30 Junho, 2009

Por uma lei de imprensa nazista

Flávio Paranhos, Revista Bula

“Eu matei a Lady Di. Isso mesmo. Fui eu. Não foram os paparazzi, nem o motorista bêbado, nem o namorado milionário, nem a Camila Parker (se bem que, nesse caso, nunca se sabe...). E sabe por quê? Porque eu não agüentava mais notícia idiota sobre a Lady Di. Lady Di na África. Lady Di flagrada de topless. Lady Di espirrou diferente ontem. Lady Di voltou a espirrar normal hoje. Lady Di isso. Lady Di aquilo. Em pleno horário nobre (embora “nobre”, pra mim, seja qualquer horário em potencial), Jornal Nacional, está lá o casal anunciando solenemente a última da... Lady Di. Enchi o saco. Desejei que ela morresse. Daí ela morreu. No dia seguinte (juro!). Nunca mais desejei isso pra ninguém, pois sei que não devo usar meus superpoderes para o mal. Só que era tarde (tadinha, afinal, a culpa não era dela).

É por essas e muitas outras que deixei de ver TV há muito tempo. Ainda resisto bravamente e leio jornais. Só que tem vezes (muitas!) em que dá vontade de por fogo (ou uma bomba) na redação. Ontem, por exemplo, estava eu lendo tranqüilamente minha Folha de São Paulo, quando deparo com uma pequena mas absolutamente oligofrênica matéria a respeito de uma adolescente americana que tinha vencido um concurso de digitação rápida de celular. PQP! Minha retina não é latrina, cidadão! Tem dó! O quê? Eu poderia não ter lido? Não dá, quando vê, já li. É tarde demais. Você está ali, passando os olhos pelo jornal, daí tromba com uma matéria dessas, vai lendo até o fim, progressivamente surpreso com a imbecilidade exposta a nu... pronto! Leu. F...eu.”
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Conhecer história do país é essencial para democracia, diz Vannuchi

Agência Brasil

“Para garantir o futuro democrático do Brasil, é preciso que os cidadãos conheçam melhor a história do país e não deixem cair no esquecimento fatos como a ditadura militar. A opinião é do ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, que participou nesta segunda-feira (29/6) do seminário “As Possibilidades de Justiça no Processo de Acerto de Contas do Estado Brasileiro com as Vítimas do Regime Militar”.

Ele reforçou que o governo tem buscado assegurar e colaborar para o direito do país, da sociedade e dos familiares das vítimas da ditadura militar de obter todas as informações, localizar os corpos desaparecidos para o devido sepultamento, e de punir os culpados.

“Se é lamentável o lapso de tempo transcorrido sem o desfecho satisfatório no Brasil é por outro lado evidência de que as chances de promover esse ajuste de contas não diminuem, elas crescem. Porque a cada ano o tema pode ser observado mais limpidamente com a isenção do distanciamento histórico e a leitura dos fundamentos e dos preceitos do direito internacional e brasileiro e da constituição cidadã de 1988”.

Vannuchi ressaltou que existe agora uma oportunidade clara de o Estado realizar a busca dos restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia, além de fazer buscas também em São Paulo e no Rio de Janeiro em locais onde se sabe que houve tortura.

“Será uma busca de agulha no palheiro. Teria sido melhor e mais promissor se isso resultasse de um procedimento adequado dentro das Forças Armadas para separar joio do trigo. Não deixar as Forças Armadas carregarem perpetuamente nos ombros a marca da violência que, mesmo ordenada em altos comandos, foi executada por figuras concretas que compõem algumas dúzias e não os milhares de integrantes.”

29 Junho, 2009

Ciberpredador obrigava meninas a se despir com chantagem virtual

Jesús Duva, El País

“Dezoito horas diárias diante do computador em busca de presas de 15 anos. Como um predador, Jorge rastreava a Internet de forma obsessiva, inclusive às 5 da madrugada, seguindo as pegadas de meninas entre 12 e 17 anos. E quando descobria uma delas, lançava seu ataque como uma pantera, apesar de basicamente encobrir seu golpe escondendo-se sob a aparência de uma adolescente, com nomes tão melosos quanto "Torrãozinho de Açúcar" ou "Menina Gulosa". Assim conseguiu enganar durante os últimos seis meses pelo menos 250 jovens que sofreram seu assédio implacável e impiedoso.

"Se você não ceder aos meus desejos", lhes dizia o ciberpredador, "a deixarei isolada, desligada de todos os seus amigos, divulgarei todos os seus segredos e mandarei essas coisas para toda a sua lista de correio eletrônico." "Essas coisas" eram as fotos íntimas - nuas ou seminuas - arrebatadas das vítimas através de engodos ou da mais cruel e abjeta coação.

Há alguns dias a Brigada de Investigação Tecnológica (BIT) da polícia [espanhola] deteve Jorge M.C., um estudante de informática de 23 anos, acusado de submeter centenas de adolescentes a um assédio que levou mais de uma delas à beira do suicídio.

O suposto assediador já tinha sido preso antes, em outubro de 2008, como suposto autor de coações contra uma jovem de Madri que sofreu uma autêntica investida informática. Nessa ocasião os agentes encontraram em sua casa em Chipiona (Cádiz) um computador de mesa e dois portáteis. "Os discos rígidos estavam lotados, continham milhares de fotografias de meninas", lembra um inspetor.

O juiz do caso deixou em liberdade provisória o detido, que sem perda de tempo retomou sua mania. Apenas duas semanas depois já foi detectado tentando encurralar mais adolescentes. Nem todas eram novas: entre elas havia três de Sevilha e uma de Toledo que ele já tinha cercado antes.

A polícia continuou suas investigações a partir do material apreendido na casa de Jorge. Ele guardava tudo e abria uma pasta para cada uma de suas vítimas, para saber exatamente quem era. Nessa pasta aparecia sua identidade, sua residência, seu número de telefone, as senhas de suas contas de e-mail e a lista de todos os seus amigos ou pessoas com quem havia feito contato, fotos, vídeos etc. Isso permitiu que a polícia seguisse o rastro de todas as suas expedições em busca de novas presas.

Mas como havia conseguido reunir tanta informação? Jorge era um incansável buscador de adolescentes na rede. Dedicava horas a explorar páginas como sexyono.com ou votamicuerpo.com, nas quais centenas de jovens publicam suas fotos insinuantes para que os cibernautas votem na mais sensual; e outras redes sociais como netlog.com, fotolog.com e outras em que há um tráfego contínuo de mensagens. São fóruns de contato que atuam como "uma espécie de enorme pátio de colégio virtual", explica o inspetor chefe Enrique Rodríguez. "Esses sites são os preferidos dos tubarões e dos pedófilos que pululam na Internet."
UOL / Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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Boas interfaces. Bons leitores?

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“A capa de cor laranja com um dos desenhos mais famosos do mundo chamava a atenção do leitor à distância. Displicentemente em cima de uma mesa cheia de outros livros, a obra de Ben Schneiderman parecia apenas mais uma. Culpa do projeto gráfico (de Ana Sofia Mariz) e do selo da editora, que deram ao livro sobre Engenharia de Software e Usabilidade um aspecto muito diferente do que os livros dessas áreas costumam ter. O laptop de Leonardo (Nova Fronteira, 2006, 288 págs.) também tem título de romance juvenil e só se percebe realmente do que se trata quando se chega mais perto. O nome do autor, por fim, convence o leitor de que se trata mesmo de um livro sobre usabilidade ou, ao menos, que advoga pela usabilidade. Não fossem a palavra laptop e os códigos binários espalhados pela capa, o livro não surtiria grande curiosidade.

O Leonardo a que o título se refere é Leonardo da Vinci, inventor e artista italiano do Renascimento, que ficou conhecido pela engenhosidade, por descobertas geniais e pelos dons artísticos. Só para citar um dos produtos de sua genialidade, o quadro da Mona Lisa é, talvez, sua obra mais conhecida. O desenho da capa do livro é o famoso estudo das proporções áureas do corpo humano, em que um homem de braços abertos é visto dentro de um círculo.

O laptop de Leonardo, título traduzido do original inglês, trata de usabilidade de forma acessível, em um equilíbrio importante entre conceitos da Computação e exemplificações simplificadoras. Embora o título pese a favor do livro, o subtítulo em português repele quem não gosta de autoajuda: "Como o novo Renascimento já está mudando a sua vida", escolha certamente de responsabilidade da editora/tradutora. O título original é bem menos apelativo, podendo ser traduzido, muito ao pé da letra e sem tanta graça, como As necessidades humanas e as novas tecnologias da computação. Outro exercício que traduz bem as ideias insistentemente defendidas por Schneiderman: As tecnologias da Nova Computação a serviço do usuário.

O laptop de Leonardo desenvolve, em 11 capítulos, a ideia de que a Computação deveria ajudar o homem a viver melhor, respondendo às suas necessidades com projetos inteligentes e facilitadores. A preocupação com velocidades e potências, foco do que Schneiderman chama de "a Velha Computação", não teria outra finalidade que não a tecnologia pela tecnologia, em um vazio infinito que não olha a humanidade e dá atenção exagerada à máquina. Em lugar de centrar o foco no objeto, seria, para o autor, especialmente desejável centrar o foco no ser humano.

