria, mais tarde, líder do Governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara Federal e governador do Estado. Em 2010, é o candidato de seu partido ao Senado.”
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15 Setembro, 2010

Sinais dos Tempos

Frei Betto, Adital

“O mercado é o novo fetiche religioso da sociedade em que vivemos. Antigamente, nossos avós consultavam a Bíblia, a palavra de Deus, diante dos fatos da vida. Nossos pais, o serviço de meteorologia: "Será que vai chover?". Hoje, consulta-se o mercado: "O dólar desvalorizou? Subiu a Bolsa? Como oscilou o mercado de capitais?".

Diante de uma catástrofe, de um acontecimento inesperado, dizem os comentaristas econômicos: "Vamos ver como o mercado re¬age". Fico imaginando um senhor, Mr. Mercado, tran¬cado em seu castelo e gritando pelo celular: "Não gostei da fala do ministro, estou irado." Na mesma hora os telejornais destacam: "O mercado não reagiu bem frente ao discurso ministerial".

Para as agências de publicidade, o mercado no Brasil compreende cerca de 40 milhões de consumidores. Neste país de 190 milhões de habitantes, uma minoria tem acesso aos bens supérfluos. Os demais, só aos de necessidade indispensável.

O grande desafio das pessoas em idade produtiva, hoje, é como se inserir no mercado. Devem ser competitivas, ter qualificação, disputar espaços. Sabem que o sistema recomenda não levarem a sério conotações éticas e encarar como quimérico um planejamento de inclusão das maiorias. O mercado é, agora, internacional, globalizado; move-se segundo suas próprias regras, e não de acordo com as necessidades humanas.

A crise da modernidade é, portanto, também a do racionalismo. No início da modernidade, principalmente na época dos iluministas, a religião era considerada superstição. Camponeses da Idade Média regavam seus campos com água benta, agradeciam aos padres (que, diga-se de passagem, cobravam pela água benta) e depois louvavam a Deus pela boa colheita. Até o dia em que apareceu um senhor oferecendo a eles um pozinho preto, o adubo, que também custava dinheiro, mas não dependia da ira ou do agrado divino - bastava aplicá-lo à terra e aquilo facilitava a colheita.”
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14 Setembro, 2010

Atualizar a pedagogia face ao mundo mudado

Leonardo Boff, Adital

“Séculos de guerras, de confrontos, de lutas entre povos e de conflitos de classe nos estão deixando uma amarga lição. Este método primário e reducionista não nos fez mais humanos, nem nos aproximou mais uns dos outros e muito menos nos trouxe a tão ansiada paz. Vivemos em permanente estado de sítio e cheios de medo. Alcançamos um patamar histórico que, nas palavras da Carta da Terra, "nos conclama a um novo começo". Isto requer uma pedagogia, fundada numa nova consciência e numa visão includente dos problemas econômicos, sociais, culturais e espirituais que nos desafiam.

Esta nova consciência, fruto da mundialização, das ciências da Terra e da vida e também da ecologia nos está mostrando um caminho a seguir: entender que todas as coisas são interdependentes e que mesmo as oposições não estão fora de um Todo dinâmico e aberto. Por isso, não cabe separar mas compor, incluir ao invés de excluir, reconhecer, sim, as diferenças mas também buscar as convergências e no lugar do ganha-perde, buscar o ganha-ganha.

Tal perspectiva holística vem infuenciando os processos educativos. Temos um mestre inolvidável, Paulo Freire, que nos ensinou a dialética da inclusão e a colocar o "e" onde antes púnhamos o "ou". Devemos aprender a dizer "sim" a tudo aquilo que nos faz crescer no pequeno e no grande.”
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13 Setembro, 2010

O pastor incendiário e a mídia

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“O personagem da semana nos EUA, cuja projeção extrapolou as fronteiras do país, foi um ilustre desconhecido pastor de uma igreja no interior da Flórida que não tem mais do que cinquenta ovelhas em seu rebanho. O tal pastor, Terry Jones, esteve a ponto de criar uma guerra religiosa de consequências imprevisíveis se tivesse levado adiante sua idéia maluca de queimar exemplares do Alcorão neste sábado, por ocasião do aniversário de nove anos dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Terry Jones não foi o autor da idéia. Em 2008, na cidade de Topeka, Kansas, um outro pastor tão extremista quanto ele, anunciou que queimaria o Alcorão em praça pública no aniversário de sete anos dos atentados. Esperava que a queima fosse filmada e ganhasse as telas de TV do país e, certamente, do mundo. Quebrou a cara, não lhe deram a mínima bola e seu projeto não foi adiante.

