Mauro Santayana, JB Online
“O último ano do século passado – e o primeiro da década que se encerra hoje – foi marcado pela decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a contagem de votos da Flórida. Ao garantir a posse de George Bush II, e legitimar a fraude, o tribunal colocou na Casa Branca o mais nefasto dos presidentes daquela República, desde o mandato de James Buchanan, que se tornou mais conhecido como rótulo de uísque do que como homem de Estado. À sua debilidade moral e política, a História debita a Guerra da Secessão. Aos dois Bush – mas principalmente ao filho – coube a responsabilidade da agressão desastrosa ao Iraque e ao Afeganistão, cujo desfecho é ainda imprevisível.
É cedo para saber exatamente o que ocorreu no dia 11 de setembro de 2001. Ao se admitir que o atentado tenha sido perpetrado pela Al Qaeda, ficou provado que Saddam Hussein nada tinha a ver com a organização muçulmana, dirigida por um antigo sócio da família Bush nos sempre viscosos e mal-cheirosos negócios do petróleo. Os próprios norte-americanos reconheceriam, depois, que seu país fora à guerra por causa do petróleo e do gás, do Oriente Médio e da Bacia do Cáspio. Quaisquer tenham sido os responsáveis, diretos e indiretos, pelo surpreendente atentado contra as Torres Gêmeas e os outros alvos, o efeito foi terrível, com a disseminação do pavor. Esse pavor serviu de pretexto para a guerra contra Bagdá, não obstante todos os esforços do governo de Saddam para evitar a invasão do país. Os Estados Unidos conseguiram seu objetivo, com a execução de Saddam Hussein, transmitida ao mundo inteiro, na madrugada de 30 de dezembro de há três anos – e o domínio do país e a exploração de seu petróleo.
Nas últimas horas, o pavor voltou aos Estados Unidos, com a tentativa de explodir um avião em sua descida em Detroit, por um rico nigeriano, na noite de Natal. Uma análise psicológica da vida do jovem – que agiu supostamente em nome da Al Qaeda do Iêmen – poderia encontrar razões poderosas para o seu fanatismo. Ele é filho de um milionário, que foi ministro da Economia da Nigéria, cuja elite política é vista como das mais corruptas do mundo. Não são raros os casos de rebelião contra pais milionários, que levam a atos como os de Abdulmutallab. Suas confidências aos amigos fortalecem essa hipótese. O rapaz revelou sua profunda depressão, diante da realidade do mundo.”
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31 Dezembro, 2009
30 Dezembro, 2009
Praia "de macho"
Eduardo Tessler, Terra Magazine
“O Rio Grande do Sul é um Estado que nem todo o mundo entende. É muito frio no inverno, às vezes até chega a nevar. Mas basta entrar o verão para que o calor chegue ao limite do insuportável.
É gente suando nas ruas, um desânimo generalizado, produtividade em queda nas empresas. Ar condicionado, ar condicionado e ar condicionado. Restaurante que não investe em um aparelho que refresque o ambiente pode fechar as portas. O mesmo para as lojas, cinemas, locais públicos. Até casa de amigos. Sem ar condicionado, nada de visitar os vizinhos.
Em dezembro acontece no RS o maior fenômeno de êxodo urbano do Brasil: a invasão às praias. A população dos 660 quilômetros de Oceano Atlântico que banham o Estado salta de 300 mil pessoas para mais de 2 milhões. Um mar de gente disputando espaço principalmente nas praias mais badaladas, como Torres, Capão da Canoa, Xangri-lá e Tramandaí.
Os problemas começam na saída de Porto Alegre. Estradas cheias, motoristas despreparados com carros superlotados, alguns argentinos e uruguaios querendo "aprovechar las playas del Sur", pedágios. A surpresa maior, porém, é ao se chegar na praia: a infra-estrutura continua a mesma de 1980, mas a população triplicou. Não há onde estacionar o automóvel, os supermercados estão abarrotados de gente, há filas em qualquer restaurante, qualquer lanchonete, qualquer fruteira, qualquer padaria ou armazém. Fazer compras é um ato de bravura.”
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“O Rio Grande do Sul é um Estado que nem todo o mundo entende. É muito frio no inverno, às vezes até chega a nevar. Mas basta entrar o verão para que o calor chegue ao limite do insuportável.
É gente suando nas ruas, um desânimo generalizado, produtividade em queda nas empresas. Ar condicionado, ar condicionado e ar condicionado. Restaurante que não investe em um aparelho que refresque o ambiente pode fechar as portas. O mesmo para as lojas, cinemas, locais públicos. Até casa de amigos. Sem ar condicionado, nada de visitar os vizinhos.
Em dezembro acontece no RS o maior fenômeno de êxodo urbano do Brasil: a invasão às praias. A população dos 660 quilômetros de Oceano Atlântico que banham o Estado salta de 300 mil pessoas para mais de 2 milhões. Um mar de gente disputando espaço principalmente nas praias mais badaladas, como Torres, Capão da Canoa, Xangri-lá e Tramandaí.
Os problemas começam na saída de Porto Alegre. Estradas cheias, motoristas despreparados com carros superlotados, alguns argentinos e uruguaios querendo "aprovechar las playas del Sur", pedágios. A surpresa maior, porém, é ao se chegar na praia: a infra-estrutura continua a mesma de 1980, mas a população triplicou. Não há onde estacionar o automóvel, os supermercados estão abarrotados de gente, há filas em qualquer restaurante, qualquer lanchonete, qualquer fruteira, qualquer padaria ou armazém. Fazer compras é um ato de bravura.”
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Nevascas
“As poderosas nevascas que se abatem sobre a Europa e o norte dos Estados Unidos até parecem querer desmistificar os eco-fundamentalistas que pintaram e bordaram antes e durante a recente conferência sobre o clima em Copenhague.
Eduardo Bomfim, Vermelho.org
O bombardeio internacional midiático, durante a conferência, dizia que aquelas eram as últimas oportunidades para se impedir o aquecimento global irreversível e galopante do planeta decorrente das emissões de CO2 pelo ser humano.
Sabemos que as emissões de CO2 são produzidas, além do homem, em sua esmagadora maioria através da própria natureza, com a decomposição orgânica vegetal, e pelos oceanos, esses os maiores produtores de gás carbônico essencial à vida na Terra.
Mas a grande maioria das pessoas tem sido educada ultimamente através de mitos sobre o aquecimento global e somos todos de uma forma ou de outra vítimas da desinformação consciente de vários cientistas, em detrimento da maioria deles, e de muitas ONGs, sobre esse tema tão fundamental como o efeito estufa.
O porque disso foi revelado de maneira escancarada nos desencontros de Copenhague. E a causa é mesmo o dinheiro e a busca do maior lucro, em um fundo ambiental global que em médio prazo pode somar alguns trilhões de dólares.”
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Eduardo Bomfim, Vermelho.org
O bombardeio internacional midiático, durante a conferência, dizia que aquelas eram as últimas oportunidades para se impedir o aquecimento global irreversível e galopante do planeta decorrente das emissões de CO2 pelo ser humano.
Sabemos que as emissões de CO2 são produzidas, além do homem, em sua esmagadora maioria através da própria natureza, com a decomposição orgânica vegetal, e pelos oceanos, esses os maiores produtores de gás carbônico essencial à vida na Terra.
Mas a grande maioria das pessoas tem sido educada ultimamente através de mitos sobre o aquecimento global e somos todos de uma forma ou de outra vítimas da desinformação consciente de vários cientistas, em detrimento da maioria deles, e de muitas ONGs, sobre esse tema tão fundamental como o efeito estufa.
O porque disso foi revelado de maneira escancarada nos desencontros de Copenhague. E a causa é mesmo o dinheiro e a busca do maior lucro, em um fundo ambiental global que em médio prazo pode somar alguns trilhões de dólares.”
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28 Dezembro, 2009
O poder da hora
“Embora os líderes mundiais há muito procurem obter vantagens econômicas e políticas por meio da manipulação da hora, os cientistas alertam cada vez mais para o custo de alterar os relógios
Clive Cookson, Financial Times / UOL
Manipular o tempo é uma iniciativa política ousada. Em 1973, a França revolucionária impôs um sistema decimal, no qual o dia era dividido em dez horas de cem minutos cada. Isso durou apenas 12 anos, até Napoleão Bonaparte reinstituir o sistema tradicional de 24 horas de 60 minutos, que teve origem no Egito e na Babilônia da antiguidade.
Em 1949, Mao Tsetung substituiu as cinco zonas horária da China por apenas uma como símbolo do forte controle central sob o comunismo. O sistema persistiu, mas ele provocaria problemas para os habitantes do oeste do país, que passariam a maioria das manhãs do inverno na escuridão, caso seguissem o horário oficial.
A última grande ideia para modificação de horário veio de Dmitry Medvedev, o presidente da Rússia, que no mês passado propôs substituir os 11 fusos horários do país por apenas quatro, em nome da eficiência econômica.
A medida de Medvedev mostra como, hoje mais do que nunca, tempo é dinheiro. A diferença entre a capital do país e o extremo leste da Rússia é vista como um empecilho à eficiência daquela economia emergente. Os escritórios em Vladivostok só estão abertos, na melhor das hipóteses, durante as duas primeiras horas de trabalho na capital.
Já para o antigo Kremlin, as 11 zonas horárias eram um motivo de orgulho, já que elas demonstravam a vastidão imensa do poderio soviético. Os moscovitas mais velhos, por exemplo, recordam-se com saudade da programação de rádio feita após a escola, às 15h, que anunciava a hora em todas as regiões da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e que terminava com: "Petropavlovsk, Kamchatka, meia-noite".
As vantagens econômicas de uma localização temporal conveniente há muito são reconhecidas. Durante mais de um século Londres tirou proveito da sua posição de ponte temporal; o dia de trabalho da cidade sobrepunha-se ao de outros centros financeiros na América e na Ásia.
Mas a mudança na Rússia, conforme foi proposta por Medvedev, não será fácil. "Este é um país enorme, e isso provocaria inevitavelmente uma grande alteração dos ritmos das pessoas em relação aos ritmos da natureza", diz Andrei Panin, da Faculdade de Geografia da Universidade de Moscou. "Por exemplo, as pessoas teriam que trabalhar, despertar, quando ainda fosse noite. Isso gera custos em termos de iluminação, eletricidade. Precisamos ter um grande número de zonas horárias na Rússia".
Tradução: UOL
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Clive Cookson, Financial Times / UOL
Manipular o tempo é uma iniciativa política ousada. Em 1973, a França revolucionária impôs um sistema decimal, no qual o dia era dividido em dez horas de cem minutos cada. Isso durou apenas 12 anos, até Napoleão Bonaparte reinstituir o sistema tradicional de 24 horas de 60 minutos, que teve origem no Egito e na Babilônia da antiguidade.
Em 1949, Mao Tsetung substituiu as cinco zonas horária da China por apenas uma como símbolo do forte controle central sob o comunismo. O sistema persistiu, mas ele provocaria problemas para os habitantes do oeste do país, que passariam a maioria das manhãs do inverno na escuridão, caso seguissem o horário oficial.
A última grande ideia para modificação de horário veio de Dmitry Medvedev, o presidente da Rússia, que no mês passado propôs substituir os 11 fusos horários do país por apenas quatro, em nome da eficiência econômica.
A medida de Medvedev mostra como, hoje mais do que nunca, tempo é dinheiro. A diferença entre a capital do país e o extremo leste da Rússia é vista como um empecilho à eficiência daquela economia emergente. Os escritórios em Vladivostok só estão abertos, na melhor das hipóteses, durante as duas primeiras horas de trabalho na capital.
Já para o antigo Kremlin, as 11 zonas horárias eram um motivo de orgulho, já que elas demonstravam a vastidão imensa do poderio soviético. Os moscovitas mais velhos, por exemplo, recordam-se com saudade da programação de rádio feita após a escola, às 15h, que anunciava a hora em todas as regiões da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e que terminava com: "Petropavlovsk, Kamchatka, meia-noite".
As vantagens econômicas de uma localização temporal conveniente há muito são reconhecidas. Durante mais de um século Londres tirou proveito da sua posição de ponte temporal; o dia de trabalho da cidade sobrepunha-se ao de outros centros financeiros na América e na Ásia.
Mas a mudança na Rússia, conforme foi proposta por Medvedev, não será fácil. "Este é um país enorme, e isso provocaria inevitavelmente uma grande alteração dos ritmos das pessoas em relação aos ritmos da natureza", diz Andrei Panin, da Faculdade de Geografia da Universidade de Moscou. "Por exemplo, as pessoas teriam que trabalhar, despertar, quando ainda fosse noite. Isso gera custos em termos de iluminação, eletricidade. Precisamos ter um grande número de zonas horárias na Rússia".
