31 Março, 2010

A Páscoa da Terra Crucificada

Leonardo Boff, Adital

“A páscoa é uma festa comum a judeus e a cristãos e encerra uma metáfora da atual situação da Terra, nossa devastada morada comum. Etimologicamente, páscoa significa passagem da escravidão para a liberdade e da morte para a vida. O Planeta como um todo está passando por uma severa páscoa. Estamos dentro de um processo acelerado de perda: de ar, de solos, de água, de florestas, de gelos, de oceanos, de biodiversidade e de sustentabilidade do próprio sistema-Terra. Assistimos estarrecidos aos terremotos no Haiti e no Chile, seguidos de tsunamis. Como se relaciona tudo isso com a Terra? Quando as perdas vão parar? Ou para onde nos poderão conduzir? Podemos esperar como na Páscoa que após a sexta-feira santa de paixão e morte, irrompe sempre nova vida e ressurreição?

Precisamos de uma olhar retrospectivo sobre a história da Terra para lançarmos alguma luz sobre a crise atual. Antes de mais nada, cumpre reconhecer que terremotos e devastações são recorrentes na história geológica do Planeta. Existe uma "taxa de extinção de fundo" que ocorre no processo normal da evolução. Espécies existem por milhões e milhões de anos e depois desparecem. É como um indivíduo que nasce, vive por algum tempo e morre. A extinção é o destino dos indivíduos e das espécies, também da nossa.

Mas além deste processo natural, existem as extinções em massa. A Terra, segundo geólogos, teria passado por 15 grandes extinções desta natureza. Duas foram especialmente graves. A primeira ocorrida há 245 milhões de anos por ocasião da ruptura de Pangeia, aquela continente único que se fragmentou e deu origem aos atuais continentes. O evento foi tão devastador que teria dizimado entre 75-95% das espécies de vida então existentes. Por debaixo dos continentes continuam ativas as placas tectônicas, se chocando umas com as outras, se sobrepondo ou se afastando, movimento chamado de deriva continental, responsável pelos terremotos.

A segunda ocorreu há 65 milhões de anos, causada por alterações climáticas, subida do nível do mar e aquecimento, eventos provocados por um asteróide de 9,6 km caído na América Central. Provocou incêndios infernais, maremotos, gases venenosos e longo obscurecimento do sol. Os dinossauros que por 133 milhões de anos dominavam, soberanos, sobre a Terra, desapareceram totalmente bem como 50% das espécies vivas. A Terra precisou de dez milhões de anos para se refazer totalmente. Mas permitiu uma radiação de biodiversidade como jamais antes na história. O nosso ancestral que vivia na copa das árvores, se alimentando de flores, tremendo de medo dos dinossauros, pôde descer à terra e fazer seu percurso que culminou no que somos hoje.”
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30 Março, 2010

Armando Nogueira, um sedutor irresistível

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Como jornalista, Armando Nogueira foi um excelente poeta e um prosista de texto refinado. Entrou no jornalismo da TV Globo em 1966, quando o golpe militar estava ainda fresquinho, e lá ficou até 1990, quando o novo presidente, Fernando Collor, convenceu Roberto Marinho a promover Alberico Souza Cruz ao posto máximo do jornalismo global, não que tivesse qualquer objeção a Armando, simplesmente porque precisava premiar o amigo Alberico que teve participação decisiva na edição do debate presidencial e ainda palpitou nos programas especiais que transformaram Collor no indômito “caçador de marajás”.

Armando não foi demitido, pior que isso, sofreu uma “capitis diminutio”. Foi "promovido" a assessor especial da presidência, o que a plebe chama carinhosamente de “aspone”. Dedicou-se então ao jornalismo esportivo, onde, aí sim, foi um verdadeiro mestre da palavra escrita e falada. Fui revê-lo anos mais tarde apresentando um programa de esportes num dos inúmeros canais a cabo da Globo.

De Armando, pessoalmente, guardo duas passagens. Eu estava há menos de um ano à frente do Jornal da Globo quando cruzamos no corredor onde ficava a redação do Globo Repórter. Ele me parou e disse: “olha, eu quero te cumprimentar porque desde Heron Domingues não aparecia aqui um apresentador como a mesma naturalidade dele”. Heron era o ícone de toda uma geração de telejornalistas e ser comparado a ele era um elogio e tanto que elevou meu ego às alturas. Hoje, honestamente, não sei se foi sincero ou apenas uma frase de efeito com a qual seduzia todos que estavam entrando no império global.

Doutra feita, estava eu no Eng, a sala da técnica que comanda a transmissão dos telejornais, quando alguém me chamou ao telefone. Era o Armando: “Tenho uma boa notícia para lhe dar, a partir de agora você vai passar a ganhar cinco mil cruzeiros por mês”. Entre surpreso e curioso, rebati de primeira: “e o que é que vocês vão querer em troca?” Armando ficou visivelmente decepcionado com minha reação, esperava talvez um emocionado agradecimento de quem ganhava dois mil reais. Ora, pensei naquele momento, onde já se viu um patrão mais que dobrar o salário do empregado sem um motivo especial? Depois se esclareceu que eu, e todos os demais apresentadores, perdiam ali o status de funcionários da Globo e passavam a Pessoa Jurídica com contrato de firma. Na época uma novidade, hoje uma prática comum no mercado televisivo.”
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29 Março, 2010

Chá das Cinco Com o Vampiro

Euler de França Belém

“Chá das Cinco Com o Vampiro” (Objetiva, 285 páginas), de Miguel Sanches Neto, é um roman à clef da pesada (seria quase um bildungsroman?). Seu projeto, se há um, é desmitificar o escritor minimalista Dalton Trevisan, conhecido como Vampiro de Curitiba, por conta de sua reclusão salingeriana (a diferença é que publica). Sanches escreve bem e com muita graça, sem porra-louquice.

Aos 84 anos, Trevisan reagiu com fúria ao saber do romance e chamou Sanches de “filho espiritual de Caim”, “traveca de araponga louca de meia-noite” e “hiena papuda”. Vi uma fotografia de Sanches. Não parece papudo nem Sancho Pança. Talvez tenha o gogó mais pronunciado do que o de outros homens. Mas, “hiena papuda”, é exagero produzido pelo ódio. Depois de certa idade, não se tem mais tempo para ter raiva — tem-se ódio, que é raiva transformada em pedra e que se leva para o túmulo (raiva é ódio provisório). O livro, presente do velho amigo Vassil Oliveira, é tão interessante que, começada a leitura, não queremos mais parar. O que buscamos? Escândalos? Talvez. Ou, quem sabe, um sentido para a obra de Trevisan, que, embora sabendo importante, não me apetece. Trevisan parece ter uma vida insossa, mas sua imaginação voa mais alto do que o cotidiano sem importância.

A crítica a Trevisan é direta: “O que destrói uma pessoa, qualquer pessoa, por mais reservada que seja, é a vaidade. No fundo, estamos sempre querendo ser aceitos. Esperando a aprovação dos outros. E fingimos indiferença ao mundo, ou mesmo ódio, até certo ponto. Há uma hora em que nos rendemos”. Será que Trevisan cabe na modelagem traçada pelo costureiro de palavras Sanches? Os indivíduos não são diferentes? Seu livro resulta do fato de, aparentemente, ter sido humilhado pelo mestre? Não sabemos, ou não sabemos inteiramente. Sanches é corajoso, pois, como adotamos o modo de vida americano, por qualquer motivo se processa e se exige indenização no Brasil.”
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28 Março, 2010

Resenha: No lago do mito

Roberto de Sousa Causo, Terra Magazine

"Love: A História de Lisey (Lisey's Story), Stephen King. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2008 2006, 543 páginas. Traduzido por Fabiano Morais.

Em 16 de setembro de 2003, um editorial do New York Times afirmou que, "quando anunciarem as grandes figuras da moderna literatura americana - Bellow, Miller, Morrison, Updike, Roth - eles poderão agora somar um nome: Stephen King".

Não é um editorial que vai colocar King no cânone norte-americano, mas tal opinião reflete uma mudança consistente, ao longo da última década, no status desse autor que chegou a se referir a si mesmo como "o equivalente literário de um Big Mac com fritas".

