31 Agosto, 2009

Um novo olhar sobre o Brasil

Leonardo Boff, Jornal do Brasil

“Erram os que pensam que a saída da senadora Marina Silva do PT obedece a propósitos oportunistas de uma eventual candidatura à Presidência da República. Marina Silva saiu porque possuía um outro olhar sobre o Brasil, sobre o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo, que identifica desenvolvimento com crescimento meramente material e com maior capacidade de consumo. O novo olhar, adequado à crescente consciência da humanidade e à altura da crise atual, exige uma equação diferente entre ecologia e economia, uma redefinição de nossa presença no planeta e um cuidado consciente sobre o nosso futuro comum. Para estas coisas a direção atual do PT é cega. Não apenas não vê. É que não tem olhos. O que é pior.

Para aprofundar esta questão, valho-me de uma correspondência com o sociólogo de Juiz de Fora e Belo Horizonte, Pedro Ribeiro de Oliveira, um intelectual dos mais lúcidos que articulam a academia com as lutas populares e as Cebs e que acaba de organizar um brilhante livro sobre A consciência planetária e a religião (Paulinas, 2009) Escreve ele:

“Efetivamente, estamos numa encruzilhada histórica. A candidatura da Marina não faz mais do que deixá-la evidente. O sistema produtivista-consumista de mercado teima em sobreviver, alegando que somente ele é capaz de resolver o problema da fome e da miséria – quando, na verdade, é seu causador. Acontece que ele se impôs desde o século 16 como aquilo que a Humanidade produziu de melhor, ajudado pelo iluminismo e a revolução cultural do século 19, que nos convenceram a todos da validade de seu dogma fundante: somos vocacionados para o progresso sem fim que a ciência, a técnica e o mercado proporcionam. Essa inércia ideológica que continua movendo o mundo se cruza, hoje, com um outro caminho, que é o da consciência planetária. É ainda uma trilha, mas uma trilha que vai em outra direção”.

“Muitos pensadores e analistas descobriram a existência dessa trilha e chamaram a atenção do mundo para a necessidade de mudarmos a direção da nossa caminhada. Trocar o caminho do progresso sem fim, pelo caminho da harmonia planetária”.
Artigo Completo, ::Aqui::

Internet repercute, fortalece e não mata jornais impressos

Os jornais impressos vão sobreviver, como o rádio e o vinil, mas terão, obviamente, de se reinventarem, guardando o que têm de melhor — a tentativa rigorosa de descrever e entender o mundo no qual vivemos

Euler de França Belém, Revista Bula

Nas décadas de 1960 e 1970, ouvia jogos de futebol nas ondas da Rádio Globo. Era tão íntimo de Pelé, Carlos Alberto, Jairzinho e Tostão quanto dos narradores esportivos Jorge Cury, Valdir Amaral e Antônio Porto e do comentarista de arbitragem Mário Vianna, com dois “enes”, como fazia questão de esclarecer. Cury, Amaral e Porto não eram apenas narradores competentes, que entendiam mesmo de futebol. Eram escultores de jogos, que, nas suas vozes perfeitas, ficavam mais limpos, melhores e, igualmente importante, emocionantes. Vianna, com seu grito de “ladrão”, era impagável. Em 1970, assisti a Copa na casa dos amigos Iodete e João Borges. Nos dias de jogo, a casa era transformada em estádio, tal a quantidade de torcedores. As imagens não coloridas do televisor não eram perfeitas e às vezes a bola se confundia com os chuviscos, mas ninguém ligava. Era perfeitamente possível ver Brito, Felix, Pelé, Tostão, Jairzinho, talvez o primeiro filho do vento, Clodoaldo, Rivellino e Piazza. Porque, maiores do que a bola, os chuviscos não conseguiam escondê-los. A televisão, pensava-se então, era o futuro, embora eu, menino, ainda sem formular teses, fosse apaixonado pelo rádio, para ouvir música e futebol. A imagem forçou o narrador a um realismo que, não raro, esfria as partidas. O segredo do sucesso de Osmar Santos talvez possa ser detectado no fato de que combinou a vibração do rádio com o verismo da imagem televisual. Galvão Bueno tenta ser vibrante, mas é uma vibração de vitrine. Se Osmar era um diamante, Galvão é uma bijuteria, o que não quer dizer que seja ruim. Galvão é vítima de preconceito por ser excessivamente identificado à TV Globo. Ele é a Globo no esporte. Os narradores e comentadores do rádio, que tinham de fabricar as imagens para o ouvinte, não mentiam, apenas exageravam. Eram quase ficcionistas, mas nós adorávamos. As bolas quase sempre passavam raspando a trave e o ouvinte chegava a encostar o rosto no rádio para escutar melhor e sentir o frêmito narrativo.

Com a ascensão e consolidação da televisão, se vaticinou, em verso e prosa, que o rádio desapareceria. Tal não aconteceu. O rádio modernizou-se e está mais vivo do que nunca. Porque o rádio reinventou-se e ampliou o contato com o ouvinte, tornando-o uma espécie de membro do “clube”. Nem sempre os radialistas acertam, mas no geral o rádio é um espetáculo. É um circo sem palhaços e animais. Um circo moderno. Um circo que, às vezes, valoriza o poder da palavra. Não é à toa que os evangélicos dão uma importância tremenda ao rádio.”
Artigo Completo, ::Aqui::

29 Agosto, 2009

Antes de twittar, que tal pensar?

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Rimas, como diria Drummond, não são soluções, mas apenas bons títulos, quem sabe? Na outra semana rimei "Record", com "pior" e um tsunami de e-mails se abateu sobre as minhas praias e eu gostei. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, e rimado, vocês vão ver.

E, cá estava eu, na tranqüilidade da Mansão Carneiro da Cunha, rererererelembrando um delicioso conto (acho que) de Tchecov, sobre um marido traído que resolve, naturalmente, em sendo um conto russo do século 19, matar a mulher e seu amante. Ele então vai até uma loja de armas e explica o seu drama para o vendedor, que começa a descrever com muito entusiasmo as virtudes de cada revólver, pistola, bazuca, AR-15 e similares, disponíveis no arsenal da loja. O marido, um sujeito do bem, apenas com a dor da traição ardendo nas têmporas, vai se apavorando mais e mais com as conseqüências do seu ato desejado na teoria, mas inviável na prática. Ao final da conversa, ele compra uma rede de pesca e volta ao mundo.

Penso nisso porque penso nas consequências dos usos do Twitter, recém chegado ao maravilhoso mundo da rede mundial de computadores e já provocando confusão. Na confusão da semana, temos uma redefinição da palavra irrevogável, por conta do Twitter do senador Mercadante, com consequências bastante duras, para quem pensou com o dedo e twittou antes do tempo certo, que deveria ser nunca.

E, pensando com alguma calma, aqui na distância que minha luxuosa laje em Pinheiros me dá em relação ao mundano e efêmero do mundo lá em baixo, acho que o problema é terem inventado um modo fácil demais de materializar os nossos impulsos.

Não era melhor antes, quando a gente brigava com a namorada e resolvia terminar tudo, e aí tinha que escrever uma carta, arrumar envelope, selo, ir até os Correios - para então enfrentar a fila de gente comprando Tele Sena? Por essas horas, nossa raiva já estava derretida há tempos e a gente podia deixar pra lá, jogar a carta no lixo juntamente com nossas piores intenções e pronto, tudo seguia calminho e igual, para o nosso bem. Se o marido do conto de Tchecov tivesse à mão um meio de materializar o seu pior impulso, teríamos uma mulher e seu amante mortos, de susto ou de bala, um marido preso, e, talvez pior, nenhum conto.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Apego ao poder e o espectro da morte

Frei Beto, Adital

“Uma das características do poder é imantar em muitos que o ocupam a pretensão de nele se perpetuar. Nada mais trágico para tais pessoas do que sua perda: ficam com baixa autoestima, sentem-se abandonadas pelos antigos correligionários, lamentam já não usufruírem dos privilégios e das mordomias de outrora. Daí o empenho de tantos políticos para se perpetuarem no poder. Ao se defender no Senado, Sarney gabou-se de estar nele há 55 anos!
A questão do poder desponta com o surgimento da cidade-Estado, no início do IV milênio a.C. É quando o ser humano se desprende do ciclo da natureza. Já não funda sua identidade nos vínculos comunitários da sociedade agrária. Sua consciência se personaliza, ele se torna senhor do próprio destino, livre das mutações ecológicas que antes criavam nele a sensação de fatalidade.

A vida, como fenômeno biológico, adquire progressivamente contornos históricos. O ser humano percebe-se como sujeito, ator social, dotado de consciência da responsabilidade e capacidade de interferir nos rumos da natureza. As provisões já não dependem apenas da coleta e da extração; surge a atividade produtiva. O mundo deixa de ser uma realidade dada; passa a ser transformado e construído.

A fundação da cidade-Estado, ao inverter a relação do ser humano com a natureza, o faz perceber que não é mais ele que deve se adaptar a ela; ela é que deve se submeter à vontade dele. A invenção do tijolo, como o comprova o episódio da Torre de Babel (Gênesis 11), permite ao ser humano fabricar a base material do mundo. A produção em série o livra dos condicionamentos ambientais e climáticos.”
Matéria Completa, ::Aqui::

28 Agosto, 2009

Laranjeira Nhanderu: o espírito do despejo de volta

É de cortar a alma ver mais de duas dezenas de olhares irem entristecendo, vagando nas imagens da provável paisagem do despejo e sofrimento na beira da estrada

Egon Heck, Brasil de Fato

BR 163, município de Rio Brilhante. O barraco de dona Gloria vai se ficando cheio de ansiosos Kaiowá Guarani da comunidade de Laranjeira Nhanderu. Véspera de mais um dia de despejo anunciado. Dr. Adriana está no telefone explicando à comunidade a situação, com algumas nuanças e possibilidades do ponto de vista jurídico, mas cujo cenário mais provável poderá ser o despejo da comunidade pela polícia a partir do dia 26. “Isso poderá acontecer a qualquer momento, uma vez que a decisão da reintegração está vigorando. Ainda existe possibilidade de reverter o quadro com o julgamento de uma ação pelo Tribunal Regional 3ª região no dia de amanhã. Mas é apenas uma probabilidade” e concluiu em tom realista “Temos que estar preparados para tudo”.