No caso de Terry Jones, ele soube aproveitar a polêmica que tomou corpo nas últimas semanas envolvendo a construção de um centro cultural muçulmano, incuindo uma mesquita, a apenas duas quadras do local onde ficavam as torres gêmeas do World Trade Center, no Ground Zero (marco zero). Desde que anunciou seu plano, em julho, o pastor fundamentalista deu mais de 150 entrevistas. Redes de TV e jornais de todos país e até do exterior enviaram jornalistas para cobrir o que seria uma provocação sem precedentes ao mundo islâmico. Jones conseguiu se colocar no centro dos debates e repentinamente virou o líder da causa anti-Islam, manifestando sua visão extremista sobre a lei da Sharia.

À medida que o sábado se aproximava e aumentava significativamente a cobertura da mídia na cidade de Gainesville, onde está a congregação de Jones, a Casa Branca começou a se preocupar com aquela figura marginal com tão poucos seguidores. Mas como este é um país de fanáticos – quem se lembra de um outro pastor americano com o mesmo sobrenome, Jim Jones, que levou 918 pessoas ao suicídio coletivo na Guiana inglesa em 1978 - Washington tinha toda razão em se preocupar.”
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12 Setembro, 2010

Literatura & realidade histórica

Se a literatura não é auto-ajuda, nem entretenimento nem informação de luxo, ela simplesmente está fora, out, não conta para o mercado e distinto público consumidor”

Márcia Denser, Congresso em Foco

Para muita gente dita pós-moderna, estas três palavras colocadas juntas - literatura, realidade, histórica – não fazem muito sentido no aqui e agora, tão contaminado pelas formas do “politicamente correto” e suas consequências entranhadas de intolerância estúpida e razão (instrumental) louca. Mas para leitores e escritores que ainda não desacreditaram (como eu) da literatura e sua força epistemológica, ou seja, de condutora do saber neste universo extremamente esquizofrênico e fragmentado, esta é a boa nova inscrita no livro "Ficções do Desassossego" (Rio, ContraCapa, 2010) de Lúcia Helena, uma das nossas grandes mestras da crítica literária, cujas contribuições mais recentes são a organização dos volumes "Nação-Invenção: ensaios sobre o nacional em tempos de globalização" (2003), "Literatura e Poder" (2006), "Literatura , intelectuais e a crise da cultura" (2007), atualmente coordenando o grupo de estudos Nação e Narração (CNPQ).

De Lúcia Helena não posso dizer que somos amigas nem velhas conhecidas, pois não a conheço pessoalmente, mas posso afirmar antes que somos “velhas companheiras de viagem” – e lá se vão trinta anos – desde que nos apreciamos mutuamente à distância – ela no Rio e eu em Sampa - no percurso em comum pela paixão literária. Sem contar que o nome desse grupo de estudos, Nação e Narração, me conquistou de fato, eu, que desta coluna solitária, há cinco anos e pico, tento estabelecer todas as conexões possíveis entre política, cultura e literatura brasileiras, tentando recuperar para o leitor (e para mim mesma) a integridade perdida decorrente da fragmentação que nos foi imposta sob o rótulo de “pós-modernidade”.

Ironicamente, escritora que sempre fui considerada entre rebelde e maldita, minhas relações com a academia são e sempre foram as melhores possíveis, até porque rebelde e maldita sim, mas não estúpida a ponto de não considerar os textos acadêmicos como parte essencial – possivelmente o gêmeo sombrio da dupla criador e crítico – do nosso sistema literário – que, segundo Antonio Cândido (e a própria Lúcia Helena a reportá-lo neste livro) “foi a ficção latino-americana do século XIX, em especial a brasileira, que teria produzido, por falta de tradição filosófica e duma sociologia da cultura, reflexão extremamente importante nesse campo. Ao que parece, o raciocínio permanece válido, feliz e infelizmente, pois tanto revela a vitalidade da literatura quanto a permanência do mal-estar de nossas teorias econômicas, sociais e antropológicas.” Não fosse a academia a identificar e reconhecer tal fenômeno – a importância da ficção para conferir a nós, brasileiros, a nossa identidade - este cairia no esquecimento.

