28 Fevereiro, 2010

Uma nova igualdade depois da crise

Eric Hobsbawm, La Repubblica / Revista Fórum

"O "Século Breve", o 20, foi um período marcado por um conflito religioso entre ideologias laicas. Por razões mais históricas do que lógicas, ele foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – e apenas dois modelos exclusivos entre si – o "Socialismo", identificado com economias de planejamento central de tipo soviético, e o "Capitalismo", que cobria todo o resto.

Essa contraposição aparentemente fundamental entre um sistema que ambiciona tirar do meio do caminho as empresas privadas interessadas nos lucros (o mercado, por exemplo) e um que pretendia libertar o mercado de toda restrição oficial ou de outro tipo nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Ambas as tentativas de viver à altura da lógica totalmente binária dessas definições de "capitalismo" e "socialismo" faliram. As economias de tipo soviético e as organizações e gestões estatais sobreviveram aos anos 80. O "fundamentalismo de mercado" anglo-americano quebrou em 2008, no momento do seu apogeu. O Século 21 deverá reconsiderar, portanto, os seus próprios problemas em termos muito mais realistas.

Como tudo isso influi sobre países que no passado eram devotados ao modelo "socialista"? Sob o socialismo, haviam reencontrado a impossibilidade de reformar os seus sistemas administrativos de planejamento estatal, mesmo que os seus técnicos e os seus economistas estivessem plenamente conscientes das suas principais carências. Os sistemas – não competitivos em nível internacional – foram capazes de sobreviver até que pudessem continuar completamente isolados do resto da economia mundial.

Esse isolamento, porém, não pôde ser mantido no tempo, e, quando o socialismo foi abandonado – seja em seguida à queda dos regimes políticos como na Europa, seja pelo próprio regime, como na China ou no Vietnã – estes, sem nenhum pré-aviso, se encontraram imersos naquela que para muitos pareceu ser a única alternativa disponível: o capitalismo globalizado, na sua forma então predominante de capitalismo de livre mercado.

As consequências diretas na Europa foram catastróficas. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram as suas repercussões. A China, para sua sorte, escolheu um modelo capitalista diferente do neoliberalismo anglo-americano, preferindo o modelo muito mais dirigista das "economias tigres" ou de assalto da Ásia oriental, mas abriu caminho para o seu "gigantesco salto econômico para frente" com muito pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas.”
Tradução: Moisés Sbardelotto
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27 Fevereiro, 2010

Preciosa

Roberta Ribeiro, Revista Bula

“Na era Barack Obama, o primeiro filme dirigido por um negro entra na categoria principal do Oscar: “Preciosa”. Além de Melhor Filme, o longa-metragem concorre nas categorias melhor diretor (Lee Daniels), melhor atriz (Gabourey Sidibe) e melhor atriz coadjuvante (Mo’Nique). “Preciosa” narra uma história que envolve discriminação racial, violência doméstica, abuso sexual, gravidez na adolescência etc, etc, etc. A protagonista é uma garota de 16 anos que viver apenas de sonhos.

Vivendo, ou melhor, sobrevivendo no Harlem, bairro predominantemente habitado por negros de Nova York, Claireece Precious Jones é uma garota obesa, semi-analfabeta, mãe adolescente, que sofre constantes agressões da mãe e é abusada sexualmente pelo pai. Vivem do Seguro Social. Apesar da dura realidade, ou por conta dela, Preciosa sonha com um namorado branco “de cabelo liso” e bonito, sonhar em ser uma super pop-star.

Sua mãe, interpretada pela comediante Mo’Nique, odeia a filha. Em sua cabeça, ela roubou o “seu homem”. Quando a ação do filme começa, a adolescente está grávida pela segundo vez. Sua primeira filha é portadora é Síndrome de Down, e é chamada carinhosamente de Mongo. Mora com a avó, e sua mãe, é claro, tira proveito, recebendo dinheiro de uma pensão da assistência social que na verdade serviria de auxílio para os cuidados das crianças. Também a obriga a fazer todo tipo de serviço em casa. Desde trabalhos domésticos até os mais “íntimos”. É isso mesmo, a mãe também abusava da garota.

Sem apoio da família, ela vive em mundo fechado, senta na última carteira da sala de aula e, estando grávida do segundo filho é expulsa da escola. Começa a freqüentar um programa direcionado ao auxilio de jovens com dificuldades de aprendizagem. É nesse ambiente que Preciosa enxerga uma possibilidade de superar seus medos e suas dificuldades, mesmo sendo impedida. Sua mãe acha que estudar é besteira. Preciosa, sendo uma “bunda grande”, não pode perder tempo com essas coisas.”
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26 Fevereiro, 2010

Palavrão também é gente

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Não sei qual deles veio primeiro: o nome de certa parte do corpo do macho, especialmente quando em riste e bem agressiva; o apelido ofensivo à profissão atribuída à mãe de alguém; ou a interjeição tão suficiente que se diz quando qualquer categoria de coisa acontece. Essa interjeição designa a mesma mãe profissional, só que recém-saída do trabalho de parto. Não sei mesmo qual desses xingamentos aprendi primeiro. Também não me recordo quem foi meu professor ou professora. O que considero é que foi tudo sempre muito útil. Às vezes melhor até (e mais barato) do que terapia.

Meus pais não falam palavrão. Minha mãe vai morrer com a boca limpa. Meu pai, quando bêbado, arremete contra alguém (em geral algum time de futebol) qualquer coisa que lembra uma palavra de baixo calão, mas nada que chegue a horrorizar quem está por perto. Então só posso ter aprendido a falar palavrão "na rua", como se diz (como se só a rua fosse o lugar dos acontecimentos mais baixos). Dado que minha lembrança mais antiga de palavrão vem lá dos meus anos escolares, acho que foi lá, na escola, que aprendi os primeiros balbucios ofensivos e, mais importante, aprendi a usá-los, em caso de necessidade. Há pessoas que sequer esperam a necessidade aparecer. Homens, em geral (desculpem os mais educados), utilizam xingamentos em situações diversas, inclusive para cumprimentar amigos.

O motivo desse esforço de memória é que, há poucos dias, mais uma vez, presenciei uma discussão toda envolvida em pompa e circunstância, na sala de reuniões de professores de uma escola de ensino médio: adotar ou não certo conto de determinado escritor importante brasileiro para alunos do primeiro ano. Assim que percebi o assunto em pauta, acionei minha planilha em que registro, na lembrança, quantas reuniões desse tipo já presenciei em minha carreira (pouco rodada) de professora, em todos os níveis de ensino. Parei de contar assim que a discussão mais acirrada começou.

