30 Setembro, 2009
O Parlamento, o jogo e o crime
“Quase todos os dias, o homem comum, dotado de senso comum, com os sentimentos usuais de quem trabalha para viver e cumprir seus deveres para com a família, a sociedade e o país, se sente atônito com algumas instituições do Estado. O Parlamento legisla de costas para a realidade nacional, e sensível aos lobistas – pelas razões que podemos suspeitar. Suas excelências, em sua maioria, são ágeis em defender os próprios privilégios e os privilégios dos que com elas se acumpliciam. A consciência moral da cidadania não havia ainda assimilado a lei de reforma eleitoral, que abriu caminho às doações secretas para as campanhas políticas, e outra decisão espantosa foi tomada. Com amplíssima margem, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados decidiu pela reabertura dos mal chamados bingos, a serem explorados pela iniciativa privada. O primeiro argumento dos defensores da medida é o de que o jogo faz parte da natureza humana. Estamos sempre jogando. Perfeito. Os que jogam – é esse o raciocínio – devem ser punidos quando perdem e felicitados quando ganham. A liberdade individual deve ser respeitada. Quem quiser jogar, que jogue.
Alguns sabem controlar seu impulso, não arriscando mais do que o valor de uma aposta na loteria. Mas há quem vá além. São os que perdem o salário, o patrimônio da família, o dinheiro dos remédios. Em alguns casos, a fim de atender ao impulso, há quem cometa estelionato e peculato. Não importa o sofrimento que impuser aos outros, nem os prejuízos que provocar.
Outro argumento dos defensores da liberação é o do desemprego. Os bingos empregarão milhares de pessoas hoje desocupadas. Se assim é, nada contra. Milhares de brasileiros trabalham nos postos da Caixa Econômica Federal, recolhendo apostas das loterias oficiais. A Caixa Econômica poderia, com sua grande experiência, operar os salões de bingo, mediante pessoal treinado, com a automação dos pagamentos e o registro eletrônico – tal como ocorre com os jogos que administra. Os lucros da operação seriam divididos, de acordo com a lei, para o benefício de instituições culturais e de assistência social.”
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Os três Brasis
Plínio de Arruda Sampaio, Correio da Cidadania“A dificuldade maior para entender este nosso país é que não há um Brasil: o Brasil é três.
Há o Brasil de 50 milhões de pessoas, com uma renda per capita comparável à dos países europeus de nível médio. Este país é dono de 323 milhões de hectares de terras aráveis, detentor das maiores reservas de água potável do planeta; de enormes reservas de gás combustível e de petróleo; da quarta província mineral e do décimo parque industrial do mundo. Para explorar essa riqueza, dispõe de uma força de trabalho versátil, disciplinada e dócil. A parte superior desse contingente populacional (o 1% de brasileiros, 2 milhões de pessoas) tem uma renda mensal de 20.000 dólares, que declina gradualmente até patamares de 1.500, 2000 dólares mensais – um conjunto de 50 milhões de gente endinheirada.
Este Brasil vai muito bem, obrigado. Se melhorar, piora.
O Brasil nº. 2 tem cerca de uns 120 milhões de pessoas e uma boa parte desse total não vai indo de todo mal. Ou melhor: não percebe que está recebendo uma educação insuficiente, cuidados de saúde precários, aposentadorias aviltadas, e que, amanhã, vai pagar tudo isso. Mas, hoje, o gasto que faz com o dinheiro que está recebendo é suficiente para ajudar a diminuir o impacto da crise econômica em nosso país.
O problema grave dessa porção majoritária da Nação é a alienação, no que esta tem de empobrecimento intelectual e de corrosão do caráter. O pavor de ser rebaixado ao andar térreo impede que esse enorme contingente populacional se solidarize com os marginalizados do consumo e da cidadania. Por isso, esse enorme contingente populacional constitui uma força conservadora e, em algumas situações, até mesmo reacionária.”
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29 Setembro, 2009
Internet-Manifest.de
Julio Daio Borges, Digestivo Cultural “No rastro do reiterado Cluetrain Manifesto, e talvez respondendo ao anúncio de Rupert Murdoch – de acabar com a “festa da internet” (e retomar a cobrança pelo acesso a seus jornais na Web) –, 15 autores alemães lançaram, recentemente, um Internet Manifesto (na versão para o inglês de Jenna L. Brinnning). São 17 declarações que visam reforçar a importância do jornalismo que se desenvolveu na internet e que, na visão dos manifestantes, não deve “regredir” agora. Começam, por exemplo, declarando que “na internet é diferente”: “A velha mídia precisa adaptar seus procedimentos à tecnologia mais recente, em vez de ignorá-la ou mesmo tentar superá-la”. “Se as velhas empresas de mídia pretendem continuar existindo, elas precisam entender as novas demandas de seus consumidores e suas novas formas de comunicação”, alerta a 3ª declaração. “Na internet a informação venceu”, proclama a 5ª, enquanto assegura: “Indivíduos, hoje, podem se informar melhor do que nunca”. Segundo a 7ª, “a internet exige [até pelo nome] trabalho em grupo”: “Aqueles que não lincam devidamente, estão se excluindo da conversa e do discurso”. Num hábil jogo de palavras, a 10ª constata que “a liberdade de imprensa de hoje se traduz em liberdade de expressão”, pois “a internet borra as fronteiras entre profissionais e amadores”. Também alerta a 12ª: “Tradição não é [mais] modelo de negócio”. E a 14ª sugere que, na Web, funciona ainda outro tipo de economia: “A internet tem muitas moedas” [e, consequentemente, formas de remuneração]. A 16ª, uma das últimas, conclui que: “Só aqueles que forem excepcionais, e conquistarem a confiança da audiência, vão sobreviver no longo prazo”. Lembrando, por fim, que: “a Web rearranjará todas as estruturas de mídia, transcendendo velhos limites e derrubando antigos oligopólios” (2ª declaração). Doc Searls e David Weinberger teriam feito muito diferente?”
“Banana Republic”
“O contista americano O. Henry livro criou o termo ‘banana republic’ no livro ‘Cabbages and Kings’, publicado em 1904. República das bananas, republiqueta de banana ou república bananeira é um termo pejorativo para um país, normalmente latino-americano, politicamente instável, submisso a um país rico e freqüentemente com governo corrompido e opressor.
Por que ‘de bananas’ e referente a Honduras? Deve-se ao fato da presença no país das empresas ‘United Fruit Company’ e ‘Standard Fruit’, que dominavam o importante setor da exportação de bananas. A United Fruit Company nunca escondeu que queria se meter na política local, mesmo que através do uso da força. Exemplo disso foi a partida de um barco de Nova Orleans rumo a Honduras em 1910, com o objetivo de instalar um novo presidente à força, pois o governo daquele país não cortara os impostos em favor da companhia. O novo presidente empossado permitiu que a empresa ficasse livre de pagar impostos durante 25 anos.
Em 1929, querendo explicar como era fácil comprar um congressista, Samuel Zamurray, apelidado de ‘Banana Sam’, presidente da Cuyamel Fruit, empresa rival da United Fruit, afirmou: "Em Honduras, um deputado custa menos que uma mula."
No final dos anos 80, o presidente José Azcona Del Hoyo admitiu a submissão de Honduras à estratégia dos Estados Unidos, confessando: "Um país tão pequeno como Honduras não pode dar-se ao luxo de ter dignidade." E um grupo de empresários chegou a propor que Honduras se convertesse em um Estado Livre Associado dos Estados Unidos, como Porto Rico.
A relação econômica com a grande potência norte-americana é de dependência quase absoluta. Para os EUA vão 70% de suas exportações (bananas, café, açúcar). E de lá chegam uns 300 bilhões de dólares que 800 mil hondurenhos enviam às suas famílias. O capital principal (40%) das fábricas montadoras (mão de obra barata) nas zonas francas é hondurenha.”
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28 Setembro, 2009
Duas trajetórias distintas
Emir Sader, Blog do Emir"Nas horas mais difíceis se revela a personalidade – as forças e as fraquezas - de cada um. Os franceses puderam fazer esse teste quando foram invadidos e tinham que se decidir entre compactuar com o governo capitulacionsista de Vichy ou participar da resistência. Os italianos podiam optar entre participar da resistência clandestina ou aderir ao regime fascista. Os alemães perguntam a seus pais onde estavam no momento do nazismo.
No Brasil também, na hora negra da ditadura militar, formos todos testados na nossa firmeza na decisão de lutar contra a ditadura, entre aderir ao regime surgido do golpe, tentar ficar alheios a todas as brutalidades que sucediam ou somar-se à resistência. Poderíamos olhar para trás, para saber onde estava cada um naquele período.
Dois personagens que aparecem como pré-candidatos à presidência são casos opostos de comportamento e daí podemos julgar seu caráter, exatamente no momento mais difícil, quando não era possível esconder seus comportamentos, sua personalidade, sua coragem para enfrentar dificuldades, seus valores.
José Serra era dirigente estudantil, tinha sido presidente do Grêmio Politécnico, da Escola de Engenharia da USP. Já com aquela ânsia de poder que seguiu caracterizando-o por toda a vida, brigou duramente até conseguir ser presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) de São Paulo e, com os mesmos meios de não se deter diante de nada, chegou a ser presidente da UNE.
Com esse cargo participou do comício da Central do Brasil, em março de 1964, poucas semanas antes do golpe. Nesse evento, foi mais radical do que todos os que discursaram, não apenas de Jango, mas de Miguel Arraes e mesmo de Leonel Brizola.
No dia do golpe, poucos dias depois, da mesma forma que as outras organizações de massa, a UNE, por seu presidente, decretou greve geral. Esperava-se que iria comandar o processo de resistência estudantil, a partir do cargo pelo qual havia lutado tanto e para o qual havia sido eleito.”
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Dê balões à sua imaginação
“Animação convoca espectador à reflexão sobre o ato de seguir em frenteTúlio Moreira Rocha, Revista Bula
“Up – Altas Aventuras”, novo Disney/Pixar, começa com uma interessante premissa metalinguística: o cinema povoa o imaginário infantil e cria ídolos para toda a vida. No entanto, o que se descobrirá, no decorrer do belo filme, é que muitas vezes o que a telona mostra é resultado de maquiagem e truques de edição, capazes de disfarçar a insanidade dos tais heróis.
