31 Maio, 2011

John Gray diz que ateus se tornaram evangélicos radicais

Euler de França, Revista Bula

“Sou ateu. Ateu católico. Porque, embora ímpio, delicio-me com música de igreja (desde que de qualidade) e com os sermões (Antônio Vieira, afinal, era padre) — em geral, um mix do secular, a moralidade dos homens, com o religioso, a espetacularização de Deus, mas também o mistério da vida e da, digamos, alma. Agrada-me a pregação de um mundo melhor, por meio da paz, da harmonia (talvez impossível) entre os homens, contra a violência pregada pelos herdeiros do Iluminismo. Por isso sou contrário ao ateísmo militante, contra a pregação de que é possível mudar a “natureza” dos homens pela força, pela planificação, pela ciência. Como escreveu o bardo britânico, há mais entre o Céu e a Terra do que imagina a nossa vã filosofia. A religião, o místico, permite-nos navegar pelo incognoscível. As religiões seculares, como o marxismo, não têm dúvidas — só certezas. Em nome do “certo” (o paraíso) fizeram o errado: mataram milhões de seres humanos. Ióssif Stálin mandou assassinar cerca de 30 milhões. Mao Tsé-tung teria mandado matar 70 milhões. Historiadores dizem que a estatística pode estar subestimada. Hitler matou milhões — só judeus foram 6 milhões. O ateísmo está na moda, especialmente por conta de um vulgarizador científico, o zoólogo inglês Richard Dawkins, com o livro “Deus — Um Delírio”, e de um vulgarizador popular, o jornalista inglês Christopher Hitchens, com a obra “Deus Não É Grande”. Ultimamente, a demonização dos religiosos e da religião tem sido criticada, em geral de forma satírica, sobretudo nas entrevistas, pelo filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Antes dele, o filósofo britânico John Gray, talvez com mais precisão mas sem perder o matiz sardônico dos ingleses, examinou as ideias de Dawkins, Hitchens (ex-trotskista), Daniel Dennet, Martin Amis, Michel Onfray e Philip Pullman (“A Bússola de Ouro”). O livro “Anatomia de John Gray — Melhores Ensaios” (Record, 515 páginas, tradução de José Gradel) contém um de seus melhores textos, “Ateísmo evangélico, cristianismo secular” (até o título é expressivo).

Deus está na moda — como saco de pancada dos intelectuais herdeiros do Iluminismo, não necessariamente socialistas ou comunistas. Gray não faz exatamente a defesa da religião, e sim uma crítica corrosiva dos “ateus-religiosos”, de como, ao trocarem Deus pelo homem e pela ciência, se tornaram porta-vozes de tiranias jamais vistas na história das sociedades. O filósofo registra que os ímpios devem mais à religião do que pensam. “A era secular foi ilusória. Os movimentos políticos de massa do século 20 foram veículos de mitos herdados da religião, e não é por acidente que a religião revive agora que esses movimentos [socialismo, nazismo] entraram em colapso. A atual hostilidade à religião é uma reação contra essa reviravolta. A secularização está em retirada, e o resultado é a aparição de um tipo evangélico de ateísmo, que não se via desde os tempos vitorianos.”

O proselitismo do ateísmo, aponta Gray, “é um projeto de conversão universal”. No pedestal de Dennet e aliados, religião é atraso, e a ciência, deusa. “A ciência é a melhor ferramenta para formar crenças confiáveis sobre o mundo, mas não difere da religião ao revelar uma verdade crua que a religião vela em sonhos”, diz Gray. “Dawkins parece convencido de que, se não fosse inculcada nas escolas e pelas famílias, a religião desapareceria. Essa é uma perspectiva que tem mais em comum com certo de tipo de teologia fundamentalista do que com a teoria darwiniana.” No caso brasileiro, não analisado por Gray, é um pouco diferente. Porque a religião inculcada na cabeça dos alunos é a marxista — daí que os estudantes são marxistas mesmo quando não sabem. Dawkins aponta as atrocidades cometidas por movimentos religiosos, mas, ressalva Gray, “dá menos atenção ao fato de que algumas das piores atrocidades dos tempos modernos foram cometidas por regimes que reivindicavam sanção científica para seus crimes. O ‘racismo científico’ dos nazistas e o ‘materialismo dialético’ dos soviéticos reduziram a insondável complexidade das vidas humanas à mortífera simplicidade de uma fórmula científica”.
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30 Maio, 2011

Será que chegaremos ao ponto de dizer que todo mundo é portador de pelo menos uma doença?