Lá pelas tantas, alguém pediu minha opinião. Prefiro mantê-la guardada nesses casos que podem gerar polêmicas gratuitas, mas já que me acionaram, lá vou eu. Fui objetiva: Acho que certos riscos não valem a pena. O escritor é importante, o texto é bom, a literatura é maravilhosa, mas se adotarem o conto, estarão adotando também a encrenca que se seguirá. Antes de ensinar certas literaturas, é preciso dar cursos para as famílias dos alunos. Como isso não vai acontecer, peço apenas que não me convoquem para a reunião de pais que se seguirá à adoção dessa peça literária.”
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25 Fevereiro, 2010

A ditadura dos reality shows

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Quando a Globo anunciou que havia comprado os direitos do reality-show Big Brother no Brasil, há quase dez anos, causou uma verdadeira revolução no mercado. Mas, enquanto se planejava a estréia, um personagem muito conhecido por sua ousadia, Silvio Santos, até porque além de artista ele é dono da emissora, resolveu provocar a concorrente e sair na frente com um outro show da realidade inventado por ele às pressas, a Casa dos Artistas que elevou a audiência do SBT no horário e deixou a Globo furiosa por não ter lançado sua novidade primeiro.

De lá pra cá o fôlego e a paciência de Silvio para manter a Casa no ar foi acabando e o BBB se manteve firme e forte e até gerou filhotes, como A Fazenda, da Record, que em menos de um ano já produziu duas edições e já anunciou que está partindo para uma terceira ainda em 2010.

Incrível como esse tipo de programa caiu no gosto do brasileiro e da midia, não é verdade? Todos os sites de TV na Internet reservam um enorme espaço para contar o passo a passo da vida dos participantes enclausurados em casas, quartos e outras dependências inventadas por seus diretores. Ficam todos ali, fingindo que não estão percebendo as cameras estrategicamente posicionadas para mostrar sua intimidade e a maneira como agem uns com os outros. Tem até gente que paga para ver e ouvir o ronco dos enclausurados e o que podem estar fazendo debaixo das cobertas.”
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24 Fevereiro, 2010

Confissões de um comedor de Xis(*)

* (Maneira em que o cheeseburguer é chamado no Rio Grande do Sul)

José Pedro Goulart, Terra Magazine

Apresento a vocês, leitores, o relato de uma época notável de minha vida: do modo como me apliquei a ela, confio em que será não apenas interessante, mas, em um grau considerável, útil e instrutivo. Aos fatos, portanto.

Confesso, fui um comedor de xis. E mesmo que hoje toda a gordura consumida, toda maionese duvidosa e todo ketichupe vencido possam estar causando efeitos devastadores na minha saúde, não me arrependo.

Sou um cara dos anos 80. Isto é, vivi intensamente os anos 80. Porto Alegre parecia a cidade ideal para se viver, naquela época. E, olhando daqui, ainda parece ter sido. Dizem que Londres também foi. Mas me dê outro exemplo.

Tornei-me viciado em xis. As ofertas se multiplicavam. A cidade então era pontilhada por improváveis trailers, que ofereciam uma Fanta laranja e um X-salada por preços módicos a qualquer hora. Ali, na rua, junto ao pó, onde gato nenhum ousava miar, fiquei muitas vezes sentado no meio-fio, saciando a fome da madrugada, imaginando uma vida a ser vivida. A grana curta não dava para muito mais mesmo. Mas, mesmo que desse, eu não queria. Ou alguém acha que era possível resistir a um X-coração do Plutão?”
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23 Fevereiro, 2010

Livro fala sobre conflito entre mundo analógico e digital

Carolina Oms, Terra Magazine

“O escritor e colunista de Terra Magazine Marcelo Carneiro da Cunha lançou na última sexta-feira de carnaval o livro Super, uma história que só poderia acontecer no século XXI, segundo o autor.

Super é a história e a vida de pessoas imersas no mundo digi (ou digital) confrontada com a vida do mundo log (ou analógico), amantes da natureza e avessos à internet.

O escritor contou a Terra Magazine a história do livro e dos seus personagens.

A história: O mundo digi e o mundo log

O livro é sobre o contraste entre dois mundos. O mundo log e o mundo digi, como eles chamam. Esse garoto vive exclusivamente no mundo digi com os amigos dele, que adoram atacar sites.

Um dia, ele é capturado por um policial de cyber crimes e como ele não rouba, ele comete delitos, e como é menor de idade, o policial lhe dá uma pena alternativa: Passar três meses no mundo "lá fora". Ele vai pra praia, odiando, e, no primeiro dia, ele conhece uma garota maravilhosa, se apaixona perdidamente...

E essa garota odeia internet. E vai fazer ele se transformar num sujeito que ama a natureza e não sabe nada de internet. E aí vem a tensão da história: O policial precisa de ajuda do garoto para solucionar um cyber crime e ele fica dividido, ele adora ajudar esse cara e adora estar com a garota e as duas coisas são incompatíveis.”
Foto: Getty Images
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22 Fevereiro, 2010

A mulher se destaca

Renato Grinberg, Jornal do Brasil

“A ideia de que existem profissões exclusivamente femininas ou masculinas caiu por terra já há algum tempo. Hoje, o que vemos é que, cada vez mais, as características mais fortes em um gênero ou no outro são necessárias a todas as profissões. E, nessa idéia de que as competências comportamentais são imprescindíveis, as qualidades femininas vêm se destacando como fundamentais num mundo corporativo ainda predominantemente masculino.

Um caso bem interessante para essa análise é o mercado da construção civil. Se antes os empregadores viam na força de trabalho dos homens a sua única opção, atualmente este cenário vem mudando. Agora, gestores perceberam que as mulheres têm um olho mais atento para os detalhes e que também possuem uma maneira mais sutil de lidar com os profissionais das obras. Em termos de resultados, isso pode significar menores gastos com desperdício de matéria-prima e menor turnover de funcionários, o que obviamente também gera economias.

Um dos principais benefícios de ser liderado por uma mulher reside justamente nesta proximidade que elas permitem durante o cotidiano. Geralmente, empresas geridas por elas têm canais de comunicação mais abertos, em que os colaboradores sentem-se mais instigados a participar. Isso, contudo, não é uma regra. Aliás, esse é outro ponto a se pensar: desconfie de estudos e de gurus que buscam a unanimidade. Afinal, muitas pessoas conhecem um homem que é sensível ou então uma mulher mais racional. O ponto dessa reflexão é reconhecer as diferenças e as características próprias de cada gênero, buscando assim criar equilíbrio no ambiente de trabalho, da mesma maneira que buscamos esse equilíbrio em nossos lares.”
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21 Fevereiro, 2010

Cacoetes modernos

Flávio Paranhos, Revista Bula

"Assistia “Capitu”, série da Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho, com o intuito de escrever a respeito em minha coluna de Filosofia & Cinema na revista “Filosofia Ciência e Vida” (Editora Escala, momento propaganda), quando aproveitaria para falar sobre a virtude da coerência, valendo-me do gancho de minha polêmica com o escritor Domingos Pellegrini, no jornal literário “Rascunho” (outro momento propaganda, estou parecendo até o filme “Amor sem Escalas”, uma propaganda atrás da outra).

(O link para o citado artigo no “Rascunho” vai aqui mas para quem tiver preguiça de buscar e ler, resumo: Pellegrini critica “Dom Casmurro” por ter um personagem de moral duvidosa (Bentinho), desaconselhando-o para colegiais, mas, ao mesmo tempo, confessa nunca ter lido pra valer, parasitando seus colegas nos trabalhos de escola).