No Brasil, embora ele continue sendo um dos nomes mais vendidos da Editora Objetiva - basta conferir o número de obras dele republicadas na coleção de bolso da Objetiva -, não parece haver esforço dos seus editores, nem dos críticos, em reconsiderá-lo como escritor. Mesmo para os seus fãs brasileiros, poucos se arriscam a vê-lo como um dos melhores escritores americanos vivos. Para eles, Stephen King é mais um escritor de horror, gênero em constante mutação - atualmente assumindo a forma da assim chamada "fantasia urbana", dominada por Stephenie Meier, Charlaine Harris e L. J. Smith. Um dos problemas do público da ficção de gênero é que ele às vezes deixa de enxergar distinções. Tudo parece fácil, um jogo de temas e ambientações intercambiáveis (você precisa apenas ser "original" ou "novo"), e o talento necessário para realizá-lo na sua forma mais expressiva passa despercebido.

Mas King é "o Pelé do Horror", e sou fã dele o bastante para chamar este Love: A História de Lisey de o melhor romance de ficção especulativa lançado no Brasil em 2008. Está dentro da tendência metaficcional desse autor, tratando da escrita e do ambiente editorial, e que já rendeu obras como Angústia (Misery), A Metade Negra (The Dark Half), Rose Madder, e Saco de Ossos (Bag of Bones). No plano da estrutura e da sua textura narrativa, talvez ele lembre mais Angústia e Jogo Perigoso (Gerald's Game), dois romances sem muito enredo, centrado em um número limitado de situações e configurado por meio de flashbacks e mergulhos na consciência da protagonista - neste caso, Lisey Landon, a viúva de um famoso autor de realismo mágico.”
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Religião e Espiritualidade

Frei Betto, Adital

“A espiritualidade é, como a sexualidade, uma dimensão constitutiva do ser humano. Essa potencialidade neurobiológica pode ou não ser cultivada. Uma pessoa desprovida de espiritualidade prescinde da percepção da profundência de sua subjetividade. Nela os desejos prevalecem sobre os ideais.

Se Sócrates e Descartes nos despertaram para a inteligência racional; Colleman, para a emocional; foi a física e filósofa Danah Zohar que chamou a atenção para a inteligência espiritual. Maria Corbi sugere que a espiritualidade se resume em IDS: Interesse (por ela); Desapego (de si e dos bens finitos); Silenciamento (concentrar-se para descentrar-se no Outro e nos outros).

À primeira vista, espiritualidade opõe-se à materialidade. E o espírito ao corpo. Esse dualismo platônico está superado, tanto pela ciência quanto pela teologia. Somos todos e tudo uma Unidade. Os mesmos 92 átomos encontrados em nosso corpo são os "tijolos" que edificam o conjunto do Universo.

A espiritualidade prescinde das religiões, pode ser vivida sem elas, e há religiões desprovidas de espiritualidade, asfixiadas pelo peso do doutrinarismo autoritário. Sócrates (470 a.C.-399 a.C.) e Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) eram homens profundamente espiritualizados, "santos pagãos", embora destituídos de religião.

As religiões surgiram no período neolítico, quando o ser humano, até então nômade e coletor, fixou-se na atividade agrícola, tornando-se sedentário. Seu ponto axial foi o século VII a.C. Nele nasceram e/ou viveram Buda (600), Lao-Tsé (604) Zaratustra (660) e os profetas Jeremias e Daniel.”
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26 Março, 2010

Dos CIEPs às UPPs

Mair Pena Neto, Direto da Redação

“O Rio de Janeiro experimentou nos anos 80 do século passado os resultados nefastos da mesquinharia, praticada por certos governos, da não continuidade de políticas públicas acertadas dos que os antecederam. Refiro-me especificamente aos CIEPs, um projeto de educação em tempo integral, desenvolvido por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, que foi praticamente destruído no governo subseqüente, de Moreira Franco, que ainda anda por aí pleiteando cargos públicos em nome do PMDB.

Os CIEPs, para quem não os conheceu, eram escolas onde os alunos das classes populares receberiam educação, alimentação e assistência médica e contariam com atividades esportivas e culturais durante uma jornada de oito horas, que, além de lhes proporcionar uma boa formação, daria aos pais a segurança de que estavam bem entregues enquanto estivessem trabalhando.

Se tivessem sido levados adiante com o mesmo compromisso, poderiam ter evitado o surgimento de muitos bandidos e traficantes, como o que a polícia eliminou esta semana no morro de São Carlos, e até transformado a realidade de violência da cidade. Mas bastou um governo para desmontar o projeto, que outros trataram de arrasar ainda mais.

Se hoje existe reação ao Bolsa Família de Lula, naquela época, com o país saindo da ditadura, as elites eram ainda mais refratárias a um projeto que oferecia piscina a crianças carentes em áreas nobres da cidade, como o CIEP construído no antigo Berro D’Água para atender as comunidades dos morros Cantagalo e Pavão-Pavãozinho.”
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25 Março, 2010

Os Nardoni e nós: o show midiático

Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

“Nem o Papa e a Madonna chegando juntos a um evento talvez não conseguissem atrair tantos jornalistas à sua volta. A fotografia publicada hoje pelos jornais mostrando o advogado de defesa do casal Nardoni, Roberto Podval, cercado por um mar de câmaras e microfones por todos os lados, ao chegar para mais uma etapa do julgamento, resume bem o show midiático montado no tribunal do Fórum de Santana.

Não se fala de outra coisa desde segunda-feira. A pergunta que me faço diante deste espetáculo: a imprensa mobilizou seus batalhões para atender a um interesse do público ou o público não fala de outra coisa diante da overdose da cobertura do julgamento em todas as mídias?

Na capa do jornal, no rádio do táxi, nos noticiários da televisão e da internet, o dia inteiro somos bombardeados com a trágica história da menina Isabella, de 5 anos, que morreu ao ser jogada pela janela do prédio onde morava, depois de ser espancada, segundo os peritos. Os acusados pelo crime, que chocou o país há dois anos, são o pai e a madrasta da menina.

A esta altura do campeonato, com todos os depoimentos que já foram feitos e as provas apresentadas pela polícia, não conheço ninguém, a não ser os advogados da defesa e a família dos acusados, que ainda tenha alguma dúvida sobre a responsabilidade de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá pela morte de Isabella.”
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24 Março, 2010

O ‘animau cinistro’ de Aristóteles

Brasigois Felício, Revista Bula

A realidade é só uma ficção criada pela falta de utopia”. (Geraldo Carneiro)

"O Homem (ser humano) que pensa, e quer viver de acordo com seu pensamento, não pode senão querer retirar-se da tempestade de absurdos que alastra-se como praga pelo mundo. Cada tempo tem sua cegueira, seu museu de obscuridades. Na bíblia a mulher é denunciada como cúmplice de Satanás — e por isso tem que sofrer e ser explorada e oprimida, diz a escritora Rose Marie Muraro.

Mas vendo a coisa por outro prisma, sabe-se que o mundo só terá jeito quando (e se) mudarmos o nosso jeito de funcionar no mundo e em nós mesmos. Pois terá de começar por nós mesmos a mudança que nele pretendermos fazer. Até porque todo descalabro e todo absurdo que vemos grassar em toda parte vem da inversão de consciência, da qual nascem as patologias pessoais, umbilicalmente ligadas à patologia de uma sociedade doente, e que vai se tornando cronicamente inviável, pelo Homo Sapiens, que transformou a si próprio em Homo Demens.

