30 Setembro, 2011

A arte de desaprender


Assim como há escolas e cursos para aprender, deveria também existir para ensinar a desaprender

Frei Betto, Adital

Apresentou-se à porta do convento um médico interessado em tornar-se frade. O prior encarregou o mestre de noviços de atendê-lo.

― Caro doutor – disse o mestre – o prior envia-lhe esta lista de perguntas. Pede que tenha a bondade de respondê-las de acordo com os seus doutos conhecimentos.

O jovem médico, acomodado no parlatório, tratou de preencher o questionário. Em menos de uma hora devolveu-o ao mestre. Este
levou o papel ao prior e retornou quinze minutos depois:

― O prior reconhece que o senhor demonstra grande conhecimento e erudição. Suas respostas são brilhantes. Por isso pede que retorne ao convento dentro de um ano.

O médico estampou uma expressão de desapontamento:

― Ora, se respondi corretamente todas as questões – objetou – por que retornar dentro de um ano? E se eu tivesse dado respostas equivocadas, o que teria sucedido?

― O senhor teria sido aceito imediatamente e, na próxima semana, já estaria entre os noviços.

― Então, por que devo retornar em um ano?

― É o prazo que o prior considera adequado para que o senhor possa desaprender conhecimentos inúteis.

― Desaprender? – surpreendeu-se o médico.

― Sim, desaprender. Entrar na vida espiritual é como empreender uma viagem: quanto mais pesada a bagagem, mais lentamente se cobre o percurso. Na sua há demasiadas coisas substantivamente inúteis.”
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29 Setembro, 2011

A indigestão de Gaia


Edival Lourenço, Revista Bula

“Com o aquecimento global, os furos na camada de ozônio e outros quizilas do planeta, a Teoria de Gaia de James Lovelock vem ganhando credibilidade junto à comunidade científica. Vamos aproveitar então admiti-la como válida.

Segundo essa corrente de idéias, a Terra seria um sistema auto-regulável de interações complexas entre organismos vivos e não-vivos. Assim como nosso corpo que tem parte orgânica e mineral, trocando figurinhas o tempo todo. É bom lembrar que a quase totalidade do planeta é constituída de material não-vivo e só uma pequena crosta, a biosfera, tem o dom especial de abrigar a vida. Para Lovelock a terra seria um bicho vivo, como um boi, um coral, um jumento ou um cupim.

Lembre-se,pesquisas asseguram que o planeta Marte já teve fartura de água e presença de vida, pelo menos microscópica. No entanto, por alguma avaria climática, cuja causa ainda não se conhece, a água evadiu-se para local incerto e não sabido e a vida desapareceu por completo. Portanto não é alarme de ecologista sem noção de que a vida na Terra possa a qualquer instante entrar em declínio, por causas naturais ou por ação e mérito de seu habitante mais interventor: o homo Sapiens (eu, você, o Bill Gates, a Gisele Bündchen, o doidinho da carrocinha). Um bicho bruto como nós, é bem provável que habitamos o centro fabril do animal planetário: o sistema digestivo. Somos uma lombriga. Uma lombriga anfíbia que oscila entre as relações cooperativas e parasitárias.

Poderíamos aventar que, até o advento da Revolução Industrial, o ser humano manteve com a Terra uma relação cooperativa, de proveito a ambas as partes. Éramos apenas um fornecedor de enzimas para catalisar a digestão. Todavia, com a entrada em cena da Revolução Industrial e suas máquinas malucas, queimando carvão e petróleo e expelindo dióxido de carbono, revolvendo o meio ambiente feito louco, o homo Sapiens sofreu uma metamorfose endiabrada. Digamos que antes a gente era só uma espécie de Triconinfa (um protozoário dócil que fornece a enzima que quebra a celulose na digestão bovina). Mas, com a mutação, nos convertemos numa espécie de Tênia Solium, a terrível lombriga solitária, que exaure o organismo hospedeiro para se sustentar, impingindo-lhe a desnutrição crônica. E o que é pior: ainda laça ovos peçonhentos no sistema nervoso central, causando doenças incuráveis e letais.”
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28 Setembro, 2011

Por uma arquitetura de verdade


Eduardo Carvalho, Digestivo Cultural

“Arquitetura é um assunto menos discutido no Brasil do que merece ser. Numa cidade como São Paulo, quase todos os ambientes pelos quais circulamos diariamente foram, com mais ou menos cuidado, desenhados por arquitetos. A qualidade do desenho desses espaços afeta diretamente, portanto, a qualidade do nosso dia a dia. Seria natural, então, que um assunto tão constante em nossas vidas fosse debatido também com mais regularidade.

Mas em geral aceitamos os ambientes pelos quais circulamos diariamente sem considerar que eles poderiam ser diferentes. Muita gente, por exemplo, sem ser cineasta, consegue conversar sobre cinema com uma capacidade analítica quase profissional. Seria muito saudável à nossa arquitetura que as pessoas em geral - e não só profissionais ligados ao assunto - desenvolvessem essa capacidade de observação e espírito crítico também em relação a ela.

Porque, além de ser um tema sobre o qual conversamos pouco, conversamos sobre arquitetura superficialmente. É quase um consenso hoje em dia reclamar do estilo neoclássico, que dominou as fachadas dos lançamentos imobiliários nas últimas décadas - como se o problema arquitetônico desses prédios fosse simplesmente estético. Ou como se não houvesse - inclusive em São Paulo, por exemplo, com Jacques Pilon - edifícios projetados dentro de princípios mais clássicos e ao mesmo tempo com excelente qualidade arquitetônica.

Na verdade, um dos principais problemas dos neoclássicos construídos em São Paulo nos últimos anos é justamente o fato de não terem praticamente nenhuma característica fundamental de edifícios clássicos originais: eles são muito altos, afastados da calçada, enclausurados em grades pesadas, de proporções desorganizadas e materiais falsos. Palladio jamais os aprovaria. Não basta, portanto, só executarmos "arquitetura contemporânea" para nos livrarmos dos defeitos dos nossos edifícios neoclássicos: porque os principais defeitos desses edifícios neoclássicos não são propriamente da arquitetura clássica.”
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27 Setembro, 2011

(Im)possíveis Brasílias


Elton Alisson, Agência FAPESP
 
“No lugar de esplanadas, superquadras e eixos monumentais, a paisagem de Brasília poderia ser composta hoje por um aglomerado de chácaras que produziriam os bens necessários para a subsistência de sua população. Ou a capital federal do Brasil seria ultramoderna, abrigando seus moradores em torres da altura da Torre Eiffel.