Enfim, assistia “Capitu” no conforto de minha casa, quando, numa das cenas inicias, ouvi Dona Glória (mãe de Bentinho) soltar um “onde” no lugar de um “quando”. Li “Dom Casmurro” sei lá quantas vezes, não me lembrava dessa derrapada de Machado. Transcrevo abaixo a versão da TV:

— Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze a semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, ONDE a família Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram nossas relações.”
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A democracia moderna: a corrupção e a estética da moeda

A ideologia dominante na sociedade contemporânea é a dos novos ricos. O novo rico é aquele que conhece o preço de todas as coisas mas desconhece seu valor. Sob seus auspícios, a educação produz uma cultura embotadora da sensibilidade e do pensamento.

Olgária Mattos, Carta Maior

Favorecimentos ilícitos, informações privilegiadas, tráfico de influências, gratificações particulares, desvio de verbas públicas, suborno, omissões por interesses próprios ou partidários, formação de cartéis e negligências várias são, nas democracias modernas, práticas de corrupção e, como tais, sujeitas às leis que regulam infrações. Deixando, pois, à Justiça a função de julgar, absolver ou condenar o Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, sua detenção suscitou, como veiculado pela mídia, júbilo, como ocorreu também com a do ex-governador Paulo Maluf, a dos proprietários da Daslu ou o da Schincariol respectivamente. Os dominantes não estão acima da lei. Como, desde o impeachement do ex-presidente Fernando Collor e até o momento, o fenômeno só se tem ampliado - não se tratando apenas de segredo de informação antes, maior visibilidade agora -, compreende-se que as diversas figuras da corrupção não são fato isolado, mas atravessam a sociedade inteira.

Identificando no capitalismo contemporâneo dispositivos que colocam as práticas autorizadas no limiar da ilegalidade, o filósofo W.Benjamin anotou: "o valor venal de cada poder é calculável. Nesse contexto só se pode falar de corrupção onde esse fenômeno se torna excessivamente manipulado. Tem seu sistema de comando num sólido jogo entrelaçado de imprensa, órgãos públicos, trustes, dentro de cujos limites permanece inteiramente legal". ("Imagens de Pensamento", Rua de Mão Única).”
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19 Fevereiro, 2010

A vida são muitos dias

Brasigois Felício, Revista Bula

“Quem teve sua existência levada pela senda do desespero, mas não perdeu de vista a esperança, conseguiu o milagre de confundir sua vida com a poesia. Na lucidez do compromisso de querer ser feliz, rompeu o casco espesso de chumbo da solidão e viu o rosto de Deus no oceano da solidariedade. Sendo o passado e o futuro ilusões da mente, só o instante que passa — só o presente é realidade, e só poderemos ser felizes nos momentos em que nos sentimos dadivosos e receptivos, alegres e confiantes.

Toda cegueira e limitação consiste em só colocarmos em ação a parte pequena que temos dentro de nós. Ao conseguir colocar para agir a nossa parte divina, veríamos as coisas tais como são, isto é, infinitas. “A vida são muitos dias”, escreveu o poeta T.S. Eliot. Quando se deparar com um problema que o angustie e deprima, pense como lhe parecerá pequeno daqui a dez anos. Tudo passa, como passam as águas e o vento. Daqui a dez anos os problemas serão outros, e nós também. Sobre o projeto de grandeza ou pequenez que cada um pode levantar e executar, a partir de seu sol interior, assim falou Confúcio: “Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é grande serão grandes homens. Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é pequena se tornarão pequenos homens”. No princípio tudo era oculto. Mas para que existe o oculto, senão para ser revelado? Os homens primitivos tinham a graça de contar com os símbolos, para decifrar os enigmas do universo, e os mistérios da natureza.”
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Jobim, Vannuchi e a Memória Brasileira

Frei Betto, Adital

“Indignados com o Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado em solenidade oficial presidida por Lula, em dezembro, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes das Forças Armadas teriam apresentado suas renúncias, recusadas pelo presidente da República.

Lula teria prometido rever três ou quatro pontos do programa, como os que exigem a instalação de uma Comissão da Verdade, a abertura dos arquivos militares e a retirada, de vias públicas, de nomes de pessoas notoriamente coniventes com a repressão da ditadura.

O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, cumpre honradamente seu dever de cidadão e autoridade pública: empenha-se para que a verdade venha à tona. O Brasil é o único país da América Latina, assolado no passado por ditadura militar, que prefere manter debaixo do tapete crimes cometidos por agentes públicos.

A lei da anistia, aprovada pelo governo do general Figueiredo, é uma aberração jurídica. Anistia se aplica a quem foi investigado, julgado e punido. O que jamais ocorreu, no Brasil, com os responsáveis por torturas, assassinatos e desaparecimentos. Aqueles que lutaram contra o regime militar e pela redemocratização do país foram, sim, severamente castigados. Que o digam Vladimir Herzog e Frei Tito de Alencar Lima.”
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18 Fevereiro, 2010

Alegrai-vos estudantes, estudem e lutem!

Elcio Cavalcante, Fazendo Media

“Diante da apatia, acomodação, conformismo e da inércia política dos meus jovens aluno(a)s perante a realidade da vida, diante do destino de suas vidas particulares e profissionais, resolvi escrever algumas considerações sobre este comportamento assaz estático, letárgico, alienante, conservador e às vezes reacionário desses jovens e velhos estudantes. Entretanto, alerto-os que a participação e as decisões políticas influenciam o cotidiano da coletividade em que vivemos, pois é evidente que há uma carência de agentes transformadores na sociedade.

Primeiramente devemos nos indagar “Onde estamos” e para “onde pretendemos chegar ou irmos”, destarte, saberemos o que realmente queremos da nossa vida. O filósofo romano Sêneca nos legou: “Se você não sabe a direção a que porto ir, nenhum vento lhe será favorável”.

Tracem objetivos de curto e longo prazo em seu cotidiano. Organização é vida. E tudo na vida é preciso planejamento, organização e disciplina. Depois do planejamento tudo será mais fácil, mesmo com os óbices, intempéries e tempestades que surgirão e que não são poucos em suas vidas, tenho certeza de que saberão se adaptar às dificuldades e tomarão novos rumos e rotas baseadas em seu planejamento. A vida é repleta de alegrias e dores que são inerentes à arte de viver. Carpe diem, caro(a)s estudantes!

Estudem e lutem, pois somente através dos estudos é que teremos a chance de mudarmos está adversa e hostil realidade, possibilitando a transformação da nossa rotina, todavia, só será possível em contato eterno com os livros e com a prática política: “Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma”, assim nos ensinou o poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht.”
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17 Fevereiro, 2010

É nóis em Berlim

"RETA DE CHEGADA - Após quatro anos de trabalho, Jeferson De conseguiu terminar seu primeiro longa quatro dias antes da exibição na Alemanha; filme contou com colaboração de Ferréz e a bênção de Mano Brown

Primeiro longa de Jeferson De, criador do Dogma Feijoada, Bróder tem première hoje na Alemanha e projeta Capão Redondo na tela de um dos maiores festivais do mundo

Flavia Guerra, O Estado de São Paulo

"Todo maloqueiro tem em si motivação para ser Adolf Hitler ou Gandhi", canta o rapper E.M.I.C.I.D.A. enquanto o que se vê na tela é uma panorâmica do Capão Redondo, um dos bairros mais famosos e, ao mesmo tempo, esquecidos de São Paulo. "Dá para tirar este Hitler e botar um bip no lugar?", pede Jeferson De. "Por quê?", rebate o "supervisor" da trilha sonora João Marcelo Bôscoli. "Como o filme vai passar na Alemanha, acho que não vai pegar bem falar em Hitler", responde De.