Palavras servem para definir, aclarar, mas são utilizadas muitas vezes para mentir, mistificar, ocultar, falsear. Assim são torcidas e re-torcidas, de modo inconsciente, ou por automático ato falho. Palavras são usadas para mentir ou matar em nome de Deus, da Liberdade ou da Pátria. Aquele que mata invocando as razões e motivos sublimes de sua religião ou ideologia classificam o morticínio coletivo por atos de terrorismo como justiçamento, e não como genocídio. Mesmo que não conheçam as vítimas inocentes de seu ato insano e selvagem. O mal está em não reconhecer o próprio mal que se pratica.”
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23 Março, 2010

Oscar Wilde, dândi imortal

J.C. Ismael, Digestivo Cultural

"E lágrimas desconhecidas encherão para ele/ a urna da Compaixão, há muito trincada./ Pois quem o pranteia são homens proscritos/ e esses choram sempre." (Epitáfio sobre o túmulo de Oscar Wilde, transcrição dos versos finais do capítulo IV da Balada do cárcere de Reading)

No dia 30 de novembro fará 110 anos que Oscar (Fingall O'Flahertie Wills) Wilde morreu. Seus 46 anos aparentavam muito mais devido à devastação física, causada pela meningite, e sequelas de uma infecção mal curada. Somadas à solidão, depressão e pobreza, borraram os vestígios do sofisticado dublinense que por quase duas décadas usara a aristocracia vitoriana como pretexto para criticar a superficialidade das relações humanas. Na (re)leitura das suas obras é fácil detectar que seus poemas de estreia têm a originalidade comprometida por uma adjetivação desnecessária, e que a adoção dócil ao esteticismo decadentista da arte pela arte também contribuiu para torná-lo pouco palatável aos leitores. Mas com seu amadurecimento é impossível negar o encanto das peças epigramáticas e não se comover com as reflexões tecidas no fim da vida sobre o desamparo humano diante da tirania do destino.

Objeto de riso nas escolas que frequenta em Dublin e Oxford, por causa dos trajes exóticos e maneiras afetadas, símbolos de uma rebeldia difusa, Oscar Wilde começa a ganhar notoriedade em 1881, quando seus poemas, publicados esparsamente, são reunidos num livro. No ano seguinte, percorre o Canadá e os Estados Unidos fazendo palestras em universidades. Perguntado pelo funcionário da alfândega de Nova York sobre o que tinha a declarar que levava na bagagem, responde: "Nada, a não ser a minha genialidade". Os aplausos para a peça Vera, então em cartaz naquela cidade, aumentam a curiosidade em ouvir o já lendário frasista, mas a imprensa americana o crucifixa por causa da maneira debochada com que trata assuntos que vão da religião à (in)fidelidade conjugal. Os ataques fazem-no reagir com mais irreverência, o que acaba por desgastá-lo, mesmo porque ficara evidente que a suposta originalidade das suas teorias estéticas havia sido bebida nos textos de Mathew Arnold e Walter Pater. Mesmo assim, ao defender a importância da subjetividade na expressão artística e a liberdade na realização pessoal, dá uma contribuição importante ao romantismo, ao utilizá-lo como instrumento de investigação da realidade.

Execrado pelos progressistas, que exigem o engajamento do artista na luta pelas transformações da sociedade, e pelos conservadores, que o acusam de enaltecer uma forma de arte sem apreço pelas tradições britânicas, extasia-se com essa unanimidade. Em 1884, Constance Mary Lloyd, da burguesia londrina, torna-se sua mulher e lhe dá dois filhos, Cyril e Vyvyan, mas Wilde jamais seria um modelo de patriarca vitoriano. As críticas literárias que publica no Pall Mall Gazette, coloridas com deliciosas ambiguidades, trituram tudo o que não exalte o prazer estético, assunto desenvolvido nos instigantes ensaios publicados em 1891 com o título de Intenções, reflexões sobre arte e cultura que nenhuma pessoa instruída pode desconhecer.”
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22 Março, 2010

Pés gelados

Luís Fernando Veríssimo, O Estadao de S.Paulo

"- Doutor, eu entro no chuveiro e lá está a calcinha da minha mulher pendurada numa torneira.

- Sim.

- O armário do banheiro está sempre cheio das coisas dela. Potes de creme, sprays, loções, bisnagas. Não tem lugar para as minhas coisas. Já tentei jogar tudo fora mas não adiantou. No dia seguinte o armário estava cheio das coisas dela, de novo.

- Sim.

- A coberta da cama está sempre presa no lado dela. Não consigo puxar para o meu lado.

- Sim.

- Não posso usar o telefone. Está sempre ocupado.

- Sim.

- E o pior, doutor. Os pés gelados dela encostando na minha perna, na cama. Quando eu menos espero.

- Sim, sim. Só não entendo por que o senhor está me contando tudo isso. Parece mais assunto para um conselheiro matrimonial, não um psicólogo.

- É que a minha mulher morreu há mais de um ano, doutor!
A águia voa na sexta. Os "blues" não costumam ter letras muito inspiradas. São sempre lamentos sobre amores desfeitos, mulheres infiéis e outras misérias da vida, ou sexo puro, sem poesia. Mas algumas letras escapam deste padrão simples. Num blues que começa assim "They call it bloody Monday, but Tuesday"s just as bad" ("chamam de segunda infernal, mas a terça-feira é igual", tradução aproximada da minha inteira responsabilidade), o cantor enumera o que faz na semana toda. E canta: "The eagle flies on Friday." "A águia voa na sexta." Um raro exemplo de linguagem críptica, ou refração poética, numa letra de "blues". A frase não significa que na sexta-feira o cara se solta, cai na noite, etc., porque no verso seguinte ele diz que nos sábados sai para se divertir. Significa o que, então? O que, na gente, se livra das convenções e da mesmice do resto das semanas e alça voo - mesmo que apenas teoricamente - nas sextas-feiras? De qualquer maneira, guarde esta justificativa, para o caso de algum dia ter que se explicar: sexta-feira é o dia da águia.”
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21 Março, 2010

Só restarão os livros

José Luiz Teixeira, Terra Magazine

“Dia desses, em uma festa de aniversário de criança, fui apresentado ao diretor de um grande jornal.

Como depois de três ou quatro indiretas ele se fez de desentendido e não me convidou para publicar minhas mal traçadas crônicas em seu diário, resolvi abordar um tema de interesse comum: o futuro dos jornais.

Na sua (lá dele) opinião, é bem provável que daqui a alguns anos a mídia eletrônica acabe com a mídia impressa; mas não com o jornalismo nem com a empresa de comunicação.

Ainda que o leitor tenha acesso às notícias pela Internet, será sempre necessário o profissional que colha, apure, organize, faça uma triagem e edite as informações para ele.

Mais do que isso: o noticiário digital precisará ter não somente uma redação organizada em sua retaguarda, como também credibilidade.
Concordei. Mesmo porque nunca é bom discordar de um diretor de jornal. Nunca se sabe como será o dia de amanhã.

Creio que as revistas desaparecerão depois que os jornais. Na minha sempre (i)modesta opinião, no futuro, no que diz respeito à palavra impressa, só restarão os livros.”
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Liberdade para quê?

"Livre para escolher entre a Universal do Reino de Deus ou Renascer ou a Nova Carismática"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Este é um país livre:

- Livre para assistir à Globo em seu fast-food favorito/consultórios vários, além dos médico-dentários/pet-shop/cabelereiro/boteco/show-room, etc.;
- Livre para ler, em todos os locais supra, Veja/Vejinha/Época/Caras;
- Livre para pagar IPTU progressivo;
- Livre para se empanturrar no MacDonald;
- Livre para passar as férias em Miami & Cancun, salvo a Terra de Marlboro, ou seja:
- Livre para fumar no meio da rua;
- Livre para estagiar graciosamente em qualquer lugar;
- Livre para assistir ao BBB-10 24 horas por dia;
- Livre para curtir parada gay;
- "Instalaçãs",
- "Ocupaçãs",
- "Intervençãs", donde-
- Livre para ser fashion;
- Livre para ser fofo;
- Livre para seu sonho de consumo;
- Livre para fazer um teste drive;
- Livre para seu roteiro de compras na faixa de Gaza;
- Livre para escolher entre a Universal do Reino de Deus ou Renascer ou a Nova Carismática;
- Porque livremente pode acessar seus bispos/papas/gurus/Deus pela tevê, a mesma onde, conforme item 1, já é superlivre para assistir à Globo;
- Senão, liberar-se via HBO e Telecine de 1 a 4 por módicas prestações mensais com direito a comerciais em inglês;
- Livre para adotar o middle class way of life;
- Livre para pesquisar o Marxismo em Paulo Coelho
- Ou as Vanguardas Poéticas Afegãs
- Ou a Metafísica em Adriane Galisteu;
- Livre para optar pelo Pensamento Único;
- Ou seja, livre pra ser Bem-Pensante,
- Traficante,
- Retirante,
- Cadeirante;
- Enfim – There Is No Alternative:
- This country is free!”