Essas e outras “Brasílias”, que poderiam ter se tornado realidade se o arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998) não tivesse participado e se sagrado vencedor do concurso do plano piloto de Brasília, em 1956, são descritas no livro (Im)possíveis Brasílias: os projetos apresentados no concurso do plano piloto da nova capital federal, lançado em agosto com apoio da FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações.

Resultado da tese de mestrado de Aline Moraes Costa Braga, defendida em 2002 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o livro aborda os 25 projetos derrotados por Costa no “concurso arquitetônico mais importante do século 20”.

Para reuni-los, Braga visitou todos os escritórios de arquitetura que estavam ativos na época e realizou entrevistas com alguns dos arquitetos que participaram do concurso, como Joaquim Manoel Guedes Sobrinho (1932-2008).

Dessa forma, reuniu uma coleção documental e iconográfica sobre cada um dos projetos que participaram do certame e que até então estavam dispersos. Também contextualizou a história do concurso, que reuniu duas gerações de arquitetos no Brasil – os pioneiros do Movimento Moderno e jovens arquitetos que se destacariam nas décadas seguintes – e ficou marcado como um momento singular de debate internacional de ideias arquitetônicas.

Segundo Braga, a maior parte dos projetos apresentados no concurso se baseava no conceito de urbanismo moderno, que defendia a organização das principais funções da cidade.

“As referências às superquadras, com a ideia de possibilitar a independência entre a circulação dos pedestres e dos automóveis e setorizar os serviços de comércio, residencial e de lazer, são predominantes em todos os projetos”, disse à Agência FAPESP.
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26 Setembro, 2011

Dia Mundial Sem A Humanidade


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Não seja tão grosseiro”, ele recomendou que eu evitasse trocadilhos, comentários depreciativos, tentativas de fazer piadas com a fé alheia nos meus textos literários. “Se você não crê em Deus (ele disse assim) é problema seu. Esmere-se nos textos tristes. Gosto muito dos seus textos tristes”, emendou, percebendo o meu abatimento subitâneo após a “crítica construtiva”.

As críticas construtivas acabam por me destruir um pouco mais. Eu me abato facilmente. Fazer o quê? A vida é assim mesmo, uma infindável desconstrução, “uma coleção de perdas”, como diria o escritor Edival Lourenço.

Para encerrar o papo, meu quase algoz amigo Léo Galinha comentou, com todo o desdém peculiar a um homem de convicções políticas extremistas, que o discurso da Presidente Dilma na ONU fora uma “porcaria”. “Você viu?”.  Não, eu não vi.

Pela primeira vez na história, uma mulher fora incumbida de abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. “Do jeito que as coisas estão caminhando, já-já vão colocar um presidente viadinho pra discursar na ONU, porque um analfabeto já fez isto, você sabe...”, completou o meu carrancudo interlocutor desprovido de qualquer compaixão crstica. Não, eu não sabia.  

Mas o assunto de hoje não é o marco histórico cravado pela Presidente do Brasil — uma mulher brasileira convalescente de câncer linfático e que abdicou da autocomiseração para se manter no complexo e muitas vezes mal cheiroso xadrez político — no plenário mais importante do planeta, muito menos, as admoestações de Leontino Damaceno Beltrão e Silva, mais conhecido no bairro como Léo Galinha, por conta da sua avidez pela mulherada acima de quarenta quilos, embora seja “casado há séculos” (este chiste é de autoria do próprio).”
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25 Setembro, 2011

Palestina: ser ou não ser


Eliakim Araujo, Direto da Redação

“A criação do Estado da Palestina tem dominado o noticiário da Assembléia Geral das Nações Unidas reunida em Nova York. Nesta quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff abriu os trabalhos da Assembléia (foto), tornando-se a primeira mulher na história a conquistar essa honraria.

E Dilma não fez por menos. Declarou que o Brasil já reconhece o Estado palestino, com suas fronteiras anteriores à guerra de 1967, afirmando que “é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada plenamente”. A opinião de Dilma foi acompanhada pelos presidentes da Argentina, Paraguai, Bolivia e Honduras. Entre os latinos, se posicionaram contra a criação do novo pais, México e Colombia, os aliados dos EUA.

Mas não será com o voto dos latinos que a Palestina se tornará um país independente. A decisão será do Conselho de Segurança da ONU, desde que os líderes palestinos formalizem o pedido. São 15 os países membros do Conselho, um deles o Brasil. Serão necessários nove votos, para que o pedido dos palestinos seja atendido.

Entretanto, mesmo que a proposta consiga os nove votos, ela não passará, porque Obama já avisou ao lider palestino Mahamoud Abbas que os Estados Unidos usarão o poder de veto se ele insistir no pedido ao Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, é tudo um grande teatro para inglês ver. O pleito consegue os votos necessários, mas cinco privilegiadas nações tem o poder de vetar a decisão da maioria. Basta o veto de uma dessa nações, EUA, Russia, China, França e Reino Unido, para que qualquer pretensão seja derrubada.

Esse é o impasse sobre o assunto que está empolgando os líderes mundiais presentes à Assembléia da ONU. Israel não quer a criação da Palestina porque isso lhe traria inúmeros problemas, o mais grave a devolução das terras palestinas ocupadas desde 1967, onde hoje vivem milhares de colonos israelenses.

Israel e EUA pregam as negociações de paz para resolver as pendências existentes, antes da criação do Estado da Palestina. Como essas negociações não funcionam há décadas, podemos esperar novos e violentos conflitos entre árabes e judeus no futuro.”
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23 Setembro, 2011

Apedrejamento verbal


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Quando cursava o ginasial  (naquela época chamava-se assim), no Colégio Estadual Pedro Álvarez Cabral, no Rio,  vi muitos casos de alunos sendo humilhados pelos próprios colegas. Alguns por serem os primeiros da turma, classificados pejorativamente como CDFs, outros por serem gordos ou feios e até por usarem óculos.