Tradução: UOL
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27 Dezembro, 2009
Era Jesus socialista?
José Luiz Teixeira, Terra Magazine“Muita gente considera Jesus Cristo socialista. Concordo, em parte.
Acredito que se todos seguissem suas palavras ao pé de letra, não teríamos uma sociedade tal qual do socialismo tradicional. Mas seria bem mais igualitária e humanista do que temos no Brasil, por exemplo.
Deixando de lado o misticismo - que é uma questão de crença de cada um - e filtrando a mensagem cristã dos dogmas religiosos, temos a proposta clara de um mundo sem opressores e oprimidos e com uma distribuição de renda mais justa.
Quero pedir perdão aos sete ou oito leitores desta coluna se venho piorar sua ressaca pós-ceia natalina, mas considero pertinente lembrar um pouco do legado daquele que, no final das contas, é a razão de tanta festa.
Até porque, no futuro, as crianças podem achar que nessa data comemora-se apenas o nascimento de Papai Noel, do Santa Claus, não de Jesus Cristo.
Não sou contra o consumismo exacerbado desta época do ano, mesmo porque nesse caso acredito que o fim justifique os meios.
Comprar para dar presente é uma espécie de capitalismo do bem.
Também suporto bem a maionese da sogra, a overdose de uísque do cunhado e as rabanadas daquela tia distante.”
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23 Dezembro, 2009
Natal: relembrando nossa vocação de sermos humanos
Maria Clara Lucchetti Bingemer, Adital“Natal é festa de Deus entrando na história e realizando o milagre da Encarnação. É festa da Virgem Maria, dizendo SIM ao plano de Deus e ficando grávida do Espírito Santo, passando a trazer em seu seio aquele que seria o homem Jesus, conhecido como o Galileu. É a festa do amor, da aliança de Deus com a humanidade, festa da Luz e da Alegria.
Por isso mesmo é a festa que nos ensina e nos relembra que nossa verdadeira e mais profunda vocação é sermos humanos, verdadeiramente humanos, profundamente humanos. Pois somente mergulhando fundo em nossa humanidade realizamos aquilo para o que Deus nos criou: sermos imagem de seu Filho que se fez humano aprendeu a ser humano, é humano sem deixar de ser Deus.
Assim, Natal é a festa de nossa vocação: vocação de sermos humanos. Achamos sempre que ser humano é algo que não se aprende. Já nascemos assim, já somos assim, já sabemos tudo sobre o que somos. É verdade apenas em parte. Ser humano é algo que se aprende. Senão, como se explica que tantas vezes agimos desumanamente? Como entender o fato de que em tantas situações nos comportamos mais animalescamente que o mais instintivo dos animais?
São muitas as ocasiões em que, em lugar de nos humanizarmos, nos animalizamos, nos vegetalizamos. E, pior ainda, em lugar de ajudarmos a humanização do outro, o animalizamos, o desumanizamos. Toda vez que não nos abrimos à solidariedade, mas violentamente guardamos tudo para nós, nos assemelhamos ao animal que avança e morde quem quer pegar sua comida. Toda vez que usamos irresponsavelmente nossa sexualidade, nos assemelhamos aos animais que, por instinto e guiados pelo olfato, sentem o cio da fêmea e o assédio do macho e copulam por instinto, garantindo a multiplicação da espécie, mas não vivendo o amor que é entrega e doação ao outro.
A Encarnação de Deus que celebramos no Natal quer nos dizer que Deus, sem deixar de ser Deus, abre mão de suas prerrogativas e entra na carne frágil e limitada que é a nossa. Aprende a ser humano, a ser temporal, espacial; a ter frio, fome, sede, calor e sono; a cansar-se e a sentir desânimo; a ter de superar angústias e a não saber o futuro; a caminhar em disponibilidade diante de um amanhã que pode levantar-se ameaçador ou sorridente, trazer alegria ou opressão. Deus feito carne, feito ser humano, caminha na história para ensinar que ser humano é uma vocação alta, séria, que se aprende a cada dia, deixando a alteridade do outro requerer nossa atenção e nosso amor; deixando que o outro diga o que devemos fazer de acordo com suas necessidades e seus desejos; renunciando a nossas vontades e instintos imediatistas, para que o outro ocupe o espaço do nosso querer e nosso agir, através de seu rosto que interpela e constitui uma epifania.”
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O cinema perdeu sua aura
André Setaro, Terra Magazine“O fato é que, com o surgimento dos novos suportes, com o avanço da tecnologia, que possibilita a visão de filmes "em qualquer lugar", a magia das salas exibidoras desapareceu. As imagens em movimento se tornaram rotineiras. Nasce-se, hoje, vendo-as no televisor acoplado na parede do hospital enquanto ainda se está a sair para a vida. Todo mundo pode, atualmente, fazer um filme.
Faz-se filmes como antigamente se fazia poesias. Mas isto não quer dizer que eles sejam poéticos (alguns podem sê-los). E o velho cineclube? Ainda teria a mesma função, o mesmo fascínio, a mesma curiosidade? Em alguns lugares, as sessões, por assim dizer, cineclubistas, ainda funcionam, a exemplo das concorridas sessões do Comodoro, patrocinadas pelo cineasta Carlos Reichenbach na capital paulista. Mas, creio, são exceções que fogem à regra. O "negócio", nos dias que correm, se encontra em baixar filmes da internet. E, com isso, aquele reverência que se tinha, diante das imagens em movimento, se perdeu no tempo.
As coisas mudam, porém, e, com elas, a recepção ao filme se tornou um ato rotineiro sem o tão necessário encantamento e assombro. Na verdade, está a acontecer uma revolução no modo de ver o filme, e esta revolução tem que ser assimilada, compreendida. O cinema que se tinha, nos moldes de antigamente, está morto. A sentença de morte foi dada poeticamente por "Cinema Paradiso" ("Nuevo Cinema Paradiso", 1989), de Giuseppe Tornatore. E, também, na mesma época, por "Splendor", de Ettore Scola.
Mas, e a respeitar aqueles que gostam de ver filmes na telinha do computador, devo dizer, em alto e bom som: recuso-me, peremptoriamente a ver filmes na telinha do aparelho informático. Vejo-os muitos em DVD. Pode acontecer, em alguns casos, para falar a verdade, e a verdade verdadeira no sentido kantiano, de assistir a filmes baixados na internet se convertidos em DVD, mas que sejam obras raras, que não as tenha visto e que sejam importantes.
Com o advento do VHS, do laser-disc, do DVD, e, agora, com a possibilidade de se baixar quase tudo da internet, a pergunta que se quer fazer é a seguinte: ainda haveria condições de ser ter um clube de cinema nos moldes do de Walter da Silveira nas décadas de 50 e 60 em Salvador?”
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22 Dezembro, 2009
As drogas e a cegueira nacional
Chico Villela, NovaE“O Brasil foi o último país ocidental a extinguir - por decreto - a escravidão. Como os recém-libertos não tinham instrução, dinheiro, identidades sociais, acesso à Justiça, ou seja, não eram cidadãos, tornaram-se párias sem teto, bens e empregos. Assim, o país ganhou um exército de trabalhadores desqualificados, que até hoje se mantém; basta olhar a situação das milhões de empregadas domésticas. Em razão desse comportamento típico de cegueira, anota-se a predominância de descendentes de negros entre os milhões de pobres ou miseráveis. Finge-se que o problema foi resolvido com a lei assinada pela princesa.
(Parênteses: tivesse o governo à época distribuído terras, que havia de sobra, aos escravos, cuja única sabedoria de dimensão econômica era o amanho da terra e dos seus frutos, teríamos hoje uma situação mais forte de produção familiar no campo, uma classe média mais numerosa, e menos injustiça social e cidades mais estáveis, sem periferias de tanta pobreza e crime.)
Líder do quê?
O Brasil, no ritmo em que anda, vai ser o último país a reconhecer também como direito humano o consumo de drogas. A Corte Suprema da Argentina, em recente decisão histórica em caso de três jovens presos com cigarros de maconha, anunciou que o consumo individual é questão de “foro íntimo”, e que ninguém pode ser preso por portar ou consumir cigarros de maconha. A Colômbia é outro modelo: em plena guerra civil, na qual a presença de traficantes fornece recursos para os dois lados, as tropas regulares e os guerrilheiros, acaba de aprovar lei que libera o consumo de maconha.”
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O dom de respeitar a opinião do próximo
Andre Balocco, Cidade Copacabana / JB
“Fico, cada vez mais, impressionado com a dificuldade das pessoas em lidar com as opiniões opostas. Faz parte da democracia, que tanto nos custou, a divergência de opiniões e, principalmente, o respeito pela opinião alheia. Rapaz, teve um cara que proferiu, em inglês, uma série de palavrões relativos à minha mãezinha...Outra disse que eu era beneficiado pelo esquema do Lula. Estou me referindo ao post em que comparei os discursos de Lula e Obama na COP 15. Ora, senhores, realmente é um absurdo a dificuldade em se entender - e respeitar - a opinião dos outros.
A falta de respeito pelo o que pensa o próximo já nos trouxe anos de chumbo e, com eles, muito atraso. Se hoje somos uma sociedade abestalhada diante dos desmandos e dos escândalos de corrupção; se hoje não fazemos nada, ou quase nada diante do escárnio com que os políticos nos tratam, isto vem, em parte, pelo fato de a última Ditadura ter cortado os canais de comunicação da sociedade, nos anos 60 e 70, impondo o pensamento único à base de censura e tortura. Disso, mesmo não sendo sociólogo, historiador ou qualquer outro estudioso da sociedade brasileira, eu não tenho a menor dúvida.”
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“Fico, cada vez mais, impressionado com a dificuldade das pessoas em lidar com as opiniões opostas. Faz parte da democracia, que tanto nos custou, a divergência de opiniões e, principalmente, o respeito pela opinião alheia. Rapaz, teve um cara que proferiu, em inglês, uma série de palavrões relativos à minha mãezinha...Outra disse que eu era beneficiado pelo esquema do Lula. Estou me referindo ao post em que comparei os discursos de Lula e Obama na COP 15. Ora, senhores, realmente é um absurdo a dificuldade em se entender - e respeitar - a opinião dos outros.
A falta de respeito pelo o que pensa o próximo já nos trouxe anos de chumbo e, com eles, muito atraso. Se hoje somos uma sociedade abestalhada diante dos desmandos e dos escândalos de corrupção; se hoje não fazemos nada, ou quase nada diante do escárnio com que os políticos nos tratam, isto vem, em parte, pelo fato de a última Ditadura ter cortado os canais de comunicação da sociedade, nos anos 60 e 70, impondo o pensamento único à base de censura e tortura. Disso, mesmo não sendo sociólogo, historiador ou qualquer outro estudioso da sociedade brasileira, eu não tenho a menor dúvida.”
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Barack Hoover
John Hemingway, Direto da Redação
"Comecei a pensar em Barack Obama como uma versão negra do século XXI de Herbert Hoover. Como o presidente número 31 dos EUA, Obama é um autor bem-sucedido, um entusiasta de auto-ajuda (organizador da comunidade) e alguém que acredita firmemente que o americano médio deve cuidar de si próprio. Hoover era famoso por suas habilidades organizacionais e (antes da grande depressão) amplamente admirado. Durante a inundação de Mississippi de 1927, ele liderou os esforços de socorro do Governo Federal incentivando o "voluntariado", sempre que possível. "Bem que eu poderia ter pedido a ajuda do Exército”, disse depois, “mas por que razão deveria fazê-lo, quando bastava apenas chamar a rua principal da cidade”.
Eleito para liderar a América de volta à prosperidade, após o colapso do mercado de ações em Outubro de 2008 (que agora muitos acreditam ter sinalizado o início da "maior depressão"), Obama tomou uma atitude bastante acomodada ao tratar dos excessos dos bancos que levaram à crise em primeiro lugar. Como Hoover, ele parece pensar que bancos e empresas de investimento devem se auto-regulamentar. Recentemente, perguntou amavelmente aos principais destinatários da nação do dinheiro do contribuinte (os famosos bailouts) se eles não se importariam em fazer mais empréstimos aos consumidores e empresas americanas severamente afetadas pela crise. Evidentemente, na TV ele denuncia o que chamou os "banqueiros ricos" que simplesmente "não entendem", mas numa reunião na Casa Branca com estes banqueiros não usou o mesmo tom de confronto. De acordo com uma pessoa que estava presente ao amigável encontro, Obama foi muito mais compreensivo com as necessidades desses homens extremamente ricos e poderosos. Que é mais ou menos o que você esperaria de um homem que é a personificação da "continuidade na qual podemos acreditar”.
