31 Janeiro, 2011

Indústria de quadrinhos reforça aposta no meio digital

Diogo Bercito, folha.com

“Enquanto o mercado editorial discute o fim do livro em papel, a indústria de quadrinhos têm a mesma preocupação com os gibis.

Representantes de Hong Kong aproveitam o festival internacional de HQs de Angoulême, na França, para promover o aplicativo Hong Kong Comics, uma das promessas para o futuro do mercado de quadrinhos do país (estimado em 600 milhões de dólares de Hong Kong).

O produto, que permite a leitura de gibis em iPads, foi lançado no dia 11, e a versão em inglês está prevista para fevereiro.

O evento em Angoulême é o mais importante do mercado franco-belga e dedica um de seus pavilhões aos negócios de licenciamento.

Editoras de todo o mundo encontram aqui um cardápio vasto, no país que publicou 5.165 HQs em 2010.”

Enquanto negócios são fechados para a publicação de títulos em papel durante a feira, lançamentos como o Hong Kong Comics mostram que a indústria começa a apostar nos meios digitais.

A americana Marvel já tinha apontado esse caminho em abril de 2010, quando lançou um aplicativo para a leitura das aventuras de personagens icônicos como o Homem-Aranha e os X-Men. A DC (Batman), também dos EUA, fez o mesmo em junho.”
Foto: Pierre Andrieu, AFP
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30 Janeiro, 2011

Teoria dos jogos perdidos


 Vicente Escudero, Digestivo Cultural

“Não me recordo de quando fui apresentado à criptografia, mas desconfio que nessa ocasião o conteúdo da mensagem escondida pela aplicação de diversos algoritmos era importante o bastante para tomar o tempo de seus pais matemáticos por noites a fio. Talvez eu também tenha relacionado a ideia de esconder uma mensagem ao caráter confidencial de seu conteúdo e, finalmente, a sua origem em algum órgão de espionagem, como num filme de suspense em que agentes secretos carregam segredos roubados e se comunicam através de códigos, evitando o vazamento de suas operações.

Talvez essas expectativas não façam parte do mundo real, pois foi nesta frágil dimensão que surgiram os telegramas diplomáticos vazados a conta-gotas pelo WikiLeaks. De um lado estão as informações diplomáticas do país que possui como maior empregador de matemáticos um órgão público, a Agência Nacional de Segurança (NSA), famosa por ser muito maior do que a CIA e ninguém conhecer suas atividades. Do outro está um site formado por jornalistas e hackers que publica informações sensíveis de qualquer país. O resultado do confronto dessas forças revela a fragilidade do sistema de informações da maior potência militar do mundo, mesmo ainda não havendo a confirmação segura da autoria dos vazamentos pelo analista militar preso, Bradley Manning.

Segundo Adrian Lamo, o hacker que delatou Bradley ao FBI e teria conversado com ele sobre os vazamentos em um chat, o analista fingiu que ouvia e cantava "Telephone", de Lady Gaga enquanto copiava as informações dos servidores do Exército em Bagdá, onde estava alojado. O analista ainda teria dito que a segurança era "vulnerável pra cacete... ninguém suspeitou de nada... =L meio triste... servidores fracos, logging fraco, segurança física fraca, contra inteligência fraca, rastreamento das operações inexistente... uma tempestade perfeita". Também esclareceu sua intenção em copiar os telegramas "e se eu estivesse mal intencionado?". Questionado sobre a possibilidade da venda das informações à Rússia e China, teria dito "as informações são públicas... deveriam circular livremente".

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28 Janeiro, 2011

Gente, eu sou transexual


Eberth Vêncio, Revista Bula

“É incrível como a arte, de maneira geral, pode modificar substancialmente a vida de um ser humano. Não vale para qualquer arte (há muitos “artistas” presunçosos ocupando os órgãos de sentido dos outros com suas belas porcarias), nem para qualquer vida de qualquer ser humano. E quando não muda uma vida, a arte pode, ao menos, reinventar um dia, transformar uma tarde, aquecer uma noite, sei lá.

Por exemplo: conheço um sujeito que se casou com uma prostituta, após assistir a um seu striptease. Não que ele ficasse apenas intumescido da cintura para baixo, como sói ocorresse à maioria. Não. É que ele enxergou nos olhos da moça (foi isto o que mais lhe chamou a atenção: o brilho triste no olhar) toda uma ternura e sofrimento que nenhum dos outros homens ali presentes sequer suspeitava. Enfim, era só o amor brotando de onde menos se esperava.

Há quem se comova com uma composição de Beethoven ou fique paralisado frente a uma tela de Salvador Dali, são coisas que sucedem às pessoas sensíveis, é o que se diz. Mais manso, contudo, é aquele que se emociona e chora ao testemunhar a chuva pulverizando a relva. Só isto. Este, sim, se existir um céu, se houver a chamada justiça divina ao apagar das luzes, vai entrar pelo portãozinho lateral, sem o dispositivo de apresentar credenciais, e sob as trombetas dos anjos. Seres afáveis dispensam “carteiradas”.

Faço todo este confuso preâmbulo pseudo-antropológico para enaltecer, especificamente, o poder de transformação da literatura, qualquer boa e singela forma literária, até mesmo uma frase criativa escrita em português errado no pára-lama de caminhão. Que leitor sai incólume da leitura, por exemplo, de “ Grande Sertão: Veredas” do médico escritor Guimarães Rosa e “Evangelho Segundo Jesus Cristo” do ateu José Saramago?”
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27 Janeiro, 2011

Um deus inca em São Paulo

Urariano Motta, Direto da Redação

“O aniversário da cidade de São Paulo, nessa última terça-feira, me faz ir um pouco mais longe, até 1977. Nesse ano, quando em São Paulo desci os pés, tive a sorte de conseguir trabalho no Jornal da Semana, que era editado pelo escritor Raduan Nassar. Raduan, então, somente havia publicado Lavoura Arcaica. Na época, a minha reportagem remunerada consistia em escrever crônicas como freelancer para o jornal, e nada mais. Raduan e família, dona da cadeia de supermercados Bazar 13, até que pagavam bem, mas, diabo, as minhas 20 linhas semanais não valiam mais que o pouco chumbo impresso.

De passagem devo anotar que nesse tempo o estado de ânimo e de matéria – alma e prata - deste repórter era o pior possível. Para terem uma idéia do quanto, este que lhes escreve somente respondia cartas que viessem com selos adicionados no interior do envelope. No entanto, não sei se em razão de raiva ou de maior desespero, o texto que recupero a seguir não demonstra bem a carência de dinheiro no espírito do repórter. Eu era um atleta sonhador nesses belos dias paulistanos: percorria, passeava a pé mais de 9 horas, em rigoroso regime de calorias, por inúmeros e infindáveis quilômetros, da Vila Maria a Pinheiros. Entre ladeiras, ruas curvas e retíssimas avenidas, não posso dizer que conheço a cidade, pois São Paulo é muito grande. Mas posso informar que sempre observei a bela paisagem dos edifícios, sob um céu invariavelmente cinza. E chega de nariz de cera, vamos ao trabalho. O texto que recupero é este:

Deus inca assaz falado

O que o cidadão espera de um bar que tem o nome de Latino-americano? Toureiros de Espanha em terras do México, Sarita Montiel cantando La violetera, a felliniana Mamãe Dolores aos prantos secundada por Parra de mosquetão, com duplas de mexicanos de sombreros a passear pelas mesas chacoalhando ‘que bonitos ojos tienes’, um indivíduo pisando una señorita em arrojado tango, um índio com poncho a mascar com os olhitos apertados nos Andes? Pois se de Latin American o cidadão só entende os prospectos distribuídos em agências de viagem, não vá a este bar que tomará um tremendo susto: ao pé da escada, na Henrique Schaumann (quase esquina da Avenida Rebouças), encontrará um deus inca pintado na parede, segurando, à altura do queixo, aquilo que o eufemismo sugere dizer: um vigoroso falo.”
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26 Janeiro, 2011

Uma lei de responsabilidade sócioambiental?