A animação é sobre a superação de um passado ainda muito presente pela força das memórias afetivas. Carl Fredricksen, numa dublagem inesquecível de Chico Anysio na versão brasileira, é um velhinho rabugento e simultaneamente simpático, que perde o grande amor de sua vida, Ellie. O casal viveu décadas de felicidade sustentada por um pacto feito ainda na infância: partir em busca de um paraíso perdido na América do Sul. Viúvo, Carl mora em uma singela casa de campo encravada em meio ao caos de uma grande metrópole. A imagem de sua pequena residência incrustada no coração de uma cidade em expansão é também o retrato dos velhos tempos que insistem em ficar. E não só o passado: o sonho também persiste.
A partir daí, a animação mostrará a aceitação, gradual, de sua nova realidade. Ele não só não poderá mais viver suas aventuras ao lado de Ellie, como terá que escolher entre ficar preso aos objetos e sentimentos das décadas anteriores ou aproveitar a oportunidade de partir em busca de novas conquistas. Entenda, “Up – Altas Aventuras” não pretende dizer ao espectador que é preciso desconsiderar sua história de vida, mas é uma mensagem bem direta àqueles que parecem não ter vontade de seguir em frente, de escrever novas páginas de seus livros de aventuras.”
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27 Setembro, 2009
Sofrimento que se sente na pele
Vanessa Ramos e Jonathan Constantino , Revista Mundo e Missão / Brasil de fato
Em sete de agosto último, Januário Alves de Santana, vigilante da Universidade de São Paulo (USP) há 17 anos, registrou um boletim de ocorrência na delegacia denunciando crime de racismo: ele foi espancado por seguranças do supermercado Carrefour, em Osasco-SP, quando tentava entrar em seu carro (um Ford EcoSport) e foi “confundido” com um assaltante.
Infelizmente, casos como este se repetem no país. Porém, há quem argumente que, no Brasil, não há racismo e se dedique a reflexões ideológicas sobre o tema, como o autor do livro Não somos racistas: uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor (Editora Nova Fronteira), o jornalista e sociólogo Ali Kamel, das Organizações Globo.
Mas, afinal, será que mais de 300 anos de escravização dos negros africanos, expulsão das terras onde trabalhavam, exclusão de sua força de trabalho e massacres históricos atrelados a concepções racistas, não deixaram profundas marcas no povo negro brasileiro?
A cor da herança
Em julho deste ano, um estudo realizado em parceria pelo Observatório de Favelas, Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostrou que as chances de um jovem negro ser assassinado é 2,6 vezes maior em relação a um jovem branco na mesma situação.
“Há uma morte negra que não tem causa em doenças; decorre de infortúnio”, afirma o artigo A cor da morte, publicado por Luís Eduardo Batista e colaboradores, na Revista de Saúde Pública, em 2004. Esta matéria apresenta as causas de óbito conforme características de raça, no Estado de São Paulo, entre os anos de 1999 e 2001.
Tal pesquisa aponta que negros e brancos morrem vitimizados por causas diferentes. Segundo o estudo, a maior parte dos brancos vai a óbito por tumores ou doenças do aparelho circulatório, respiratório, sistema nervoso, congênitas, entre outras. Ao contrário, a maior parte dos negros morre por motivo não associado a doenças, como causas externas (violência, por exemplo).”
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As mulheres ficaram mais infelizes
Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine“Estimados milhares de leitores, e, em especial, leitoras. Durante um vôo a algum lugar que não sei ao certo qual, porque todos os vôos são iguais, ao menos para a minha cervical, li um artigo de um sujeito chamado Marcus Buckingham, ex-pesquisador do instituto Gallup, dizendo em alto e bom tom que as mulheres andam mais e mais infelizes, especialmente na comparação com os homens, que andam mais e mais felizes.
Eu tenho a nítida impressão de que já sentíamos isso todos nós, que andamos pagando o pato por conta dessa infelicidade feminina, todos nós, eu, você, o senhor aqui ao lado, todos os patos hetero em geral, que grasnam por esse mundo à fora.
E como pato curioso, fui meter o bico no assunto e descobri muitas, mas muitas mesmo, referências; entre elas o ensaio "The Paradox of Declining Female Happiness" dos pesquisadores Betsey Stevenson e Justin Wolfers, e um texto do colunista Ross Douthad, no New York Times, "Liberation and Unhappiness". Parece que estamos diante de algo novo, perturbador, e doloroso, em especial para pobres patos condenados a gostar de mulheres, por menos que elas gostem da gente.
E o mais curioso, lendo todos esses textos sobre o tema, é que nenhum deles aponta para uma causa ou uma solução. Existe a tal infelicidade, ela ataca as mulheres tanto dos Estados Unidos quanto da Europa (nenhum texto remetia para as brasileiras, mas vamos considerar que essa é uma infelicidade global, ao menos ocidental, já que ninguém consegue enxergar as muçulmanas pra saber o que elas pensam). Mas não se sabe ao certo o que a causa, e portanto, qual a cura.
Sendo um pato completamente anti-misticismos, não vou enveredar por coisas como Vênus e Marte e deusas celtas pra entender o que torna as mulheres tão esquisitas. Pato científico, prefiro apoiar meus preconceitos na opinião de quem supostamente entende do assunto, e nessas patuscadas, encontrei a opinião de alguns psicanalistas que dizem que as mulheres são mais infantis do que os homens, e por isso sentem mais dificuldade no lidar com o fato de que seus desejos não vão ser sempre atendidos pelo mundo lá fora. Hummm.”
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26 Setembro, 2009
Liberdade e justiça social
“Na década de 1980 visitei, com frequência, países socialistas: União Soviética, China, Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia e Cuba. Estive também na Nicarágua sandinista. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja.
Do que observei, concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso aos bens materiais básicos e aos direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara, contudo, um sistema mais justo à maioria da população que o capitalismo.
Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, uma liberdade - de expressão, reunião, locomoção, crença etc. - que não se via em todos os países socialistas governados por um partido único (o comunista), cujos filiados estavam sujeitos ao "centralismo democrático".
Residiria o ideal num sistema capaz de reunir a justiça social, predominante no socialismo, com a liberdade individual vigente no capitalismo? Essa questão me foi colocada por amigos durante anos. Opinei que a dicotomia é inerente ao capitalismo. A prática de liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Basta lembrar que seus pressupostos paradigmáticos - competitividade, apropriação privada da riqueza e soberania do mercado - são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os bens materiais.
No capitalismo, a apropriação individual e ilimitada da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética e o bom-senso ensinam que quando um se apropria muitos são desapropriados. A opulência de uns poucos decorre da carência de muitos.
A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, opressão colonialista, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc. Basta verificar o que sucedeu na América Latina, na África e na Ásia entre os séculos XVI e a primeira metade do século XX.”
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25 Setembro, 2009
“E se ganhar?”, pergunta-se Cabral sobre Olimpíada no Rio
Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho“As notícias que chegam do Comitê Olímpico Internacional, que vai definir a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 no dia 2 de outubro, não poderiam ser mais favoráveis para o Rio.
Ao deixar a festa de lançamento da nova programação da TV Brasil, na noite desta quarta-feira, no MAM carioca, o governador Sergio Cabral estava animadíssimo com as chances de ganhar esta disputa.
“Olha, posso estar muito enganado, mas a cada dia tenho mais certeza de que o Rio vai ser a sede da Olimpíada, essa é nossa”, comentou ele comigo, para logo em seguida cair na real:
“E se a gente ganhar mesmo?”, perguntou-se, e fez uma cara de preocupada felicidade. Ainda faltam sete anos até lá, mas o desafio é imenso para deixar a Cidade Maravilhosa em condições de receber as delegações de todo o mundo. Só as maravilhas da natureza, como sabemos, não bastam.
O jovem Cabral bota a maior fé no seu principal cabo eleitoral, o presidente Lula. No mesmo dia, ele tinha lido notícia no New York Times que lhe dá razão. O grande jornal norte-americano afirma que Lula tem a tarefa mais fácil do mundo: promover a candidatura do Rio para sede das Olimpíadas de 2016.
É difícil dizer qual dos dois está mais empolgado, se o governador ou o presidente. Na entrevista coletiva que deu segunda-feira em Nova York, antes de falar na assembléia Geral da ONU, Lula não deixou por menos:
“Nós vamos oferecer as mais belas praias do mundo. Em vez de os atletas terminarem suas competições e correrem para a hidromassagem, eles podem fazer treinamento nas praias, tão bonitas que vão estar preparadas para quebrar recorde sobre recorde. Meu otimismo com o Rio é tão grande que não dá para medir.”
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24 Setembro, 2009
Segunda chance
“Confesso que generalizar esse assunto é difícil, pois terá sempre um engraçadinho que vai dizer : "segunda chance, como, se eu não tive nem a primeira?"
Mas teve sim. Todos nós temos quando nascemos. É a nossa primeira chance na vida, a de viver. Depois vem aquela primeira no campo profissional ou pessoal. O importante é sempre a gente poder ler nas entrelinhas das oportunidades que uma porta está se abrindo, mesmo que tenha se fechado uma janela.
Mas vamos passar pela primeira e ir direto ao assunto da segunda chance. Quem já teve e não a aproveitou? As vezes acontece de você vê-la na sua frente, mas falta coragem para enfrentá-la, pois sempre ela irá representar um recomeço nas nossas vidas. Um novo ponto de partida que, muitas vezes, é totalmente diferente do que se espera. Chega um momento que a gente não pode mais fazer escolhas perfeitas, tem que encarar o que vem pela frente e agarrar a chance com unhas e dentes para chegar em algum lugar de novo.
Mas quem são os candidatos a uma segunda chance? Só os derrotados na vida? Os que não conseguiram se firmar em nada? Não, muito pelo contrário, os premiados pela segunda chance são exatamente aqueles que já foram ou fizeram muito por algo ou por alguém e que por algum motivo perderam o bonde da sua própria história. São esses, os elegíveis a uma outra oportunidade na vida, para que possam recomeçar de onde pararam. Tudo de novo. Se possível com a mesma garra em busca do sucesso . Difícil, mas não impossível!”
