31 Janeiro, 2010

Sem falso moralismo

Indicado para pessoas sexualmente bem resolvidas, de mente aberta ou para aqueles que procuram um bom drama com conteúdo erótico que respeita a inteligência e a sensibilidade do espectador.

André Lux, crítico-spam / Tudo em Cima

Filmes cuja temática aborda o sexo liberal (ménage a trois, troca de casais ou fantasias mais picantes consideradas tabu pela nossa sociedade hipócrita) geralmente descambam para um falso moralismo retrógrado que quase sempre acaba em brigas, assassinatos, extorsões ou coisas do gênero, como se a intenção fosse mostrar que essas práticas são erradas e coisa de pessoas degeneradas – isso depois de usá-las para tentar atrair o público e faturar nas bilheterias.

Só mesmo os franceses poderiam fazer um filme com esses temas de maneira humana, realista e madura. Assim, “Pintar ou Fazer Amor” (“Peindre ou Faire L'amour”) mostra a rotina de um casal de meia idade (os ótimos Daniel Auteuil e Sabine Azéma) que vai morar numa casa de campo no interior do país. Fazem amizade com outro casal que mora nas redondezas e, aos poucos e com muita naturalidade, o roteiro vai mostrando a atração e cumplicidade crescentes entre eles que culmina numa surpreendente troca de casais.”
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O Fórum Social Mundial e a inversão de valores

Ultimamente muita gente tem sugerido que, nesta coluna, eu fale mais de mim, escritora. Mas o grande problema é que não consigo silenciar diante duma realidade que aí está, injusta e estúpida, decorrente duma inversão total de valores”

Márcia Denser, Congresso em Foco

O Fórum Social Mundial de 2010, que acontece esta semana em Porto Alegre, comemora dez anos de vida. Entre seus intelectuais e articulistas, me chamou a atenção especialmente um texto de Susan George, doutora em política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e presidente do conselho de administração do Transnacional Institute (Amsterdã). Ela diz que embora as reuniões do Fórum Social Mundial sejam marcadas pela esperança, ninguém tem razão para celebrar o ano que passou.

O ponto alto foi a Catástrofe de Copenhague – cujo resultado trouxe péssimas perspectivas para a raça humana – acrescentando-se a lamentável atuação do G-20 no sentido de salvar o FMI da extinção oferecendo o equivalente a US$750 bilhões em dinheiro de contribuintes sem colocar nenhuma condição. Assim, o Fundo,mais uma vez, está livre para impor suas catastróficas políticas de ajuste estrutural. Ou seja, a “miséria planificada” resultante das estratégias neoliberais, continuará na ordem do dia.

Os bancos, ressuscitados pelos governos, voltaram ao antigo modo de operação. O sistema bancário dos Estados Unidos gastou mais de US$ 5 bilhões fazendo lobby para se livrar de uma dúzia de regulamentações. A crise financeira foi o resultado direto destes esforços. O fato é que sob nenhum padrão – a não ser os utilizados pelos bancos e mercados de ações –, a crise foi superada. O desemprego aumentou enormemente, bem como o trabalho precário. As desigualdades nunca foram tão grandes entre os países ou dentro deles. Os bancos não estão emprestando para pequenos e médios negócios, que estão falindo. O enorme aumento no preço dos alimentos, que em 2008 mergulhou 100 milhões de pessoas na fome crônica, foi causado, em grande parte, pela substituição das lavouras de alimentos por lavouras de agrocombustível nos Estados Unidos e Europa e, acima de tudo, pela especulação dos mercados de commodities. Tais aumentos de preços arrefeceram no decorrer de 2008, mas em 2009 voltaram a subir e continuam em ascensão.

As conclusões do lamentável estado da economia são as seguintes: o triunfo do neoliberalismo continua trazendo vantagem apenas para uma ínfima minoria, a mesma que é servida pelos governos do G-20. Se imaginarmos a organização do mundo como uma série de círculos concêntricos, o primeiro e mais influente é certamente o das Finanças, agora totalmente divorciada da economia real. Mais de 80 por cento das atividades relacionadas aos empréstimos vão para o próprio setor financeiro e não para a produção, distribuição e consumo.”
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29 Janeiro, 2010

A morte anunciada das livrarias e bibliotecas

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Estimados leitores, essa não está sendo uma semana fácil, em um ano que não começa nada fácil. Na quarta-feira, Steve Jobs apresentou o seu Ipad, um forte candidato a ser o que faltava para os jornais, as revistas, e os livros finalmente deixarem para trás seus corpos de papel e se mandarem para o novo mundo onde tudo será bits e servido via download.

Na quinta-feira morreu J.D. Salinger, um dos escritores que melhor justificaram o título de escritor, criador de um texto de uma agilidade e fluidez até hoje sem igual, acho.

Eu acho que ler Salinger é tão bom, que vamos ler e adorar, independentemente do suporte, papel, tela de lcd, o que for. Os livros, vão seguir vivendo, de um outro jeito.

Mas e as livrarias? E as bibliotecas?

Eu, que me orgulho de ser uma metamorfose semi-ambulante, acho que precisamos ser todos seres muito adaptáveis, para vivermos felizes nesses tempos de mutações contínuas e por todos os lados. Eu vi a televisão preto-e-branco sumir, sem soluçar de saudades. Vi as salas de cinema de rua sumirem, trocadas pelas salas dos shoppings, onde se pode comer pipoca à vontade, infelizmente. Vi o disco de vinil e o toca-discos com agulha virar CD, e assim, num átimo, virar mp3 e mais nada. As lojas de discos, onde a gente escutava LPs dos Beatles em cabinezinhas pra ouvir antes de comprar, desapareceram, e nem choramos muito por elas.

O vídeo, VHS, pffffui, notaram? As locadoras se foram, ou estão indo, porque o YouTube já começa a distribuir filmes pela internet. Com todas essas perdas eu lidei, ou vou lidar, com alguma naturalidade, mesmo que com uma lágrima de tristeza, ocasionalmente.

Agora, meus bons leitores: as livrarias? As bibliotecas? Ficar sem elas? Viver sem elas? Como? (Pronto, começou a choradeira aqui em casa, alguém aí tem um lenço?)”
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@rtigo: O Brasil enche

Sheila Aragão, Quid Novi

“São Paulo parou nesta terça-feira, 26, duas vezes, por causa de pancadas de chuva. Aliás, São Paulo está parada há 35 dias por causa da chuva, a pior dos últimos 15 anos. Miami parou por causa de furacão. O Haiti por causa de terremoto. E a capital paulista, debaixo d´água não consegue voltar à rotina de centro financeiro do Brasil. Com isso, dólar sobe – R$ 1,83 – bolsa de valores cai – 1% - e a gente, ou melhor, a Economia vai levando. Mas, ainda bem, que mesmo com a força de São Paulo em baixa, estamos em alta no mercado internacional, só atrás da China e da Índia. Somos o terceiro País com o maior crescimento esperado para 2010. Ah! E ainda bem que o dólar subiu no mundo inteiro, não foi só aqui, o que mostra que a recuperação Econômica de todo o Planeta não anda muito fácil. Basta olhar o resultado do Desemprego em 2009: 212 milhões de trabalhadores perderam seu espaço no mercado mundial. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OTI). O índice é o pior desde 2007, quando a crise econômica começou. De lá pra cá o emprego caiu praticamente 1% em todo mundo, o que significa 34 milhões de vagas.

Enquanto São Paulo está debaixo d’água e a população não agüenta mais a falta de infra-estrutura que fica sublinhada a cada temporal, Águas Calientes e Machu Picchu,no Peru, transformaram as férias de milhares de turistas em corredeiras. Mais de 100 brasileiros estão ilhados na cidade histórica do Peru e já faltam suprimentos. A situação é calamitosa.

Na Venezuela, o nível de tolerância da comunidade aponta para a estratosfera em relação ao ditador Hugo Chaves que fechou mais seis canais de televisão que se recusam a transmitir seus discursos. A população, de saco cheio, foi para as ruas e pôs a boca no trombone, sem contar ministros, vice-presidente e executivos de estatais que estão deixando o cargo e abandonado o barco de Cháves.”
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28 Janeiro, 2010

Pensar é muito perigoso

Menalton Braff, Revista Bula

“Um amigo, dos poucos que me restam, outro dia me disse que, tentando ser irônico, eu não consigo passar do sarcasmo. E o sarcasmo é grosso, pesado, ele acrescentou, com a certeza de quem acaba de inventar a roda. Meu caro, a grossura e o sarcasmo, se você ainda não percebeu, estão aí a nossa volta para ver quem quiser.