Voltando: esta é uma obra composta por treze ensaios que, a partir da análise de textos de J.M. Coetzee, Machado de Assis, Philip Roth, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, João Gilberto Noll, Ronaldo Lima Lins, aborda a solidão, o esvaziamento da subjetividade, a promoção da indiferença, a sensação de vazio e a violência do espetáculo do mundo, como questões que nos fornecem meios para questionar a ausência de futuro e perspectivas na “cultura do dinheiro”.
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11 Setembro, 2010

Em nome de quê?

Frei Betto, Adital

“Muitos pais, professores e psicólogos se queixam de que parcela considerável da juventude carece de referências morais. Inúmeros jovens mergulham de cabeça na onda neoliberal de relativização de valores. Tornam público o privado (vide YouTube), são indiferentes à política e à religião, praticam sexo como esporte e, em matéria de valores, preferem os do mercado financeiro.

Sou da geração que fez 20 anos de idade na década de 1960. Geração literalmente inovadora (a Bossa era Nova, o Cinema era Novo etc.), que injetava utopia na veia e se pautava por ideologias altruístas. Queríamos apenas mudar o mundo. Derrubar as ditaduras, a fome e miséria, as desigualdades sociais, o imperialismo e o moralismo.

Em nome do mundo sem opressão, que muitos de nós identificávamos com o socialismo, lutamos pela emancipação da mulher, contra o apartheid e em defesa dos povos indígenas. Sobretudo, trouxemos ao centro da roda a questão ecológica.

Já a geração de nossos pais acreditava na indissolubilidade do casamento, na virgindade pré-conjugal como valor, na religião como inspiradora da conduta moral, na prevalência da produção sobre a especulação. Em nome de Deus, as consciências estavam marcadas pelo estigma do pecado.

Todas as gerações têm aspectos positivos e negativos. Se a minha se nutriu de ideologias libertárias, que nela incutiram espírito de sacrifício e solidariedade, a de meus pais acreditou na perene estabilidade das quatro instituições pilares da modernidade: a religião, a família, a escola e o Estado.

Esta geração da primeira metade do século XX não logrou superar o patriarcalismo, o preconceito a quem não lhe era racial e socialmente semelhante, a fé positivista nos benefícios universais da ciência e da tecnologia.”
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10 Setembro, 2010

Meus parceiros, os urubus

Eberth Vêncio, Revista Bula

“A vida é infinitamente mais triste que boa. Vejam, por exemplo, os raros ipês amarelos que florescem em meio à estiagem. É agosto. E é como a vida. Não chove há cinco meses. O índice de umidade relativa do ar está ainda menor que a minha estima pela humanidade.

O clima quente e seco preocupa autoridades e ambientalistas, ainda mais quando as queimadas destroem o cerrado no centro-oeste brasileiro. Depois das primeiras chuvas, ainda que fracas, as plantas renascerão das cinzas, brotarão novamente da terra, como por milagre. Elas resistem ao fogo, à saga, ao espírito desbravador e destrutivo dos homens. Vejo as árvores feinhas, tortuosas e baixinhas, e me lembro do poeta Nicolas Behr: “...nem tudo que é torto é errado: vide as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado...”.

E o que dizer dos bichos, animais encurralados, carbonizados pelas chamas, ou atropelados pelos automóveis ao cruzarem as rodovias em fuga? Há mais oferta de carniça nos acostamentos das estradas de que podem se fartar os urubus. Será que as labaredas dizimaram também estas aves da faxina? Urubus, assim como a minha fé, estariam em processo avançado de extinção? Por que o tal asteroide não nos parte logo ao meio? A vida, então, parece um mistério dos mais absurdos. Ao ponto de se acreditar que os culpados de tudo tenham sido mesmo Adão e Eva, ao descumprirem o trato com Deus e pecarem no paraíso. Por causa do vacilo, nós merecemos todas as desgraças advindas até o final dos tempos. Um final que nunca chega, apesar das garantias dos profetas e de outros seres com capacidade de enxergarem o futuro. Por que ninguém se detém no presente?