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"Comecei a pensar em Barack Obama como uma versão negra do século XXI de Herbert Hoover. Como o presidente número 31 dos EUA, Obama é um autor bem-sucedido, um entusiasta de auto-ajuda (organizador da comunidade) e alguém que acredita firmemente que o americano médio deve cuidar de si próprio. Hoover era famoso por suas habilidades organizacionais e (antes da grande depressão) amplamente admirado. Durante a inundação de Mississippi de 1927, ele liderou os esforços de socorro do Governo Federal incentivando o "voluntariado", sempre que possível. "Bem que eu poderia ter pedido a ajuda do Exército”, disse depois, “mas por que razão deveria fazê-lo, quando bastava apenas chamar a rua principal da cidade”.
Eleito para liderar a América de volta à prosperidade, após o colapso do mercado de ações em Outubro de 2008 (que agora muitos acreditam ter sinalizado o início da "maior depressão"), Obama tomou uma atitude bastante acomodada ao tratar dos excessos dos bancos que levaram à crise em primeiro lugar. Como Hoover, ele parece pensar que bancos e empresas de investimento devem se auto-regulamentar. Recentemente, perguntou amavelmente aos principais destinatários da nação do dinheiro do contribuinte (os famosos bailouts) se eles não se importariam em fazer mais empréstimos aos consumidores e empresas americanas severamente afetadas pela crise. Evidentemente, na TV ele denuncia o que chamou os "banqueiros ricos" que simplesmente "não entendem", mas numa reunião na Casa Branca com estes banqueiros não usou o mesmo tom de confronto. De acordo com uma pessoa que estava presente ao amigável encontro, Obama foi muito mais compreensivo com as necessidades desses homens extremamente ricos e poderosos. Que é mais ou menos o que você esperaria de um homem que é a personificação da "continuidade na qual podemos acreditar”.
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21 Dezembro, 2009
A Cidade de São Paulo & O Consórcio das Oligarquias
Ricardo Peres, Vermelho.org
“O que é a cidade senão as pessoas?” – Shakespeare (Coriolanus, 3º ato)
Em 1885, São Paulo tinha 47 mil pessoas, aumentando para 240 mil em 1900. Hoje, contando quase 20 milhões de pessoas, a região metropolitana de São Paulo é a décima cidade mais rica do mundo, responsável por 13% do PIB nacional.
Paralelamente, a política de urbanização extensiva que pavimentou todo esse crescimento durante o século 20 se mostra insustentável à nossa geração, uma vez que o processo de incorporação horizontal de áreas rurais adjacentes aos núcleos urbanos chegou ao seu limite. De fato, tanto as barreiras físicas (serras e rios) como o custo do transporte colocam claros limites a esta forma de ocupação do espaço, a qual cria distâncias que mais tarde se tornam arrependimentos.
Notamos, com facilidade, que a ausência dos órgãos governamentais nas áreas mais distantes, logisticamente menos acessíveis, levou ao crescimento da pobreza, da criminalidade e da violência na periferia da cidade. Apesar disso, a urbanização extensiva continua a ocorrer na direção noroeste da cidade, a 50 km da Praça da Sé, bem como na região de Parelheiros, de forma descontrolada.
Em síntese, a realidade precária da periferia paulistana é conseqüência direta de um desenho urbano que, com o passar do tempo, concretizou o isolamento e à segregação de milhões de cidadãos.
Entre 1924 e 1926, os engenheiros Ulhôa Cintra e Prestes Maia apresentaram estudos para a abertura de avenidas rádio-periféricas, formadas por três grandes anéis de circulação – em volta da zona central, da zona urbana e uma parte da zona suburbana. Em 1927, esse projeto seria apoiado pelo presidente da república, Washington Luiz, cuja carreira política se fez em São Paulo.”
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“O que é a cidade senão as pessoas?” – Shakespeare (Coriolanus, 3º ato)
Em 1885, São Paulo tinha 47 mil pessoas, aumentando para 240 mil em 1900. Hoje, contando quase 20 milhões de pessoas, a região metropolitana de São Paulo é a décima cidade mais rica do mundo, responsável por 13% do PIB nacional.
Paralelamente, a política de urbanização extensiva que pavimentou todo esse crescimento durante o século 20 se mostra insustentável à nossa geração, uma vez que o processo de incorporação horizontal de áreas rurais adjacentes aos núcleos urbanos chegou ao seu limite. De fato, tanto as barreiras físicas (serras e rios) como o custo do transporte colocam claros limites a esta forma de ocupação do espaço, a qual cria distâncias que mais tarde se tornam arrependimentos.
Notamos, com facilidade, que a ausência dos órgãos governamentais nas áreas mais distantes, logisticamente menos acessíveis, levou ao crescimento da pobreza, da criminalidade e da violência na periferia da cidade. Apesar disso, a urbanização extensiva continua a ocorrer na direção noroeste da cidade, a 50 km da Praça da Sé, bem como na região de Parelheiros, de forma descontrolada.
Em síntese, a realidade precária da periferia paulistana é conseqüência direta de um desenho urbano que, com o passar do tempo, concretizou o isolamento e à segregação de milhões de cidadãos.
Entre 1924 e 1926, os engenheiros Ulhôa Cintra e Prestes Maia apresentaram estudos para a abertura de avenidas rádio-periféricas, formadas por três grandes anéis de circulação – em volta da zona central, da zona urbana e uma parte da zona suburbana. Em 1927, esse projeto seria apoiado pelo presidente da república, Washington Luiz, cuja carreira política se fez em São Paulo.”
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Cúpula ambiciosa foi uma grande desilusão
Gustavo Sierra, Clarín / Opera Mundi
“Houve um acordo, mas não inclui metas de redução de gases a médio ou a longo prazo. Obama admitiu que foi insuficiente e que um verdadeiro documento pode demorar. Haverá uma consulta em seis meses na Alemanha.
O dilema do príncipe da Dinamarca começou a sobrevoar Copenhague novamente como o fantasma que o perseguia. Ser ou não ser? A resposta veio após a meia-noite. Não ser. Depois de quase dezesseis horas de discussões entre os presidentes e duas semanas entre os especialistas de 192 países do mundo nesta cúpula crucial para as Mudanças Climáticas, foi alcançado um acordo mínimo, que não deixou ninguém satisfeito.
Depois de horas de incerteza, nas quais nenhuma autoridade saía para dizer o que estava acontecendo, a delegação norte- americana comunicou que tinha chegado a um acordo de forma unilateral "significativo" com Brasil, China, Índia e África do Sul sobre a mudança climática, incluindo uma forma de verificar a redução das emissões de gases que retêm calor na atmosfera, que havia sido o maior obstáculo até então, devido à recusa de Pequim de permitir inspeções independentes.
O acordo não contém dados sobre os compromissos de redução de CO2 a médio ou longo prazo. Nem sequer especifica o que todo mundo pensava ser um acordo capaz de reduzir as emissões em 50% até 2050.
Os únicos dados se referem aos compromissos financeiros que falam de 30 bilhões de dólares entre 2010 e 2012. A partir de então, até 2020 será formado um fundo de 100 bilhões de dólares, dos quais 70% devem ser provenientes do setor privado.
Obama saiu do Bella Center e deu uma entrevista coletiva no aeroporto só para a imprensa da Casa Branca. Ele disse que o acordo é "um primeiro passo", mas que não é suficiente para combater a ameaça do aquecimento global. Ele explicou que o acordo exige de cada um dos países uma lista de ações a serem praticadas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em quantidades específicas. E admitiu que "um acordo juridicamente vinculativo destinado a combater a mudança climática será muito difícil de conseguir e vai exigir mais tempo".
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“Houve um acordo, mas não inclui metas de redução de gases a médio ou a longo prazo. Obama admitiu que foi insuficiente e que um verdadeiro documento pode demorar. Haverá uma consulta em seis meses na Alemanha.
O dilema do príncipe da Dinamarca começou a sobrevoar Copenhague novamente como o fantasma que o perseguia. Ser ou não ser? A resposta veio após a meia-noite. Não ser. Depois de quase dezesseis horas de discussões entre os presidentes e duas semanas entre os especialistas de 192 países do mundo nesta cúpula crucial para as Mudanças Climáticas, foi alcançado um acordo mínimo, que não deixou ninguém satisfeito.
Depois de horas de incerteza, nas quais nenhuma autoridade saía para dizer o que estava acontecendo, a delegação norte- americana comunicou que tinha chegado a um acordo de forma unilateral "significativo" com Brasil, China, Índia e África do Sul sobre a mudança climática, incluindo uma forma de verificar a redução das emissões de gases que retêm calor na atmosfera, que havia sido o maior obstáculo até então, devido à recusa de Pequim de permitir inspeções independentes.
O acordo não contém dados sobre os compromissos de redução de CO2 a médio ou longo prazo. Nem sequer especifica o que todo mundo pensava ser um acordo capaz de reduzir as emissões em 50% até 2050.
Os únicos dados se referem aos compromissos financeiros que falam de 30 bilhões de dólares entre 2010 e 2012. A partir de então, até 2020 será formado um fundo de 100 bilhões de dólares, dos quais 70% devem ser provenientes do setor privado.
Obama saiu do Bella Center e deu uma entrevista coletiva no aeroporto só para a imprensa da Casa Branca. Ele disse que o acordo é "um primeiro passo", mas que não é suficiente para combater a ameaça do aquecimento global. Ele explicou que o acordo exige de cada um dos países uma lista de ações a serem praticadas para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em quantidades específicas. E admitiu que "um acordo juridicamente vinculativo destinado a combater a mudança climática será muito difícil de conseguir e vai exigir mais tempo".
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20 Dezembro, 2009
Amor esquisito
Leila Cordeiro, Direto da Redação
“Num ano em que tantas puladas de cerca foram escancaradas, falar de fidelidade e amor eterno pode ser considerado uma esquisitice. Esta semana um casal de idosos, ela com 76 e ele com 79 anos, juntos há sessenta anos, foram citados como exemplo de casamento perfeito e felicidade conjugal. Os dois viviam juntos numa casa de repouso numa cidade americana e assistiam TV diariamente de mãos dadas num sofá da clínica.
Na última sexta-feira, a enfermeira que tomava conta deles os encontrou sentados, lado a lado, em frente à TV. Estavam mortos. Ela acredita que a mulher tenha morrido primeiro e o marido, ao perceber, não suportou a dor da perda e morreu em seguida. A hipótese de suicídio foi descartada, apesar das quatro filhas do casal contarem que ambos tinham medo de morrer primeiro, deixando o outro abandonado e triste. Os médicos constataram que a morte do casal foi natural. O coração deles simplesmente parou, disseram eles. Os dois morreram sem sofrimento físico.
Sem dúvida, um amor que não se encontra mais hoje em dia. Que o digam as mulheres de tantos politicos nos EUA flagrados em romances extraconjugais. Alguns tiveram que renunciar a seus cargos por pressão política ou para tentar salvar seus casamentos.
Mas não foi só a classe política que se envolveu em escândalos sexuais. O apresentador David Letterman, que apresenta o mais famoso talk-show da TV americana, confessou diante das câmeras sua infidelidade conjugal com uma produtora de seu programa. O namorado dela, sentindo-se enganado, juntou cartas e documentos para exigir 2 milhões de dólares pelo seu silêncio. O caso está nos tribunais e não se sabe se a mulher de Letterman manteve sua intenção de pedir o divórcio.”
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“Num ano em que tantas puladas de cerca foram escancaradas, falar de fidelidade e amor eterno pode ser considerado uma esquisitice. Esta semana um casal de idosos, ela com 76 e ele com 79 anos, juntos há sessenta anos, foram citados como exemplo de casamento perfeito e felicidade conjugal. Os dois viviam juntos numa casa de repouso numa cidade americana e assistiam TV diariamente de mãos dadas num sofá da clínica.
Na última sexta-feira, a enfermeira que tomava conta deles os encontrou sentados, lado a lado, em frente à TV. Estavam mortos. Ela acredita que a mulher tenha morrido primeiro e o marido, ao perceber, não suportou a dor da perda e morreu em seguida. A hipótese de suicídio foi descartada, apesar das quatro filhas do casal contarem que ambos tinham medo de morrer primeiro, deixando o outro abandonado e triste. Os médicos constataram que a morte do casal foi natural. O coração deles simplesmente parou, disseram eles. Os dois morreram sem sofrimento físico.
Sem dúvida, um amor que não se encontra mais hoje em dia. Que o digam as mulheres de tantos politicos nos EUA flagrados em romances extraconjugais. Alguns tiveram que renunciar a seus cargos por pressão política ou para tentar salvar seus casamentos.