Só pra não viajar muito, veja o que vem acontecendo com as artes brasileiras, principalmente as ditas artes populares. A não ser que você seja fã do Tigrão e congêneres, então dou um tapa nesta máquina e vou dormir. Você já prestou atenção aos sambas-enredo? O Stanislaw, meu caro, o Stanislaw Ponte Preta foi um dos maiores profetas, não, poeta, não, eu disse profeta, deste país varonil. Seu “Samba do Crioulo Doido” deveria entrar como um dos livros do segundo testamento.”
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27 Janeiro, 2010

São Paulo de asfalto e gente

"São Paulo cobriu-se inteira de asfalto e gente, sem deixar lugar também para a terra, a água, a vegetação, os espaços de vivência pública", critica Amália Safatle

Amália Safatle, Terra Magazine

“Por mais que seja conhecida a última pesquisa realizada pelo Movimento Nossa São Paulo, os resultados são tão estarrecedores, que fica difícil elaborar esse texto no dia em a cidade completou 456 anos (ontem) e não voltar a eles. Além do que, o lugar onde a gente mora nada mais é que nosso hábitat, nosso meio ambiente - não por acaso juntamos palavras para unir a cultura à natureza, como selva de pedra, fauna urbana, capitalismo selvagem.

Trocando em miúdos a pesquisa Indicadores de Referência de Bem-Estar do Município (Irbem), a conclusão é que vamos mal.

Levamos mais de quatro séculos para construir uma cidade em que mais da metade de sua imensa população desejasse, simplesmente, deixá-la (57% dos 1.512 entrevistados sairia de São Paulo, se pudesse). Que fosse reprovada com nota vermelha de 4,8 ( índice de satisfação com a cidade em termos de qualidade de vida, numa escala de 0 a 10). Que levasse o cidadão a gastar, em média, 2 horas e 40 minutos de seu dia no trânsito. Em que as pessoas reconhecessem a rica oferta de bens culturais da cidade, mas não conseguissem usufruir deles.”
Ivan Pacheco, Terra
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26 Janeiro, 2010

Cinderela larga príncipe e Branca de Neve toma Prozac em livro na Espanha

Um livro no qual Cinderela se rebela, vira vegetariana, sai do baile só de madrugada e larga o príncipe encantado, e em que sua amiga Branca de Neve usa Prozac para combater a depressão, se tornou um dos maiores sucessos de venda das últimas semanas na Espanha.

Anelise Infante, BBC Brasil

A obra La Cenicienta que no Queria Comer Perdices (“A Cinderela que não queria comer perdizes”, em uma alusão ao tradicional final de contos em espanhol, que acabam com a frase “foram felizes e comeram perdizes”) vendeu mais de 50 mil exemplares no país nas seis primeiras semanas após seu lançamento.

A história foi criada quase que por brincadeira pela escritora Nunila López Salamero e pela desenhista Myriam Cameros Sierra.
Elas contam que ofereceram o livro a várias editoras espanholas e não receberam nem um e-mail como resposta.

Com a ajuda de amigas e de associações de combate à violência contra a mulher, López e Cameros juntaram dinheiro em coletas para a primeira publicação e o sucesso foi imediato.

Receberam apoio de intelectuais espanhóis e chamaram a atenção de uma das maiores editoras da Espanha, a Planeta, que publicou o texto.”
Foto: Editora Planeta / Divulgação
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25 Janeiro, 2010

Fascismo week

Marcelo Salles, Fazendo Media

“A semana passada nos mostrou que o fascismo continua em alta no Rio de Janeiro. Parece até que virou moda. O cineasta e o ator se divertem com expressões do tipo “vou terminar o roteiro no caveirão” e “se eu contar mais sobre o filme vou pro saco”, enquanto um diretor da associação de cabos e soldados espalha cartazes ao estilo faroeste, em que oferece cinco mil reais para quem lhe trouxer o assassino de um policial – estando ele vivo ou morto.

Não cabe mais a cineasta e ator dizerem que não houve intenção, desculpa amplamente utilizada quando, à época do lançamento do primeiro filme, foram confrontados por jornalistas, escritores, antropólogos, advogados e professores preocupados com o golpe desferido contra a democracia.

Assim como não vale a pena aceitar o cinismo do diretor da associação policial, que garantiu que não estava incitando o assassinato de ninguém. “Apenas para o caso de esse indivíduo já estar morto”, disse, esquecendo-se que, se assim fosse, a autoridade competente para receber o corpo é o Instituto Médico Legal, e não a associação de cabos e soldados.”
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Metrópole para poucos

Rodrigo Martins, CartaCapital

"Paraisópolis, localizada no rico bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, é considerada uma favela privilegiada. Boa parte dos seus 80 mil habitantes, segundo o último Censo do IBGE, não precisa enfrentar longos trajetos para chegar ao trabalho. As oportunidades de emprego estão na vizinhança abastada. Ao redor da favela, uma extensa rede de restaurantes, shoppings, salas de cinema, hipermercados, parques, casas de espetáculo.

Os moradores de Paraisópolis, contudo, não se sentem tão privilegiados assim. “Ninguém tem dinheiro para frequentar esses lugares. Quando muito, vai de vez em quando ao cinema. A maioria prefere pagar 1 real pelo DVD pirata e ver um filme por aqui mesmo”, comenta Juliana Oliveira, 24 anos, supervisora de um telecentro da favela e estudante de Gestão Ambiental da Universidade Bandeirantes (Uniban). “Diversão fora da favela é privilégio.”

Nem por isso ela se queixa de morar na segunda maior favela de São Paulo, atrás apenas de Heliópolis, com uma população estimada em 120 mil habitantes. “Aqui temos quase tudo. Supermercados, farmácias, academias de ginástica, pizzarias, bares com música ao vivo, lan house e até um parque de diversões”, comenta Juliana, sorriso orgulhoso. “E tudo isso construído pelos próprios moradores, que criaram pequenos comércios e progrediram. Está vendo aquele supermercado?”, aponta. “Faço as minhas compras do mês ali. É praticamente o mesmo preço de um hipermercado e economizo uns 30 reais que gastaria de táxi para trazer as compras até em casa.”

Paraisópolis exemplifica uma tendência apontada por arquitetos e urbanistas de renome. Em uma cidade agredida pelo trânsito e com escassez de espaços públicos de convivência, a população naturalmente orienta-se para a vida de bairro. “Aquilo que os urbanistas e os políticos não foram capazes de fazer, isto é, uma mistura de residências e escritórios, serviços e verde, os cidadãos construíram sozinhos”, afirma o arquiteto italiano Massimiliano Fuksas, autor, entre outros projetos, do Centro da Paz em Jafa, Israel. “Este espaço (o bairro) foi promovido para abrigar o tempo livre e a cultura de seus habitantes e promovido ao velho e eterno conceito de ‘vilarejo’”, completa Fuksas, em artigo publicado na edição 577 de CartaCapital.

24 Janeiro, 2010

Vanguarda do atraso

Cynara Menezes, CartaCapital

"O moderno aqui ficou só nos edifícios", constata tristemente o geógrafo gaúcho Aldo Paviani, pousando o olhar sobre Brasília, aonde chegou em 1969. Prestes a completar 50 anos, a capital criada por Juscelino Kubitschek, Lucio Costa e Oscar Niemeyer transformou-se numa melancólica contradição de si própria. O arrojo de sua arquitetura contrasta com uma prática política digna dos grotões mais atrasados do País: roubalheira, enriquecimento ilícito, domínio da mídia e do Legislativo, violência policial subjugando a população, voto de cabresto.

Como é que a moderna Brasília, nascida para tirar o Brasil do arcaísmo, projetada para incluir o País no Primeiro Mundo, se tornou terra de coronéis? No discurso de inauguração da capital, em abril de 1960, JK vislumbrava um destino civilizador para a recém-nascida “capital da esperança”, como a definiu o escritor francês André Malraux. Brasília, disse Juscelino, seria um “índice do alto grau de nossa civilização”. Nem podia imaginar que, cinquentona, sua criação seria, ao contrário, lançada à barbárie e às bestas-feras da política mais rastaquera.