Ricardo Teixeira, Consciência no dia a dia

“O termo medicalização define o fenômeno em que um comportamento ou uma condição física ou mental passa a ser tratado como se fosse um problema médico, recebendo um rótulo de doença e opções de tratamento. Na última semana, o assunto ganhou as páginas do periódico British Medical Journal com um elegante artigo do jornalista australiano Ray Moynihan e ainda rendeu o editorial da editora Fiona Godlee.

O centro da discussão quando se fala em medicalização é a força da indústria farmacêutica nesse processo que impulsiona a sociedade civil, profissionais de saúde, órgãos do governo e a mídia a retroalimentarem a cultura de que todo organismo vivo da espécie sapiens, a princípio, deve ter alguma doença ou precisa de algum remédio. Todos esses atores têm seu papel na medicalização.

Nos EUA, a publicidade de medicações acontece de forma direta com os consumidores com inserções do tipo “Se você está se sentindo desanimado, pode ser que o Depre-pill seja indicado no seu caso. Converse com seu médico sobre isso”. Calcula-se que cada dólar gasto em publicidade direta ao consumidor dê um retorno mais de quatro dólares em vendas.

No Brasil, a ANVISA não permite essa abordagem direta, e por isso, o trabalho das indústrias farmacêuticas junto aos médicos deve ser ainda mais intenso para alcançar as metas de vendas, pois são eles que estão na linha de frente do processo de medicalização, cara a cara com os pacientes. A publicidade dirigida aos médicos inclui as visitas de representantes para oferecer amostras grátis dos últimos lançamentos, propaganda de seus produtos em periódicos destinados à classe médica e patrocínio de eventos científicos.”
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29 Maio, 2011

Adeus privacidade

Antonio Tozzi, Direto da Redação

“O que antes era somente sonho de ficcionistas como George Orwell, Julio Verne e Aldous Huxley hoje já é realidade. Vivemos como se, de fato, fôssemos personagens de um imenso Big Brother – inspirado, aliás, numa antevisão de Orwell – onde já não mais existe privacidade. Com um simples clicar de botão, é possível para as autoridades levantar todos os dados de sua vida – sejam eles pessoais, profissionais ou mesmo secretos.

Redes sociais como Facebook, Linkedin e outras foram criadas exatamente com esta finalidade, a de angariar dados que as pessoas colocam de graça em troca de um serviço. Como dizem os especialistas em Marketing, se você não paga nada por um produto ou serviço, isto significa que você é o produto que está sendo comercializado. Ou melhor, estão sendo comercializadas as informações que você disponibilizou por sua própria conta – e risco.

Através desse mapeamento, as companhias podem direcionar suas campanhas de Marketing de uma maneira mais objetiva. Não há razão para enviar uma amostra do produto em amarelo para Alice se ela mesma já declarou ser o azul sua cor predileta. E assim, através desta seleção natural, os empresários e grupos organizados vão conquistando cada vez mais adeptos para seus produtos e serviços e também para suas causas.

A sociedade moderna a cada dia torna-se mais invasiva. Quando a polícia técnica efetua seus trabalhos de investigação para rastrear os suspeitos de crimes e de fraudes vasculha todos os instrumentos usados pelos cidadãos. Desta maneira, os peritos examinam as ligações feitas e/ou recebidas pelo suspeito e recuperam os dados contábeis e financeiros para ver se eles podem revelar informações importantes para o esclarecimento do caso.”
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27 Maio, 2011

Geração X, Y e Z

Jeferson D’Addario, AdNews

“Controle, controle, controle. A necessidade de monitoramento e controle está cada vez mais paranóica. Vivemos isso dentro das empresas e fora delas. Carros de velocidade baixa e antigos não necessitam de tantos controles, já os velozes e modernos precisam até para saber se vão parar na próxima curva. Tanta pro atividade imposta pela tecnologia nos faz quase robôs. Digo quase, porque ainda falta muito para estarmos 100% monitorados e controláveis. Talvez uns 7 anos? Talvez uns 10? O que acham?

Quando penso na tecnologia de 10 anos atrás me lembro de um Pentium ou um Xeon como o TOP de linha e um kit multimídia de 48X como a vedete. Hoje temos multimídia até onde não queremos e Core Due e outros nanotecnoprocessadores cada vez mais imperceptíveis.

Pensando como pai e empresário me deparo com a seguinte situação: até onde os controles são interessantes? E até onde vamos?