19 Março, 2010

Especialista aponta estagnação do mercado editorial brasileiro

Flávia Albuquerque, Agência Brasil

“O setor editorial brasileiro vende cerca de 330 milhões de exemplares por ano, com faturamento de R$ 3,3 bilhões, mas não tem crescido desde 2004, segundo dados de 2008 apresentados pela professora do departamento de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP) Leda Paulani que participou de evento promovido pela Associação Brasileira de Indústria Gráfica hoje (18), em São Paulo.

Segundo ela, o setor editorial também foi atingido pela crise. Apenas as vendas para o governo, um quarto de tudo o que é vendido, não foram afetadas por serem compras planejadas. “O restante do mercado foi afetado e eu acredito que este não ano teremos crescimento no setor. Mas isso vem acontecendo desde 2004”, disse a pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Ela informou que o levantamento sobre o desempenho do mercado editorial no ano de 2009 ainda não foi concluído.

De acordo com a pesquisadora, a estagnação do mercado ocorre porque a economia brasileira estava crescendo pouco e porque a população não tem o hábito de adquirir livros. “As pessoas quando tem uma renda a mais não vão comprar livro, compram outros tipos de bens”.

Leda afirmou ainda que o setor editorial no Brasil é muito pequeno quando comparado à economia o que, segundo ela, indica que há espaço para crescimento, fato que depende de mudanças culturais.
A pesquisadora explicou que a tendência é que parte do mercado seja substituído por livros eletrônicos, mas de forma gradativa. Isso, entretanto, não provocará uma transformação grande no setor. “É um processo que já está em curso. É possível baixar livros pela internet há algum tempo.”

18 Março, 2010

O leão e o chacal mergulhador

Ronaldo Correia de Brito, Terra Magazine

“Mamede Mustafa Jarouche deu uma contribuição de grande valor à literatura brasileira, traduzindo o Livro das Mil e uma noites, trabalho que lhe rendeu várias premiações. Schopenhaeur desprezava as obras traduzidas, pois achava que os tradutores pretendiam corrigir e reelaborar os autores. O que vemos em Jarouche é o cuidado obsessivo em manter-se fiel aos originais em árabe, dando-lhes fluência e encantamento sem escrever uma nova versão, como fez Antoine Galland.

A mais nova façanha de Jarouche é a tradução de O leão e o chacal mergulhador, um texto árabe sem assinatura de um autor, que ganhou seu formato definitivo na Bagdá do século XII. Aqui não se trata de uma coletânea de histórias do gênero maravilhoso, como nas Mil e uma noites, mas de pequenas narrativas sapienciais, ao estilo das fábulas clássicas, contendo ensinamentos de toda natureza, provérbios e lições morais.

O personagem a partir do qual se elabora um fio narrativo, aglutinando as inúmeras pequenas narrativas, é o Mergulhador, um chacal sábio, virtuoso, praticante do ascetismo, que se aproximou do rei-leão com o fim de aconselhá-lo, ajudando-o na administração do reino, em meio a uma corte de intrigantes, sempre maquinando sua queda. O estilo narrativo, bem próprio da cultura árabe, pode tornar-se cansativo para um leitor moderno, sobretudo ocidental.”
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17 Março, 2010

Criança e Consumo

Frei Betto, Adital

“A capital paulista sedia, de 16 a 18 de março, no Itaú Cultural, o 3° Fórum Internacional Criança e Consumo, iniciativa do Instituto Alana.

Especialistas no tema debaterão como prevenir e reduzir os efeitos da publicidade de produtos e serviços destinados a crianças e adolescentes.

A população com idade inferior a 12 anos é hipervulnerável à comunicação mercadológica devido ao mimetismo próprio da infância, à falta de discernimento, à afirmação da personalidade, à dificuldade de distinguir desejo e necessidade. Formar cidadãos ou consumistas?, eis a questão.

Nessa cultura hedonista em que os valores sonegados da subjetividade são pretensamente substituídos pelo valor agregado da posse de bens e serviços, crianças e jovens se veem ameaçados pela incidência alarmante da obesidade precoce, a violência (inclusive nas escolas), a sexualidade irresponsável, o consumo de drogas, o estresse familiar e a degradação das relações sociais.

Com a laicização crescente da sociedade ocidental que, com razão, repudia o fundamentalismo religioso, a moral perde seu anteparo na vivência da fé; as ideologias altruístas, em crise, cedem lugar ao individualismo egocêntrico; a tecnociência aprimora meios de relacionamento virtual em detrimento da alteridade real e da interrelação comunitária e coletiva.

Vivemos, como Sócrates, na terceira margem do rio: os deuses do Olimpo já não oferecem parâmetros éticos, e a razão depara-se com a própria insuficiência frente à avassaladora pressão mercantilizadora de todas as dimensões da existência. Onde, nos mais jovens, o idealismo, a abnegação, a ânsia pelo transcendente, o sonho de mudar o mundo?”
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16 Março, 2010

Nossa compulsão pela certeza e a loteria secreta

Edival Lourenço, Revista Bula

"Sem muita certeza eu arriscaria a afirmar que as maiores necessidades humanas são a manutenção de sua integridade biológica, a geração de descendentes e a redução, se possível a zero, das incertezas. Assim nesta ordem. Aliás, o instinto de manutenção parece ser uma pulsão que permeia a toda a natureza.

Spinoza intuiu que uma pedra quer ser uma pedra, um rio quer ser um rio, uma árvore quer ser uma árvore, um vírus quer ser um vírus, uma barata quer ser uma barata, um canário quer ser um canário, um crocodilo quer ser um crocodilo, um jumento quer ser um jumento, um homo sapiens quer ser hum homo sapiens, embora este último, em sua complexidade neural, às vezes vacile: às vezes quer ser um deus, às vezes quer ser um verme. Mas são apenas exceções que confirmam a regra. Cada ser quer ser a si mesmo e ponto final. Isso a todos compraz.

Por falar em regra e que toda regra tem exceção; e tem mesmo, inclusive esta. E a exceção da exceção da regra é que todo ser vivo morrerá um dia, muito antes do que se possa esperar. É uma regra absoluta. Mas esta gostaríamos de relativizar, de estabelecer exceções. E assim a maioria de nós vive numa perspectiva ilusória e ao mesmo tempo iludida de que vamos viver para sempre. Quando não por nós mesmos, mas pelo menos por meio das gerações, dos genes que vamos como uns danados atirando futuro afora.

Esta necessidade está dramaticamente documentada desde os primórdios de nossa civilização. O livro do Gênesis dá conta de que teria Ló sobrevivido juntamente com duas filhas, às explosões de Sodoma. Como não havia nas imediações algum outro homem com quem as filhas pudessem se acasalar e dar seguimento às gerações, elas embebedaram o pai com um vinho artesanal, que perdeu os freios morais que vedavam o incesto. E assim duas estirpes ancestrais dos habitantes de Israel tiveram início, que são os moabitas (saído do pai) e amonitas (filho de parentes).

A necessidade da criação de certezas tem conseguido feitos extraordinários, inclusive o feito de não se estabelecer nunca, mas de ser sempre perseguido, incansavelmente, pelas gerações. Não foi por outra razão senão pela necessidade de reduzir as incertezas que criamos totens, Deuses e toda sorte de seres sagrados, inventamos calendários, criamos a agricultura, estabelecemos religiões e ritos, mergulhamos em superstições e avançamos na ciência. Não esqueçamos nunca que a ciência também tem suas superstições, seus fundamentos estabelecidos sobre princípios, que são por sua vez limitados pela ignorância. A ciência também caminha de pé nas coxas.”
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15 Março, 2010

Esquecem a honra

Cláudio Lembo, Terra Magazine

“Uma onda de pessimismo invade determinados segmentos da sociedade. Pessoas que pensam e vivem, de acordo com princípios arraigados, sentem-se desconfortáveis.