As imagens de vídeo em que o governador José Roberto Arruda e auxiliares diretos recebem dinheiro e os acontecimentos subsequentes evidenciam que ingredientes típicos do velho coronelismo são utilizados pelos detentores do poder na capital. Na semana que passou, requintes de desfaçatez. Arruda conseguiu colocar aliados no domínio das comissões que vão investigá-lo. Como se não bastasse, o deputado distrital que apareceu para todo o Brasil colocando notas de dinheiro na meia, Leonardo Prudente, voltou a presidir a Câmara Legislativa para ajudar a salvar a pele do chefe.

No fim de 2009, policiais a cavalo apareceram nas telas de tevê pisoteando -manifestantes. “É a polícia mais bem paga do Brasil e uma verdadeira guarda pretoriana do governador”, diz o cientista político Paulo Kramer, da Universidade de Brasília (UnB). Nos últimos dias, os soldados voltaram a reprimir as manifestações contra o governador, agarrando estudantes pelo pescoço em cenas dignas do auge do domínio de Antonio Carlos Magalhães sobre a Bahia. Não à toa, o finado coronel ACM e Arruda foram comparsas no episódio da violação do painel eletrônico do Senado, em 2001, que motivaria a renúncia e as lágrimas de crocodilo do atual governador do Distrito Federal.”
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22 Janeiro, 2010

Vertigem

Amilcar Bettega, Terra Magazine

"Ela estava ali parada, com seus dez ou onze anos, já mergulhada no tédio de uma adolescência que não iria tardar. Mascava alguma coisa, bala ou chiclete, e sua displicência ainda não era intencional, nem mesmo consciente. Devia ter já feito o tema de casa, não precisava pensar mais naquilo. Estava livre para não fazer nada e se deixar ficar por ali, enquanto o pai consertava a bicicleta.

Ele a pusera com as rodas para cima, o guidom e o banco no chão, e, de joelhos, girava os pedais como se fosse uma manivela, verificando o ajuste da correia. Levantou, desvirou a bicicleta deixando-a apoiada no pezinho metálico e afastou-se um pouco para observá-la. Parecia satisfeito com o trabalho.

Ela podia experimentar, ele disse. Mas a sua frase ficou por ali, perdida, incapaz de penetrar a massa de devaneios que envolvia a menina. Ela continuava a mascar sua bala ou chiclete sem muita vontade. Difícil dizer se pensava em alguma coisa. Estava ali, e isso era tudo. Podia deixar o tempo passar assim, aliás não sabia fazer de outro modo. A tarde era morna, havia alguns pássaros por ali nas árvores. Ela ouvia-lhes o canto, sem verdadeiramente ouvir. Era mais um som que se juntava àquela nuvem de ausência que a suspendia num vazio que, algum tempo depois, começaria a pesar de fato. Por enquanto não, por enquanto ela mal-e-mal conseguiria, se tentasse, se dar conta das suas sensações, muito menos nomeá-las. Uma falta de vontade das coisas talvez fosse o mais próximo que poderia chegar. Esperava algo, embora não soubesse o que era e nem mesmo que esperava.”
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21 Janeiro, 2010

Ler, escrever, contar e pensar

Mauro Santayana, JB Online

"O entusiasmo nacional pelo desempenho da economia brasileira, nestes últimos anos, com repercussão da presença do país no mundo, esfarela, diante de um dado alarmante: quase 20% dos alunos do ensino básico repetem o ano, e muitos deles abandonam as escolas. A situação estava pior há 10 anos, quando era de 26%.

Segundo a Unesco (e o bom senso), isso ocorre por causa da má qualidade do ensino. Não ensinar, ou fingir apenas que ensina, é velha política do Estado brasileiro. Desde o período colonial, o bom ensino foi negado aos pobres, para que não faltassem servos aos ricos. Quando, entre os pobres, alguma criança se destacava por uma inteligência excepcional, tratavam de cooptá-la, como fizeram com grandes negros, entre eles José do Patrocínio e André Rebouças. Fora disso, era a reprodução selecionada: os ricos mandavam seus filhos para as melhores escolas, para que continuassem nos quadros das elites; aos pobres, ensinava-se apenas o necessário, para que pudessem servir ao sistema de poder econômico.

Ainda assim, a educação elementar, até os anos 50, era muito melhor do que a de hoje. Ela tinha como eixo a alfabetização e leitura, aritmética, alguma coisa de ciência natural e os episódios mais importantes da História do Brasil. O importante é que se aprendia a ler – e a escrever. Os ditados, as composições e as dissertações, sob a correção de professores que conheciam ortografia e sintaxe, ensinavam as crianças a pensar: a associar os vocábulos às ideias, e, conforme os textos, as ideias à ética.

Ensinar não é difícil. Temos que transmitir aos alunos aquilo que sabemos, passo a passo, para que possam assimilar as lições. O grande segredo do método de Paulo Freire está no aproveitamento da experiência cotidiana dos alunos: as primeiras palavras que aprendem a escrever são aquelas de maior importância em seu cotidiano.”
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Haiti até quando?

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“A tragédia no Haiti cobra do mundo que conte a verdadeira história desse país. Os noticiários o tratam de nação mais pobre das Américas e do Caribe sem aprofundar as razões que o levaram a tão deplorável situação. Retrospectivas superficiais falam em ocupações, sem explicar os seus fins, e em sucessões de ditaduras, sem especificar quem as apoiava, como se o Haiti tivesse construído sozinho o seu próprio destino e de forma incompetente.

Por trás desta superficialidade talvez ainda esteja o racismo dizendo que um país de negros não tem como dar certo. Falta contar que no Haiti aconteceu a única insurreição vitoriosa de escravos das Américas e que ele foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. Inspirado pelos ideais iluministas que derrubaram a monarquia na França, o Haiti ousou ser um país independente e Toussaint L’Ouverture, um dos personagens mais notáveis da história, o imaginou aliado da França revolucionária no campo das idéias.

Traído pelo ranço colonial francês que não tolerava um regime de igualdade no que fora sua mais próspera colônia nas Américas, Toussaint foi preso e morto antes de ver a independência completa de seu país. Ela viria pouco depois, em 1803, mas a um preço muito alto. Os regimes escravistas da Europa e dos Estados Unidos promoveram um bloqueio comercial de 60 anos, sufocando economicamente o país que tivera sua produção açucareira destruída na guerra de libertação. Para suspender esse bloqueio, o Haiti foi obrigado a assinar um acordo pelo qual pagaria à França uma indenização de 150 milhões de francos pela sua liberdade. O país pagou esta “dívida” de 1825 a 1888.”
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20 Janeiro, 2010

Ibope: até os paulistas têm medo de São Paulo

Andre Balocco, Cidade Copacabana / JB

“Demorou, mas parece que a ficha caiu para os moradores de São Paulo. Pesquisa do Ibope publicada nesta terça no JB Online mostrou o que quem visita a cidade já sabia: São Paulo é tão violenta que 87% de seus moradores têm medo. Sim, violenta, bastante violenta, mais violenta, muita mais violenta do que o Rio de Janeiro. Sei que vão chover (ôps, ato falho) críticas neste blog, me chamando de bairrista, de isso, de aquilo...tranquilo. Já disse uma vez e digo de novo: quem põe a cara a tapa não pode selecionar comentários...

Não gosto de São Paulo, não aprecio o estilo de vida corrido, desumano de São Paulo. De lá vêm 'arrotos' de arrogância que insistem em vender a imagem de uma cidade limpa (mentira), organizada (mentira) e civilizada (mentira). Mais ainda: segundo a campanha desta mesma mídia paulista, a violência, o vagabundismo, o esculacho e tudo o de ruim que há no país, vem do Rio. Na hora de falar deles, escondem o quesito violência e parecem confirmar a máxima de Joseph Goebells, ministro da Propaganda de Hitler, que dizia que uma mentira repetira cem vezes (ou mais) se transforma em verdade. Enquanto isso, no Rio, olho a praia, caminho no calçadão, vejo a Lagoa...

