30 Novembro, 2011

Imagens do inferno contemporâneo


“Poema em quadrinhos” vai além dos limites da escrita e da ilustração para expor dilemas da arte na alta modernidade

Alexandre Pilati, Outras Palavras

Está disponível no Brasil uma das obras primas de Dino Buzzati (1906-1972), autor italiano internacionalmente conhecido pelo romance O deserto dos tártaros (1940). Trata-se do Poema em quadrinhosi (Poema a fumetti, 1969), uma lancinante recriação gráfica e textual da descida de Orfeu aos infernos à procura de sua amada Eurídice. Dessa reunião entre grafismo e um texto poeticamente apuradíssimo nasceu uma das mais originais recriações do mito órfico e uma das mais instigantes viagens críticas nos meandros das estruturas políticas e culturais da alta modernidade.

Ao que parece, a forma encontrada por Buzzati para se expressar é fruto de um profundo dilaceramento do criador quanto aos materiais que escolhe para dar vazão à matéria poética. Longe de ser um mero texto ilustrado, Poema em quadrinhos é um texto de grande densidade poética articulado, de maneira magistral, a um registro gráfico que não é apenas legenda imagética do texto, mas que funciona como uma instância outra da própria poesia que a criação buzzatiana emana. Nesse sentido, a obra também poderá ser lida como um grito órfico (pela possibilidade de resistência crítica da arte) no meio da pasmaceira estética da indústria cultural. A fórmula de Buzzati, entre texto e imagem, surge, talvez, do dilema que foi indicado por ele mesmo em um livro de entrevistas, intitulado Dino Buzzati, pitore (1969). Como aparece reproduzido na edição brasileira, o artista afirma sobre o seu metier: “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério minhas pinturas”.

Levando a sério a empreitada gráfica e textual de Buzzati no Poema em quadrinhos, o leitor poderá fruir a eficácia estética atingida pelo autor na combinação das duas linguagens, que, na obra, diga-se de passagem, funcionam como uma terceira e potente linguagem artística, tamanha é a integração tensionada entre elas. E não poderia ser diferente, uma vez que a escolha do próprio tema impõe um desafio formal ao autor. Trata-se do velho mito de Orfeu que desce aos infernos para resgatar a amada Eurídice. Adaptado para a realidade contemporânea, os personagens centrais são nomeados como Orfi, um jovem cantor pop, e Eura, sua amada que desce ao inferno. Este nada mais é do que uma casa misteriosa e fantasmática na Via Saterna, em Milão, localizada em frente à janela de Orfi. Um dia, o cantor vê entrar na casa um vulto que lhe parecer ser o de Eura, que ultrapassa a porta, como se fosse um espírito. Posteriormente, Orfi sabe que Eura estava morta e decide entrar na casa-inferno para resgatar sua amada. Depois de uma série de acontecimentos, é dada a Orfi a chance de cantar uma canção capaz de emocionar o reino dos mortos o que lhe dará a oportunidade de encontrar a sua amada e retornar ao mundo dos vivos.

Não será necessário desenvolver aqui mais o enredo para que saibamos o quão fiel à narrativa mítica de Orfeu é o Poema em quadrinhos. Nele revemos algumas das unidades míticas que fazem a força da lenda: o cantor/poeta/artista (dono de um poder impotente); a amada (personificação de um ideal de beleza inatingível, ou irreconciliável com a vida); o inferno (sua reprodução pelo avesso do mundo dos vivos, revelando não como é a morte, mas como a vida é grave). Esses, por assim dizer, mitemas essenciais da narrativa órfica, que poderiam ser lidos como meros dados atemporais atualizados, sofrem uma filtragem contemporânea que possibilita reconhecer os câmbios sofridos por eles na intervenção artística buzzatiana, a qual tem como resultado a revelação de uma dolorida reverberação, no molde mítico utilizado, da história contemporânea. Assim, seria apropriado dizer que, no Poema em quadrinhos, não é a atualização do mito grego o dado decisivo para o resultado estético. Nesse caso, seria melhor considerar a forma como restos desse mito (e de outros mitos criados pela modernidade) se recompõem de acordo com novas demandas expressivas, propondo um resultado final de atualização da nossa visão do contemporâneo, sobretudo através das filtragens propostas pelas categorias de “canto”, “beleza” e “inferno”. Entre essas categorias, aquela que assume um potencial de aguda atualidade é a do inferno, transformado no próprio mundo da fantasmagoria burocrática da alta modernidade ocidental. Uma burocracia que é chefiada pelo diabo da guarda, na verdade uma jaqueta falante que controla as entradas e saídas do inferno. Uma burocracia que, além de tudo, é posta em prática por moças sedutoras que, na verdade, são meros simulacros do mundo artisticamente rebaixado da pornografia.”
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29 Novembro, 2011

Neon Genesis Evangelion

Duanne Ribeiro, Digestivo Cultural


“Desde outubro, o mangá Neon Genesis Evangelion está sendo republicado pela editora JBC - é a chance de conhecer ou redescobrir uma das franquias mais relevantes dos quadrinhos e da animação japonesa. No Japão, a HQ foi lançada em fevereiro de 1995, como um modo de divulgar sua versão em animação, e ainda não foi concluída. O anime, exibido a partir de outubro daquele ano e encerrado em 1996, alcançou sucesso e repercussão; em 2007, foi considerado por um agência do Ministério de Educação japonês como o melhor de todos os tempos. A série pode ser comparada a Sandman, de Neil Gaiman; Watchmen, de Alan Moore; ou Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller - na medida em que também representa um salto de maturidade dentro de seu gênero.

Como Miller e Moore quanto aos quadrinhos americanos, Evangelion lida com uma forma japonesa típica - enquanto os primeiros releem o conceito de super-herói, a série faz uso do gênero dos mecha, isto é, robôs gigantes, controlados por humanos. Como Gaiman, seu mundo é criado em diálogo com referências culturais diversas - se ele cria sua fantasia a partir de múltiplas mitologias, ela recorre principalmente à tradição judaico-cristã. O núcleo da produção, no entanto, não está ai; além da ficção científica e do fantástico, seu foco está no relacionamento humano, nos abismos da relação do indivíduo consigo e com os outros.