O filme em questão é Bróder, que faz sua première mundial hoje no Festival de Berlim. Primeiro longa do diretor, representa o Brasil na Panorama, uma das mais prestigiadas mostras competitivas do festival que termina sábado. Detalhe: o diálogo acima ocorreu há menos de uma semana. "Que estranho saber que meu filme vai ser exibido, que o festival já começou e eu ainda não terminei!", comentou De ao Estado enquanto "apagava" o Hitler de sua história, em um estúdio da gravadora Trama em São Paulo. "Berlim vai mostrar o preto que voa e o preto que não voa, que usa bilhete único." Assim De comentou a participação de outro filme do Brasil, Besouro (o "do preto que voa", de Daniel Tikhomiroff), e do seu Bróder na mesma seção.

É de fato irônica e complementar a escolha dos dois filmes. Besouro conta a história de Besouro Mangangá, o capoeirista que desafiava as leis da gravidade e os senhores de engenho em um Brasil recém liberto da escravidão. "No Brasil de 1897, quase todos os negros ainda sem a plena consciência de sua cidadania" diz a história de Besouro. No Brasil de 2010, não se pode afirmar que essa consciência tenha evoluído muito. O negro de Bróder não voa, continua tendo de se desdobrar para conseguir sair das três "opções profissionais" para se incluir no mercado de trabalho: "Morador da perifa tem o direito de virar jogador de futebol ou bandido. Quem não "opta" por nenhuma dessas rala muito para pagar o aluguel no fim do mês", sentencia De.”
Foto: Filipe Araujo, AE
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16 Fevereiro, 2010

Revoluções em fotografia

Livro de Michel Löwi traz a sensação de que a própria história se desenvolve diante de nossos olhos

José Arbex Jr., Brasil de Fato

Você já imaginou como eram, fisicamente, os participantes da Comuna de Paris (1871)? Ou como era a capital francesa naquela época, como as pessoas se vestiam, qual a aparência dos prédios, monumentos e vias públicas que serviram de cenário aos grandes momentos do “assalto aos céus”? Tudo isso ficou registrado como fotografia, e agora está à disposição dos leitores brasileiros, no livro Revoluções, organizado por Michel Löwi e editado pela Boitempo (São Paulo). Lançada em Paris, no ano 2000, a primeira edição foi rapidamente esgotada, relata Luiz Bernardo Pericás, e não sem motivo: trata-se de uma fantástica pesquisa histórica e iconográfica, que abarca até a revolução cubana (1953–1967). Felizmente para o leitor brasileiro, o tratamento editorial dado pela Boitempo é primoroso.

Basta percorrer o índice da obra para termos uma ideia de sua importância e extensão: além da Comuna de Paris, somos brindados com fotos de cenas e pessoas que participaram das seguintes revoluções: Russa (1905), Russa (1917), Húngara (1919), Alemã (1918–19), Mexicana (1910–20), Chinesa (1911–49), Espanhola (1936) e a já mencionada cubana. O leitor mais atento notará que não estão na relação alguns movimentos extremamente importantes, como a revolução húngara (1956) e as lutas de libertação nacional (por exemplo, na Indochina e na Argélia). O critério para a seleção é explicado numa página de “advertência”, logo no início do livro:

“Por uma questão de coerência, escolhemos as revoluções ‘clássicas’, revoluções sociais de inspiração igualitária que visavam distribuir as terras e riquezas, abolir as classes e entregar o poder aos trabalhadores. [...] Portanto, fomos obrigados a deixar de lado outros movimentos revolucionários não menos importantes: as revoluções democráticas, antiburocráticas e antitotalitárias. [...] O último capítulo passa em revista uma série de eventos revolucionários – distintos, em certa medida, das revoluções no sentido pleno do termo – dos últimos trinta anos: Maio de 1968, a Revolução dos Cravos em Portugal (1974–1975), a Revolução Nicarguense (1978–1979), a queda do Muro de Berlim (1989) e a sublevação zapatista de Chiapas (1994–1995).”
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15 Fevereiro, 2010

Balanço 2009: Primeiros romances de ficção científica

Roberto de Sousa Causo, Terra Magazine

“Uma tendência talvez importante de 2009 foi o aparecimento dos primeiros romances de personalidades da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982 ao presente). Especificamente, em 2009, Fábio Fernandes publicou Os Dias da Peste (Tarja Editorial), e Gerson Lodi-Ribeiro o seu Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas (Editora Draco). O primeiro é um romance de FC sobre a "singularidade" tecnológica, e o segundo um exemplo de FC de história alternativa. Para 2010 já foi anunciado o primeiro romance de Carlos Orsi, A Guerra Justa, também a sair pela Draco.

É bom contextualizar um pouco a problemática dos romances de ficção científica brasileira.

Os primeiros apareceram logo no século 19. O mais conhecido - e mais reconhecidamente ficção científica - é O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1825-1882), que assume os franceses Jules Verne e Camille Flammarion como influências diretas. O Doutor Benignus é um de três candidatos ao título de "Primeiro Romance de Ficção Científica da América Latina", juntamente com el maravilloso viage del Sr. Nic-Nac, do argentino Eduardo Holmberg, e Historia de un Muerto, do cubano Francisco Calcagno - todos os três publicados em 1875.

Também interessante, Rainha do Ignoto (1899), de Emília Freitas é reconhecido por acadêmicos como o primeiro romance fantástico brasileiro, com elementos de FC de mundo perdido. O livro de Freitas e o de Zaluar estão disponíveis em edições críticas lançadas por universidades.

É nas primeiras décadas do século 20, porém, que surgem alguns dos melhores exemplos de romances brasileiros de FC: Esfinge (1908), de Coelho Netto (1864-1934), com elementos daquilo que Braulio Tavares chamou de "ciência gótica", na linha de um Frankenstein de Mary Shelley; e A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1888-1959), e A República 3000 ou A Filha do Inca (1927), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois excepcionais romances de mundo perdido.”
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14 Fevereiro, 2010

Deserto cultural

Márcia Denser, Congresso em Foco

"Quem assiste à televisão é bombardeado com publicidade e propaganda o tempo todo desde a infância. As crianças passam muitas horas diante da TV, sendo formadas pelos ideais da cultura de consumo, de acordo com os quais sua única preocupação é com você mesmo, e sua máxima escolha se restringe entre uma marca de tênis ou outra"

“Hoje em dia, quase tão importante quanto a 4a Frota são os canais de televisão a cabo que recebemos aqui. Eles realizam, de forma indolor, um processo de dominação muito eficiente. Despejam toda essa quantidade de esterco cultural... Estamos vivendo um momento grave do ponto de vista de uma cultura de esquerda. A crise dos valores do chamado socialismo real e a emergência desse lixo cultural nos últimos anos nos deixaram numa situação grave... vivemos uma transformação do ponto de vista econômico-social muito mais importante do que no passado. No entanto, temos um deserto de idéias, um deserto de produção cultural...”. Marco Aurélio Garcia – O Globo, 09/02/2010.