É de cortar a alma ver mais de duas dezenas de olhares irem entristecendo, vagando nas imagens da provável paisagem do despejo e sofrimento na beira da estrada. Parece que um pesadelo envolveu aqueles seres curtidos na dor e resistência, sem nunca perder a esperança. A iminência do despejo é um punhal que está sob suas costas. Ficam quietos,pensativos.

Naquele final de tarde de 26 de maio a comunidade de Laranjeira Nhanderu pensava que desta vez haviam afastado o dragão do despejo. A Funai tinha mais 90 dias para entregar à justiça o relatório de identificação da terra indígena. Eles iriam cobrar diariamente o empenho do órgão indigenista. Esta por sua vez foi intimada a apresentar relatórios quinzenais à justiça. Parece que nada adiantou. Passou-se o tempo e o fantasma do despejo está de volta. Hoje expira o prazo. Novos dias de angustia e sofrimento.”
Matéria Completa, ::Aqui::

O que as palavras criam

Valdivino Braz, Revista Bula

“Aquele estranho que falava em cima da rocha, inconho, de dedos duplos, à hora do crepúsculo. No cocho refocilava o porco. Os cães ladravam por ali à solta. Língua que se bifurca, movia-se o ser rastejante e sinuoso; o dorso liso e luzidio, em meio aos matizes dourados, grises e sanguiferruginosos das folhas de outono. Como um gatuno, o vento ia do sussurro ao murmúrio, até que, repentino, uivava e gania, feito lobo. O que nos adocica ou azeda é o que nos sai da mente e do coração e vem pela boca. Da fala à premeditação ou intempestividade dos gestos, e destes à consumação dos atos. O beijo ou o homicídio, por exemplo.

O que nos afaga ou espanca depende da mão que se levanta. O que nos pisa e esmaga vem com o pé em forma de pedra. Assim falava o estranho coxo, como quem pisa em falso num sopro de flauta. Como se viesse com um corte de caco de vidro em pé descalço. Com um roufenho som gutural, as palavras sangravam em seus lábios. Assim falava o manco e rouco, que alguns tachavam de louco. E aquela roupa rota e longa que usava, era uma capa de seda negra ou eram mesmo asas de morcego? Seria um anjo caído? Um demônio?

Eis que então demudava o tom e o teor de sua fala. Todas as manhãs escovo meu sorriso de rosnar para o mundo. O sórdido mundo que abomino e me aborrece, porque meu reino é deste mundo a que pertenço. Assim falava, meio torto, como se sofresse de um torcicolo. Talvez por conta de só olhar o mundo de soslaio. O mundo visto pelo canto da vista, ou canto do olho, que é onde se diz que fica o rabo do olhar. Falava por enigmas. Olho como quem não olha no olho da Lua Negra. Os negros, íncubos olhos de Lilith. O mito arcaico. Aquele que na cópula queria Adão na condição de súcubo, e ele a isso não sucumbiu.

Olha-se ela nos olhos dele,
cegos para os olhos dela,
não se perder ali na escuridão.”
Crônica Completa, ::Aqui::

27 Agosto, 2009

Toca Raul!

“Dia desses escrevi um textinho pro Digestivo falando das minhas influências, de autores e artistas que foram e são importantes para mim. Ou seja, uma coisa bem particular e, por isso mesmo, pouco interessante. Independente da importância, o lance é complicado, porque falar de dez ou quinze autores/artistas sempre vai ser uma traição com os muitos outros que ficaram de fora ― além do mais, esse tipo de lista nos faz parecer mais insignificantes do que já somos. Um desses caras que não apareceram na minha fajuta e incompleta listinha foi Raulzito. Por conta da efeméride dos 20 anos da morte do baianão, a vida do cara tá sendo destrinchada pela mídia, com capa na Rolling Stone nacional, edição especial da Caros Amigos, coluna do Nelson Motta no Jornal da Globo, livros pipocando, uma biografia que já tem cinco anos de gestação e um filme a ser lançado ainda este ano.

Os especialistas e saudosistas gostam de afirmar que Raul sempre fora tratado como o cachorro louco da música brasileira, um cara que não se enquadrava na MPB e era a legítima mosca na sopa, um intruso. Tudo bem, isso pode até ter sentido, mas é só olhar para lado pra constatar que é, também, uma meia verdade. Tá certo que no Brasil é preciso morrer pra ser notado. Até o Sarney, se morrer amanhã, pode correr o risco de ser lembrado como um político moderno e um escritor notável. Da mesma forma que Lennon, morto, virou símbolo de uma geração e McCartney, vivo, é apenas um músico com um passado brilhante.

Mas no caso do Raul isso parece um pouco diferente: não acho que a trajetória dele seja mais um daqueles exemplos em que o artista é amado pelo público e rechaçado pela crítica, como acontece com o parceiro mais famoso de Raulzito, Paulo Coelho, no meio literário, por exemplo. Raul sempre foi um artista popular, mas também ganhou muitas linhas elogiosas dos críticos por sua mistura, originalíssima, de rock com música nordestina. Claro que apanhou também, mas isso é do jogo. Então, tentar ver o Raul como uma ave desgarrada, que lutou contra tudo e contra todos para chegar ao seu objetivo, é querer colocar mais tempero no já recheado acarajé do baiano.

Raul Seixas foi e é importante não apenas por sua rebeldia juvenil, mas porque soube falar para muitas vozes sem perder um naco sequer da inquietação artística que sempre o moveu. Se não tá botando fé, faça um teste: coloque pra tocar "A maçã" e depois rode "Rock do diabo". São músicas completamente diferentes, de um artista de múltiplas vozes. "A maçã" é uma música brega, inclusive regravada por artistas bregas, de um pieguismo atroz, mas que na voz do Raul parece poesia. Já "Rock do diabo" é uma pancada no ouvido que só poderia ter sido escrita por alguém completamente diferente do compositor de "A maçã". Por essas e outras, o clichê da metamorfose ambulante sempre insiste em aparecer em um texto sobre Raul. Apareceu!”
Artigo Completo, ::Aqui::

26 Agosto, 2009

O show da fé e suas implicações

Diogo Moyses, Terra Magazine

“O frio do final de semana que passou me fez ficar boa parte do tempo em casa vendo tevê. Pulando de um canal ao outro, dei de cara com a dupla Estevam e Sônia Hernandes, que retornou ao Brasil após mais de dois anos de prisão nos EUA. Também topei, claro, com quase uma dezena de bispos, padres, pastores ou outros líderes religiosos que, por ignorância, não sei dizer bem o que são.

Lembrei-me, ou fui lembrado, da necessidade de discutir a presença cada vez maior das religiões na televisão brasileira.

O fenômeno não é novo, e nem privilégio nativo. Na maioria dos países isso acontece prioritariamente nos serviços por assinatura, a cabo ou por satélite. Quando ocorre na tevê aberta, como nos países da América Latina, em geral se resume a alguns horários ou poucas emissoras.

No Brasil, contudo, o fenômeno é endêmico. Igrejas, aos montes, são elas mesmas concessionárias de radiodifusão ou alugam períodos inteiros da programação de outras emissoras (o que é ilegal, diga-se, mas sobre isso falaremos em outra oportunidade). Mesmo emissoras públicas, como a TV Brasil e a TV Cultura de São Paulo, ainda possuem em sua grade de programação a transmissão de eventos religiosos.

O leitor sabe exatamente do que estamos falando e por isso não é necessário listar ou apontar casos concretos. Os exemplos são fartos e visíveis.

Cada um tem lá suas crenças. Também tenho as minhas. Mas isso não elimina a necessidade de perguntar, sem sectarismos ou fanatismos, se as religiões devem mesmo ocupar a televisão aberta. Caso a resposta seja positiva, devemos questionar se sua presença deve ser indiscriminada, como ocorre atualmente, ou baseada em certas regras ou determinações legais.

A defesa da programação religiosa possui um argumento não desprezível: o fato da religião ser também uma manifestação cultural e, como tal, merecer ampla divulgação, ou pelo menos não poder sofrer restrição."
Artigo Completo, ::Aqui::

25 Agosto, 2009

Anistia: 30 anos

Frei Betto, Adital

“Várias manifestações programadas para hoje, dia 22, comemorarão (fazer memória) os 30 anos da Lei de Anistia. A lei 6.683 foi decretada e sancionada pelo general João Figueiredo, então presidente da República, a 28 de agosto de 1979. Teve por objetivo atender, prioritariamente, aos interesses das Forças Armadas.

Peça de aberração jurídica, a lei diz, em seu primeiro artigo, que "é concedida anistia a todos quantos (...) cometeram crimes políticos ou conexos com estes". No parágrafo 1º afirma-se: "Consideram-se conexos (...) os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política."

O adjetivo "conexo" é o guarda-chuva sob o qual se abrigam todos aqueles que, em nome da lei e acobertados pelo governo militar, torturaram, assassinaram e deram sumiço nos corpos de suas vítimas. Ora, como se pode anistiar quem jamais foi considerado culpado ou condenado? Anistia significa perdão. Perdoa-se a quem cometeu uma falta ou pecado. Se jamais os algozes assumiram os hediondos atos praticados por eles, por que beneficiá-los com a anistia?

Anistia, em sua etimologia, procede da mesma raiz latina de amnésia, perda da memória, esquecimento. É humanamente possível pedir a todos nós, que padecemos nas salas de tortura e nos cárceres, esquecer os sofrimentos? Pode-se esperar que a família de Frei Tito ou de Vladimir Herzog esqueça do ente querido assassinado pela ditadura? É justo nutrir a expectativa de que a mãe de Heleny Guariba ou os filhos de José Porfírio esqueçam que eles desapareceram? Onde estão seus corpos? Por que não entregá-los às famílias para sepultamento condigno?”
Artigo Completo, ::Aqui::

24 Agosto, 2009

ADRIANO.com

Márcia Denser, Congresso em Foco

“De óculos ficava com um ar depravado, exatamente ao contrário do que deveria,evidenciando os lábios sensuais, uns olhos oblíquos, os cabelos em estudado desalinho.

Nascida em 55, Júlia Zemmel era judia, refinada, escritora e ainda uma bela mulher, principalmente com aquelas lentes claras, transparentes, aliás os homens adoram isso: sempre preferem as vesgas.

Óculos acentuavam aquele seu ar idiota (eles também adoram mulheres idiotas) e dizer-se judia e escritora não seria um ato de fé? Não, pensa Júlia: uma vocação para a infelicidade, algo visceralmente fora de moda, tanto quanto ter quarenta e cinco anos, oito quilos a mais e todas as ilusões a menos, noves fora: não exagere, Júlia, nem todas.