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23 Setembro, 2009
Nada mais lerdo que a Justiça Brasileira
Eduardo Tessler, Terra Magazine“Uma psicóloga gaúcha teve seu carro arrombado e a estepe furtada dentro do estacionamento pago de um shopping center de Porto Alegre. Apesar das diversas câmeras de segurança e dos agentes no local, alguém aproveitou-se do vacilo da vigilância para roubar a roda reserva.
O vigia de plantão reconheceu um intervalo de 10 minutos na troca de pessoal e o responsável pelo estacionamento registrou o ocorrido no ato, solicitando à psicóloga que entrasse em contato com a empresa 48 horas depois para a indenização.
Até aí trata-se apenas de uma estatística, não fosse a recusa da administradora do shopping - empresa dona de uma rede de supermercados no Sul e agora em São Paulo também - de pagar. A empresa alegou que não havia provas de que o furto tenha acontecido naquele estacionamento, que cobra R$ 3,50 por um período de até 6 horas. Negou a existência do registro por parte de seus funcionários, escondeu as imagens gravadas e comunicou que não pagaria.
Ponto.
Devido à indignação da psicóloga com tamanho destrato, o advogado da empresa recomendou: "entre na Justiça".
Foi o que a psicóloga fez.
Rapidamente solicitou indenização pelos reparos ao Tribunal de Justiça, utilizando-se do ágil Juizado Especial Cível, organizado para causas de baixo valor e famoso pela rapidez com que trata os temas, sem a burocracia que caracteriza a Justiça.
A causa começou no dia 16 de setembro do ano passado. A audiência de conciliação foi um mês depois, no dia 15 de outubro. Mas a empresa recusou-se a aceitar o débito e não quis acordo. Uma nova audiência, agora com testemunhas e documentos comprobatórios, foi marcada para dali a 20 dias, em 05 de novembro. A psicóloga levou fotos do dano, notas fiscais de despesas e ainda um testemunho que admitia que seu carro estava em perfeitas condições no dia do ocorrido, duas horas antes. Apesar das evidências, a empresa - maior rede local de comércio alimentício - negava-se a aceitar a culpa.
Uma observação: há muita jurisprudência sobre roubos e danos a carros, até sequestro relâmpago, dentro do mesmo estacionamento. Mas a empresa seguia sem admitir culpa. Também não divulgava as imagens de seu sistema de vigilância. "Questão de segurança", desdenhou o advogado.”
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Chute de bico
“Qualquer um que já tenha jogado um pouco de futebol de várzea sabe que não se deve, em hipótese alguma, prestar atenção na torcida, principalmente se o jogo é na casa do adversário. Mas foi o que fiz. Tinha plena consciência que, se marcasse mais aquele gol, não sairíamos de lá inteiros. Retardei a cobrança o máximo que pude. Ajeitei a bola no gramado, caminhei três ou quatro passos para trás, conferi a posição da barreira, olhei para o goleiro e, movido por uma força maior, voltei a cabeça para a arquibancada de madeira. Grande erro. Do lado de fora avistei, pronta para invadir o campo, uma multidão ensandecida que, digamos assim, não havia simpatizado muito com os jogadores da equipe visitante, eu em especial.
O ano era 1939. Ou 1940, não me lembro precisamente. Só sei que tinha lá meus 18, 19 anos, cursava economia na FAAP e, junto com mais dois sócios, já era proprietário de um escritório de administração imobiliária na rua Riachuelo, no centro. Mas, acima de tudo, respirava futebol, desde bem antes de aprender a falar “bola”.
Não fazia oito meses, havia sido um dos fundadores do Colombo Futebol Clube. Não, nenhuma referência ao navegador genovês, dito o grande descobridor da América. Longe disso. A homenagem era na verdade ao bar Colombo e a seu dono, um alemãozão daqueles do esteriótipo: alto, gorducho, bonachão, cabelo loiro quase branco, rosto vermelho... chamava-se Gerder, Gerhard, Gert, algo assim. Aparentava ter uns 65 anos, um pouco mais, um pouco menos. Estava no Brasil há quase 20 anos já. Veio com a mulher, Marta, e as duas filhas, logo depois da Primeira Guerra Mundial. Bastante simpático e falador, tinha coração grande, maior que a barriga de chopp que orgulhosamente nutria. Não sei porquê, gostava bastante da gente, e acabou se tornando uma espécie de paizão para todos.
Desde a inauguração, o bar, na esquina da Joaquim Nabuco com a Rangel Pestana, servia de ponto de encontro dos estudantes e jovens do Brás. Era lá que nossa turma se reunia para bater papo, cantar, discutir política, futebol. E lá é que ficou sendo a sede do Colombo Futebol Clube. O Gerhard (ou Gerder, ou Gert, ou outro parecido) foi um dos que mais se entusiasmou. Emocionado com a homenagem, assumiu-se como uma espécie de patrocinador do novo time (do alto de nossa imensa modéstia, o chamávamos de mecenas). Comprava-nos bolas, uniformes e, mais do que justificando a escolha do nome da equipe, até distribuía alguns sanduíches depois dos jogos que disputávamos. “Imagina, é o mínimo que posso fazer”, dizia, com aquele sotaque carregado, sempre que esboçávamos - sem muito esforço, é verdade - não aceitar a comida de graça.
Sendo a sede do Colombo Futebol Clube um bar, a palavra “clube” no nome era apenas uma maneira de dizer. Proposital, claro. Dava um ar de equipe profissional, para rivalizar com um Palestra, um Corinthians. Mas não éramos um clube, e muito menos tínhamos campo próprio, diferentemente de grande parte dos times de várzea de São Paulo. Treinávamos quando e onde dava. Um terreno baldio, um terrão qualquer, um campo de alguma escola, nas ruas, com os sapatos fazendo as vezes das metas... A grande desvantagem é que, sempre que marcávamos alguma partida, tínhamos que jogar na casa do adversário.”
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22 Setembro, 2009
Plebiscito
José Celso Martinez Corrêa, Terra Magazine“Quando soube da candidatura de Marina Silva fiquei muito feliz. Sou admirador de suas lutas pela AMAzônia mas quando li uma reportagem sobre sua posição, pirei:
Criacionista, admite que Darwin deva ser ensinado nas classes mas juntamente com a BíBlia; contra o aborto e contra as pesquisas com células tronco e em religião não acredita na biodiversidade dos deuses, é monoteísta, evangélica!, causadora junto com outros monoteísmos de tanta guerra e terrorismo no mundo. Religiões que partem da idéia estúpida de que há somente uma verdade, a sua.
Se é para se ensinar a mitologia cristã da origem do homem na Bíblia vamos também fazer os alunos conhecerem os mitos e ritos indígenas, africanos, budistas, da arcaica e riquíssima Grécia, que narram a origem do homem. Como uma ecologista do Amazonas não pode ter percebido a riqueza imensa das religiões de origem Tupy!!!?
Quanto ao aborto, as brasileiras e também os brasileiros tem que ser os donos de seu próprio corpo. O Estado não tem que se meter. Isto é nazismo.
Nós precisamos nos desenvolver nesta maravilha que são as pesquisas sobre as células tronco. É sintoma de maior atraso, que pensei ser defendido somente por idiotas como Bush, e caí de quatro quando uma defensora da vida declara esta posição.”
Foto: Terra
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Romances do Futuro e Homens do Passado
"Romances distópicos deixam-me enfastiadiço. Não entendo ao certo a razão de se imaginar o futuro como algo precário, turvo, nebuloso e pessimista. Sempre nutri preferência pelas utopias; se for para haver barbarização de uma ou outra proposta, qual a razão de se preferir a privação e miséria em detrimento do gozo e da ventura? Mas a opinião em favor dessa perspectiva é minoritária. Se juntarmos os nomes de autores utópicos provavelmente não encontraremos mais que uma dezena.
Por outro lado, se reunirmos escritores cujas obras pontuaram-se pelo caráter marcadamente derrotista, seríamos bem capazes de preencher tranquilamente uma folha de papel. Inevitavelmente teríamos que citar nomes como os de George Orwell (1984), Aldous Huxley (Admiravel Mundo Novo), H. G. Wells (The Sleeper Awakes), Mary Shelley (The Last Man), Karel Čapek (R.U.R.), Sinclair Lewis (It Can't Happen Here), Yevgeny Zamyatin (We), Karin Boye (Kalocain), Anthony Burgess (A Clockwork Orange). E o motivo para isso, creio, parece concentrar-se numa palavra a faltar na visão pessimista: obstinação.
Sobre ela, Hermann Hesse (vide Sobre a Guerra e a Paz) nos contava ser a única virtude que verdadeiramente corresponde à natureza dos sonhos e da liberdade. As outras virtudes, para ele, caminham sempre para a obediência daquilo que homens de outros tempos nos prescreveram como certo e digno de respeito. A obstinação também é uma virtude, mas a ela se vincula outra espécie dever, significadamente mais sagrado: seguir sua própria lei, “o sentido de si mesmo”.
Se escolhermos três autores cujas obras se pontuaram pelo motivo da tenacidade, veremos que o destino a ser alcançado não poderia ser outro que não o de imaginar o impossível: William Morris, Henry David Thoreau e Percy Shelley. O primeiro, em Notícias de Lugar Nenhum, imaginou no ano de 2112 uma Inglaterra povoada por homens que fossem capazes de desenvolver atividades laborais e artísticas realmente dignas para a formação humana, onde tudo aquilo que fosse desnecessário para alcançar esse objetivo estaria de todo abolido e o tédio do trabalho e os seus inconvenientes estariam completamente proscritos.
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21 Setembro, 2009
Apenas um rapaz latinoamericano
Eberth Vêncio, Revista Bula“Por causa da avidez e eficiência dos meios de comunicação, tem-se a impressão que a violência aumenta dia a dia. Uma vez que nos encontramos mais “evoluídos” (do ponto de vista tecnológico e científico), é possível que se trate de uma falsa impressão. Antes do advento do rádio e da TV, a maldade não era tão “pop” assim.