Os principais artistas na produção de Evangelion são Hideaki Anno e Yoshiyuki Sadamoto. Sadamoto fez o design de personagens para o anime e produz a adaptação em mangá. Além disso, é um dos fundadores do estúdio Gainax, responsável pelo desenho animado. Já Anno foi o diretor da animação. Seu talento foi revelado pelo trabalho com Hayao Miyasaki - um diretor conhecido no Brasil para além de nichos, por obras como A Viagem de Chihiro - para o qual foi animador em Nausicaä do Vale do Vento.

A história se dá em um cenário distópico. No ano 2000, a Terra é atingida por um meteoro; a catástrofe, que fica conhecida como "Segundo Impacto", reduz a população mundial pela metade. Quinze anos depois, ainda em processo de recuperação, a raça humana é ameaçada novamente, por imensas criaturas, resistentes a todo tipo de ataque convencional e evidente objetivo de destruição: os "anjos". Para confrontá-los, haviam sido criados os EVAs, andróides que precisam ser pilotados por adolescentes específicos, com características necessárias para a "sincronização" com os robôs. A relação entre o cataclismo, a chegada dos monstros e a prontidão visionária dessas novas "armas" serão depois esclarecidos, assim como a razão do uso de um nome cristão para nomeá-los.”
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28 Novembro, 2011

Se Deus não existia, Carolina o criou


Elder Dias, Revista Bula

“Li algumas vezes, desde quando foi escrito, há uns dois meses, o texto da notável Carolina Mendes sobre Deus. Resolvi desenvolver uma espécie de réplica e encaminhar ao aceite da Revista Bula sobre o tema, não para debater a existência ou não de Deus — algo, diga-se, bem diferente do que discutir a existência ou não de vacas voando, mesmo para quem não crê “at all”. Escrevo para afirmá-la, a existência. 

Deus existe, sim. Por isso, aviso que este texto vai ficar, além de óbvio, repetitivo. Parafraseando o velho hit pós-Beatle do Paul, Deus vive e deixa morrer. Mas Deus não é só uma questão de autoridade, de onipresença ou de onisciência. Antes de tudo, Deus é uma questão discursiva. Poderia dizer que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, mas, para ser menos pseudoexegeta, vou dizer apenas que Deus é discurso. 

No momento em que Carolina Mendes falou em Deus, se ele não existisse, passaria a existir. Carolina o criaria naquele momento. Nesse sentido, age o poder mágico da palavra: tudo de que se fala, de que se tem notícia, passa a existir, material ou imaterialmente. O verbo (ou Verbo) tudo cria. Nada pode existir, para o homem, sem o Verbo, em suas mais variadas formas: falada, gestualizada, semiótica... 

Ainda assim, Deus existe como existe uma vaca alada? Não. Por quê? Simples: todos podem imaginar e ter certeza de como seria uma vaca voando, mesmo que nunca tenham visto alguma cometendo tal façanha. O mistério da imagem de Deus, claro, é mais complexo: a visualização mais comum, no Ocidente, é aquela de um senhor de barbas brancas sentado em um trono, em algum lugar lá em cima.”
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27 Novembro, 2011

Malfeitos do capitalismo


Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“O vazamento de óleo na plataforma fluminense permite algumas observações que merecem atenção. A Chevron é, na sua especialidade, no mundo do petróleo, uma empresa grande, segundo dizem maior que a nossa grande Petrobras. Mas essa gigante petrolífera americana (será ela um dos orgulhos da iniciativa particular?), deu um show de incompetência no episódio do vazamento. Mobilizando-se apenas depois de ter sido alertada pela Petrobras, mostrou-se incapaz de identificar com precisão o local do desastre, por falta de equipamento adequado. E foi a nossa estatal que emprestou à empresa americana equipamentos mais modernos, capazes de possibilitar essa identificação e de ensejar um atrasado plano de contenção. Retardando procedimentos, a Chevron revelou-se pouco ágil diante do acidente e, com informações incorretas e desencontradas, permitiu que se pusesse em dúvida outros aspectos de sua gestão no campo administrativo e mesmo ético.

O artigo do Mair Pena Neto aqui no DR (“Fora Chevron!”) é, a esse respeito, bem esclarecedor. E aqui vou além. Que me desculpe o pessoal do neoliberalismo, mas o desastre  põe a nu, uma vez mais, a realidade que um pensamento falacioso teima em escamotear: não é verdadeira a afirmação de que o empreendimento particular é, por definição, mais eficiente que o estatal.

E é bom, mais uma vez, tomarmos cuidado para não engolirmos gato por lebre. Ouvi na CBN uma incensada comentarista política declarar que “salta aos olhos”, na ocorrência, a incompetência dos órgãos reguladores (ou seja, vinculados ao Estado), aos quais faltaria uma ação fiscalizadora  mais eficaz. Claro que ela não deixou de criticar a petrolífera americana, mas imediatamente me lembrei do caso da TAM, em que certa mídia fez o possível para transferir para o âmbito do Estado brasileiro a responsabilidade pela tragédia de então. Se você prestar atenção, verá que todas as vezes que o empreendimento particular dá com os burros n’água, surge uma acusação ao poder público. Cômodo, não?  Os desavisados que ouvem esses acusadores podem  imaginar que eles defendem uma forte ação  controladora do Estado, mas as pessoas atentas percebem que esse controle só é lembrado nas catástrofes...”
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25 Novembro, 2011

Se não for dirigir, beba todas!


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Há diversos paradoxos para se enumerar nesta vida. Por exemplo: a dicotomia entre deus e o diabo, a peleja entre o bem e o mal, conforme magistralmente mostrado na prosa do escritor médico Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. Uau! Que livro! 
Pois então. Não somente as autoridades advertem, mas, as próprias cervejarias recomendam (forçadas pelo tacape da lei), ao final de suas belas peças publicitárias repletas de garotões sem barriga e mulheres jovens saradas: “Se beber, não dirija”. 