Aquele que , por alguma razão fugisse dos padrões “descolados”da época, era alvo de gozações tão cruéis que alguns chegavam até a deixar a escola. Hoje esse comportamento de discriminação e intimidação seria taxado de bullying.

Como não pertencia a nenhum dos dois grupos, o dos maldosos intimidadores ou das vítimas deles e sim da turma da conciliação e do deixa disso,  eu ficava de fora observando como pessoas tão jovens ainda, conseguiam ser tão perversas com os próprios colegas da mesma idade, só porque os achavam “diferentes”.

Por causa disso, quando nasceram meus filhos, sempre procurei estar presente na escola deles para evitar ao máximo que acontecesse isso. Quando mudei-me para os EUA com a família, minha filha mais velha chegou a enfrentar alguns problemas com outros alunos por ser uma aluna aplicada. Mas nada que ela  não tenha tido capacidade de enfrentar e superar, passando em outra etapa de sua vida estudantil a ser a queridinha da turma.

Mas infelizmente nem todos têm a mesma sorte e o tal do bullying nas escolas virou mais do que moda, uma verdadeira epidemia, que em alguns casos, já levou as vítimas ao suicídio. E foi isso que aconteceu com o adolescente americano de Buffalo, N. Y., Jamey Rodemeyer (foto) , de 14 anos.”
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22 Setembro, 2011

‘Wall Street é nossa rua’


Redação, Carta Capital

“Há quase uma semana, manifestantes ocupam o centro do capitalismo financeiro no Mundo, em Wall Street, Nova York. Depois de passar pelo Oriente Médio, Europa, América do Sul, a onda de protestos chegou aos EUA no dia 17 de setembro. Cerca de 2000 pessoas foram à Liberty Plaza se manifestar no sábado, ao lado da sede da Nasdaq, principal bolsa de valores dos Estados Unidos e permanecem lá até agora.

Intitulado de #OcuppyWallStreet, o movimento afirma lutar contra ao 1% corruptos que prejudicam os outros 99% da população americana. O cerne da corrupção, dizem, é a especulação financeira dos investidores de Wall Street e cuja ação irresponsável deflagrou a crise econômica em 2008 que persiste até hoje.

O modelo segue as manifestações no resto do mundo: jovens, com alta participação nas redes sociais e que foram atingidos em cheio pelo desemprego gerado na crise econômica.

Os participantes reivindicam a penalização dos homens de Wall Street, que cometeram uma série de crimes financeiros no cerne da crise econômica. Além disso, criticam o sistema político americano, baseado na prática do lobby, submetido aos interesses do Banco Central (Fed) e dividido entre dois partidos – democratas e republicanos – que acabam por travar uma série de discussões na Câmara dos Deputados.

Cartazes como “Pessoas, não lucros”, “Wall St. tem dois partidos, precisamos do nosso próprio”, “Não posso comprar meu lobista, faço parte dos 99%”, “AIG, Bank of America, Goldman Sachs, Citi, JPMorganChase – Por que vocês não estão na cadeia?” ilustram esse cenário.
Foto: Paul Weiskel
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Comissão da Verdade: o primeiro passo


Emir Sader, Blog do Emir

“Foi bonita a festa, pá!” Podemos estar contentes com a aprovação da Comissão Nacional da Verdade pela Câmara de Deputados ontem. Consagrou o método de combinar acordos políticos com mobilização popular. E esta demonstrou como os artistas e intelectuais continuam demonstrando uma grande sensibilidade para as maiores causas nacionais.

O que conquistamos foi a aprovação da Câmara e, quando tivermos a do Senado, teremos conquistado apenas um passo inicial: a construção de um espaço de busca da verdade sobre o que ocorreu durante a ditadura militar e a versão oficial do Brasil sobre o que ocorreu naquele período. Foi uma construção política, que abre um importante espaço de disputa. Agora se trata da aprovação no Senado e da composição da Comissão.

O projeto requer reparos, de vários pontos de vista, mas uma parte das objeções levantadas não tem fundamento. O primeiro problema é a extensão no tempo, retrocedendo a 1946. É certo que essa é uma data de origem das articulações golpistas que desembocaram em 1964, depois de várias tentativas de dar o golpe - 1954 e 1961, entre outras. Foi naquele momento que os oficiais das FFAA regressando da participação na guerra na Itália, passaram a ser influenciados diretamente pela oficialidade norteamericana. Em concreto, Golbery do Couto e Silva – que posteriormente seria peça chave na articulação do golpe e em governos da ditadura – fundou a Escola Superior de Guerra, desde onde se difundiu a nefasta Doutrina de Seguranca Nacional, que orientou as ditaduras do continente, no espírito da guerra fria, conforme a visão norteamericana.

Porém, as violações dos direitos humanos, como as entendemos, se concentraram claramente – tornando-se uma política de Estado – a partir de 1964 e ao longo de todo o período ditatorial, sobre o qual a Comissão deveria concentrar-se. Ainda mais que ela não tem uma duração muito longa – 2 anos – e nao dispõe, pelo menos inicialmente, de recursos próprios para trabalhar. Mas isso a Comissão pode redimensionar no seu programa de trabalho, para não desconcentrar-se do centro mesmo das suas investigações.”
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21 Setembro, 2011

Networking para crianças?


Raquel Oguri Ribeiro, Digestivo Cultural

“Medo do motoboy, medo da babá, medo de torcedor. Somos especialistas em personificar a ameaça de violência em tipos de gente. Adoramos estigmatizar grupos. Até que um dia o mal aparece onde menos esperamos.

Meu horror apareceu em um belo dia de sol, na porta da escola. Ele tinha forma de uma mulher. Não uma mulher qualquer. Mas uma mulher muito loura, muito bem vestida, muito fina.

Enquanto eu esperava meu filho, encostada no portão, ela resolveu puxar assunto. Demonstrou-se indignada com a violência entre crianças que tem acontecido nas escolas, o que chamam de bulliyng.