Leonardo Boff, Adital

“Já existe a lei de responsabilidade fiscal. Um governante não pode gastar mais do que lhe permite o montante dos impostos recolhidos. Isso melhorou significativamente a gestão pública.
O acúmulo de desastres sócio-ambientais ocorridos nos últimos tempos, com desabamentos de encostas, enchentes avassaladoras e centenas de vítimas fatais junto com a destruição de inteiras paisagens, nos obrigam a pensar na instauração de uma lei nacional de responsabilidade sócio-ambiental, com pesadas penas para os que não a respeitarem.

Já se deu um passo com a consciência da responsabilidade social das empresas. Elas não podem pensar somente em si mesmas e nos lucros de seus acionistas. Devem assumir uma clara responsabilidade social. Pois não vivem num mundo a parte: são inseridas numa determinada sociedade, com um Estado que dita leis, se situam num determinado ecossistema e são pressionadas por uma consciência cidadã que cada vez mais cobra o direito à uma boa qualidade de vida.

Mas fique claro: responsabilidade social não é a mesma coisa que obrigação social prevista em lei quanto ao pagamento de impostos, encargos e salários; nem pode ser confundida com a resposta social que é a capacidade das empresas de se adequarem às mudanças no campo social, econômico e técnico. A responsabilidade social é a obrigação que as empresas assumem de buscar metas que, a meio e longo prazo, sejam boas para elas e também para o conjunto da sociedade na qual estão inseridas.

Não se trata de fazer para a sociedade o que seria filantropia, mas com a sociedade, se envolvendo nos projetos elaborados em comum com os municípios, ONGs e outras entidades.

Mas sejamos realistas: num regime neoliberal como o nosso, sempre que os negócios não são tão rentáveis, diminui ou até desaparece a responsabilidade social. O maior inimigo da responsabilidade social é o capital especulativo. Seu objetivo é maximizar os lucros das carteiras e portfólios que controlam. Não vêem outra responsabilidade, senão a de garantir ganhos.”
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25 Janeiro, 2011

Darwinismo social

Frei Betto, Adital

“A catástrofe na região serrana do Rio de Janeiro é noticiada com todo alarde, comove corações e mentes, mobiliza governo e solidariedade. No entanto, cala uma pergunta: de quem é a culpa? Quem o responsável pela eliminação de tantas vidas?

Do jeito que o noticiário mostra os efeitos, sem abordar as causas, a impressão que se tem é de que a culpa é do acaso. Ou se quiser, de São Pedro. A cidade de São Paulo transbordou e o prefeito em nenhum momento fez autocrítica de sua administração. Apenas culpou o excesso de água caída do céu. O mesmo cinismo se repetiu em vários municípios brasileiros que ficaram sob as águas.

Ora, nada é por acaso. Em 2008, o furacão Ike atravessou Cuba de Sul a Norte, derrubou 400 mil casas, deu um prejuízo de US$ 4 bilhões. Morreram 7 pessoas. Por que o número de mortos não foi maior? Porque em Cuba funciona o sistema de prevenção de catástrofes naturais. No Brasil, o governo promete instalar um sistema de alerta... em 2015!

O ecocídio da região serrana fluminense tem culpados. O principal deles é o poder público, que jamais promoveu reforma agrária no Brasil. Nossas vastas extensões de terra estão tomadas pelo latifúndio ou pela especulação fundiária. Assim, o desenvolvimento brasileiro se deu pelo modelo saci, de uma perna só, a urbana.

Na zona rural faltam estradas, energia (o Luz para Todos chegou com Lula!), escolas de qualidade e, sobretudo, empregos. Para escapar da miséria e do atraso, o brasileiro migra do campo para a cidade. Assim, hoje mais de 80% de nossa população entope as cidades.
Nos países desenvolvidos, como a França e a Itália, morar fora das metrópoles é desfrutar de melhor qualidade de vida. Aqui, basta deixar o perímetro urbano para se deparar com ruas sem asfalto, casebres em ruínas, pessoas que estampam no rosto a pobreza a que estão condenadas.

Nossos municípios não têm plano diretor, planejamento urbano, controle sobre a especulação imobiliária. Matas ciliares são invadidas, rios e lagoas contaminados, morros desmatados, áreas de preservação ambiental ocupadas. E ainda há quem insista em flexibilizar o Código Florestal!

Darwin ensinou que, na natureza, sobrevivem os mais aptos. E o sistema capitalista criou estruturas para promover a seleção social, de modo que os miseráveis encontrem a morte o quanto antes.”
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24 Janeiro, 2011

O fim da esperança?

Rui Martins, Direto da Redação

“Há certas coisas que valem a pena ler e ouvir, como, por exemplo, um político escrever um livro filosófico sobre a política e, nas suas entrevistas, demonstrar um saber e uma visão crítica profunda da história humana da participação política.

É o caso, por exemplo, de Vincent Peillon, deputado francês na União Européia, um professor doutor em filosofia, que chegou a membro da direção do Partido Socialista, com a publicação de um livro sobre a política como uma introdução ao século XXI.

Para ele, os grande momentos decisivos na nossa história não foram assumidos por políticos ou por partidos no poder mas desencadeados por pessoas não envolvidas em partidos. Muitas vezes são simples e anônimos cidadãos como o vendedor ambulante que, num momento de desespero se imolou pelo fogo, desencadeando um movimento popular e provocou a queda do ditador Ben Ali na Tunísia.

Foram também cidadãos anônimos não políticos que resistiram ao nazismo na França e foi um jornalista e escritor, Bernard Lazare, o primeiro defensor polemista do capitão Alfred Dreyfus e detonador do célebre Caso Dreyfus.

O mesmo se pode dizer de Socrates - apesar de recusar entrar na política, suas considerações sobre a sociedade e a participação dos cidadãos foram das mais importantes para a estruturação política da sociedade. En passant, lembra terem sido sindicalistas e não políticos os autores das mudanças na Polônia e, nessa mesma linha de idéias, podemos também dizer terem sido sindicalistas brasileiros do ABC os detonadores de uma nova era política no Brasil. Houve uma evolução política, pois os sindicalistas fundaram o PT mas a célula detonadora era constituída de operários metalúrgicos.”
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23 Janeiro, 2011

Trabalho - Jovens: uma questão de acesso

Dal Marcondes, Envolverde

“A sociedade deve encontrar maneiras de permitir o acesso dos jovens ao mercado de trabalho. No entanto, nos últimos anos os mecanismos tradicionais de acesso estão sendo sistematicamente fechados ou por evolução tecnológica, ou por falta de visão dos gestores sobre a responsabilidade das empresas em relação ao problema.