Vejam só o que saiu no site do Estadão desta terça, escondido, em meio a uma chamada falando da queda de popularidade do prefeito Kassab:

Um ano atrás, 53% afirmavam que não sairiam de São Paulo; em dezembro de 2009, houve uma inversão: 57% afirmaram que gostariam de morar em outra cidade, e só 41% preferem ficar.

A Folha ignorou esta leitura. Claro, a Folha tem seu instituto, o DataFolha, e não vai pôr azeitona na empada do rival Ibope...Negócios são negócios, né merrrmo?”
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19 Janeiro, 2010

Quem manda nos terremotos e tsunamis ?

Rui Martins, Direto da Redação

"Quando criança pobre em Santos, gostava de estudar o comportamento de certos bichos que criava dentro dos antigos vidros de leite de um litro. Tinham um bocal grande, eram largos e transparentes, facilitando minhas observações (na verdade eu deveria ter me dedicado a esses estudos, em lugar de ter me viciado nessa profissão de jornalista).

Assim, passava horas vendo como se alimentavam os caracóis, como se moviam e construiam túneis as formigas introduzidos naqueles vidros, onde eram alimentados com fartura (às vezes demasiada) fosse com pedaços de banana, migalhas de pão ou mesmo moscas.

Eram meus bichinhos de estimação, como seriam mais tarde meus peixes de aquário, e o gatinho que dormia nos meus pés enquanto preparava minhas lições de escola. Mal chegava da escola, corria para ver os vidros em que viviam, apesar dos resmungos de minha mãe enojada com aqueles caracóis de baba viscosa e sempre prometendo jogar tudo no lixo, na minha ausência.

Essa oposição materna me obrigava a escolher bem os lugares onde deixasse os litros com seres vivos, durante minha presença na escola. Se deixasse num lugar onde batesse sol, seria uma tragédia, com os caracóis se derretendo e se desfazendo com o calor de estufa gerado dentro do litro, cuja tampa estava fechada.

As formigas até que resistiam, dizem que nos sucederão na Terra com os escorpiões, mas o risco com elas era o litro cair e se despedaçar. Ocorria um verdadeiro terremoto que destruía seus túneis, seus armazens de alimentos, seus berçários e nem valia a pena querer catar de novo aquelas formigas sobreviventes desesperadas, correndo pelo chão.”
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18 Janeiro, 2010

Zilda Arns: doutora em humanidade

Maria Clara Bingemer, Jornal do Brasil

“Onde mais poderia a morte ter colhido esta mulher, qual fruta madura e túrgida de sumo e sabor? Onde mais poderia ter feito sua passagem para a vida em plenitude na qual sempre acreditou e pela qual deu o melhor de suas energias? Que outro poderia ter sido seu destino? Que morte pousaria melhor selo nesta vida que foi condição para que tantos e tantas tivessem direito à vida ou pelo menos a uma vida mais humana?

Onde mais poderia estar essa doutora em medicina e pedagogia? Atendendo nos consultórios desinfetados e imaculadamente limpos, onde os pacientes abastados pagam polpudos cheques pelas consultas? Nas salas de aula das universidades que enchem os peitos de medalhas, as biografias de prestígios e honrarias?

Onde mais poderia ser encontrado o corpo chegado ao termo de seus dias desta viúva e mãe de cinco filhos, avó de vários netos? Em casa, no sossego do lar, gozando alegremente da companhia dos seus, rodeada do carinho dos familiares e amigos? Em ambiente higiênico e confortável, recebendo os cuidados que já poderia esperar aos 75 anos quando tantos se recolhem e já não mais exercem as atividades antes desempenhadas?

Não quando se trata da doutora Zilda Arns, catarinense de Forquilhinha que cinco anos após enviuvar e deixar o cargo público que exercia no governo da cidade onde vivia, no estado do Paraná, recebeu telefonema do irmão, o então cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, como um chamado de Deus: fazer um projeto de combate à mortalidade infantil. Tratava-se de ensinar às mães das camadas mais pobres da população a salvar a vida de seus filhos que morriam como moscas, dizimados pela diarréia e a desidratação com a confecção de algo tão simples como o soro caseiro.”
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17 Janeiro, 2010

Ano Novo, Vida Nova

Frei Betto, Adital

“Chegamos a 2010! Terminou a primeira década do século XXI. Estamos a nos aproximar mais perto de nós mesmos?

Há uma abissal distância entre o que somos e o que queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido, a adolescência tecida em sonhos e utopias, os propósitos altruístas. Agora, nas atuais circunstâncias, o salário exíguo num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se meninos de rua fossem cogumelos espontâneos e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme sequestro e brada contra bandidos, abastece o crime ao consumir drogas e corromper o poder público.

Ano novo, vida nova. No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: a oração em família, o amor sem pressa, a leitura dos místicos, o diálogo amigável com os filhos, a solidão entre matas, o gesto solidário capaz de amenizar a dor de um enfermo. Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-se do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos.”
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Parte da tragédia do Haiti é "Made in USA"

Parte do sofrimento no Haiti é "Feito nos Estados Unidos". Se um terremoto pode danificar qualquer país, as ações dos Estados Unidos ampliaram os danos do terremoto no Haiti. Como? Na última década, os Estados Unidos cortaram ajuda humanitária ao Haiti, bloquearam empréstimos internacionais, forçaram o governo do Haiti a reduzir serviços, arruinaram dezenas de milhares de pequenos agricultores e trocaram apoio ao governo por apoio às ONGs.

Bill Quigley, Huffington Post / Vi o Mundo

O resultado? Pequenos agricultores fugiram do campo e migraram às dezenas de milhares para as cidades, onde construiram abrigos baratos nas colinas. Os fundos internacionais para estradas e educação e saúde foram suspensos pelos Estados Unidos. O dinheiro que chega ao país não vai para o governo mas para corporações privadas. Assim o governo do Haiti quase não tem poder para dar assistência a seu próprio povo em dias normais -- muito menos quando enfrenta um desastre como esse.

Alguns dados específicos de anos recentes.

Em 2004 os Estados Unidos apoiaram um golpe contra o presidente eleito democraticamente, Jean Bertrand Aristide. Isso manteve a longa tradição de os Estados Unidos decidirem quem governa o país mais pobre do hemisfério. Nenhum governo dura no Haiti sem aprovação dos Estados Unidos.

Em 2001, quando os Estados Unidos estavam contra o presidente do Haiti, conseguiram congelar 148 milhões de dólares em empréstimos já aprovados e muitos outros milhões de empréstimos em potencial do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o Haiti. Fundos que seriam dedicados a melhorar a educação, a saúde pública e as estradas.

Entre 2001 e 2004, os Estados Unidos insistiram que quaisquer fundos mandados para o Haiti fossem enviados através de ONGs. Fundos que teriam sido mandados para que o governo oferecesse serviços foram redirecionados, reduzindo assim a habilidade do governo de funcionar.

Os Estados Unidos têm ajudado a arruinar os pequenos proprietários rurais do Haiti ao despejar arroz americano, pesadamente subsidiado, no mercado local, tornando extremamente difícil a sobrevivência dos agricultores locais. Isso foi feito para ajudar os produtores americanos. E os haitianos? Eles não votam nos Estados Unidos.

Aqueles que visitam o Haiti confirmam que os maiores automóveis de Porto Príncipe estão cobertos com os símbolos de ONGs. Os maiores escritórios pertencem a grupos privados que fazem o serviço do governo -- saúde, educação, resposta a desastres. Não são guardados pela polícia, mas por segurança privada pesadamente militarizada.

O governo foi sistematicamente privado de fundos. O setor público encolheu. Os pobres migraram para as cidades. E assim não havia equipes de resgate. Havia poucos serviços públicos de saúde.

Quando o desastre aconteceu, o povo do Haiti teve que se defender por conta própria. Podemos vê-los agindo. Podemos vê-los tentando. Eles são corajosos e generosos e inovadores, mas voluntários não podem substituir o governo. E assim as pessoas sofrem e morrem muito mais.

Os resultados estão à vista de todos. Tragicamente, muito do sofrimento depois do terremoto no Haiti é "Feito nos Estados Unidos".