Senão, vejamos: apesar de milênios de história, o fanatismo permite que, ainda hoje, pessoas apedrejem o corpo de outro ser humano, até que ele sucumba às pedradas e pare de respirar. Através da lapidação (apedrejamento), os homens fazem justiça na Terra, quebrando um galhão para Deus.”
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09 Setembro, 2010

Qualquer semelhança não é mera coincidência

Frei Betto, Adital

“O Brasil ainda tem muito a conquistar nos quesitos saúde, educação, saneamento, moradia, segurança e infraestrutura (rodovias, portos e aeroportos). É um gigante de pés de barro. Contudo, nossa democracia se aprimora graças aos movimentos sociais, à mídia vigilante, à exigência de transparência e adoção de leis como a Ficha Limpa.

Algo de novo marca a atual disputa presidencial. Os quatro candidatos com melhor posição nas pesquisas têm em comum muito mais do que julga o nosso vão preconceito. Nenhum deles procede das tradicionais oligarquias que se acostumaram a fazer na vida pública o que fazem na privada. Nem pertencem à elite brasileira ou nasceram em berço esplêndido. Os quatro se originaram na classe pobre ou média.

Todos abominam a ditadura militar, o conservadorismo e tiveram na esquerda sua iniciação política. Três foram vítimas da ditadura: Plínio (cassado e exilado); Serra (exilado) e Dilma (presa e torturada). Marina, alfabetizada aos 16 anos, sofreu a opressão do latifúndio amazônico. Filha do seringal e discípula de Chico Mendes, viu-se obrigada a se "exilar" da floresta para livrar-se da pobreza e da falta de escolaridade.

Os programas de Dilma, Serra e Marina têm mais pontos em comum do que diferenças. A exceção é Plínio, que não se envergonha de defender o socialismo. O PSOL vale-se do período eleitoral para divulgar suas propostas e se afirmar como partido. Isso oxigena o debate democrático.

Dilma, Serra e Marina se irmanam na arte de se equilibrar na corda bamba. Evitam tombar à esquerda ou à direita e adotam discurso que não desagrada nem um nem outro. Assim, a distância entre oposição e situação quase se anula e permite a Lula, que faz um bom governo, manter-se na confortável posição de quase unanimidade nacional. E a Henrique Meirelles despontar como o nosso Alan Greenspan, que ficou quase 20 anos à frente do Banco Central dos EUA.”
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08 Setembro, 2010

7 de setembro, um factóide

Alberto Dines, Observatório da Imprensa

“A independência do Brasil foi proclamada no dia 7 de setembro, há 188 anos, às margens do Ipiranga, com um brado retumbante – certo ou errado? Errado. Erradíssimo. Quem garante? Os jornais da época, claro.

Quando o Brasil separou-se de Portugal havia cinco jornais em circulação – o precursor da imprensa livre, o Correio Braziliense, o chapa-branca Gazeta do Rio de Janeiro, o Revérbero Fluminense, a Idade do Ouro do Brasil da Bahia e O Espelho. Nenhum deles fala no épico episódio protagonizado por D. Pedro nas redondezas de São Paulo às margens de um riacho.

Todos os cinco periódicos eram a favor da emancipação, estavam por dentro do assunto, reproduziram os documentos e a azeda troca de cartas entre o rei D. João VI e o seu filho príncipe-regente, em agosto. Mas em matéria de datas os cinco estão mais preocupados com o 12 de outubro – quando D. Pedro seria proclamado pelo povo e assim legitimado como Imperador do Brasil.

O Sete de Setembro foi uma construção política posterior, bem posterior, e não um fato político. Para usar o jargão moderno: o Sete de Setembro foi um factóide, muito bem construído para facilitar a repercussão externa – mas um factóide.

História e jornalismo

Então nossos professores de história estavam enganados ou nos enganaram? Não propriamente. O que aconteceu foi uma desatenção da historiografia brasileira pelo jornalismo brasileiro. E esta desatenção foi em parte causada pelos preconceitos contra os principais jornalistas da época, majoritariamente maçons.

Este desencontro entre o fato e a construção do fato torna-se ainda mais significativo quando lembramos que há dois anos, em 2008, quando deveríamos lembrar os 200 anos da criação da imprensa brasileira, nossa mídia embargou a data e passou uma esponja no passado. Agora, quando identificamos alguns desajustes entre os livros de história e as coleções de periódicos, evidencia-se o crime que a nossa imprensa cometeu contra a sua própria imagem."