Um dos mais tradicionais portais de acesso dos jovens às empresas sempre foi o cargo de office boy. Existem muitas histórias de pessoas que entraram em uma empresa como boys e chagaram a diretores. São histórias de sucesso da construção de relacionamentos e de vocações profissionais a partir de um acesso simples às empresas. O office boy (do inglês garoto do escritório) era um cargo com direitos e deveres dentro das empresas. Tinha como principal tarefa fazer os pequenos serviços e os serviços externos, como levar e trazer, ir a bancos, fazer pequenas compras, etc.

Estas tarefas davam ao jovem ocupante do cargo a oportunidade de relacionamento dentro da empresa, com outros colegas de trabalho mais qualificados, com as secretárias e com outras empresas. Em suas jornadas diárias o office boy tinha acesso a outras empresas e a outros profissionais que se relacionavam com sua empresa empregadora. Isto dava a ele a oportunidade de ver, ouvir, participar de processos, construir suas aspirações ou desejos profissionais baseado em uma convivência diária e rica em oportunidades.”
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22 Janeiro, 2011

Do you speak spanish?

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Esta é a primeira pergunta que qualquer pessoa que está procurando emprego numa empresa americana, principalmente em Miami e demais cidades onde a comunidade hispânica é forte, deve responder. Você leu direito sim: empresa americana. É que com a população de imigrantes latinos cada vez mais ocupando cidades, muitos sem falar inglês, o jeito foi aderir à latinidade e afiar o espanhol. Tarefa, aliás, nada fácil para a maioria dos americanos, principalmente os que não tem origem hispana e nunca tiveram contato com o idioma de Cervantes.

A propósito, essa coisa de não se interessar em falar outras línguas é um grave defeito dos americanos, desde os jovens aos mais velhos. Eles acham que falando inglês já é suficiente, afinal o idioma de Shakespeare é universal, certo? Errado. A prova disso é que o espanhol hoje tem a mesma importância que o inglês no mercado de trabalho e quem não sabe falar tem que dar um verdadeiro nó na língua na hora da entrevista de emprego e tentar emplacar um “spanglish” básico!

São muitos os casos. Tem o daquela jovem americana de mãe hispana e pai americano de origem nórdica que nunca aprendeu espanhol porque o pai a proibiu. O do homem de 59 anos dono de uma floricultura que diz estar “muito velho” para aprender um outro idioma tão diferente do inglês. Frustrado ele até admite que já perdeu várias vendas por não entender o que o comprador queria. Ou tem ainda aquele americano teimoso que não se conforma com as novas tendências recusando-se a aprender o espanhol.

E para deixar os americanos mais ainda à beira de um ataque de nervos, em algumas regiões de Miami o inglês não é ouvido nem nas rádios. A língua oficial é o “spanish ”e não adianta espernear. Os latinos sentem-se em casa falando livremente a língua pátria, dizendo “gracias” em vez de “thank you”, completamente desobrigado de falar inglês. Exatamente ao contrário dos donos da casa.”
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21 Janeiro, 2011

Desastre revela urgência da reforma urbana

Marcelo Semer, Adital

“Membros das Forças Armadas e do Corpo de Bombeiros fazem buscas por desaparecidos em Nova Friburgo nesta terça-feira (18)
Depois da tragédia, o Rio tem sido inundado de solidariedade, mas também de desculpas esfarrapadas e atribuição de culpas para todos os lados. A chuva, o povo, e, principalmente, os outros, são sempre estes que deixaram tudo isso acontecer.

O país foi capaz de elaborar uma lei de responsabilidade fiscal, mas ainda não uma de responsabilidade social.

Com fundo na política neoliberal de redução do Estado, pune-se o governante que gasta muito - mas não o que gasta pouco ou o que gasta mal.

O abandono progressivo do Estado é visível no liberalismo que toma conta da fiscalização da ocupação imobiliária. Parte significativa das regras existe justamente para ser burlada ou contornada, às vezes com a própria anuência ou estímulo do poder público.

Não faz tempo, em São Paulo, criou-se a figura da operação urbana, permitindo um acréscimo a ser pago pelo construtor para ultrapassar o limite legal da edificação. Resumindo: pagando bem, que mal tem?
E o desvario do esvaziamento do Estado estava prestes a ser aprovado no Congresso Nacional com o pomposo nome de Código Florestal, reduzindo a tutela pública sobre a ocupação do solo.

Supõe-se que a idéia tenha naufragado com as enchentes. Quem se atreveria hoje a anistiar ocupações irregulares, pela simples existência de um "fato consumado", ou aumentar as áreas de construção em encostas, depois do desastre?

Quer se pense nas culpas, quer se pense nas soluções, o que falta é mais Estado e não menos. Mais regulação e não menos. Mais gasto público e não menos. Tal como as crises econômicas que têm se reproduzido mundo afora, as catástrofes demonstram que a ausência do Estado é, disparado, o maior dos riscos sociais.”
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20 Janeiro, 2011

Violência ou crime: seria apenas semântica?

Dal Marcondes, da Envolverde

“Nas páginas dos jornais, nas manchetes da TV e nas ondas do rádio sociólogos, jornalistas, professores, autoridades e o cidadão esbravejam em uníssono contra a violência. Mas o que é violência? Crianças sem alimento é violência. Pessoas sem renda é violência. Jovens sem educação é violência. É contra isto que todos esbravejam? Não! Na verdade o que todos querem é o fim do crime. Querem andar seguros pelas ruas, não ter seus lares violados, não ter seu patrimônio escalpelado por bandidos e corruptos. Mas isto é violência ou seria melhor descrito como crime?

Tratar os crimes, estes sim tipificados pelo código penal, por um termo genérico como violência apenas amplifica a sensação de insegurança da sociedade. É simples de se compreender: quando se diz vamos combater a violência, qual é a ação que deve acompanhar o desejo? De que violência se está falando? É uma frase sem significado. No entanto, quando nos referimos ao combate ao crime, este vem explicitado. Vamos combater o vandalismo urbano, vamos combater o tráfico de drogas, vamos combater o nepotismo, vamos identificar o objeto da ação e, com isto, torná-la possível.

Não é mais possível seguir em frente com estas generalidades. A sociedade apenas consegue resultados quando identifica o objeto de sua angústia e age diretamente sobre ele, sem rodeios, semânticos ou não. Precisamos de instrumentos fortes para combater o crime e cada tipo de crime tipificado no código penal brasileiro exige equipamentos, formação e objetividade própria. O policial que combate traficante precisa de apoio, equipamentos de inteligência e combate. O policial que atua com jovens precisa de capacitação, precisa compreender como agir e trabalhar em cenários de pobreza e não de crime. E por ai vai.

Não se combate a violência, se identifica, tipifica e atua-se contra o crime. Só assim a sociedade vai perder o medo e tornar-se capaz de atuar em defesa de seu modelo civilizatório.”

19 Janeiro, 2011

Ação Afirmativa, Injustiça Insuspeita

Duanne Ribeiro, Digestivo Cultural

“Estou prestes a concordar com racistas. Ou quase. Estou prestes a concordar com supostos racistas que foram vítimas de racismo. Ou quase. O assunto é mais complicado do que pode parecer à superfície: os estúdios Marvel incluíram, em Thor, um deus nórdico porém negro. Um grupo americano de conservadores se enfureceu: "Parece que a Marvel acredita que o povo branco não deve ter nada que é único dela. O filme (...) dará aos deuses de Asgard uma maquiagem multicultural que é um insulto". Essas pessoas estão certas.