15 Janeiro, 2010

Como pisar no coração de uma mulher

Eberth Vêncio, Revista Bula

Eu sei como pisar no coração de uma mulher / Já fui mulher, eu sei / Já fui mulher, eu sei”— Chico César, cantor popular

Quer mesmo ferir uma mulher? Então a estupre. Faça isso com o pênis, os dedos das mãos, um objeto de aparência fálica ou, simplesmente, com palavras. Aliás, ferir com as palavras é bastante eficaz ao ofensor e edifica morada duradoura na memória de uma mulher, quiçá por toda a vida. Foi Múcio, o médico guru, quem me contou: ele cuida de uma paciente que nunca mais teve um orgasmo desde que o marido a repreendeu que ela parasse de gritar e uivar de tesão, pois mais se parecia com uma puta. Percebem como é fácil pisar no coração de uma mulher?!

A sexualidade humana provê matéria prima abundante para devaneios de leigos e ensaios dos estudiosos. Entendê-la, aceitá-la são desafios. Salvo algumas poucas espécies de primatas, o homem é o único animal na natureza que busca no sexo instrumento para obter divertimento e prazer, ou seja, o chamado sexo sem fins reprodutivos, tão abominável nas sagradas escrituras.

Recentemente, brasileiros que trabalham clandestinamente em garimpos do Suriname foram atacados de forma massiva pelos nativos. Mais conhecidos como “marrons”, os agressores descendentes de escravos fugitivos invadiram uma área habitada por brasileiros para barbarizar, surrar, matar, e vingar o suposto assassinato de um surinamês por um brasileiro.

O ataque aconteceu na noite de Natal, pegando a todos de surpresa. Não bastassem pauladas e linchamentos, sabe-se que várias brasileiras foram atacadas sexualmente pelos algozes. Tento imaginar o cenário da barbárie, mas não consigo. Faço esforço descomunal para entender de que forma a introdução, à força, de um pênis dentro da vagina (ou do ânus) de uma mulher desconhecida apaziguaria o sentimento de revolta e faria justiça de verdade. Os “marrons” não pensavam assim ao ejacularem em suas vítimas.”
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14 Janeiro, 2010

Avatar e a tragédia do Haiti

Leila cordeiro, Direto da Redação

“Avatar, do diretor James Cameron, vem causando as reações mais diversas em milhões de espectadores no mundo inteiro. Posicionado já como segundo maior faturamento da história do cinema - só perdendo, até agora, para Titanic, do mesmo diretor -, o filme incomodou o Vaticano que deu mostras de ciúme ao considerá-lo “um tipo de espiritualismo vinculado ao culto à natureza, que de maneira engenhosa leva o espectador a pseudo-doutrinas que convertem a ecologia na religião do milênio".

Exageros da igreja à parte, de fato a CNN fez uma reportagem sobre o filme, onde aborda a questão de pessoas que assistiram Avatar e entraram em depressão por não poderem viver no planeta Pandora, da ficção de Cameron. Para essas pessoas, Pandora poderia resolver vários problemas do dia a dia da humanidade, concentrando-se no respeito ao meio ambiente como carro chefe de uma sobrevivência cada vez mais difícil diante de tantas ameaças.

Aparentemente, pessoas que pensam desse jeito devem estar passando por problemas psicológicos sérios ao transferirem a realidade de suas vidas para a ficção do filme. Especialistas, explicam que isso não é difícil de acontecer quando o indivíduo está carente, descrente dele mesmo e do mundo que o cerca. Alvo de estudos, um comportamento social como esse pode e deve preocupar os governantes, quando o assunto é sobrevivência da espécie humana no planeta.”
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13 Janeiro, 2010

Novo olhar sobre o universo

Frei Betto, Adital

“Carlos Mesters, o mais popular biblista do Brasil, sublinha que há no Antigo Testamento dois decálogos, o da Aliança e o da Criação. O da Aliança surgiu primeiro, embora o outro já existisse. Ocorre que o povo de Deus, por não levar a sério o da Aliança, não tinha olhos para perceber o Decálogo da Criação.

Ao longo dos 400 anos da monarquia (de 1000 a 600 a.C.), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido a um ídolo manipulado pelos poderes civil e religioso para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. E ninguém dava ouvidos às denúncias dos profetas. Até que Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina em 587 a.C. e destruiu Jerusalém.

O choque da dominação e do exílio abriu os olhos do povo de Deus para o Decálogo da Criação: "O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas, revela o poder criador de Deus" - afirma Mesters. "É a expressão do bem-querer do Deus Criador, da pura gratuidade! É uma certeza que não falha. É a prova de que Deus não rejeitou seu povo. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da sequência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração".

Nossa visão do mundo interfere em nossa visão de Deus, assim como o modo de concebermos Deus influi na visão que temos da vida e do mundo. Ao longo de 1.000 anos predominou, no Ocidente, a cosmovisão de Ptolomeu, que considerava a Terra o centro do Universo. Isso favoreceu a hegemonia espiritual, cultural e econômica da Igreja, encarada pela fé como imagem da Jerusalém Celeste.

Com o advento da Idade Moderna, graças à nova cosmovisão de Copérnico, logo completada por Galileu e Newton, constatou-se que a Terra é apenas um pequeno planeta que, qual mulata de escola de samba, dança em torno da própria cintura (24 horas, dia e noite) e do mestre-sala, o sol (365 dias, um ano). O paradigma da fé deu lugar à razão, a religião à ciência, Deus ao ser humano. Passou-se da visão geocêntrica à heliocêntrica, da teocêntrica à antropocêntrica.
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12 Janeiro, 2010

Televisão brasileira: de quem para quem?

Eula D.T.Cabral , Jornal do Brasil

“A televisão é um dos meios de comunicação mais vistos pelos brasileiros. No caso da TV aberta, está em quase 100% dos lares. Tê-la em outros suportes como celular ou em veículos de transporte urbano pode ser até interessante, porém, para transformá-la em realidade, é preciso rever alguns pontos, evitando-se que mais erros sejam aceitos.

O primeiro ponto é a legislação. Pois, observa-se que muitos grupos de mídia ignoram as leis que regem a comunicação, usando a concessão pública a seu favor, em busca do lucro, ignorando o que é melhor para a população. Além disso, verifica-se que o governo federal não está dando o valor devido à área midiática, ignorando a revisão e o cumprimento de uma Política de Comunicação Democrática para o país.

Como exibir programação da TV aberta em ônibus se não se levar a sério a legislação? As leis brasileiras levam essa possibilidade em consideração? E mais: o que falam sobre exibição de programação televisiva em ônibus? É preciso rever as leis e fazer o que é melhor para o povo brasileiro, evitando-se que, mais uma vez, seja manipulado por informações equivocadas, distorcidas, repassadas pela mídia.

O segundo ponto é o conteúdo. Ou seja, é preciso oferecer qualidade de programação. Seguir o que rege a Constituição Federal em seu artigo 221: “A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”.
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11 Janeiro, 2010

Lula, o filme de Fábio Barreto

Antonio Valverde, Terra Magazine

"Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá"
(Chico Buarque - Linha de Montagem)

Se é correto afirmar que o cinema pode educar a sensibilidade, o filme "Lula, o filho do Brasil" confirma a premissa por ser impactante pela construção realista do personagem título. Além de manter, sem concessões, a tensão narrativa. O lastro autobiográfico de Lula e o recurso à história recente do movimento dos metalúrgicos do ABCD dão sustentação à narrativa, de modo a reforçar o realismo da abordagem. A tensão latente deriva também dos diversos filmes que o antecederam e que se encontram, de certa forma, incorporados nele. Assisti-lo é como rever outros tantos correlacionados às condições do operariado, num salto para além daqueles. Afinal, o movimento dos trabalhadores ensaiou sua emancipação política entre os anos 70 e 80, do século passado, na região brasileira em que mais claramente delineou-se a contradição capital-trabalho.

O filme transpôs para a tela o livro homônimo de Denise Paraná. A autora, fundada no conceito de "cultura da pobreza" criado pelo antropólogo norte-americano Oscar Lewis, resultado de pesquisas nas cidade do México, Porto Rico e Nova York, e em movimento para o conceito de "cultura de transformação", opera com maestria a interpretação teórica do fenômeno Lula, desde sua relação com os pais, calcada na conduta ética, até a emergência como líder sindical de maior altura política do Brasil contemporâneo. A passagem do universo da ética tradicional filtrada, sobremaneira pela mãe Dona Lindu, para os contornos da ética familiar, aos limites da ética da responsabilidade nas tomadas de decisões de Lula frente os sindicalistas e os políticos profissionais, é exemplar. Em outras palavras, o como é possível agir politicamente sem perder de vista os valores e os princípios que nortearam a formação ética basilar até o desenvolvimento pleno da virtù política. Assim, o passo mais complexo foi o do entrelaçamento entre a ética da responsabilidade e a explicitação dos conflitos políticos em pauta na luta operária dos sindicalistas paulistas.