Papo vai, papo vem, ela muda o rumo da conversa e pergunta para mim se eu conheço a escola tal, ali perto, porque pensa em matricular seu filho nela, no ano seguinte. Deduzi que o menino deveria ser vítima do bulliyng, pois era o assunto que estava em pauta. Para minha surpresa, o motivo era outro.

Ela estava em busca de uma escola onde seu filho tivesse um melhor networking. É isso mesmo que você ouviu: n-e-t-w-o-r-k-i-n-g. Uma rede de contatos.

Com uma pessoa que fala esse tipo de coisa, não podemos esperar muita profundidade ou sentido nas justificativas. Ela simplesmente disse que "networking hoje em dia é tudo". Desde então, essa palavrinha em inglês não saiu mais da minha cabeça.

Vejo como um grande mal o tão almejado networking da mulher muito loura, muito bem vestida, muito fina. E pior: temo ser um vírus diabólico em processo de mutação. Está prestes a virar senso comum.

É preciso que se entenda que raios significa networking. Só assim posso convencer alguém a jamais usar essa palavra quando se referir a uma criança.

Pra começar, networking se refere ao mundo profissional. É a gestão de nossos contatos de olho em uma boa vaga no mercado de trabalho. Como os envolvidos estão preocupados com outras palavras em inglês como feedback, headhunter e coaching, não há espaço para palavras como essência, coração e amizade.

No mundo do networking, ninguém está preocupado se você se desdobra para ser uma boa mãe ou se trata sua empregada com o mesmo respeito que trata o seu diretor.”
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20 Setembro, 2011

Como escrever uma carta a um desafeto


Carlos Willian Leite, Revista Bula

“Caro Sammy,

Aquela putinha esteve aqui esta noite; você sabe, Sammy, a pequena sebenta com o corpo maravilhoso e a mente de um retardado. Entregou-me certos alegados textos supostamente escritos por você. Além do mais, afirmou que o homem da foice está vindo ceifá-lo. Sob circunstâncias normais, eu chamaria esta de uma situação trágica. Mas tendo lido a bílis que os seus manuscritos contêm, deixe-me falar para o mundo em geral e dizer imediatamente que a sua partida é uma sorte para todo mundo. Você não sabe escrever, Sammy. Sugiro que se concentre na tarefa de colocar sua alma idiota em ordem nestes últimos dias antes de deixar um mundo que vai suspirar aliviado com a sua partida. Gostaria honestamente de poder dizer que detesto vê-lo partir. Gostaria também que, como eu, você pudesse legar à posteridade algo como um monumento aos seus dias sobre a terra. Mas como isto é tão obviamente impossível, deixe-me o aconselhar a não guardar rancor nestes seus dias finais. O destino foi realmente ingrato com você. Como o resto do mundo, suponho que você também esteja contente de que muito em breve tudo estará acabado e a mancha de tinta que você deixou nunca será examinada de um ponto de vista mais amplo. Falo em nome de todos os homens sensíveis e civilizados quando o conclamo a queimar esta massa de esterco literário e depois se manter afastado de caneta e tinta. Se tiver uma máquina de escrever, o mesmo vale par ela; porque até a datilografia deste manuscrito é uma desgraça. Se, no entanto, persistir no seu lamentável desejo de escrever, de modo algum me envie a josta que você compôs. Descobri pelo menos que você é engraçado. Não deliberadamente, é claro.

Arturo Bandini

*Carta de Arturo Bandini ao desafeto Sammy. Arturo amava Camilla que amava Sammy. Do livro "Pergunte ao Pó", de John Fante.”

19 Setembro, 2011

Como derrubei duas torpes gêmeas no dia 11 de setembro


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Ocorreram inúmeras manifestações no planeta no dia 11 de setembro de 2011, data em que se reverenciaram os 10 anos desde o ataque formidavelmente morticida ao World Trade Center, quando aviões lotados de gente e raiva foram arremessados contra as Torres Gêmeas.

As cenas incríveis das aeronaves penetrando nas torres, como se elas fossem de pudim, são as mais contundentes que eu já vi, desde que um útero revolto em cólicas expeliu-me do seguro arcabouço materno para me apresentar, a muito contragosto, as agruras do mundo. Há dez anos, eu imaginei que seria a deflagração da nossa última guerra mundial. Mas a estúpida saga do Homem na Terra não encerrava ali. 
Ao homenagear as vítimas do massacre binladesco, muitas lágrimas rolaram em rostos convulsionados de saudade, mas houve também quem comemorasse a data com danças, bebidas e rajadas de metralhadora, como se fora um 04 de julho às avessas.

Não. A estória que passo a descrever a seguir não se trata de mais um devaneio de cronista sem inspiração plausível, ou um desagravo à miséria humana, aos que foram soterrados vivos em Nova Iorque, às famílias enlutadas, aos vultosos danos materiais do Pentágono ou à impensável crise financeira norteamericana advinda ao ataque. Tampouco foi psicografada a partir dos depoimentos fantasmas de Obama Bin Laden, ou melhor, Osama Bin Laden (eu sempre a me atrapalhar com obamas e osamas...).

Até porque, ignóbil assumido do tema (e pouco interessado em respostas ao enigma da existência), eu suponho que nenhuma criatura bípede razoavelmente sensitiva submeteria os seus atributos mediúnicos unicamente ao cargo das declarações revanchistas de um facínora.

Quem me contou o fato ocorrido, com indisfarçável orgulho nos lábios e nos gestos, foi o Belaminho, um cinquentão que trabalha (?) como assessor de um famoso parlamentar em Brasília. Apesar do limitadíssimo grau de conhecimento mútuo, o sujeito sentiu-se deveras à vontade (na verdade, ele sempre me parece embriagado) para relatar a orgia impetrada numa mansão do Lago Sul, tim-tim por tim-tim, como sói ocorre aos fanfarrões que se regozijam com as próprias aventuras sexuais, geralmente proibitivas, de acordo com os padrões morais da maioria da sociedade. Mentir é também uma imoralidade, mas não duvido nem um pouco do relato daquele falastrão.”
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18 Setembro, 2011

Brasil é o país homenageado no Europalia, maior festival de artes da Europa


Renata Giraldi, Agência Brasil

“Em pouco mais de duas semanas, o Brasil será o país homenageado no maior festival de artes da Europa – o 23º Europalia – que dura três meses e meio e reúne de espetáculos de dança, teatro, circo a exposições e debates sobre literatura. Artistas e intelectuais estarão em cinco países europeus para difundir a cultura brasileira.