Não totalmente certas, é claro. O assim chamado povo branco se coloca como despojado de tudo o que tem, mas esse simplesmente não é o caso. Como um manifesto antiracista dispôs no ano passado, os "brancos" possuem muitos privilégios e coisas só suas, entre elas, poder "abrir revistas e jornais e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas", ver na "televisão pessoas de minha raça em grande número e em posições sociais confortáveis, o que me dá perspectivas" e conhecer, logo na escola, "heróis e obras feitas por pessoas da minha raça". É precisamente por esse estado social que se defende mais negros na mídia ou a inclusão da história da áfrica nas escolas, indo além de uma visão de mundo europeia. E é o que parece que os produtores de Thor estão fazendo, uma ação afirmativa. Mas não estão.

Os conservadores acertam quando falam de insulto. Considere um orixá branco aparecendo improvável em uma adaptação de Jorge Amado. Guardadas as diferenças históricas citadas, soa como se algo muito próprio de alguém tivesse sido roubado. O povo ancestral de quem surgiu essas crenças acreditava em deuses que lhe eram semelhantes. Tolo quanto possa parecer, pouco relacionados aos nórdicos quanto possam ser, é justo que esses americanos se sintam ofendidos. Se enxergamos racismo incrustrado na mídia pela onipresença branca, é porque entendemos que esse povo está espoliado de algo que é importante. Se queremos que haja liberdade de culto e reconhecimento para o candomblé e a umbanda, é pelo cárater único dessa cultura. Há algo na mitologia nórdica a que alguém possa se referir orgulhoso, e esse alguém não quer que isso seja transfigurado de qualquer forma.

Podemos, no entanto, pensar que essa é uma ação afirmativa ainda mais corajosa e potente, por esses mesmos motivos, por ousar uma mudança em algo tão consolidado. É uma ideia. Outra é que seja uma atitude quase apolítica da Marvel, benigna porque indica a passagem de um estado de coisas em que isso era problemático e agora é só uma questão de elenco. O ator que interpreta o asgardiano negro, Idris Elba, foi nesta direção: "é um sinal do futuro. Uma forma de não incluir alguém de sua raça apenas por preencher uma cota, ou para não parecer ofensivo". Quanto de verdade há nessas duas ideias?”

Foto: Reprodução
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18 Janeiro, 2011

101 coisas para fazer em 2011


Edival Lourenço, Revista Bula

1 — colocar esta lista em ordem;

2 — fazer um checkup;

3 — fazer um exame de consciência;

4 — deixar o script alheio e viver o seu próprio;

5 — derrubar uma árvore (que ameaça cair sobre sua casa);

6 — trocar a fiação da casa (antes que ela incendeie);

7 — clarear os dentes;

8 — clarear as vistas;

9 – retirar as manchas da pele;

10 — retirar (ou assumir) as manchas da personalidade;

11 — retirar os caroços do corpo (exceto os essenciais);

12 — indignar-se com a injustiça difusa;

13 — combater as injustiças objetivas;

14 — ver o eclipse solar;

15 — retirar suas ideias do eclipse;

16 — deixar de querer ser bom, segundo a concepção do guru

17 — mandar o guru praquele lugar;

18 — dizer não e sim com a mesma naturalidade;

19 — cortar os punhos de alguma rede social;

20 — redescobrir a força existencial do abraço;

21 — recompor a ternura com o cônjuge;

22 — se não for possível, compor uma separação amigável;

23 — salvar-se dos escombros das necessidades impostas;

24 — viver a sua vida com dignidade com 50% a menos de lixo;

25 — salvar o planeta na cota-parte que lhe cabe;

26 — brincar com o filho sem fazer dele um bibelô;

27 — repreender o filho com a mesma naturalidade com que o estimula;

28 — tomar um porre;

29 — não fazer do porre uma rotina;

30 — não querer tirar lições do porre;

31 — deixar o orgulho de ser imbecil;

32 — deixar a ilusão de que um dia (sob determinadas condições) será feliz;

33 — ser feliz aqui e agora;

34 — apagar uma luz e poupar o planeta;

35 — acender uma ideia;

36 — limpar a área;”
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17 Janeiro, 2011

João, o historiador

Roberto Porto, Direto da Redação

“João Jobim Alves Saldanha (1917-1990) foi meu companheiro em dois períodos em que passei pela faraônica sede do Jornal do Brasil, no número da Avenida Brasil. João, a rigor, era o que simplesmente poderíamos chamar de contador de histórias, que Sandro Moreyra (1919-1987), seu companheiro de inúmeras jornadas, sabia de cor e salteadas. Sabia e contava relativamente em segredo para todos nós, sempre rindo da presença constante de João em todas efemérides (perdoem o termo) importantes.

A primeira delas, para obedecer a uma certa ordem cronológica, ocorreu em 1912, quando o então ministro da Saúde – botafoguense de coração, Miguel Couto – cedeu, a título precário, o terreno de General Severiano, pois o alvinegro já não tinha mais campo para jogar – todos lhes tinham sido tomados. Quando eu, no JB, estava escrevendo uma matéria especial sobre a venda de General Severiano à Vale do Rio Doce, João aproximou-se de mim e perguntou discretamente:

- Roberto, o que você está escrevendo?

Respondi que era a venda de General Severiano e a consequente ida para Marechal Hermes (no distante subúrbio do Rio). De imediato, João decidiu dar um colorido especial à matéria (a melhor do esporte do ano de 1976 no JB). E passou a me dar detalhes da tomada do terreno, um matagal abandonado.

- Em 1912 – disse João – havia um português que consertava carruagens e tílburis no meio do terreno. E não queria sair. Eu então chamei uma rapaziada, Sandro, inclusive, e tocamos fogo no barracão. Só assim pudemos fazer o campo...”
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16 Janeiro, 2011

Pessoas melhores para um mundo melhor

Vilmar Berna, Portal do Meio Ambiente / Envolverde

“Sonhamos com um mundo melhor, mais fraterno, pacífico, ecológico, democrático, para nós e nossos filhos. Mas, estamos sendo pessoas melhores e estamos educando filhos melhores para este mundo novo? Ou seguimos fazendo escolhas que nos mantém com os dois pés no mundo velho enquanto ano a ano renovamos nossos votos num mundo melhor que só existe, na verdade, em nossas utopias, mas que não nos dispomos a por em prática?

Tendemos a julgar os outros por nós, para o bem e para o mal. Se desejamos e escolhemos um mundo melhor, sustentável, imaginamos que os outros também estão tendo a mesma percepção e propósito. O problema de pensar assim é não tomarmos as precauções contra oportunistas, gananciosos, egoístas, por não imaginar, em nossas utopias, que tais pessoas possam existir, e pode ser tarde demais ao descobrir que a realidade pode ser bem mais cruel e perversa do que sonha nossa imaginação.

O 'Profeta' Gentileza repetia a frase 'gentileza gera gentileza' que alguns tomam ao pé da letra, como se fosse possível a mudança de fora para dentro. A frase do 'profeta' é um desejo e não uma revelação de como as coisas funcionam na prática.