Vi uma matéria na TV no final de semana que falava do conflito de gerações que se instaurou nas organizações do Business Y. Empresas como Facebook, Google entre outras. O artigo consegue aproveitar a criatividade e a liberdade “Virtual” que nos foi imposta. Ele tira de um breve suspiro de virtuliberdade atrativos para conseguir uma legião de fãs/clientes.”
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26 Maio, 2011

Clara Averbuck: atiradora de elite


Carlos Willian Leite, Revista Bula

“Não faço as coisas para aparecer, eu apareço porque fiz as coisas”

Escritora, letrista, vocalista, blogueira, iconoclasta e polemista Clara Averbuck, é uma espécie de anti-heroína da internet brasileira. Começou a escrever em 1998, para o lendário “CardosOnline”, o primeiro mailzine brasileiro. Tornou-se autora de quatro livros: “Máquina de Pinball”, “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante”, “Vida de Gato” e “Nossa Senhora da Pequena Morte”. Em 2003, “Máquina de Pinball” ganhou uma adaptação para o teatro e em 2007 Murilo Salles dirigiu o filme “Nome Próprio”, inspirado em sua vida e obra. Em entrevista a Revista Bula, Clara Averbuck não poupa palavras ou pessoas: fala sobre carreira, livros, preferências, idiossincrasias e, atiradora de elite que é, distribui alfinetadas. Sobre o fato de ser vista mais como celebridade de internet do que como escritora que se tornou célebre, tem uma resposta precisa: “Só queria que uma galera aí entendesse que eu não faço as coisas para aparecer, eu apareço porque fiz as coisas”. Atualmente, é redatora do Portal R7 e faz um programa diário com Alessandra Siedschlag, do blog “Te Dou Um Dado?”. Participam da entrevista o escritor e doutor em História Ademir Luiz, o escritor e pós-doutor em literatura Ewerton Freitas e o poeta e jornalista Carlos Willian Leite.

Carlos Willian Leite: À moda de Nietzsche, onde começa sua genealogia? 

Averbuck na Ucrânia, Chirivino Gomes na Itália e eu não sei muito mais do que isso. Só sei que ser mãe judia e italiana não deve ser uma coisa muito boa. Ainda bem que eu não tenho filho homem. Ainda.

Ademir Luiz: A imprensa noticiou sua participação em “A Fazenda 4”, da Rede Record. Seria seu segundo reality show. Considerando sua imagem pública de blogueira iconoclasta, você aceita participar desses programas por que acredita que pode torná-los mais inteligentes, para promover seu trabalho de escritora, para destruir o sistema por dentro ou simplesmente pelo dinheiro?

Só gostaria de pontuar que esse boato da fazenda surgiu na época da veiculação do troca de família. Depois ressurgiu em uma lista falsa de primeiro de abril. Então o jornalista Alberto Pereira Jr., que escreve a coluna Zapping do jornal “Agora”, me perguntou no meio de uma festa se eu ia mesmo pra fazenda. Como eu já estava de saco cheio daquela história floodando minhas mentions no Twitter e de pessoas me olhando estranho na firma onde trabalho há cinco meses achando que eu estou lá para assinar contrato pra fazenda, disse: “Vou, vou sim. Mas não pode espalhar”. Ele publicou. Não sei como a pessoa achou que eu passaria uma informação sigilosa a um jornalista de fofoca desconhecido no meio de uma festa, mas enfim. Parabéns a todos os envolvidos na barriga. Não me apego a esse negócio de imagem de blogueira iconoclasta. Aliás, é essa minha imagem? Não saberia dizer. Reality show não serve para divulgar trabalho. A última coisa que interessa ao público é a profissão do participante. Descobri isso na prática. Ou você entra já tendo uma carreira e sai com um item a mais na legenda do seu nome ou perde a profissão de vez e vira “ex-participante de reality show”. Não sei se posso tornar algo mais inteligente, tenho notado que inteligência é a última coisa que importa na televisão. Mas se eu não for, vai outra pessoa no meu lugar, talvez um idiota, talvez alguém que cause um estrago, talvez uma pessoa nula. Prefiro então que seja eu — um pouco para dar uma trolladinha no mundo e, respondendo enfim a pergunta, pela grana, que é sim o principal motivo de eu topar essas coisas. Esclarecendo: ninguém me chamou pra fazenda. Eu adoraria ir. Pelo dinheiro, que não é pouco, e também pela exposição que isso poderia gerar, já que eu tenho um programa diário no R7 com a Lelê Siedschlag que poderia crescer indefinidamente até a total dominação mundial, nosso plano desde o início.

Carlos Willian Leite: Cinema, literatura ou música?

Música influencia literatura que influencia cinema que influencia música ad infinutum.