No fundo, no fundo, os telespectadores ficam imaginando que, ao tomarem cervejas das marcas xis ou ipissilone, ficarão tão felizes e atraentes quanto aquelas personagens sorridentes da telinha. Pior que, às vezes, a metamorfose alcoólica prevalece e nos tapeia. Feiosos viram galãs. Barangas transformam-se em princesas. Tudo não passa de ilusão e fantasia. É fato: ninguém sai melhor depois de um porre.

Gosto de ouvir o doutor televisivo Elsimar Coutinho em suas palestras e entrevistas, por causa da inteligência, sarcasmo, bom humor, cultura vasta e coragem ao defender os seus pontos de vista quase sempre polêmicos. Não é incomum que ele seja criticado (e invejado) por seus pares de jaleco, devido ao falatório, à verborragia, opiniões nem sempre referendadas pela comunidade científica. 

Já presenciei algumas falas do ilustre médico baiano. A última ocorreu no feriado, durante o Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, na chuvosa e friorenta Curitiba. Enquanto ensinava, divertia e convencia a seleta plateia de doutores que lotava o auditório, quanto à suposta inutilidade dos catamênios na vida das mulheres, o autor de “Menstruação: A Sangria Inútil” fez um adendo ao comentar sobre a Lei Seca e o esforço governamental para mitigar os efeitos do álcool no trânsito.”
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24 Novembro, 2011

Quando a vaidade termina em desastre


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Cada vez mais a obssessão pela boa forma vem fazendo vítimas em todo o mundo. No caso das cirurgias plásticas, se não estiverem por trás verdadeiros especialistas no assunto,  o resultado pode se transformar em tragédia,  podendo chegar até a morte ou a deformações irreversíveis.

A mulher da foto acima, moradora de Miami,  é uma dessas vítimas da irresponsabilidade de falsos médicos. Ela queria aumentar os glúteos e procurou um pretenso cirurgião plástico, que se passava por médico.
Mas em vez de injetar o silicone, como estava  combinado com a vítima, aplicou-lhe uma injeção altamente tóxica que serve para inflar pneus de automóvel. Resultado, o produto provocou uma reação tão violenta no organismo da mulher que a deixou com os quadris imensamente deformados.

A coitada que só queria arrebitar o bumbum quase morreu por causa da substância nociva que se transformou num cimento tão duro e resistente que será quase impossível removê-lo, segundo dizem médicos verdadeiros. Sim, porque o autor da  barbeiragem já foi desmascarado e vai responder pelo crime cometido. As investigações descobriram que ele e sua equipe de “especialistas” já causaram danos graves em corpos de outras vítimas.

Enquanto os picaretas vão enfrentar a Justiça, a mulher terá, talvez, que amargar a terrível deformação pelo resto da vida. Claro que os falsos médicos são completamente responsáveis pelo ato criminoso, mas a mulher também tem lá sua parcela de culpa, por não pesquisar corretamente nas mãos de quem estava entregando seu corpo.”
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23 Novembro, 2011

Os novos Capitães da Areia


Filme recria história dos meninos do trapiche de Jorge Amado com ótimo elenco, muito humor e música de Carlinhos Brown

Maria do Rosário Caetano, Brasil de Fato

Os Capitães da Areia estão de volta ao cinema. Há que se prestar atenção: são capitães da areia e não capitães de areia. Jorge Amado quis situar seus meninos em espaço preciso: um trapiche plantado nas areias quentes do mar da Bahia. Um trapiche-esconderijo. Se seus capitães fossem “de areia” seriam frágeis e desmanchariam como castelos feitos por meninos-escultores em dias de lazer praiano.

O romance, que já vendeu milhões de exemplares desde sua primeira edição (1937), ganhou, em 1970, versão cinematográfica gringa: The Sandpit Generals (ou The Wild Pack), dirigida por Hall Bartlett, falada em inglês e premiada no Festival de Moscou. No Brasil, esta versão só chegou às madrugadas televisivas, rebatizada de Dora. O sexto romance de Jorge Amado resultou, também, em minissérie de TV, dirigida por Walter Lima Jr, e em várias montagens teatrais. A adaptação atual traz na direção a estreante Cecília Amado, neta do escritor que faria 100 anos em 2012.

A jovem realizadora, filha de Paloma Amado, trouxe a trama original dos capitães da areia, ambientada nos anos 30, para a década de 50. E fez dos protagonistas Pedro Bala e Dora adolescentes morenos (ao contrário dos loiríssimos personagens do romance). Cecília embalou a narrativa em arrebatadora trilha de Carlinhos Brown e, o que é melhor, ampliou as tiradas de humor dos “capitães”. Jorge Amado, afinal, sempre encontrou espaço para exercitar duas de suas características mais sedutoras: o erotismo e o riso (às vezes rasgado, às vezes mordaz). O humor está até em seus romances mais raivosos (caso de O País do Carnaval, escrito aos 19 anos).”
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22 Novembro, 2011

Literatura censurada pela ditadura é tema de estudo


Fábio de Castro, Agência FAPESP
 
“Entre 1970 e 1988, durante a última ditadura militar no Brasil, mais de 140 livros nacionais chegaram a sofrer censura prévia.

A partir do estudo dos atos censórios do Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP), uma pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) sistematizou pela primeira vez uma listagem das obras de ficção censuradas, além de identificar e analisar, a partir de alguns casos particulares, os mecanismos de censura utilizados.

Os resultados do estudo estão sintetizados no livro Repressão e resistência: Censura a livros na ditadura militar, de Sandra Reimão, professora da Escola de Artes e Ciências Humanas (EACH) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

O livro, que teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Publicações, será lançado no dia 7 de dezembro, às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Segundo Reimão, o projeto da obra surgiu após a leitura do livro Roteiro da Intolerância: A censura cinematográfica no Brasil, de Inimá Ferreira Simões, lançado em 1999. Vários dos filmes censurados que constavam no livro de Simões eram adaptações de obras literárias.”
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21 Novembro, 2011

Crianças sem esperança


"Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais."

Leila Cordeiro, Direto da Redação

Isso é o que diz a Unicef, em  um dos artigos do Estatuto da criança e do adolescente, mas que na realidade está longe de ser cumprido. Atualmente, segundo pesquisa da Organização Internacional do Trabalho, mais de 215 milhões de meninos e meninas, muitos com apenas três anos de idade, são forçados a trabalhar em muitos países.