Uma pessoa gentil, generosa tende a imaginar e mesmo a gostar da idéia de viver num mundo onde as pessoas são gentis e generosas também. O mundo se torna cor de rosa. A verdade é bem diferente. O mundo não é cor de rosa muito menos em branco e preto, mas está mais para o cinza, onde as cores estão todas meio misturadas

Seria bom demais se a gentileza, o amor, tivessem este poder de mudança de fora para dentro, se ao sermos generosos e amorosos conseguíssemos tornar também as outras pessoas generosas e amorosas. Infelizmente, não é assim que acontece no mundo real. Pessoas egoístas, mesquinhas, gananciosas só tenderão a se tornar ainda mais folgadas e se aproveitarão ainda mais da situação se não encontrarem resistência.

E sequer sofrem qualquer impeditivo moral pois usam da inteligência para justificarem seu ato de predação contra o outro. Podem justificar seu ato mau com a idéia de estar fazendo uma espécie de justiça ao tirar de quem tem e que deveria dar a quem não tem, mas por ser egoísta prefere guardar tudo para si. É uma inversão de valores. Outros pensam que quem rouba de ladrão tem mil anos de perdão. Então, basta imaginar que o outro não é tão certinho assim, e que no fundo no fundo, rouba também, só que não foi descoberto ainda, para tirar dele e perdoar-se. Pessoas oportunistas, quando acham alguma coisa, não devolvem, e mesmo quando tem a chance de descobrir o dono, como um celular, por exemplo. Justificam-se dizendo que quem perdeu foi relaxado.”
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15 Janeiro, 2011

Caminhando e cantando


Menalton Braff, Revista Bula

“Continuo caminhando, apesar de todas as minhas objeções muito bem fundamentadas, porque ninguém pode ficar parado. Se o espírito já voa devagar, nada melhor do que botar o corpo em movimento. E para que a sensação de perda (de tempo) não me estrague o dia, como às vezes acontece a qualquer vivente, abro olhos e ouvidos bem abertos e colho em minha tarrafa peixes de todo tipo e tamanho.

Ontem cruzei com um velhinho de outros tempos, que já viu e viveu até o que não existe mais, a não ser nele mesmo. Pelo menos foi essa a idéia que me ocorreu quando o ouvi gritar, em plena avenida: veeeer-durei-rooo. A melodia de sua voz, bem, não há como reproduzi-la aqui, mas é a mesma que, resistente, também vem atravessando a bruma dos tempos. Oh, já ouvi essa mesma canção quando adolescente, num dia em que estava namorando na praça, os livros em uma das mãos e o coração na outra. Depois de ter feito minhas primeiras barbas, ela, a melodia, me tirou da cama em uma manhã de domingo, quando me agradaria muito corrigir os excessos da noite levantando só depois do meio-dia. Na medida em que os anos me ressecavam a pele e branqueavam o cabelo, esses apelos foram sumindo, cada vez mais esmagados pelos modernos supermercados. Os velhinhos vendendo nas ruas, aposentados ou não, iam perdendo sua razão de existirem.”
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14 Janeiro, 2011

Guerra e Paz


Mair Pena Neto, Direto da Redação

“Cariocas e turistas que passam o verão no Rio de Janeiro enfrentaram sol e chuva e uma espera em torno de duas horas para ver de perto os painéis Guerra e Paz, de Portinari, exibidos no Teatro Municipal, recém restaurado. A multidão que compareceu ao Municipal nos oito dias em que os murais ficaram expostos confirma a sede de cultura dos brasileiros e o desejo de conhecer melhor a obra de seus artistas, longe de ser saciada.

A fila para ver a maior obra de Portinari era comparável a de grandes jogos de futebol. Começava na porta do Municipal, de frente para a Cinelândia, percorria a lateral do teatro, na avenida Rio Branco, virava na rua Almirante Barroso, fazia um “u” na rua Vieira Fazenda, que dá para os fundos do teatro, retornava à Almirante Barroso e percorria toda a Treze de Maio até voltar à entrada principal.

No último dia da exposição, fazia um calor de rachar no Rio e as chuvas de verão molharam o público que aguardava pacientemente a sua vez. Ninguém arredou pé, esperando o rodízio de 750 pessoas que entravam a cada sessão. E a espera valeu cada segundo.

Antes que os painéis fossem inteiramente revelados, uma projeção em sala escura sobre os próprios murais revelava detalhes de cada um deles, aguçando a curiosidade geral e convocando à observação atenta de sua riqueza. Quando as luzes se acenderam e as duas telas gigantescas ocuparam boa parte do palco, as pessoas aplaudiram entusiasticamente, como se estivessem em cena aberta de uma peça de teatro, numa manifestação pouco comum diante de uma pintura. Portinari deve ter sorrido lá de cima, vendo confirmada sua afirmação de que “uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende.”
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13 Janeiro, 2011

Salve o Corinthians...

Romeu Prisco, Direto da Redação

"Andrés Sanchez, presidente do Corinthians Paulista, foi o chefe da delegação brasileira de futebol na última Copa do Mundo, realizada na África do Sul. Evidência de que seu relacionamento com o Presidente da CBF é, ou era, dos melhores, até porque apoiou o candidato de Ricardo Teixeira à Presidência do Clube dos 13.

Além daquela missão pessoal, o bom entendimento entre ambos não rendeu frutos ao Corinthians. O "esquema" de arbitragem, que diziam ter sido montado para beneficiar o Timão no campeonato brasileiro de futebol/2010, não funcionou. Pelo contrário. Em jogo contra o Guarani F. C., tal "esquema" anulou, de forma bastante duvidosa, dois gols do alvinegro paulista, que acabou empatando a partida em zero a zero, deixando, assim, de ganhar preciosos pontos, que lhe fizeram falta no final do torneio.

Não bastasse isso, praticamente no meio da competição, a CBF interrompeu o trabalho que o técnico Mano Menezes vinha desenvolvendo no Corinthians, convidando-o, com o aval do Clube (entenda-se Andrés Sanchez), para dirigir a seleção brasileira, o que poderia ter acontecido, sem outros prejuízos, no término do campeonato. Antes, Muricy Ramalho e o Fluminense, preferindo cumprir até o fim o compromisso reciprocamente assumido, recusaram o mesmo convite. Deu no que deu: o Fluminense sagrou-se campeão e o Corinthians ficou a ver navios.”
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12 Janeiro, 2011

Acerca da arte


Flávio Paranhos, Revista Bula

“Desde há algum tempo deixei de ler Arnaldo Jabor. Pelo mesmo motivo que não leio Diogo Mainardi e até mesmo o brilhante João Ubaldo Ribeiro — tornaram-se monotemáticos, e, como tais, monótonos. Os deslizes morais do governo Lula se transformaram em fortes e irresistíveis lâmpadas acesas para os escritores-mariposas (ou seja lá que inseto for que se sente atraído por luz). Não é que eu faça parte do grupo que perdoa o mensalão e similares. De jeito nenhum. O PT acabou pra mim. Existe tanto quanto o PSDB de FHC ou o PP de Maluf. Coloco-os na mesmíssima cumbuca, não faço a mais microscópica diferença entre eles. Mas estou me desviando.