A obra conta com um breve prefácio, agradecimentos, notas do autor e uma bibliografia. Ao longo dos capítulos, há imagens, desenhos de Da Vinci, printscreens de sites e quadros em que o autor sugere um método para o planejamento de sistemas e ambientes que respondam a necessidades das pessoas reais.”
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28 Junho, 2009

Maus tratos: A barbárie da tortura continua e ainda é tolerada

Alexandre Pontieri, Consultor Jurídico

“Qual a diferença entre Guantánamo, Abu Ghraib, Favela Naval, Febem de São Paulo e tantos outros estabelecimentos prisionais do mundo? Cremos que nenhuma, talvez a localização física. A tortura é uma das maiores aberrações constatadas desde os primórdios históricos, vigorando, infelizmente, até os dias atuais.

Um dos casos mais famosos, que foi notícia tanto no Brasil como no exterior, foi o Caso da Favela Naval, quando, entre os dias 6 e 7 de março de 1997, na cidade de Diadema, São Paulo, policiais militares espancaram, torturaram e mataram o conferente Mário José Josino. Tudo devidamente registrado pelas câmeras de um cinegrafista, que seriam posteriormente transmitidas pela TV Globo em seu Jornal Nacional (1).

A barbárie chamada tortura continua existindo e alcançando seus objetivos. De acordo com dados do Human Rights Watch, "segundo grupos brasileiros de direitos humanos, um número significativo de delegacias policiais no Brasil, talvez até mesmo a maioria delas, possui uma cela de tortura. Essa cela é normalmente chamada de sala do pau, em referência à técnica de tortura mais utilizada pela polícia brasileira, o pau de arara. Este consiste de uma barra na qual a vítima é suspensa por trás dos joelhos com as mãos amarradas aos tornozelos. Uma vez no pau de arara, a vítima, normalmente despida, sofre espancamentos, choques elétricos e afogamentos. Afogamento, por sua vez, é uma técnica de tortura na qual a cabeça da vítima é imersa em um tanque de água, ou água é jogada na boca e narinas da vítima causando a sensação de afogamento. Segundo aqueles que passaram por tal forma de tortura, a experiência produz uma sensação terrível de morte iminente".
Adital / Pastoral Carcerária
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27 Junho, 2009

Difícil arte de ser mulher

Frei Betto, Adital

“Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi "Ágora", direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em "O jardineiro fiel", dirigido por Fernando Meirelles.

Em "Ágora" ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.”
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26 Junho, 2009

Chico César: Michael Jackson foi máquina de ilusão

Claudio Leal, Terra Magazine

"O compositor Chico César não sabia que estava "tão ligado afetivamente" a Michael Jackson. Em conversa com Terra Magazine, ele avalia que o ídolo pop, morto hoje aos 50 anos, "emprestou sua vida a uma máquina de ilusão".

- Emocionalmente, fico muito triste, muito abalado. Fico triste porque tenho a impressão de que ele viveu infeliz nos últimos anos. Acho ruim pra ele não ter sido da Igreja Católica, ele não teve esse respaldo.

Chico César, atualmente secretário de Cultura de João Pessoa (PB), avalia que o fato de Michael Jackson "ser negro, um negro bem sucedido, o desfavoreceu". E prossegue a análise de uma das estrelas mais fulgurantes do mundo pop (e do século 20):

- Houve uma vigilância grande contra ele. Nunca concordei com molestamento de criança, não sei se ele molestou. Ele não teve Igreja Católica pra defendê-lo. Mas, além dessa questão racial, fica esse vazio. Foi um artista que emprestou sua vida a uma máquina de ilusão, desde pequeno, no Jackson Five.

O músico paraibano convida: "Agora é hora de celebrar o artista que mudou nosso tempo, visitar sua obra, dançar, nos alegrarmos com os discos produzidos por ele. Qualquer pessoa, de qualquer bairro do mundo, talvez até de países muçulmanos, já viu jovens imitando Michael Jackson. Adolescentes imitam Michael Jackson em clubes da periferia. Ele nos disse: é possível cantar bem, dançar bem e ganhar dinheiro. Só não sei se foi feliz. Essa é sua lição".
Terra Magazine

Opus Dei ataca homossexuais e os jornais dizem amém

Leandro Colling, Observatório da Imprensa

"No dia 1º de junho, os jornais A Tarde, O Globo, Estado de S. Paulo e Gazeta do Povo publicaram um texto do jornalista e professor Carlos Alberto Di Franco que ataca as políticas públicas para o combate à homofobia no Brasil. Imediatamente, redigi e enviei para os mesmos jornais um texto para rebater Di Franco. Apenas o Estadão publicou o texto, na sua página na internet. A Gazeta informou que preferiu publicar um texto de Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Os demais nada informaram.

Ironicamente, Di Franco diz que se o Conselho Federal de Jornalismo tivesse sido criado, ele "certamente" não poderia publicar o seu artigo. Este caso mostra, mais uma vez, que quem não pode publicar os seus artigos são aqueles que contrariam os textos publicados nos jornais brasileiros. Por isso, resolvi enviar o meu texto para este Observatório, depois de esperar 20 dias pela sua publicação nos jornais.

Outra informação relevante é a de que Di Franco, como representante no Brasil da Universidade de Navarra, presta ou prestou assessoria a vários jornais brasileiros, inclusive para aqueles que publicaram seu texto claramente homofóbico (ver http://www.consultoradifranco.com/index.php?page=carlos-alberto-di-franco). A revista Época informa que ele já treinou mais de 200 editores brasileiros. Talvez por isso não devamos estranhar a qualidade de nossos periódicos na atualidade. Também fico a imaginar o que esse professor de ética está ensinando aos seus alunos. Seria ele mais ético se assinasse seus textos como representante da Opus Dei no Brasil. Mas como ele disse, em entrevista para Época, isso não acrescentaria nada aos seus textos. Eis meu texto, seguido do de Di Franco, o virgem celibatário que usa cilício duas horas por dia (ver http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1106784-1664-9,00.html).”
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25 Junho, 2009

Homens que são mulheres

Dr. Drauzio Varella, Adital

“A saúde pública não pode continuar dando as costas para essa minoria de homens

De todas as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra os travestis.

Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotas de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias que a imaginação mais tacanha fosse capaz de repudiar, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelos travestis.

Quem são esses jovens travestidos de mulheres fatais, que expõem o corpo com ousadia nas esquinas da noite e na beira das estradas?

Apesar da diversidade que os distingue, todos têm em comum a origem: são filhos das camadas mais pobres da população.

A homossexualidade é tão velha quanto a humanidade, sempre existiu uma minoria de homens e mulheres homossexuais em qualquer classe social; caracteristicamente, no entanto, travestis só aparecem nas famílias humildes.

Na infância, foram meninos com jeito afeminado que, se tivessem nascido entre gente culta e com posses, poderiam ser profissionais liberais, artistas plásticos, empresários, costureiros, atores de sucesso. Mas, como tiveram o infortúnio de vir ao mundo no meio da pobreza e da ignorância, experimentaram toda a sorte de abusos: foram xingados nas ruas, ridicularizados na escola, violentados pelos mais velhos, ouviram cochichos e zombarias por onde passaram, apanharam de pais e irmãos envergonhados.

Em ambiente tão hostil, poucos conseguem concluir os estudos elementares. Na adolescência, com a autoestima rebaixada, despreparados intelectualmente, saem atrás de trabalho. Quem dá emprego para homossexual pobre?”
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Como é duro ser negro

Urariano Mota, Direto da Redação

"Quando se pensa no tempo que gastamos para escrever um texto sobre racismo no Brasil, sempre nos ocorre dizer, isso é fácil, muito fácil. Com um pé nas costas se faz. Basta escolher depoimentos. Então começo por Lucrécia Paco, atriz moçambicana. Ela veio ao Brasil, convidada, para mostrar a peça Mulher Asfalto. Fala, Lucrécia:

Eu estava no Shopping Paulista, na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para mim: ‘Ai, minha bolsa’, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. ‘Desculpa, eu nem percebi’, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. ‘Ah, agora diz que tocou sem querer?’, ironizou. ‘Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração’. (Da revista Época, 19.6)

Do escritor e jornalista Alípio Freire, por email em 23.6, escolho:

Tenho um genro negro. E dele, um neto de seis anos.

Há pouco mais de um mês, eu estava numa livraria, quando encontrei uma amiga nossa - acompanhada (por questões profissionais) de uma perua-benemérita-progressista. Como a Senhora Perua conhecesse meu genro (também por razões profissionais), ela me disse:

- Ai, que lindo, deve ser uma graça ter um neto mestiço.

(O tom era como se em seguida fosse me perguntar se o mesticinho combinava com a cor do estofamento do sofá, e com a decoração da casa).

Radicalizei:

- Não, minha senhora, não acho graça nenhuma. Cada vez que me nasce um mestiço na família, tomo imediatamente duas iniciativas: compro logo uma touca para amansar o cabelo desde pequeno, e faço uma promessa a São Expedito para que ele tenha vitiligo.
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Festival do Minuto, “Consumo, mídia e infância”

24 Junho, 2009

Eu não sou jornalista!

Rafael Rodrigues, Digestivo Cultural

“Primeiro, foi um amigo. Depois, minha irmã. Ambos disseram que, com o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo, eu sou jornalista. Dei a mesma resposta aos dois: não, eu não sou jornalista. Eles, são, mas enfim.

Escrevo para sites diversos há pelo menos seis anos. No princípio, ficção. Depois, resenhas de livros. Nos últimos tempos tenho me arriscado de vez em quando em um ou outro texto mais jornalístico, mas que não posso chamar de "matéria". Talvez, muito talvez, de artigo.

Tive meu primeiro texto impresso num jornal há já não sei quanto tempo, republicação de uma coluna publicada no Digestivo. Antes disso, apenas uma crônica num jornal aqui da cidade. Mas a renego, porque enviei o texto digitado corretamente, devidamente revisado, e conseguiram publicá-lo com erros gramaticais (do revisor do jornal!).