Sexo, por exemplo, nunca fora problema, problema moral, queria dizer, e se não havia pecado culpa não havia, nada além de remorsos de ordem estética – o que significava trepar com escriturários, mensageiros & acompanhantes anônimos meio aleatoriamente, depois se arrepender amargamente e dormir na pia – isto eram remorsos de ordem estética.

Nos confins dos anos 80, essa havia sido a fase da promiscuidade, algo atualmente impraticável e ainda mais fora de moda. Porque sexo agora era todo o problema, pensou Júlia examinando-se no espelho.

Nesses tempos ruços impõe-se o maldito patrulhamento em nome do sexo-seguro-anti-aids e é tão eficiente que Moisés teria vergonha do seu decálogo e respectivas interdições e ameaças com o fogo da geena, imagine, que o inferno é aqui mesmo, onde ficou quase impossível materializar o corpo do desejo, convertido numa espécie de martírio tantalizante de ter tudo tão perto e, ao mesmo tempo, inatingível. Na realidade, o patrulhamento social é o moderno sucedâneo da lei mosaica. Porque Júlia detestava ficar só na imaginação - aliás não tinha muita imaginação - inclinava-se pelo que podia pegar e pegava o que podia.

Começava a ter vergonha de sentir tesão.

Então por razões de fora e de dentro (e idade era um fato), tinha que desbaratinar o tesão conquanto a imagem no espelho lhe desmentisse a paranóia, sugerindo que, por ora, nada teria a desbaratinar, seu corpo ainda dispensava as roupas e os fatos abstratos de ordem cronológica.

Então o problema era a idade daquele Gabriel. Quando ele lhe disse ter trinta anos, Júlia sentiu uma zoeira distante, como se fosse sair do ar, desmaiar. Porque ele disse a idade intencionalmente, o olhar falsamente distraído, um risinho imperceptível no canto dos lábios, atento à minha reação, o filha da puta. E Gabriel era um homem bonito, diga-se, não do tipo explícito, gênero comercial de gilete. Fazia mais a linha casual look.

Era um jovem arquiteto. Não. Um arquiteto jovem. Não. Era um jovem, arquiteto de profissão e escritor por vocação. Talvez. Era muito jovem de qualquer forma. No futuro talvez se tornasse mais escritor que arquiteto, como podia ser ao contrário. Sabia por experiência que pessoas bonitas não escolhem a literatura por destinação (e se o fazem hão de ser geniais, o que não era o caso) porque não é uma profissão, antes uma vocação para a infelicidade, que não exclui o celibato como pré-condição para se casar com a humanidade.

Em dado momento da vida, Júlia também vendera a alma, fizera seu voto -essa espécie de moratória às avessas, de compromisso não escrito com a divindade, a desobrigá-la de marido & filhos e condená-la à solidão e à promiscuidade, à perseguição do pecado perfeito, atando-a voluntariamente e para sempre às cadeias da condição humana.

Humanidade que aliás anda muito desumana ultimamente, suspirou Júlia desligando o computador, fechando as janelas: virou algo como uma pós-humanidade da qual, presumo, esse pós-Gabriel – pós-graduado aos trinta anos em arquitetura no que pretende pós-doutorar-se e que se pretende escritor por mal dos pecados – faz parte.

Júlia saiu, batendo a porta: ia almoçar com aquele Gabriel.”
Crônica Completa, ::Aqui::

A verdade sempre aparece

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“A história muitas vezes demora a ser contada, mas algum dia acaba aparecendo em toda a plenitude. Foi o que aconteceu agora depois da revelação dos arquivos implacáveis do Departamento de Estado de 38 anos atrás mostrando que o então general de plantão Garrastazu Médici oferecia serviços subservientes aos Estados Unidos com o objetivo de desestabilizar governos eventualmente reformistas.

Dois anos antes do golpe que derrubou o presidente constitucional chileno Salvador Allende, Médici se reuniu com Richard Nixon, tendo como intérprete o general Vernon Walters, o adido militar estadunidense no Brasil que teve papel de destaque na derrubada de João Goulart. Médici colocou-se à disposição dos EUA para desestabilizar Allende e de quebra ofereceu ajuda, que se concretizou, para fraudar a eleição presidencial uruguaia. Na ocasião venceu fraudulentamente o candidato do Partido Colorado, Juan Maria Bordaberry, o mesmo que algum tempo depois, em junho de 1973, daria o golpe que levou o seu país a uma longa noite escura ditatorial. Hoje ele está em prisão domiciliar por ter dado o golpe que infelicitou o Uruguai. E os uruguaios vão às urnas em outubro para eleger o novo presidente e opinar num plebiscito sobre uma lei que livrou a cara de torturadores.

Como se tudo isso não bastasse, Médici chamou a atenção sobre o então presidente peruano, general Juan Velasco Alvarado, por considerá-lo pró-castrista. O documento tornado público revela o baixo nível do militar brasileiro ao fazer fofocas sobre questões pessoais de Alvarado. Na verdade, tanto Médici como Nixon e o famigerado Henry Kissinger, também presente na reunião na Casa Branca, temiam o surgimento de militares nacionalistas latino-americanos que defendessem os seus países contra investidas dos Estados Unidos.”
Artigo Completo, ::Aqui::

O longo exílio da Terra

Leonardo BofF, Envolverde/Terramérica

"Duas visões sobre a Terra se contrapõem em nosso tempo. Para uns, é matéria extensa e sem espírito, entregue ao ser humano para que possa explorá-la e expressar sua liberdade criativa conforme seu desejo. Para outros, é nosso lar, um superorganismo vivo que se autorregula, com uma comunidade vital única. Optar por uma ou outra visão tem consequências totalmente diferentes: a cooperação e o respeito, ou a agressão e a dominação.

A humanidade sempre considerou a Terra como a grande mãe que inspirava amor, veneração e respeito. Porém, desde a irrupção da ciência moderna, com René Descartes, Galileu Galilei e Francis Bacon, a partir do século XVI começou a ser considerada como objeto, “res extensa”, que pode submeter-se à intervenção humana, inclusive violenta, para extrair os benefícios de seus recursos e serviços. Era o projeto do “dominium mundi”. Criou maravilhas como as máquinas e os antibióticos, nos levou à Lua e ao espaço exterior.

Seria obscurantista não reconhecer os méritos desse desígnio. Entretanto, deve-se reconhecer também que a razão instrumental e analítica – sem complementar-se com a razão emocional, sensível e cordial, fundamental para o mundo dos valores – construiu uma máquina de morte, capaz de destruir a espécie humana mediante 25 formas diferentes, com armas nucleares, químicas e biológicas. Nossa geração é a primeira na história da antropogênesis que se transformou em uma força geofísica destrutiva.

Há uma convicção que está se generalizando: assim como está, a humanidade não pode continuar. O modo atual de produção e consumo faz de tudo uma mercadoria, inclusive as realidades mais sagradas como a vida, os órgãos e os genes. A cada ano, 3.500 espécies desaparecem da face da Terra devido às agressões sistemáticas à natureza. A roda do aquecimento global começou a girar e não pode ser detida, apenas se pode reduzir sua velocidade e minimizar seus efeitos catastróficos. Isto pode devastar muitos ecossistemas, arrastando consigo milhões de pessoas obrigadas a se deslocar ou morrer.”
Artigo Completo, ::Aqui::

23 Agosto, 2009

Os dias de "almoço gratuito" na Internet estão contados

Isabel Hülse, Der Spiegel

"Rupert Murdoch não quer saber de computadores. O bilionário da mídia australiano-americano de 78 anos não gosta de e-mail, evita a Internet e tem dificuldade até em utilizar o seu telefone celular. Ele não se encaixa exatamente no quadro de um messias online.

Mas, nas últimas semanas, Murdoch surpreendeu o mundo da indústria de mídia quando murmurou uma poucas sentenças tão simples quanto revolucionárias, como, por exemplo: "Jornalismo de qualidade não é barato". Isso provocou a sua decisão de começar a cobrar pelo uso online dos seus vários jornais em todo o mundo nos próximos meses. Se Murdoch tiver sucesso, os dias da cultura de gratuidade na Internet estarão contados.

Não demorou muito tempo para que as observações feitas por Murdoch, presidente da News Corporation e proprietário de centenas de jornais e estações de televisão, começassem a provocar respostas vindas de toda parte: empresários jornalísticos do mundo inteiro concordaram. Se alguém precisava de uma prova de que Murdoch ainda é o maior empresário do setor de mídia, este episódio foi suficiente.

"Murdoch - logo ele - não sabe o que é a Internet", reclamou recentemente o biógrafo do bilionário, Michael Wolff. "O velho pode estar prestes a provocar mudanças importantes na Internet. Mas isso só acontecerá se ele for capaz de encontrar a Web".

O empresário idoso pode de fato conhecer pouca coisa sobre a Internet, e ninguém sabe até que ponto ele está levando a sério a sua ideia. Mas uma coisa é certa: um homem como Murdoch não costuma ficar à margem dos acontecimentos enquanto perde dinheiro. E ele também, mais uma vez, atingiu um nervo exposto da indústria da mídia.”
UOL / tradução UOL
Matéria Completa, ::Aqui::

22 Agosto, 2009

A Mulher Invisível ou a literatura como salvação

Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“De que maneira um filme que parece não ter nada a ver com literatura alude ao ato de escrever? E mais, insere a escrita como uma espécie de salvação, redenção das desilusões e entendimento de si mesmo no turbilhão da vida. Nada disso foi deliberadamente explorado, nem foi motivo da bilheteria razoável, já que o filme foi o mais visto no Brasil por algumas semanas em junho (é desleal competir com Harry Potter 6 e A Era do Gelo 3). Antes, o longa segue de certo modo a linha da comédia rápida, estilo telenovela de Se eu fosse você (2006) e Se eu fosse você 2 (2009), embora haja um duplo apelo, corporal e filosófico ― simbolizado pela mulher invisível, Amanda (Luana Piovani) ― e o enredo seja mais tortuoso do que suportariam centenas de capítulos.

Fui assistir A Mulher Invisível (2009), dirigido por Cláudio Torres, sem grandes expectativas, aguardando nada muito além do que um filme engraçado e com uma boa atuação do Selton Mello. Acabei me deparando com uma história de escrita/imaginação que foi aparecendo aos poucos, atravancada com uma personagem aparentemente secundária, Vitória (Maria Manoella), vizinha que é apaixonada por Pedro (Selton Mello), um controlador de tráfego com ilusões românticas, que sonha em ter filhos e uma vida comum e tranquila ao lado da esposa (Maria Luiza Mendonça). Esta é tão insignificante que, ao que me lembre, nem nome tem e só aparece no início do longa-metragem, momento em que abandona o marido de repente, avisando-o de que está grávida e o pai, naturalmente, não é ele.