Carlos Willian Leite: Você é da ala das inspiradas ou das construtoras?

Já fui só inspirada. Agora sou uma construtora inspirada.

Ademir Luiz: Você teve alguma participação direta na produção do filme “Nome Próprio”, baseado em sua obra e trajetória? Opinou ou aprovou o roteiro? Foi consultora? Conversou com a Leandra Leal?

Esse filme tem uma história enorme. Murilo (Murilo Salles, diretor cinematográfico) comprou o “Máquina de Pinball”. Ficou travado um tempão. Aí quis comprar uns textos do blog. Me mostrou um primeiro tratamento de roteiro, escrito pela Elena Soarez. Gostei — foi o que mais gostei. Mas Murilo continuou em crise, quis mais textos, quis o vida de gato, fez milhões de roteiros, pediu milhões de opiniões, mudou de diretor-assistente, cortou personagens, mudou texto, mudou o filme até depois que passou no Festival do Rio. Eu não apitei em nada. Murilo me pedia socorro às vezes, me pedia para mexer no roteiro, mexer nos GCs, reescrever os offs… foi realmente caótico. No fim ficou uma massa escrita por todo mundo, finalizada por uma galera e com identidade de ninguém. Eu não podia nem chegar perto do set. Murilo tinha inclusive proibido a Leandra de me conhecer, mas ela ignorou a “ordem” e foi me procurar. Ficamos amigas de cara. Ainda somos. Leandra era minha agente infiltrada e tem vários objetos pessoais meus lá, entre discos, pôsteres, livros, roupas… tem um texto bastante esclarecedor a respeito que escrevi para a “Bravo” (http://bit.ly/lq2k0h).”
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25 Maio, 2011

Acima dos logotipos

Leila Cordeiro, Direto da Redação

"Já pensou como seria interesante e divertido ver o Jô Soares sentado numa cadeira da Escolinha do Gugu participando como convidado do programa da Record? Ou então a Ana Hickmam mostrando sua casa e suas aptidões culinárias no Estrelas da Angélica na Globo? Ou a Ana Maria Braga sentada no sofá da Hebe para ser entrevistada? Impossível, não? Mas só no Brasil.

Esta semana, na TV dos EUA, fiquei sem saber direito que canal estava assistindo, pois apesar de Oprah Winfrey apresentar seu programa na CBS, todas as outras emissoras faziam matérias jornalísticas falando da sua festa de despedida de seu programa. Oprah, a mais famosa apresentadora de talk-shows de todos os tempos, vai ter agora seu próprio canal de televisão, por isso seu último programa na rede CBS transformou-se em uma festa com a presença de celebridades do cinema, da TV e da política.

O que vale destacar, além do fato em si, é que nenhum outro canal de televisão deixou de mostrar e comentar os bastidores da festa nesta quarta-feira, porque Oprah é notícia e seu nome está acima de qualquer logotipo.

E isso não acontece somente porque Oprah seja um espetáculo. Programas como Dancing with the Stars, na ABC, e American Idol, na Fox, que estão entrando em sua fase final, recebem o mesmo tratamento por parte das outras redes. Todas noticiam fartamente programas e atrações de emissoras concorrentes, desde que sejam notícia. Sem essa de temer a concorrência. Tudo da maniera mais democrática e natural possível.

Um empresário televisivo me dizia outro dia que “a televisão no Brasil mudou muito”. É verdade, mas só se for na qualidade da programação, porque essa guerra quase odiosa entre as redes parece mais forte do que nunca. É uma querendo comer a outra, sem pudor ou ética. Edir Macedo, o bispo e dono da Record, não se cansa de dizer que seu sonho é acabar com a Globo. Mas pelo visto está muito longe disso, sua preocupação agora é não perder o segundo lugar para o SBT.”
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24 Maio, 2011

Um beijo roubado também é bullying?

Aberth Vêncio, Revista Bula

“Bullying é um vocábulo inglês que foi aportuguesado (não faça trocadilho com “aportugaysado”, pois é bullying, okay?!). Volta e meia, no decorrer de tantos anos de História do Brasil, adotamos termos estrangeiros (inclusive, ”okay”) por modismo bobo, por complexo de inferioridade, porque nos soam bem aos ouvidos, ou pela simples falta de criatividade ao se tentar traduzir para o português.

Em suma, o termo bullying deriva de “bully” (valentão), consiste na violência física ou psicológica que um indivíduo pratica sobre o outro, e tem sido muito utilizado no ambiente das escolas. O conceito parece extenso, prolixo, confuso, mesclando-se também a assédio moral, preconceito, e outras modalidades de intolerância/truculência.