Já escrevi a respeito do tema tantas vezes que temo ser repetitivo.
Mas, como o assunto fomenta em mim uma descrença que beira o ateísmo, só encontro algum consolo extravasando ao teclado do computador, quando vejo uma criança brincando, ou quando ouço boa música.
Dois eventos recentes levaram-me a escrever esta crônica. Foram situações vividas em lugares diferentes, países distintos, o “velho mundo” versus “a nação emergente”... Episódios exemplares das transgressões moral e física.
Tenho uma irmã que é professora universitária numa instituição pública federal. A teimosa decidiu ser cientista no Brasil, missão pra lá de custosa num país que costuma desprezar os mestres, os professores, os intelectuais, os artistas eruditos, a educação de uma forma em geral, para endeusar os ícones da banalidade. A moça estudou além da conta: graduou-se em Odontologia (cinco anos), fez Mestrado no interior de São Paulo (dois anos), Doutorado na Alemanha (quatro anos) e, atualmente, peleja num tal Pós-doutorado.
Neste ano, a professora quarentona aterrissou em Berlim e principiou os estudos numa das maiores entidades de pesquisa do planeta, renomada instituição de ensino. Decorridos quatro meses de trabalho com afinco, ela foi vítima de racismo e intolerância por parte do seu orientador, um alemão adepto das piadinhas abjetas e das difamações envolvendo estrangeiros, principalmente asiáticos e latinoamericanos.
Orgulho ferido numa zombaria feita em público, a moça subiu nas tamancas verde-amarelas e retrucou, desafiando o sujeito. Ainda que ela fizesse a sua réplica com reservas, conforme recomenda o bom senso quando lidamos com alguém “superior” que, momentaneamente, detém o “poder”, o sujeito passou a tratá-la com velado desprezo e arrogância, dedicando-lhe uma pressão emocional e psicológica que surtiu resultado: ela abandonou Berlim.”
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O peito de Cristina Kirchner
“Passou quase despercebida pela mídia brasileira, por razões mais ou menos óbvias, a notícia da aprovação pela Câmara dos Deputados da Argentina do projeto de iniciativa do Executivo que limita em dez o número máximo de concessões de rádio e TV que uma empresa pode ter. Foram 12 horas de acirrados debates que terminaram com a vitória do governo por 147 votos a favor e 4 contra, sendo que 104 deputados se posicionaram fora do plenário.
Na última hora, os deputados mais à esquerda da presidente Cristina Kirchner ainda conseguiram incluir no texto aprovado o cancelamento da permissão para que grandes companhias telefônicas, como a espanhola, entrem no mercado audiovisual argentino.
A polêmica Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, mais conhecida como Lei da Mídia, vai agora para o Senado, onde deverá encontrar forte resistência, tendo em vista os poderosos interesses em jogo. Se entrar em vigor, vai substituir a legislação da época da ditadura e será um duro golpe para os interesses do Clarin, o maior grupo de comunicações do país, digamos, a Globo de lá.
A oposição critica o projeto que considera uma intervenção do estado na livre iniciativa. Curioso é que cada vez que algum governo tenta acabar com privilégios, em qualquer lugar do mundo, ele é acusado de intervencionista ou de estatizante. Isso está acontecendo neste momento nos EUA, onde Obama está sendo acusado de “socialista”, porque quer criar uma empresa pública para atender aos 46 milhões de americanos que não têm cobertura médica.”
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20 Setembro, 2009
Nós, os burros (e outros causos)
“Aluno, em 1964, do curso de jornalismo; ficava a escola no Rio, próxima ao aterro do Flamengo, então um canteiro de obras. Ali pastavam animais de carga.
Um grupo de colegas, no qual me incluía, não suportava o tom laudatório do professor Hélio Vianna ao se referir ao marechal Castelo Branco, seu cunhado, e primeiro a ocupar a presidência em nome da ditadura. Decidimos pregar-lhe uma peça. Sequestramos um burro no aterro e o enfiamos na sala de aula.
No corredor do andar de cima, ficamos a observar a reação do professor de história. Hélio Vianna entrou na sala e, para a nossa decepção, ali permaneceu, em companhia do muar, durante 50 minutos. Dado o sinal, retirou-se impassível, sem demonstrar contrariedade ou queixar-se à direção. Deu mais trabalho fazer o burro descer do que subir os degraus da faculdade.
Na semana seguinte, o episódio parecia mergulhado no olvido. Hélio Vianna entrou em classe e - novo desaponto - não nos passou nenhuma reprimenda. Deu aula como se nada tivesse acontecido.
Nos últimos minutos, advertiu-nos: "Aviso aos senhores e senhoras que, semana próxima, haverá prova. Peguem os pontos com o único colega que, na aula passada, se encontrava em classe". E mais não disse.
Como estudar para a prova sem a menor noção da matéria indicada? Na dia fatídico, o professor pediu-nos uma dissertação, por escrito, de como o tesouro da Holanda havia sido afetado pela invasão holandesa no Nordeste brasileiro. Zero geral.
Burros fomos nós.”
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19 Setembro, 2009
Serra cria “apartheid” no sistema público de saúde
“Com nova lei, organizações sociais e planos de saúde são presenteados por tucanosEduardo Sales de Lima, Brasil de Fato
No dia 14, fazia quatro dias que a neta de Lúcia Rejane estava internada na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Recém-nascida, a menina possui um tumor na parte externa de sua cabeça. Ela permanece internada porque a máquina de ressonância magnética está quebrada e só esse exame permitirá o diagnóstico: tumor maligno ou benigno. Preocupada, tensa, Rejane fumava dentro do complexo da Santa Casa, num espaço exterior. O hospital é público e administrado por uma organização social (OS), a Irmandade Santa Casa de Misericórdia do Estado de São Paulo.
A alguns metros de Rejane, uma contradição. Existe um outro hospital, o Santa Isabel, que só atende a pessoas conveniadas e também pertence à Irmandade Santa Casa. Causa estranheza, entretanto, um hospital privado ocupando um complexo hospitalar público.
A porta do pronto-socorro do hospital Santa Isabel é automática, seu interior é bem acabado, mas o mesmo se encontra vazio. Do lado dos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), contando 50 metros de distância, cerca de 150 pessoas lotavam um pronto-socorro.
Rejane não estava no PS, mas, diante da sua realidade e das dezenas de pessoas esperando por atendimento médico, desabafa: “A gente não tem dinheiro e fica assim; é ruim ter essa diferença, mas os governantes querem assim”. A dona de casa reclamou também da falta de informação e do péssimo atendimento dado a sua neta.
A “diferença” de tratamento citada pela avó aflita poderá aumentar ainda mais com a nova lei aprovada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Com a mudança, o tucano poderá ampliar a terceirização de unidades públicas de saúde para entidades privadas em São Paulo e permitirá que até 25% dos atendimentos sejam dedicados aos planos de saúde. Ou seja, os hospitais estaduais gerenciados por OSs serão reembolsados por atendimentos prestados a pacientes que tenham planos de saúde.
O deputado estadual Raul Marcelo (Psol) explica que o que já é presenciado por Lúcia Rejane também o será por inúmeras pessoas. “Vai criar o apartheid nos hospitais. Nas Santas Casas já existe uma porta do SUS e outra de um órgão privado”. Como na realidade presenciada por Lúcia Rejane, Raul reforça: “é a porta do plano de saúde vai ser a modernizada”.
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18 Setembro, 2009
Zé Celso: "Rogério Duarte viu tudo antes de nós"
Claudio Leal, Terra MagazineFundador do Teatro Oficina, um dos protagonistas da Tropicália no teatro, com peças como "O rei da vela" (1967) e "Roda Viva" (1968), o diretor Zé Celso Martinez Corrêa relata o papel catalisador de Rogério Duarte nos primórdios do movimento. E destaca ainda a importância do escritor Oswald de Andrade para sua geração. "Rogério tinha uma retórica extremamente baiana e poética - e pessoalmente era lindo, dos mais lindos dos anos 60".
Terra Magazine - Como se deu seu contato com a obra de Rogério Duarte, qual é a singularidade dela na Tropicália?
José Celso Martinez Corrêa - Rogério, além de magnífico artista gráfico brasileiro, talvez o maior - fez os cartazes mais lindos de filmes do Brasil -, além dessa arte gráfica em que ele é grande mestre, além de em outras artes ele ser excelente, fez capa de discos, é um gênio da minha geração. Pode-se dizer que a Tropicália começou com uma trindade de bruxos: Helio Oiticica, Rogério, o fotógrafo (Luis Carlos) Saldanha. Saldanha fez até um filme com Glauber, "O câncer". Três inseparáveis amigos. Juntos, eles praticamente começaram a ver tudo antes de nós todos. Eram os três gênios da nossa geração. Eles começaram a conversar, a formular, porque o Rogério tinha uma retórica extremamente baiana e poética - e pessoalmente era lindo, dos mais lindos dos anos 60. Foi logo o primeiro a ser preso, a ser torturado.
Com Ronaldo Duarte.
Ele e o irmão dele. A partir deles, praticamente, Caetano, Gil, eu, Torquato, todas as pessoas, se inspiraram muito naquela amizade deles três. Nem sei te explicar, de uma maneira objetiva, como é que foi, mas sabia que a sabedoria vinha dos três. A gente se aproximava dos três e parecia que recebia a energia da Tropicália, que é retornar... Eu já tinha redescoberto Oswald de Andrade, eu já estava bem pronto pra isso, porque eu tinha acabado de retornar a Antropofagia. Na minha geração e do Rogério, houve exatamente a descoberta do Brasil e do mundo primitivo, a importância que isso passou a ter. A gente aprendia que toda cultura brasileira vinha da Europa, essa lavagem cerebral. E, a partir da montagem do "Rei da Vela", fomos nos conhecendo pessoalmente, porque nos conhecíamos através das nossas obras. Nós retornamos à Idade da Antropofagia e incorporamos toda a cultura índia, negra, africana, a mixagem de tudo. Mas, principalmente, a visão da vida como mito, como repertorização de mitos. Rogério era um grande, não só na obra, como na vida. Era um grande pajé, um grande xamã.