Não é à toa que Pedro cai numa depressão profunda e o melhor amigo Carlos (Vladimir Brichta) ― inicialmente fazendo papel de garanhão ― insiste em reanimá-lo com festas e boates. Até que, quando chega ao fundo do poço, Pedro atende a campainha de seu apartamento: não, ainda não é Vitória, é Amanda, uma outra vizinha que lhe pede uma xícara de açúcar, e a partir daí toma conta de sua vida. Amanda é tão "perfeita" quanto a imaginação de um homem comum criaria uma mulher: sensual, gosta de futebol, cozinha e não encana com suas escapadelas. Invisível, ela é a concretização da mulher ideal. Apenas Pedro não se dá conta de que ela não existe materialmente, o que vai gerar diversas situações cômicas.”
Artigo Completo, ::Aqui::

21 Agosto, 2009

Cadê a gripe suína que estava aqui?

Luiz Antonio Magalhães, Observatório da Imprensa

"Nesta quinta-feira, 20 de agosto de 2009, completa-se um mês da publicação da estrondosa chamada "Gripe suína deve atingir 35 milhões no país em 2 meses", que pode ser conferida clicando abaixo, na capa Folha de S. Paulo de domingo, 19/07.

Bem, falta apenas um mês para que o vaticínio da Folha se realize. Segundo um leitor do blog Entrelinhas, até agora o Ministério da Saúde confirma 3.087 pacientes infectados (dados de 18/08), o que representa 0,00882% da "meta" de 35 milhões. O leitor pondera que há realmente subnotificação e propõe uma conta mais favorável à Folha. Considerando que todos os 3.087 infectados sejam casos graves e que se enquadrariam entre os que acabam morrendo da doença, é possível calcular, baseado na taxa de letalidade, o total possível de infectados (basta fazer a conta inversa, considerando assim que os 3.087 representariam os 0,19% de taxa de letalidade no país). Neste caso, seriam 1,625 milhão de brasileiros infectados, ou 4,64% da "meta" de 35 milhões a ser "alcançada" em 19 de setembro, segundo o bravo diário da Barão de Limeira.

Ou seja, a gripe suína precisa pegar de jeito 33 milhões de brasileiros em um mês para a Folha estar correta. O vírus vai ter que trabalhar forte em setembro para dar conta do recado...

Este observador espera que o ombudsman da Folha volte ao assunto no dia 19 de setembro. Sim, Carlos Eduardo Lins da Silva já repreendeu a redação pela barbeiragem. Mas precisa agora registrar que a barriga foi realmente vexaminosa.”

Agora, oposição “descobre” clientelismo de Sarney

Debate de 2010 é antecipado e maranhense vira principal alvo

Renato Godoy de Toledo, Brasil de Fato

A crise instaurada no Senado Federal tem circundado a figura do mandatário da casa José Sarney (PMDB-AP), ex-presidente da República e detentor de monopólios nos estados do Maranhão e Amapá. Práticas clientelistas e oligárquicas, além do amplo trânsito nas esferas de poder, não são novidades no curriculum do maranhense – tal como a biografia de muitos de seus acusadores e apoiadores.

Pode se dizer que em nível nacional, Sarney nunca soube o que é ser oposição. Iniciou sua carreira pública discretamente, elegendo-se 4º suplente de senador em 1954, pelo getulista PSD.

Durante a ditadura militar, chegou a ser líder do diretório nacional da situacionista Arena. Às vésperas do colégio eleitoral, trocou de “lado” e foi para o PMDB disputar as eleições indiretas para presidência da República como vice de Tancredo Neves, que venceu o pleito, mas morreu antes de assumir. Sarney foi “obrigado” a abandonar sua discrição na carreira política e foi o primeiro civil a governar o país depois de 21 anos de domínio militar, entre 1985-1989.

Seus cinco anos de governo foram marcados pela inflação exorbitante e pelos planos econômicos fracassados, como o Bresser, Verão. Para aumentar seu mandato de 4 para 5 anos, distribuiu concessões de rádio e TV para parlamentares.

No governo Fernando Henrique Cardoso, foi um importante cabo-eleitoral e articulador político do tucano no norte-nordeste, sendo premiado com a presidência do Senado entre 1995-1997. Foi a primeira das três vezes que Sarney comandou a casa. As demais foram entre 2003-2005 e a que se iniciou em fevereiro deste ano e persiste em continuar – ao menos até o fechamento desta edição.

2010 é agora

Se já está há 55 anos na vida pública com os mesmos métodos, por que somente agora Sarney vira o inimigo público número 1? Uma análise recorrente dá conta de que os escândalos políticos só estampam as manchetes dos grandes jornais quando não há um acerto de bastidores, ou seja, quando as arestas não são aparadas, grupos poderosos revelam os “podres” de inimigos pontuais. A vociferação do PSDB e do DEM, por exemplo, contra o ex-presidente da República pode ser considerada efêmera, pois este comportou-se como aliado durante os 8 anos do mandato de FHC. Este, aliás, mandou sinais à bancada tucana para que apoiasse a eleição do atual presidente do Senado, em fevereiro de 2009. Para o cientista político José Antonio Moroni, do Instituto de Estudos Socioeconomicos (Inesc), o que está por trás da ofensiva contra o senador do Amapá é o início da corrida eleitoral de 2010.

De um lado, a base aliada sabe da importância de ter o apoio do PMDB para deslanchar a candidatura de Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil. Mesmo desmoralizado e com a pecha de fisiologista, o PMDB continua sendo o maior partido do país, com maior bancada legislativa e número de prefeituras. A oposição, por sua vez, busca minar esse apoio, tentando dividir ainda mais o partido.

“Sarney se construiu com base no poder criado através do uso do espaço público com interesse privado. Agora, o fato de a imprensa elegê-lo como inimigo, não pode ser desvinculado do processo eleitoral de 2010, pois tentam colar a imagem dele à do presidente Lula. É um contexto eleitoral que surge por conta desse passado do Sarney e esse presente de apoio a Lula”, analisa Moroni.

Segundo Moroni, os escândalos que movimentam a rotina de Brasília são frutos de desacordos nos bastidores, não de investigações aprofundadas. “Esses escândalos só surgem quando as elites não conseguem se acertar entre si. Quando se se acertam, essas coisas não aparecem. E é vergonhoso o papel da grande mídia. Ela não repercute apenas esses escândalos, ela faz parte da construção deles”, avalia.”
Artigo Completo, ::Aqui::

20 Agosto, 2009

A travessia

Amilcar Bettega, Terra Magazine

“Havia muita água por todos os lados. A chuva não cessara nos últimos dias e a ilha se tornava cada vez menor. As casas mais à beira já estavam submersas e várias famílias haviam partido em busca de terra firme. O noticiário do rádio, entrecortado pelas descargas incessantes, dava conta de que rio acima o nível subira treze metros e as águas invadiam metade de Barro Verde, falava-se de cinquenta e três anos desde a última enchente daquele porte.

A mãe acendeu a vela diante da imagem de Nossa Senhora e fez uma breve oração. Cobriu a filha que dormia no berço e dirigiu-se ao menino junto à mesa de fórmica no meio da sala. O barulho da chuva sobre a coberta de zinco era assustador, como se o céu estivesse despencando. Ela não disse nada, apenas segurou as mãos do filho e ajoelhou-se. Acariciava-lhe o rosto quando o pai entrou. Ela se ergueu depressa e correu ao marido, indagando-o com o olhar.

- A gente sai amanhã cedo - disse o pai, com a voz grave e sonora, mais alto que o barulho da chuva sobre o zinco.

Mãe e filho se olharam. Sabiam que a retirada era inevitável mas era como se o inevitável ainda estivesse a uma distância segura. O pai também relutara e adiara muito a decisão, talvez até demais. Partir era uma questão de sobrevivência, estavam isolados. Talvez fossem as últimas pessoas na ilha, talvez fosse tarde demais.

A menina acordara e chorava, mais um barulho nervoso juntando-se ao da chuva. A febre não cedera e há dois dias ela só calava quando adormecia pelo cansaço. A mãe foi até a caminha de grades altas, tomou a filha ao colo e, balançando-a, sussurrou uma canção.

- Pegue só o mais importante, nada de muito peso. - O pai falava sob o umbral, o cigarro queimando no canto da boca.

A mãe não respondeu. Com a criança no colo, andava de um canto a outro da sala, sempre embalando-a e cantando. O menino permanecia sentado, as mãos entre o assento da cadeira e as coxas, batendo os joelhos um no outro. O pai retirou-se para a outra peça. Já havia verificado o bote, tentaria descansar um pouco.”
Artigo Completo, ::Aqui::

30 anos de Anistia

Urariano Mota, direto da Redação

“No próximo sábado 22 de agosto, comemoram-se os 30 anos da anistia no Brasil. Por isso recupero aqui algumas impressões da leitura de um livro fundamental, “Direito à memória e à verdade”, editado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.

O livro “Direito à memória e à verdade” é um livro grande, com 500 páginas, nas dimensões de 23 x 30 centímetros. Por suas dimensões físicas, é um livro que somente comporta ser conduzido como um escudo, como um símbolo de orgulho, para ser ostentado nas praças e nos ônibus. Mas o que mesmo exibe e informa tal volume?

De um ponto de vista frio, o livro é como uma recondução a um mundo que se rebela contra a mediocridade, contra tudo o que for mesquinho e pequeno. Em suas páginas amarelas, quem lê suas letras lê o destino de homens. Quem lê as suas linhas lê a luta de uma geração. E, coisa mais interessante, este é um livro sem autor. Melhor, é um livro de autores, de muitos autores, um registro de vidas reunidas como em uma coleção de prontuários de polícia. Os seus perfis saem das páginas dos processos, e poucas vezes se viram processos tão antiprocessos. São homens e mulheres, são jovens e quase-crianças, são velhos, malditos e amaldiçoados pela dor na consciência. São renegados que se matam. São homens tornados seres desequilibrados, são gente, enfim, em condições-limite.

“Maria Auxiliadora Lara Barcellos (1945-1976)

Maria das Dores atirou-se nos trilhos de um trem na estação de metrô Charlottenburg, em Berlim... tinha sido presa 7 anos antes, Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi submetida. Durante o exílio registrou num texto... ‘Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos cantos mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, de grito no escuro’....