Um pouquinho de história da humanidade (a vida como ela não deveria ser...): certa vez, um amigo meu foi multado porque riu para um guarda de trânsito (ele não riu do guarda de trânsito!). Verdade. Foi durante a Copa do Mundo de Futebol, em 1986. Após os jogos da seleção brasileira, nós saíamos, quase sempre alcoolizados (não vou ficar aqui me gabando por isto), para fazer a famigerada carreata em nosso Chevette marrom. Coisas de jovem. Coisas inconsequentes de jovem. Numa destas incursões pelas ruas da capital, percebemos quando um guarda de trânsito anotava o número da placa do carro em sua caderneta. Bem, aparentemente, não havíamos infringido qualquer norma, a não ser pela leve embriaguez (“controlada”, eu diria) e pelo notório desuso do cinto de segurança. Naqueles dias, ninguém falava em Lei Seca, bafômetro, cinto de segurança, camisinha, casamento entre pessoas do mesmo sexo, e outras cositas mas. Ou seja, passei a minha juventude num cenário praticamente bárbaro (leia-se “ignorante”).”
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23 Maio, 2011

Os sabores de Fernando Pessoa (última parte)

Lecticia Cavalcanti, Terra Magazine

"Durante a vida, Fernando Pessoa experimentou muitas bebidas. "Ah, bebe! A vida é boa ou má/ o que lhe demos é o que ela dá". Enquanto conviveu com Sá-Carneiro era o absinto. Logo o abandonando em razão dos problemas gástricos que lhe causava. "Eu o fumador de cigarros por profissão adequada/ O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto...

Houve período em que preferiu uísque. Também apreciava vinhos, Moscatel e do Porto, bem como alguns brancos (Bucelas e Gaeiras) e tintos (Colares) de mesa. "Dá-me mais vinho porque a vida é nada", escreveu o poeta. Gostava de harmonizar pratos e vinhos. "Comi melão retalhado e bebi vinho depois".

MELÃO COM PRESUNTO INGREDIENTES: 1 fatia grossa de melão, gotas de limão, pimenta do reino, fatias finas de presunto.
PREPARO: * Coloque, sobre o melão, gotas de limão e pimenta do reino.
* Arrume, ao lado do melão, as fatias de presunto.
* Deixe na geladeira até a hora de servir.


Mas gostava mesmo era da "bagaceira" (aguardente de uva) e do brandy de Macieira. Curiosamente, em seus tempos de publicitário, o único comercial que fez de bebidas foi da Coca-Cola, para quem criou a frase - "primeiro estranha-se, depois entranha-se". Pessoa "bebia demais", segundo sua própria sobrinha Manuela Nogueira. E em quantidades, a cada ano, maiores. Mas ele próprio justificava, "se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto". Assim foi. Tanto que morreu por conta de uma pancreatite, comum em alcoólicos.”
Foto: Aguardente Bagaceira (feita da uva) da Adega de Borba,
em Portugal / Divulgação
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22 Maio, 2011

Ilustres convidados

Carla Ceres, Digestivo Cultural

“Mês passado reencontrei um de meus livros favoritos: Vidas ilustres, de Hendrik Willem van Loon. Estava na prateleira de preciosidades frágeis, destinada àquelas obras especiais que passaram por várias reencadernações numa tentativa de manter as garras do tempo à distância. Meu exemplar data de 1952, pesa um quilo e suas páginas de letras pequenas ameaçam desprender-se, tornando a releitura um ato de reverência ou destruição.

Podemos encontrar, nas livrarias, exemplares novos e atualizados d'A história da humanidade, primeira obra de Van Loon a alcançar impressionante sucesso desde seu lançamento em 1921. Mas quem se interessar por Vidas ilustres, de 1942, deve garimpar nos sebos, deixando de lado exigências quanto à conservação da capa.

Van Loon nasceu em Rotterdam, Holanda, em 1882. Graduou-se e lecionou na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Jornalista da Associated Press e professor de História e Arte em várias universidades, tornou-se cidadão americano em 1919. Seus livros se destacam não somente pelo estilo elegante e provocador, mas pelos títulos e subtítulos longos. Quer um exemplo?

Vidas ilustres ― em inglês, Van Loon's Lives ― tem por subtítulo "Ou fiel e verdadeira narrativa de inúmeras e notáveis entrevistas com certas personagens históricas, desde Confúcio e Platão até Napoleão e Torquemada, sobre quem sempre tivemos grande curiosidade e as quais vieram jantar conosco em tempos que lá vão". Os capítulos também não deixam por menos: "Capítulo V ― Convidamos três grandes mestres da palavra escrita e falada e somos honrados com a presença de Cervantes, Shakespeare e Molière".