07 Setembro, 2010

Desistam dos Estados Unidos

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“A narrativa do equatoriano Luis Freddy Lala Pomavilla (foto), um dos dois sobreviventes do massacre de Tamaulipas, no México, impressiona pela crueldade e sangue frio dos assassinos. Entretanto, mais grave do que a chacina, o que transparece é a ineficiência e/ou incompetência da politica de segurança do governo mexicano em lidar com o problema. Estima-se em 28 mil o número de mortos na guerra do narcotráfico desde a posse do presidente Felipe Calderon, em 2007.

No vídeo gravado a bordo do avião que o levava de volta a seu país, e divulgado fartamente pela rede de TV estatal do Equador, Pomavilla adverte seus compatriotas para que não tentem chegar aos Estados Unidos através da fronteira mexicana porque os narcotraficantes não deixam, matam.

Em seu depoimento, o equatoriano conta que para chegar à fronteira dos EUA ele fez um longo caminho que passou por Honduras, Guatemala até chegar ao norte do México. No sábado a noite, continua o equatoriano, o grupo foi cercado por três carros dos quais sairam oito homens bem armados que os colocaram em outros veículos. Daí foram levados para uma casa onde foram amarrados em grupos de quatro pessoas com as mãos para trás e deitados de barriga para baixo.

Daí em diante começa o fuzilamento que terminou com a morte de 72 migrantes, inclusive dois brasileiros. Pomavilla recebeu uma bala na nuca que saiu pela boca e milagrosamente escapou. Ele se fingiu de morto e só se levantou quando percebeu que os homens tinham ido embora. Mesmo ferido, caminhou durante toda noite até encontrar os militares mexicanos que o levaram a um hospital. Na fuga encontrou o hondurenho que também tinha escapado e não estava ferido.
Perguntado pela razões da matança, ele contou que os homens não pediram nada, apenas perguntaram "querem trabalhar conosco?" Como ninguém aceitasse, eles nada disseram, simplesmente começaram o massacre.”
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06 Setembro, 2010

O mundo dos Tiriricas

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

“A imprensa registra de maneira desigual a decisão do Supremo Tribunal Federal liberando a gozação de candidatos em programas humorísticos veiculados pela mídia. De quebra, a imprensa em geral também ganhou o direito de divulgar críticas diretas de jornalistas a políticos em período de campanha eleitoral. Dessa maneira, fica suspensa a aplicação do artigo 2, correspondente a essas restrições, que constavam da Lei 9.504, aprovada em 1997.

O Estado de S.Paulo, que havia tratado do assunto quando a proibição estava em vigor, agora ignorou completamente a liberação.

A decisão do STF poderia ser motivo para celebração, talvez uma festa da democracia. Mas há muita controvérsia sobre as escolhas da mídia, seja no material considerado sério, dito jornalístico, seja nas produções de entretenimento, como as novelas e os programas humorísticos.

As preferências das empresas de comunicação sequer são camufladas, e não apenas nos jornais e revistas de circulação nacional. Também na imprensa regional são visíveis as escolhas políticas, para um lado ou para o outro do espectro partidário. Portanto, pode-se esperar um festival de manipulações no mês que antecede o primeiro turno das eleições.”
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05 Setembro, 2010

Adolfo Perez Esquivel: A contaminação informativa na Argentina

A Lei de Meios Audiovisuais sancionada pelo Parlamento argentino é necessária, já que permite romper o controle dos monopólios informativos, gerar o pluralismo jornalístico e recuperar a liberdade de imprensa. A reação das corporações, como o grupo Clarín, desatou uma campanha virulenta contra o governo acompanhada pela voracidade de uma oposição sem idéias, que busca unicamente golpear o governo e que tem todos os meios de comunicação à sua disposição. O artigo é de Adolfo Perez Esquivel.

Vermelho.org

A vida dos povos está submetida aos impactos ambientais, à contaminação auditiva e visual da palavra e das idéias, que impõem o monocultivo das mentes. Os avanços tecnológicos são utilizados muitas vezes para o controle dos meios de comunicação e, assim, para o condicionamento e a manipulação dos povos. Nenhum meio informativo é asséptico, mas deve basear-se na ética e em valores a serviço dos povos e não para se servir dos mesmos.