Este é um comentário terrível, que incomoda. Vale como um diagnóstico. Porque é verdade. Para entender esse estado lamentável, é preciso ir à raiz do problema. Sapeando ao acaso na rede, me deparo com uma entrevista de Noam Chomsky dada em 1996 (Consciência.net). Com simplicidade e precisão cegantes, ele descreve este invasor internalizado, infinitamente mais poderoso que a 4a. Frota. Ele diz:

“Atualmente as pessoas já não se interessam por política. Mas este é justamente o objetivo do neoliberalismo: eliminar a população do processo decisório e colocar tudo nas mãos do poder privado. É a imposição de uma espécie de totalitarismo privado. Quanto mais se diminui a participação popular e coloca as decisões nas mãos dos bancos, corporações privadas, FMI, etc., menos espaço resta às pessoas para tomarem decisões. E elas perdem o interesse. Como se consegue isto?

Através de técnicas de marginalização e atomização, incluindo a imensa ofensiva da indústria de diversões, relações públicas e propaganda para privatizar os interesses. Nos EUA, um em cada seis dólares é gasto em marketing. Quem assiste à televisão é bombardeado com publicidade e propaganda o tempo todo desde a infância. As crianças passam muitas horas diante da TV, sendo formadas pelos ideais da cultura de consumo, de acordo com os quais sua única preocupação é com você mesmo, e sua máxima escolha se restringe entre uma marca de tênis ou outra. O mundo da cultura de mercado cria uma sociedade na qual você se relaciona unicamente com seu aparelho de TV e seu computador. E só.”
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Carnaval espiritual

Fri Betto, Adital

“Neste Carnaval anseio por folias interiores, de maravilhas indescritíveis, de sinuosos alaridos, de magnificências a dispensar ruídos e palavras. Quero toda a avenida regida por inequívoco silêncio, o baile imponderável em gestos rituais, a euforia estampada em cada sorriso.

Rasgarei a fantasia de minhas pretensões e, despido de hipocrisias, deixarei meu eu mais solidário desfilar alegre pelas recônditas passarelas de minha alma.

Fecharei os ouvidos à estridência dos apitos e, mente alerta, escutarei o ressoar melódico do mais íntimo de mim mesmo. Deixarei cair as máscaras do ego e, nas alamedas da transparência, farei desfilar, soberba, a penúria de minha condição humana.

Aplaudirei os sambistas com fogo nos pés e as mulatas eletrizadas pelo ritmo da batucada. Mas não me deixarei arrastar pelo bloco da concupiscência. Inebriado pelo ritmo agônico da cuíca, serei o mais iconoclasta dos discípulos de Momo, recolhido ao vazio de minha própria imaginação.

Neste Carnaval serei figurante na escola da irreverência e desfilarei pelas ruas meu incontido solipsismo, até cessar a bateria que faz dançar os fantasmas que me povoam. Envolto na desfantasia do real, atirarei confetes aos foliões e perseguirei os voos das serpentinas para que impregnem de colorido as diatribes de meu ceticismo.”
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12 Fevereiro, 2010

Inocência perdida

PRETO NO BRANCO - A associação com o nazismo é imediata, mesmo que o filme seja ambientado às vésperas da 1.ª Guerra e não da 2.ª: ideia foi ampliar a análise, em vez de limitar a um só fato histórico

As origens do nazismo e os perigos e perversões do fanatismo são temas decisivos do premiado filme A Fita Branca, que concorre ao Oscar e estreia hoje no Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de São Paulo

Michael Haneke não anda muito receptivo para comentar a indicação de seu filme A Fita Branca, que estreia hoje no Brasil, para concorrer ao Oscar. As perguntas foram enviadas à produção, para complementar a entrevista feita em Cannes no ano passado, mas a própria assessoria avisa: "Ele está cansado." Talvez não seja só isso. A Palma de Ouro e a dupla premiação - melhor filme e diretor - pela Academia Europeia de Cinema já referendam A Fita Branca. A Academia de Hollywood apenas confirma as possibilidades de Haneke ao indicá-lo para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Para muitos críticos, A Fita é o filme com mais chances. O quadro poderá mudar, como sempre ocorre no Oscar, mas as bolsas de apostas estão com Haneke. Sobre o filme, leiam o que disse o diretor, em Cannes, às vésperas de receber a Palma de Ouro de 2009, que lhe foi entregue pela própria presidente do júri, a atriz - hanekiana - Isabelle Huppert.

Seus filmes sempre tratam da violência nas relações interpessoais e sociais, mas por que viajar agora ao passado, para mostrar a violência numa pequena cidade da Alemanha no começo do século passado?

Existem muitos filmes sobre a Alemanha durante o nazismo, mas quase nunca se fala no período anterior. Queria justamente tratar dessa fase ignorada, mas que é fundamental. Após a derrota na 1.ª Guerra, foi ali que a Alemanha gestou o nazismo e (Adolf) Hitler apenas se beneficiou das circunstâncias da época. Como você disse, meus filmes mostram a violência, mas não é porque eu goste disso ou tenha prazer. Como cria da civilização judaico-cristã, eu também carrego a minha culpa, e não é porque seja pessoalmente malvado e precise de redenção. Queria muito falar sobre o pré-nazismo e como uma sociedade repressora deformou a mentalidade de uma geração que aderiu sem autocrítica aos ideais de Hitler. Mas a ideia, falando de crianças, nunca foi fazer só um filme sobre as origens do nazismo. Gostaria que as pessoas vissem A Fita Branca como um filme sobre a perversão dos ideais. Uma educação muito rígida leva à deformação e ao fanatismo. Temos aí a origem não só do nazismo, mas do terrorismo, que tanto aflige o mundo moderno.”
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11 Fevereiro, 2010

Carnaval, dever e prazer

Primeiro, estejamos de acordo que carnaval é antes de tudo prazer. Dever apenas para os que, por ofício ou necessidade, atravessam os dias de Momo envoltos em obrigações profissionais.

Luciano Siqueira, Vermelho.org

Óbvio? Nem tanto. Eu mesmo já brinquei – como dizemos aqui – o carnaval muitos anos. Desde criança, quando meu pai ornamentava um caminhão e enchia de amigos e vizinhos para o corso, em Natal, em meados dos anos 50. Eu e Airton, o irmão caçula, ainda meninos, ganhávamos um saco de confete, um tubo de lança-perfume Rodouro – para inocentemente alvejar as meninas – e rolos de serpentina. E assim foi quase que a vida inteira, até os tempos mais ou menos recentes. Então, era puro deleite, o prazer da diversão, com direito a fantasia, sonho, desejo, paquera e suas conseqüências.