Meu reencontro atual com Vidas ilustres se deve a uma postagem do blog Trágico e Cômico, intitulada "Jantares de gala". Na postagem, o chargista Diogo Salles responde à pergunta que Lívia Yorke lançou na blogosfera: "Se você pudesse jantar com sete pessoas famosas, vivas ou mortas, quem seriam elas e onde se sentariam?"
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20 Maio, 2011

Esquecer para saber

Rubem Alves, Portal Aprendiz

“A menina me disse que eu teria de esquecer o que sabia para poder ver aquilo que eu não via... Que menina? Aquela sobre quem escrevi. Caminhávamos juntos, ela me mostrava e me explicava a sua escola, na Vila das Aves, em Portugal. Eu teria de esquecer para poder ver... Quem lhe ensinara isso, essa estranha pedagogia da desaprendizagem? Não podia ter sido Roland Barthes...

Barthes, ao sentir a velhice chegando, disse esta coisa surpreendente: que chegara a sua hora suprema, a hora do esquecimento, tempo de desaprender os saberes que havia aprendido. Posso imaginar o espanto que essa declaração deve ter provocado no erudito público acadêmico presente a sua aula.

Esquecer, desaprender: são o oposto daquilo que as escolas e professores pedem aos alunos. Os professores perguntam e os alunos, se tiverem memória boa, respondem e tiram boas notas... Esquecer é o contrário: perder, abrir mão, deixar ir. E, na lógica banal da razão do cotidiano, esquecimento é sempre empobrecimento. Barthes aponta na direção oposta. Teria ficado senil?

Quem responde é o poeta T. S. Eliot, num curtíssimo-cortante aforismo: "Num país de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo".

Barthes caminha na direção contrária. Ele nos conduz a um outro mundo. Suspeito que ele tenha aprendido do Taoismo. Pois é isso que está lá dito, no poema de número 48 do "Tao-Te-Ching": "Na busca do conhecimento a cada dia se soma algo. Na busca do Caminho da Vida a cada dia se diminui algo".
Foto: Rubem Alves
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19 Maio, 2011

Amor 2.0

Carolina Mendes, Revista Bula

“Anos atrás, passei um mês em um spa, para emagrecer. Digo, por conhecimento de causa, que o menor problema dos gordos e gordas dali, era a forma física. Me atreveria até, a dizer que uma clínica psiquiátrica seria mais eficiente e apropriada, que aquele retiro aristocrático famélico. Histórias de contrabando de leite condensado em frasco de condicionador, sanduíches do McDonald vendidos por 100 reais, piranhagem generalizada, e a menina que comeu a cera da vela que havia no quarto, pro caso de acabar a eletricidade.

Este é o tipo de pauta que mais que polêmica, vai me causar problemas por tocar no terreno da afetividade. E muita gente vai vestir a carapuça, e se sentir manipulado.

Qualquer linha de raciocínio que eu siga, ou qualquer opinião que eu manifeste, vai me comprometer.

Já adianto dizendo, que muito mais do que um manual sobre como conquistar amor on-line, vou tentar expor minha opinião achista a respeito da coisa. Sem grandes ambições psicológicas e antropológicas porque não é o meu jeito. Mas vou falar por experiência de pessoa conectada 24-7.

Amor online. E por “amor” eu estou incluindo a amizade. Tenho uma teoria de que se você é um idiota on-line, você é um idiota na vida off-line. Simplesmente porque on-line a gente existe em uma versão editada, escrita, fotografada, filmada e com um delay. Ah, o delay do upload, esse lindo. Normal que seu avatar seja uma foto em que você considere estar bem, bonito, engraçado, descolado, inteligente, todo trabalhado na mensagem. Existe aí o limite do estelionato, gente que usa uma foto tão boa, e tão distante da realidade que chega mais perto da La Bundchen que de si próprio.”
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18 Maio, 2011

Hasta la vista, Arnold

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Não é fácil ser casado quando se tem uma vida pública, ou seja, um casamento onde todo mundo mete o bedelho, dá palpites, comenta, faz fofoca , tudo pelo simples fato do casal ser famoso. Muitos já sofreram na pele o que é ter sua privacidade invadida e exposta a comentários e disse me disses, às vezes, criando até mesmo entre o próprio casal uma situação delicada. Uma verdadeira faixa de Gaza, eu diria!