Nilda Carvalho Cunha (1954-1971)

Sua prisão é confirmada no relatório da Operação Pajuçara, desencadeada para capturar ou eliminar Lamarca e seu grupo. Foi liberada no início de novembro, profundamente debilitada em conseqüência das torturas sofridas e morreu no dia 14 de novembro, com sintomas de cegueira e asfixia. Nilda tinha acabado de completar 17 anos quando foi presa... ‘Você já ouviu falar de Fleury? Nilda empalideceu, perdia o controle diante daquele homem corpuloso. – Olha, minha filha, você vai cantar na minha mão, porque passarinhos mais velhos já cantaram. – Mas eu não sei quem é o senhor. – Eu matei Marighella. Vou acabar com essa sua beleza- e alisava o rosto dela....”
Artigo Completo, ::Aqui::

19 Agosto, 2009

Putana e a cor do excremento

Valdivino Braz, Revista Bula

“Ali vai ela, pelos becos e vielas periféricos, insalubre labirinto, se lembrando de quando ainda era menina e não imaginava o que seria quando crescesse, nem sabia, a fundo, das maldades do mundo. Nem de longe supunha o que a vida lhe reservava, que tivesse no corpo, como agora, as marcas das taras, da luxúria e da violência, e sofresse na alma a dor de tudo isso. Era só uma menina, púbis impúbere, ocasião em que libidinoso padre levou-a até a sacristia e ali se trancou com ela, dizendo que ela era uma menina abençoada porque tinha um bom anjo da guarda. As coisas que ele fez, então, nem lhe conto. Mas foi tudo na base da oralidade e digital, além do olfato. Cheirou-a toda, o “santo padre”, como o chamava a beata Vesgolina, que o bajulava a troco de secretas indulgências, segundo as más línguas. Do que ele fez, pediu segredo à menina, sob pena de castigos infernais; a infância tomada pelo medo. A coisa de verdade, mesmo, só aconteceu mais tarde, já ela de peitos empinados e empenujada, como se diz; a almofada lá embaixo com uns encaracolados símiles a palha de aço. E desta vez não foi só com a boca e os dedos. Foi com tudo. Na casa de um juiz de menores, onde ela trabalhava como empregada doméstica e o filho mais moço do magistrado a envolveu na conversa — “minha doce empregadinha doméstica”, a melosa lábia do lobo — e aí aconteceu. Hoje, na vida que leva, tem vezes em que se sente um lixo, censurando-se por se submeter — imperativa demanda da sobrevivência —, aos ditames da prostituição. A vida toca muitas demandas, minha filha; obriga a gente a seguir em frente e fazer coisas que, muita vezes, não são do nosso querer, como diz a cartomanete Dona Alzira. Por imposição da vida, ali vai ela, que se chama Beladona. Se isso é nome que se dá a alguém, como os pais lhe deram, pensa ela. Beladona é nome de planta que, no que tem de medicinal, diurético, é também venenosa, é tóxica. Por isso, ela inventa que seu nome é Ana, e por causa da vida que leva, não lhe faltam epítetos ou apelidos, como não lhe faltam peitos fartos. Ana Peituda, por exemplo. E há sempre quem lhe aplique pejorativo adesivo, deles havendo que a ofendem e machucam por dentro. Ana Putana é um deles, e foi o que mais pegou, como um nome-de-guerra, uma estrela na testa, um estigma. Mas, vai indo, vai ela se assumindo com o seu nome de puta. Por força da rima e do que lhe vem por cima. E ali vai ela, seguindo o cotidiano, diuturno itinerário de humanas misérias, até o centro nevrálgico da urbe, até o útero, até o cancro da metrópole, até o inferno. Olha lá, a Beladama, anuncia, meio que mangando dela, alguém que a conheça e lhe saiba do nome verdadeiro e do ofício. São donas de mangações, principalmente, certas mulheres com alguma ponta de inveja dos brincos e trajes que ela usa; de resto, nada chique, nada de jóias verdadeiras, mas singelas roupas novas e bijuterias que a deixam mais apresentável, além do perfume que é pra ficar mais cheirosa. Por causa do nome e da função, acresce-lhe, por vezes, um gaiato “Peladona”. Na verdade, Beladona é prenome, porque o nome é o Barbosa de sua mãe, vindo-lhe por sobrenome o Santos do pai. Pai e mãe morreram contaminados pela podridão de enlatados encontrados nos lixões, de onde tiravam o sustento de uma desgraçada sobrevivência. Beladona Barbosa dos Santos, filha da miséria. Ao seu dispor. Lavagem para os porcos, imagina-se ela, em momentos de baixa estima. Dama da noite, sofrida flor da vida, ali se levando como o boi que se leva ao abatedouro do frigorífico. Claro que mal se compara, pois o destino do coitado do boi é diferente do caso dela, porque trágico, mas é com um sentimento assim que ela se entrega a todo tipo de sacrifício, mesmo os nojentos. Cospe o asco que sente da vida. De um modo ou de outro, boi e prostituta estão condenados a morrer. Aliás, tudo que é vivo. Se bem que, também não vai mentir, por vezes o michê a compense de modo prazeroso. E assim vai levando. Vai com ela, feito lhe fosse uma sombra por companhia, um contopoema de pernas diligentes, escorreito em linhas corridas, que aqui se inicia. Uma sátira? Um mamífero alado? Hematófago? Frutífago? Contundente e deprê. Com estes olhos que a terra há de comer. Olhos que a tudo assistem e denunciam. Do pretérito para o presente, vice-versa frente e verso, consoante os reversos de Beladona, de cognome Ana, de aposto Putana, seu código e seu decalque, por força do que se lhe antepõe, pospõe e sobrepõe. Ossos do ofício, via crucis de orifícios, as coisas perversas que lhe acontecem. Por ali, por aí, por aqui, chupando drops de anis — canta aí, Rita Lee —, balas de ananaz ou balas perdidas. Doidos marimbondos de chumbo e fogo, das favelas aos bairros nobres da República de Pindamonhangaba, terra de contrastes e contradições, de barracos e mansões, pois este ainda é um país de casas-grandes, castelos ilícitos, mansões e senzala social. Corram, que lá vem bala. Quem não corre se dá mal, leva tinta e leva sal. Corram dos bandidos. Corram, que a polícia vem aí. Corram dos tiras e dos tiros dos poderes paralelos. Corram da cumplicidade, da conveniência e do cinismo de “podres poderes” constituídos.”
Artigo Completo, ::Aqui::

18 Agosto, 2009

Tempo de superar preconceitos

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Durante dois dias na semana que passou tive a oportunidade de participar de palestra na Academia de Polícia do Estado do Rio de Janeiro com cerca de 400 aluno(a)s futuro(a)s policiais.

Junto com este jornalista debateram sobre o caso Tim Lopes, organizado pelo professor delegado Orlando Zaccone, o comissário Daniel Gomes e o MC Leonardo, um funkeiro politizado, presidente da Associação de Profissionais e Amigos do Funk e que coloca no ritmo problemas vividos pelos moradores das favelas do Rio de Janeiro. É bom lembrar que de cada três habitantes da Cidade Maravilhosa, um mora em favela. E em sua absoluta a maioria é de trabalhadores.

Qual é a relação entre o policial, o jornalista e o funkeiro?

O policial provou tecnicamente que Tim Lopes não foi filmar o baile Funk, conforme alegava, e continua alegando até hoje, a TV Globo. Quando apresentou pela primeira vez o relatório, um mês depois da morte de Tim, em junho de 2002, foi um deus nos acuda. A TV Globo fez o possível e o impossível para mostrar que o policial estava errado. Mas não estava. Colocaram o policial na geladeira. Mais tarde, Daniel Gomes recebeu elogios do pessoal da Justiça pelo que apresentou.

O jornalista é autor do livro reportagem Dossiê Tim Lopes – Fantástico Ibope, que apresenta fatos não divulgados pela mídia conservadora. Ou seja, uma reportagem do gênero contraponto, que provocou irritação da Globo e até mesmo de muita gente que deixou se iludir pela manipulação da emissora.

Já o funkeiro Leonardo, de 34 anos e 17 dedicados ao gênero em questão, alertou o(a)s jovens futuro(a)s policiais sobre o preconceito e criminalização que o Funk sofre, o que piorou depois do assassinato de Tim Lopes. Quando um canal de televisão de grande audiência, para livrar a cara de um assassinato que poderia ser evitado, insiste em relacionar um baile Funk com orgias sexuais e de meninas adolescentes obrigadas pelo tráfico a se submeter a isso, o que se pode esperar da reação do público? E agora, de forma hipócrita, O Globo vendo para onde sopra o vento passa a falar em discriminalizar o funk. Lembra até os dias atuais em que os veículos de comunicação do grupo falam dos tempos da ditadura, como se não tivessem apoiado o regime, autoritário, como se fossem democratas desde criancinha.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Catilina abusa de nossa paciência

Frei Betto, Adital

"Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?", indagou Marco Túlio Cícero ao senador Lúcio Sérgio Catilina, a 8 de novembro de 63 a.C., em Roma. Flagrado em atitudes criminosas, Catilina se recusa a renunciar ao mandato.

Cícero, orador emérito, respeitado por sua conduta ética na política e na vida pessoal, pôs em sua boca a indignação popular: "Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos?"

"Ó tempos, ó costumes!", exclamou Cícero movido por atormentada perplexidade diante da insensibilidade do acusado. "Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite, com suas trevas, pode manter ocultos os teus criminosos conluios; nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração; se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público?"
Jurista, Cícero se esforçou para que Catilina admitisse os seus graves erros: "É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados.

Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia."
Se Catilina permanecia no Senado, não era apenas a vontade própria que o sustentava, mas sobretudo a cumplicidade dos que teriam a perder, com a renúncia dele, proveitos políticos. Daí a exclamação de Cícero: "Em que país do mundo estamos nós, afinal? Que governo é o nosso?"
Artigo Completo, ::Aqui::

17 Agosto, 2009

A crise das cidades

Nos últimos quinze anos o Brasil vivenciou três iniciativas de políticas institucionais que mudaram substancialmente a sua face. Senão vejamos. O controle da inflação em longo prazo estabilizou a arritmia da economia que impedia um salto ao desenvolvimento do País.