Correto dizer, como Glauber, que por trás de todos havia Rogério?
Tanto que uma vez eu estava na França, vendo uma entrevista do Caetano e Gil... Quando fui ver, só deu Rogério. Os franceses foram na casa do Caetano, toparam com Rogério, o Rogério começou a falar e só deu ele. Rogério costumava ficar atrás, mas quando ele aparecia, não sobrava pra ninguém!
Ele fala que o movimento tropicalista terminou simplificado pela música, pelo Guilherme Araújo...
Claro, porque era muito maior do que isso. Era uma revolução cultural que está até hoje. Ela está ligada ao próprio tempo, à própria mudança. Isso vem da antropofagia, vem do retorno ao neolítico, ao período em que o homem tinha contato direto com as coisas, ligado à tecnologia, mais contemporânea, hoje inclusive à revolução do ciber. Nasceu o Tropicalismo, ele nunca morreu. Depois, durante os tempos da ditadura, ele ficou limitado à música. As gravadoras eram internacionais e conseguiram transmitiam para o mundo, conseguiram furar o bloqueio. As outras artes, então, ficaram irrigadas. As próprias músicas perderam a vibração de quando elas estavam num contexto mais amplo.
Em entrevista, o Rogério diz que o Oswald de Andrade acabou reduzido, de certa forma, ao seu lado folclórico na cultura brasileira. O que acha?
Pra mim, não. Determinou toda a reformulação da arquitetura do Teatro Oficina... Quer dizer, claro que tem gente que não sabe ver, não sabe ler. Oswald de Andrade é sempre uma referência. Ele só aparece nas épocas assim de subversão, muita repressão... O centenário dele aconteceu com muita repressão. Eu mesmo escrevi um texto pra prefaciar e fui censurado. Mas Oswald de Andrade é maravilhoso. É tão grande quanto ele, tão grande quanto Rogério, é uma antena extraordinária. Considero um dos maiores filósofos do mundo, o único filósofo original brasileiro. Agora, é visto com superficialidade por quem é superficial, quem não sabe interpretar as coisas.”
17 Setembro, 2009
De baixo para cima
Luis Fernando Veríssimo, O Estado São Paulo“Especulei aqui se o certo não seria chamar de pós-sal, em vez de pré-sal, o lugar de onde sairá o bendito óleo, já que as brocas virão de cima para baixo, e recebi correções de todos os lados. Quem adivinharia que entre 17 leitores houvesse tantos entendidos em geologia, em contraste com a minha completa ignorância? A explicação mais autorizada e simpática veio de um geólogo profissional, Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção da Petróleo Brasileiro S.A. Segundo ele, os geólogos têm uma lógica peculiar. Estudam a história do planeta de baixo para cima, pela sedimentação das suas rochas empilhadas ininterruptamente através do que chamam de tempo geológico. As brocas retrocedem no tempo geológico. O que está por baixo é mais velho do que o que está por cima, por isso é pré. Pós-sal é tudo que está acima da camada de sal, inclusive você, eu e os peixinhos. Entendi.
DEMÔNIO
Há dias a CNN mostrou uma mãe americana chorando, preocupada com o que iria acontecer com seus filhos. E o que iria acontecer com seus filhos era terem que ouvir pela TV um discurso do presidente Barack Obama dirigido a estudantes do ensino básico de todo o país, no primeiro dia do ano escolar. Barack recomendaria a todos que fossem bons alunos e tomassem o seu leite, mas a direita histérica criou a expectativa de que ele aproveitaria a oportunidade para doutrinar as crianças sobre os seus programas nazicomunistas, talvez até recorrendo à hipnose. Muitas escolas se recusaram a mostrar a preleção presidencial. A mãe entrevistada pela CNN estava apavorada com o que o demônio negro de fala mansa poderia fazer com a mente dos seus filhos.
A demonização do Obama se deve em grande parte à sua intenção de criar um sistema universal de saúde pública como os que já existem em todos os países civilizados do mundo (e mesmo semicivilizados, não vamos citar nomes), para garantir assistência médica aos mais de 50 milhões de americanos que hoje não têm proteção alguma. As seguradoras, indústrias farmacêuticas e empresas hospitalares que já tinham liquidado com um plano similar do Clinton mobilizaram-se de novo, com a colaboração da imprensa conservadora, de políticos reacionários e de almas simples como a mãe apavorada, e transformaram a ameaça aos seus lucros numa guerra ideológica. Ainda é incerto se o Baraca conseguirá ver seu plano, ou uma versão chocha do mesmo, aprovado. Ou se chegará ao fim do seu mandato, nesse clima.
Dias depois da mãe chorosa a mesma CNN mostrou um pastor do Sul dos Estados Unidos declarando que rezava para Obama morrer de câncer e ir para o Inferno. E a congregação dizendo “Amém!”
Trova de alemão
“O alemão (acho, pelo sotaque, apesar do bom domínio do português) chegou a Porto Alegre numa tarde abafada de março. Na bagagem, uma carta de recomendação de um antigo professor e a vaga ideia de fazer um doutorado sobre os catadores de lixo da cidade.
A primeira coisa que fez, logo após deixar a mala num hotelzinho perto do centro, foi entrar num boteco e pedir uma cerveja. Bebeu e viu o quanto era ruim a cerveja que teria de tomar dali em diante se resolvesse mesmo ficar.
O encontro com seu futuro orientador foi agradável. Conversaram sobre futebol, praias e a qualidade da cerveja na Alemanha (ou seja qual for o país de origem do alemão). Ao final ele perguntou se o seu projeto de tese teria chance de ser aceito pela universidade. Já foi aceito, disse-lhe o professor, mas essas formalidades a gente deixa pra depois. Tudo aquilo lhe agradava e lhe fazia bem. Acostumou-se com a cerveja e foi ficando.
Depois de três anos, quatro ou cinco entrevistas com catadores, uma visita a uma central de triagem de lixo numa ilha do Guaíba e sequer uma linha escrita da tese, ele percebeu que o tema não lhe era muito apaixonante, mas o modo de vida naquele país, ao contrário, o fascinava. Exímio jogador de snooker e frequentador assíduo dos botecos das redondezas (dividia um apartamento com dois outros estudantes na Independência) pensou em mudar o tema da tese para algo como "a importância do boteco na vida social do brasileiro médio". Falou com seu orientador a respeito. Este lhe prometeu pensar no assunto e encaminhou um pedido de prorrogação da bolsa.
Enquanto a mesma durou ele foi feliz, tirando da boemia e da vagabundagem interessantes teorias sobre o prazer de uma vida sem muitos compromissos. E mesmo quando se viu sem o subsídio sempre arrumou um meio de "ir levando". Uma noite, enquanto matava o tempo bebendo no boteco em frente ao seu prédio, conheceu um caminhoneiro que lhe falou maravilhas da fronteira gaúcha. Aceitou o convite para acompanhá-lo em sua próxima viagem a Quaraí, onde acabou ficando dois meses e conheceu as delícias do verdadeiro churrasco campeiro - da costela inteira ao sangrador, em fogo de chão e salmoura de limão cravo -, comeu bola de touro em marcação, bebeu canha na guampa e perdeu dinheiro em carreiradas e no pife viciado de bolichos de beira de estrada. Mas de tudo, o que mais o atraiu foi a trova. Não foi dito, mas o Brasil lhe chegara ao coração - como não raro acontece aos europeus - através da música; Porto Alegre, essa espécie de Brasil adulterado, restou como acidente inexplicável.”
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Côncavo e Convexo
“A mulher nasceu para enfrentar desafios. E não adianta os machões de plantão dizerem que “não é bem assim”, porque é. E sabe por que? Porque desde a ultrassonografia ela não consegue ser identificada pelo médico, ou seja , se o bebê for homem aí sim, estará lá o “convexo" para mostrar toda a sua masculinidade , mas do contrário, o “côncavo” não aparece na foto. Portanto, ela só vai poder provar que é uma menina depois de nascer.
Mas isso é só perfumaria, os maiores desafios estão por vir e aquela menininha que nasceu toda enfeitadinha, cheia de lacinhos não sabe o que a espera. Vem aí a maratona familiar que tem de enfrentar assim que começam a surgir os primeiros traços da puberdade. O pai se preocupa, a mãe se descabela porque afinal a filha superprotegida está virando mocinha.
Está hora do primeiro sutien... e a prova de que agora o sinal é vermelho, a menstruação chega para dar o alerta de que qualquer brincadeirinha mais perigosa com o vizinho ou com o coleguinha da escola, pode transformar toda uma história, colocando mais um galho na árvore genealógica da família.
Mas o tempo passa...e os galhos acabam crescendo mesmo. A mulher casa, ou não casa, adota, encomenda por inseminação, mas o fato é que a maternidade explode absoluta na sua vida. Saindo ou não da sua barriga, sorvendo ou não o seu liquido umbilical, aquele serzinho está lá para ser amado, adorado por aquela que vai ser a sua guia por um bom tempo.”
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16 Setembro, 2009
José Saramago: Quem manda é a indústria
“No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. O artigo é de José Saramago.José Saramago, Pátria Latina / Carta Maior
Não sei nada do assunto e a experiência direta de haver convivido com porcos na infância e na adolescência não me serve de nada. Aquilo era mais uma família híbrida de humanos e animais que outra coisa. Mas leio com atenção os jornais, ouço e vejo as reportagens da rádio e da televisão, e, graças a alguma leitura providencial que me tem ajudado a compreender melhor os bastidores das causas primeiras da anunciada pandemia, talvez possa trazer aqui algum dado que esclareça por sua vez o leitor.
Há muito tempo que os especialistas em virologia estão convencidos de que o sistema de agricultura intensiva da China meridional foi o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico “intercâmbio” genômico. Há já seis anos que a revista Science publicava um artigo importante em que mostrava que, depois de anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte havia dado um salto evolutivo vertiginoso. A industrialização, por grandes empresas, da produção pecuária rompeu o que até então tinha sido o monopólio natural da China na evolução da gripe.