A presidenta Dilma Rousseff e os ministros da Cultura, Ana de Hollanda, e das Relações Exteriores, Antonio Patriota, abrirão o festival no próximo dia 4, em Bruxelas, na Bélgica. Por mais de cem dias, a cultura brasileira estará na Bélgica, em Luxemburgo, na França, na Alemanha e na Holanda. No total, serão 130 shows, 60 apresentações de dança e 40 de teatro, 20 exposições de artes visuais e 80 conferências literárias.

Só os ministérios da Cultura e das Relações Exteriores investiram R$ 30 milhões no evento que contou também com o apoio financeiro de várias empresas públicas e privadas. O diretor de Relações Internacionais do Ministério da Cultura, Marcelo Dantas, disse à Agência Brasil que o retorno dos investimentos são incalculáveis.

“Temos muito orgulho de tudo isso. A partir da homenagem ao Brasil no Europalia, nós estaremos abrindo caminho para que o mundo possa observar tudo o que acontece aqui e estimular investimentos no país”, disse Dantas.

O diretor lembrou que a arte é um dos mecanismos mais eficientes para aproximar as pessoas de realidades diferentes da sua. “É importante que os estrangeiros vejam que o Brasil está conseguindo reduzir a fome com a ajuda dos programas de transferência de renda, que há mais justiça social no país e que a economia é estável”, disse Dantas.

O Europalia ocorre a cada dois anos e virou tradição na Europa desde os anos de 1960. Até a década de 1990, apenas países europeus eram homenageados, mas depois a coordenação do festival mudou. O México, o Japão, a Rússia e a China também já foram destaques no evento. Depois do Brasil, a Índia será o próximo país homenageado, em 2013.”

16 Setembro, 2011

Solidão em banda larga


Matheus Pichonelli, CartaCapital

“Alguma coisa acontece desde que o primeiro internauta descobriu que podia comprar comida chinesa pela internet. Ou analisar o perfil da mulher ideal e entregar de bandeja os seus segredos mais profundos em salas de bate-papo antes do primeiro encontro. Ou baixar música de graça, pagar conta no banco a distância ou contatar profissionais para passear com seu cão enquanto se mantém ocupado na frente do computador.

É fato: a introdução das (já não tão) novas tecnologias no cotidiano provocou estragos nas formas tradicionais de relacionamento. Mas a dimensão desses estragos ainda está por ser medida em estudos, palestras motivacionais, campanhas políticas, reuniões de associação de bairro, memorandos governamentais, fichas médicas, investigações policiais, pesquisas de mercado ou de opinião. E é possível que poucos deles consigam chegar perto do retrato dos nossos dias feito pelo diretor Gustavo Taretto em seu filme “Medianeras”.

No longa, Taretto correu todos os riscos de tropeçar num debate que, em condições normais de pressão e temperatura, jamais caberia (ou caberia ridiculamente) em 95 minutos de exibição. Não só coube como ficou delicadamente desenhado em dois personagens-símbolos do que seria o anti-herói da primeira década do século XXI. Uma geração com seus Iphones, vícios, neuroses e contradições guardados na mochila.

Numa das mais emblemáticas cenas do filme, Martin, o estranho personagem interpretado por Javier Drolas, conta para uma amiga recém-conhecida numa sala de bate-papo eletrônico que desenvolveu uma espécie de termostato emocional que o impede de vivenciar grandes tristezas ou grandes alegrias na vida. Do outro lado da tela, a menina questiona: “E quando a tristeza se torna inevitável?”. “Aí eu tomo Rivotril”.
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15 Setembro, 2011

Racismo na rede


Leila Cordeiro, Direto da Redação

Enquanto os inventores de  redes sociais faturam milhões com o sucesso de suas criações, os usuários vão perdendo, cada vez mais, sua privacidade e muitos tem até seus nomes achincalhados por gente desconhecida  que simplesmente se acha no direito de falar o que bem entende de qualquer um,  sem o mínimo de respeito e conveniência.

A última vítima desse abuso verbal foi a recém eleita Miss Universo 2011, a angolana Leila Lopes. Logo depois de escolhida como a mulher mais bonita do universo, ela foi alvo de comentários preconceituosos e racistas por parte de um desses usuários do Facebook que se acham poderosos o suficiente para xingar e ofender sem limite, só porque tem à disposição, um espaço público e a liberdade de escrever o que bem quiser.
Veja só o que disse  Marco Antonio Arcoverde Cals em seu perfil do Facebook:
"Leila Lopes é a Miss Universo!  Conheci a preta mês passado e fez muito bem de ter prendido aquele cabelo de vassoura. Era a única elegante das 5 finalistas... todas com cara de brega. Ela não... parecia uma Barbie Black Label! HAHAHA Algo me diz que lutará pelas classes! Parabéns, macaca! :)"
Diante da gratuidade das ofensas, ele foi denunciado por outros usuários que acabaram por forçá-lo a se explicar.

"É gente... tão compartilhando isso aqui! MUITO OBRIGADO facebook por ter colocado meu mural ABERTO PRA PÚBLICO como default SEM ME CONSULTAR pra QQ MANÉ ler post meu fora de contexto. Mais uma vez: Quem eu eu chamo de MACACA. Independente de cor, credo, formação, local onde reside ou se gosta da novela "Fina Estampa". Quem não, recebe OUTROS NOMES. Quem me conhece sabe disso, correto macacas? PS> E SIM, o cabelo solto dela não é dos melhores. E daí? Do meu irmão tb não é! :)"

Mas as desculpas dele  não convenceram.  Clarisse Miranda Gomes, que comandou a campanha para denunciar o perfil de Arcoverde e suas ofensas à miss negra, revoltada, respondeu:

 “Não quero espalhar o ódio, nem que o rapaz (do comentário infeliz) seja agredido na rua (NUNCA NA VIDA!!!), só acho que o comentário e as desculpas foram péssimas e que o respeito ao próximo esta acima de tudo!!! Eu não acho "carinhoso" ser chamado de viado, viadinho, gorda (o), caolha, macaca, cabelo de vassoura e vários outros nomes... #prontofalei. Quem não respeita o próximo, não merece respeito! E isso vale pra tudo e pra vida!"
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14 Setembro, 2011

Wagner, Tristão e Isolda, Nietzsche


Jardel Dias Cavalcanti, Digestivo Cultural

O encontro máximo da arte
não é senão o mais suave adeus?
E a música: este último olhar
que lançamos para os nossos eus!
(Rilke)

"É preciso encontrar a palavra justa para a entonação de voz, a nota certa para se conseguir tocar nas profundezas do ouvinte. Para entrar no coração é preciso que se adapte o andamento da música ao andamento do coração.