No filme, os nexos da conscientização ética e da ação política do personagem central é muito bem explorado, sem didatismos. O mesmo ocorre ao mostrar o movimento dialético de superar conservando, utilizado por Lula para aos poucos desalojar o pelego Feitosa, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, de sua posição, aparentemente intocável e de bem com a política repressiva do Estado, na década de 70. Como hipótese, talvez seja este o grande segredo do sucesso político do Presidente Lula: superar conservando, sem perder de vista o viés social da decisão política.”
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Amuleto, de Roberto Bolaño

Gabriel Innocentini, Revista Bula

“Não é de espantar que o Brasil tenha descoberto Roberto Bolaño com quase dez anos de atraso em relação ao resto do mundo. Espantoso é que tenha descoberto.

Ao menos dessa vez, o mercado editorial tupiniquim acompanhou o prestígio crescente do escritor chileno — especialmente o entusiasmo europeu e norte-americano —, providenciando traduções de quase todas suas obras disponíveis. O trabalho, muito bem feito, está todo a cargo de Eduardo Brandão, que tem se revelado competente na tarefa.

Lançado recentemente no país, “Amuleto” é um desdobramento de uma história presente em “Os Detetives Selvagens”, prêmio Rômulo Galegos de 1998 e uma das pedras basilares da complexa e multifacetada obra de Roberto Bolaño.

Nesse romance, dois jovens poetas saem à caça de Cesárea Tinarejo, uma escritora desaparecida no deserto mexicano de Sonora. O livro é composto pelo diário de Garcia Madero, além de dezenas de depoimentos de coadjuvantes, dando vazão à criatividade e à originalidade de Bolaño no que se refere à sua capacidade prodigiosa de juntar imaginação e realidade em um relato qualificado por ele como uma carta de amor à sua geração.”
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10 Janeiro, 2010

História Sonegada!

Luis Fernando Veríssimo

“A abertura ou não dos arquivos sobre a repressão à insurgência armada durante a ditadura militar se resume numa questão: se alguém tem o direito de sonegar à nação sua própria História. Os debates sobre a conveniência de se remexer esse passado viscoso e sobre as razões e as causas de cada lado são secundários. A discussão real é sobre quem são os donos da nossa História. E se, 25 anos depois do fim da ditadura, os militares têm sobre a nossa memória o mesmo poder arbitrário que tiveram durante 20 anos sobre a nossa vida cívica.

Não é só a nossa história em comum que está sendo sonegada. A história individual dos mortos pela repressão também. Aos parentes são negados não apenas seus restos, como a formal cortesia de uma biografia completa. Uma reivindicação que nada tem a ver com revanchismo, que só pede uma deferência à simples necessidade das famílias reaverem seus corpos e saberem seu fim. Impedir que isso aconteça para não melindrar noções corporativas de honra ou imunidade é uma forma de prepotência que, 25 anos depois, não tem mais desculpa.

Revelações como as que o Estadão está publicando sobre a guerrilha no Araguaia servem como um começo para o resgate da nossa memória tutelada. Não precisa mexer na Lei da Anistia. É mais importante para a nação saber a verdade do que punir os culpados. E já que se liberou a História e se busca a verdade com novo ânimo, por que não aproveitar e investigar alguns pontos cegos daqueles tempos, como a participação de setores do empresariado em coisas como o Comando de Caça aos Comunistas e a Operação Bandeirantes, agindo como corpos auxiliares da repressão urbana, não raro com entusiasmo maior do que o dos militares ou da polícia política – como costuma acontecer quando diletantes fazem o trabalho de profissionais? Algum correspondente civil ao major Curió deve ter em seus arquivos o relato da guerra naquela outra selva.

Mas sei não, há uma tradição brasileira de poupar o patriciado quando ele se desencaminha. Quando descobriram que todos os negócios com o novo governo Collor teriam que passar pela empresa do P.C. Farias, não foram poucos e não foram pequenos os empresários nacionais que aderiram ao esquema sem fazer perguntas. Nas investigações sobre a corrupção que acabou derrubando Collor, seus nomes desapareceram. E, neste caso, não foram os militares que esconderam a verdade.”

Artigo publicado em vários jornais brasileiros em 25/06/2009.

08 Janeiro, 2010

2010 com Mirisola contista

"Para quem ainda não o conhece, ele e seu estilo mais do que ácido, cítrico, contudo eternamente crítico de deus e todo mundo, é uma grande chance"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Com uma capa azul-piscina – ou pavão ou ticiano ou Caribe – talvez para combinar com as férias, Marcelo Mirisola entra em 2010 bombando com estas Memórias da Sauna Finlandesa, marcando também um retorno à Editora 34 (não que ele tenha deixado a Record, só acho que está diversificando). E para quem ainda não o conhece, ele e seu estilo mais do que ácido, cítrico, contudo eternamente crítico de deus e todo mundo, é uma grande chance poder apreciá-lo no formato “contista” – mais urgente, conciso, em todo o caso sempre crudelíssimo. Porque MM estreou em 1997 com um livro de contos, Fátima Fez Os Pés Para Mostrar Na Choperia (Estação Liberdade), hoje antológico, um marco nas letras brasileiras das últimas décadas.

Sempre em pleno exercício daquele meta-priaprismo divergente, de saída aponto “A Casa das Pedras” de longe a crítica mais corrosiva deste volume, porque sistemática, porque pontual, porque letal e sem subterfúgios: ele literalmente demole o tal arquiteto da Casa:

Caíto morreu num acidente náutico no começo dos oitenta. Foi uma comoção no mundo da arquitetura e do design interativo, ainda nos primórdios. Ele era uma espécie de guia, um farol que iluminava os colegas, e comia a mulher deles. Se facilitassem, comia as filhas e as enteadas também. Jovem, nem quarenta anos, havia sido convidado por J.J. Takaoka para implementar o que viria a ser o primeiro condomínio fechado do Brasil, o Alphaville. Se Caíto não tivesse morrido tão cedo, talvez a história dos condomínios fechados tivesse sido outra, certamente mais humana, com a natureza interagindo quase imperceptivelmente junto às grades e sistemas de alarme antipânico....(...) Mas eu dizia que Caíto era quase um profeta e sua vocação humanista estava muitos anos à frente de seu tempo, desde aquela época preocupava-se com a superlotação das cadeias, vejam só, foi ele o primeiro a idealizar cadeiões espalhados em unidades pelo interior do estado. Caito era o nosso Da Vinci na versão Balacobaco. Trinta anos depois, o mundo fashion e a faculdade Anhembi-Morumbi não puderam contar com a presença dele naquela que talvez tenha sido a data mais importante da faculdade desde sua criação. O filho de Caito, Cauã, iria se formar na primeira turma do curso de Moda. O reitor homenageou o amigo arquiteto: “Una família de pioneiros”. Tanto o reitor, como os amigos do arquiteto e os clientes, todos participavam de surubas. (...) Caíto vive em Cauã, um é a cópia do outro. Se fossem construções seriam casas geminadas: o pai projetava cemitérios lúdicos e o jovem Cauã vestiria caveirinhas anoréxicas e milionárias.
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07 Janeiro, 2010

Vai começar a carnificina mental e espiritual: Big Brother Brasil 10!

Marcelo Migliaccio, Rio Acima / JB

“Alegrem-se, retardados mentais, sádicos, masoquistas e cínicos, o tratador acaba de abrir a porta da jaula para lhes dar sua ração anual de lixo perfumado.

Vai começar o retrato mais nítido do apocalipse, o Big Brother Brasil 10.

Desta vez, os gênios televisivos capricharam e queimaram seu único neurônio tetraplégico até ele virar cinza para descobrir um meio de tornar esse circo de horrores ainda pior que o do ano passado.