Não foram poucas as vezes que se viu um casamento público ser desfeito por causa de fotos em sites e revistas, que nem sempre eram tão maldosas quanto pareciam, mas o suficiente para gerar uma brusca e definitiva ruptura entre o casal. O duro é a pessoa, às vezes, ser acusada de uma traição que não cometeu e quando quer se defender já é tarde. O suposto traído ou traída já foi chorar em outra freguesia e o relacionamento que tinha tudo para dar certo virou apenas tentativa.

As maiores vítimas dessa perseguição são atores casados com atrizes ou nem sempre. Basta um só ser famoso que já dá manchete a sua possível pulada de cerca. Às vezes acontece de verdade, mas o que poderia ser contornado com um buquê de flores e um pedido de desculpas apaixonado, torna-se caso perdido, por ter ido parar como escândalo nas colunas especializadas, principalmente na internet.
E foi exatamente isso que aconteceu nesta terça-feira quando veio à tona a verdadeira razão do término do casamento de Maria Shriver e Arnold Schwarzenegger que aconteceu dias depois de completarem bodas de prata.”
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17 Maio, 2011

Livro prova que filme O Poderoso Chefão não é ficção

Euler de França Belém, Revista Bula

“O dinheiro da Máfia italiana pode ter origem ilegal — como propina e extorsão e o tráfico de cocaína e heroína. Mas parte do capital é lavado por empresas tidas como idôneas. Pode-se dizer que os negócios lícitos são alimentados pelos negócios ilícitos e vice-versa. Uns irrigam os outros. O filme “O Poderoso Chefão 3” (de Francis Ford Coppola) — inferior aos anteriores, mas, ainda assim, muito bom — retrata a história de Michael Corleone tentando limpar o capital e o nome de sua família. O mafioso tenta se tornar um empresário, poderoso e rico, aceito social e legalmente. Para “purificar” os negócios, cria a Fundação Vito Corleone, doa 100 milhões para obras de caridade da Igreja Católica e tenta comprar a Immobiliare. Um diretor do Banco do Vaticano diz que tem de cobrir um rombo de 700 milhões de dólares e Michael Corleone oferece 500 milhões, desde que a Immobiliare passe para seu controle. O religioso exige 600 milhões. O filho de don Vito Corleone paga, mas acaba por descobrir que foi ludibriado pelos homens do Santo Padre e que, como afirma, “a política e o crime são a mesma coisa”. A “máfia” não está apenas na máfia. Racionalista ao extremo, ao ser enganado por religiosos sagazes do mundo das finanças, o tio de Vincent Corleone (filho de Sonny Corleone), diz: “Quando pensei que estava fora eles me arrastam de volta”. Uma das figuras emblemáticas do filme é Luchesi, “um homem de dois mundos” — uma sugestão a Michael de que não há como sair dos dois mundos na área das grandes jogadas financeiras, ao contrário do que ele pensava. Pois o que parecia ficção literária e cinematográfica tem correspondência precisa na realidade. A Igreja Católica, por intermédio do Banco do Vaticano, lavou dinheiro da Máfia, pelo menos da Cosa Nostra — a milionária, violenta e vingativa organização siciliana comandada pelos chefões Salvatore Riina (mandou matar cerca de mil pessoas) e Bernardo Provenzano.

O livro “Vaticano S. A.”, do jornalista Gianluigi Nuzzi (usou os arquivos do Vaticano, mas não no capítulo sobre a máfia), infelizmente não é detalhado e reserva apenas 16 páginas às relações do IOR (Banco do Vaticano) com a máfia de Riina e Provenzano, os chefões que permanecem presos na Itália, depois de longo reinado de terror e corrupção na Sicília, outras partes da Itália e mesmo no exterior

Nuzzi recolhe trecho de depoimento do arrependido Francesco Saverio Mannoia: “Tinha ouvido Stefano Bontate e outros homens honrados [mafiosos] de minha família dizerem que Pippo Calò, Salvatore Riina, Francesco Madonia e outros do mesmo grupo de Corleone tinham investido somas de dinheiro em Roma por intermédio de Licio Gelli [chefão da Maçonaria italiana], que cuidava dos investimentos e que parte do dinheiro era investido no Banco do Vaticano. Dessas coisas eu falava com Bontate e Salvatore Federico, que eram os executivos de nossa família. Em essência, Bontate e Inzerillo tinham [Michele] Sindona [banqueiro italiano, chamado de o “banqueiro de Deus”], os outros tinham Gelli. No depoimento, Mannoia, o Químico (era refinador de heroína), assegura que o parlamentar italiano Marcello Dell’Utri é “colaborador” da Máfia.