Eduardo Bomfim, Vermelho.org

A retomada do papel estratégico do Estado nos destinos da nação fortaleceu o crescimento em quase todas as áreas da economia, desobedecendo a máxima neoliberal de que ele seria um entrave a esse processo. O que se viu foi o contrário, não só o segmento estatal robusteceu o seu papel e eficiência como o segmento privado foi enormemente beneficiado por essa orientação programática nos rumos da economia.

A expansão do crédito para camadas populares intensificou o consumo e em decorrência expandiu espetacularmente o mercado interno, constituindo-o em uma poderosa ferramenta de soberania para o Brasil. De tal maneira que esse tem sido um dos principais fatores para que a nação venha conseguindo enfrentar a crise financeira internacional com relativo êxito. Principalmente se considerarmos os prognósticos dos variados especialistas da área econômica que indicam a retomada do crescimento em ritmo moderado ainda este ano e de 4% a 5% em 2010.”
Artigo Completo, ::Aqui::

Literatura e mundo virtual

Milton Hatoum, Digestivo Cultural

“Alguns leitores me perguntam se a internet prejudica a literatura. Outros, em tom apocalíptico, afirmam que o mundo virtual vai acabar com a poesia e com a prosa. Discordo dos últimos, mas antes vou tentar responder aos primeiros.

O mundo virtual permite o acesso de milhões de pessoas a obras de autores cujos direitos autorais caíram em domínio público. Há discussões literárias em salas virtuais, onde geralmente debatem-se ideias sobre livros, e não sobre a vida dos autores, que ajuda pouco quando se quer fazer uma leitura analítica de uma ficção ou de um poema. Na internet você pode encontrar vários ensaios literários de qualidade, mas muitos ― talvez a maioria ― só existem nos livros. Por exemplo: se os admiradores da obra de Julio Cortázar quiserem aprofundar sua leitura dos contos de As armas secretas ou do romance Rayuela (O jogo de amarelinha) e as relações dessas narrativas com o jazz, o surrealismo e outras influências importantes na ficção do escritor argentino, certamente terão de ler o livro O escorpião encalacrado, de Davi Arrigucci Jr. Depois dessa leitura os leitores podem promover um debate na rede virtual sobre a obra de Cortázar.

Mesmo se o assunto a ser pesquisado for vulgar, escabroso, ou eticamente desastroso, como a "Era Collor" ― sim, esse mesmo que assumiu a presidência de uma comissão no nosso triste senado ― o pesquisador terá de recorrer aos livros sobre aquele momento histórico.”
Arte: Literature (2007), de James Koehnline
Matéria Completa, ::Aqui::

16 Agosto, 2009

Luana Bonone: o dia em que o PIG falou a verdade

A sabedoria popular diz que no amor e na guerra vale tudo. Na guerra feroz entre Globo e Record está valendo até fazer algo que não é do feitio do PIG: dizer a verdade!

Luana Bonone, Vermelho.org

Globo e Record revelam verdades uma a respeito da outra que já eram conhecidas dos movimentos sociais e de todos aqueles que se dedicam a estudar um pouquinho da história da comunicação no Brasil, mas ignoradas pela maior parte da população que assiste diariamente o Jornal Nacional... opa! Quer dizer, a maioria que agora assiste o Jornal da Record. E essa é exatamente a bronca da poderosa Globo: os índices de audiência do Jornal Nacional (JN) caíram, aliás, não só do JN, a Record chegou a ficar como líder de audiência por cinco horas seguidas em um único dia. Assim começou essa briga de cachorros grandes.

De um lado do ringue, com 44 anos de concessão, liderança de audiência e 48% de toda a publicidade oficial investida pela União (isso mesmo, verba pública!) só para o seu canal de TV, a poderosa Rede Globo da família Marinho, abençoada, naturalmente, pelo próprio Papa. Na outra ponta, com índices de audiência em ascensão, a bênção (e outras “cositas mas”) da Igreja Universal do Reino de Deus, e várias ex-estrelas globais, a Rede Record do bispo Edir Macedo.

Primeiro round

A poderosíssima começou batendo forte: na manhã do dia 11 de agosto, as manchetes de praticamente toda a imprensa escrita brasileira eram uníssonas: “Edir Macedo e mais nove viram réus por lavagem de dinheiro” (este título é do Estado de S. Paulo). No mesmo dia o tema entrou na pauta do JN e não saiu mais. Todos os dias mais denúncias acerca de como a Record foi construída com a contribuição dos fiéis da Igreja Universal. E para desqualificar a igreja, repórteres da Globo foram até os cultos gravar os apelos dos bispos para que os fiéis se desfaçam de seus bens materiais em favor da igreja, e para alcançar suas graças, é claro.

A Record respondeu com um verdadeiro documentário sobre a relação histórica e indecorosa da Globo com a Ditadura Militar, sobre como a Globo manipulou o debate entre Lula e Collor em 89, sobre o direito de resposta que Brizola ganhou na Justiça, sobre como a emissora escondeu os movimentos “Diretas Já!” e anos após o “Fora-Collor” pelo tempo que conseguiu, e a Record vai além, refere-se aos atuais proprietários da concessão como “um dos filhos Marinho” e ainda denuncia a Rede Globo por “monopólio”, com este termo.

Segundo round

Mas, além de um extenso patrimônio que vai desde jornal impresso até a rede de TVs, passando por rádio, portal na internet, etc., a Globo tem cachorrinhos adestrados a seu serviço, e rapidamente acionou o mais fiel deles: a revista Veja, que nesta semana discorre sobre a briga das emissoras em nove páginas dedicadas a expor a “ambição” do bispo Edir Macedo. A revista afirma que os índices de audiência da Globo permanecem o triplo da Record, desconsiderando que há horários em que a emissora ligada ao bispo tem batido o empreendimento da família Marinho todos os dias, como é o caso do reality show A Fazenda (não dava pro PIG se manter tão sincero por muito tempo... acho que a verdade provoca urticárias nos filhotes Marinho e na famiglia Civita). Vamos aguardar a resposta da Record a este flanco de ataque.

Bastidores

Enquanto o Brasil assiste ao embate aberto entre as emissoras que brigam pela audiência com programações que a cada dia perdem em qualidade, nos bastidores, a Abert (Associação Brasileira das Empresas de Rádio e TV) — que tem a Globo e a Record como associadas — se retira oficialmente do processo da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). As emissoras também se unificam em outro ponto: a campanha aberta de desmoralização do Senado e a tentativa de atingir a ministra Dilma Rousseff, pauta sempre seguinte à matéria do arranca-rabo entre as emissoras nos respectivos jornais.”
Artigo Completo, ::Aqui::

15 Agosto, 2009

Somos racistas

Leandro Fortes / Brasília, eu vi

“Enquanto interessava às elites brasileiras que a negrada se esfolasse nos canaviais e, tempos depois, fosse relegada ao elevador de serviço, o conceito de raça era, por assim dizer, claríssimo no Brasil. Tudo que era ruim, cafona, sujo ou desbocado era “coisa de preto”. Nos anos 1970 e 1980, na Bahia, quando eu era menino grande, as mulheres negras só entravam nos clubes sociais de Salvador caso se sujeitassem a usar uniforme de babá. Duvido que isso tenha mudado muito por lá. Na cidade mais negra do país, na faculdade onde me formei, pública e federal, era possível contar a quantidade de estudantes e professores negros na palma de uma única mão.

Pois bem, bastou o governo Lula arriscar-se numa política de ações afirmativas para a high society tupiniquim berrar para o mundo que no Brasil não há racismo, a escrever que não somos racistas. Pior: a dizer que no Brasil, na verdade, não há negros.

Antes de continuar, é preciso dizer que muita gente boa, e de boa fé, acha que cota de negros nas universidades é um equívoco político e uma disfunção de política pública de inserção social. O melhor seria, dizem, que as cotas fossem para pobres de todas as raças. Bom, primeiro vamos combinar o seguinte: isso é uma falácia que os de boa fé replicam baseados num raciocínio perigosamente simplista. Na outra ponta, é um discurso adotado por quem tem vergonha de ter o próprio racismo exposto e colocado em discussão. Ninguém vê isso escrito em lugar nenhum, mas duvido que não tenha ouvido falar – no trabalho, na rua, em casa ou em mesas de bares – da tese do perigo do rebaixamento do nível acadêmico por conta da presença dos negros nos redutos antes destinados quase que exclusivamente aos brancos da classe média para cima – paradoxalmente, os bancos das universidades públicas.

Há duas razões essenciais que me fazem apoiar, sem restrições, as cotas exclusivamente para negros. A primeira delas, e mais simples de ser defendida, é a de que há um resgate histórico, sim, a ser feito em relação aos quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XIX , e seus descendentes. A escravidão gerou um trauma social jamais sequer tocado pelo poder público, até que veio essa decisão, do governo do PT, de lançar mão de ações afirmativas relacionadas à questão racial brasileira – que existe e é seríssima. Essa preocupação tardia das elites e dos “formadores de opinião” (que não formam nada, muito menos opinião) com os pobres, justamente quando são os negros a entrar nas faculdades (e lá estão a tirar boas notas) é mais um traço da boçalidade com a qual os crimes sociais são minimizados pela hipocrisia nativa. Até porque há um outro programa de inserção universitária, o Prouni, que cumpre rigorosamente essa função. O que incomoda a essa gente não é a questão da pobreza, mas da negritude. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético nunca superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.”
Artigo completo, ::Aqui::

Mobilizações Populares

Frei Betto, Adital

“Desde 10 de agosto, mais de 3 mil trabalhadores sem-terra se encontram acampados em Brasília para, de novo, alertar o governo federal sobre uma questão que, outrora, foi considerada prioritária pelo PT: a reforma agrária.

O mundo gira, a Lusitana roda, e hoje muita coisa parece virada de cabeça para baixo: quem fazia oposição a Sarney o defende; quem gritava "fora Collor" o elogia; quem exigia reforma agrária exalta o agronegócio. E, apesar das políticas sociais, 31 milhões de brasileiros(as) continuam a sobreviver na miséria. E a violência dissemina o medo por nossas cidades.

A manifestação dos sem-terra reivindica do governo muito pouco, sobretudo se comparado aos incentivos oficiais concedidos a empresas que degradam a Amazônia e a usineiros que, em latifúndios, mantêm trabalhadores em regime de semiescravidão.

É urgente assentar mais de 100 mil famílias sem-terra acampadas pelo país afora, sobrevivendo em barracas de plástico preto à beira de estradas. E cuidar das 40 mil famílias assentadas virtualmente, apenas no papel, pois aguardam, há tempo, recursos para investirem em habitação, infraestrutura e produção. Nos últimos seis anos foram financiadas apenas 40 mil casas no meio rural. Também as escolas rurais necessitam, urgente, de recursos.