Elementos que compunham o rol de requisitos para vida digna vão se evaporando. Já não valem. Foram esquecidos nos velhos manuais escolares e em tratados lançados no fundo das bibliotecas.

Interessa o pragmático. Ganhar. Vencer a qualquer custo. Rompem-se referências antes consolidadas. Mente-se. Agride-se o perfil de personalidades sem qualquer pudor.

Particularmente após as obras de Maquiavel, a política passou a ser considerada um campo sem vedações. Importa obter e preservar o Poder. Os métodos pouco importam. Interessa apenas a obtenção dos objetivos.

Quando a esgrima política desenvolvia-se entre mandatários, oriundos de família tradicionais, sem qualquer interferência da população, a ação concretizava-se entre iguais e iguais feria. Os maus exemplos circunscreviam-se a poucos atores.

Instalou-se a democracia e, de maneira paralela, as formas contemporâneas de comunicação. A democracia trouxe em seu bojo a transparência. A publicidade tornou-se valor essencial para sua realização.

A exigência de ampla visibilidade de todos os atos, inclusive pessoais, dos agentes públicos, alinha-se aos atuais instrumentos de comunicação: rádio, televisão e internet. A soma conduziu a situações inusitadas.”
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14 Março, 2010

Com ventilador, mas sem educação

Marta Barcellos, Digestivo Cultural

“Era a economia, seria estupidez ignorar. Meu entusiasmo com o Brasil ― o país que insistia em marejar os olhos da gente na hora do hino nacional, embora jamais fosse acertar-se no mundo ― dessa vez tinha bases sólidas. Bastava olhar os indicadores sociais e econômicos. Mais que isso: bastava sair às ruas, no esplendoroso verão carioca, para confirmar o comércio fervilhando, todos ganhando um dinheirinho com algum trabalho e gastando no supermercado lotado. Na fila do táxi, em um shopping da Barra da Tijuca, pude observar duas famílias, da cor brasileira, aguardando a vez com caixas de ventiladores e um aparelho de ar-condicionado. A vez deles havia chegado. Mais um pouco, daria até para comprar um carrinho.

Esta era a nova e reluzente realidade, eu me comprazia. Superada a fome, conquistadas a estabilidade e a democracia, estávamos saindo daquele terrível estado em que viver é sobreviver. Poderíamos evoluir até para o estágio da arte ― e no quesito cultural imagina o que virá pela frente, pensei, se a riqueza existia mesmo antes, convivendo com a pobreza financeira. Que espetáculo de país seremos, já somos, e quase tive vergonha de parecer ingênua de tanto otimismo.

Em nenhum momento de meus devaneios, fique claro, ignorei o problema da educação. Ele estava lá, gigantesco, mas sua solução parecia próxima, como desdobramento natural do crescimento econômico e da vontade política. Bem ou mal, já tínhamos todas as nossas crianças na escola. Os investimentos inevitavelmente seriam canalizados para a área. Foi mais ou menos nessa época, de entusiasmo exacerbado, que recebi a notícia: M. provavelmente repetiria o ano na escola. Novamente. Fiquei atordoada e acabei sendo mais incisiva com a sua mãe, que trabalha como empregada em minha casa, do que me prometera ser em relação ao assunto. "Mas não tem jeito? Não existe recuperação ou segunda época na escola pública? As aulas de reforço não adiantaram?"

Sempre me senti responsável por M., uma menina muito falante e inteligente, hoje com 10 anos. Talvez pela forma como a conheci.

Depois de sete anos em São Paulo, um lugar onde descobri que esforço e mérito podem ser, sim, mais importantes que relacionamento e "berço", eu procurava um imóvel para comprar no Rio de Janeiro. Após algumas visitas, o corretor nos mostrou um apartamento especialmente encantador, ainda mobiliado, embora o dono tivesse se mudado há um ano para sua fazenda em Minas Gerais. Quando passamos pelas dependências de serviço, lá estava M., sentadinha e compenetrada, ao lado da tábua de passar roupa, esperando pacientemente pelas tranças que a mãe lhe fazia no cabelo.

A cena ficou registrada em meus pensamentos, provavelmente porque a menina aparentava ter a mesma idade de minha filha. Tudo fez mais sentido quando meu marido comentou, nos dias em que fechava a compra do apartamento, que o proprietário incluíra nas negociações um pedido inusitado: que contratássemos a sua empregada. Bastaram alguns dias no apartamento novo para eu ter dúvidas sobre qual tinha sido nosso melhor negócio: o imóvel ou a empregada, perfeita.”
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13 Março, 2010

Futuro da mídia progressista nos Estados Unidos

Um novo livro destaca como a mídia progressista e independente chegou a ter a maior influência de sua história nos Estados Unidos. Essa mídia já alcança um público de milhões de pessoas todos os dias e está decididamente mais influente do que nunca. Antigamente seria considerado um grande sucesso se uma revista progressista obtivesse mais de 200 mil assinantes por mês. Mas hoje há dúzias ou mais de blogs, revistas e sites de notícias online, nos EUA, que têm mais de 1 milhão de leitores únicos por mês. O artigo é de Don Hazen.

Don Hazen, AlterNet / Carta Maior

Enquanto o establishment jornalístico, e mesmo progressistas, como Bob McChesney e John Nichols lutam pelo que resta do declínio dos anúncios dirigidos ao jornalismo corporativo, os ativistas e jornalistas Tracy Van Slike e Jessica Clark escolheram contar uma história diferente, mais positiva, sobre o futuro da mídia nos EUA.

No seu livro "Além da Câmara de Eco: reformulando a Política através das redes de mídia progressista" [Beyond the Echo Chamber: Reshaping Politics Throug Networked Progressive Media] (New Press), os autores nos levam a uma jornada pela relativamente recente (dos últimos 8 anos para cá) surgimento da mídia progressista e independente. A conclusão a que chegam é inegável: sob qualquer ponto de vista, o que conhecemos por mídia progressista e netroots, alcança um público muito maior – milhões de pessoas todos os dias - e está decididamente mais influente do que nunca.

Antigamente seria considerado um grande sucesso se uma revista progressista obtivesse mais de 200 mil assinantes por mês. Mas hoje há dúzias ou mais de blogs, revistas e sites de notícias online que têm mais de 1 milhão de leitores únicos por mês. A recém formada rede Ad Progress www.adprogress.com, fundada por AlterNet [www.alternet.org], The Nation [www.thenation.com] e Mother Jones [www.motherjones.com], a qual se juntaram American Prospect [www.prospect.org], The New Republic[www.tnr.com] e outros têm mais de um milhão de leitores. E, a propósito, a mídia progressista não está em crise, principalmente porque não depende de uma única fonte de receita – os anúncios -, como acontece à mídia corporativa; em vez disso, é frequentemente financiada por uma mistura de subvenções, doações de leitores, vendas de anúncios e lista de parceiros do vasto setor do ativismo não lucrativo.

Lideradas por fazedores de mídia criativa agressiva, como Robert Greenwald, da Brave New Films, Markos Moulitsas do The Daily Kos, Jane Hamsher do FireDogLake, John Byrne da Raw Story e Mark Karlin da BuzzFlash, a nova mídia progressista usa uma série de estratégias e táticas muitíssimo mais agressivas e orientadas para o ativismo do que o pequeno universo das revistas impressas que dominaram a mídia progressista por longo período (Heck, a Revista da The Nation, tem 145 anos).

Mas, antes que o establishment da mídia progressista se tornasse tão convencido do seu papel, há ainda fraquezas maiores e nuvens negras no horizonte. Clark e Van Slyke não se esquivam dos obstáculos, dedicando a melhor metade do livro a analisar os desafios do futuro com histórias de sucesso e promovendo modelos de redes sociais e colaboração que eles acham que podem fortalecer a influência recém desoberta da mídia progressista.”
Tradução: Katarina Peixoto
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12 Março, 2010

Glauco revelava os políticos no delírio infantil do poder

Charge de Glauco no Natal de 2009 (Folha de S. Paulo)

Claudio Leal, Terra Magazine

“Quando morrem, os humoristas não merecem ir para o céu. Assassinado junto com o filho, Raoni, na madrugada desta sexta-feira, em Osasco (SP), o cartunista Glauco Villas Boas inviabilizou seu passaporte para o lugar-comum dos vertebrados: era impertinente, livre, subversivo e de oposição. Olhando bem, nesta República poucos justificam os quatro carimbos. Não confundir um humorista com os piadistas e os imitadores anedóticos. Estes são aceitos em qualquer festa. Os humoristas, em seus confrontos de Oscar Wilde, Dorothy Parker ou Millôr Fernandes, não gozam descanso terreno ou eterno.