A relação entre Wagner e Nietzsche é notável. A ópera de Wagner adora ritmos hesitantes, perdas de referência, harmonias sem repouso, perfil melódico flutuante e aberto, cromatismos voltados para si mesmos, com síncopes e retardos que embaçam e suspendem qualquer idéia de direção. O ritmo da vida trágica não seria esse? Flutuações, direcionamentos inesperados, incertezas, inconclusões. E não é justamente nessa tensão que a vida se afirmaria mais e mais? Para Nietzsche também não existe possibilidade de pacificação da vida, ela sempre será um contínuo e interminável combate de forças criativas e destrutivas e é nesse mesmo combate que se encontra o próprio devir criador dessa vida.

A idéia de uma espécie de "vontade de potência" de Nietzsche talvez já estivesse guardada nestas palavras assustadoras de Leonardo da Vinci:

Digo que a potência é uma força, uma virtude espiritual, uma causa invisível, inerente e infusa nos corpos, dotando-os de uma atitude maravilhosamente infinita. Impele toda coisa criada a mudar de forma e de lugar, se lança com fúria à sua extinção, e caminha diversificando-se segundo as causas. A lentidão a acresce e a velocidade a esgota. Nasce por violência e morre de sua liberdade, e quanto maior é, mais depressa morre. Repele, furiosamente, o que se opõe à sua destruição, pode vencer e matar a causa que constitui obstáculo para ela, e vitoriosa, morre. Sua voltagem aumenta com os obstáculos; derruba, furiosamente, quanto se opõe à sua morte. Toda coisa criada quer ser perene. Toda coisa constrangida, constrange por sua vez. Nada se move sem a força, ou potência.

O que acontece com a música de Wagner é que a concepção direcional do tempo é destruída. Não há uma situação projetiva e antecipadora na sua obra. O arco melódico, se assim podemos dizer, que se constitui em princípio, meio e fim, que é a idéia de se construir um delineamento temporal que se expande em direção a um desenvolvimento final a partir de uma estrutura linear, em Wagner não tem mais sentido.

A questão é: porque Wagner desrespeita esta estrutura? Em Tristão e Isolda, o desejo de infinitude e de transcendência dos limites físicos desaparece. A satisfação de expectativas que se insinuam e se fecham num arco melódico harmônico total é quebrada. Estamos na forma da ópera como o apaixonado está na forma do seu delírio amoroso. Os estados interiores variam irracionalmente nesse caso. Estamos no tempo do sonho ou do pesadelo, da embriaguês e do incomensurável. Sendo mais certeiro, no reino do inapreensível. Por isso, os arcos melódicos devem partir-se, esgarçar-se, fragmentar-se, não mais conduzindo o expectador numa certeza esperada.””
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13 Setembro, 2011

Minas do Ouro


Frei Betto, Adital

“No início dos anos 80, engravidei da pulsão de escrever um romance sobre a história de Minas Gerais. É assim: o tema de uma obra de ficção nos agarra na esquina da vida. É como paixão à primeira vista. Ou a "eureka” dos gregos. Súbito, brota a ideia, e ela impregna o sentimento e gruda nas dobras da subjetividade. Ali germina até que se consiga dar vazão à pulsão.

Meu projeto inicial era escrever um romance ambientado na mina de Morro Velho, em Nova Lima. Ali acampei quando escoteiro. Dali ouvi histórias mirabolantes de desabamentos, inundações, mortes, e muita pobreza em meio à riqueza gerada pela mais profunda mina de ouro do mundo.

A cozinheira de minha família, Ana, era de Raposos e, seus parentes, quase todos empregados da Morro Velho. Dela escutei incríveis relatos do que ocorria naqueles subterrâneos em que se extraíam ouro das galerias e saúde dos trabalhadores.

Graças à colaboração de Christina Fonseca e Maione R. Batista, entrevistei ex-empregados da mina e, em especial, Dazinho, líder sindical de Morro Velho que se elegeu deputado estadual e, mais tarde, teve o mandato cassado pela ditadura, que o levou à prisão.
Tive acesso a livros raros sobre a história da mina, a manuscritos antigos, a mapas e até papéis de contabilidade, e retornei a ela um par de vezes.

Uma coisa leva à outra. De Morro Velho minha pesquisa se ampliou para a história das Minas e das Gerais. Devorei, calculo, cerca de 120 livros, entre os quais o Códice Matoso, Autos da devassa, os volumes das coleções Mineiriana e Brasiliana, textos de Diogo de Vasconcelos, Lúcio dos Santos, Iglesias, Boschi, Neusa Fernandes, Laura de Mello e Souza, Myriam A. Ribeiro de Oliveira, Júnia Ferreira Furtado etc.”
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12 Setembro, 2011

Falando de amor


Menalton Braff, Revista Bula

“Isso não é privilégio de nossa cidade. Cenas idênticas tenho visto em toda parte. Mais fácil acreditar que seja característica de nosso tempo. O beijo de bico de minha época, que os jovens de hoje apelidaram de “selinho”, o beijo de boca, discreto ou cinematográfico, isto é, de perder o fôlego, de todos conheço como de todos experimentei. Sem esquecer o beijo de língua, o mais sensual de todos. Poderia ser chamado de beijo-véspera com muita propriedade. Pois outro dia fiquei assombrado ao presenciar um beijo de língua. Não por ser muito moralista, é que o beijo se deu entre uma garota e um cachorro. Meu liberalismo tem limites e meu estômago é fraco.