Não lia mais Jabor há algum tempo, mas li sua coluna no jornal “O Popular”, que fala sobre a última Bienal de SP. A obra de arte deve ser exaltante, defende ele, criticando as instalações com pretensas mensagens sócio-políticas. Diz Jabor: “A sensação dominante que tive foi de ruínas ou de despejos da civilização. Os trabalhos repetem os mesmos códigos e repertórios: terra arrasada, materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma vergonha de ser “arte”, vergonha de provocar sentimentos de prazer”. [Grifo meu]

Isso me fez lembrar de Slavoj Zizek, um filósofo cuja obra gosto muito de ler, embora dele discordando várias vezes. Zizek, a cujo livro “Lacrima Rerum — Ensaios Sobre Cinema” recorri em duas colunas minhas na revista “Filosofia Ciência & Vida”, a pretexto de analisar filmes do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, tem um estilo direto, objetivo (a não ser quando entra em terreno lacaniano) que muito me agrada. Mas desvio-me novamente. Enfim, eis do que me lembrei, quando li Jabor: “Supostamente, apreciamos a arte tradicional, espera-se que ela traga prazer estético, ao contrário da arte moderna, que causa desprazer; a arte moderna, por definição, fere. Nesse sentido exato, a arte moderna é sublime: causa prazer-na-dor, produz seus efeitos por meio do próprio fracasso, na medida em que se refere às Coisas impossíveis. Em contraste, parece que a beleza e o equilíbrio harmonioso são cada vez mais do domínio das ciências (...)” (“A Visão em Paralaxe”, Boitempo, p. 200).

Tenho pontos de concordância e discordância com ambos, Jabor e Zizek. Pra começo de conversa, não ficarei pedindo desculpas por palpitar em arte, como fez Jabor. Palpito sim, e com propriedade. A concedida pelo fato de apreciá-la. E muito. De forma que os críticos e “especialistas” vão dando licença aí, que estou passando, aprovem ou não.”
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11 Janeiro, 2011

O antropoceno: uma nova era geológica

Leonardo Boff, Adital

“As crises clássicas conhecidas, como por exemplo a de 1929, afetaram profundamente todas as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando o nosso modus essendi: as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita, degradada e com febre não suportando mais um projeto infinito de progresso.

A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Ela colocava o ser humano fora e acima da natureza com a excepcionalidade de sua missão, a de dominá-la. Perdemos a noção de todos os povos originários de que pertencemos à natureza. Hoje diríamos, somos parte do sistema solar, de nossa galáxia que, por sua vez, é parte do universo. Todos surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que sempre atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Nós humanos, representamos a parte consciente e inteligente da Via-Láctea e da própria Terra, com a missão, não de dominá-la mas de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa vida e a civilização.

Ora, estas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos estas premissas equivocadas por melhores ou corremos o risco de nos autodestruir.A consciência do risco não é ainda coletiva.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com grande harmonia, coexiste também extrema violência A Terra mesma no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com renovado vigor.”
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10 Janeiro, 2011

Armai-vos uns aos outros (II)


Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Já estava demorando a acontecer um novo massacre nos Estados Unidos. E ele veio ontem, sábado, de maneira sorrateira e covarde, executado por jovem desequilibrado de apenas 22 anos contra uma deputada federal que promovia um encontro com seus eleitores em uma praça pública da cidade de Tucson, no Estado do Arizona.

A democrata Gabrielle Giffords (na foto quando era reempossada em Washington, na última quarta-feira), de 40 anos, foi atingida na cabeça e permanece internada em estado grave, depois de passar por duas delicadas cirurgias. No atentado morreram seis pessoas, inclusive um juiz federal e uma menina de 9 anos, e há alguns outros hospitalizados.

Antonio Tozzi, nosso colega aqui no DR, em sua coluna de hoje, descreve com exatidão o clima de acirramento político que se agravou nos últimos dois anos, depois da eleição e posse de Barack Obama. De fato, pessoas despreparadas mentalmente estão sujeitas à influência dos setores radicais da mídia e da política, daí a ocorrência de tragédias como a deste sábado, no Arizona.

Do atirador pouco se sabe até agora, a não ser que foi recusado pelas Forças Armadas, aparentemente por problemas psicológicos. E aí vem a pergunta inexorável: como é que uma pessoa desequilibrada tem acesso a uma arma com tal poder de fogo?

A polícia já sabe que Jared Lee Loughner comprou a arma, uma pistola semi-automática, Glock 19, no último dia 30 de novembro. Legal e facilmente, como é o comércio de armas nos Estados Unidos. Não é preciso relembrar os vários massacres provocados por desajustados que têm acesso a armas como se compra um saco de balas no supermercado.”
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09 Janeiro, 2011

Agora é que são elas!

Antonio Carlos Pereira, adNews

“Boas negociadoras, delicadas e flexíveis no relacionamento com os diferentes tipos de público. Elas sabem captar as reais necessidades dos consumidores e, assim, ganham um lugar de mais destaque nos espaços profissionais. Para se ter uma ideia, segundo um boletim do Observatório do Emprego e do Trabalho, divulgado recentemente, em outubro de 2010, a participação das mulheres no mercado de trabalho paulista, um dos maiores do país, aumentou de 45,2% para 68,5% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Mesmo com a crescente entrada feminina nos espaços corporativos, o preconceito permanece grande e muitas empresas, por exemplo, ainda pagam salários menores às mulheres, embora estas ocupem cargos e desenvolvam atividades à altura dos homens. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado na segunda semana de dezembro de 2010, revelou que a diferença salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho ainda é significativo. De acordo com o levantamento, do total da massa salarial das principais regiões metropolitanas, somente 40% corresponde à participação feminina.

Contudo, para o ano que começa, a expectativa é, sem dúvida, de maior evidência das mulheres nos mais variados setores. Para comprovar essa tendência, podemos pegar o exemplo mais direto, verificado na política nacional. Em 2011, o Brasil terá no governo a primeira presidente mulher da história. Além disso, o conjunto de ministros formado pela comandante eleita Dilma Rousseff será bem mais feminino, ao contrário do que ocorreu nos governos anteriores.”
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08 Janeiro, 2011

Eles não conseguem esquecer o Lula


Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

“Faz uma semana hoje que o Brasil mudou de presidente. Como todo mundo viu, saiu Lula, entrou Dilma, um novo governo assumiu, a roda da história girou, a fila andou. Para certos setores da imprensa brasileira, no entanto, que até hoje não se conformam com a vitória de Lula em 2002 e 2006, e o sucesso dos oito anos de seu governo, aprovado ao final por 87% da população, é como se nada houvesse mudado.

Parece obsessão _ e é. Entre as perturbações mentais mais comuns, a obsessão compulsiva caracteriza-se pela presença de ideias, de imagens ou de impulsos recorrentes, segundo o Manual Muck da Biblioteca Médica Online.

Dia sim, noutro também, eles não conseguem virar o disco, mudar de assunto. Lula continua sendo o assunto dominante nas manchetes, nas colunas, nos blogs. A única diferença é que, quando ele ainda estava no governo, o presidente respondia aos ataques no mesmo tom, dando a sua versão dos fatos, o que levava a imprensa a falar em ameaças à liberdade de expressão.

Agora, não. É um monólogo do pensamento único. Só um lado investiga, denuncia e julga, sem dar tempo para que as instituições se manifestem. Até entendo o comportamente de editores, colunistas, blogueiros e repórteres da grande mídia, que afinal ganham para isso ou pensam mesmo aquilo que escrevem em seu nicho de mercado.”
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07 Janeiro, 2011

Cara de tacho


Menalton Braff, Revista Bula

“Se você nunca se sentiu com cara de tacho, não precisa ler esta crônica até o fim, pois quem não passou por tal experiência não vai entender o que certa vez se passou comigo. Esta é uma história que ninguém me contou. Eu a vivi ao vivo com as cores do rubor da face.