O estudo denuncia também a exploração sexual infantil. Ao redor desses campos de trabalho, por exemplo, meninas  começam como prostitutas já aos nove anos de idade, correndo o risco de contrair Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

Governantes dos países que ainda exploram crianças  tentam justificar o trabalho escravo infantil,  alegando que isso faz parte de uma tradição para garantir o sustento das famílias desde cedo.
Mas não é bem isso o que a OIT denuncia, quando afirma   que já  denunciou empresas multinacionais como a Benetton (na Turquia) e a Primark (na Índia), que “utilizam mão de obra infantil para baratear seus custos”.
O fato é que quando se fala em criança, pensa-se logo em justiça, esperança, alegria e sonhos,  tudo o que esses jovens seres humanos que vivem nos campos de trabalho nunca conheceram e, provavelmente, nunca irão conhecer. Não há previsão alguma de um programa efetivo das Nações Unidas que os proteja dessa exploração, apesar das inúmeras denúncias sobre essa  prática.”
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20 Novembro, 2011

Nelson Motta “mata” Glauber Rocha pela segunda vez


Euler de França Belém, Revista Bula

“A excelente biografia “Darwin — A Vida de um Evolucionista Atormentado”, de Adrian Desmond e James Moore, saiu com erros e a Geração Editorial encomendou uma revisão técnica, relançou o livro e fez as trocas com os leitores. Bastava levar a edição antiga às livrarias e proceder à troca. Infelizmente, a Editora Objetiva mostra-se menos responsável e decidiu, mesmo depois de dezenas de erros apontados por intelectuais baianos — e certamente há outros equívocos —, manter em circulação o livro “A Primavera do Dragão — A Juventude de Glauber Rocha”, do escritor e produtor musical Nelson Motta. A Objetiva informa que vai lançar nova edição corrigida, mas a primeira edição, verdadeiro lixo de triste figura, vai continuar nas livrarias. Quem comprou a edição eivada de falhas terá de jogá-la fora ou vendê-la em algum sebo desavisado. Os erros foram anotados e divulgados pelo repórter Claudio Leal, da “Terra Magazine”.

Depois dos problemas apontados pelo magnífico levantamento de Claudio Leal, verdadeiro serviço de utilidade pública, um leitor entrou em contato com a “Terra Magazine” e apontou mais um, diria o biógrafo Motta, probleminha. O Teatro Castro Alves, no Campo Grande, “foi construído pelo governo Antonio Balbino e, antes da inauguração, destruído por um incêndio”, corrige Claudio Leal. Motta diz que o TCA foi construído pelo reitor da Universidade da Bahia, Edgard Santos. Uma leitura mais criteriosa certamente apontará mais erros, pois há indícios de que, como pesquisador, Motta é desleixado. Ao contrário dos jornalistas Fernando Morais e Ruy Castro, autores de biografias celebradas pela precisão, Motta parece não checar as histórias que recolhe ou, quem sabe, inventa — às vezes atribuindo-as a fontes que, mortas, não podem desmenti-lo.

As correções principais partiram de integrantes da geração Mapa (título de uma revista). O poeta e historiador Fernando da Rocha Peres é o crítico mais candente. “Tenho a dizer que o livreco é feio, mal escrito, mentiroso e mais houvera adjetivos”, escreveu à Objetiva, ou Não-Objetiva (editoras americanas e inglesas têm o hábito de consertar as barbeiragens de escritores e biógrafos).

Fernando da Rocha Peres é chamado por Motta, na biografia-errata, de “Bananeira”. Mas o cacho foi encontrado noutra freguesia. Pois quem tem o apelido de “Bananeira” é outro Fernando — o jornalista Fernando Rocha. Este, por sinal, garante que nunca deu entrevista ao biógrafo-errata.

João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, é tido e havido como o autor da mais alentada e respeitada biografia do cineasta baiano — “Glauber Rocha, Esse Vulcão” (Nova Fronteira). O livro de Motta — que certamente estava em transe, com os pés fora da terra, quando o escreveu (seria uma psicografia desviante, ou melhor, delirante?) — usa “um anedotário gasto, sem sentido e já desmoralizado”, disse João Carlos à “Terra Magazine”.

Todo malemolente (ou malevolente?), Motta conta que Caetano Veloso, o cantor e compositor baiano, teve um caso com Anecy Rocha, a irmã do diretor de “Terra em Transe”. O biógrafo João Carlos, este sério e criterioso, repara: “Nunca soube que Caetano Veloso, que nem tinha vinculação com nossa geração, nem aparecia em nada que fazíamos, teve algum caso de amor com Anecy. E, se teve, isso é absolutamente irrelevante para a compreensão da vida de Glauber”. Motta diz que ouviu isto de alguém e, portanto, emplacou no livro — sem checar. Teria ouvido a “informação” durante algum sonho? Freud às vezes explica a confusão entre realidade, desejo e fantasia.”
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18 Novembro, 2011

Chaves do Inferno


“Trecho de um artigo de Ademir Luiz, para o Jornal Opção, no qual defende Roberto Gómez Bolaños como sendo "o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado 'Chaves'". Vale a leitura.

Yuri Vieira, Digestivo Cultural

(...) A polêmica [sobre o conceito de Inferno] continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores: Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sadosmasoquistas de Clive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras.

Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953–2003), autor do calhamaço “2666”. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado “Chaves”. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do demônio é convencer-nos de que ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes, lava. Em “Chaves”, verdadeiramente, “o inferno são os outros”.

Bolaños encheu sua criação de sinais que devem ser decodificados para que se revele seu verdadeiro sentido de auto moralizante. O primeiro e mais importante é o título. Originalmente, o seriado chama-se “El Chavo Del Ocho”, ou traduzindo do espanhol: “O Moleque do Oito”. Ninguém sabe o verdadeiro nome do protagonista, que nunca foi pronunciado. Cha­mam-no apenas de “Moleque”. O nome próprio Chaves é uma adaptação brasileira, uma corruptela da palavra “chavo”. É certo que um “chavo”, ou “moleque”, é quem faz molecagens; quem subverte a ordem do que seria moral e socialmente aceito como correto. Em livre interpretação, o “moleque” é um pecador. Portanto, o seriado trata de pecados. Não de pecados mortais, pois do contrário dificilmente seus personagens gerariam simpatia, mas, com certeza, de pecados capitais. (...)"