O que a língua andou limpando momentos antes  ou se a proprietária contraiu cinomose, nada disso importa na hora do beijo, que é a demonstração maior de carinho. Aliás, me cochichou agora meu anjo da guarda, dizendo que cinomose é doença de cachorros e não costuma acometer mocinhas que os beijem. Na boca e com algum requinte cuja razão desisti de entender. Mas antes que me acusem de anticanino, devo declarar que sempre amei os cães e foram muitos os que tive. E juro que nunca usei de crueldade com eles. Se não foram inteiramente felizes em minha companhia, é porque não entenderam que em nossas relações jamais abdiquei de meus direitos. Mesmo quando os afagava, e o fazia com frequência, mantinha alguns princípios, como o da hierarquia, em vigor.”
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11 Setembro, 2011

Uma nova escola, um novo professor


Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Andei comentando, nas últimas colunas, o assunto Educação, mas de uma forma indireta, a partir de aspectos como consumismo e violência que, a meu ver, são componentes da sociedade em que vivo e estão interferindo na formação dos nossos jovens. O artigo sobre violência mereceu algumas críticas, que não discuto, de pessoas cujo pensamento aprendi a respeitar. Paciência. É da própria democracia o contraditório e nunca me julguei dono da verdade. Apenas traduzi o que senti e muito do que percebo como professor em escolas da classe média do Rio de Janeiro. Mas volto agora ao tema do ensino, para falar de um dos principais atores no ambiente escolar: o professor.

Qualquer que seja o panorama desejável para a Educação brasileira, fixem-se as metas que se fixarem a partir do estabelecimento de novos princípios pedagógicos, terá que estar sempre bem claramente definido o papel do professor e suas atividades em sala de aula, como elemento propulsor na formação do educando.

O professor sempre foi visto como o detentor do conhecimento, aquele a quem cumpria iluminar as mentes através da transmissão de informações, ensinamentos, saberes enfim.  Vem tendo sempre, por isso, ao longo dos tempos, o reconhecimento e a admiração das sociedades em função da nobreza de sua missão, embora esse sentimento quase nunca se materialize na retribuição de condições dignas de trabalho e de salário.  Muitas vezes, o “tapinha nas costas”  ajuda a levar adiante a sua saga e essa massagem no ego, que o compara a um sacerdote, contribui para a manutenção de conjunturas profissionalmente adversas, para não dizer perversas. Falar, pois, sobre o caminho a percorrer para que o professor seja profissionalmente valorizado como deve é correr o risco de dissertar sobre o óbvio.

Mas o que mudou, o que está mudando a olhos vistos, são as bases para o exercício da profissão, no plano ideológico. Paulo Freire nos dizia que “se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. E hoje, mais do que nunca, em uma sala de aula brasileira, não cabe mais a convocação do aluno se não for para torná-lo participante de um coletivo voltado para a produção de um  saber capaz de transformar, de promover mudanças. Não se pretende mais  um aluno passivamente recebedor de instruções, mas um ser que, com necessidades inadiáveis  a serem atendidas, torne-se ativo construtor da sua própria história. É óbvia a importância do professor nesse processo, e agora não mais como mero transferidor de conhecimentos, mas como mediador de uma construção de saberes integrados.”
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09 Setembro, 2011

O circo erudito de Deborah Colker

Dois anos após dirigir o Cirque du Soleil, coreógrafa carioca lança o seu 18º espetáculo, “Tatyana”, inspirado na literatura e na música russas. Assista aos vídeos


A coreógrafa brasileira Deborah Colker comemora o 18º ano de sua companhia de dança com um resgate da arte erudita em um projeto ambicioso. Seu novo espetáculo é uma adaptação do clássico russo Evguêni Oniéguin, do escritor Aleksandr Púchkin (1799-1837), recentemente traduzido e relançado no País. E a trilha sonora é composta de peças de compositores como Serguei Rachmaninov, Piotr Ilitch Tchaikovsky e Igor Stravinsky. O show criado por Deborah e seus colaboradores foi batizado de Tatyana, nome da heroína da história, ao lado de Oniéguin, seu amante. Entre os desafios assumidos, o maior será seguir um roteiro, algo que Deborah nunca fez.
Pela primeira vez, a coreógrafa compõe um enredo contínuo, narrando uma mesma história. Cada protagonista é interpretado por quatro bailarinos. Deborah participa como o narrador Púchkin, interferindo nas cenas.  Para intermediar o encontro de Deborah com o poeta russo, a bailarina contou com a consultoria do jornalista Irineu Franco Perpétuo, um especialista em música erudita e responsável pela tradução de duas obras de Púchkin para o português, diretamente do russo. Em curtíssima temporada, o espetáculo fica em cartaz até o dia 18, antes de viajar pelo País e depois, pelo exterior. O romance se passa no século XIX e narra a história de amor entre os dois personagens.
Tatyana Dança. No Teatro Alfa - Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo. Tel.: 5693-4000. 4ª, 5ª e sáb., às 21h; 6ª e dom., às 18h (dia 17 terá sessão extra às 17h). Ingr.: R$ 40 a R$ 100. Até dia 18.”










08 Setembro, 2011

Teatro e vida de Suassuna

Fábio de Castro, Agência Fapesp

“O contexto cultural e político do Nordeste da década de 1930 e a biografia marcada por intrigas e tragédias de família tiveram reflexo profundo na trajetória artística do dramaturgo Ariano Suassuna, de acordo com um estudo que tomou como ponto de partida a análise das oito peças teatrais escritas pelo autor entre 1947 e 1960.

O resultado da pesquisa é o livro O Brasil dos espertos – Uma análise da construção social de Ariano Suassuna como criador e criatura, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações e foi lançado no dia 2 de setembro em São Paulo.