Mas não foi só a classe política que se envolveu em escândalos sexuais. O apresentador David Letterman, que apresenta o mais famoso talk-show da TV americana, confessou diante das câmeras sua infidelidade conjugal com uma produtora de seu programa. O namorado dela, sentindo-se enganado, juntou cartas e documentos para exigir 2 milhões de dólares pelo seu silêncio. O caso está nos tribunais e não se sabe se a mulher de Letterman manteve sua intenção de pedir o divórcio.”
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18 Dezembro, 2009
Nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo, até que um dia...
Eberth Vêncio, Revista Bula"Não se animem. Não é um conto erótico. São coisas que acontecem com a gente a todo instante. São pensamentos que varrem ou poluem nossas mentes até mesmo quando estamos dormindo. Meus maiores medos: perder um pênalti, voar, morrer queimado ou asfixiado, ter os pensamentos lidos por alguém.
Como todo ser humano normal (?!), não gosto de filas. Mesmo as filas pra se receber dinheiro, que é a razão maior de se viver (e morrer). Dentro da agência bancária lotada, eu só suportava aquela fila por causa da moça bonita a minha frente e um cheque ao portador prestes a ser descontado no caixa. Suas mãos delicadas seguravam uma pilha de carnês, duplicatas e meus desejos.
Enxerguei, abaixo dos seus ombros, uma tatuagem. O primeiro impulso, como qualquer impulso que se preze (atitude impensada), foi tocá-la, lamber a sua pele experimentando o sabor das tintas. “Quero grudar no teu corpo / feito tatuagem / que é pra te dar coragem / pra seguir viagem / quando a noite vem...” (Chico Buarque de Hollanda). Instinto domado, eu recuei.
O cabelo curtíssimo expunha a nuca tentadora e um minúsculo coração flechado. Logo abaixo, em letras garrafais, o nome de um homem: EDUARDO. Ainda mais abaixo, quase no meio das costas, como se fora o rodapé de um livro, uma “nota do editor”, um adendo, uma justa explicação em letras miúdas como se a cláusula de um contrato: “lembrança de um passado feliz”.
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17 Dezembro, 2009
Os Reis Magos, esses desconhecidos
Umberto Eco, The New York Times / Terra Magazine“Recentemente presenciei, ao acaso, dois episódios interessantes: uma adolescente folhava atentamente um livro de reproduções de arte e outros dois adolescentes visitavam (fascinados) o Louvre. Os três tinham nascido e tinham sido educados em países estritamente laicos e em famílias não tementes. Por isso, quando viam "A Balsa da Medusa" entendiam que alguns coitados tinham acabado de se salvar de um naufrágio, ou que os dois personagens de Francesco Hayez, que estão na Academia de Brera, eram dois apaixonados; mas não conseguiam entender por que o Fra Angélico representou a uma jovem conversando com um homossexual com asas ou por que um senhor transtornado descia de uma montanha aos tropeços carregando duas pedras muito pesadas e emanando raios luminosos pelos chifres.
Naturalmente os jovens reconheciam alguns personagens do Nascimento de Cristo ou em uma Crucificação, porque já tinham visto algo semelhante, mas se nesse contexto eram introduzidos três senhores com manto e coroa, já não sabiam quem eram nem de onde tinham surgido. É verdade que o mesmo acontecia com Mateus, mas essa não é a questão.
É impossível compreender aproximadamente três quartas partes da arte ocidental se não se conhecem fatos do Antigo e do Novo Testamento e as histórias dos santos. Quem é a jovem que olha fixamente um pratinho de prata? É da noite dos mortos vivos? E um cavaleiro que corta ao meio uma roupa, está fazendo uma campanha contra Armani?
Acontece que, em muitos contextos culturais, meninos e meninas aprendem no colégio tudo a respeito da morte de Heitor e nada sobre a de São Sebastião; tudo sobre o casamento de Cadmo e Harmonia, mas nada sobre o casamento em Caná. Em alguns países existe uma forte tradição pela leitura da Bíblia, e as crianças sabem tudo sobre o bezerro de ouro e nada sobre o lobo de São Francisco. Em outros lugares, estudam a Via Sacra e ficam às escuras sobre a mulier amicta solis do Apocalipse.”
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16 Dezembro, 2009
Um homem coerente
Mauro Santayana, JB Online
“Mais do que a continuidade de um talento que fascina, como regedor do espaço em sempre surpreendente arquitetura, Oscar é exemplo raro de coerência ética, intelectual e política. Para os que o conhecem de perto, ele não é o arquiteto Oscar Niemeyer; é Oscar Niemeyer, arquiteto. A profissão não lhe é substantiva: é adjetiva. Ele teria sido grande pintor, como excelente desenhista que sempre foi, mas preferiu esculpir edifícios. É certo que a estética faz parte de seu viver, na ousadia das formas, sempre belas; no equilíbrio de suas massas de concreto com a natureza, no seu texto enxuto, admirável, sólido e flutuante, como sua arquitetura. Oscar não agride nem domina a natureza: ele a seduz. É assim que sabe pesar o vento, associar-se ao mar e ao céu, como no belíssimo conjunto de Niterói, mas também ocupar as paisagens mais fechadas, quase íntimas, como a da Pampulha. Ali, convidado por Juscelino para levantar edifícios que servissem ao prazer da vida, como a Casa do Baile e o Cassino – que logo depois, com a proibição do jogo, se tornou espaço cultural – sugeriu ao prefeito a edificação da capelinha. Pelo menos era o que Juscelino contava a seus amigos, com bom humor, ao lembrar que aquela ideia piedosa partira de um comunista que chamara outros comunistas para a tarefa. Oscar, com plaisanterie, argumentara que, depois dos pecados na Casa do Baile e da possível perda no Cassino, o sujeito deveria ter um templo ao lado, para arrepender-se, pedir ajuda para se recuperar.
Na capela da Pampulha, que lembra a de São Francisco em Porciúncula, só podia ser dedicada ao poverello de Assis. Não iriam Oscar e Portinari colocar seu talento em louvor de algum santo guerreiro, como Bernardo de Claraval, que abençoou todas as atrocidades dos cruzados na Terra Santa. A singeleza das formas, com as paredes e o teto curvando-se como se imitassem a humildade do mais singelo de todos os santos, pediam a ousadia de outro criador, Candido Portinari. Uma das mais belas ideias do maior de nossos pintores foi a de deixar o lobo na selva e trazer seu descendente, o cão, para fazer companhia a São Francisco, ao lado dos pobres. Era a clara intenção de dar sentido mais humano à santidade de São Francisco, mediante o cão, companheiro milenar do homem, e dele assemelhado na astúcia, nos caprichos, na neurose, na ferocidade utilitária, na desabrida sexualidade.”
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“Mais do que a continuidade de um talento que fascina, como regedor do espaço em sempre surpreendente arquitetura, Oscar é exemplo raro de coerência ética, intelectual e política. Para os que o conhecem de perto, ele não é o arquiteto Oscar Niemeyer; é Oscar Niemeyer, arquiteto. A profissão não lhe é substantiva: é adjetiva. Ele teria sido grande pintor, como excelente desenhista que sempre foi, mas preferiu esculpir edifícios. É certo que a estética faz parte de seu viver, na ousadia das formas, sempre belas; no equilíbrio de suas massas de concreto com a natureza, no seu texto enxuto, admirável, sólido e flutuante, como sua arquitetura. Oscar não agride nem domina a natureza: ele a seduz. É assim que sabe pesar o vento, associar-se ao mar e ao céu, como no belíssimo conjunto de Niterói, mas também ocupar as paisagens mais fechadas, quase íntimas, como a da Pampulha. Ali, convidado por Juscelino para levantar edifícios que servissem ao prazer da vida, como a Casa do Baile e o Cassino – que logo depois, com a proibição do jogo, se tornou espaço cultural – sugeriu ao prefeito a edificação da capelinha. Pelo menos era o que Juscelino contava a seus amigos, com bom humor, ao lembrar que aquela ideia piedosa partira de um comunista que chamara outros comunistas para a tarefa. Oscar, com plaisanterie, argumentara que, depois dos pecados na Casa do Baile e da possível perda no Cassino, o sujeito deveria ter um templo ao lado, para arrepender-se, pedir ajuda para se recuperar.
Na capela da Pampulha, que lembra a de São Francisco em Porciúncula, só podia ser dedicada ao poverello de Assis. Não iriam Oscar e Portinari colocar seu talento em louvor de algum santo guerreiro, como Bernardo de Claraval, que abençoou todas as atrocidades dos cruzados na Terra Santa. A singeleza das formas, com as paredes e o teto curvando-se como se imitassem a humildade do mais singelo de todos os santos, pediam a ousadia de outro criador, Candido Portinari. Uma das mais belas ideias do maior de nossos pintores foi a de deixar o lobo na selva e trazer seu descendente, o cão, para fazer companhia a São Francisco, ao lado dos pobres. Era a clara intenção de dar sentido mais humano à santidade de São Francisco, mediante o cão, companheiro milenar do homem, e dele assemelhado na astúcia, nos caprichos, na neurose, na ferocidade utilitária, na desabrida sexualidade.”
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Quem espera sempre alcança?
Maria Clara Lucchetti Bingemer, Adital
“A esperança é o tema por excelência deste tempo que antecede o Natal. O próprio nome já diz: Advento. Advento inspira pensar no que vem e, portanto, no que é esperado. Olhos postos na vinda do esperado, a humanidade deseja e suspira, e a Igreja celebra e se prepara pela oração e pela penitência.
Esperar é preciso, nos diz o tempo litúrgico e a profundidade de nossos afetos. Mas quem espera deseja alcançar o que espera. E quem espera... alcança sempre? Ou pelo menos às vezes? Inspirados pela canção de Gilberto Gil, afirmamos: "Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança" recordando a inesquecível interpretação de Elis e Jair Rodrigues.
Os recentes episódios dos exames de ingresso no ensino superior no Brasil -notadamente os lamentáveis ocorridos com o ENEM- nos dizem, por um lado, como o esperar move mentes e corações e, por outro, como o defraudar da espera pode ser prejudicial e daninho para toda uma geração que apostara em um exame a partir do qual enxergava a construção de seu futuro profissional e que determinaria todo o desenrolar de sua vida.
Quem já terminou o segundo grau e fez o famigerado vestibular sabe toda a carga de expectativa que é posta naquela prova que funciona como um gargalo para as instituições de ensino superior brasileiras. São muitos milhares e mesmo milhões de jovens que passam muitas horas sob um sol causticante, em lugares absolutamente desconfortáveis, apostando na esperança de ingressar na universidade e iniciar o percurso em direção a um futuro melhor.”
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“A esperança é o tema por excelência deste tempo que antecede o Natal. O próprio nome já diz: Advento. Advento inspira pensar no que vem e, portanto, no que é esperado. Olhos postos na vinda do esperado, a humanidade deseja e suspira, e a Igreja celebra e se prepara pela oração e pela penitência.
Esperar é preciso, nos diz o tempo litúrgico e a profundidade de nossos afetos. Mas quem espera deseja alcançar o que espera. E quem espera... alcança sempre? Ou pelo menos às vezes? Inspirados pela canção de Gilberto Gil, afirmamos: "Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança" recordando a inesquecível interpretação de Elis e Jair Rodrigues.
Os recentes episódios dos exames de ingresso no ensino superior no Brasil -notadamente os lamentáveis ocorridos com o ENEM- nos dizem, por um lado, como o esperar move mentes e corações e, por outro, como o defraudar da espera pode ser prejudicial e daninho para toda uma geração que apostara em um exame a partir do qual enxergava a construção de seu futuro profissional e que determinaria todo o desenrolar de sua vida.
Quem já terminou o segundo grau e fez o famigerado vestibular sabe toda a carga de expectativa que é posta naquela prova que funciona como um gargalo para as instituições de ensino superior brasileiras. São muitos milhares e mesmo milhões de jovens que passam muitas horas sob um sol causticante, em lugares absolutamente desconfortáveis, apostando na esperança de ingressar na universidade e iniciar o percurso em direção a um futuro melhor.”
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14 Dezembro, 2009
2012: é o fim do mundo mesmo!
Ademir Luiz, Revista Bula“Já dizia o grande filósofo, guru, menestrel e pegador Oswaldo Montenegro: “Se o planeta explodir, eu quero que seja em plena manhã de domingo e que eu possa assistir”. Um dos filmes de maior sucesso da temporada trata exatamente disso: a possibilidade do mundo acabar em um final de semana, possibilitando que alguns privilegiados possam tranquilamente apreciar o espetáculo de sons, luzes e cores; enquanto o circo pega fogo. Trata-se do besteirol “2012”, dirigido pelo especialista em demolições planetárias Roland Emmerich, responsável por outros quase fins do mundo como “Independence Day” e “O Dia Depois de Amanhã”.