Nas últimas décadas, o setor pecuário transformou-se em algo que se parece mais à indústria petroquímica que à bucólica quinta familiar que os livros de texto na escola se comprazem em descrever… Em 1966, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de suínos distribuídos por um milhão de granjas. Atualmente, 65 milhões de porcos concentram-se em 65.000 instalações. Isso significou passar das antigas pocilgas aos ciclópicos infernos fecais de hoje, nos quais, entre o esterco e sob um calor sufocante, prontos para intercambiar agentes patogênicos à velocidade do raio, se amontoam dezenas de milhões de animais com mais do que debilitados sistemas imunitários. Não será, certamente, a única causa, mas não poderá ser ignorada.
No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um relatório sobre a “produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”.
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Hobsbawm: "Me recuso a dizer que perdi a esperança"
“O historiador Eric Hobsbawm - que tem sua trilogia (A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Extremos) reeditada no Brasil - diz que o aniversário da queda do Muro de Berlim deveria motivar uma discussão sobre o Ocidente pós-guerra fria. Defendendo suas convicções marxistas, ele afirmou: "Me recuso a dizer que perdi a esperança". Para Hobsbawn, o capitalismo chegou ao seu limite.Vermelho.org / Folha de São Paulo
Quando Eric Hobsbawm estava escrevendo "A Era do Capital" -lançado em 1975-, explicou que fazia um imenso esforço para estudar algo que não lhe agradava nem um pouco. Hoje, o historiador marxista diz ter o mesmo sentimento, "eu não gostava da burguesia vitoriana e ainda não gosto, embora apreciasse o dinamismo daquele tempo". À essa impressão, porém, vem adicionando, nos últimos anos, mais uma, a nostalgia.
"Agora, quando comparo o século 19 com o 20, sinto simpatia pelo modo como aqueles homens acreditavam no progresso. Foi um século de esperança. E essa minha nostalgia cresce à medida que o tempo passa e vejo, com pessimismo, o que vem acontecendo", diz.
Hobsbawm, 92, conversou com a Folha por telefone, de Londres, justamente sobre a reedição no Brasil de sua trilogia sobre o século 19 ("A Era das Revoluções", "A Era do Capital", "A Era dos Impérios"), já um clássico da historiografia sobre o período, pela editora Paz e Terra -que também relançará em 2010 outro título do historiador, "Bandidos".
Na trilogia, Hobsbawm analisou o que chamou de "longo século 19", período que vai de 1789 a 1914. Começa com as revoluções europeias que definiram a expansão do capitalismo e do liberalismo no planeta -a Francesa e a Industrial inglesa- e vai até as vésperas da Primeira Guerra Mundial.
Apesar dos ataques que sofre por ainda defender a bandeira do comunismo, os três volumes de Hobsbawm são reimpressos todos os anos na Inglaterra, tendo sua explicação sobre o tema se imposto como uma espécie de cânone.
Hobsbawm é com frequência procurado para comentar temas do presente -algo que seus críticos tampouco perdoam. Agora, às vésperas do aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim (em novembro), seu conhecimento sobre os tempos que estudou e vivenciou, assim como suas convicções políticas, são novamente trazidos ao debate.
"A queda do Muro foi o fim de uma era. Não só para a Europa do Leste, mas para o mundo inteiro. O capitalismo chegou a seu limite e a a crise econômica mundial indica claramente o fim de um ciclo."
Contudo, o historiador considera que as discussões sobre o episódio estão muito centradas em tentar entender por que a experiência comunista fracassou, quando o que deveria estar na pauta é o futuro do Ocidente. Para ele, o mundo pós-Guerra Fria ainda não fez uma necessária autocrítica.
O que mais deveria ser discutido no aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim?
A celebração é oportuna porque o capitalismo agora chegou a seu limite. A crise econômica mundial é o fim de um ciclo, que começou a ruir quando caiu o Muro em Berlim. No Leste Europeu, vejo dificuldade em rompimento com o legado comunista. Mas é o Ocidente quem deve refletir mais sobre o que ocorreu na Guerra Fria e o que pode ser feito para evitar um novo colapso.
As "Eras" são consideradas um exemplo de boa análise histórica dedicada a um amplo período. O sr. acha que falta ambição a historiadores hoje?
Para fazer história com uma perspectiva maior, é preciso ser um intelectual maduro. Hoje, os jovens historiadores gastam muito mais tempo em suas especializações. Quando estão aptos a dar um passo maior, hesitam. A história equivocadamente se afastou da "história total" que fazia Fernand Braudel [1902-1985].”
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15 Setembro, 2009
Letras miúdas: má fé graúda
Rizzatto Nunes, Terra Magazine“Por mais de uma vez nesta coluna, tive oportunidade de mostrar que na sociedade capitalista contemporânea uma forte característica é a má fé de muitos empresários na condução de seus negócios. É feito quase de tudo um pouco para enganar o consumidor e obter ganhos. Infelizmente, os estudos dos consumeristas e das associações de defesa consumidor demonstram que a mentira e a desonestidade é uma das bases do sistema. Hoje, cuido de um modo evidente de má fé, de intenção dolosa de enganar o consumidor: o do conhecido uso das letras miúdas e que, apesar de conhecido e proibido por lei, continua sendo utilizado abertamente.
A pergunta mais óbvia é: porque o fornecedor e seus parceiros publicitários se utilizam de letras miúdas na comunicação de seus produtos e serviços?
Na defesa dos fornecedores, alguém poderia dizer que, por exemplo, nos anúncios de tevê não há espaço (nem tempo) para a colocação de todas as informações. É verdade. Por isso, nesse tipo de veículo não se exige que tudo seja dito. Basta o essencial. Aliás, beira ao ridículo a promoção de tevê com letras miúdas ilegíveis em baixo da tela. Será que quem faz a peça acredita mesmo que com isso ele garanta que o fornecedor não seja responsabilizado pela descarada enganação?
O descaso com a inteligência do consumidor chega às raias do sarcasmo. Recebi uma mala direta oferecendo vantagens para aquisição de uma internet banda larga. O papel cartonado em formato quadrado tem 25 cm por 25 cm. Muita informação e muito espaço em branco. Mas, pasme: num diminuto canto do lado direito ao pé da folha aparecem dezenas de informações em letras miúdas quase ilegíveis! No espaço de 2 cm X 9 cm há mais informações relevantes que em todo o folheto.”
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A violência nas grandes cidades
"A violência urbana é um dos maiores problemas que, hoje em dia, atinge não só o Rio de Janeiro, como a maioria das cidades brasileiras. Trata-se, além disso, de uma situação que acontece igualmente em nível mundial. No entanto, apesar da gravidade do problema, sente-se que faltam luzes, perspectivas, no seu enfrentamento e, sobretudo, idéias que tenham uma dimensão prática, concreta, que possam ser traduzidas em ações concretas.
O Brasil tem uma memória na qual se encontra a temática dos direitos humanos, seus valores, operadores, e seus militantes formados em confronto com os teóricos, valores e operadores da segurança. A memória do tempo da ditadura militar coloca a militância dos direitos humanos em confronto com a da segurança pública, trocando acusações entre si, trocando, às vezes, até cadáveres.
Há uma forte dicotomia entre essas duas tradições: a dos direitos humanos e a da segurança pública, a ponto de o tema direitos humanos no Brasil com frequência ser associado, na opinião pública, a um discurso que ignora o problema da segurança e defende os bandidos e criminosos, sob alegação de motivos ideológicos. A origem de tal oposição vem do fato de que a afirmação dos direitos humanos foi feita num momento em que o Estado, não só no Brasil, estava numa situação de totalitarismo, como o nazismo, ou com o socialismo totalitário; ou em situações de regimes militares, ditaduras.
A afirmação dos direitos humanos era, pois, a afirmação de direitos, individuais ou de grupos, diante de uma autoridade do Estado. É como se fosse a defesa do indivíduo e dos grupos contra um poder que vem de cima. Foi nesse contexto que tudo se formou, com base nas denúncias de prisões arbitrárias, de tortura, do abuso da autoridade e da violência. Os direitos humanos se formaram nesse contexto, de defesa de direitos dos indivíduos diante de um poder externo, um poder autoritário de Estado. É nessa posição que a temática dos direitos humanos se firmou na nossa memória recente da segunda metade do século XX, depois da Segunda Guerra. Porém, a impostação do problema foi superada pelo processo de democratização no qual tivemos o fim do poder autoritário, mas a continuação da violência.”
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14 Setembro, 2009
Direita raivosa imprensa Obama
Eliakim Araujo, Direto da Redação"Não ha dúvida. O Presidente Obama está enfrentando uma dura campanha dos setores mais conservadores da sociedade norte-americana que o acusam de querer implantar o socialismo nos EUA. Tudo porque seu projeto de reforma do sistema de saúde prevê a entrada do poder público na delicada área do atendimento médico, hoje nas mãos de poderosos grupos empresariais.
O projeto do presidente prevê a criação de um seguro público, patrocinado pelo Estado, que atenderá aos 46 milhões de americanos que não têm como pagar por um seguro privado e não dispõem de nenhum tipo de cobertura médica. Ao mesmo tempo, ofereceria aos empregadores um seguro saúde muito mais barato que os seguros privados.
Isso mexe com gente rica e poderosa. Gente que tem poder de conquistar formadores de opinião e políticos. A partir daí, a campanha contra o projeto cresceu e ganhou as ruas. Nos debates sobre o plano o que mais se vê são aposentados inocentes, mal informados, servindo de bucha de canhão para os espertalhões que querem derrubar o projeto presidencial. As manifestações deixaram a reforma em segundo plano e viraram ataques pessoais ao presidente. Faixas e cartazes em tom agressivo, caracterizam Obama ora como Hitler, ora como comunista (?).
Essa situação chegou ao extremo na quarta-feira, quando Obama compareceu ao Capitólio para uma sessão conjunta das duas casas legislativas para explicar detalhadamente seu projeto de reforma.
A presença do presidente nessas ocasiões obedece a certas formalidades que, embora não escritas, fazem parte da tradição democrática do país. Atrás dele, mostrados pelas câmeras todo tempo, se sentam o vice-presidente, de um lado, e o presidente da Câmara dos Deputados, do outro. Não são permitidos apartes ao discurso presidencial e a discordância da oposição deve se limitar a permancer sentada e não aplaudir.”