Mas divago. O assunto aqui é o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo.

A decisão do STF já vinha sendo cantada faz tempo. Ridículo seria a manutenção da obrigatoriedade. Isso para quem não é jornalista ― e, é bom que se diga, para um bom número deles; inclusive nomes como Zuenir Ventura e Caio Túlio Costa (ambos a favor dos cursos de jornalismo, mas não da obrigatoriedade do diploma para a profissão ser exercida). Muitos jornalistas continuam reclamando bastante da decisão ― e não tiro a razão deles. Mas é preciso relembrar algumas coisas e apontar outras que, no calor do momento, são "esquecidas".

Mas, antes, uma pequena recapitulação.

Eu já vinha pensando na ideia, mas foi em setembro de 2001, 11 de setembro de 2001, ainda chocado com o atentado que a al-Qaeda fez ao World Trade Center, que eu decidi que faria jornalismo. Custasse o que custasse, eu faria jornalismo e iria atrás da verdade, das informações difíceis, faria reportagens importantíssimas e de utilidade pública. Desmascararia políticos corruptos, descobriria esquemas de policiais desonestos e empresários sem escrúpulos. Revelaria, também, claro, o lado sujo da profissão, as barbaridades que colegas de trabalho fazem para conseguir uma notícia, os absurdos que fazem para emplacar uma reportagem de capa, ou de primeira página ― muitas vezes escrevendo/publicando mentiras. Isso tudo por conta de um único objetivo: alcançar o prestígio necessário para ser "promovido" a jornalista de guerra.

Foi apenas um sonho.

No fim daquele ano prestei vestibular para Jornalismo (ou Comunicação Social, fica a critério do leitor) na Universidade Federal da Paraíba ― zerei uma das provas de Física (a do segundo dia, se não me engano; foram três dias de provas) e fui eliminado. Na mesma época, me inscrevi para o vestibular da Universidade Federal de Sergipe ― cuja prova não cheguei a fazer, por questões financeiras e porque já havia passado em Letras na Estadual da minha cidade (na verdade, não me deixaram fazer o vestibular em Aracaju).

Paciência. A vida toma rumos que, apesar de no início não acharmos bons, no fim sabemos que não seria melhor de outro jeito. Fosse eu para a Paraíba ou para Aracaju, não estaria hoje com minha noiva e talvez não estivesse hoje no Digestivo, fazendo o que eu gosto, e escrevendo para revistas e jornais, outra coisa de que gosto bastante.

Mas, enfim, divago novamente.

Longe do curso de jornalismo e das reportagens mirabolantes que pretendia escrever, me vi com apenas uma saída: investir na escrita e tentar, com o aprimoramento dela, conseguir espaço em algum veículo (ou veículos). Havia a possibilidade de poder trabalhar em algum jornal da cidade ou mesmo na rede de TV afiliada da Globo. O curso de Jornalismo só veio chegar por aqui recentemente e, até então, a maioria dos profissionais de mídia da cidade era do curso de Letras.”
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Silêncio e enternecimento

Fernando Rego (In memoriam), Terra Magazine

I O que o homem contempla através da janela? Nada. Em realidade apenas apóia a testa no caixilho. O pensamento retroage a séculos pretéritos. Ao seu lado um amigo lê o jornal. A menina sobe no banco e olha à sua volta. O homem da janela desperta sua atenção. O bigode cobre-lhe a boca à maneira de uma cortina.

Os deuses brotam do Olimpo como rosas desabrocham para legitimar a vida dos homens. Ao longe, pensa, soa o lamento pela morte dos que tiveram existências breves. A menina esboçou um sorriso, mas, para ele, naquele exato momento, tudo à sua frente inexistia, exceto o mar que ali não estava. O mar, forma arquetípica dos seres vivos e dos mitos onde incautos marujos encontram a morte, já que todas as naus partiram.
Sou advinho do meio-dia, da meia-noite e do meio-dia que é também meia noite; hora velha da iluminação e do silêncio. A minha sabedoria atinge a altura de onde nasce o relâmpago... Errei ao abandonar minha habitação real, o Olimpo. Cruel o meu destino; o outro foi o de Prometeu e do sábio Édipo. Os deuses também podem ser barcos sem porto, perdidos no nevoeiro que sufoca as aves oceânicas, deixando-as exangues, mortas na praia.

É ridículo pensar brandamente. Só os professores conseguem pensar na calmaria. Estes não perdem o juízo porque não têm juízo a perder. Os filósofos profissionais nunca me encontraram; nunca estiveram onde sempre estive: no calvário. Sou o novo Deus. O velho Deus está morto, mas insepulto. Vim para tirar o homem da mesquinhez, do egoísmo e do cotidiano de lesma, no qual procura paz e sossego. Néscio o que acredita na própria consciência como se fosse uma força física submetida às leis da matéria.

Por que me obrigou a dizer, já no seu último suspiro: "Oh! Kriton, devo um galo a Esculápio!"

A menina busca, em vão, a atenção do homem de bigode que a ignora.

Sendo o mais benfazejo, torno-me terrível sonâmbulo. E assim sou o novo anunciador. Talvez o palhaço, não posso ser o santo. A eterna novidade é minha aurora. Faz seis mil anos que preguei anunciando que o novo não envelheceria, mas envelheceu de maneira brilhante como uma explosão estelar.

O homem virou a página do jornal. Antes, olha o companheiro e pergunta: onde você se encontra agora?”
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23 Junho, 2009

Esqueceram de mim ou o Fracasso do G-20

Frei Betto, Adital

“Meu nome é miséria. Comprometo, hoje, a vida de cerca de 1,5 bilhão de pessoas, sobretudo crianças desnutridas, vulneráveis à morte precoce.

Tinha esperança de que na reunião em Londres, no início de abril, o G-20, que reúne as 20 maiores economias do planeta, se lembrasse de mim. Hoje, devido à indiferença dos que governam o mundo, ameaço a maioria da população da África, cuja situação é agravada por cerca de 25 milhões de pessoas contaminadas pelo HIV. Em menor proporção, estou presente também na Ásia e na América Latina.

No Brasil, sou encontrada a olhos vistos no Vale do Jequitinhonha (MG), na fronteira entre Alagoas e Pernambuco, no interior do Maranhão e do Pará, nas tribos indígenas e entre a população quilombola. E, de modo aberrante, nas favelas que circundam as grandes cidades.

Esperava que o G-20, frente à crise financeira mundial, fosse destinar recursos para reduzir a minha incidência global. Segundo as Metas do Milênio, da ONU, bastariam US$ 500 bilhões para erradicar a fome crônica que, hoje, castiga 950 milhões de pessoas.

Os governantes do G-20 sofrem de hiperopia, o contrário da miopia: enxergam muito mal de perto. Em vez de debaterem como livrar o mundo da minha presença, decidiram destinar US$ 1,1 trilhão para "salvar o mercado", entenda-se, FMI, BID, Banco Mundial, grandes empresas e bancos - os responsáveis pela crise.

O capitalismo neoliberal deu um tiro no próprio pé. Agora apela aos cofres públicos para socorrer os "pobres" miliardários que costumam transformar a injeção de recursos em bônus astronômicos aos executivos de empresas sob risco de falência.”
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Diploma e Controle da informação

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Com ou sem diploma, a mídia conservadora vai continuar fazendo o que bem entende em matéria de jornalismo chapa branca, não em favor do governo, mas de seus ínteresses. Jornalistas que passaram ou não por uma escola de comunicação vão continuar escrevendo (ou omitindo) o que o patrão mandar, porque eles precisam do emprego.

Esse é o primeiro ponto, talvez o mais importante, da discussão em torno da exigência do diploma: a questão do mercado de trabalho do jornalista, injusto e cruel. Escolas de comunicação são abertas a torto e a direito. Não sei quantas são hoje no Rio, mas imagino que devam ser mais de uma dúzia, quando na década de 60, só havia uma, na verdade o curso de jornalismo na antiga FNFi, como era conhecida a Faculdade Nacional de Filosofia. Hoje abre-se uma escola de comunicação como se fosse um negócio qualquer, nada se exige em matéria de qualificação acadêmica. Milhares de bacharéis são ejetados todos os anos sem que o mercado tenha capacidade de absorver a grande maioria.

Na verdade, apesar da obrigatoriedade do diploma, imposta por um decreto-lei de 1969, ela nunca foi respeitada. Quem não se lembra, por exemplo, do SBT quando criou o apelidado jornal das pernas, quando duas apresentadoras sentavam-se numa bancada aberta em que suas pernas eram mais importantes que a nóticia. Se eram ou não bacharelandas em jornalismo, isso não tinha a menor importância.

O tal jornal não foi uma exceção. A desobediência ao dispositivo legal vinha acontecendo há muito tempo em todas as mídias brasileiras. Só pra ficar no exemplo maior, no sistema Globo de comunicação, em seus vários veículos, estão empregados professores, humoristas, cientistas políticos, cineastas, sociólogos, economistas, etc, todos trabalhando sem diploma e, pior, fazendo a cabeça de incautos consumidores de notícias que acreditam piamente no que eles dizem.”
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22 Junho, 2009

Dez momentos antológicos

André Setaro, Terra Magazine

“Colhidos na memória, dez momentos antológicos do cinema. Há, porque a colheita foi feita sem uma investigação mais apurada, outros momentos que venha considerá-los maiores. Os dez aqui citados são, no entanto, delirantes como ato de criação e da beleza cinematográficas.