O filme é tecnicamente impecável, claro. O que não passa de obrigação, considerando seu obsceno orçamento. Nunca o Armageddon foi tão grandioso, eletrizante e, vá lá, bonito de se ver. Em “2012”, elevaram à enésima potência os maremotos de “Mar em Fúria”, os terremotos de “Superman, o Filme”, as explosões vulcânicas de “O Inferno de Dante” etc, etc, etc. As cenas da destruição da Capela Sistina e da Basílica de São Pedro, de tão bem feitas, só não são comoventes porque são apelativas. Assistindo-as não sentimos que algum dia podemos realmente perder essas obras-primas do engenho humano. Assim como não sentimos que podemos, finalmente, nos livrar da kitsch estátua que chamam de Cristo Redentor. Em todo caso, o apuro técnico é tão deslumbrante que simplesmente esquecemos que bilhões de pessoas estão morrendo na nossa frente. Parece ser essa a intenção: pasteurizar o fim dos tempos. Poucas gotas de sangue aparecem na tela.”
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13 Dezembro, 2009
O porrete de madame Clinton
Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação
“Acabaram-se as ilusões em relação ao governo Barack Obama. Isso, claro, para quem as tinha. Na América Latina, por exemplo, além das sete bases militares dos Estados Unidos na Colômbia, agora aparece a Secretária de Estado advertindo os países do continente.
Ao mais puro estilo dos tempos da política do porrete, Hillary Clinton alertou os governos que querem se aproximar do Irã para que “pensem duas vezes”. E continuou afirmando que "relacionar-se com o Irã é uma má idéia". A Secretária de Estado, sabidamente vinculada a setores mais conservadores do establishment estadunidense, quer que “os países latino-americanos reconheçam que o Irã é um dos maiores promotores e exportadores do terrorismo nos dias atuais". De quebra, para variar, a Secretária de Estado criticou a Bolívia, onde o presidente Evo Morales acabou de ser reeleito com cerca de 63%, e a República Bolivariana da Venezuela.
Na edição de um dos jornais da TV Globo, os âncoras fizeram eco à advertência e ainda por cima demonstraram certa indignação pelo fato de Hillary Clinton não ter citado o Brasil. Foi lembrado que Mahmoud Ahmadinejad passou 24 horas em Brasília etc e tal.
Na verdade, o Irã é um mero pretexto. Se não tivesse o Irã com Ahmadinejad apareceria outro argumento para atender os interesses estadunidenses. No fundo, o governo Barack Obama não se conforma que no continente americano haja governos que não se intimidam com pressões de uma potência que não aceita o fato de a América Latina estar dando o recado segundo o qual acabaram-se os tempos de a região ser um mero quintal ou pátio traseiro dos Estados Unidos.”
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“Acabaram-se as ilusões em relação ao governo Barack Obama. Isso, claro, para quem as tinha. Na América Latina, por exemplo, além das sete bases militares dos Estados Unidos na Colômbia, agora aparece a Secretária de Estado advertindo os países do continente.
Ao mais puro estilo dos tempos da política do porrete, Hillary Clinton alertou os governos que querem se aproximar do Irã para que “pensem duas vezes”. E continuou afirmando que "relacionar-se com o Irã é uma má idéia". A Secretária de Estado, sabidamente vinculada a setores mais conservadores do establishment estadunidense, quer que “os países latino-americanos reconheçam que o Irã é um dos maiores promotores e exportadores do terrorismo nos dias atuais". De quebra, para variar, a Secretária de Estado criticou a Bolívia, onde o presidente Evo Morales acabou de ser reeleito com cerca de 63%, e a República Bolivariana da Venezuela.
Na edição de um dos jornais da TV Globo, os âncoras fizeram eco à advertência e ainda por cima demonstraram certa indignação pelo fato de Hillary Clinton não ter citado o Brasil. Foi lembrado que Mahmoud Ahmadinejad passou 24 horas em Brasília etc e tal.
Na verdade, o Irã é um mero pretexto. Se não tivesse o Irã com Ahmadinejad apareceria outro argumento para atender os interesses estadunidenses. No fundo, o governo Barack Obama não se conforma que no continente americano haja governos que não se intimidam com pressões de uma potência que não aceita o fato de a América Latina estar dando o recado segundo o qual acabaram-se os tempos de a região ser um mero quintal ou pátio traseiro dos Estados Unidos.”
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Um por todos
José Luiz Teixeira, Terra Magazine“A compra das Casas Bahia pelo Grupo Pão de Açúcar, realizada recentemente, seria proibida na minha ilha.
Assim como a "Utopia", de Thomas Morus, também tenho na imaginação uma pequena porção de terra cercada de água por todos os lados na qual estabeleceria minha sociedade ideal.
Ali não seria permitido que uma só pessoa ou grupo fosse dono de grandes corporações - como está acontecendo agora com o empresário Abílio Diniz que passa a deter, sozinho, o controle de várias redes de lojas de varejo do Brasil.
Na minha ilha, cada cidadão só poderia ter uma unidade de cada coisa - seja lá o que fosse.
Só poderíamos ter uma casa, um carro, um sítio, um supermercado, um barco, um banco, um ônibus, um avião, uma fábrica e assim por diante.
Devo esclarecer que não tenho nada pessoal contra Abílio Diniz, homem que merece admiração por seu extraordinário talento empresarial.
Cito-o apenas como exemplo, com a seguinte questão: por que só ele precisa ter todos os supermercados que existem?
Não poderia ser apenas o proprietário da unidade da Praça Pan-americana, no Alto de Pinheiros, em São Paulo, uma das mais chiques da rede?
Somente com a renda desse ponto, imagino que levaria o mesmo padrão de vida que tem atualmente, com casa, sítio, barco, viagens, incluindo-se aí até eventuais caprichos de sua jovem esposa.”
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12 Dezembro, 2009
Apocalipse agora
Frei Betto, Adital“O fim do mundo sempre me pareceu algo muito longínquo. Até um contrassenso. Deus haveria de destruir sua Criação? Hoje me convenço de que Deus nem precisa mais pensar em novo dilúvio. O próprio ser humano começou a provocá-lo, através da degradação da natureza.
Os bens da Terra tornaram-se posse privada de empresas e oligopólios. A causa de 4 bilhões de seres humanos viverem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecer fome, é uma só: toda essa gente foi impedida de acesso à terra, à água, à semente, às novas técnicas de cultivo e aos sistemas de comercialização de produtos.
A decisão dos EUA e da China de ignorarem a Conferência de Copenhague sobre Mudanças Climáticas torna mais agônico o grito da Terra. Os dois países são os principais emissores de CO2 na atmosfera. São os grandes culpados pelo aquecimento global. Ao decidirem boicotar Copenhague e adiar o compromisso de reduzirem suas emissões, eles abreviam a agonia do planeta.
Felizmente, a 25 de novembro o presidente Obama, sob forte pressão, voltou atrás e desdisse o que falara em Pequim. Os EUA, responsáveis por 23% das emissões mundiais de CO2, prometerá em Copenhague reduzir, até 2020, 17% das emissões de gases de efeito estufa; 30% até 2025; e 42% até 2030.
Por que o recuo? Além da pressão dos ecologistas, Obama deu-se conta de que ficaria mal na foto ignorar Copenhague e comparecer em Oslo, dia 10 de dezembro - quando se comemora o 61º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - para receber o prêmio Nobel da Paz. Portanto, na véspera estará na capital da Dinamarca.
Curioso, todos os prêmios Nobel são entregues em Estocolmo, exceto o da Paz. Por uma simples e cínica razão: a fortuna da Fundação Nobel, sediada na Suécia, resulta da herança do inventor da dinamite, Alfred Nobel (1833-1896), utilizada como explosivo em guerras. Como não teve filhos, Nobel destinou os lucros obtidos por sua patente a quem se destacar em determinadas áreas do saber.”
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11 Dezembro, 2009
A blogueira Yoani e suas contradições
Frei Betto, Adital
“O mundo soube que, a 7 de novembro último, a blogueira cubana Yoani Sánchez teria sido golpeada nas ruas de Havana. Segundo relato dela, "jogaram-me dentro de um carro... arranquei um papel que um deles levava e o levei à boca. Fui golpeada para devolver o documento. Dentro do carro estava Orlando (marido dela), imobilizado por uma chave de karatê... Golpearam-me nos rins e na cabeça para que eu devolvesse o papel... Nos largaram na rua... Uma mulher se aproximou: "O que aconteceu?" "Um sequestro", respondi. (www.desdecuba.com/generaciony)
Três dias depois do ocorrido nas ruas da Havana, Yoani Sánchez recebeu em sua casa a imprensa estrangeira. Fernando Ravsberg, da BBC, notou que, apesar de todas as torturas descritas por ela, "não havia hematomas, marcas ou cicatrizes" (BBC Mundo, 9/11/2009). O que foi confirmado pelas imagens da CNN. A France Press divulgou que ela "não foi ferida."
Na entrevista à BBC, Yoani Sánchez declarou que as marcas e hematomas haviam desaparecido (em apenas 48 horas), exceto as das nádegas, "que lamentavelmente não posso mostrar". Ora, por que, no mesmo dia do suposto sequestro, não mostrou por seu blog, repleto de fotos, as que afirmou ter em outras partes do corpo?
Havia divulgado que a agressão ocorreu à luz do dia, diante de um ponto de ônibus "cheio de gente." Os correspondentes estrangeiros em Cuba não encontraram até hoje uma única testemunha. E o marido dela se recusou a falar à imprensa.
O suposto ataque à blogueira cubana mereceu mais destaque na mídia que uma centena de assassinatos, desaparecimentos e atos de violência da ditadura hondurenha de Roberto Micheletti, desde 27 de junho.
Yoani Sánchez nasceu em 1975, formou-se em filologia em 2000 e, dois anos depois, "diante do desencanto e a asfixia econômica em Cuba", como registra no blog, mudou-se para a Suíça em companhia do filho Téo. Ali trabalhou em editoras e deu aulas de espanhol.”
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“O mundo soube que, a 7 de novembro último, a blogueira cubana Yoani Sánchez teria sido golpeada nas ruas de Havana. Segundo relato dela, "jogaram-me dentro de um carro... arranquei um papel que um deles levava e o levei à boca. Fui golpeada para devolver o documento. Dentro do carro estava Orlando (marido dela), imobilizado por uma chave de karatê... Golpearam-me nos rins e na cabeça para que eu devolvesse o papel... Nos largaram na rua... Uma mulher se aproximou: "O que aconteceu?" "Um sequestro", respondi. (www.desdecuba.com/generaciony)
Três dias depois do ocorrido nas ruas da Havana, Yoani Sánchez recebeu em sua casa a imprensa estrangeira. Fernando Ravsberg, da BBC, notou que, apesar de todas as torturas descritas por ela, "não havia hematomas, marcas ou cicatrizes" (BBC Mundo, 9/11/2009). O que foi confirmado pelas imagens da CNN. A France Press divulgou que ela "não foi ferida."
Na entrevista à BBC, Yoani Sánchez declarou que as marcas e hematomas haviam desaparecido (em apenas 48 horas), exceto as das nádegas, "que lamentavelmente não posso mostrar". Ora, por que, no mesmo dia do suposto sequestro, não mostrou por seu blog, repleto de fotos, as que afirmou ter em outras partes do corpo?
Havia divulgado que a agressão ocorreu à luz do dia, diante de um ponto de ônibus "cheio de gente." Os correspondentes estrangeiros em Cuba não encontraram até hoje uma única testemunha. E o marido dela se recusou a falar à imprensa.
O suposto ataque à blogueira cubana mereceu mais destaque na mídia que uma centena de assassinatos, desaparecimentos e atos de violência da ditadura hondurenha de Roberto Micheletti, desde 27 de junho.
Yoani Sánchez nasceu em 1975, formou-se em filologia em 2000 e, dois anos depois, "diante do desencanto e a asfixia econômica em Cuba", como registra no blog, mudou-se para a Suíça em companhia do filho Téo. Ali trabalhou em editoras e deu aulas de espanhol.”