Ocorre que a militância política, que em 1982 me proporcionou uma eleição para deputado estadual, introduziu (para meu desgosto) uma tentativa, da parte de companheiros de Partido, de me transformar em folião por dever. Ou seja: ao invés de por um tênis, uma bermuda e uma camiseta e saí por aí atrás de blocos pelas ladeiras de Olinda e ruas do Recife, e o que mais desse na telha, a obrigação de cumprir um roteiro tido como “politicamente necessário”. – Você tem que ir à prévia do “Lili nem sempre toca flauta”, pra começo de conversa. – Veja lá, não deixe de ir à inauguração da barraca do “Sai na Marra”, nem ao desfile do domingo, e assim por diante.

Ora, quem luta por toda a vida e põe sempre os interesses do povo em primeiro lugar, tem todo o direito de se orientar pela máxima “o dever é público, o lazer é privado”. Mais: se possível, em se tratando de festa, nunca misturar dever com lazer. Até porque ninguém jamais ganhou ou perdeu votos por ter comparecido, ou não, a esta ou àquela agremiação carnavalesca.”
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10 Fevereiro, 2010

O homem só

José Pedro Goulart, Terra Magazine

“As histórias se resumem basicamente no que os dramaturgos chamam de "a jornada do herói" , ou seja, a busca do personagem principal (o qual nos identificamos) por algo.

O herói não é necessariamente alguém acima de qualquer suspeita. Basta que ele, ou ela, esteja determinado em obter algo que faça sentido. Nesse caso é permitido roubar um banco, matar, ou em último caso entrar para a política.

Muitas vezes os heróis se alimentam da contraposição ao sistema. De enfrentar a mediocridade reinante. Em última análise, resistir. Eles não precisam triunfar, basta que as soluções fiquem claras.

George Clooney leva a vida sem objetivos épicos em "Up in the air". No máximo quer o recorde em acúmulo de milhagem. E também divaga que a felicidade está em não ter âncoras - filhos, família, um lar.

Isso faz de Clooney um anarquista no filme? Não, ele está sempre de gravata. Um cínico talvez? Também não, o cinismo anda fora de moda, é autoindulgente. Quem sabe desespero? Descartado. Desespero denotaria alguma euforia, apontaria para um inimigo claro a ser combatido.

Na verdade, Clooney é um personagem dos tempos atuais, um sujeito em desencanto.”
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Eric Clapton ― envelhecendo como um bluesman

Diogo Salles, Digestivo Cultural

"Falar em "melhores da década" é um tema amplo demais. Como não quero ficar atirando para todos os lados, prefiro colocar essa pauta num plano mais fechado. Em diversos textos que escrevi aqui, procurei analisar o cenário musical de diferentes maneiras, mas todos eles tinham um ponto de convergência: essa primeira década do milênio foi de uma pobreza musical quase inverossímil. Pelo menos no que tange o mainstream. Em minhas intermináveis discussões musicais com Rafael Fernandes, vivo insistindo que não houve renovação no rock desde a derrocada do grunge. Parece ter se segmentando ainda mais e formado novos guetos no heavy metal para os xiitas se acotovelarem. Já o pop nem se fala: parece ter morrido antes mesmo de Michael Jackson ― e do que restou, só o resto mesmo: a mesma porcaria venal e pasteurizada de sempre. No rock clássico, alguns se reciclaram, outros seguiram adiante e boa parte se aposentou (embora a maioria ainda não saiba disso). Entre mortos e feridos, eis o que eu queria dizer: para mim, Eric Clapton foi o músico da década. Músico e guitarrista.

Tudo bem, sei que é fácil ser o melhor músico numa década em que qualquer sinal de virtuosismo é visto como "ultrapassado" e ser medíocre é "cool". Mais fácil ainda é ser o maior guitarrista numa década em que Jack White é ovacionado como o guitar hero dessa geração. Pode funcionar para quem só quer pagar de "descolado", mas a crítica musical, que disseminou esse espírito de manada pró-Jack White, parece ignorar que Clapton ― além de ser infinitamente mais importante ― foi o artista mais prolífico dos últimos dez anos. Não é só a maneira de tocar, é o timbre, é a voz (cada vez mais rouca), são os shows, as parcerias, é o partido artístico de uma forma geral. Eric Clapton parece ser uma espécie de Clint Eastwood do rock n' roll: quanto mais velho, melhor fica. Parece envelhecer como os bluseiros que tanto o inspiraram. Ícone musical e guitarrista prodígio dos anos 1960, ele se afogou no álcool e nas drogas nas décadas seguintes, até ressurgir sóbrio no excelente álbum Journeyman (1989) e explodir comercialmente com Unplugged (1992). Chegados os anos 2000 ― e já não tendo de provar mais nada a ninguém ―, Clapton resolveu fazer um mergulho profundo em si mesmo, realizando todos os seus sonhos musicais, indo buscar suas raízes e, de quebra, reconstruindo sua vida pessoal. Então vamos deixar a crítica lá, jogando capim para os búfalos. Aqui, vamos reconstituir o caminho do Slowhand nos últimos dez anos.”
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08 Fevereiro, 2010

Meus caros generais

Marcelo Paiva, O Estado de São Paulo

“Eu ia dizer “caros milicos”. Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.”
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07 Fevereiro, 2010

O paradoxo burguês

Elias Thomé Saliba, CartaCapital

“Na história das sociedades, leis e normas estão encaixadas numa cidadela maior, batizada com uma palavra muito falada, pouco entendida e ainda menos praticada, a ética. Mas existe uma história daquelas regras sociais furtivas que se originaram do convívio cotidiano e, mesmo não codificadas em leis e regulamentos, formaram uma pequena ética, ou seja, uma etiqueta. É o que afirma o historiador e professor de Direito da Universidade de Paris Frédéric Rouvillois em A História da Polidez, de 1789 aos Nossos Dias (Grua, 544 págs., R$ 69), uma ampla sondagem das mudanças e variações nas regras de etiqueta, incluindo costumes, modos, boas maneiras e rituais de savoir vivre.

Não é uma história fácil de fazer, já que as fontes são limitadas. Na ausência de regras escritas, Rouvillois colecionou centenas de manuais de decoro e livros de etiqueta publicados, em sua maioria, após a Revolução Francesa. Isto porque o radicalismo dos protagonistas de 1789 representou o mais profundo golpe na polidez aristocrática do Antigo Regime. “Não há mais senhores, apenas cidadãos”, proclamaram os mais radicais entre os revolucionários republicanos. É um período curto, no qual os modos elegantes passam a ser malvistos e há a tentativa de proibir até mesmo o tratamento por vós, já que todos seriam iguais e deveriam tratar-se por tu.