Sem coincidência, Glauco se hospedou por nove meses no lendário apartamento de Henfil na rua Itacolomi, em São Paulo, nos anos 70. Esse encontro de fradins e geraldões insinuava um ritual de passagem do humor do "Pasquim" para o da geração de craques como Laerte, Angeli e Glauco. Não havia admiração pacífica. A agilidade do traço de Henfil, quase "caligráfico" - como destacava Jaguar -, e a liberdade no uso do espaço do cartum contagiaram "Los 3 Amigos". "Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão - o trabalho dele era um avanço muito grande", declarou numa entrevista.”
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11 Março, 2010

Invictus: uma jogada de mestre

Herondes César, Revista Bula

“Nelson Mandela tinha consciência que um abismo social, cultural e linguístico ainda separavam brancos e negros, e que a África do Sul continuava sendo um país racista e economicamente dividido, em decorrência do apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, fez com que Mandela resolvesse usar o esporte para unir a população

A África do Sul, em 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente, era um país dividido, com duas bandeiras e dois hinos nacionais. De um lado os africânderes, minoria branca responsável por décadas de regime segregacionista, o “apartheid”; de outro, a população negra despossuída e à qual se negavam direitos elementares de cidadania.

Mesmo tendo amargado 27 anos de cárcere, Mandela descartou o revanchismo em favor da reconciliação nacional. E arquitetou uma jogada de mestre: usar a Copa do Mundo de Rúgbi de 1995, cujo país-sede seria a própria África do Sul, para promover a pacificação entre negros e brancos e consolidar a multirracialidade no país.

O filme “Invictus”, de Clint Eastwood, dramatiza as etapas mais emocionantes dessa história, da posse de Mandela na presidência ao término da Copa, com ênfase no time de rúgbi mais importante do país, o Springbok, com apenas um jogador negro.

Num preâmbulo, quatro anos antes da eleição de Mandela, o filme apresenta a seguinte situação: isolados por uma sólida cerca de ferro, atletas brancos e robustos treinam o rúgbi com seu uniforme vistoso; do outro lado da rua, detrás de uma tela frágil, garotos negros descalços e mal nutridos correm atrás de uma bola de futebol. De repente passa entre os dois grupos o cortejo de carros que conduz Mandela para a liberdade. Os garotos correm para saudá-lo aos gritos, enquanto os atletas brancos remoem seus temores em silêncio.”
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10 Março, 2010

A excelência do espírito

Guilherme Montana, Digestivo Cultural

"São trinta quilômetros sobre esquis. A prova, esqui cross country para mulheres, estilo clássico, largada em massa. O dia, 27 de fevereiro de 2010. Olimpíadas de Inverno de Vancouver, Canadá. Na massa de atletas, a favorita, a norueguesa Marit Bjoergen, que já havia conquistado cinco medalhas nestes jogos olímpicos, e que desde 2005 não brilhava tanto; e a polonesa Justyna Kowalczyk, uma medalhista em ascensão. Mesmo quem não é familiarizado com esportes de inverno, como nós, brasileiros, por motivos óbvios, jamais se esquecerá do quão extasiante foi ver aquelas mulheres lutando pela medalha de ouro numa das provas mais glamorosas dos jogos de inverno.

Vinte e cinco quilômetros já haviam sido vencidos. A cinco quilômetros de terminar a prova, Bjoergen tinha uma vantagem de 1,9 segundos sobre Kowalczyk, que, mesmo sendo a campeã mundial da prova em 2009, alimentava poucas expectativas no público de vencer a norueguesa que já ostentava cinco medalhas em Vancouver, das quais três, de ouro. Mas essa é toda a graça: superação é vencer a si mesmo vencendo o mais forte. E nos cinco quilômetros restantes, sobre e sob neve, elas disputaram milésimo por milésimo a vitória. No sprint final, virtualmente empatadas, quem estivesse assistindo a prova estaria se descabelando, independente de para quem fosse sua torcida.

* * *

Fico impressionado com a fragilidade do corpo humano. Nós não somos os mamíferos mais fortes, nem os mais rápidos. Talvez os mais inteligentes. É certo que, entre os primatas, o Homem é o que tem o maior pênis, eis aí um motivo de orgulho viril; mas, ainda assim, jogados numa jaula um chimpanzé de 60 quilos e Lou Ferrigno, com aquele físico da época em que estrelava a série Hulk, não sinto em informar que o chimpanzé sairia vencedor, empalitando os dentes com um dos braços do Ferrigno. (Não imagine a cena, foi tudo uma metáfora.) A nossa vantagem sobre os demais familiares do reino animal é a dita racionalidade. Que se resume assim: eu não corro como um guepardo, mas nunca vi felinos pilotando Hayabusas.

Em comparação direta com os demais animais, sempre levaremos desvantagem. Mas o esforço que o ser humano faz para superar essa fragilidade inata é inebriante. Não falo do esforço pelo esforço, porque isso é vazio. Esses recordes de apneia estática são um exemplo disso. Permanecer submerso por vinte minutos, apenas para permanecer vinte minutos submerso e ser listado no Guinness Book, é uma demonstração ordinária de poder. Não, não falo disso. Falo de Gabriele Andersen-Schiess, e não me importa que isso seja clichê. Nem um pouco. A imagem da fundista suíça terminando em frangalhos a maratona nas Olimpíadas de Los Angeles, 1984, ainda hoje me assombra.”
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09 Março, 2010

Mil anos para as mulheres!

Dal Marcondes, Envolverde

“Minha vida é cercada de mulheres. Em sua maioria pessoas fortes, cheias de vida e personalidade. A começar por minha mãe. Maria Bela é um farol que emana segurança e caráter. Minhas irmãs, as três, são a ternura de que me lembro. Cristina é o sonho, o charme, a insensatez e a liberdade. Adriana é a responsabilidade e a braveza em todos os sentidos do termo. Nira é a harmonia, a alegria e a ternura que fazem sorrir, sempre.

Minhas filhas são complementos: Alba é um presente que faz olhar o futuro com esperança. Alice é a certeza de que este futuro será construído de fato, e será um bom lugar para se viver.

Entre meus amores há um pouco de tudo, representado hoje por Ana Maria, que tudo agita e faz com que a vida se mova, sempre.

Este ano é o centenário do Dia Internacional da Mulher. Vamos ler muito sobre isto, apenas espero que não seja mais com a visão romântica de que as mulheres são umas coitadinhas que carregam o mundo nas costas. Claro que há injustiças, e muitas. No entanto, há avanços a serem comemorados. O principal deles é o espaço que as mulheres estão ocupando no campo político. Teremos este ano duas mulheres concorrendo à Presidência da República, uma demonstração de que estão prontas para assumir responsabilidades que anos atrás eram impensáveis para quem não ostentasse aspecto de liderança viril.”
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08 Março, 2010

Os trapalhões

Alex Sens Fuziy, Revista Bula

“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer.” É assim, com ar deprimente, que começa “Os Espiões”, novo romance de Luis Fernando Veríssimo (Alfaguara, 142 páginas). Escrito de forma simples, direta, muitas vezes redundante e com algumas passagens repetitivas, o livro conta a história de um funcionário de uma pequena editora, mal-humorado e de ressaca nas segundas-feiras, com alguma boa-vontade nos dias restantes. Ele recebe exatamente numa terça-feira, em seu resquício de mau humor e dores de cabeça, o primeiro capítulo de um misterioso original com remetente de uma pequena e desconhecida cidade: Frondosa. É Ariadne quem assina o texto ausente de vírgulas, com graves erros gramaticais, texto este que desperta a curiosidade, o fascínio e até uma certa admiração exagerada — antes por parte do editor e depois de seus amigos e conhecidos de bar, porque tudo o que a misteriosa escritora quer com o romance é vingar-se do marido ciumento que, diz ela, matou seu amante.