1) Quando Kim Novak sai do banheiro já transfigurada em Madeleine, a pedido de James Stewart, é como se uma auréola fosse imposta à imagem da mulher, imagem fascinante, que não parece real. Em seguida os dois se beijam e a câmara passa ao espectador a impressão de estar circulando ao redor dos personagens envolvidos no idílio amoroso. Enquanto ela, a câmara, circula, imagens outras aparecem e desaparecem ao fundo, imagens do lugar onde Madeleine tinha se atirado. Ao ver Kim saindo, feito Madeleine, Stewart, emocionado, chega a chorar. A música, brilhante, de Bernard Herrmann dá o tom adequado e a solenidade auditiva necessária. Um corpo que cai (Vertigo, 1957), de Alfred Hitchcock.

2) Os travellings se sucedem na mansão, a câmara passeia pelos seus longos e intermináveis corredores, como se à procura de um cinema que se faz como um processo de investigação do universo mental. Delphine Seyrig salta na cama imensa, como se fosse um pássaro numa gaiola dourada. Nas imagens, a incursão na mente. Matéria de memória. O ano passado em Marienbad (L'année dernière a Mariebad, 1961), de Alain Resnais. Com roteiro do pai do nouveau Roman, Alain Robbe Grillet.

3) A suspeita do espectador se faz através do ato criador do artista. Inventor de fórmulas, o artista criador procura sugerir ao invés de mostrar explicitamente. Diferentemente de obras em que o recurso fácil ao susto é um dos sustentáculos do choque, nos filmes realmente criativos é muito mais a sugestão que encanta e faz suspense. É o ato criador do cineasta a se utilizar dos recursos da linguagem fílmica, dos seus elementos constitutivos. Assim, Cary Grant, numa angulação expressionista, sobe a escada, uma grande escada meio circular, com um copo de leite na mão. O espectador suspeita que o leite está envenenado e ele vai matar a mulher. O realizador colocou uma lâmpada dentro do copo para fazê-lo mais sugestivo. Suspeita (Suspicion, 1941), de Alfred Hitchcock.

4) O início lembra um clássico antigo do cinema: A turba, de King Vidor. O enquadramento dá idéia do formigamento de um escritório burocrático estadunidense, com suas mesas e máquinas de escrever e muitos funcionários trabalhando. Um simples enquadramento capaz de sugerir um escaldante depósito de homens e máquinas. Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960) de Billy Wilder.”
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Um outro jornalismo é possível

Mário Augusto Jakobsdkind, direto da Redação

“E caiu a exigência do diploma para o exercício profissional de jornalista. A decisão do Supremo Tribunal Federal foi de goleada, 8 a 1, a favor do que o patronato vinha exigindo há anos. Assim, os ministros da instância máxima da Justiça brasileira decretaram o fim do preceito que já estava em vigor há 40 anos e que desde 1918 jornalistas reunidos no I Congresso da categoria defendiam a necessidade de formação universitária para o exercício profissional, chegando a aprovar uma possível grade curricular do curso de jornalismo.

Portanto, é sofisma para enganar os incautos argumentar que a lei que dispôs sobre a exigência do diploma não passava de um “entulho da ditadura”. Esqueceram de dizer, que mesmo sob o jugo de uma ditadura cruel, apoiada em grande escala pela mídia hegemônica, o país não deixou de existir e não necessariamente todas as leis baixadas restringiam a liberdade.

Mas a maior hipocrisia dessa história toda é ver o canal de televisão de maior audiência, a Globo, saudar a decisão do STF, inclusive em nota oficial, e colocar na berlinda a figura de Gilmar Mendes, o relator da matéria sobre o diploma. E vejam os leitores, a TV Globo falando que “cai mais um resquício da ditadura”, é mesmo muita hipocrisia.

Curioso, os representantes do patronato - Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) – ao aplaudirem a decisão usaram os mesmos argumentos do relator Gilmar Mendes. Esses senhores são os primeiros a pressionar o Congresso, o Executivo e o Judiciário quando têm interesse em decisões favoráveis aos seus desígnios. Tem sido assim ao longo da história.

A mídia hegemônica que pratica o jornalismo de mercado não dá uma linha para contar as histórias (no plural mesmo, porque são muitas) sobre Gilmar Mendes, que virou ministro graças ao padrinho Fernando Henrique Cardoso.”
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Agarrando-nos à nossa humanidade

Bob Herbert, The New York Times

"O excesso é um verdadeiro problema. Existe o risco de que até mesmo a pessoa mais decente do mundo possa ficar entorpecida diante dos relatos infindáveis de atrocidades ocorridas por todo o mundo. Estupros em massa. Assassinatos em massa. Tortura. Opressão institucionalizada das mulheres.

Existem outras coisas no mundo: um esporte, a formatura da sua filha, o balé. A tendência a levantar uma impenetrável cortina psíquica contra o pior que o mundo tem a oferecer é compreensível. Porém, é uma tendência, como alertou Elie Wiesel, que deve ser combatida.

Temos a obrigação de ouvir, por exemplo, quando uma mulher de uma cultura alheia à nossa relembra o momento quando o tempo parou para ela, quando ela estava no meio de um grupo de mulheres atacadas por soldados:

"Eles nos disseram: 'Se você tem um bebê atrás de você, deixe-nos ver'. Os soldados olharam os bebês e, se era um menino, eles o matavam ali mesmo (com tiros). Se fosse uma menina, eles a jogavam no chão. Se a menina morresse, estava morta. Se não morresse, as mães tinham a permissão de pegá-la e ficar com ela".

A mulher lembrou que, naquele momento, o tipo de momento palpitante quando o tempo não só para, como se perde, quando para de ter significado, uma avó levava um menino nas costas. A avó se recusou a mostrar a criança aos soldados, então ela e o menino foram baleados.

Uma equipe de pesquisadoras, três delas médicas, viajou para o Chade, no último outono, para entrevistar mulheres refugiadas do pesadelo em Darfur. Quando me contaram sobre o relatório que o grupo havia compilado para o Médicos pelos Direitos Humanos, meu primeiro pensamento foi: "Ainda há algo para ser dito?"
UOL, Internacional
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20 Junho, 2009

Como se fabricam notícias e opiniões

Selvino Heck, Adital

“Aproveitei o semi-feriadão de Corpus Christi para ouvir os noticiários televisivos. Principal assunto: as eleições no Irã (antiga Pérsia), com vitória expressiva de Mohammad Ahmadinejad, as supostas fraudes ocorridas e as manifestações da oposição inconformada com os resultados.

Comento que é preciso ver com extremo cuidado as notícias e reportagens, todas iguais em todos os canais. Já me chamara a atenção o noticiário pré-eleitoral, quando o candidato da oposição, e sua mulher eram sempre exaltados e o atual presidente demonizado. Tudo tinha um cheiro de já visto ou semelhante a tantos outros acontecimentos internacionais, em que só uma voz era ouvida e uma versão difundida.

Volto a Brasília, acesso a Internet e leio no blog de Luis Nassif o relato de Marcus Netto: "Empresário, cheguei ontem do Irã. Dez dias em Teerã, Qom, Yazdi, Shiraz e Ishafan. Fui hóspede na casa de fornecedores da típica classe média e alta iraniana. Assisti aos debates de TV com eles. Em função da minha profissão, visitei indústrias onde perguntei livremente operários, taxistas, pequenos comerciantes e populares em cafés. Todos, quase sem exceção, declaram voto em Ahmadinejad. Os empresários é que financiaram a oposição. É preciso reconhecer os fatos sem paixões.

Presenciei pessoalmente a total liberdade da população em se manifestar. Diariamente, após as orações da noite, por volta das 22h, massas de jovens, estudantes faziam manifestações barulhentas nas cidades que visitei. Sem nenhuma repressão. Chamou-me a atenção a caríssima campanha do líder da oposição, M. Mousavi. Folhetos coloridos em tamanho A4 e A3 eram distribuídos aos motoristas aos milhares.”
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“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo

Eliane Brum, ÉPOCA

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.

Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.

Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela:

“Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?”
Foto: Época
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Palavras que explodem no chão

Marta Barcellos, Digestivo Cultural

"O papo on-line corria solto, a partir de um link qualquer sobre monetização de blogs. Um participante do grupo, fazendo piada sobre o próprio desempenho como blogueiro empreendedor, revelou ter obtido por meio do AdSense um fabuloso lucro de US$ 0,57, o suficiente para comprar uma carteira de Derby. Um de seus interlocutores, provavelmente não fumante, sentiu a necessidade de uma comparação mais próxima, e lembrou que daria também para adquirir um pacote de estalinhos.

"O que é estalinho?", perguntou o blogueiro ex-fumante, fazendo desaparecer subitamente o tom jocoso da conversa. Eu, que às vezes me sinto infiltrada no grupo de colaboradores do Digestivo, entre tímida e ocupada demais para participar, percebi a enrascada de quem tinha feito a comparação. Como você, leitor que sabe o que é um estalinho, provavelmente morador do eixo Rio-São Paulo, faria uma descrição rápida e por escrito do que se trata?

No impulso, o não fumante foi explicando: "Ah, é um trem que a gente joga no chão..." Aqui a interrupção é minha. Um mínimo dos vocábulos usados no Rio e em São Paulo eu domino, porque morei nas duas cidades. Em assuntos relacionados ao universo infantil, considero-me quase especialista, já que presenciei a transformação de "bexiga" em "balão", "escorregador" em "escorrega" e "bolacha" em "biscoito" no ainda parco vocabulário da minha filha, na época da mudança. Estalinho, eu poderia garantir, faz parte de ambos os idiomas, "paulistês" e "carioquês". Mas nenhum paulista ou carioca se referiria a um artefato do tamanho de uma ervilha como a um "trem". Pelo visto, os domínios do estalinho eram maiores do que eu imaginava, deviam chegar também a Minas Gerais.