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13 Setembro, 2009
O fascismo passo a passo
“Se zapeando na terça-feira, 08/9, casualmente não tivesse assistido na Fox News uma entrevista animadíssima entre o âncora de plantão e dois autores que lançavam livros absurdamente neonazistas, se na quarta, 09/9, não fosse aprovado pela Câmara o Estatuto da “Igualdade” Racial onde, por exigência do DEM, o texto votado exclui referência específica a quilombolas, deixa de fora a regra que previa oportunidades iguais para negros nas áreas de publicidade, televisão e cinema e suprime as cotas dos mesmos nas universidades; se eu não soubesse que o modo tucano de ser amigo do povo (mote da Carta Maior) implica no fato do Serra vender 25% das vagas em hospitais públicos a planos de saúde privados, criar fila de elite em SUS lotado, terceirizar o esporte e a cultura, descer o cacete em estudantes e funcionários da USP, dar opção preferencial pela segurança em condomínios alto padrão, ter sancionado a partir de 4/8 uma lei anti-fumo já considerada anticonstitucional em 25/8 (o advogado geral da união, ministro José Antonio Dias Toffoli, encaminhou parecer ao Supremo Tribunal Federal apontando "conflito de competências", descrito como violação da "hierarquia normativa". Isto é, o Estados e Municípios não podem legislar sobre assunto de alçada federal. Há objeções importantes também quanto à proibição de fumar em condomínios residenciais, e não apenas nas áreas abertas, pois se trata de atentado ao princípio constitucional de inviolabilidade do lar), confiram no blog do Guilherme Scalzilli; se eu não soubesse da insistência por parte das elites interessadas em censurar e restringir matéria eleitoral via internet (porque censura e restrição é tudo e é só o que já publicam os jornalões de propriedade de tais elites); se eu não tivesse compreendido o silêncio assustado dos leitores em relação à coluna do Mirisola, “Vamos tocar fogo!”, talvez eu não tivesse dado atenção ao texto de Sara Robinson do Blog For Our Future (traduzido no site Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha) que trata da ascensão do fascismo nos EUA.
Porque qualquer semelhança não é coincidência.
O artigo comenta que, através da escuridão dos anos do governo Bush, os progressistas assistiram horrorizados ao sumiço das proteções constitucionais, à retórica nativista, ao uso do discurso de ódio transformado em intimidação e violência e a um presidente dos Estados Unidos que assumiu poderes só exigidos pelos piores ditadores da história: “Com cada novo ultraje, nosso grupo, que tinha se tornado expert em cultura e política da extrema-direita, ouvia de novos leitores preocupados: chegamos lá? já nos tornamos um estado fascista? quando vamos chegar lá? Ao investigar a quilometragem nesse caminho para a perdição, nos baseamos no trabalho do historiador Robert Paxton, provavelmente o estudioso mais importante na questão de como os países adotam o fascismo. Ele afirma que as democracias se tornam fascistas por um processo reconhecível, constituído por cinco estágios. De qualquer forma, o futuro fascista dos Estados Unidos aparece bem grande diante do vidro do automóvel.”
Afinal, o que é fascismo? Eis a definição de Paxton: é um sistema de autoridade política e ordem social marcados pela preocupação obsessiva com o declínio da comunidade, com a humilhação e a vitimação, pelo culto compensatório da unidade, energia e pureza, na qual um partido de massas de militantes nacionalistas, trabalhando em colaboração com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e busca, através de violência e sem controles éticos ou legais, cumprir objetivos de limpeza interna e expansão externa.”
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12 Setembro, 2009
Algo no ar além dos aviões de combate
“A impressão que se tem, de fora da caixa-preta das decisões estratégicas, é que “alguém”, “algum grupo”, no interior do Estado brasileiro, tomou a pulso reordenar alinhamentos estratégicos tradicionais, afastando-nos mais dos Estados Unidos e nos aproximando mais... de nós mesmos.Flávio Aguiar, Carta Maior
A recente decisão do governo brasileiro sobre a compra dos aviões Rafale da francesa Dessault aviação levantou muita poeira e deixo no ar algumas questões tão interessantes quanto inadiáveis.
Não resta dúvida de que há uma pequena corrida armamentista na América do Sul. O Chile andou modernizando sua frota de blindados, a Venezuela andou fechando acordos com a Rússia e a Colômbia deixou a região com os cabelos em pé de guerra com sua cessão de bases militares para os Estados Unidos, ou pelo menos para a presença de militares norte-americanos. Um pouco antes disso tudo já houvera o embroglio do veto dos Estados Unidos à venda de aviões da Embraer para a Venezuela, por usarem tecnologia norte-americana.
Diante de tudo isso não é surpreendente que o Brasil tenha buscado outra fonte de tecnologia para suas forças armadas. A França, desejosa de empurrar a Dessault para cima nesta época bicuda de crise, apareceu como uma hipótese razoável.
A justificativa para tal medida que, na verdade, vai envolver as três armas, envolve tanto a Amazônia, quanto o controle sobre o Atlântico, ainda mais em tempo de “o pré-sal é nosso”. Deve-se lamentar a corrida armamentista, ainda que de pequena monta diante do que ocorre em outros quadrantes, mas deve-se reconhecer que este é o mundo em que vivemos. Dos quatro países do BRIC, o Brasil é o único de relevância militar menor, para não dizer insignificante, fora de suas fronteiras, embora tenha mostrado grande mobilidade do Atlântico quando da crise provocada pela tragédia do avião da Air France.
Mas o aspecto mais relevante de tudo isso aponta para o futuro. A impressão que se tem, de fora da caixa-preta das decisões estratégicas, é que “alguém”, “algum grupo”, no interior do Estado brasileiro tomou a pulso reordenar alinhamentos estratégicos tradicionais, afastando-nos mais dos Estados Unidos e nos aproximando mais... de nós mesmos, e de uma posição mais independente em todos os planos.”
Foto: Caça Rafale
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Literatura e interatividade: os ciberpoemas
"Muito se tem falado sobre o fim do livro, e, por conseguinte, no fim da literatura. Mas tenho me dedicado a estudar o contrário: de que forma a literatura estará presente em outra mídia, no caso, a internet. Alguns teóricos da literatura, como Douwe Fokkema e Elrud Ibsch, em Conhecimento e Compromisso, chegam a admitir que a produção eletrônica de poesia e ficção não é impossível e "possa até levar a novos gêneros interativos", apesar de entenderem que "as novas mídias prejudicam o papel dos livros e outras formas impressas". Não por acaso os autores utilizam o termo "interativo", pois a interatividade tornou-se símbolo das possibilidades digitais já nos anos 80 e ganhou força com a evolução da World Wide Web nos anos 90.
Mas o que seria a interatividade? O que seria interativo? O computador, por sua "arquitetura sui generis", e tudo o que nele for publicado? Nesse caso, poderíamos considerar um livro publicado em PDF, digamos Dom Casmurro, de Machado de Assis, como interativo?
Diversos autores abordaram a questão da interatividade, não sem antes problematizá-la. Marco Silva, em Sala de aula interativa, busca recuperar a origem do termo, distingui-lo do termo "interação", usado na psicologia e ciências sociais, por exemplo, e apontar as duas críticas principais a que o termo esteve sujeito desde sua aparição, a polissemia e a banalização. Já Alex Primo escreve seu Interação mediada por computador "a partir de uma insatisfação com as teorias e conceitos de 'interatividade'", preferindo abordar a questão de outro modo e retomando o termo interação para distinguir entre interação mútua e reativa. Aqui iremos utilizar o termo "interatividade", ainda que ciente de sua polissemia e banalização crescentes, por ser um termo familiar nos estudos literários para se referir à interação mediada por computador em obras digitais.
Alguns romances clássicos da literatura universal podem ter antecipado a chamada multilinearidade da era digital, mas estão, naturalmente, amarrados ao seu suporte, o milenar papel. O Jogo da Amarelinha, talvez ainda o mais notável, é um romance escrito por Cortázar em 1963, e é considerado a principal obra do autor. A professora Marta Hoppe Navarro afirma que vários títulos de suas obras acentuam a tendência lúdica do notável escritor argentino, e define Rayuela ― seu título no original ― como uma obra que "revolucionou a literatura latino-americana com um romance para ser lido em saltos, de um capítulo a outro, como se fosse o jogo da amarelinha que lhe dá o título".
São algumas experiências contemporâneas de literatura on-line, porém, que têm chamado a atenção e atraído para si o termo "interativo". Uma dessas experiências é o conjunto de ciberpoemas dos gaúchos Ana Cláudia Gruszynski e Sérgio Capparelli publicados no site Ciber&Poemas. O site foi desenvolvido no ano 2000 e utiliza a linguagem Flash, software profissional que cria animações para a Web. No site há duas seções de poesias, uma com 12 poesias visuais, em que o usuário pode simplesmente ver e deixar um comentário no mural de recados, e outra com 10 ciberpoemas, em que o usuário é chamado a compor o poema arrastando ou clicando em elementos visuais dispostos na tela.”
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11 Setembro, 2009
Meu pai versus ACM
Paquito, Terra Magazine“Salinas da Margarida é um pequeno município do litoral baiano. Fica perto da Ilha de Itaparica, mas não faz parte dela. No entanto, pra se chegar lá em menos tempo, vindo de Salvador, tem de se tomar o ferry-boat para a ilha, e da ilha atravessa-se a Ponte do Funil, de onde se pega a estrada para Salinas. Ou então, pega-se uma lancha no Porto de Salvador, e se vai pelo mar numa viagem que dura duas horas.
Há trinta anos, aproximadamente, não existia estrada para Salinas. O que havia era um caminho cheio de pântanos de água salgada onde os carros invariavelmente atolavam. A viagem por terra parecia uma prova de rallye, com os piores desconfortos a que se tem direito.
Há trinta anos meu pai, Permínio Ferreira, até então proprietário de uma loja de tecidos, decidiu-se, seguindo a máxima de Bilac - "ama com fé e orgulho a terra em que nasceste" - pela carreira política para fazer algo por sua terra, Salinas. Candidatou-se a prefeito e venceu.