Garimparam muito entre as milhares de fitas enviadas por boçais que sonham ganhar R$ 1 milhão e conseguiram montar um time que promete se engalfinhar, aceitar sessões de tortura e pagar toda a sorte de micos diante das câmeras. Pelo que li (afinal, a nova versão da carnificina mental e espiritual é assuno em todos os jornais) vai ter uma lésbica assumida, uma drag queen e uma policial militar no grupo de jovens saradões. Todos trancados numa casa cenográfica durante três meses.

Uau! Satanás deve estar se mordendo de inveja e imaginando com seu advogado um jeito de cobrar royalties da emissora, porque isso não é coisa que se faça com um ferrabrás que vem inspirando com tanto esmero roteiristas e produtores há anos sem cobrar nada.

Os órfãos do Coliseu lambem os beiços. Mal podem esperar pela estréia, quando aqueles infelizes vão ser torturados sem dó. Quem sabe este ano colocam um dos incautos numa jaula com um leão. Vai ser o máximo!!!!

E não se esqueçam de chamar suas crianças para assistir, porque a fábrica de doentes mentais não pode parar!”

06 Janeiro, 2010

Jornalismo de fraldas faz fraudes

Paulo Ghiraldelli Jr., Observatório da Imprensa

“Ou eu fiquei melhor ou o jornalismo ficou burro. Quando jovem, eu lia o Claudio Abramo na Folha de S.Paulo e me deliciava. Que maravilha de dignidade e que texto saboroso. Agora, abro a Folha ou o Estadão na internet e não consigo terminar nenhum texto, eles me expulsam. Para não jogar farpas ao vento, dou exemplos.

Bruno Yutaka Saito, do Blog Cinema da Folha, começa o seu texto:

"Ontem levei minha mãe para ver Sempre ao Seu Lado, `o´ filme de cachorro da temporada. Do mesmo jeito que nesta época temos a Xuxa na telona ou filme francês com o Mathieu Amalric, o gênero filme fofo com bichinhos tá aí para nos fazer debulhar em lágrimas." (30/12/09)

Ao ler isso, exclamo quase que involuntariamente: piedade Senhor, ele não sabe o que faz! O estilo é insuportável: que coisa mais desagradável a fórmula "levei minha mãe"! Ora, fui ao cinema com minha mãe e ponto final, acabou. Achar que mãe é um pedaço de carne boba, que é necessário ser levado para lá e para cá, é irritante. Além disso, que coisa mais chata isso de ir trabalhar com a mãe, ou seja, ir ao cinema para escrever a coluna da Folha e, então, dar a desculpa de "levar a mãe" ou usar do serviço para sair com a mãe. A colônia nipônica se reúne para ver filmes japoneses e eu, o jornalista descendente de japoneses, levo também a minha mamãe lá, e sabe-se lá se ela quer ir. Tinha de fazer o serviço e ao mesmo tempo "dar atenção" para minha mãe no final do ano – é assim que soa o texto (ao menos para mim, ora, eu sou um leitor só, mas sou leitor).

Feito isso, cometo o erro terrível de colocar no mesmo saco, ou seja, na mesma frase e de modo equalizador, filmes como Sempre ao seu lado e a feiurinha da Xuxa. Aí já não estou mais no erro de estilo, mas no tropeço do resumo forçado. Isto é, tenho de dizer para o dono do jornal que não trabalhei só um dia, mas que assisti a muito outros filmes; então, numa frase só eu embrulho três filmes para dar a impressão que vi todos e pincei um. Essa ânsia de escrever para o dono do jornal, de modo burocrático, e não para o leitor, gera o monstrengo do destaque acima. Há dezenas de outros exemplos desses dois problemas em outros textos dos grandes jornais. Peguei o do Bruno porque ele reunia no mesmo texto dois dos problemas que queria comentar.

Agora, um destaque sobre a falta de assunto e a ironia tola. Na mesma edição da Folha, o artigo de Hélio Schwartsman.

"Agora que o Brasil virou potência mundial e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi escolhido o homem do ano pelos jornais Le Monde e El País, só resta a nós colunistas prorrogarmos indefinidamente nossas férias, já que não há mais dificuldades a resolver nem, portanto, problemas a comentar." (30/12/09)

Deveria haver uma placa na Redação dos jornais, bem acima da porta:

"Caso você queira ser irônico para parecer superiormente blasé, não entre para trabalhar."
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05 Janeiro, 2010

Coisas pra fazer (e deixar de fazer) em 2010

Eberth Vêncio, Revista bula

“Mesmo sem saber se ainda estaremos respirando na próxima alvorada, pensamos no amanhã com uma convicção que beira a ingenuidade, mas nos mantêm na luta. Ainda que as metas traçadas no janeiro passado ainda estejam patinando no presente, inacabadas, nós ousamos estipular outras para o ano vindouro. Pessoas inteligentes, centradas, pragmáticas, as empresas sérias, sólidas e bem sucedidas fazem planejamentos estratégicos com inabalável auto-confiança.

Muitas vezes se diz: um ser humano plenamente realizado e sem ambições já está morto. É assim, por outro lado, que se sente um homem enterrado em melancolia, mergulhado na depressão, aprisionado ao passado, angustiado com o presente, desencantado com o futuro. Este merece a companhia utilíssima de quem se importa com a sua integridade física, a fim de se evitar uma tragédia anunciada.

Mesmo os desafortunados de longa data anseiam por melhores dias e fazem planos simplistas para o futuro, quando tirarem os pés da lama. É no lodaçal das crises que se testam os verdadeiros amigos. John Lennon cantou: “ninguém o ama quando você está por baixo”. Amigos incondicionais, portanto, são agulhas no palheiro, adversários à altura contra a miséria, a doença e a demência.

Sentado defronte a tela do computador faço força desumana para planejar 2010. Reparos na casa. Tintas nas paredes. Corrigir um antigo vazamento. Trocar a maçaneta da porta. Replantar o jardim.”
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04 Janeiro, 2010

O bicentenário que não teremos

Emir Sader, Carta Maior / Blog do Emir

“2010 comemora o bicentenário das revoluções de independência na América Latina, que permitiram, em uma impressionante sucessão de movimentos, que a quase totalidade dos países do continente expulsasse os colonizadores ibéricos e decretasse sua independência política. Esses movimentos começaram em 1810 e se estenderam até 1822 – data do fim da colônia no Brasil -, só não conseguindo se estender a Cuba e Porto Rico que, não conseguindo conquistar sua independência no começo do século XIX, tiveram que enfrentar já não mais a combalida Espanha, mas ao já nascente império norteamericano, ficando amputados em sua independência, submetidos à condição de neocolônias dos EUA.

De tal forma foram importantes as revoluções de independência, que Cuba se tornou um país socialista, Porto Rico, quase uma estrela mais na bandeira dos EUA e o Brasil, o país mais desigual do continente mais desigual do mundo.

Os outros países – a maioria – protagonizaram revoluções de independência, que expulsaram os espanhóis, caracterizando o período colonial que se terminava, como uma invasão e saqueio dos nossos países, além do massacre dos povos indígenas e da escravidão. Essas revoluções foram feitas em coordenação por vários exércitos, liderados pelos próceres da independência de vários deles, entre outros Bolívar, San Martin, O´Higgins, Artigas, Sucre, que constituiram uma força latinoamericana contra o inimigo comum: o Exército espanhol. Ficava caracterizado assim que todos haviam sido explorados por um mesmo inimigo e que lutavam juntos contra ele. Por outro lado, no mesmo momento da independência, se instalavam repúblicas e se terminava com a escravidão. São essas revoluções de independência que são comemorados a partir deste ano em quase toda América Latina.”
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Frio, sombrio e vazio

Valdivino Braz, Revista Bula

“Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão.

A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou.”
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03 Janeiro, 2010

Tendências do cinema contemporâneo de ficção científica

Por Alfredo Suppia, Terra Magazine

"Distrito 9 (District 9), de Neill Blomkamp, é um dos filmes de ficção científica mais criativos e interessantes de 2009. Estreou nos EUA em agosto e no Brasil em outubro de 2009. Versão estendida do curta Alive in Joburg (2005), mockumentary escrito e dirigido pelo próprio Blomkamp e criado a partir de uma estratégia de deslocamento discursivo. Inicialmente escalado por Peter Jackson para dirigir Halo, Blomkamp teve a oportunidade de realizar Distrito 9 devido a impasse comercial relativo à adaptação em longa-metragem do famoso jogo para PC. Neill Blomkamp nasceu em 1979 em Johanesburgo, na África do Sul, e testemunhou o Apartheid em seu país, experiência que parece bastante influente no seu cinema, especialmente em Alive in Joburg e D9.