Tanto o protagonista, o deslumbrado narrador, quanto seus amigos de bar, vão aos poucos sendo envolvidos pela imagem ao mesmo tempo interessante e irritante de Ariadne. Ela não só pretende mandar o livro em partes, esquiva e secretamente, como também suicidar-se quando o livro estiver pronto. Seria dramática e bela, poética até, se não fosse tão forçada e novelesca a personalidade desse quase-fantasma com fome de vingança. Depois de fatos sondados, ligações familiares descobertas através de nomes conhecidos, os personagens não mais têm curiosidade sobre seu objeto de mistério, mas real atração e um tanto de pena dele. Chega a ser quase cafona o modo como todos os amigos se reúnem, deslocando-se, desdobrando-se, alterando o próprio cotidiano, para, heroicamente, salvar Ariadne das mãos do marido que praticamente a deixa trancada dentro de casa.”
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07 Março, 2010

A sociedade mundial da cegueira

Leonardo Boff, Envolverde

“O poeta Affonso Romano de Sant’Ana e o prêmio Nobel de literatura, o português José Saramago, fizeram da cegueira tema para críticas severas à sociedade atual, assentada sobre uma visão reducionista da realidade. Mostraram que há muitos presumidos videntes que são cegos e poucos cegos que são videntes.

Hoje propala-se pomposamente que vivemos sob a sociedade do conhecimento, uma espécie de nova era das luzes. Efetivamente assim é. Conhecemos cada vez mais sobre cada vez menos. O conhecimento especializado colonizou todas as áreas do saber. O saber de um ano é maior que todo saber acumulado dos últimos 40 mil anos. Se por um lado isso traz inegáveis benefícios, por outro, nos faz ignorantes sobre tantas dimensões, colocando-nos escamas sobre os olhos e assim impedindo-nos de ver a totalidade.

O que está em jogo hoje é a totalidade do destino humano e o futuro da biosfera. Objetivamente estamos pavimentando uma estrada que nos poderá conduzir ao abismo. Por que este fato brutal não está sendo visto pela maioria dos especialistas nem dos chefes de Estado nem da grande mídia que pretende projetar os cenários possíveis do futuro? Simplesmente porque, majoritariamente, se encontram enclausurados em seus saberes específicos nos quais são muito competentes mas que, por isso mesmo, se fazem cegos para os gritantes problemas globais.

Quais dos grandes centros de análise mundial dos anos 60 previram a mudança climática dos anos 90? Que analistas econômicos com prêmio Nobel anteviram a crise econômico-financeira que devastou os países centrais em 2008? Todos eram eminentes especialistas no seu campo limitado, mas idiotizados nas questões fundamentais. Geralmente é assim: só vemos o que entendemos. Como os especialistas entendem apenas a mínima parte que estudam, acabam vendo apenas esta mínima parte, ficando cegos para o todo. Mudar este tipo de saber cartesiano desmontaria hábitos científicos consagrados e toda uma visão de mundo.”
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06 Março, 2010

Lição de Vida

José Luiz Teixeira, Terra Magazine

“Tenho uma tia que completou 90 anos esta semana. Antes de assoprar as velinhas, fez uma rápida preleção aos mais jovens de como chegar a essa altura do campeonato com saúde e disposição de dar inveja.

- O importante é não levar a vida muito a sério e não deixar que os problemas atrapalhem sua felicidade - adiantou.

Até aí, essa receita é mais ou menos universal, não tem muita novidade. Ocorre que a maioria das pessoas não a segue.

Minha tia, porém, sempre a levou ao pé da letra. Sou testemunha disso. Todas as vezes que a encontrava com meu tio (já falecido), ambos estavam tramando algum passeio, alguma visita a parentes ou um farrancho, como diziam.

Chamavam de farrancho as reuniões em família nas quais se comia, se bebia e se falava bastante (e alto). No final, cantava-se. Podia ser churrasco, fusili ou pizza, obviamente, com massa caseira.

Meu tio andava com um violão e um livro chamado "Cancioneiro Popular" no porta-malas do seu carro. Na publicação, havia mais de uma centena de músicas brasileiras com a letra e suas respectivas notas.”
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05 Março, 2010

Mulher & memória

"Tinha apenas um casaco e um par de sapatos de cor indefinida mas, ao sair, os cabelos ruivos adejavam no espelho do porta-chapéus, deixando um rastro de fagulhas elétricas, um perfume de madressilvas. E tinha dezoito anos"

Márcia Denser, Congresso em Foco

Comemora-se mais uma vez "O Dia Internacional da Mulher", e este ano eu gostaria de prestar tributo àquela que, para mim, representa o eterno feminino e que está às vésperas de partir: minha mãe. O conto A irresistível Vivien O, dedicado a ela, numa leitura mais ampla, propõe um resgate do feminino e sua memória cujo cenário é São Paulo anos 50.

De origem obscura e controversa, mistura de celtas, italianos e irlandeses, filha de Rosa e Dioniso Trask, um casal de fazendeiros do interior do estado cuja numerosa e estrídula família – seis meninas e três varões – emigrou para a capital durante a segunda guerra, Vivien constituía uma espécie de síntese de todo o capital estético das divas de Hollywood dos anos 50, mas como quem saca sem fundos. Quem tentasse analisá-la traço por traço, perceberia porque: eram todos irregulares. Um exame decepcionante e tão inútil quanto seguir pistas falsas. Vistos em conjunto produziam a tal síntese – a desconcertante alquimia da beleza. Conseguia parecer-se com Vivien Leigh e Maureen O’Hara e ainda reservar personalidade bastante para si própria.

De forma que Vivien deveria ter sido catastroficamente bela porque única e, consequentemente, irrepetível. Mas isto não deve ter ocorrido a Álvaro quando a quis sua mulher e mãe dos seus filhos.

Vejamos: os negros olhos circunflexos abrigavam um demônio fixo de rocha e pássaro, a boca, fina como um risco, subitamente se alastrava nem sorriso esfuziante inacessível marcado por covinhas: a beleza não admite pontos finais. Os cabelos ruivos ocultavam o crânio irregular onde o nariz despontava atrevido, Rita Haywoorth com pudor, sem as luvas negras ou o decote expectorante, mas a sugestão velada de tudo isso. Sutil desequilíbrio de luz e sombra, fixidez e instabilidade, estrela de uma constelação se movendo para dentro de um universo pessoal que aguardava em suspenso a vinda de Tyrone Power que a levaria para um outro céu de néon e cetim cor-de-rosa, essa garota tão tola, tão simplória, tão Cinderela montada no leão da Metro.

"Depois do banho ela imitava a Rita Haywoorth diante da penteadeira, atirando para trás os cabelos vermelhos", diz Júlia.

"Um negócio bem repugnante. Parecia borsh!", Amanda faz uma careta.

"Nunca haverá mulher como Gilda" dizia Vivien.

"Nunca haveria mulher como Vivien, queria dizer", diz Júlia.

Naturalmente, eu podia mencionar a pele salpicada de sardas de gata irlandesa, os tornozelos grossos, a ressurreição lenta pela manhã e apenas um curso primário, detalhes que a tornavam ainda mais bela, porque as mulheres verdadeiramente belas são as de carne e osso, deste lado da realidade, aquém do sonho, da foto na parede da juventude, das promessas do celulóide e ao alcance dos homens, do amor, de Álvaro, especialmente.”
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04 Março, 2010

Economia: três usos do dinheiro

Leonardo Boff / Adital

“A Campanha da Fraternidade deste ano, agora ecumênica, vai propor que as milhares de comunidades cristãs, paroquiais e de base discutam o tema: Economia e Vida, tema central devido à crise econômica mundial que deixou mais de 60 milhões de desempregados.

Trata-se de resgatar o sentido originário da economia como a atividade destinada a garantir a base material da vida pessoal, social e espiritual. Ela não pode ocupar todos os espaços, como ocorreu nos últimos decênios. A sociedade mundial virou uma sociedade de mercado e todas as coisas, do sexo à SS. Trindade, viraram mercadorias com as quais se pode ganhar dinheiro. A economia é parte de um todo maior.