A obra terá lançamento também no Recife (PE), no dia 8. O autor, Eduardo Dimitrov, cursa atualmente doutorado em Antropologia Social, com Bolsa da FAPESP, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

O interesse pelo trabalho de Suassuna, segundo Dimitrov, começou em sua pesquisa de iniciação científica, concluída em 2003, também com Bolsa da FAPESP. O livro é resultado do trabalho de mestrado.
“A pesquisa inicial já tinha o teatro de Suassuna como foco e busquei explorar as relações dessa produção teatral com a briga que envolveu as famílias Suassuna e Pessoa e que culminou com o assassinato de João Suassuna, pai do dramaturgo, em 1930”, disse Dimitrov à Agência FAPESP.

A morte do pai do dramaturgo teria sido uma vingança pelo assassinato de João Pessoa (1878-1930), cometido por um parente de Suassuna. A morte de Pessoa foi considerada o estopim da Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Mais tarde, a cidade da Paraíba, capital do estado, teria o nome alterado em homenagem a João Pessoa.”
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05 Setembro, 2011

Sobre a Filosofia e seu Método, de Schopenhauer

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

Nietzsche atrai muitos jovens para a filosofia por causa de sua personalidade. Antes da aridez dos textos filosóficos tradicionais, encontramos ali um homem, e sua personalidade nos fascina. Nietzsche talvez seja a primeira celebridade em filosofia. (“Celebridade” no sentido que Oscar Wilde cunhou, no século XIX.) Mas, antes de Nietzsche, houve Schopenhauer. Nietzsche sempre reconheceu sua dívida para com o mestre, mas os nossos jovens leitores, “nietzscheanos”, nunca embarcaram, com a mesma paixão, na obra de Schopenhauer. Talvez porque este, apesar de sua personalidade “convidativa”, exige que se compreenda todo um sistema ― algo de que Nietzsche nos exime, porque nunca o realizou (ficou só nos aforismos)... Mas, lendo Schopenhauer, percebemos que ele, na verdade, foi “a personalidade” antes de Nietzsche. E, embora não seja tão lido pelos nossos jovens, merece a mesma distinção “personalista” de Nietzsche ;-) Quem precisa de uma comprovação ― ou quem for jovem leitor e quiser se arriscar no mestre de Nietzsche ―, a editora Hedra começa a soltar o livro Parerga e paralipomena, uma “coletânea” introdutória a Schopenhauer, em versões de bolso. O primeiro volume se intitula, apetitosamente, Sobre a Filosofia e seu Método.
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04 Setembro, 2011

Educar para a celebração da vida e da Terra

Leonardo Boff, Congresso em Foco

“Dada a crise generalizada que vivemos atualmente, toda e qualquer educação deve incluir o cuidado para com tudo o que existe e vive. Sem o cuidado, não garantiremos uma sustentabilidade que permita o planeta manter sua vitalidade, os ecossistemas, seu equilíbrio e a nossa civilização, seu futuro. Somos educados para o pensamento crítico e criativo, visando a uma profissão e um bom nível de vida, mas nos olvidamos de educar para a responsabilidade e o cuidado para com o futuro comum da Terra e da Humanidade. Uma educação que não incluir o cuidado se mostra alienada e até irresponsável. Os analistas mais sérios da pegada ecológica da Terra nos advertem que se não cuidarmos, podemos conhecer catástrofes piores do que aquelas vividas em 2011 no Brasil e no Japão. Para se garantir, a Terra poderá, talvez, ter de reduzir sua biosfera, eliminando espécies e milhões de seres humanos.

Entre tantas excelências, próprias do conceito do cuidado, quero enfatizar duas que interessam à nova educação: a integração do globo terrestre em nosso imaginário cotidiano e o encantamento pelo mistério da existência. Quando contemplamos o planeta Terra a partir do espaço exterior, surge em nós um sentimento de reverência diante de nossa única Casa Comum. Somos inseparáveis da Terra, formamos um todo com ela. Sentimos que devemos amá-la e cuidá-la para que nos possa oferecer tudo o que precisamos para continuar a viver.

A segunda excelência do cuidado como atitude ética e forma de amor é o encantamento que irrompe em nós pela  emergência mais espetacular e bela que jamais existiu no mundo que é o milagre, melhor, o mistério da existência de cada pessoa humana individual. Os sistemas, as instituições, as ciências, as técnicas e as escolas não possuem o que cada pessoa humana possui: consciência, amorosidade, cuidado, criatividade, solidariedade, compaixão e sentimento de pertença a um Todo maior que nos sustenta e anima, realidades que constituem o nosso Profundo.”
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02 Setembro, 2011

Cuidado: texto contaminado. Não leia nem fodendo!

Eberth Vêncio, Revista Bula

Obrigado por não trocar de página, obstinado leitor. Ao contrário do que a saga moralista possa supor, o título nada mais é que arapuca para se atrair os olhos. A expressão chula ao final da frase (cujo significado seria “de jeito algum”; “em nenhuma hipótese”), que para muitos soará grosseira e dispensável, vocábulo fuleiro largamente utilizado entre quatro paredes até pelos mais pudicos amantes (ou indecentes gestores corruptos), a mim pareceu bem cabível, a despeito das recomendações maternoeditoriais e comichões do bom-mocismo. Prossigamos.

Ao contrário de mim, uma médica moradora de Sobradinho teve intenção verdadeiramente repelente ao fixar um cartaz no portão de casa com os seguintes dizeres ameaçadores: “Muro contaminado com sangue HIV positivo. Não pule”. Sem dúvida, muito mais criativo e impactante que o tradicional “Cuidado: cão feroz”.

A mulher experimentou notoriedade nos últimos dias, não pela descoberta de alguma técnica inovadora para se colar os ossos (a doutora é ortopedista), mas, sim, pela placa aterradora e por ter colocado sobre o muro da sua casa um sem número de seringas supostamente contaminadas pelo vírus da AIDS (haja sangue e gosma!). Ainda bem que ela teve o bom senso de não despejar sêmen contaminado com treponemas nos ladrilhos. Quem não tem fosso com crocodilos se vira mesmo é com micróbios. Parafraseando o cantor popular Nando Reis, somos os cegos do castelo.

Para justificar a ação bizarra, que a mim pareceu um escarrado e hilário manifesto, a médica alegou não tolerar mais que os meliantes invadissem sua propriedade para surrupiar pertences e aterrorizar a família. O Conselho Regional de Medicina, assim como os marginais invasores, promete ferrar a pobre doutora.”
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