O Brasil não tem futuro sem mudar sua estrutura fundiária. Nas três Américas, apenas Brasil e Argentina jamais fizeram reforma agrária. O detalhe é que somos um país de dimensões continentais, com 600 milhões de hectares cultiváveis.”
Matéria Completa, ::Aqui::

14 Agosto, 2009

Vou tentar não ser piegas para falar de amigos

Ana Elisa Ribeiro, Digestivo Cultural

“Dia desses foi Dia do Amigo. Só descobri porque recebi mensagens de celebração. Enrubesci porque eu não sabia. A sensação de vergonha cedeu e deu lugar a um conforto muito grande. Mesmo que isso seja apenas uma "gracinha" (e nem acho que seja), duas pessoas se preocuparam em enviar mensagens para mim. Duas pessoas. Na verdade, três, porque um dos remetentes era um casal. E nem me interessa se as mensagens foram "gerais" ou não. Interessa que estive nas listas de duas pessoas. E preciso dar o braço a torcer: não enviei mensagem a ninguém.

O casal amigo enviou um torpedo. Feliz Dia do Amigo. Meu coração teve um sobressalto bom. Eu estava muito longe de casa, em terra estranha, comendo mal e dormindo fora de hora, com saudades da minha cama e do meu travesseiro, quando o celular vibra, depois de um longo silêncio. Os amigos queriam me abraçar à distância ou expor seu apreço por mim. Minha resposta imediata foi um sorriso aberto, alienado, gostoso. Os olhos se afogaram um pouco. Não pude responder pá pum porque ficaria muito caro, mas arremessei meus agradecimentos pelo ar, pensei muito nos meus amigos, desejei muitas coisas boas a eles e guardei a mensagem. Quando cheguei em casa, corri ao e-mail e enviei logo um agradecimento efusivo, embora conciso.

De outro lado, minha amiga de infância (de infância mesmo, da vida inteira) mandou uma mensagem por e-mail para lembrar dos amigos. Fiquei feliz também. Naquela mesma semana, tive a rara oportunidade de falar com ela sem pagar interurbano. Não conseguiríamos nos encontrar pessoalmente, mas foi reconfortante falar-lhe ao telefone de tão perto, com tempo, trazendo à tona nossas vidas atuais e nossos planos para o futuro próximo.”
Artigo Completo, ::Aqui::

13 Agosto, 2009

Honduras, a marcha e a resistência heróica de seu povo

Maggie Marin, Revista Bohemia / Adital

"Os milhares de hondurenhos/as que participaram na que me atrevo chamar a grande marcha desse país centroamericano oferecem um singular exemplo para a América Latina e para o resto do mundo.

Porque essa ousada ação desenhada para defender seus direitos em específico é isso; porém, é mais do que isso; e é mais do que uma imensa caminhada. É também, vale esclarecer, uma formidável maneira de defender a totalidade de nossa região dos desígnios nefastos e da sempiterna voracidade dos Estados Unidos
Revolucionária por certeza, latinoamericanista por devoção e periodista por profissão, meus dias começam e terminam e sempre estou mergulhada em pesquisas do que passa por lá. Na imprensa alternativa, claro, porque a Marcha Nacional de Resistência Popular, da mesma forma que todas as ações de repúdio e protesto popular, são ignoradas pelos maiores meios de comunicação do país, propriedade de grupos empresariais que ajudaram a financiar o levantamento militar que depôs ao presidente legítimo, José Manuel Zelaya Rosales.

Portanto, não minto ao assegurar que a atualidade sobre Honduras apresenta diversos ritmos, matizes e graus de tensão. A cada jornada se enrola e desenrola mais de um fato; porém parece subsistir uma espécie de nó cego que a muitos, -Gringolândia em primeiro lugar- convém manter atado até ajustar bem suas porcas. Algo está sempre acima de tudo -algo que, inclusive, tem contrariado os vaticínios agoureiros segundo os quais, após uns dias de revoltas, tudo voltaria à normalidade e as águas voltariam ao seu nível-: a permanente pujança do movimento popular e a virtual rebelião de seus habitantes. Porque, certamente, a despeito da atroz repressão desatada após o golpe e das graves violações aos direitos humanos de que estão sendo vítima, 44 dias depois do golpe, dos hondurenhos mantêm a luta mesmo com o risco de perder suas vidas.

Desde o fatídico 28 de junho, as massas populares saem todos os dias à rua para protestar e executar medidas de pressão contra o governo usurpador: marchas e mobilizações massivas, interromper o tráfego nas estradas, bloqueios de pontes, ocupação de edifícios públicos, paralisações. O mais provável é que a maioria não saiba que o Artigo 3 da atual Constituição Política hondurenha lhes dá o direito à Insurreição Popular em caso da imposição de um governo pela força das armas.
Tradução: Adital
Artigo Completo, ::Aqui::

12 Agosto, 2009

Da próxima vez que encontrar um poeta

Urariano Mota, Direto da Redação

“Na próxima vez em que encontrar um poeta, olhe-o por inteiro. Não lhe pergunte por que ele faltou a compromissos assumidos antes com você. Ele tem lá suas razões. Ele pode ter faltado ao encontro por algumas razões primárias, básicas, simples, como ganhar dinheiro para beber, comer, pagar contas e aluguel. Ele pode ter faltado por essas razões que todos alheios à poesia pensamos que os poetas não têm, ou não podem ou nem devem ter. Ele pode ter faltado ao encontro por razões até menos primárias. Como, por exemplo, um encanto súbito pelos olhos de uma jovem. Ou um copo de cerveja em uma conversa tão boa quanto inadiável. Ou até mesmo, imagine, por estar amargando uma dor por não conseguir aquela forma sonhada para um poema. Por razões, em suma, estúpidas, idiotas, imbecis, que pessoas sérias, práticas, desprezam porque não aparecem nas páginas do guinness, não geram notícias, nem fazem renda no fim do mês.

Na próxima vez em que encontrar um poeta, você pode no máximo sentir-se um igual a ele. Igual a um homem como somente outro homem pode ser. Por isso olhe-o bem com atenção. Você está diante de um espetáculo raro, talvez único, insuperável. Você está diante de um criador que antes de justificar um lugar no céu, justifica um lugar junto aos malditos. Junto aos mendigos, aos párias, a quem ele se assemelha muitas vezes pelo estado em que se encontra. Ou junto aos santos, aos iluminados, de quem muitas vezes ele se aproxima pelas realidades que descobre. Ou junto aos demônios, aos senhores das luzes dos infernos a quem muitas vezes ele se avizinha pela vida que leva. Ou até mesmo aos descaídos, aos homens caídos em desgraça pela fraqueza, de quem ele se aproxima por empatia e semelhança. Na próxima vez em que encontrar um poeta, preste muita atenção, porque você está diante de uma soma de humanidades.”
Artigo Completo, ::Aqui::

O sexo de que se fala

Brasigois Felício, Revista Bula

“O sexo de que e fala não é o sexo que se pratica. Assim como a família de que se fala não é aquela que afligimos, e que nos faz sofrer. Nelson Rodrigues foi mais cortante do que navalha afiada, ao dizer: “Se as pessoas conhecessem a vida sexual uma das outras ninguém se cumprimentaria na rua”.

O sexo difere de outras necessidades básicas do corpo, como o alimento e o sono, pelo menos em dois sentidos. Em primeiro lugar, em termos ideais, requer a participação de outros seres humanos. Essa participação aumenta a possibilidade de prazer, assim aumenta a perspectiva de confusão emocional, que poucos conseguem evitar diretamente.

Em segundo lugar, embora não seja absolutamente essencial à sobrevivência, muitas são as pessoas que declaram não poder passar sem “aquilo”. Outros, que por motivos de opção religiosa conseguem se manter celibatários, ou refratários ao natural, passam a cultivar perversões terríveis, decorrentes da repressão a um instinto natural

O sexo não seria motivo de opressão, sedução, servidão ou mendicância, fosse um gesto ou ato solitário, como o é, na “contravenção” a que chamamos de masturbação. Desde a bíblia até os livros de sexologia mais antigos, esta prática, pela qual a pessoa dá satisfação ou prazer a si mesma é tida, havida e defenestrada como infame, hedionda, capaz de levar uma alma aos infernos dantescos.

No mais das vezes, porém, o sexo é cumprido e exercido a dois, exigindo, portanto, participação de outra pessoa, do sexo oposto, ou do mesmo, como vem se tornando moda — havendo casos em que a participação de mais de uma pessoa é requerida, levando a supor que um parceiro ou parceira não é suficiente para se alcançar o “alumbramento” a que os sexólogos chamam de orgasmo.”
Artigo Completo, ::Aqui::

O perigo da utopia

“Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.

José Luís Fiori, Carta Maior

"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?"

LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7.

Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.

Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).

Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.”
Artigo Completo, ::Aqui::

11 Agosto, 2009

O diamante marciano Charlotte Gainsbourg

Fernando Eichenberg, Terra Magazine

“Gosto da história de como a atriz Charlotte Gainsbourg veio ao mundo. O acaso quis que essa exceção francesa nascesse em solo britânico, em circunstâncias dignas de um roteiro escrito a quatro mãos por Woody Allen e Pedro Almodóvar, com pitadas de David Lynch. Em 21 de julho de 1971, em uma clínica privada de Londres, enquanto Jane Birkin, a mãe, dava a luz, Serge Gainsbourg, o pai, se embriagava com licor de banana do outro lado da rua - como contou a própria Jane em depoimento a Gilles Verlant, autor da biografia-referência "Gainsbourg" (ed. Albin Michel, 763 pág., 2000).

A cada 45 minutos, o ansioso e nervoso futuro papai subia até a sala de parto e, com um estetoscópio colado à porta, tentava auscultar algum choro de bebê. No quarto ou quinto dia de vida, sofrendo de icterícia neonatal (doença comum em recém-nascidos), Charlotte foi transferida para um hospital e não pôde ser visitada por seu padrinho, o ator americano Yul Brynner (famoso por sua luzidia careca e pela atuação em filmes de sucesso como "Os Dez Mandamentos", "Sete Homens e um Destino" ou "Os Irmãos Karamazov"). Jane também estava doente, com um vírus que pegara na Iugoslávia. Para dar ainda mais ação ao cenário, os jornais alertavam sobre um louco que atacava bebês nos hospitais.