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10 Dezembro, 2009
Este século começou mal
Roberto Sávio, IPS / Envolverde
“Convenhamos, com tristeza, que o novo século, em sua primeira década, não se direciona para o otimismo. Não só não foi solucionado nenhum dos problemas que tínhamos, como vão sendo acrescentados outros mais extraordinários. As conflitivas situações no Irã e na Coréia do Norte não melhoram. Está piorando a questão palestina, já que Israel desafia abertamente Barack Obama com novas construções nos assentamentos em território árabe. Sabe que nenhum governo norte-americano ousará desafiar o poderoso lobby pró-israelense. Enquanto é difícil fazer um prognóstico sobre o Iraque, é fácil fazê-lo sobre o Afeganistão aonde, segundo o Pentágono, cada soldado custa US$ 1 milhão por ano, para uma guerra de improvável vitória e que apresenta um horizonte de pelo menos cinco anos.
O milagre de Nelson Mandela vai se desvanecendo na África do Sul, o Zimbábue segue imutável e a corrupção na África (e no mundo) continua aumentando, segundo a Transparência Internacional. Na América Latina, a saída próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o grande mediador, significará um aumento das divergências regionais. A Ásia é o único polo de crescimento, com uma China que não pode ser parada (mas que não quer jogar em equipe com ninguém) e um crescimento geral das economias. Nestes anos do novo século surgiram problemas antes desconhecidos em nível global. A novidade é que estamos em plena globalização e não sabemos como gerenciá-la.
A crise desencadeada pelas especulações financeiras criou cem milhões de novos pobres, segundo o Banco Mundial. Porém, não serviu de lição ao poder político, que em lugar de reformar o sistema para torná-lo responsável optou por salvá-lo custe o que custar: a módica quantia de US$ 18 trilhões, equivalente ao total da ajuda ao Terceiro Mundo durante 150 anos. E foi decidido – por omissão – nada mudar, fora alguns retoques cosméticos. De fato, os bancos eliminaram apenas 50% dos títulos tóxicos que causaram a crise e os derivativos, outro fator desencadeante, já somam seis vezes e meia o Produto Bruto Mundial.
A única certeza é que os Estados que intervieram, Estados Unidos à frente, encaram um déficit fiscal gravemente aumentado e um desemprego sem precedentes, enquanto os especialistas preveem o agravamento da crise imobiliária norte-americana e destacam a insuficiência dos programas de Obama para os milhões de norte-americanos que perderam ou estão perdendo suas casas.”
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“Convenhamos, com tristeza, que o novo século, em sua primeira década, não se direciona para o otimismo. Não só não foi solucionado nenhum dos problemas que tínhamos, como vão sendo acrescentados outros mais extraordinários. As conflitivas situações no Irã e na Coréia do Norte não melhoram. Está piorando a questão palestina, já que Israel desafia abertamente Barack Obama com novas construções nos assentamentos em território árabe. Sabe que nenhum governo norte-americano ousará desafiar o poderoso lobby pró-israelense. Enquanto é difícil fazer um prognóstico sobre o Iraque, é fácil fazê-lo sobre o Afeganistão aonde, segundo o Pentágono, cada soldado custa US$ 1 milhão por ano, para uma guerra de improvável vitória e que apresenta um horizonte de pelo menos cinco anos.
O milagre de Nelson Mandela vai se desvanecendo na África do Sul, o Zimbábue segue imutável e a corrupção na África (e no mundo) continua aumentando, segundo a Transparência Internacional. Na América Latina, a saída próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o grande mediador, significará um aumento das divergências regionais. A Ásia é o único polo de crescimento, com uma China que não pode ser parada (mas que não quer jogar em equipe com ninguém) e um crescimento geral das economias. Nestes anos do novo século surgiram problemas antes desconhecidos em nível global. A novidade é que estamos em plena globalização e não sabemos como gerenciá-la.
A crise desencadeada pelas especulações financeiras criou cem milhões de novos pobres, segundo o Banco Mundial. Porém, não serviu de lição ao poder político, que em lugar de reformar o sistema para torná-lo responsável optou por salvá-lo custe o que custar: a módica quantia de US$ 18 trilhões, equivalente ao total da ajuda ao Terceiro Mundo durante 150 anos. E foi decidido – por omissão – nada mudar, fora alguns retoques cosméticos. De fato, os bancos eliminaram apenas 50% dos títulos tóxicos que causaram a crise e os derivativos, outro fator desencadeante, já somam seis vezes e meia o Produto Bruto Mundial.
A única certeza é que os Estados que intervieram, Estados Unidos à frente, encaram um déficit fiscal gravemente aumentado e um desemprego sem precedentes, enquanto os especialistas preveem o agravamento da crise imobiliária norte-americana e destacam a insuficiência dos programas de Obama para os milhões de norte-americanos que perderam ou estão perdendo suas casas.”
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09 Dezembro, 2009
Copenhague e o mito de Palamedes
Mauro Santayana, JB Online
“Palamedes é das personagens mais instigantes da mitologia grega. Rival de Ulysses e Diomedes na Guerra de Troia, a ele se atribuem as primeiras ideias sobre o futuro do homem. Sendo visto como homem – e não como o titã Prometeu – ele pode ser considerado o pioneiro do desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com o mito, a ele coube a invenção do alfabeto, do sistema de pesos e medidas, do jogo de dados, do hábito de se comer a horas certas, da técnica de cunhar moedas, da divisão do dia em horas – e outras coisas mais. Platão (República, livro VII, 522) o cita como inventor da aritmética, e lhe credita a sabedoria tática no cerco de Troia.
Se houvesse tempo para isso, e a Conferência de Copenhague contasse com a assessoria de filósofos, seria interessante voltar a Palamedes e a Prometeu, para o início das reflexões sobre a Terra e o destino próximo do homem. Os gregos, que descobriram todos os caminhos, foram cautelosos no emprego da tecnologia. Talvez por causa da consciência da efemeridade da vida, que Heródoto resume, ao dizer que “o homem é, em tudo, e por tudo, um objeto do acaso”, e que o saber é resultado do sofrimento.
As grandes conferências internacionais servem – e nisso são importantes – para a discussão dos problemas e a divulgação das ideias e propostas, mas raramente trazem resultados práticos. No caso do meio ambiente há razões para o ceticismo. Há 37 anos houve a Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente, promovida pelas Nações Unidas, em Estocolmo – bem perto de Copenhague. As circunstâncias me fizeram presente ao encontro, como correspondente deste jornal. Outras reuniões, entre elas a do Rio, em 1992, e a de Kyoto, trouxeram muitas esperanças, mas as esperanças esmaeceram com o tempo. Agora, ao que parece, os Estados Unidos e a China estão dispostos a assumir compromissos – o que renova a promessa de algumas medidas.”
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“Palamedes é das personagens mais instigantes da mitologia grega. Rival de Ulysses e Diomedes na Guerra de Troia, a ele se atribuem as primeiras ideias sobre o futuro do homem. Sendo visto como homem – e não como o titã Prometeu – ele pode ser considerado o pioneiro do desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com o mito, a ele coube a invenção do alfabeto, do sistema de pesos e medidas, do jogo de dados, do hábito de se comer a horas certas, da técnica de cunhar moedas, da divisão do dia em horas – e outras coisas mais. Platão (República, livro VII, 522) o cita como inventor da aritmética, e lhe credita a sabedoria tática no cerco de Troia.
Se houvesse tempo para isso, e a Conferência de Copenhague contasse com a assessoria de filósofos, seria interessante voltar a Palamedes e a Prometeu, para o início das reflexões sobre a Terra e o destino próximo do homem. Os gregos, que descobriram todos os caminhos, foram cautelosos no emprego da tecnologia. Talvez por causa da consciência da efemeridade da vida, que Heródoto resume, ao dizer que “o homem é, em tudo, e por tudo, um objeto do acaso”, e que o saber é resultado do sofrimento.
As grandes conferências internacionais servem – e nisso são importantes – para a discussão dos problemas e a divulgação das ideias e propostas, mas raramente trazem resultados práticos. No caso do meio ambiente há razões para o ceticismo. Há 37 anos houve a Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente, promovida pelas Nações Unidas, em Estocolmo – bem perto de Copenhague. As circunstâncias me fizeram presente ao encontro, como correspondente deste jornal. Outras reuniões, entre elas a do Rio, em 1992, e a de Kyoto, trouxeram muitas esperanças, mas as esperanças esmaeceram com o tempo. Agora, ao que parece, os Estados Unidos e a China estão dispostos a assumir compromissos – o que renova a promessa de algumas medidas.”
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A tortura do medo
André Setaro, Terra Magazine"A tortura do medo" ("Peeping tom", 1960), de Michael Powell, quando lançado na Inglaterra, apesar de assinado por um cineasta famoso, recebeu as mais severas críticas e o público, incomodado, se retirou das salas, a ponto de comprometer a carreira de seu diretor, que ficaria anos sem poder exercer a sua profissão pela recusa sistemática dos produtores. Na verdade, esta obra-prima, que trata do "voyeurismo", incomodou os britânicos pela sua franqueza de exposição e pela habilidade de colocar o espectador na mesma posição de "voyeur" de seu personagem principal, um assassino que se compraz em matar mulheres para ver, nelas, o medo estampado no rosto enquanto estão a morrer e sendo filmadas pela sua câmara portátil. O espectador gosta de ser cúmplice de determinadas situações, quando, por exemplo, o personagem não tem ciência do perigo que corre, mas já sabido pelo público que é, pelo cineasta, "avisado" com antecedência. Em "Um corpo que cai" ("Vertigo"), obra-prima do cinema e de Hitchcock, a platéia já sabe que Judy é Madeleine, mas o apaixonado James Stewart continua ignaro da situação. Em "Peeping Tom", Powell, num ato de audácia, faz com que o espectador seja confundido com um assassino e tenha, também, o prazer de um "voyeur".
Desprezado pela crítica e pelo público, "Peeping Tom" precisou esperar mais de uma década até que foi redivivo nos anos 70 e considerado, por realizadores e críticos como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Claude Beylie, entre tantos, uma obra-prima. Scorsese, inclusive, chegou a comprar o negativo em 35mm para restaurar o filme em suas cores magníficas. Com o advento do DVD, a Criterion (distribuidora que somente lança obras luminosas e bem definidas) distribuiu "Peeping Tom" no mercado americano. A Silver Screen, embora não mantendo a qualidade das cópias da Criterion, lançou, há dois anos, o filme no Brasil. É um acontecimento importante para o cinema e para quem gosta de cinema já que o circuito comercial, honradas as exceções de sempre, impõe ao mercado o lixo cultural oriundo da indústria americana.
Mark Lewis (interpretado por Karl-Heinz Boehm, conhecido como o imperador, marido de Romy Schneider, na série "Sissi") é um jovem "cameraman" que vive, para cima e para baixo, com sua câmera portátil 16mm debaixo do braço. Tem prazer em filmar, com ela, as prostitutas que o abordam na rua e matá-las com um estilete dissimulado no pé da máquina. Para aumentar seu prazer, ele mostra a suas vítimas, no momento crucial, um espelho parabólico que reflete a imagem de seu pavor na hora exata de morrer. Ele faz confidências à vizinha (interpretada por Anna Massey, que, mais de dez anos depois, em 1972, Hitchcock, quando filmou em Londres seu extraordinário "Frenesi"/"Frenzy", a convidou para o papel da namorada de Jon Finch, vítima de estrangulamento pelo "serial" Barry Foster - e não a dúvida que o mestre se influenciou muito no filme de Powell em "Frenzy") e exibe, no seu quarto, através de um projetor 16mm, para ela, os filmes amadores feitos pelo seu pai, um psiquiatra que utilizava o filho como cobaia para estudar a reação das pessoas diante do medo. Interessante observar que o pai (visto nos filmes projetados em preto e branco) é interpretado pelo próprio Michael Powell. Renomado psiquiatra tem como objetivo a investigação do pavor no ser humano. O filho passa a infância sendo filmado a toda hora e a qualquer momento. O que lhe provoca nada menos que um imenso trauma. Seu gosto perverso pelo "voyeurismo" vem daí.”
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Peeping Tom
08 Dezembro, 2009
O que está em jogo em Copenhague
Leonardo Boff, Adital
“Em Copenhague os 192 representantes dos povos vão se confrontar com uma irreversibilidade: a Terra já se aqueceu, em grande, por causa de nosso estilo de produzir, de consumir e de tratar a natureza. Só nos cabe adaptamo-nos às mudanças e mitigar seus efeitos perversos.
O normal seria que a humanidade se pergunta, tal como um médico faz ao seu paciente: por que chegamos a esta situação? Importa considerar os sintomas e identificar a causa. Errôneo seria tratar dos sintomas deixando a causa intocada continuando a ameaçar a saúde do paciente.