Enquanto eu tentava buscar no cérebro registros de "trens" pequeninos além-Minas, para não rotular precocemente o não fumante de mineiro, um outro participante do grupo, remetido ao universo lúdico-infantil, conseguiu colocar mais ruído na conversa. "Acho que estalinho é o mesmo que biriba em São Paulo", arriscou. Tinha confundido as brincadeiras: saiu da festa junina e foi parar no carteado. Ou eu estaria enganada dessa vez? Uma busca rápida no Aurélio confirmaria a minha suspeita de que o outro nome dado ao jogo biriba é buraco, e não estalinho. Mas acabei fazendo nova descoberta: além do jogo de cartas propriamente dito, biriba é também o nome do morto.

O nome do morto??? Sorte eu não ter entrado na conversa para explicar que biriba pode ser o morto do buraco. Já pensou a confusão, se o jogo só for conhecido assim no Rio? É verdade que o "carioquês" costuma ser bem compreendido em outros estados, provavelmente por conta das novelas da Globo. Mas daí a correr o risco de precisar esclarecer, em poucas palavras, o que é um jogo de buraco ou pacote de estalinho, sem direito a nenhuma mímica... Pois o Aurélio consegue, com pouca concisão. "Biriba: cada um dos montes de cartas que os parceiros que primeiro descartam as suas tomam para continuar o jogo, sem o quê não podem bater. Morto." Pela primeira vez me dei conta de como deve ser difícil a vida de um dicionarista. Não dava para culpar o provável mineiro por dizer que estalinho era um trem: como é difícil achar as palavras exatas para explicar algo tão simples!”
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19 Junho, 2009

Não existe amor gay

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“E estimados milhares de leitores, cá estamos nos dias que se seguem a mais uma gigantesca Parada do Orgulho Gay que sacudiu legal a Paulista a adjacências e fez tremer as baladas da cidade, dizem.

A imprensa deu destaque, afinal, um evento desse tamanho não consegue ser ignorado nem pela imprensa da China, mas também deu um jeito de destacar os problemas mais do que as qualidades, as brigas sobre o mar de paz e diversão. A imprensa destacou um que outro conflito de maior porte, negando o fato puro e simples de que uma multidão gigantesca, formada em parte por pessoas que sofrem a repressão institucional e social generalizada contra os gays, se reuniu, se afirmou, e foi pra casa, numa boa.

Que se perceba, o mundo não acabou, as instituições parecem seguir funcionando tão normalmente que o Congresso arrumou mais um escândalo, as igrejas parecem não ter se incendiado, e, tanto quanto pude perceber, eu, você, e o senhor aqui ao lado continuamos com nosso direito de sermos hetero preservados.

Então, o que incomoda tanto no amor gay?

Eu acho que a humanidade avança, aos trancos e barrancos e com a exceção do mundo islâmico, mas avança. Já acreditamos que as mulheres eram menos iguais; acreditamos que os negros eram tão menos iguais que a gente podia até colocar para trabalhar como escravos, aliás, sendo escravos, e tudo bem, afinal, era para ser assim mesmo. Isso mudou, acredito.

Hoje restam algumas poucas demonstrações desse nível de barbárie, que são o fato de o cigarro ser ainda permitido, de haver pena de morte em alguns países bárbaros, e de ainda haver discriminação contra os gays. Torcer pro Inter deveria estar na mesma categoria, mas alguém esqueceu de colocar isso na Constituição de 1988, e então ficou assim, liberado.

O cigarro está por um detalhe, já vai. A pena de morte, no Brasil, é tão proibida que nem pode ser reinventada. Ponto para nós. A odiosa discriminação contra os gays permanece. Hora de repensar e mudar isso, para que toda a sociedade fique um tanto melhor.”
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USP: o script da violência

Não enveredar pela via da negociação equivale a ceder o espaço a quem atua na base da pedrada, ou então daqueles que, ocultos por trás da fumaça das bombas de gás lacrimogênio, atuam na base do “jogue a primeira pedra, por favor, que eu mando a tropa de choque”.

Flávio Aguiar, Carta Maior

A reportagem da revista Carta Capital desta semana, mais a visão de vídeos disponíveis no Youtube, confirmaram as suposições deste colunista da Carta Maior de que há uma programação do confronto por detrás do lamentável episódio na USP, na semana passada, em que um batalhão da PM caçou estudantes, funcionários e professores dentro do campus do Butantã.

Vendo-se os vídeos, e lendo a declaração do Comandante do 4o. Batalhão da PM, Carlos Longo, chega-se à seguinte reconstituição dos fatos, que, de resto, apenas confirmam inúmeros outros que este colunista, na qualidade de dirigente sindical uspiano, presenciou e nos quais teve de intervir – sempre, de acordo com a minha filosofia pessoal e a da agremiação que eu então representava – na direção das negociações.

Os manifestantes dirigem-se aos portões da USP, ou adjacências. Nos vídeos, vê-se que alguns inclusive jogam flores aos pés dos policias que lá estão para guardarem os referidos portões. Outros fazem manifestações teatrais. De repente, junto dos estudantes, aparece uma fila de poucos PMs, desarmados (ainda bem!), encurralados junto a um muro, literalmente cercados pelos manifestantes.

Daí seguindo-se as declarações do Comandante (e não tenho porque não acreditar nelas, devo dizer), esses PMs são agredidos por pedradas (além de xingamentos, o que, imagino, deve chocar sobremaneira os ouvidos desses policiais desacostumados a esse tratamento...). Então é necessário socorre-los. Entra em ação a cavalaria a pé, ou seja, a tropa de choque, com seu cortejo de cassetetes, bombas, etc. Dão –lhe apoio cortejos de cavalaria motorizada (carros, motos) e aérea (helicópteros em vôos rasantes). Está em ação o primado das armas sobre a negociação. Depois, temos o silêncio da reitora sobre a agressão à FFLCH e a justificativa do governador Serra à ação da polícia, dizendo que ela cumpriu a lei e não cometeu excessos.”
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Reciprocidade ou Morte

Leonardo Boff, Adital

"Desde que os seres humanos decidiram viver juntos, estabeleceram um contrato social não escrito pelo qual formularam normas, proibições e propósitos comuns que permitissem uma convivência minimamente pacífica.

Depois surgiram os pensadores que lhe deram um estatuto formal como Locke, Kant e Rousseau. Todos esses contratos históricos têm um defeito: supõem indivíduos nus e acósmicos, sem qualquer ligação com a natureza e a Terra. Os contratos sociais ignoram e silenciam totalmente o contrato natural. Mais ainda, a partir dos pais fundadores da modernidade, Descartes e Bacon, implantou-se a ilusão de que o ser humano está acima e fora da natureza com o propósito de domínio e posse da Terra. Este projeto continua a se realizar mediante a guerra de conquista seguida pela apropriação de todos os recursos e serviços naturais. Atrás sempre fica um rastro de devastação da natureza e de desumanização brutal. Antes se fazia guerra e apropriação de regiões ou povos. Hoje conquistaram-se todos os espaços e se conduz uma guerra total e sem tréguas contra a Terra, seus bens e serviços, explorado-os até a sua exaustão. Ela não tem mais descanso, refúgio ou espaço de recuo.

A agressão é global e a reação da Terra-Gaia está sendo também global. A resposta é o complexo de crises, reunidas no devastador aquecimento global. É a vingança de Gaia.

Não temos outra saída senão reintroduzir consciente e rapidamente o que havíamos deixado para trás: o contrato natural articulado com o contrato social. Trata-se de superar nosso arrogante antropocentrismo e colocar todas as coisas em seu lugar e nós junto delas como parte de um todo.

Que é o contrato natural? É o reconhecimento do ser humano de que ele está inserido na natureza, de quem tudo recebe, que deve comportar-se como filho e filha da Mãe Terra, restituindo-lhe cuidado e proteção para que ela continue a fazer o que desde sempre faz: dar-nos vida e os meios da vida. O contrato natural, como todos os contratos, supõe a reciprocidade. A natureza nos dá tudo o que precisamos e nós, em contrapartida, a respeitamos e reconhecemos seu direito de existir e lhe preservamos a integridade e a vitalidade.”
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18 Junho, 2009

‘O grande cinema é o que te provoca’

Em entrevista ao programa Jornal Brasil Atual, Carlos Reichenbach diz que filme bom é aquele que faz o espectador, ao sair do cinema, procurar uma biblioteca

Redação, Revista Brasil

Carlos Reichenbach nasceu em Porto Alegre e adotou São Paulo. Seu contato com a literatura e a comunicação se deu antes mesmo de nascer: é neto, filho e sobrinho de editores e industriais gráficos. Foi aluno de mestres como Roberto Santos, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari e Luís Sérgio Person. Reichenbach dirigiu longas-metragens como Anjos do Arrabalde (1987), Dois Córregos (1999) e Bens Confiscados (2004). Ano passado, reuniu no livro ABC Clube Democrático (Ed. ABCD Maior) quatro roteiros originais, dois dos quais viraram filmes, Garotas do ABC (2003) e Falsa Loura (2007). Reichenbach participou do programa Jornal Brasil Atual, que vai ao ar diariamente, das 7h às 8h, na rádio Terra FM 98,1. A seguir, trechos da entrevista feita por Oswaldo Luiz Vitta, o Colibri, com participação da atriz e apresentadora Marina Person, filha de Luís Sérgio, do jornalista especializado em cinema Orlando Fassoni, do músico Luiz Chagas e do diretor do ABCD Maior, Celso Horta. A entrevista vai ao ar no início de abril e poderá ser ouvida na íntegra em http://www.jornalbrasilatual.com.br.