17 Novembro, 2011

Mulheres entraram na ciência pela cozinha


Elton Alisson, Agência FAPESP

“A cozinha franqueou a entrada das mulheres no laboratório científico – o marco da ciência moderna que se transformou em um espaço eminentemente masculino, onde algumas delas se destacaram a duras penas em áreas que até então não atraiam a atenção dos homens.

A avaliação foi feita por Ana Maria Alfonso-Goldfarb, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, na penúltima edição do Ciclo de Conferências Ano Internacional da Química – 2011, realizada em 9 de novembro no auditório da FAPESP com o tema “A contribuição de Marie Curie para a ciência e um olhar sobre o papel das mulheres cientistas”.

De acordo com Goldfarb, foi por meio da habilidade de atear e controlar o fogo para preparar os alimentos – considerada uma atividade difícil e propriamente feminina – que as mulheres ajudaram a desenvolver até meados da Idade Média uma série de produtos. Entre eles estão os primeiros destiladores, extratos, além de perfumes, medicamentos, pomadas e licores.

“A cozinha era um espaço restrito para a maioria das mulheres. E foi entre a preparação de caldos e guisados que elas começaram a praticar o trabalho de laboratório desenvolvendo uma série de produtos que, posteriormente, passaram a ser utilizados por médicos e botânicos, na maioria das vezes se apropriando das descobertas femininas e não lhes atribuindo o devido crédito”, disse.

Segundo a pesquisadora, foi entre os séculos 16 e 17, quando o prelo se tornou importante e aumentou a circulação dos livros, que a “medicina da cozinha” ou “química das damas”, como foi denominado esse trabalho realizado pelas mulheres nos laboratórios-cozinha da época, ganhou maior importância.”
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16 Novembro, 2011

Ela tem os olhos de um husky siberiano


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Os Países Bálticos constituem uma região do nordeste da Europa cujos países integrantes são a Estônia, a Letônia e a Lituânia. Quem nasce na Estônia é estoniano; na Letônia, letoniano; na Lituânia, lituano, eem Cachorro Sentado-Go, cachorro sentado (ou cadela sentada). 
Não sou tão culto quanto se poderia presumir. Pesquisei algumas fontes, inclusive o Seu Damásio, professor estadual aposentado que carrega uma placa dependurada no seu sexagenário pescoço, em que vai escrito “compra-se ouro”. “Tô ralando mais agora do que quando riscava a lousa”, reclama o eterno professor. 

O preâmbulo geográfico é pertinente. O protesto contra a histórica desvalorização dos mestres, idem. Não desistam, meus caros. Leiam. 
Jotabê parece enxergar o mundo de ponta-cabeça. É o que diz o povo quando uma pessoa escapole dos padrões do “belo quadro social”. Mulheres diuturnamente expansivas, comunicativas e bem humoradas são taxadas como vulgares, idiotas. Faltam-lhes parafusos na cabeça, é o que dizem. 

Outro exemplo de julgamento pelas aparências (um dos nossos mais corriqueiros defeitos): se um homem aprecia poesia, afirmam logo que é um tolo, sonhador ou efeminado (ou as três coisas juntas). Antes que os gays mais engajados cortem os seus pulsos com prestobarbas e me acusem de ser preconceituoso, garanto que não adjetivei com propósito depreciativo. Nem pra tentar fazer graça. Não sou um Rafinha Bastos. 

Naqueles casos em que o sujeito prefere vestir as mesmas roupas de sempre, aquelas com as quais se sente mais confortável, rotulam-no brega, démodé, feio. E se ele trata o seu carro como se ele fosse apenas um carro mesmo, ou seja, uma máquina sobre quatro rodas concebida para conduzi-lo pelas loucas ruas da cidade, muitos o criticam dizendo que precisa logo trocar “aquela lata velha”, aproveitar a redução do ipeí do Governo, comprar um veículo zero quilômetro com trio elétrico, ar condicionado, ér-bégui, trava nas portas e direção hidráulica. “Sofrer pra que, rapá? A vida é curta...”, é o que muitos apregoam ao justificar tanta sede de consumo.”
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14 Novembro, 2011

Elogio do boteco


Leonardo Boff, Adital
 
“Em razão do meu "ciganismo intelectual” falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem número de temas que vão da espiritualidade, à responsabilidade socioambiental e até sobre a possibilidade do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria das pessoas amigas não pode desfrutar destas comidas e especialmente os milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra, se, nas palavras de Gandhi, "a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina que existe?”.

É neste contexto que me vem à mente como consolo os botecos. Gosto de frequentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Ai se vive uma real democracia: o boteco ou o pé sujo (o boteco de pessoas com menos poder aquisitivo) acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só chegar, ir sentando e logo gritar: "me traga um chope estupidamente gelado”.

O boteco é mais que seu visual, com azulejos de cores fortes, com o santo protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de espírito, o lugar do encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.”
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13 Novembro, 2011

Cinema fora de época


“O império da razão, defendido por Rossellini, acabou construindo um mundo onde a arte raramente vence as barreiras da mercadoria

Arlindenor Pedro, Outras Palavras

Os alemães ainda não tinham retirado suas tropas da Itália e mesmo assim Roberto Rossellini filmava pelo país sua obra mais eloquente: Roma, Cidade Aberta. De forma clandestina, imagens eram geradas para este filme, que deu o primeiro passo para uma das escolas de cinema mais importantes do pós-guerra: o neo realismo italiano, que, após anos de uma cinematografia de propaganda da sociedade fascista, fez um contraponto ao seu moralismo positivista, se propugnando em mostrar, através da força das imagens e dos roteiros, a realidade nos seus mínimos detalhes, decantando-a, retirando dela o seu glamour, o seu luxo, deixando-a desnuda.