Era a década de setenta e eu já andava com mania de escrever. Mania que me vinha de longe e de que não consegui até hoje me desfazer. Descobri, já nem me lembro como, lá perto da PUC de São Paulo, uma livraria frequentada, principalmente, por escritores e aspirantes. Estar entre eles, pensei, me fará não um igual, que não tenho tanta pretensão, mas, pelo menos, e num grau mais baixo, um assemelhado. Comprei alguns livros, fiz amizade com o Wladyr Nader, dono da livraria e hoje professor de jornalismo na PUC de São Paulo, tomei algumas cervejas com famosos e outros nem tanto num barzinho ao lado da livraria.

Quase todo sábado, meu dia de folga, marcava ponto na Livraria Escrita. Foi lá que conheci o João Antônio, num lamentável lançamento de livro (chovia canivete de ponta naquela sexta-feira tenebrosa); o Dyonélio Machado, de passagem por São Paulo bateu papo com a gente; o Jamil Almansur Haddad, depois de ter lançado na França, veio à livraria do Wladyr lançar o “Avis aux Navigateurs”.
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06 Janeiro, 2011

Para que lado sopra o futuro

Urariano Motta, Direto da Redação

“Houve um tempo em que o socialismo era o destino infalível, uma poderosa força da natureza, o destino último e de redenção de todos os povos. Tão forte era esse destino, e tão determinado e inescapável o seu realizar, que alguns de nós chegamos a pensar que o capitalismo cairia de podre. Outros, mais artísticos, julgávamos que a nova humanidade viria como uma metamorfose natural, da crisálida morta para a borboleta rubra. Esse futuro passou. Houve um tempo em que o futuro era a paz idílica, sentimental, onde todas as feras passeariam ao lado de mansas ovelhas, em concórdia. Esse futuro é passado.

Houve um tempo em que o amor era a resposta certa e fraterna a todas vilezas do homem. Mais que uma resposta, o amor era a solução, a insígnia, a bandeira contra todos os canalhas humanos, muito humanos, demasiadamente humanos. Esse futuro é pretérito. Houve um tempo em que a simples visão da flor, da orquídea, da cornucópia de pétalas nos jardins, deixava prenhe o peito de um sentimento bom, de alegria, de felicidade, a ponto de suavizar o semblante, de amolecer os músculos, de fazer úmidos os olhos. Esse futuro é perfeito passado. Houve um tempo em que a fé e a crença nas palavras, no seu poder de fogo, na sarça que ardia como nos dez mandamentos, sintetizados neste impositivo supremo, homem, fala a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade, homem, fala, que o céu será teu, o céu e toda a riqueza do mundo, fala. Esse futuro é mais que perfeito passado. O futuro de coisas extraordinárias, imarcescíveis, murchou. O maravilhoso rascunho, bosquejo de possibilidades elevadas ao sonho, é pretérito. Então, que futuro nos resta? Que impossíveis paraísos são possíveis? Pior, que prováveis infernos o vento sopra?

Os jovens mais sensíveis, os jovens mais sensíveis e angustiados, perguntam-nos: o senhor acha que ainda é possível um golpe de Estado no Brasil? E na América Latina? – Não sei, não sabemos, é o que nos vem. Quem sabe é o vento, dá vontade de responder. Mas só o dizer “não sei” para eles é motivo de espanto. Entendemos a razão. Os jovens confundem cabelos brancos com sabedoria. Talvez nem saibam que os idiotas também amadurecem, nas cãs. Talvez nem percebam que esse pesadelo do golpe nos acompanha todas as noites, como um ente amado de sinal invertido. Pois o que são os pesadelos senão um estimado irmão contra nós? Um inimigo íntimo, indissolúvel? Um jogo de dados onde está inscrito “foste derrotado”, um resultado que buscamos?”
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05 Janeiro, 2011

Novo consenso: por um mundo habitável para todos

Federico Mayor, Martí Olivella, Roberto Sávio / IPS, Envolverde

"A história nos julgará severamente se não formos capazes de dar resposta aos desafios e às oportunidades que a crise global nos apresenta. Em lugar de financiar US$ 50 bilhões para a redução da pobreza, pactada como um dos Objetivos do Milênio, o consenso governante dedicou 50 vezes mais para salvar os bancos especuladores que são muito grandes para se deixar quebrar, contradizendo sua própria doutrina neoliberal de que o mercado se autorregula e que os governos não devem intervir. Os resgatadores empobrecidos agora se veem acossados pelas instituições financeiras que, por meio de agências de qualificação de duvidosa objetividade, levam a especulação ao máximo. Está clara a necessidade de elaborar um novo consenso que substitua o fracassado Consenso de Washington, principal causador da crise múltipla (financeira, de meio ambiente, política, democrática e ética) que vivemos.

Em lugar de regular o sistema financeiro, eliminar os paraísos fiscais e iniciar um processo de desarmamento próprio de uma nova estratégia de defesa, continua sendo permitida uma economia de especulação e guerra (US$ 4 bilhões por dia em armas e em gastos militares enquanto morrem de fome 70 mil pessoas). É uma situação eticamente inadmissível.

Depois das “bolhas” das tecnologias de informação e comunicação, em 1993, e da imobiliária em 2007, agora ocorre que, apesar de terem sido “resgatadas” com o dinheiro de todas as instituições financeiras, estas não só não concedem créditos como continuam especulando e assediando os próprios poderes públicos que lhes estenderam a mão.

A crise provocada pelo atual consenso – por sua ação, por sua omissão ou por sua cumplicidade – ainda aumentou o número de seres humanos que passam fome. Somos cúmplices do “homicídio involuntário” dos que por inanição e por viverem em condições humanamente inadmissíveis formam o “caldo de cultivo” do qual surgem fluxos de emigrantes desesperados, que tentam chegar, com risco da própria vida, à costa da abundância ou, em outros casos, recorrem à violência armada contra a violência estrutural que sofrem. A pobreza nem sempre gera violência. A fome sim, com frequência, porque é violência.

A civilização do carbono está muito arraigada e corremos o risco de continuar vivendo acima de nossas possibilidades, desperdiçando a energia do Sol acumulada há milhões de anos em forma de combustíveis fósseis (carvão, gás, petróleo). Os próprios países que mudaram os princípios democráticos pelas leis do mercado e as Nações Unidas por grupos dos países mais ricos e poderosos da Terra (G7, G8...), continuam pensando que os benefícios das empresas multinacionais são mais importantes do que a vida da atual população empobrecida ou das gerações que virão. Ignorando reiteradas advertências, não empreendem ação alguma para uma mudança de cultura da energia (redução, eficiência, renovável, etc.), nem para moderar a mudança climática que afeta a sobrevivência de todos, ricos e pobres.”
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04 Janeiro, 2011

Uma revolução ainda por fazer

Leonardo Boff, Adital

“Toda mudança de paradigma civilizatório é precedido por uma revolução na cosmologia (visão do universo e da vida). O mundo atual surgiu com a extraordinária revolução que Copérnico e Galileo Galilei introduziram ao comprovarem que a Terra não era um centro estável, mas que girava ao redor do sol. Isso gerou enorme crise nas mentes e na Igreja, pois parecia que tudo perdia centralidade e valor. Mas lentamente impôs-se a nova cosmologia que fundamentalmente perdura até hoje nas escolas, nos negócios e na leitura do curso geral das coisas. Manteve-se, porém, o antropocentrismo, a ideia de que o ser humano continua sendo o centro de tudo e as coisas são destinadas ao seu bel-prazer.