Você é neto, filho e sobrinho de editores e industriais gráficos, escreve roteiros e tudo o mais.

Quando entrei na (Faculdade de Cinema) São Luís, Luís Sérgio Person dizia: “Você tem jeito de diretor, você vai ser diretor”. E eu dizia: “Mas, Person, eu detesto lidar com gente, eu gosto de trabalhar entre quatro paredes, eu sou roteirista, eu quero ser escritor”.

Na época em que você começou, 1967, não tinha quase roteirista. Hoje já tem sujeito que vive só de escrever roteiro.

Isso é mentira, assim como ninguém vive exclusivamente de dirigir filmes. Eu tenho quase três profissões paralelas e uma atividade acadêmica também.

Isso é uma visão da indústria americana, aquela figura que escreve roteiro e ganha dinheiro.

É, isso aí não existe. Eu acho que todo bom roteirista tem de ter formação jornalística também, não só dramatúrgica, especialmente porque o trabalho de roteiro é 40% de pesquisa e prospecção. Foi isso que fiz nesses quatro roteiros do projeto ABC Clube Democrático. O projeto partiu de uma premissa libertária de que o tempo livre é o verdadeiro espaço, é revolucionário, é onde as cabeças são feitas. A ideia era fazer quatro filmes simultaneamente, usando os mesmos cenários, as mesmas personagens. Mas, diante de alguns escândalos que houve com o cinema, isso se tornou inviável. De qualquer forma, foram feitos dois longas, Garotas do ABC, que no projeto original se chamava “Aurélia Schwarzenega”, brincadeira com o Arnold Schwarzenegger, e o Falsa Loura, que era “Lucineide Falsa Loira”.
Rede Brasil Atual
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Os mármores da discórdia

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“Uma das célebres máximas de João Saldanha era a de que “se os ingleses fossem bonzinhos, não teriam a melhor polícia do mundo”. A frase me vem à cabeça ao ler que a Grécia se prepara para a inauguração do novo Museu da Acrópole, um moderníssimo prédio de três andares, com uma sala reservada para receber as esculturas do friso oriental do Partenon, que encontram-se no Museu Britânico, em Londres.

Chamadas de mármores de Elgin, desde que foram levadas para a Inglaterra pelo embaixador britânico lord Elgin no iníco do século 19, as esculturas são motivo de disputa entre a Grécia e a Inglaterra. Partes de um dos maiores monumentos da humanidade, as obras foram retiradas da Grécia quando o país estava ocupado pelo império Otomano. Em troca de alguns pounds, Lord Elgin teria recebido autorização do sultão otomano para retirar os mármores, o que tornaria a operação ilegal, já que foi autorizada por uma tropa de ocupação e não pelos próprios gregos.

Se a autorização em si já traz controvérsias – uma palavra no documento original em italiano, língua diplomática à época, possibilitaria uma confusão entre algumas e quaisquer, naturalmente aproveitada pelo representante britânico -, não há dúvida de que as obras pertencem de direito à Grécia e que o seu lugar é em Atenas.”
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17 Junho, 2009

Quando o comprar substitui o brincar

Marina Silva, Terra Magazine

“Na semana passada vi um documentário excelente, dirigido pela cineasta Estela Renner, intitulado "Criança, a alma do negócio" (disponível gratuitamente em www.alana.org.br). É sobre como a publicidade dirige-se propositalmente às crianças, fazendo delas consumidores precoces orientados pela propaganda, principalmente a televisiva.

Segundo o IBGE, as crianças brasileiras são as que mais passam tempo em frente à TV, cerca de cinco horas diárias. Vejam o que diz no filme a pedagoga Ana Lúcia Villela, presidente do Instituto Alana: "Do carro à geladeira, não importa. O foco é a criança. Por que eles estão falando com a criança? Por que eles colocam bichinho no meio da propaganda?. Por que eles falam uma linguagem infantil? Porque hoje se sabe que 80% das decisões de compra numa casa vêm das crianças".

O triste é que as crianças estão substituindo o brincar pelo consumir. Com graves consequências para elas e para o meio ambiente. Paradoxalmente, são as crianças, adolescentes e jovens os que mais têm se mostrado sensíveis à preocupação com a proteção da natureza. Mas, hiperestimulados ao consumo, desde a mais tenra idade, não conseguem fazer ligação entre seus sinceros ideais de preservação dos recursos naturais - sem os quais serão prejudicados no futuro -, e o desenfreado consumo que ironicamente vai, aos poucos, os transformando em exterminadores de si mesmos. E esse talvez seja um "exterminador do futuro" mais preocupante do que o da ficção cinematográfica.

Vivemos um momento de graves perturbações para a capacidade humana de não dissociar completamente o agir do pensar e o querer do poder. É como se tivéssemos correndo o risco de perder o elo com os meios que nos possibilitam agir e tomar decisões a partir de uma base integradora de pensamento que nos assegure alguma coerência entre pensamento e ação. Sem o quê, aos poucos, vamos ficando cada vez mais impedidos de perceber que o atual modelo de produção e geração de riquezas - que tem exaurido o planeta, destruindo os ecossistemas fundamentais para a vida na Terra - não é de responsabilidade somente de grandes empresas e de governos. Para que a máquina funcione, para o bem ou para o mal, é preciso que toda a sociedade participe dela.”
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Trailler: “Criança, A Alma do Negócio”


A mídia no Brasil

Maria Rosa de Miranda Coutinho, Adital

“Este texto na verdade deveria ser uma crônica relatando o dia de um cidadão brasileiro cercado pelos diferentes meios de comunicação social.

Então eu deveria iniciar escrevendo na primeira pessoa sobre os telejornais desde os da manhã que já me dão bom dia anunciando entre as manchetes relevantes como economia e política, a "passeata dos solteiros encalhados" ou as intermináveis homenagens aos profissionais e cidadãos de classe média e alta que morreram no vôo 447 rumo a Paris. A tragédia não me deixou indiferente a esse sofrimento. Contudo, senti falta das informações sobre as centenas de pessoas que morreram no norte e nordeste, vítimas das enchentes, provocadas pela natureza e pela incompetência de quem projetou a barragem em Cocal, Pernambuco, por exemplo.

Depois, pensei há algumas semanas que a sociedade, guardiã dos preconceitos, pudesse se inspirar em "Suzan". A mulher que surgiu na internet, de "aparência feia", "mal vestida", da Escócia (não de Hollywood) dona de uma voz espetacular. De repente descubro pela mesma mídia que a endeusou por sua utilidade comercial, que a pobre só sabe cantar três músicas, e que é "doente mental". O fenômeno perdeu a graça e restou a curiosidade dos que acompanharam os programas televisivos em saber se os seus surtos eram frequentes.

O jeito foi abrir o jornal de São Paulo e percebi que por pouco o jogador Ronaldo não ganha a primeira página por ter feito um gol "de chapéu", "parecido com o de Pelé nos anos de glória". Confesso que pensei logo nos gols de placa que homens e mulheres fazem todos os dias no Brasil com seu salário mínimo. Pode parecer um trocadilho bobo, mas não pude evitar que isso me viesse à mente.

Digerindo as novelas, a maioria "sem pé nem cabeça" como diriam grandes escritores de imemoráveis peças teatrais, restou-me a estupidez dos programas de auditório que não são nada mais que formadores de opiniões equivocadas e de comportamentos ridículos para um cidadão decente, onde o chamado "animador" numa linguagem vulgar e imprópria para a comunicação social se sente no direito de hostilizar os colaboradores de palco (mesmo que seja uma criança), representantes da platéia, inclusive o tele-espectador que inebriado pela "autoridade" da emissora, legitima as bestialidades ditas, adotando para si certos critérios de escolhas e valores ali estabelecidos.”
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16 Junho, 2009

Rimbaud, o mito permanente

O poeta francês, tido como gênio revolucionário, reinventou o amor e a angústia

Túlio Moreira Rocha, Revista Bula

Se vivesse nos dias de hoje, o poeta Jean Nicolas Arthur Rimbaud seria bombardeado pela mídia e perseguido pela opinião pública, tal qual uma Amy Winehouse. Tido por muitos como a “voz do futuro”, Rimbaud destacou-se pela precocidade e pelo estilo visionário de sua poesia. Lembrado pela escrita agressiva e surtada, pela vida boêmia e por seu relacionamento conturbado com o também poeta Paul Verlaine, Rimbaud abandonou a literatura aos dezenove anos, deixando uma obra que, embora pequena, é significativa e original, e acabou por influenciar diversos poetas das gerações posteriores. Se vivesse nos dias de hoje, notícias como esta seriam comuns nos jornais e sites:

Paris – Aos 18 anos, o poeta francês Arthur Rimbaud se recupera de um dos capítulos mais polêmicos de sua trajetória de bebedeiras e escândalos. Há duas semanas, o agitado envolvimento com o poeta Paul Verlaine culminou no disparo de dois tiros, um deles acertando o punho esquerdo de Rimbaud. Conhecido pelos acessos de raiva em público, pelas noitadas intermináveis e pela parceria amorosa e poética, o casal tornou-se o principal assunto dos tablóides e cadernos de fofoca da Europa.