Uma das grandes conquistas das lutas sociais foi a liberdade de imprensa, o direito de informar e ser informado, mas os grandes monopólios econômicos, ideológicos e políticos que controlam os meios de informação mataram a liberdade de imprensa e querem confundi-la e reduzi-la à liberdade de empresa, duas expressões que não são sinônimas.

A contaminação da palavra e a propaganda midiática chegaram a tal extremo que não permite ver com clareza onde está verdade informativa. A ética e a busca da verdade estão ausentes e prevalece a distorção da realidade. A CNN é o exemplo dessa contaminação de que sofremos povos. Sua ação no Iraque foi e é para justificar a guerra e difundir que esse país possuía armas de destruição em massa. Algo semelhante está sendo armado agora contra o Irã e outros países. Por outro lado, ocultam massacres e assassinatos de crianças e de população civil no Iraque e no Afeganistão, onde os que se dizem defensores da “democracia” se dedicam ao saqueio do patrimônio do povo iraquiano e implantam centros de tortura levando morte e destruição a essa região. Esse povo é acusado de “terrorismo islâmico”, quando os verdadeiros terroristas são os torturadores e assassinos que invadiram esses países, violando os direitos humanos, os direitos dos povos e todas as convenções internacionais.”
Tradução: Katarina Peixoto
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Morre cartunista Paul Conrad, vencedor de 3 Pulitzer

O cartunista Paul Conrad, conhecido por suas provocativas charges políticas que lhe valeram três Prêmios Pulitzer, morreu neste sábado (4) aos 86 anos. Conrad morreu por causas naturais em sua casa em Rancho Palos Verdes rodeado de familiares, informa o jornal californiano "Los Angeles Times".

Vermelho.org / EFE

Poucos foram os políticos famosos que escaparam das sarcásticas charges em preto e branco de Conrad, um dos cartunistas mais proeminentes da segunda metade do século XX.

As caricaturas eram amadas ou odiadas, mas nunca deixavam opiniões indiferentes durante os mais de 50 anos de carreira. Seus trabalhos, de postura liberal, cutucavam políticos e enfureciam os mais conservadores.

Conrad ganhou três Prêmios Pulitzer (1964, 1971 e 1984), uma façanha só igualada por outros dois cartunistas na era posterior à Segunda Guerra Mundial.

Ele trabalhou entre 1964 e 1993 como cartunista-chefe do Los Angeles Times, além de fazer trabalhos para vários outros periódicos no mundo. Durante mais 30 anos, esteve vinculado ao diário The Times.

Conrad deixa uma esposa, Kay King, ex-jornalista do jornal The Denver Post, e quatro filhos, dois homens e duas mulheres.”

03 Setembro, 2010

Os horizontes da esperança

Mauro Santayana, JB Online

“Quando os homens se tornaram eretos, a visão dos horizontes os impeliu a caminharem sempre em frente. Adiante, no desconhecido, há surpresas, aventuras, alguma coisa que faz a vida mais agradável ou mais plena. Sendo uma astúcia ótica, a linha, que segue adiante, quando a buscamos, é apenas uma referência no espaço. Nada nos pode garantir que ela nos possa servir a glória, ou a fortuna.

Os campos petrolíferos do Oriente Médio têm sido horizonte norte-americano desde a Primeira Guerra Mundial. Ontem, com a retirada de grande parte das tropas enviadas por Bush ao Iraque, o horizonte se abateu, mas não definitivamente. É certo que os norte-americanos, cerrada a passagem do Iraque, como se vedará, em breve, a do Afeganistão, irão usar outras armas para o domínio da região.

Milhares e milhares de pessoas, entre elas, soldados invasores, morreram e se tornaram inválidas, para que, depois de tantos anos, os estrategistas se convencessem de que o horizonte era ilusório. Enfim, lutaram, mataram, chacinaram, morreram, para nada. Deixam o Iraque levando como troféu a miserável glória de terem mandado enforcar Saddam Hussein, e deixando no país a perspectiva de um acerto de contas brutal entre sunitas, xiitas e curdos.