Distrito 9 foi rodado em câmera digital da marca Red e retoma a retórica documentária para estender o tratamento de um tema cada vez mais freqüente no cinema de ficção científica contemporâneo: a intolerância (racial, política, social ou de qualquer outra espécie). O título do filme foi inspirado no Distrito 6, uma área residencial na Cidade do Cabo que ficou conhecida por conta de 60 mil moradores que foram expulsos na década de 1970, durante o regime do Apartheid. Como em Alive em Joburg, D9 explora a problemática ligada à convivência inter-racial ou intercultural. Mistura de Cidade de Deus (2002), A Mosca (1986) e A Metamorfose (1915) de Kafka, D9 usa alienígenas como metáfora e retórica documental/televisiva para mostrar como o absurdo e o fantástico podem fazer parte da nossa realidade mais corriqueira.

Sem explicação aparente, uma gigantesca espaçonave estaciona sobre a cidade de Johanesburgo, África do Sul. Uma imensa população de alienígenas é encontrada no interior da nave, abandonada à própria sorte. Pressionados pela militância pró-direitos humanos (ou, neste caso, direitos alienígenas), a população extraterrena é abrigada no terreno sob a espaçonave. A área é isolada pelas autoridades, ganha o nome de Distrito 9 e rapidamente assume os contornos de uma favela. A população alien vive em condições subumanas (ou sub-alienígenas), em barracos permeados pela criminalidade e pela relação tempestuosa com a máfia nigeriana. Os ETs têm aparência artrópode ou insectóide e logo ganham o apelido de "camarões" (prawns). Durante vinte anos a espaçonave permanece estacionada sobre o Distrito 9, até que os freqüentes conflitos na região e pressões populares para a retirada dos alienígenas levam a autoridade local a optar pela recondução dos extraterrestres a uma nova área, o Distrito 10. Nesse panorama, Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) é o funcionário da MUN (Multinational United: nesse futuro fictício, corporações privadas confundem-se com o Estado) encarregado de chefiar a recondução dos alienígenas, tendo de obter a assinatura de cada um deles. Apesar dos conflitos, tudo corre dentro do esperado até Wikus invadir o barraco do alienígena Christopher Johnson e ter contato com um artefato estranho.”
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01 Janeiro, 2010

O compromisso com a esperança

Mauro Santayana, JB Online

“Mário Lago, durante as filmagens do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, do diretor Leon Hirszman, ficou conhecendo em Alagoas um poeta popular que o fascinou. Grande escritor que era, Lago escreveu excelente texto sobre Chico Nunes das Alagoas, e destacou uma frase forte do repentista: “Se o mundo fosse bom, o dono morava nele”.

O mundo social é uma construção humana. Não é a morada de Deus, nem dos deuses. Se o dono do mundo, na filosofia de Chico Nunes, mora fora dele, o Criador, se Criador houve, está dele distante. O físico Ubirajara Brito diz que, se Deus criou o Universo, não reservou, nele, um lugar em que estar.

A História tem sido um pesadelo, do qual tentamos em vão despertar, conforme Stephen Dedalus, personagem de Joyce, em Ulysses. Quando olhamos o passado, como o anjo de Paul Klee – que tanto impressionou Walter Benjamin – as cenas fortes das guerras, dos genocídios, das hecatombes, das pestes, nos aterrorizam.

Apesar desse ceticismo, o homem tem sobrevivido porque, em meio ao pesadelo de Dedalus, há sonhos, está presente a esperança. É essa esperança, anunciada pelos profetas, como Isaías, e reafirmada pela mensagem do cristianismo, que faz suportável a vida, neste “vale de lágrimas”. A História de nosso país tem sido uma oscilação entre o desânimo e a confiança no futuro. Somos capazes de superar as horas mais difíceis e nos agarrarmos a um fiapo de promessa, com o sentimento da fé. Isso é evidente em nossa trajetória política, desde a Independência. Saudamos o grito do Ipiranga, e o jovem príncipe foi visto como o protetor da nacionalidade que nascia. Menos de dez anos depois, nele veríamos um absolutista de que nos devíamos livrar – e nos livramos, com as jornadas de abril de 1831.

A República, produto mais intelectual do que histórico, acenou-nos com a democracia e a descentralização federativa, mas continuou sendo o espaço das oligarquias. A Aliança Liberal e sua consequência natural, a Revolução de 30, foram frustradas com a radicalização ideológica daqueles anos, que nos levou às tentativas insurrecionais à esquerda e à direita - e ao Estado Novo. Depois da pausa tíbia do governo Dutra, a esperança voltou-se para a volta de Getulio e a retomada de seu projeto de desenvolvimento. Fomos frustrados mais uma vez, diante da articulação das oligarquias, às quais se somava a alienação de parcelas da classe média urbana, deslumbradas com o american way of life, que o cinema nos impingia.”
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Um aspecto da resistência

Orlando Margarido, CartaCapital

“O cinema do veterano Alain Resnais surge, com as exceções de regra numa carreira longeva, de onde menos se espera, com uma atitude por vezes consequente, por vezes trivial. É do domínio em lidar com o inesperado, portanto, que trata esse cineasta quando o espectador se debruça sobre filmes como o inaugural Noite e Neblina (1955), sombria incursão aos campos de concentração. Assim como também domina o banal no recente Medos Privados em Lugares Públicos, que, à moda parisiense dos pequenos redutos cinéfilos, persiste com sucesso numa única sala paulistana.

Resistência também significativa por ser esse um retrato de descompassos amorosos, conceito de predileção do mestre nas duas últimas décadas. Tanto assim que Resnais reincide agora, aos 87 anos, com Ervas Daninhas, programa obrigatório a partir do dia de Natal para quem quiser constatar até que ponto é possível fazer cinema do quase nada e do inusitado. É a estas categorias que se presta o título do filme, mais acertado em sua acepção original. Les herbes folles refere-se a plantas que brotam onde menos teriam chance de se desenvolver, seja na rachadura de um muro, seja numa fissura no pavimento da rua. E lá está a imagem do verde rompendo o asfalto logo nas cenas iniciais.

Daí crer que um corriqueiro roubo de uma bolsa possa gerar um manifesto do amor louco, obsessivo, vai muito da disposição do público em ser enlaçado pela história. Mas Resnais, claro, acredita e nos apresenta o fato e seus desdobramentos sem jamais duvidar da plausibilidade deles. Ao fato. Marguerite (Sabine Azéma, mulher e atriz recorrente do diretor) é vítima de um ladrão quando sai com sacolas de uma butique. Georges (o também predileto André Dussollier), pouco depois, encontrará no chão de um estacionamento a carteira furtada. O que poderia ser concluído com um simples ato de devolução torna-se um estado de fixação para Georges, marido e pai aparentemente feliz que se encanta com a foto da dona e suas credenciais de dentista e aviadora. O modo como o personagem expressará o interesse ao perseguir seu objeto de fascínio e de como este reagirá é o que leva o filme a desdobrar-se em caminhos inusitados, com Georges valendo-se desde recursos habituais em um flerte até atitudes violentas, enquanto Marguerite permanece entre excitada e assustada. O desfecho não contraria a tendência do inesperado e se mostra coerentemente surreal.

Instigado pelo universo em que se tem exercitado desde Smoking/No Smoking (1993), trabalho que o recuperou de uma má fase, Resnais experimenta aqui um apanhado de gêneros, sem se fixar em algum, como a comédia amalucada, o suspense e o filme romântico cafona. Essa opção paga seu preço numa irregularidade que por vezes afasta a atenção do espectador, mas também suscita bons momentos, a exemplo das figuras apatetadas da dupla de policiais (Mathieu Amalric e Michel Vuillermoz). É inegável, contudo, o talento do diretor francês em impelir o olhar da plateia para territórios cinematográficos menos confortáveis e ativar seu imaginário.”
Foto: Alain Resnais
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