Desesperado, imaginando as maiores tragédias, Serge não obtinha permissão para ver sua filha, porque Charlotte fora internada sob o nome materno. Quando, na madrugada, finalmente conseguiu vencer a burocracia hospitalar e ver seu bebê, retornou à pé do hospital para casa, sob a chuva. "Devo ter caminhado por quase duas horas. Atravessei toda a Londres. Nunca fiz um passeio mais feliz na minha vida. Naquela noite, toquei a felicidade com o dedo", revelou, depois, emocionado.

O curioso nascimento prenunciava uma trajetória singular. Atriz precoce, cantora cult, ícone contra a sua vontade e tímida por natureza, Charlotte Gainsbourg cresceu alentada por incertezas e movida por desafios. Pelo mais recente deles, o polêmico filme "Antichrist", uma aterrorizante e tórrida trama dirigida pelo dinamarquês Lars von Trier, foi recompensada com a cobiçada Palma de Ouro do prêmio de melhor atriz do último Festival Internacional de Cinema de Cannes.”
Foto: Reprodução
Artigo Completo, ::Aqui::

10 Agosto, 2009

O Dossiê

Quem acompanhou com a devida atenção a seqüência dos fatos que desencadearam a crise no Senado Federal e observa os episódios ocorridos entre a segunda e quarta-feira passadas conclui que um tornado transformou-se no máximo, e subitamente, em uma forte brisa.

Eduardo Bomfim, Vermelho.org

Ninguém devidamente atento ao intricado mundo da política tem algum tipo de dúvida que todo o episódio foi gerado em laboratório através da grande mídia hegemônica nacional. E põe hegemônica nisso.

É possível diagnosticar a confluência de interesses entre algumas organizações partidárias ou segmentos delas e essa dita mídia hegemônica que detém o poder de pautar o mundo institucional e também a própria mídia.

Sabe-se igualmente que o seu poder de fogo é tamanho que ela possui a sua própria bancada, atraída pelo fulgor dos seus refletores, bastante acrítica, composta por inúmeras tendências que passam por quase todos os espectros ideológicos. E assim sempre tem sido mais ou menos por quase três décadas.

Mas voltando ao assunto inicial, é grande a desconfiança de que havia a confluência de interesses, mas não existia a unidade dos propósitos. Porque com a mesma intensidade com que se iniciou o pesado ataque de artilharia contra o presidente do Senado suspendeu-se o fogo de ofensiva, ou quase, resumindo-se a disparos esporádicos de carabinas leves.

Ouvindo-se as ruas é possível detectar o momento exato em que a situação inverteu-se radicalmente. Foi quando os senadores Renan Calheiros e Fernando Collor enfrentaram os dissidentes governistas Pedro Simon e Cristóvão Buarque.

Também chamou a atenção o recuo atabalhoado da oposição ao ponto em que os dois senadores, Simon e Cristóvão, ficaram sozinhos em campo de batalha, sem eira nem beira, sem vanguarda nem retaguarda, já que na base da retórica o confronto poderia estender-se por mais tempo.

Mas há sim algumas pistas que podem ser encontradas no suposto dossiê contra os dois governos Fernando Henrique, em 2008, invocado pelo senador oposicionista Álvaro Dias ao afirmar não ser nem bode expiatório (no Nordeste seria boi de piranha) nem James Bond. Essa declaração cairia hoje como uma luva em Cristóvão e Simon.

Enfim, o espectro de um dossiê ronda o Congresso, os exércitos contam as suas baixas, o tempo continua fechado, sujeito a chuvas e trovoadas e a luta política é jogo duro e pesado como briga de foice no escuro.”

Adeus às armas

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Esta semana, um cidadão de aparência normal, bem empregado e com residência certa e conhecida, entrou na academia de ginástica na Pennsylvania, onde era matriculado e, sem dizer uma palavra, apagou as luzes de uma classe de aeróbica feminina e disparou dezenas de tiros em poucos minutos, antes de meter uma bala na cabeça. A policia informa que ele tinha quatro armas (três automáticas) e não chegou a usar uma delas.Três mulheres morreram no local e nove foram hospitalizadas.

No dia seguinte já se sabia que de normal o homem só tinha a aparência. O assassino-suicida (de 48 anos), na verdade, era um perigoso sociopata que não tinha uma namorada desde 1986 e não fazia sexo desde 1990. O cara era tão louco que tinha um blog na internet, em forma de diário, onde revelava toda sua frustração por ser rejeitado pelas mulheres, pela quais passou a alimentar um ódio mortal que acabou na tragédia da academia.

O fato, embora doloroso, não chega a surpreender quando se trata da sociedade americana, onde serial killers matam com uma frequência assustadora. Para não voltar muito no tempo, vale relembrar o de abril último, em Binghampton, perto de Nova Iorque, quando 14 pessoas foram fuziladas, entre elas o matemático pernambucando Almir Olimpio Alves, por um vietnamita desempregado que era motivo de gozação dos colegas pela dificuldade no aprendizado do inglês. O assassino tinha duas armas automáticas, uma Beretta 9 mm e uma pistola 45 e atirou 87 vezes em um minuto.

A pergunta que não quer calar: onde essa gente consegue armas com tanta facilidade? Claro que, ao lado do problema psicossocial desses assassinos em série, a questão cultural não pode ser ser desprezada.”
Artigo Completo, ::Aqui::

09 Agosto, 2009

Escola

Tony Monti, Terra Magazine

“É preciso coragem. Não tenho irmão mais velho que me mostre os caminhos nem sou filho único para ter exclusividade da atenção dos pais. Cheguei para meu primeiro dia de escola aos cinco anos de idade. Corri com minha irmã num pátio enorme e vazio, meus pais observando. Era meio de ano. Meus colegas de classe, que eu não conhecia, já estavam em aula havia meses. O plano era me deixar na escola no fim do período. Eu ficaria uma horinha na sala e, na saída, meus pais já estariam lá. Estariam lá o tempo todo, me esperando. Na hora de entrar, chorei. Minha irmã ficou com eles e eu entrei na sala cheia de crianças bastante bem integradas. Demorou mais que apenas a última hora daquele dia: acabei gostando.

Nas mesas, cabiam quatro pessoas. Conheci, lá, uma menina de cabelo escuro e pele clarinha. Triste não lembrar do nome dela, talvez Fernanda. Sentei por todos os últimos meses do ano na mesma mesa que ela. Isso facilitou bastante minha estadia na escola (continuo me apaixonando por alguma menina na escola de Francês para suportar bem hora e meia de aula).

Um dia destes meses, tímido - troquei parte da timidez por algum silêncio; a própria timidez, quando bem conhecida, vira estratégia -, não pedi à professora para ir ao banheiro. Adiei até quase a dor. Não me lembro se imaginei que iria ao banheiro em casa, quando fosse embora, não sei qual foi a elaboração mental que escondeu a vontade. Doeu. Pedi e fui. Imagino agora, não há como lembrar, que era a primeira vez em que eu pedia à professora para ir ao banheiro. No corredor, na metade do caminho, minhas calças já estavam molhadas.

Corri como algumas vezes fiz, já adulto, fugindo de algum problema. As freiras da escola me seguraram quando eu já estava na rua, e continuaria correndo por um bom tempo, é assim, e não voltaria para casa porque não sabia o caminho.

Na volta à classe, a professora - tive boas professoras nesses primeiros anos, sei disso porque sorrio quando hoje lembro delas - me colocou para assistir aula ao seu lado, em cadeira especial. Cuidou direitinho de mim. Que eu me lembre, não houve espanto maior entre os outros alunos pelo fato de eu não voltar para as mesinhas coletivas. Alguns anos mais tarde, eu era professor numa quinta série, meninos correndo pela sala enquanto eu falava. Todos menos um sentaram-se depois de uma conversa amiga. Um continuou correndo, passou por mim, desviando dos meus pés para não tropeçar, enquanto eu contava alguma história. Segurei o Bolinha pelo ombro, ele era bem pequeno, menor que os colegas, e continuei a aula abraçado, de lado, com ele. Ficou quietinho. Os demais também. Ninguém comentou. Voltou para sua carteira minutos depois e a correr pela classe na aula seguinte.”
Este conto é parte integrante do livro "o menino da rosa", publicado pela editora Hedra em 2007.

Papai e o homem na lua. Em homenagem aos papais no seu dia

Selvino Heck, Adital

“Quando, em 1969, quarenta anos atrás, o astronauta americano Neil Armstrong pisou na lua, todo mundo ficou fascinado pela conquista. Não era para menos. Pela primeira vez, depois de várias tentativas, o homem ultrapassava seus próprios limites, saía de seu mundinho chamado terra e ocupava o planeta estelar. Mesmo que fosse a lua, sem luz própria, mas que poetas e amantes cantavam em prosa e verso como símbolo do amor e da paixão dos enamorados.

Fui falar com papai Léo. Não lembro, mas deve ter sido em julho, quando eu, de férias, voltava para casa do Seminário de Taquari, onde, 1969, estava no último ano do colegial, e já cometia meus versos e textos publicados então no O Observador, jornal mural do qual eu era um dos principais incentivadores e até editor.

Papai me disse que não acreditava que o homem tivesse pisado na lua, que aquilo não era verdade. Como o homem ter pisado na lua? Como ter chegado lá? Quem garantia? Era tudo invenção, mentira dos americanos. (Aliás, tínhamos ligação antiga com ‘die Amerikaner’. Papai então plantava fumo - a região, Vale do Rio Pardo, Rio Grande do Sul, é grande plantadora ainda hoje. E a Souza Cruz -‘die Amerikaner’ , não sei se papai falava com ironia ou desprezo - era a compradora da produção.)

Sei não. Hoje tenho consciência de que papai tinha lá seus argumentos fortes, mesmo que não soubesse da Guerra Fria, que os Estados Unidos da América e a URSS - União Soviética - travavam ferozmente naqueles tempos. Um queria estar sempre à frente do outro. Não era só uma questão de poder e de tecnologia, de saber quem estava mais adiantado, à frente do seu tempo, mas principalmente de ideologia. Imagina se os comunistas chegassem primeiro lá! URSS e Cuba iam tomar à frente no poder do mundo, na disputa ideológica, em tudo enfim. Os comunistas (pra nós, gente lá do interior eram todos comedores de criancinha), que já tinham chegado por primeiro ao espaço, ainda serem os primeiros a pôr os pés na romântica lua! Seria demais para os soberbos e poderosos americanos.”
Artigo Completo, ::Aqui::
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...