E era tão louco por sua cidade e pelo Brasil que dizia que, na final entre o Brasil e Uruguai da Copa de 50, "se patriotas fóssemos, os uruguaios não teriam saído vivos do campo". Após ouvir estas palavras, eu imaginava, horrorizado, o Maracanã cheio de corpos insepultos como em finais de batalha dos filmes de guerra.
Hoje eu sei que o dito de meu pai era apenas uma bravata pra demonstrar o seu amor à pátria. Ele dizia "senhorinha" em vez de "senhorita", um termo emprestado do espanhol. Tinha orgulho da nossa herança portuguesa. Sua terra natal, portanto, era seu eixo, apesar de ter morado no Rio, em Jequié, depois de ter se casado com minha mãe, e, por fim, em Salvador. Quando prefeito, ele passava a maior parte do tempo, lógico, em Salinas, onde tínhamos uma casa. Confesso que achava aqueles veraneios longos e chatos, e aquela cidade um deserto de diversões, com praias onde não se podia tomar banho de mar porque eram repletas de manguezais e muita, muita lama.
Mas o fato é que meu pai, que apoiou o golpe de 1964 - para ele, "a revolução" -, era da ARENA, partido do governo. Em Salinas, a oposição era tão pró-golpe que não existia MDB, mas ARENA 1 e ARENA 2. Eu, que tinha uns catorze anos, achava a política do lugar comezinha e todos os políticos caretas e corruptos.
Foto: Fabio Pozzebom, Agência Brasil
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O jornalismo do futuro
“Não sei se alguém pode ser levado a sério quando faz exercícios gratuitos de futurologia. Eu mesmo costumo torcer o nariz para quem vem me dizer o que vai acontecer daqui dez anos, dez meses, dez semanas ou dez segundos. Até entendo quem tem de fazê-lo por necessidades práticas, urgências de uma agenda duvidosa, daquelas que fazem o futuro depender estreitamente do presente. Fora isso, prefiro andar pela imponderabilidade da vida e, diante da dúvida do próximo passo, firmar bem a pisada no agora.
Entretanto, algumas vezes me pego pensando no que gostaria que acontecesse, imaginando possibilidades tal qual se imagina os personagens de um bom romance. Certamente isso exclui tudo que eu não gostaria que acontecesse. Apesar de tratar do dia-a-dia com realismo e certo ceticismo, prefiro meditar no acaso positivamente, resguardando para esses momentos certo grau de otimismo e intimidade. Sim, pois são muito pessoais e, entre tantas transparências que me revelam por ética, desapego ou narcisismo, esses pedaços de sonho merecem um espaço quieto e acolhedor em cantos recônditos da alma.
São raros esses exercícios inventivos, mas recentemente me vi pensando em um que até poderia ser dividido. Uma idealização sobre o jornalismo do futuro. É um terreno movediço, cheio de possibilidades e, por isso, altamente falível. Mas diante da mudança tão acelerada de velhos paradigmas, é também um exercício bastante saboroso.
Não quero ir muito longe nessa viagem, mas é inevitável começar na escola básica, quando formará jovens mais conscientes do futuro profissional que almejam. Fornecendo boa compreensão da realidade e das necessidades sociais, ajudará a cortar pelo pé as multidões de adolescentes que procuram cursos de comunicação social "para aparecer na TV" ou porque "gosta de esportes". Entrarão nas faculdades aqueles que têm plena consciência de que jornalismo é, acima de tudo, uma busca irrefreável pela verdade.
As faculdades, por sua vez, formarão jornalistas mais humanos, com melhor base teórica, e não mais perderão tempo ensinando minúcias técnicas que se aprendem em poucas semanas de trabalho. Fornecerão conteúdos de estudo direcionados às aptidões e anseios de cada grupo. Darão todo o apoio acadêmico e curricular para formar repórteres, editores, assessores, apresentadores, críticos, produtores, escritores, pesquisadores e até empresários. Serão raríssimas exceções os universitários perdidos e angustiados pelas baforadas quentes do desperdício.”
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10 Setembro, 2009
Daniela Mercury e o Papa
“Todo o mundo deve lembrar que Daniela Mercury anunciou um show no Vaticano em 2005. E que o show não houve, por razões obscuras. Por isso divulgo aqui a entrevista de Daniela Mercury com o Papa, que a imprensa calou.
Dias antes, quando Daniela entrou no recinto papal, o Papa Bento XVI estranhou a informalidade da artista. Para Seu espanto, a brasileira veio mal vestida. A blusa de Daniela fazia um caridoso decote, numa versão moderna do “amai-vos uns aos outros”, e as pernas, aquelas tentadoras pernas que fizeram Ray Charles enxergar, estavam mui mal cobertas. Então o Santo Padre Bento XVI lhe fez um sinal, que em piedosa liturgia quis dizer, ajoelha-te, pecado.
Foi pior. Daniela se ajoelhou na forma com que agradece os aplausos, com uma mesura, e os seios e curvas mais apareceram. O Papa virou o rosto, mas encontrou o sorriso de um cardeal, que parecia dizer “Qui nescit dissimulare, nescit regnare”. Isso não é, como parece, “que néscio dissimular, néscio reinar”, mas “Quem não sabe dissimular, não sabe reinar”.
Então o Papa ordenou que ela se levantasse.
- Vossa Santidade – quis começar a falar Daniela, mas o “vossasan” veio como um batuque. Na boca de Daniela, Vossa San lembrava mais um grito de festa, ao som de tambores. – Vossasan!!!....
O Papa não saltou do trono, mas concedeu que ela continuasse, que fosse em frente. Daniela percebeu o ridículo do tratamento que não se harmonizava com o seu modo pop de ser. E por isso consertou, para não concertar:
- Você, Santidade... - “Vocêsan!” lhe ocorreu, e viu a multidão na praia explodir. – O Senhor... enfim!. - E para sair de vez dessas formas estúpidas, ela ofereceu ao Papa uma caixinha embrulhada em papel carmim, com laço da mesma cor, digna do posto de cardeais.
- Um presente, Senhor Papa.
- Ah, gratu. – E o Papa pôs perto do peito o presente. Abriu-o. E caixinhas menores surgiram, lado a lado, irmanadas. - O que é isto, filha?
- Isso é camisinha, Santidade.
O Papa olhou em torno, à procura de uma boa tradução, quem sabe uma fórmula cortês que não insinuasse o sexo nos homens. Então, infalível, foi com os dedos mais fundo e despregou uns círculos em gelatina.
- Isto é....?”
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09 Setembro, 2009
Zenbudismo na vida e no trabalho
“O zenbundismo pode significar uma fonte inspiradora para o paradigma ocidental em crise bem como para a vida cotidiana. Isso porque o zen não é uma teoria ou filosofia. É uma prática de vida que se inscreve na tradição das grandes sabedorias da humanidade. O zen pode ser vivido pelas mais diferentes pessoas, simples donas de casa, empresários e pessoas religiosas de diferentes credos.
O centro para o zenbudismo não está na razão, tão importante para a nossa cultura ocidental. Mas na consciência. Para nós a consciência é algo mental. Para o zenbudismo cada sentido corporal possui a sua consciência: a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Um sexto é a razão. Tudo se concentra em ativar com a maior atenção possível cada uma destas consciências, a partir das coisas do dia-a-dia. Possuir uma atitude zen é discernir cada nuance do verde, perceber cada ruído, sentir cada cheiro, aperceber-se de cada toque.
E estar atento às perambulações da razão no seu fluxo interminável.
Por isso, o zen se constrói sobre a concentração, a atenção, o cuidado e a inteireza em tudo aquilo que se faz. Por exemplo, expulsar um gato da poltrona pode ser zen; também libertar os chacorros do canil e deixá-lo correr pelo no jardim. Conta-se que um guerreiro samurai antes de uma batalha visitou um mestre zen e lhe perguntou: "que é o céu e o inferno"? O mestre respondeu: "para gente armada como você não perco nenhum minuto". O samurai enfurecido tirou a espada e disse: "por tal senvergonhice poderia matá-lo agora mesmo". E ai disse-lhe calmamente o mestre: "eis ai o inferno". O samurai caiu em si com a calma do mestre, meteu a espada na bainha e foi embora. E o mestre lhe gritou atrás: "eis ai o céu."
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Informar ou editorializar?
Emir Sader, Carta Maior“Uma pena que a falta de prioridade ou a disposição de vetar aos brasileiros a possibilidade de assistir, diretamente, fazendo seus próprios juízos políticos, sem depender das versões que os órgãos da mídia dariam do importante evento, fez com que os brasileiros – em sua grande maioria – não pudessem assistir em direto os debates da reunião da Unasul, realizados em Bariloche na semana passada.
Talvez essa atitude dos canais de televisão deva-se a que as intervenções diretas e integrais dos mandatários latinoamericanos tenham sido, por si mesmas, denúncias das versões que grande parte da mídia insiste em passar aos leitores, ouvintes e telespectadores, com a forte dose de ideologização e de preconceito que carregam.
Em primeiro lugar, teriam se dado conta, a partir da intervenção de Hugo Chavez, que expôs um resumo detalhado de documento do governo norteamericano – atualizado este ano, já no governo Obama – da função bélica das bases militares dos EUA no mundo, incluindo a América do Sul. Havia menção explícita a uma das bases que a Colômbia menciona na lista de bases militares do convênio que têm com os EUA.
Os brasileiros teriam sabido, por exemplo, que Carmona, o efêmero presidente colocado no cargo pelo golpe militar venezuelano de 2002, rapidamente expulso pela reação popular de apoio a Hugo Chavez, está asilado na Colômbia, confirmando os vínculos entre a direita golpista daquele país com o presidente colombiano Uribe. Um detalhe significativo.
Teriam todos podido saber, pelas exposições, mapas e gráficos exibidos pelo presidente do Equador Rafael Correa, que a produção de coca na região tem na Colômbia seu inquestionável líder, com mais de metade, uma produção que segue em aumento, seguida do Peru e da Bolívia, tento a Venezuela e o Equador erradicado completamente sua produção. Os EUA seguem sendo, de longe, a principal destinação do tráfico.”
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