O revolucionário Robespierre, que pessoalmente não apreciava grosserias gratuitas, foi o mentor de uma onda do “civicamente correto” e de uma antipolidez jacobina, iniciando obsessiva caça às palavras interditas na fase mais radical da Revolução. Os tratamentos por “senhor” ou “madame”, tidos como resíduos do feudalismo, foram obrigatoriamente substituídos por “cidadão” ou “cidadã”. Gerlet, no seu Pensamentos Republicanos Destinado a Todos os Dias do Ano, para Uso das Crianças, de 1794, propôs a extinção de termos como “lacaio” ou “doméstico”, substituindo-os por “homens ou mulheres de confiança”, aqueles que “o destino ordenou servir a seus iguais”. Foi um momento de crise do savoir vivre e refluxo da polidez, que durou até a ascensão de Napoleão Bonaparte, quando a burguesia iniciou uma reação a esta “antipolidez jacobina”. Embora não seja homogêneo, esse período, que se estende até a Primeira Guerra Mundial, pode ser considerado a idade de ouro da polidez burguesa.”
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O baiano fantasma

Eduardo Bomfim, Vermelho.org

“Tive a oportunidade de rever na telinha do Canal Brasil um filme de primeiríssima qualidade. Trata-se de O Baiano Fantasma, de 1984, dirigido por Denoy de Oliveira e no elenco atores de qualidade, como José Dumont. Trata-se da história e desventuras de um nordestino paraibano que vai para São Paulo tentar ganhar a vida e acaba, sem querer, cobrador de dívidas de uma quadrilha que vendia proteção pessoal a pequenos comerciantes.

As cenas são passadas nos cortiços do centro da cidade e nas favelas de São Paulo. Os personagens são, entre outros, pequenos comerciantes descendentes de italianos, chamados de carcamanos, árabes da periferia e principalmente nordestinos aos milhares, entre atores e nas tomadas de ruas.

O enredo oscila do trágico ao cômico recorrentemente. O ritmo do filme é realista e ao mesmo tempo dinâmico, fugindo do estilo parado, introspectivo-tedioso como era característico de alguns dos nossos diretores encantados pelo gênero da “velha” vanguarda do cinema francês que já teve seus momentos de glória.

Mas que, como dizia na época, Nelson Rodrigues, era um cinema muito prestigiado, assistido por iniciados em cujas salas de projeção havia uma platéia minúscula e alguns cidadãos roncando, babando na gravata, ninados pelo ar refrigerado e a proteção da penumbra.”
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05 Fevereiro, 2010

O homem da Idade do Plástico e a servidão

Edival Lourenço, Revista Bula

“Os estudiosos normalmente usam como classificador do estágio social humano a matéria prima básica da ferramenta de cada período. A saga do homem moderno começa com o desenvolvimento de objetos a partir da pedra. No seu primeiro momento, Lascada; e depois, Polida. É claro que paralelamente ao uso da pedra usava-se a madeira, o osso, a pele, a pluma, a lã, a argila, o fogo. Mas o que conta é o material da ferramenta-base e predominante que era feita de pedra. Na Idade da Pedra Polida, nossos ancestrais implementaram importantes contribuições ao processo civilizatório: a domesticação de animais, a agricultura e os primeiros assentamentos humanos, constituindo-se cidades incipientes. Lembrando que a primeira cidade murada foi Jericó, no vale do Jordão. Mas os muros eram tão fraquinhos que os invasores os derrubaram a toque de trombetas. A roda bem que poderia ter surgido num dos períodos da Pedra, mas não há nenhum achado arqueológico que possa comprová-lo.

Seguiu-se a Idade do Cobre, mineral supostamente descoberto pelos oleiros sumérios — povos que habitavam uma região onde hoje fica o Iraque. A mais antiga ferramenta desse material descoberta pelos arqueólogos foi um martelo. Mas, rapidamente, (cerca de 3500 anos depois) foi adicionado, por acaso, o estanho ao cobre e deu origem à Idade do Bronze. Essa liga melhorou consideravelmente as ferramentas de então, por ser mais maleável do que o cobre enquanto aquecida e ter uma dureza maior quando em temperatura ambiente. Armaduras, espadas, escudos, aldravas e grilhões são descobertas desse período. Veio depois a idade do ferro, com grande impulso à agricultura, à caça, à pesca e à arte da guerra. O Império Romano dominou plenamente o ferro e tratou a ferro e fogo as regiões conquistadas. Os Templos de Davi e Salomão foram erigidos na Idade do Ferro, mas usaram basicamente pedra, madeira e cobre trabalhados pelos artesões de Tiro, — um império antigo situado onde hoje fica o Líbano.

A Revolução Industrial, a qual sentimos muito próxima de nós, se deu com a liga de ferro e carbono, que vai se firmando como a Idade do Aço. Hoje vivemos um tempo de ligas impensáveis para nossos antecedentes. Mas a liga dominante, creio, é a de plástico, uma liga orgânica de uso infinito, retirada do petróleo pelo processo de craqueamento. Talvez estejamos vivendo a Idade do Plástico, que é uma liga ubíqua: está em tudo e em toda parte. No futuro, se houver futuro, os arqueólogos não terão dificuldades em comprovar sua prevalência, pois o plástico é mais durável à digestão da natureza do que o aço.

Como pudemos observar, o desenvolvimento dos materiais e das ferramentas acontece num processo de acumulação. A pedra polida não eliminou a pedra lascada, o cobre não exclui nenhuma das pedras, o bronze não dispensou o cobre, o ferro não baniu o bronze, o aço não dispensou o ferro, nem o plástico dispensou o aço.”
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04 Fevereiro, 2010

São Paulo e seu círculo de giz

Mauro Santayana, JB Online

“As notícias divulgadas e a análise de alguns jornalistas sobre a sucessão deixam, no leitor, a impressão de que o Brasil é refém do que se decidir em São Paulo. Assim, a disputa estaria entre o grande empresariado, que apoiaria Serra, e os trabalhadores que optariam por Dilma. O resto, como diria Ibrahim Sued, o astuto e bem pago louvador da grã-finagem deslumbrada, seria a periferia. A conclusão é apressada.

Nas especulações destas horas se fala na pressão dos partidos da base aliada do governo sobre Ciro Gomes, a fim de que ele se candidate a governador de São Paulo. Podemos dizer tudo sobre Ciro, mas seria estultícia imaginá-lo ingênuo. Desde a juventude, Ciro tem agido de acordo com os próprios objetivos e a sua forma de entender o Brasil e o mundo. Podemos discordar de suas ideias e de alguns de seus atos, mas é ocioso duvidar de sua inteligência. Essa inteligência, somada a fatores subjetivos mas legítimos (como a afinidade entre os coetâneos), levou-o a anunciar apoio à candidatura de Aécio Neves, em favor do qual desistiria de disputar a Presidência. Não tem por que, nesta altura, embarcar na aventura paulista. Ele sabe que, qualquer venha a ser o seu desempenho do primeiro turno, é melhor negociar a parceria, na segunda mão do jogo, com as cartas abertas, ou seja, com os votos obtidos que lhe permitam, provavelmente, decidir o pleito presidencial.