É exatamente o que parece estar ocorrendo em Copenhague. Procuram-se meios para tratar os sintomas, mas não se vai à causa fundamental. A mudança climática com eventos extremos é um sintoma produzido por gases de efeito estufa que tem a digital humana. As soluções sugeridas são: diminuir as porcentagens dos gases, mais altas para os países industrializados; e mais baixas para os em desenvolvimento; criar fundos financeiros para socorrer os países pobres e transferir tecnologias para os retardatários. Tudo isso no quadro de infindáveis discussões que emperram os consensos mínimos.
Estas medidas atacam apenas os sintomas. Há que se ir mais fundo, às causas que produzem tais gases prejudiciais à saúde de todos os viventes e da própria Terra. Copenhague dar-se-ia a ocasião de se fazer com coragem um balanço de nossas práticas em relação com a natureza, com humildade reconhecer nossa responsabilidade e com sabedoria receitar o remédio adequado. Mas, não é isto que está previsto. A estratégia dominante é receitar aspirina para quem tem uma grave doença cardíaca ao invés de fazer um transplante.”
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“Em Copenhague os 192 representantes dos povos vão se confrontar com uma irreversibilidade: a Terra já se aqueceu, em grande, por causa de nosso estilo de produzir, de consumir e de tratar a natureza. Só nos cabe adaptamo-nos às mudanças e mitigar seus efeitos perversos.
O normal seria que a humanidade se pergunta, tal como um médico faz ao seu paciente: por que chegamos a esta situação? Importa considerar os sintomas e identificar a causa. Errôneo seria tratar dos sintomas deixando a causa intocada continuando a ameaçar a saúde do paciente.
É exatamente o que parece estar ocorrendo em Copenhague. Procuram-se meios para tratar os sintomas, mas não se vai à causa fundamental. A mudança climática com eventos extremos é um sintoma produzido por gases de efeito estufa que tem a digital humana. As soluções sugeridas são: diminuir as porcentagens dos gases, mais altas para os países industrializados; e mais baixas para os em desenvolvimento; criar fundos financeiros para socorrer os países pobres e transferir tecnologias para os retardatários. Tudo isso no quadro de infindáveis discussões que emperram os consensos mínimos.
Estas medidas atacam apenas os sintomas. Há que se ir mais fundo, às causas que produzem tais gases prejudiciais à saúde de todos os viventes e da própria Terra. Copenhague dar-se-ia a ocasião de se fazer com coragem um balanço de nossas práticas em relação com a natureza, com humildade reconhecer nossa responsabilidade e com sabedoria receitar o remédio adequado. Mas, não é isto que está previsto. A estratégia dominante é receitar aspirina para quem tem uma grave doença cardíaca ao invés de fazer um transplante.”
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07 Dezembro, 2009
A tecnologia do retrocesso
“Este subcapitalismo desigual e combinado – que combina a iniquidade do atraso com a truculência do progresso – constitui a ideologia demotucana”
Márcia Denser, Congresso em Foco
O comportamento da oposição demotucana, cujo caráter nocivo-corrosivo atingiu uma espécie de ápice dia 27/11 com o “relato” à Folha de César Benjamin (que não vou recaptular nem dar feed-back porque quem dá cartaz para trouxa é lavadeira), coloca definitivamente a pergunta que não quer calar: é possível ganhar eleição com uma agenda exclusivamente negativa? Porque, se os governos Serra/Yeda Crusius/FHC forem os paradigmas positivos, os exemplos notáveis de suas realizações, então o eleitor está perdido.
Até porque nas realizações demotucanas (e por realização entenda-se tudo o que não é factóide ou desacontecimento) o sinal também se inverte, constituindo eventos negativos, uma vez que seus políticos atuam contra os interesses da população que os elege (bato nessa tecla em várias colunas). Lembrando ainda que este subcapitalismo desigual e combinado – que combina a iniquidade do atraso com a truculência do progresso – constitui a ideologia demotucana.
Aliás, a oposição continua buscando representar o irrepresentável: a burguesia nacional que já não manda, o capital financeiro, que é o obstáculo ao desenvolvimento, pois já se desligou de qualquer representação de classe e cujos interesses promovem a exclusão – eis sua contribuição à práxis política. A união ideal do Inútil ao Desagradável: querem voltar a exportar entreguismo de ponta! Que o país retorne à condição de eterno gigante bobo adormecido com seu chocalho multinacional. Assim, este sub-horizonte eleitoral “avança” em “marcha a ré para trás”, sinalizando, em 2010, com o que nos espera se ocorrer o retorno ao Planalto “do modo demotucano de governar”, ou seja, da tecnologia do futuro em retrocesso!”
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Márcia Denser, Congresso em Foco
O comportamento da oposição demotucana, cujo caráter nocivo-corrosivo atingiu uma espécie de ápice dia 27/11 com o “relato” à Folha de César Benjamin (que não vou recaptular nem dar feed-back porque quem dá cartaz para trouxa é lavadeira), coloca definitivamente a pergunta que não quer calar: é possível ganhar eleição com uma agenda exclusivamente negativa? Porque, se os governos Serra/Yeda Crusius/FHC forem os paradigmas positivos, os exemplos notáveis de suas realizações, então o eleitor está perdido.
Até porque nas realizações demotucanas (e por realização entenda-se tudo o que não é factóide ou desacontecimento) o sinal também se inverte, constituindo eventos negativos, uma vez que seus políticos atuam contra os interesses da população que os elege (bato nessa tecla em várias colunas). Lembrando ainda que este subcapitalismo desigual e combinado – que combina a iniquidade do atraso com a truculência do progresso – constitui a ideologia demotucana.
Aliás, a oposição continua buscando representar o irrepresentável: a burguesia nacional que já não manda, o capital financeiro, que é o obstáculo ao desenvolvimento, pois já se desligou de qualquer representação de classe e cujos interesses promovem a exclusão – eis sua contribuição à práxis política. A união ideal do Inútil ao Desagradável: querem voltar a exportar entreguismo de ponta! Que o país retorne à condição de eterno gigante bobo adormecido com seu chocalho multinacional. Assim, este sub-horizonte eleitoral “avança” em “marcha a ré para trás”, sinalizando, em 2010, com o que nos espera se ocorrer o retorno ao Planalto “do modo demotucano de governar”, ou seja, da tecnologia do futuro em retrocesso!”
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06 Dezembro, 2009
Maestro da nação
“Em novembro deste ano se passou o 50º aniversário da morte de Heitor Villa Lobos, o grande maestro que mais do que ninguém simboliza na música, inclusive a erudita, o espírito do artista imbuído de profundo sentimento nacional. Eduardo Bomfim, Vermelho.org
Toda a sua obra encontra-se carregada de intensa brasilidade. É uma produção baseada em substanciosa pesquisa da cultura e dos ecos melodiosos de um Brasil urbano e rural, do litoral ao centro desta nação continental. O seu legado retrata, sem dúvida alguma, em profundidade, um Brasil profundo.
O povo brasileiro ainda não descobriu a sua alma nas partituras de Heitor Villa Lobos que permanece circunscrita aos círculos dos letrados musicais ou aos curiosos da classe média.
Apesar de que durante a década de trinta, incentivado pelo governo Getúlio Vargas, a sua produção tenha sido divulgada em massa e ele próprio tenha se tornado uma celebridade popular, tendo regido no estádio de São Januário, do Vasco da Gama, um coral de milhares de crianças.
Apaixonado por suas idéias, imensamente criativo e pesquisador detalhista, Villa Lobos revelou ao mundo, à Europa e aos Estados Unidos uma música clássica de sentido universal e raízes brasileiras.”
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05 Dezembro, 2009
Contra minaretes ou contra muçulmanos?
Rui Martins, Direto da Redação
“Os muçulmanos na Suíça não poderão construir minaretes em suas mesquitas, essas torres estreitas que conclamam os fiéis à prece, equivalentes aos sinos das igrejas cristãs. Essa decisão, por 57% dos votos, em referendo submetido ao povo suíço, foi a grande surpresa do último domingo e poderá mudar a imagem suíça nos países muçulmanos.
Ainda hoje, jornais de todo mundo dizem-se chocados por ter sido a Suíça, o primeiro país, na Europa, a adotar uma lei considerada contra a religião muçulmana.
O referendo foi provocado por uma iniciativa popular do Partido do Povo, de extrema-direita, e até a contagem dos votos, não era tido como de aceitaçao provável.
Diante dos resultados, os chefes dos partidos socialista, verde, democrata-cristão e liberal, fizeram seu mea culpa, na televisão suíça, reconhecendo terem subestimado a votação.
O presidente do Partido Socialista admitiu que a medida, inscrita agora na Constituição suíça, acabou recebendo votos até de eleitores de esquerda por não ter havido um verdadeiro debate da questão. Assim, muitos eleitores e em grande parte eleitoras não votaram contra a construção de minaretes mas contra a religião muçulmana que não reconhece a igualdade entre homens e mulheres.
Foi o caso, da jornalista feminista Isabelle Falconnier, do semanário Hebdo, o mais importante da Suíça francesa, que confessou sua intenção de votar em branco, por não querer dar a impressão de aceitar as mulheres com chador ou burca.”
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“Os muçulmanos na Suíça não poderão construir minaretes em suas mesquitas, essas torres estreitas que conclamam os fiéis à prece, equivalentes aos sinos das igrejas cristãs. Essa decisão, por 57% dos votos, em referendo submetido ao povo suíço, foi a grande surpresa do último domingo e poderá mudar a imagem suíça nos países muçulmanos.
Ainda hoje, jornais de todo mundo dizem-se chocados por ter sido a Suíça, o primeiro país, na Europa, a adotar uma lei considerada contra a religião muçulmana.
O referendo foi provocado por uma iniciativa popular do Partido do Povo, de extrema-direita, e até a contagem dos votos, não era tido como de aceitaçao provável.
Diante dos resultados, os chefes dos partidos socialista, verde, democrata-cristão e liberal, fizeram seu mea culpa, na televisão suíça, reconhecendo terem subestimado a votação.
O presidente do Partido Socialista admitiu que a medida, inscrita agora na Constituição suíça, acabou recebendo votos até de eleitores de esquerda por não ter havido um verdadeiro debate da questão. Assim, muitos eleitores e em grande parte eleitoras não votaram contra a construção de minaretes mas contra a religião muçulmana que não reconhece a igualdade entre homens e mulheres.
Foi o caso, da jornalista feminista Isabelle Falconnier, do semanário Hebdo, o mais importante da Suíça francesa, que confessou sua intenção de votar em branco, por não querer dar a impressão de aceitar as mulheres com chador ou burca.”
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04 Dezembro, 2009
Os conflitos intermináveis
Mauro Santayna, JB Online
“Uma interessante teoria – de que trata Bárbara Tuchman, em sua The March of Folly: From Troy to Vietnam – é a de que a Guerra de Troia não terminou. A mítica expedição a Troia, de que alguns arqueólogos encontraram escassos indícios, cresceu em grandeza graças a Homero (ou a rapsodos mais antigos, dos quais se teria valido o poeta).
Nessa tese histórica, as guerras nunca terminam: a exaustão as suspende, em tréguas demoradas, mas elas sempre retornam, porque os conflitos só poderiam ser resolvidos pelo bom senso. E o homem é animal insensato.
O editorial de Le Monde de ontem trata da rivalidade entre Paris e Londres, que voltam a disputar (se é que deixaram de disputar um dia) a hegemonia econômico-financeira europeia. Os ingleses, conforme o diário francês, acusam a França de agir no propósito de substituir a City como centro financeiro mundial. E os franceses se defendem. Franceses e ingleses – sem contar com confrontos ainda mais antigos – se encontram nesse jogo de distanciamentos e aproximações desde o século 14, quando se iniciou a Guerra dos Cem Anos, que na verdade durou 116 (de 1337 a 1453). Novos confrontos viriam no decorrer dos séculos e, em um deles, Richelieu se revelaria também grande guerreiro, ao estabelecer o cerco ao bastião de La Rochelle, em poder dos huguenotes, sob patrocínio britânico. Em outro, Napoleão perderia seu bastão em Waterloo.
Ingleses e franceses souberam unir-se, no século passado, tanto para o bem como para o mal. Para o bem, juntaram-se na Primeira Guerra Mundial e na Segunda. No intervalo, vergonhosamente cabisbaixos e amedrontados em Munique, diante de Hitler, traíram seus aliados tchecos.”
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“Uma interessante teoria – de que trata Bárbara Tuchman, em sua The March of Folly: From Troy to Vietnam – é a de que a Guerra de Troia não terminou. A mítica expedição a Troia, de que alguns arqueólogos encontraram escassos indícios, cresceu em grandeza graças a Homero (ou a rapsodos mais antigos, dos quais se teria valido o poeta).