Influenciados pelo realismo poético francês de antes da guerra, que colocara o trabalho dos roteiristas num primeiro plano — evidentemente calcado nas novas características técnicas do cinema, onde o som se mesclava com as imagens –, diretores geniais como Rossellini, Luchino Visconti e Vitorio De Sicca criaram verdadeiras obras primas, onde o realismo casava-se com elementos de ficção, em alguns momentos aproximando-se mesmo do filme documentário, mas, diferentemente dele, desenvolvendo uma obra poética intensa, com atores amadores ou mesmo pessoas do povo interpretando personagens numa performance dramática da força da vida-vivida.

Roma, Cidade Aberta é um clássico e, sem dúvidas, inicia uma escola que até hoje influencia muitas formas de cinema, como, por exemplo, o atual cinema iraniano, tão aclamado pela critica. Vários movimentos cinematográficos beberam na sua visão estética e na forma de fazer cinema intuitivo, o cinema de autor — o cinema a serviço de uma coletividade. A junção de populares italianos com o clima opressivo da cidade ocupada; os conflitos dos personagens e suas escolhas perante os problemas que se apresentam — de viver ou não viver ou mesmo de como continuar vivendo e convivendo com a traição; a questão da entrega da vida no acreditar de uma causa, não importando questões ideológicas, mas puramente no sentimento de liberdade, são elementos próprios da natureza humana, que se repetem no dia a dia, mas certamente são acentuados em períodos de crise, como o da guerra. Isso cativou cineastas posteriores, como na Nouvelle Vague francesa e o Cinema Novo no Brasil.

Rossellini, antes da guerra, tinha filmado para o Estado fascista, mas soube romper com ele após o desencantamento com seu determinismo racionalista que impedia o fluxo da criação. Tendo participado com outros jovens cineastas, como Visconti, De Sanctis e Antoniani da Revista Cinema, que era dirigida pelo filho do il Duce, Vitorio Mussolini, um amante do cinema, viveu o ambiente inquieto da cultura italiana dos anos 1938 e 40. De certa forma, contribuiu ali para o desmoronamento interno das certezas do regime fascista. Durante o governo de Mussolini, fez vários filmes, como, por exemplo, Un Pilota Retorna, com roteiro de Michelangelo Antonioni. Já ali desenvolve a sua concepção própria de cinema, ao tratar a guerra não só do ponto de vista do herói militar, e sim como uma situação impar no processo histórico, que envolve a todos — combatentes e não combatentes, crianças, velhos, num drama de natureza abrangente.”
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11 Novembro, 2011

Dá pra raciocinar usando Chanel?


Carolina Mendes, Revista Bula

“Começou com a Clara Averbuck, uns 10 dias atrás, comentando que um sujeito afirmou que "mulher bonita não tem que ser inteligente".

E eu fiquei pensando sobre pensamentos dicótomos mas não opostos. Ser alto impossibilita ser baixo. A gente por aqui tem essa mania de achar que uma característica elimina outra. Exemplo, marxista rico, modelo inteligente, ninfomaníaca fiel, atleta intelectual, vegetariano gordo.

Seguimos. Não sei se é algo acompanhado pelo grande Brasil, mas em São Paulo a bola da vez é se posicionar a favor ou contra os USPianos que invadiram a reitoria. Pesquisem pela internet a parte jornalística da coisa, eu vou poupar vocês de informações irrelevantes.

Eu não fiz USP, pelo simples fato de não ter passado no vestibular. Só por isso. Talvez, se tivesse feito, a vida acadêmica me parecesse menos insuportável e eu tivesse terminado a faculdade de Direito. Talvez por ser tão disputado o ingresso, eu tivesse me obrigado a terminar e hoje seria mais uma advogada enfurecida, de tailleur bem cortado. Nunca saberemos.

Mas o caso é que eu respeito a USP e principalmente alunos e professores da USP. Em uma das reportagens a respeito apareceu no meio dos alunos manifestantes, que pedem que a PM saia do campus, um rapaz vestindo uma camiseta da GAP. GAP é uma loja comum nos Estados Unidos, que por lá não diria muita coisa sobre o aluno, mas que por aqui virou estopim para uma série de comentários idiotas. Instantaneamente, a turminha do "se hay movimiento soy contra", decretou: "o que alguém que usa GAP tem a dizer sobre o mundo?".

Protestar usando GAP não pode. Pode protestar de rímel e unha feita? Pode ir ao protesto de carro? Pode ir quem tem carteira assinada, plano de saúde e viagem de réveillon marcada? Pode protestar quem depila as axilas? Tô confusa. O que tira a legitimidade de uma pessoa que quer protestar? A causa? A camiseta? O saldo?”
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10 Novembro, 2011

Memórias de Água Fria

Urariano Mota, Direto da Redação

“O leitor não se assuste, que o título acima não é de memórias que entraram numa fria. Trata-se do nome do livro que um grupo de amigos, no vigor dos 60 anos, resolveu escrever sobre o bairro da sua infância e juventude. Bairrismo literal à parte, Água Fria bem merece. Bem posto na zona norte do Recife, o bairro foi berço ou abrigo  de artistas, atletas, políticos, escritores e bandidos, mas nem sempre nessa ordem.
Dos mais famosos lembram-se o gênio Sivuca, o cineasta Vladimir Carvalho, o cantor Orlando Dias, o Mestre Ginu do mamulengo, o goleiro Manga, mais o Pai Adão do Xangô, o Maestro Formiga, o seu João do Caldíssimo e o herói Gregório Bezerra. Dos menos, ou melhor, nada famosos, vêm o autor destas linhas e outros marginais, alguns doutores em universidades, até reitores, que trocaram o caldo de cana com pão doce pelo uísque 12 anos.   
Se o livro fosse um filme da Metro Goldwyn Mayer passando no Cine Império, o maior do bairro  em 1960, logo depois do rugido fascinante do leão iria aparecer na tela em letras colossais:
“A Editora Coqueiro tem o grato prazer de oferecer “Memórias de Água Fria” - o livro que conta a história do bairro pelos seus mais apaixonados habitantes. Sexo, roubo, crimes, amor e aventura estão nesse encontro de onze grandes marginais, ex-lascados de vida, que agora pensam que estão ricos e se acham até escritores”.
Depois, com imagens na tela de mulheres com seios entrevistos, e de sombras correndo em frente à igreja de Santo Antonio, de sons de batuques e de gargalhadas moleques, gritando em falsete,  “Aaaaaiiii”, o locutor com voz das cavernas narraria:  
“Água Fria dos carnavais, dos roubos de cocos, de ladrões jovens que viraram doutores. Água Fria dos adolescentes queijudos flagrados em sua primeira noite na zona. Água Fria de seu João do Caldíssimo, o caldinho que recebia anúncio grátis de Paulo Gracindo via Embratel. Água Fria do terreiro de Pai Adão, o mais antigo templo de xangô do Nordeste. Água Fria das namoradas que não envelhecem nunca está de volta.”
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09 Novembro, 2011