Apesar de avesso a qualquer tipo de meio de comunicação, Rimbaud aceitou receber a reportagem em sua residência, uma casa simples localizada no subúrbio parisiense. Ainda com o punho enfaixado por causa do incidente com Verlaine, Rimbaud sabe muito bem que todos os seus passos são detalhados, analisados e criticados pela mídia de todos os lugares. O poeta divide opiniões. Para uns, trata-se do grande gênio da poesia de nosso tempo, aquele que fora iluminado pelas contradições e desgraças do mundo e agora escreve compulsivamente em busca de uma saída para si e para os outros. Há ainda os que o enxergam como um adolescente inconsequente que falsifica uma inovação literária, e choca apenas por sua rebeldia.

Rimbaud também prefere se manter longe de festas e rodas literárias (na última que participou, escandalizou os franceses ao debochar dos outros escritores presentes). Nos últimos meses, enquanto frequentavam bares e casas noturnas na periferia de Paris, ele e Verlaine eram perseguidos pelos paparazzi e fãs lunáticos. Há algum tempo, os jornais noticiavam que a relação dos dois passava por momentos delicados, marcados por agressões e brigas homéricas.”
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15 Junho, 2009

Escrever? Quantas linhas?

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

"Qual foi o maior texto que você já escreveu em toda a sua vida? Lembrou? E então? Ele passa das duas páginas? Se passa, parabéns, você é alguém que experimentou muito mais, em relação à escrita, do que a maioria absoluta das pessoas. E o que isso quer dizer? Não sei. Que você talvez tenha o que dizer, embora essa relação não seja direta. Ou que você pode ousar mais. Ou que você provavelmente fez uma monografia de bacharelado. Ou que produziu um bom relatório de final de curso. Talvez queira dizer que seu professor de língua era um bamba. Ou que você curte escrever muito além da média das pessoas. Ou ainda que você é um privilegiado.

Um editor da virada do século disse em e-mail: "é dureza publicar livros nesta meca de analfabetos". Preconceitos à parte, o cara tinha razão para se preocupar. Ou não? De repente, a "meca" à qual ele se refere não lê e nem escreve. Pelo menos não o ideal ou o suficiente. Um professor de jornalismo surtava em sala de aula e, aos brados, acusava os alunos de "não saberem ler". Frise-se que eram alunos de jornalismo. No entanto, talvez isso se aplique a todos os demais cursos do planeta, em qualquer lugar do mundo. Ou será que virão defender que o Brasil é pior do que os outros? (Porque este tem sido nosso discurso e também, em última análise, o que sobra dos resultados dos testes de eficácia aplicados a torto e a direito. Ah, se vocês vissem a moça da Unicamp interpretando esses testes, seria tão esclarecedor...).

Você se lembra de quando tirou nota alta em redação? Lembra de ganhar algum prêmio pela boa escrita? Ou mesmo do reconhecimento, mesmo que "torto", em relação a algo que tenha escrito? E quanto àquele texto grandão? Em que situação e sob que condições o escreveu? Já ouviu alguém reclamar de fazer uma monografia? Do quanto é dolorido e sofrido? Ai, que preguiça. Atualmente, ao menos em Minas Gerais, é bem comum que os cursos de especialização substituam as antigas monografias (que eram meio estéreis e dificilmente circulavam) por artigos. Que implicações isso parece ter?”
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Como se fosse domingo de manhã

Amilcar Bettega, Terra Magazine

“Quando tudo parecia perdido, quando não havia nenhum sinal de saída e a sensação era de que não havia nada mais a fazer, ele sentou para pensar.

Só conseguia pensar sentado. E o primeiro lugar que se apresentou foi um pequeno café com mesas espalhadas por um espaço lajeado e coberto por uma parreira. O sol era forte, fazia bastante calor e a parreira produzia uma sombra falhada. As pessoas iam e vinham com ar descontraído de quem passeia no domingo pela manhã. Talvez fosse domingo. Era quase certo que era de manhã.

Ele sabia pouco sobre o lugar em que se encontrava. Mesmo a língua que ali falavam parecia-lhe bastante estranha. Não se recordava de já ter ouvido sons semelhantes. Há quantos dias andava por ali? Impossível precisar. Talvez semanas, ou mesmo meses ou anos. Até o motivo que o trouxera ali escapava-lhe um pouco.

Mas não era por falta de esforço que a sensação de estar perdido se impunha. Ele até tentava encontrar alguns pontos de apoio para o seu pensamento. Sabia, por exemplo, que fora levado até ali por causa de um objetivo importante, mas que objetivo era este exatamente? Sua memória falhava e isso o irritava. Olhava para a sombra da parreira sobre as lajes quentes de sol e se dizia que sua memória era cheia de buracos como aquela sombra. Talvez tenha sido por isso que formalizara, em pensamento, a idéia já expressa da sombra falhada da parreira. Portanto, desde que sentara e observara a sombra da parreira projetada sobre as lajes já estava refletindo sobre a sua situação. Aquilo era animador e tranquilizava-o um pouco. Aquilo, no caso, era o fato de estar refletindo sobre sua situação, mesmo quando não se dava conta disso.

Também havia aviões que passavam no alto de cinco em cinco minutos produzindo um barulho enervante. Concluiu que o aeroporto não ficava muito longe dali. Ficou contente com sua conclusão. Porém, o barulho continuava presente, e continuava sendo enervante. Mas as pessoas nem davam por isto, elas continuavam, por sua vez, a ostentar aquele ar descontraído de domingo, o que também começava a enervá-lo.”
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14 Junho, 2009

Multidão tomou conta da Avenida Paulista durante o desfile da 13ª Para Gay da cidade de São Paulo




Fotos: Sebastião Moreira, Agência EFE

Inesquecível

Mirian Goldenberg (Antropóloga), JB Online

"Quando perguntei para alguns dos homens das camadas médias do Rio de Janeiro que pesquisei: "Existe alguma mulher inesquecível na sua vida?", tive muitas respostas do tipo: "Minha ex-mulher, ela é a mulher da minha vida"; "Minha esposa, ela me fez crescer como homem"; "Minha ex-namorada, eu aprendi muito com ela" ou "Minha namorada, ela me transformou em um outro homem".

Ouvi dos meus pesquisados a seguinte máxima: o homem brasileiro quer ser o primeiro na vida de uma mulher; já a mulher brasileira quer ser a única na vida de um homem.

A mulher inesquecível, para eles, é aquela que ensina, transforma, instiga, provoca, desafia. Não é alguém que quer mudar o marido ou namorado com suas reclamações, cobranças e exigências. Os homens que pesquisei não gostam de mulheres que demandam ou cobram muito. Eles querem mudar espontaneamente, para corresponder ao que será amado, admirado ou reconhecido pela "mulher da minha vida".

Uma ideia recorrente aparece nos seus depoimentos sobre a mulher inesquecível: "Ela me ensinou a ser alguém que eu sempre quis ser", que se traduz em diferentes âmbitos: "Ela me fez estudar o que sempre quis estudar, mas achava que não tinha capacidade"; "Ela me fez investir muito mais seriamente no meu trabalho"; "Ela mudou completamente o meu modo de vestir e de agir, eu era muito infantil antes dela"; "Ela me abriu o mundo da filosofia e dos livros"; "Se hoje estou fazendo doutorado, é mérito dela, eu nunca conseguiria sozinho".

Há uma característica fundamental para se tornar uma mulher inesquecível: ela deve provocar a admiração do parceiro, muito mais do que o desejo. "Você é a mulher que eu mais admiro neste mundo", disse o marido de Mônica, no meu livro Infiel. "Eu sempre te amei, te amo e vou te amar, sempre, você é o grande amor da minha vida".
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Driblar, tocar e pensar

Antropólogo explica como o movimento Democracia Corinthiana refletiu e colaborou na construção de uma corrente de pensamento popular de uma época

Eduardo Sales de Lima, Brasil de Fato

Em 1964, o então presidente do Corinthians, Wadih Helu, celebrava, em reunião do Conselho Deliberativo, “um voto de júbilo” pela “desassombrada e patriótica tomada de posição de nossas Forças Armadas”. A partir dessa data, José Paulo Florenzano, autor do livro recém-lançado “A Democracia Corinthiana – práticas de liberdade no futebol brasileiro”, percorre a história da sociedade brasileira tendo o futebol como o espelho de experiências libertárias e democráticas no país, e, talvez mais que isso, abordando-o como o centro da cultura nacional.

Florenzano é antropólogo e... palmeirense. Tal condição, segundo ele, auxiliou-o em relação ao “distanciamento crítico” do objeto de estudo. Uma das ideias principais da obra é retratar que a luta pela liberdade dos jogadores dentro da ditadura civil-militar “difundia-se por entre os coletivos de atletas e se interligava e nutria com os embates travados nas fábricas, nos sindicatos, nas igrejas, nas favelas, enfim, nas diversas esferas da vida social”, diz trecho do livro.

Vem, então, a Democracia Corinthiana (1981-1985), que aprofunda experiências de autogestão entre os jogadores, como a ocorrida no seio da seleção brasileira tricampeã de 1970. Os atletas passam a governar a equipe, e a resolução de questões comuns do clube, como a escolha do técnico, da estratégia de jogo do time, da contratação e da dispensa dos integrantes do elenco, das normas disciplinares, e até o engajamento nas questões sociais do país era colocada na mesa, quer dizer, em campo. Em seu livro, o antropólogo aponta possíveis pistas para a influência dessa nova forma de organização entre os boleiros, como “os comitês de fábrica na Rússia, em 1917, os conselhos operários da Hungria, em 1956, ou mesmo a recusa libertária de qualquer forma de autoridade inspirada a partir de maio de 1968”.