Nessa tese histórica, as guerras nunca terminam: a exaustão as suspende, em tréguas demoradas, mas elas sempre retornam, porque os conflitos só poderiam ser resolvidos pelo bom senso. E o homem é animal insensato.
O editorial de Le Monde de ontem trata da rivalidade entre Paris e Londres, que voltam a disputar (se é que deixaram de disputar um dia) a hegemonia econômico-financeira europeia. Os ingleses, conforme o diário francês, acusam a França de agir no propósito de substituir a City como centro financeiro mundial. E os franceses se defendem. Franceses e ingleses – sem contar com confrontos ainda mais antigos – se encontram nesse jogo de distanciamentos e aproximações desde o século 14, quando se iniciou a Guerra dos Cem Anos, que na verdade durou 116 (de 1337 a 1453). Novos confrontos viriam no decorrer dos séculos e, em um deles, Richelieu se revelaria também grande guerreiro, ao estabelecer o cerco ao bastião de La Rochelle, em poder dos huguenotes, sob patrocínio britânico. Em outro, Napoleão perderia seu bastão em Waterloo.
Ingleses e franceses souberam unir-se, no século passado, tanto para o bem como para o mal. Para o bem, juntaram-se na Primeira Guerra Mundial e na Segunda. No intervalo, vergonhosamente cabisbaixos e amedrontados em Munique, diante de Hitler, traíram seus aliados tchecos.”
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03 Dezembro, 2009
O carrasco civil do porão militar
Alexandre Xavier, Terra Magazine"É pena, mas um dos filmes mais importantes do ano entrou em cartaz na cidade de São Paulo em apenas uma sala de cinema. Culpa das engrenagens pouco azeitadas da indústria do entretenimento. Cidadão Boilesen venceu a última edição do festival É Tudo Verdade.
E, num país sem memória, mostrou-se um documentário obrigatório.
O filme disseca a trajetória de Henning Boilesen, o mais ferrenho financiador da Oban (a operação caça-terrorista montada pelo exército brasileiro). O dinamarquês Boilesen era o presidente do Grupo Ultra (da Ultragaz) durante a ditadura militar e é dono de uma história sádica surpreendente.
Mais do que contar esta história, Cidadão Boilesen deixa patente com entrevistas importantes, reconstituições inéditas e o resgate de um rico acervo, que a ditadura militar brasileira foi mesmo uma ditadura civil/militar. E que muito dos que a financiaram estão impunes por aí.
Cidadão Boilesen é fruto de 16 anos de trabalho do diretor Chaim Litewski. E com exceção da trilha original e de uma certa patinada na edição na primeira parte do filme, é uma obra coberta de méritos.”
Foto: Cidadão Boilesen disseca a trajetória de Henning Boilesen, o mais ferrenho financiador da Oban, a operação caça-terrorista montada pelo exército brasileiro
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Prazo de validade feminino
Leila Cordeiro, Direto da Redação
“Está dificil segurar a lingua dos gringos americanos que até hoje não se conformam do Rio ter vencido Chicago na disputa pela sede das Olimpíadas de 2016. Primeiro foi a comediante Wanda Sykes, que praticamente chamou todas as mulheres brasileiras de prostitutas ao perguntar se prostituição agora tinha virado modalidade esportiva por causa da escolha do Rio.
Depois vieram os mais influentes jornais americanos que reservaram espaços preciosos em suas páginas para destacar reportagens sobre a violência e o tráfico de drogas nos morros do Rio, pondo em dúvida a competência da cidade para sediar o maior evento esportivo do mundo.
Recentemente, os mesmos jornais deram as piores notícias possíveis sobre os constantes apagões que transformaram o Rio numa cidade caótica em pleno verão, deixando sua população sem geladeira e ar condicionado, sem contar os prejuízos ao comércio, indústrias e escritórios. Deram tantos detalhes que até parece que também foram vítimas.
Para completar o cenário de descrédito da nossa cidade, eis que surge o ator Robin Williams no programa de David Letterman dizendo que o Rio ganhou porque levou 50 strippers e e meio quilo de pó para Copenhagen, enquanto Chicago só tinha como armas Oprah Winfrey e Michelle Obama.
Agora repare em cada nuance desse maldoso comentário de Robin Williams. Ele estava dando entrevista no programa de Letterman, acusado de ser um grandissíssimo sem-vergonha que vivia cantando suas produtora, praticamente obrigando-as a transar com ele, segundo contam algumas de suas vítimas, demitidas por não toparem a parada sexual do chefe.”
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“Está dificil segurar a lingua dos gringos americanos que até hoje não se conformam do Rio ter vencido Chicago na disputa pela sede das Olimpíadas de 2016. Primeiro foi a comediante Wanda Sykes, que praticamente chamou todas as mulheres brasileiras de prostitutas ao perguntar se prostituição agora tinha virado modalidade esportiva por causa da escolha do Rio.
Depois vieram os mais influentes jornais americanos que reservaram espaços preciosos em suas páginas para destacar reportagens sobre a violência e o tráfico de drogas nos morros do Rio, pondo em dúvida a competência da cidade para sediar o maior evento esportivo do mundo.
Recentemente, os mesmos jornais deram as piores notícias possíveis sobre os constantes apagões que transformaram o Rio numa cidade caótica em pleno verão, deixando sua população sem geladeira e ar condicionado, sem contar os prejuízos ao comércio, indústrias e escritórios. Deram tantos detalhes que até parece que também foram vítimas.
Para completar o cenário de descrédito da nossa cidade, eis que surge o ator Robin Williams no programa de David Letterman dizendo que o Rio ganhou porque levou 50 strippers e e meio quilo de pó para Copenhagen, enquanto Chicago só tinha como armas Oprah Winfrey e Michelle Obama.
Agora repare em cada nuance desse maldoso comentário de Robin Williams. Ele estava dando entrevista no programa de Letterman, acusado de ser um grandissíssimo sem-vergonha que vivia cantando suas produtora, praticamente obrigando-as a transar com ele, segundo contam algumas de suas vítimas, demitidas por não toparem a parada sexual do chefe.”
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02 Dezembro, 2009
O corpo humano, o mercado de consumo e a ética
Rizzatto Nunes, Terra Magazine
“Num de seus filmes, Woody Allen conta a seguinte piada: diz ele que jamais seria sócio de um clube que o aceitasse como sócio. Recentemente, virou notícia um site de relacionamentos do qual só podem participar pessoas consideradas "bonitas". E essa "rede social" como se intitula, ficou famosa porque rejeitou milhões de internautas de vários países que nela gostariam de ter entrado. Parafraseando Woody Allen, é de se perguntar porque alguém quer fazer parte de um clube assim.
Um dado que chama atenção é esse da imposição social que a cada dia mais afeta as pessoas para que elas "pareçam" bonitas. Não como de fato são: a pressão é para que elas se pareçam com aquilo que o "mercado" diz que é belo. Exatamente, como impõe esse site.
Há um quê de artificial nesse modo de se medir as pessoas. Aliás, não só artificial como falso. Na Inglaterra e também na França já há legisladores que pretendem obrigar que os publicitários sejam mais "realistas" na utilização de fotos de modelos. É que a utilização de modernas técnicas de manipulação de fotos, tais como o photoshop, permite a criação de imagens que nem sempre correspondem ao real.
Muitas vezes, as próprias modelos têm se surpreendido com sua (falsa) beleza. Os anúncios estão muito distantes do real e, uma vez publicadas as fotos de "mulheres com corpos perfeitos", elas acabam influenciando os consumidores suscetíveis. Esses legisladores querem que as fotos sejam acompanhadas da informação de que se trata de efeito digital. Penso que ainda assim, não mudaria a imposição.
Pois a verdade é que, de um jeito ou de outro, nesta sociedade em que o ter é mais importante que o ser, onde a aparência é mais importante que a essência, o que se percebe é que algumas pessoas são prisioneiras de seus símbolos: roupas de marca, jóias, relógios preciosos, carros último tipo, o corpo idem. O que o mercado acaba vendendo é uma ilusão de segurança e felicidade nos símbolos oferecidos nas vitrines e em anúncios publicitários, e o que o esse tipo de consumidor adquire é uma falsa idéia de si mesmo, muitas vezes gerando frustração e um vazio que o obriga à voltar às compras, às transformações etc num círculo vicioso sem fim.”
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“Num de seus filmes, Woody Allen conta a seguinte piada: diz ele que jamais seria sócio de um clube que o aceitasse como sócio. Recentemente, virou notícia um site de relacionamentos do qual só podem participar pessoas consideradas "bonitas". E essa "rede social" como se intitula, ficou famosa porque rejeitou milhões de internautas de vários países que nela gostariam de ter entrado. Parafraseando Woody Allen, é de se perguntar porque alguém quer fazer parte de um clube assim.
Um dado que chama atenção é esse da imposição social que a cada dia mais afeta as pessoas para que elas "pareçam" bonitas. Não como de fato são: a pressão é para que elas se pareçam com aquilo que o "mercado" diz que é belo. Exatamente, como impõe esse site.
Há um quê de artificial nesse modo de se medir as pessoas. Aliás, não só artificial como falso. Na Inglaterra e também na França já há legisladores que pretendem obrigar que os publicitários sejam mais "realistas" na utilização de fotos de modelos. É que a utilização de modernas técnicas de manipulação de fotos, tais como o photoshop, permite a criação de imagens que nem sempre correspondem ao real.
Muitas vezes, as próprias modelos têm se surpreendido com sua (falsa) beleza. Os anúncios estão muito distantes do real e, uma vez publicadas as fotos de "mulheres com corpos perfeitos", elas acabam influenciando os consumidores suscetíveis. Esses legisladores querem que as fotos sejam acompanhadas da informação de que se trata de efeito digital. Penso que ainda assim, não mudaria a imposição.
Pois a verdade é que, de um jeito ou de outro, nesta sociedade em que o ter é mais importante que o ser, onde a aparência é mais importante que a essência, o que se percebe é que algumas pessoas são prisioneiras de seus símbolos: roupas de marca, jóias, relógios preciosos, carros último tipo, o corpo idem. O que o mercado acaba vendendo é uma ilusão de segurança e felicidade nos símbolos oferecidos nas vitrines e em anúncios publicitários, e o que o esse tipo de consumidor adquire é uma falsa idéia de si mesmo, muitas vezes gerando frustração e um vazio que o obriga à voltar às compras, às transformações etc num círculo vicioso sem fim.”
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01 Dezembro, 2009
Quem deve cuidar do Planeta?
Leonardo Boff, Adital“Um teólogo famoso, no seu melhor livro - Introdução ao Cristianismo - ampliou a conhecida metáfora do fim do mundo formulada pelo dinamarquês Sören Kierkegaard, já referida nesta coluna. Ele reconta assim a história: num circo ambulante, um pouco fora da vila, instalou-se grave incêndio. O diretor chamou o palhaço que estava pronto para entrar em cena que fosse até à vila para pedir socorro. Foi incontinenti. Gritava pela praça central e pelas ruas, conclamando o povo para que viesse ajudar a apagar o incêndio. Todos achavam graça pois pensavam que era um truque de propaganda para atrair o público. Quanto mais gritava, mais riam todos. O palhaço pôs-se a chorar e então todos riam mais ainda. Ocorre que o fogo se espalhou pelo campo, atingiu a vila e ela e o circo queimaram totalmente. Esse teólogo era Joseph Ratzinger. Ele hoje é Papa e não produz mais teologia mas doutrinas oficiais. Sua metáfora, no entanto, se aplica bem à atual situação da humanidade que tem os olhos voltados para o país de Kierkegaard e sua capital Copenhague. Os 192 representantes dos povos devem decidir as formas de controlar o fogo ameaçador. Mas a consciência do risco não está à altura da ameaça do incêndio generalizado. O calor crescente se faz sentir e a grande maioria continua indiferente, como nos tempos de Noé que é o "palhaço" bíblico alertando para o dilúvio iminente. Todos se divertiam, comiam e bebiam, como se nada pudesse acontecer. E então veio a catástrofe.
Mas há uma diferença entre Noé e nós. Ele construiu uma arca que salvou a muitos. Nós não estamos dispostos a construir arca nenhuma que salve a nós e a natureza. Isso só é possível se diminuirmos consideravelmente as substâncias que alimentam o aquecimento. Se este ultrapassar dois a três graus Celsius poderá devastar toda a natureza e, eventualmente, eliminar milhões de pessoas. O consenso é difícil e as metas de emissão, insuficientes. Preferimos nos enganar cobrindo o corpo da Mãe Terra com band-aids na ilusão de que estamos tratando de suas feridas.”
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