Muito antes da metade do caminho


A notícia da soltura foi uma festa. A vizinha saiu correndo de casa e chamou do nosso portão. Gritou lá da rua: “Seu irmão foi solto”. Minha mãe chorou de novo

João Carlos Ribeiro Jr. / Brasil de Fato

Na tarde seca em que meu tio e avô foram presos, minha mãe chorou compulsivamente. Eu queria ficar com ela, mas a vizinha, que tinha telefone e trouxe a notícia, me mandou ir brincar na rua. Meu pai chegou logo depois e não entendeu nada, ficou confuso. Ninguém sabia o motivo.

Eu tinha sete anos de idade, fiquei assustado. No dia seguinte recebemos outra ligação dizendo que meu avô já tinha sido solto. O meu outro tio, que acompanhava a situação, disse pra minha mãe não pegar estrada, não era necessário. Quando surgissem mais notícias, ele daria.

Dias passaram e minha mãe incorporou uma tristeza silenciosa, olhos cinzentos. A notícia inesperada da prisão havia me dado um tipo novo de liberdade, que me permitia ficar mais tempo na rua, mas eu sempre queria voltar logo.

Eu não sabia explicar o que tinha acontecido. Todos os meus amigos e algumas mães curiosas me perguntavam, mas eu só sabia que meu tio estava preso. Na escola, minha professora pediu que não falássemos sobre o assunto, que aquilo não era para sala de aula. Isso não impediu que eu ficasse um pouco famoso. Na minha casa, a desolação.

Passei a disputar a atenção de minha mãe com narrações épicas de jogos de futebol. Mentia descaradamente. Em palestras miraculosas, era goleiro de defesas memoráveis e, jogando na linha, craque goleador. Num dia, Ademir da Guia; no outro, meu chute era um balaço de Rivellino. Fui Pelé muitas vezes.

A notícia da soltura foi uma festa. A vizinha saiu correndo de casa e chamou do nosso portão. Gritou lá da rua: “Seu irmão foi solto”. Minha mãe chorou de novo.

Aí ela me disse que eu perderia alguns dias de escola porque visitaríamos meu tio. Viagem de ônibus, quatro horas de distância. Meu pai e minha mãe trancaram a fala e os gestos. Escassez de afeto. Eu, que queria olhar tudo pela janela, captar a paisagem total, inteira, fiquei com a cabeça pesada e uma torção estranha no estômago. A única coisa que minha mãe me dizia era para que, ao chegar, não olhasse muito para meu tio, não ficasse com cara de assustado, agisse como um moço grande. Isso foi repetido, repetido, repetido e fiquei nervoso. Muito antes da metade do caminho eu já estava como eles, calado e desinteressado pela janela. Eu podia contar cada minuto do caminho.

Quando chegamos, meu avô, que só tinha me visto recém-nascido, me segurou pelos dois braços e me levantou alto, contra a luz, como se atestasse seus genes. Meu outro tio fez uns gracejos, bagunçou meus cabelos. Não me importei muito, mas estava ansioso para conhecer meu tio que tinha sido preso. Eu não podia ficar olhando fixamente, parecer assustado, me espantar. Não tinha me esquecido disso, mas queria espiá-lo um pouco.”
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08 Novembro, 2011

Chama o ladrão!


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Depois dizem que não dá para morar no Rio por causa da violência.  Porque  no Rio não se pode andar nas ruas, porque no Rio os arrastões pegam todo mundo em túneis e avenidas, porque no Rio as balas perdidas atingem inocentes a toda hora. Tudo bem,   ninguém discute.  Mas não dá para esconder que a violência em São Paulo está igual ou pior que a carioca.

Pelo andar dos acontecimentos a terra da Garoa está fazendo jus ao nome de suas principais vias de acesso à cidade chamadas de Marginais,  quando o assunto é criminalidade. A quantidade de ocorrências policiais é tanta que chega a não caber nas primeiras páginas de sites e jornais de papel. São tantos e tão diferentes os tipos de crimes que deixam qualquer um com medo de andar pelas ruas da maior metrópole da América Latina.

Em agosto último, estava eu aguardando a mala na esteira  do aeroporto internacional de São Paulo, quando fui abordada por um senhor de cabeça branca que me perguntou qual tipo de relógio eu estava usando e se portava bolsa ou bagagem que chamasse a atenção com laptop dentro. Respondi que não,  que não estava usando nada “de marca”  como o pessoal costuma dizer no Brasil.
O tal senhor  pediu-me desculpas pela abordagem, mas que, ao me reconhecer e sabendo que moro fora do Brasil, sentiu-se na obrigação de me avisar de um novo golpe na praça.

Ele contou-me que  andava a pé em uma rua movimentada dos Jardins, quando um homem se aproximou, sorridente, e deu-lhe um abraço como só grandes amigos se dão. Nesse abraço, ele já sentiu o cano de uma arma em suas costas, enquanto o “amigo” sorria e lhe dizia entredentes para sorrir também e fingir que o conhecia. A cena durou menos de um minuto, e o “amigo”  saiu levando  carteira, relógio e a bolsa com o laptop. E ainda se despediu sorrindo e falando “aparece lá em casa”.