Para facilitar a compreensão, distingo três espaços da atividade humana, um dos quais é ocupado pela economia. Em primeiro lugar somos seres de necessidade: precisamos comer, beber, ter saúde, morar e outros serviços. Nisso, todos dependemos uns dos outros para atender a esta infra-estrutura. É o campo da economia. Em segundo lugar somos seres de relação: colaboramos com os outros, instauramos direitos e deveres, observamos leis e juntos construímos o bem comum. É o lugar da política. Por fim, somos seres de criação: cada pessoa possui habilidades, não só reproduz o que está ai, mas cria, exerce sua liberdade e faz a sociedade avançar. É o âmbito da cultura. Todas se entrelaçam, mesmo com conflitos que não invalidam esta estrutura básica.

Vamos nos concentrar num capítulo fundamental da economia que é o uso do dinheiro. No começo não havia dinheiro, mas a troca: eu lhe dou um kg de arroz e você me dá três garrafas de leite. Reinava a relação direta e a confiança de que as trocas eram justas. Mas ao sofisticar-se a sociedade, entrou o dinheiro como meio de troca. E aí surgiu um risco, pois dinheiro significa poder que obedece a esta lógica: "quem não tem quer ter; quem tem diz: quero ter mais; e quem tem mais diz: nunca é suficiente". Ai surge a especulação que é ganhar sem trabalhar, dinheiro fazendo dinheiro. Mas, o dinheiro tem três usos legítimos: para comprar, para economizar e para doar.”
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03 Março, 2010

Bigelow e Cameron

Leila cordeiro, Direto da Redação

“O melhor filme, sem dúvida, será ao vivo na noite do Oscar, domingo que vem, 7 de março, quando o ex-casal de diretores de cinema James Cameron e Kathryn Bigelow estarão disputando, lado a lado, nove indicações para cada um de suas produções, Avatar e The Hurt Locker, respectivamente.

De um lado, a fantasia espacial de Cameron em contraste com a dura realidade da guerra de Bigelow. Avatar é um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos; Hurt Locker ficou nos últimos lugares, mas ambos disputam os mais cobiçados prêmios do Oscar, melhor filme e diretor.

No Globo de Ouro, Bigelow perdeu para o ex-marido as estatuetas de melhor drama e diretor, em compensação Hurt Locker, que mostra o drama da desativação de bombas no Iraque, ganhou o prêmio de filme do ano pelos principais críticos de cinema que já estão comparando a disputa do ex-casal à de David e Golias.

De um lado o “Golias Cameron”, com o poder da tecnologia de ponta em 3D, mostrando imagens até então desconhecidas do público tamanha a precisão dos detalhes e contornos. Tudo feito em computador e khromakey, a um custo aproximado de 500 milhões de dólares.”
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02 Março, 2010

Valores na economia pós-crise

Frei Betto, Adital

“A crise financeira desencadeada a partir de setembro de 2008 exige, de todos, profunda reflexão e mudança de atitudes. Ela encerra uma crise mais profunda: a do modelo civilizatório. O que se quer: um mundo de consumistas ou um mundo de cidadãos?

Frente às oscilações do mercado agiram os governos. A mão invisível foi amputada pelos fatos. A destrambelhada desregulamentação da economia requereu a ação regulamentadora dos governos. O mercado, entregue a si mesmo, entrou em parafuso e perdeu de vista os valores éticos para se fixar apenas nos valores monetários. Foi vítima de sua própria ambição desmedida.

A crise nos impõe, hoje, mudanças de paradigmas. O que significa a robustez dos bancos diante da figura esquálida de 1 bilhão de famintos crônicos? Por que, nos primeiros meses, os governos do G8 destinaram cerca de US$ 1,5 trilhão (até hoje, já são US$ 18 trilhões) para evitar o colapso do sistema financeiro capitalista e apenas (prometeram em L’Áquila, ainda não cumpriram) US$ 20 bilhões para amenizar a fome no mundo?

O que se quer salvar: o sistema financeiro ou a humanidade?

Uma economia centrada em valores éticos tem por objetivo, em primeiro lugar, a redução das desigualdades sociais e o bem-estar de todas as pessoas. Sabemos que, hoje, mais de 3 bilhões - uase metade da humanidade- vivem abaixo da linha da pobreza. E 1,3 bilhão abaixo da linha da miséria. A falta de alimentação suficiente ceifa, por dia, a vida de 23 mil pessoas. E 80% da riqueza mundial encontram-se concentradas em mãos de apenas 20% da população do planeta.

Sem alterar esse panorama a humanidade caminhará para a barbárie. Os governos deveriam estar mais preocupados com o crescimento do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do que com o aumento do PIB (Produto Interno Bruto). O que importa, hoje, é a FIB (Felicidade Interna Bruta). As pessoas, em sua maioria, não querem ser ricas, querem ser felizes.”
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01 Março, 2010

Sempre é tempo do poeta Gentileza

Leonardo Guelman, Jornal do Brasil

“Os mitos se reelaboram continuamente no correr dos tempos e vão gerando em torno deles novas versões, novos entendimentos. Na semana passada, nesta mesma coluna, publicou-se um artigo intitulado “A verdade sobre o mito Gentileza” que, em linhas gerais, nega os sentidos poético e profético em Gentileza. Nossa abordagem poderia se voltar para cada um dos termos levantados; porém a opção adotada foi aqui a afirmação de outro entendimento.

O artigo mencionado procura trazer uma verdade absoluta sobre o mito Gentileza, como se esse pudesse ser matéria de verdade. A verdade será sempre um argumento explicativo. O mundo suscita leituras e interpretações e não verdades, principalmente na matéria que tocamos. Tudo depende dos olhos de quem vê. Mas a suposta verdade apresentada em nome de uma geração que conviveu com ele e o via nas ruas, afirma que Gentileza constitui um falso mito, e que por trás de um humanismo construído postumamente, aparece a figura inconteste do louco esquizofrênico. Em linhas gerais, o entendimento traz à cena o louco ao invés do profeta, o esquizofrênico, ao invés do poeta. Mas é bom que já se reconheça que essa visão reveladora não apresenta novidade alguma. Já à época de Gentileza esta já transcorria e para os que lhe diziam nas ruas - “Ô maluco!!!”, ele respondia: “maluco pra te amar, louco pra te salvar”.

O ceticismo sempre preferiu ver o louco no lugar do profeta, e, talvez, essa tenha sido sempre a sina do profetismo. Os profetas são “loucos de Deus”, e, no caso, de Gentileza, entendemos que o louco é inseparável do místico, do consolador, do revolucionário, facetas que reconhecemos na sua verve profética. Mas é preciso reconhecer que José Datrino (Gentileza), já antes de sua revelação como profeta passou por diversas internações, e, é fato que ele não permaneceu na instituição psiquiátrica. Sob esta primeira turbulência, pôde se constituir uma nova linguagem e visão de mundo que marcam a passagem do homem ao profeta, de José Datrino a Gentileza.
Não se trata, pois, de negar o louco, mas de não reconhecer nesse uma centralidade definitiva. Por isso, Gentileza transformou-se ao longo de seus 35 anos de missão profética, depurando o espírito enérgico e moralista que o marcavam no começo de suas pregações.

Um profeta, em qualquer tempo, traz uma denúncia de uma crise e lança sobre esta uma alternativa. No caso de Gentileza, o episódio que lhe suscitou esta visão foi o incêndio do circo em Niterói, em 1961, quando aparecem os primeiros traços de sua poética mítica. Na época, ele criou uma modinha que dizia: “a derrota de um circo queimado é um mundo representado, por que o mundo é redondo e o circo arredondado”. Sacudido pelo pathos da sua revelação, Datrino acaba permanecendo quatro anos naquele local, transformando-o num jardim – o “Paraíso do Gentileza”. Essa experiência profunda de depuração do local e de si mesmo, acabou estabelecendo a versão no imaginário popular de que ele perdera a família no circo, o que de fato não ocorreu.”
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