Na linha do horizonte abrem-se as miragens, com seus lagos sedutores. Nela, como na bela descoberta de El Greco, a perspectiva se altera, para que todas as coisas pareçam maiores. Dois jovens mineiros – se outros não houver entre os mortos de San Fernando – abandonaram os horizontes próximos, mais seguros, e, iludidos pelo sonho americano, ouviram o canto dos traficantes de ilusões. Viram o mundo desabar, antes mesmo de pisarem a terra que lhes prometeram. Talvez não conhecessem a advertência de Vicente de Carvalho, de que a árvore da felicidade deve ser posta onde nós estamos, e não alhures.”
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02 Setembro, 2010

A vingança de Moby Dick

Euler de França Belém, Revista Bula

“Publicado em 1851, “Moby Dick”, de Herman Melville, é um clássico. O romance é produto da imaginação do escritor americano — discípulo que rivaliza com Shakespeare — e, ao mesmo tempo, baseado em fatos reais. Muitos leitores certamente avaliam que o espírito vingativo de Moby Dick, um cachalote gigantesco, é uma invenção literária de Melville. A baleia do livro parece ter sentimentos, como a capacidade de ser vingativa, de perseguir o seu perseguidor, o obcecado capitão Ahab, que parece mais selvagem do que seu oponente marítimo. A história é baseada num acontecimento real, de 1820, que, sem a cobertura da recriação poderosa da literatura, teria se tornado um rodapé na história náutica. Baleias atacam barcos de curiosos que aparentemente as agridem, talvez pela proximidade excessiva e ameaçadora. Na edição de 22 de julho do jornal espanhol “El País”, Lali Cambra relatou, na matéria “O ataque da baleia”, como um mamífero de 40 toneladas atingiu e destruiu parcialmente o barco Intrepid, na costa atlântica da Cidade do Cabo.

O jornal publicou duas fotografias, da Agência EFE (o nome do fotógrafo não é mencionado), impressionantes. A primeira exibe a baleia jogando-se sobre o Intrepid. A segunda mostra o barco de 10 metros destroçado. A reportagem afirma que é “inusual” baleias se jogarem em cima de barcos. Autoridades marítimas sul-africanas concluíram que a baleia pode ter sido “acossada e perseguida” por pessoas que ocupavam pelo menos dois barcos — um deles o que quase foi afundado.

Paloma Werner e Ralph Mothes, proprietários do barco, contaram que, assim que avistaram a baleia, desligaram o motor. O casal observou-a por cerca de uma hora, a uma distância de 120 metros. Eles “asseguram que a baleia, sem que fizessem qualquer coisa, aproximou-se e jogou-se em cima da embarcação”. Nenhum deles se machucou.”
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01 Setembro, 2010

Não há emoção no Estado

Frei Betto, Adital

“Época de eleição é época de desvarios. A razão costuma entrar em férias e a sensibilidade fica à flor da pele. Em família e no trabalho, no clube e na igreja, todos manifestam opiniões sobre articulações políticas e candidatos.

O tom varia do palavrão a desqualificar toda a árvore genealógica do candidato à veneração acrítica de quem o julga perfeito. A língua se espicha em sete léguas para difamar ou louvar políticos. Marido briga com a mulher, pai com o filho, amigo com amigo, cada um convencido de que possui a melhor análise sobre os candidatos... e todos parecem ignorar que vivemos numa relativa democracia em que reina a diversidade de forças políticas, embora impere a ideologia das elites dominantes.

Há um terceiro grupo que insiste em se manter indiferente ao período eleitoral, embora não o consiga em relação aos candidatos, todos eles considerados corruptos, mentirosos, aproveitadores e/ou demagogos.

Haja coração!

O problema é que não há saída: estamos todos sujeitos ao Estado. E este é governado pelo partido vitorioso nas eleições. Portanto, ficar indiferente é uma forma de passar cheque em branco, assinado e de valor ilimitado, a quem governa. E tanto o governo quanto o Estado, com o perdão da redundância, são absolutamente indiferentes à nossa indiferença e aos nossos protestos individuais.

É compreensível uma pessoa não gostar de ópera, jiló, viagem de avião ou da cor marrom. E mesmo de política. Impossível é ignorar que todos os aspectos de nossa existência, do primeiro respiro ao último suspiro, têm a ver com política.

Já a classe social em que cada um de nós nasceu decorre da política vigente no país. Houvesse menos injustiça e mais partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, ninguém nasceria entre a miséria e a pobreza. Como nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que veio a este mundo, somos todos filhos da loteria biológica. Nossa condição social de origem resulta de mero acaso. E não deveria ser considerado privilégio por quem nasceu nas classes média e rica, e sim dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte.”
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