Esse é apenas mais um golpe entre tantos que os paulistanos e inocentes turistas têm que enfrentar no dia a dia violento e perigoso nas ruas da capital paulista. Que o diga o turista francês, agredido sem nenhuma razão na tradicional Rua Augusta.”
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07 Novembro, 2011

Esqueça os mortos, que eles não levantam mais


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Tenho o couro e a alma demasiadamente marcados pelo braseiro da música. O título acima foi pinçado de “Negro amor”, a versão brasileira setentista de Péricles Cavalcante e Caetano Veloso para “It’s all over now, Baby Blue”, de Bob Dylan. Àqueles que não conhecem a canção, recomendo que o façam, em especial, pela beleza constrangedora da letra. Será verdade que, em termos musicais, já não se fazem mais poetas como antigamente? 

Brasileiro adora carro, mas adora ainda mais os feriados. “O Dia dos Mortos” ou “O Dia dos Fiéis Defuntos” é comemorado pela Igreja Católica e seu assustado rebanho de asseclas no dia 2 de novembro. A prática de reverenciar aqueles que já saltaram do planeta é secular e, como sempre acontece, rende muitas lembranças (algumas boas de serem sentidas, outras boas de serem enterradas para sempre nos subterrâneos da memória), lágrimas, chiliques, filas e negócios-da-hora para o comércio ambulante de velas, flores e penduricalhos. Que fique bem claro aos mortos: estamos vivos e saudosos, mas não estamos nos comportando tão bem assim. Se conseguirem, descansem em paz. 

Não acendi uma só velaem Finados. Tambémnão areei azulejos, nem depositei flores artificiais sobre lajes de sepulturas, conforme alertaram as autoridades municipais da Saúde, a fim de se evitar a proliferação do mosquito Aedes Aegypti. O homem está sempre se ocupando em fugir das pragas e das pestes. Pode até ser que o mosquito tenha proliferado menos durante o feriado, mas as minhas dúvidas... 

Não me lembrei tanto assim dos entes queridos falecidos. Aliás, os seres viventes ocuparam mais o humor do meu dia, das maneiras mais desagradáveis: um motorista estressado abriu a janela do carrão importado e me mostrou o dedo anular em riste; descobri na caixa de correios mais um comunicado de multa de trânsito; a goteira no teto da varanda, supostamente resolvida por Raimundinho, o pedreiro sabe-tudo, não ficou resolvida, não senhor.”
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06 Novembro, 2011

Nossa época não é para Glauber Rocha


“O cineasta baiano era movido pela utopia: é difícil imaginá-lo vivendo num mundo colonizado pelo capital e dominado pelo consumo

Outras Palavras / Destaques

Geralmente, quando ouvimos a palavra utopia, logo a associamos ao conhecido conceito de Thomaz Morus, que a traduz como uma realidade inalcançável, um desejo irrealizável. Foi assim, por exemplo, que Friedrich Engels a definiu, na sua conhecida obra Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico, traçando uma linha divisória entre os conceitos que ele dizia “ingênuos” dos socialistas que o precederam e o socialismo científico de Karl Marx.

O pensador húngaro Karl Mannheim, criador da metodologia conhecida como “Sociologia do Conhecimento”, também se ocupou do tema e o seu livro Ideologia e Utopia, na década de 1950, teve ampla aceitação na Universidade brasileira, na época em que a Universidade discutia os rumos do país. Ali, de forma diferente de Engels, Mannheim via a Utopia como uma forma de ser, um comportamento, que estaria em incongruência com uma dada realidade.

Iríamos então nos referir como utópicas aquelas orientações que, transcendendo a realidade, tendem a se transformar em condutas a abalar, seja parcial ou totalmente, a ordem das coisas que prevalecem no momento. Desta forma, ao limitar o conceito de “utopia” ao tipo de orientação que transcende a realidade e que, ao mesmo tempo, rompe as amarras da ordem existente, Mannheim passa a estabelecer uma distinção entre o estado de espírito utópico e estado de espírito ideológico, pois este segundo conceito se contrapõe ao anterior, dado que a ideologia se calca numa situação onde o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade, tanto para ele como para os demais, lutando para estabilizá-la. Os grandes líderes, aqueles que fizeram a história, seriam então utópicos por excelência.”
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04 Novembro, 2011

A grande tela da crise


Com obras bastante contextuais, a 6ª Bienal VentoSul mostra a face inquieta da arte contemporânea mundial

Rafaela Tasca, Brasil de Fato

“Sob o desafiador tema “Além da Crise”, a capital paranaense abriga até o mês de novembro a 6a VentoSul, um importante evento internacional de arte contemporânea que, a partir deste ano, também passa ser chamado de Bienal de Curitiba. Para conduzir a ousada proposta curatorial, os críticos de arte Alfons Hug (Alemanha) e Ticio Escobar (Paraguai) foram convidados a pensar sobre a posição da obra de arte diante de uma cultura definida em grande parte pela crise. 

A apresentação da proposta dos curadores é bastante reveladora: “A palavra ‘crise’ é tomada em seu sentido mais instigador e sugestivo, como momento crucial que, diante de uma mudança brusca de paradigma, exige decisões, posições e imagens novas”. E acrescentam: “não se espera que os artistas que participam desta Bienal ofereçam receitas para enfrentar a crise nem que façam críticas, mas que proponham novos olhares.”

Além da presença de artistas das mais diversas regiões do mundo (são 37 países) e um desenho que optou por descentralizar os espaços de exposição, esta Bienal de Curitiba é marcada pelas chamadas “narrativas fortes”. “Os curadores gerais deram preferência a obras que trabalhassem com o que eles nomearam de ‘narrativas fortes’, ou seja, trabalhos com conteúdo imagético evidente e diretamente relacionado com questões políticas e sociais do capitalismo atual.”, analisa o paranaense Artur Freitas, um dos curadores convidados para esta edição. 

A programação inclui palestras, mesas- redondas, exposições, cursos, oficinas, mostra de filmes, perfomances e interferências urbanas que vêm ocupando os principais espaços culturais e museus da cidade; e também galerias subterrâneas, praças, ruas e parques.”
Imagem: Ghana Gold - Da Money, do fotógrafo nigeriano George Osodi
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