O quadro ainda não se encontra definido: as duas candidaturas, bem como a de Ciro, dependem das convenções partidárias, e elas costumam guardar surpresas. Como não podemos duvidar da inteligência de Ciro, seria de igual ingenuidade duvidar da inteligência de José Serra. Sua hesitação em assumir a candidatura à Presidência da República não se deve, como alguns apressados concluem, a um temperamento político bipolar. Ele não pode, ao aproximar-se dos 70 anos, correr o risco de ficar ao sereno durante quatro anos, pelo menos. Flores da Cunha, na irreverência da linguagem gauchesca, dizia que “político sem mandato é como rameira sem cama”. As últimas pesquisas – que tampouco podem ir além do momento em que se realizam – indicam que a candidata de Lula se encontra em ascensão e poderá cruzar-se com Serra em algum e próximo momento.”
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03 Fevereiro, 2010

O amor nos tempos do Big Brother

Urariano Mota, Direto da Redação

“Nós últimos tempos, tenho visto jovens que se agarram e se sufocam aos beijos em público. Nas filas dos supermercados, nos ônibus, nas feiras livres, em todos os lugares o amor está no ar. Até parece haver uma onda, um vagalhão de ternura que arrasta e assalta os corpos de nossos jovens. É como se uma ardente atração fizesse com que se friccionassem amorosa, irresistível e interminavelmente. Como se amam! dizemos de início. Que paixão irreprimível! dizemos mais adiante. Que despudor! dizemo-nos enfim, em silêncio.

A evidência manda dizer que somente observa jovens quem não mais é um deles. Que mal haveria na exibição da necessidade de uma pessoa que exige, urgente, outra? O escândalo que sentimos diante de tais exibições não é já manifestação de conservadorismo? Não é já, como nos diria um jovem, a expressão de uma inveja, porque não mais sentimos o ardor vital da paixão? Então nós, que não somos mais garotos, mas nem por isso alcançamos a invenção da lâmpada elétrica, respondemos. Aos poucos, como convém a nossas pausas de fôlego.

Existem paixões públicas, necessária e indissoluvelmente públicas, como a expressão do pensamento em palavras, em símbolos, em imagens, em música. Um poema, um romance, um relato, ainda que expressem a maior intimidade, que em palavras não saberíamos expressar no cotidiano, é por necessidade e realização um expressar para o mundo. Que infelicidade seria, para todos nós, os versos de Mario Benedetti cercados para sempre entre quatro paredes! Paixões assim trazem o destino de ser públicas. E elas só se realizam na medida mesmo em que se tornem conhecidas.

Diferentemente, acreditamos, das paixões dos indivíduos que se realizam neles mesmos. Que importa ao distinto público a maneira como amamos na intimidade da nossa cama? Que importa à vida de toda a gente a expulsão de humores, vale dizer, o orgasmo do nosso sexo? Se não fazemos disso a expressão de algo menos físico, que importância isso tem para todo o mundo? Um cínico nos diria, “o que é bom é para ser mostrado”. Que o beijar, o abraçar, o devorar, são atos naturais, e, portanto, ao serem mostrados, que importa? Ao que responderíamos: existem outros atos naturais, íntimos de intestinos, que nem por isso devem em público ser mostrados. Queremos dizer.”
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02 Fevereiro, 2010

Cukor e a dialética do ser e da aparência

André Setaro, Terra Magazine

"1) Vi recentemente, em DVD, a comédia musical Les girls (1957), do grande George Cukor, que assinala uma das últimas aparições de Gene Kelly como dançarino no cinema. O gênero, na época deste filme, já estava a se esgotar, substituído, logo a seguir, pelas grandes produções musicais, a exemplo de West Side Story, A noviça rebelde, My fair lady. Talvez a derradeira película na melhor tradição do filmusical hollywoodiano tenha sido Gigi (1958), de Vincente Minnelli. Os efervescentes anos 60 ainda proporcionaram alguns filmes interessantes (Positivamente Millie, de George Roy Hill, A moedinha da sorte, de George Sidney, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, entre outros), mas, a partir da segunda metade da década de 60, ainda que alguns estúdios insistissem na grandiloquência (Funny Girl, de William Wyler, A estrela, de Robert Wise), a pá de cal, por assim dizer, veio com Hellô! Dolly, que levou a Fox à falência. Em 1970, com a explosão do Woodstock, o público estava arredio aos espetáculos musicais tradicionais e foi um erro, falta de planejamento, a realização de Hellô! Dolly, um fracasso quase retumbante, ainda que filme fascinante nos seus números e cenas de danças.

2) Mas estava a falar de Les girls. Um filme de pontos de vista sobre a questão da verdade. O que é a verdade? Há uma verdade de cada um, segundo o ponto de vista de cada um. Cidadão Kane, de Orson Welles, é, neste particular, um puzzle magnífico construído sobre variações de olhares sobre uma determinada personalidade. Em Les girls, há uma variação em torno da questão, e o autor do roteiro deve ter visto e se influenciado por Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, que trata do assunto. Três pessoas se abrigam de chuva torrencial debaixo de uma marquise e começam a conversar sobre um assassinato que presenciaram. Em flash-backs, como em Les girls, Rashomon mostra a versão de cada um. No final, as versões se contradizem e aparece o espírito do morto para contar a sua verdade.”
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O Twitter e o Soneto

Lourenço, Revista Bula

“Twitter e Soneto apresentam algumas coincidências que vão muito além da aparência inicial: ambos são substantivos paroxítonos que definem um modo formal de exposição do discurso e são dotados de três sílabas gramaticais ou duas sílabas métricas.

Soneto é uma composição poética megavelha, vetusta mesmo. Segundo os “paleontólogos literários”, essa forma poética teve início na idade média, ali pelo final do século 12, início do 13. A autoria do primeiro soneto é controvertida e se divide entre três poetas sicilianos. O termo Soneto vem do provençal (o idioma dos trovadores medievais) sonet, que quer dizer som, melodia, canção. Em pouco tempo virou coqueluche e se tornou a forma preferida dos poetas. Encantou Dante, Petrarca, Camões e Shakespeare. O nosso sonetista mais notável foi certamente Olavo Bilac, aquele do “Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o censo e eu vos direi no entanto”... Drummond escreveu sonetos, Bandeira Escreveu Sonetos, Gullar escreveu pelo menos um, que eu sei.”
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01 Fevereiro, 2010

O decadente Big Brother Brasil

Julio César Cardoso, Bodega Cultural

“Vivemos outros tempos, com uma sociedade de consumo dirigida por manipuladores de massa. E isso é observado em quase todos os segmentos da vida social, aqui incluída naturalmente a grande indústria do mundo capitalista fabricando coquetéis de ilusões, de frivolidades, de devaneios a ponto de inebriar mentes fragilizadas de pessoas que hoje vivem como fantoches ao sabor daqueles, por exemplo, cognominados especialistas em produzir modas, tipos ou gêneros de indivíduos tribais, exibindo suas tatuagens, esbeltos corpos sarados em academias de ginásticas, que se proliferam por todos os lugares, enfim, uma multidão de pessoas fazendo o que a mídia especializada ou os profissionais capitalistas determinam.[...]

O Big Brother Brasil, hoje na sua versão mais promíscua, representa o mundo contemporâneo da nudez explícita, da apelação desmedida ao sexo e vitrine de exposição pública carnal de seus participantes do mesmo ou de sexos diferentes.”
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