Os jogadores de futebol decidiram lutar para redefinir “as possibilidades de ser atleta”, abrindo caminho para conexões com movimentos sociais, culturais e políticos. Abaixo, um bate-bola com Florenzano:

Brasil de Fato – Por que um palmeirense garimpa a história política do país por meio de um movimento surgido no Corinthians?
José Paulo Florenzano - Comecei com uma pesquisa inicial de mestrado que tratava da rebeldia no futebol brasileiro, sobretudo centrada na luta do Afonsinho pelo passe livre [através do qual o atleta tem o direito sobre sua própria “força de trabalho”, e não o clube ou empresário], entre outras coisas, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Daí, por sugestão da antropóloga Márcia Regina da Costa, surgiu a experiência da Democracia Corinthiana, um desdobramento lógico daquela pesquisa inicial que se mostrava como uma alternativa ao modelo hegemônico no futebol brasileiro. Eu sou um torcedor do Palmeiras que, de repente, por circunstâncias da vida acadêmica, me vi diante de um objeto de estudo que se identificava com o arqui-adversário. Acho que acabou sendo um bom encontro, porque me deu um distanciamento crítico ainda maior.

Qual foi o peso dessa ruptura provocada por jogadores como Sócrates, Zenon , Casagrande e Wladimir, entre outros, dentro da sociedade brasileira naquela época?
A Democracia Corinthiana se constitui num movimento que incomoda, perturba, não só o regime militar, mas de um modo geral, o pensamento conservador do país. Isso foi celebrado como uma mudança de postura do atleta brasileiro; o engajamento dos jogadores do Corinthians no movimento das “Diretas Já”. Convém assinalar que, na verdade, esse engajamento antecede o movimento da Democracia Corinthiana e, se você quiser encontrar um marco nesse processo, para não recuar tanto no tempo e resgatar o Afonsinho, temos a entrevista do José Reinaldo de Lima, o Reinaldo, ex-centroavante do Atlético Mineiro, ao jornal de oposição ao regime civil-militar, “O Movimento”. Aí, o Reinaldo já reivindicava a convocação de uma Assembleia Constituinte, a eleição direta para Presidente da República, enfim, uma série de conquistas democráticas.

Isso foi em que ano?
Em 1978.”
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13 Junho, 2009

Para arrumar casamento, vale até pôr o santo de castigo

Fernando de Bulhões (verdadeiro nome de Santo Antônio), nasceu em Lisboa em 15 de agosto de 1195, numa família de posses.

JB Online

Aos 15 anos, entrou para um convento agostiniano, primeiro em Lisboa e depois em Coimbra, onde se ordenou. Em 1220, trocou seu nome para Antônio e ingressou na Ordem Franciscana. Após um ano de catequese nesse, teve de deixar Portugal devido a uma enfermidade e seguiu para a Itália.

Indicado professor de teologia pelo próprio São Francisco de Assis, lecionou nas universidades de Bolonha, Toulouse, Montpellier, Puy-en-Velay e Pádua, adquirindo grande renome como orador sacro no sul da França e na Itália.

A saúde precária levou Santo Antônio a se retirar para uma vida no claustro no Convento de Arcella, perto de Pádua, cidade onde Santo Antônio morreu – em 13 de junho de 1231 – e onde hoje ele é mais identificado pelos católicos. Foi canonizado em 1232 pelo papa Gregório IX.”
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Chega de Dia dos Namorados

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

"Estimados milhares de leitores. Abaixo a opressão. Encalhados unidos jamais serão vencidos. E talvez até desencalhem, se estiverem bem unidos, quero dizer. Não podemos mais tolerar o abuso, a violência, os comerciais de pombinhos felizes aos beijinhos enquanto compram mais um celular de presente. Não podemos mais agüentar em silêncio enquanto esse dia nos faz procurar um canto escondido para podermos ver a novela e comer pizza com guaraná sem ter que dar conta dos olhares piedosos - tadinhos de nós, mais um ano e nada, não é?

Pois eu tentei. Se alguns lembram, já faz um ano que confessei que odiava Dia dos Namorados, aqui mesmo nessa coluna. Admiti aqui, publicamente, toda a minha incompetência, minha incapacidade em convencer, iludir, confundir, hipnotizar ao menos uma, entre os milhões de paulistanas igualmente disponíveis nessa cidade, e parar de ser um triste e solitário habitante de uma triste e solitária luxuosa laje em Pinheiros.

Consegui alguma solidariedade, é verdade. Minha coluna trouxe como conseqüência cento e vinte e sete convites de almas gêmeas para tomarmos juntos um cálice de vinho. Um parênteses: porque vinho? TODAS as moças que me convidaram a fazer alguma coisa, me convidaram, invariavelmente, para bebermos uma taça de vinho ao luar. Alguém aí, que entenda de mulheres e vinhos, por favor me explique o que há de errado com a cerveja, o martini, o pernod, o tang?

Mas, de qualquer maneira, nenhum dos cento e vinte e sete e-mails, veio de São Paulo ou de alguma cidade minimamente alcançável em tempo. Eram mensagens de Fortaleza, Cuiabá, Joinville, lugares distantes e seguros.”
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12 Junho, 2009

Fator "uaauu"

Nelson Pretto, Terra Magazine

“A crise da educação é tema constante em todos os países. Todos reclamam dos baixos índices de aprovação, da violência nas escolas, dos sistemas de avaliação que não dão conta dos desafios contemporâneos, da universidade que não prepara para o mundo profissional tampouco para a vida. Mas essa é uma crise anunciada, uma vez que pesquisas realizadas há muito já a vislumbravam.

Na Inglaterra, a situação é dramática neste final de ano letivo (o verão começa agora em junho). Os dados apontam uma crise sem precedentes no que diz respeito à empregabilidade dos alunos que agora estão se formando. Recente pesquisa realizada pela "Chartered Institute of Personnel and Development" anunciou que 50% dos empregadores entrevistados não estão pensando em contratar recém-graduados. Em função da gravidade da situação, o professor David Blachflower, até recentemente membro do comitê monetário do Banco da Inglaterra, alertou o governo para o que considera o maior desafio atual do país, o "desemprego da juventude".

No âmbito do ensino básico inglês, o que aqui e acolá se vê são projetos e políticas públicas que buscam - sem sucesso, como os números indicam - transformar a educação e criar algum tipo de motivação (não gosto dessa palavra, mas ela costumeiramente é usada nesse contexto) para que a juventude permaneça na escola.
Foi proposta recentemente a redução do número de áreas de aprendizagem de 13 - as áreas mais tradicionais, tais como ciências, biologia, história, etc. - para seis áreas de maior abrangência. O interessante dessa proposta é a introdução, de forma explicita, do uso das tecnologias de comunicação, a exemplo dos blogs, twitter, orkut e todos os demais elementos da chamada mídia contemporânea. A proposta, a ser implementada até 2011, propõe áreas de aprendizagem mais amplas, tais como compreensão do Inglês, comunicação e linguagens, compreensão científica e tecnológica, compreensão do humano, social e ambiental, entre outras. A confusão já está estabelecida, com reclamações de todos os lados, pois, como já estamos lamentavelmente acostumados na educação, tal proposta foi pouco discutida, segundo os sindicatos docentes. A própria mídia, que tem tratado muito da educação, termina polarizando o debate entre, por exemplo, se é importante ensinar Twitter ou Segunda Guerra Mundial e, claro, isso tem um grande efeito sobre os pais e a população. Evidentemente esse não é o ponto central e, como de costume, uma cortina de fumaça cai sobre a importância de discussões mais profundas sobre a educação.”
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Eric Hobsbawn: “Se a humanidade não mudar sua convivência mútua e com o planeta, o futuro nos preserva maus agouros”

Verena Glass, Revista Sem Terra

"Em entrevista exclusiva à Revista Sem Terra, o historiador Eric Hobsbawm apresenta ao leitor sua avaliação das origens, efeitos e desdobramentos da crise mundial. Desde que sua grandeza se fez sentir, com seus capítulos ambiental, climático, energético, alimentar e, por fim, econômico, acadêmicos, sociólogos, economistas, políticos e lideranças sociais procuram entender e explicar suas causas, e analisar e prever suas conseqüências.

Muitos têm buscado respostas e soluções apenas no próprio universo econômico. Outros concluíram que vivemos uma crise civilizatória, e que o capitalismo implodiu por seus próprios desmandos. Mas ninguém parece ter respostas definitivas sobre o que nos prepara o futuro. Assim também Hobsbawm, o maior historiador marxista da atualidade. Aos 92 anos, o autor de algumas das mais importantes obras acerca da história recente da humanidade, como A Era das Revoluções (sobre o período de 1789 a 1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era dos Impérios (1875-1914) e A Era dos Extremos – O Breve Século 20, lançado em 1994, não arrisca previsões sobre como será o mundo pós-crise.

Nesta entrevista, concedida por e-mail de Paris, porém, Hobsbawm apresenta suas opiniões como contribuição ao debate. De certezas, apenas a de que, se a humanidade não mudar os rumos da sua convivência mútua e com o planeta, o futuro nos preserva maus agouros. Cético e ao mesmo tempo esperançoso, não acredita que uma nova ordem mundial surgirá das cinzas do pós-crise, mas acha que ainda existem forças capazes de propor novas formas de organização e cultura políticas e sociais, como o MST.

Revista Sem Terra - O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas
do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes “feitos” da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?
Eric Hobsbawm – Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor financeiro,isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali.

Apesar do fato de que o capitalismo sempre — e por natureza — opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários “subprime” nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?

Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a “desfinanceirização” do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.”
Núcleo Piratininga de Comunicação
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