Se a Terra não é estável -pensava-se - o universo, pelo menos, é estável. Seria como uma incomensurável bolha dentro da qual se moveriam os astros celestes e todas as demais coisas.

Eis que esta cosmologia começou a ser superada quando em 1924 um astrônomo amador Edwin Hubble comprovou que o universo não é estável. Constatou que todas as galáxias bem como todos os corpos celestes estão se afastando uns dos outros. O universo, portanto, não é estacionário como ainda acreditava Einstein. Está se expandindo em todas as direções. Seu estado natural é a evolução e não a estabilidade.

Esta constatação sugere que tudo tenha começado a partir de um ponto extremamente denso de matéria e energia que, de repente, explodiu (big bang) dando origem ao atual universo em expansão. Isso foi proposto em 1927 pelo padre belga, o astrônomo George Lemaître o que foi considerado esclarecedor por Einstein e assumido como teoria comum. Em 1965 Arno Penzias e Robert Wilson demonstraram que, de todas as partes do universo, nos chega uma radiação mínima, três graus Kelvin, que seria o derradeiro eco da explosão inicial. Analisando o espectro da luz das estrelas mais distantes, a comunidade científica concluiu que esta explosão teria ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Eis a idade do universo e a nossa própria, pois um dia estávamos, virtualmente, todos juntos lá naquele ínfimo ponto flamejante.”
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03 Janeiro, 2011

O fenômeno das redes sociais

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Mudamos de ano e de década e se pudesse dar um prêmio a quem mais se destacou nesses dez anos eu o daria aos sites sociais, que colocaram na mesma sintonia pessoas e idéias que jamais pensaram em interagir com tantos e com tanta rapidez. Pessoas solitárias encontraram na blogosfera o instrumento ideal para a comunicação efetiva com outros seres humanos dispostos a entendê-las e ajudá-las. Amizades perdidas no tempo e no espaço se reencontraram graças a essas extraordinárias ferramentas proporcionadas pela internet.

O You Tube é a salvação dos blogueiros, dos twiteiros e dos facebookeiros. O que seria de todos nós, ususários viciados nessa rapidez de comunicação, sem os vídeos, músicas e momentos imperdíveis registrados nesse universo quase inconcebível de tantas memórias?

Do Google, nem se fala. Até uma nomenclatura própria foi criada para definir a enciclopédia virtual que ele representa. É algo que até pouco tempo seria inimaginável!

Já pensou o Google na época das grandes descobertas? Ele, com certeza, sairia na frente dando em primeira mão todas as invenções. Ele mesmo teria sido a maior de todas e continua sendo até hoje, diante do pulo tecnológico de informação que representa.

O Facebook criado inicialmente, numa universidade americana só para a comunicação entre colegas, tornou-se um marco da comunicação virtual entre raças, amigos e até entre inimigos. O Facebook é a verdadeira terapia da humanidade, é o divisor de águas entre o bem e o mal. Ele faz e conta o dia a dia das pessoas, a história que elas escrevem de suas vidas em seus templates.”
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02 Janeiro, 2011

Não mais a cereja do bolo

Setor cultural ganha importância política inédita com Lula. Inércia em outros setores impede avanços maiores

Leandro Uchoas, Brasil de Fato

Há oito anos, o Ministério da Cultura (MinC) era apenas um anexo, pouco importante, do governo federal. Tinha atuação rarefeita, concentradora e elitista. Atualmente, porém, na formação do governo de Dilma Rousseff (PT), foi uma das pastas mais disputadas. Mais de 20 nomes foram cogitados até a definição do nome de Ana de Hollanda. O que teria mudado nos dois mandatos do presidente Lula? A julgar pelas avaliações das gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira, feitas por intelectuais progressistas e pela classe artística, muita coisa. Ao contrário de sua área co-irmã, a Comunicação, campo de avanços quase inexistentes no mesmo período, a gestão da Cultura costuma ser bem avaliada. Diversos, os programas do Ministério teriam buscado federalizar a política cultural, descentralizando-a para além da região Sudeste. Também teriam buscado incentivar a cultura “dos de baixo”, ou “desesconder” o Brasil profundo. Estimular a cultura pelas suas pequenas manifestações, nos grotões, nos assentamentos, nas tribos, nos quilombos.

Segundo o MinC, os recursos cresceram de 0,2% do produto interno bruto (PIB), para cerca de 1,3% – R$ 2,3 bilhões (a recomendação mundial da Unesco é que o financiamento supere 1%). Entretanto, os possíveis méritos das políticas do Ministério – questionados por alguns setores da esquerda – estariam mais nos programas adotados. A ideia da cultura como uma indústria, que obedeceria aos mesmos pressupostos de qualquer atividade econômica, teria sido negada pelas gestões Gil/Juca. “De nada adianta os velhos paquidermes da ‘indústria cultural’ quererem reciclar-se por meio da última balela do velho industrialismo capitalista, as ‘Industrias Criativas’. Esse pessoal gosta da forma ‘indústria’, ou seja, da forma da exploração do trabalho alheio. A cultura não é indústria, mas valor, ou seja, significação”, defende Giuseppe Cocco, professor da UFRJ. Os programas do MinC teriam buscado fortalecer pequenas iniciativas, nem sempre geradoras de lucro ou visibilidade, de modo a incentivar, por baixo, a vasta diversidade cultural do país. “Nós trabalhamos a cultura como fato simbólico, fortalecendo as condições para o desenvolvimento das linguagens e das manifestações culturais, como um direito do cidadão, ampliando a acessibilidade, e fortalecendo a economia da cultura”, disse o ministro Juca em seminário recente.”
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01 Janeiro, 2011

Presente de fim (início) de ano

Carolina Mendes, Revista bula

“Quando eu era pequena, bem pequena, e a cozinheira de casa fazia brigadeiros, eu ficava infernizando a pobre, até que ela me deixasse ajudar a enrolar a massa de chocolate. Evidente que eu não queria esperar estar suficientemente fria. Evidente que a manteiga que passavam nas minhas mãos para não grudar a massa na pele, somada à temperatura ainda alta da massa, tornava a moldagem das bolinhas dificílima. Mas eu insistia, e ficava com as unhas meladas de chocolate.

Depois do começo tortuoso, a massa esfriava um pouco, e eu fazia os brigadeiros mais lindos já vistos na história da humanidade. Tamanho, cobertura de granulado e posicionamento na bandeja, irretocáveis. Até que o tempo passava e eu começava a achar aquilo infinitamente cansativo, e os brigadeiros começavam a crescer, discretamente. Inconsciente tentativa de acelerar o fim da tarefa, e ir brincar no jardim.

Quando percebia meu cansaço, de sacanagem ou para me ensinar alguma lição, ouvia a voz da cozinheira, dizer depois de rir: "Agora você tem que terminar tudo, não insistiu pra fazer?". Aí os brigadeiros dobravam de tamanho, e eu entrava oficialmente no "modo brigadeiro grande". Seguimos. Fim de ano. Todo mundo pelas ruas fazendo brigadeiro grande. Arrumando malas, comprando comida, presentes, encerrando o ano no trabalho. Todo mundo agitado/ansioso, ainda que disfarçando loucamente essa ansiedade Natal/Reveillon, com o já tradicional "odeio essa época do ano".
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