Mannoia acrescentou: “Quando o papa [João Paulo 2º] veio à Sicília [em 1993] e excomungou os mafiosos, os chefes da máfia ficaram ressentidos principalmente porque levavam seu dinheiro para o Vaticano. Disso surgiu a decisão de detonar duas bombas diante de duas igrejas em Roma”.
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16 Maio, 2011

Vitor Angelo: beijo gay do SBT foi tapa na Globo e na Record


Às 22h59 da última quinta, o SBT deu um tapa de luva militar na católica Globo e na evangélica Record ao colocar no ar um capítulo da história da teledramaturgia no país. O dono do baú da felicidade promoveu a alegria do tão esperado primeiro beijo gay em uma novela brasileira.

Vitor Angelo, Folha de S.Paulo / Vermelho

Houve boatos de que, em 1963, no teleteatro chamado Calúnia, teria acontecido o que seria o beijo lésbico entre as atrizes Geórgia Gomide e Vida Alves, mas não existe registro da cena.

São as cenas gravadas por Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre), personagens da novela Amor e Revolução, de Tiago Santiago, que mostram a primeira manifestação de afeto íntimo homossexual da televisão do Brasil.

O beijo entre elas foi quente, sexy, com pegada. Cenas insinuantes de pernas se esfregando deram um tom mais ousado à cena. Marcela, mais resolvida com a sua bissexualidade, sabe bem o que quer. Para Marina, tudo isso é uma grande novidade.

Depois do beijo, elas questionam o papel da mulher e da liberdade e independência que o sexo feminino pode conquistar em relação aos homens. A cena sozinha é uma síntese do título da trama. Há amor e revolução.

E tudo isso num dia em que houve um bate-boca entre a senadora Marinor Brito (PSOL-PA) e o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que perturbou a entrevista da senadora Marta Suplicy (PT-SP) mostrando seus panfletos antigay no Congresso.

E quando, em Uganda, está quase aprovada a lei que prevê pena de morte aos homossexuais, a ficção revolucionou e poetizou a realidade com um belo e longo beijo.

Que venham mais.”

15 Maio, 2011

Antes que o diabo saiba que você está morto


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Hoje não faço bem ideia de como desenvolver esta crônica. Confesso que a criatividade escasseou, abandonou-me nos últimos dias. Então, lá vai um pouco mais do mesmo assunto. Esgotemos o tema ou a sua paciência.

Vou escrever novamente a respeito da ruína de Obama Bin Laden. Calma lá, leitor afoito! Não confundi as bolas, não. Não troquei o nome do morto. Obama, Osama... É tudo meio parecido, até os nomes próprios. Eu estava apenas testando a sua atenção.

Obama matou Osama, que matou um monte de gente nas Torres Gêmeas, que não tinham matado ninguém (alguns executivos mataram serviço naquele dia e escapuliram da morte). Lembraram-se do poema “Quadrilha” de Carlos Drummond? Inteligente, não? Não. Concordo.

Pegaram Bin Laden. Daí, então, o mundo ficou muito mais seguro. Ao menos para o durão Obama e sua família, que tiveram a segurança reforçada, não apenas para esta legislatura e para a próxima (especialistas em politicagem garantem que a morte do terrorista foi um golpe de mestre do Presidente), mas, enquanto eles caminharem sobre a face da Terra (o governo ianque gasta uma fortuna em dólares para proteger seus ex-presidentes e agregados da “eterna fúria dos inimigos”, afinal, quem apanha nunca esquece).

Adorei o título do filme: “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” (Before the devil knows you’re dead – Estados Unidos, 2007). Gosto muito de títulos que provocam um impacto, como “Carrie, a Estranha”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Garganta Profunda” (esqueçam que algum dia eu fiz alguma referência a este filme...), e “Um dia de cão”, por exemplo.”
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14 Maio, 2011

Meus erros preferidos

Gabriel Perissé, Correio do Brasil

“As crianças erram. Porque são humanas. Mais humanas do que nós, adultos adulterados. Odiamos errar. Queremos a perfeição. E por isso deixamos de aprender com a mesma rapidez com que aprendíamos na infância. Mas os erros revelam verdades. Especialmente os lingüísticos.

Uma criança outro dia me perguntou se existe mesmo o tal de abdominável homem das neves. Ouviu algo a respeito num programa de TV sobre o Himalaia. Será abdominável o monstro porque faz abdominais deitado na neve?

Dias desses, uma menina aqui em São Paulo viu dentro de uma estação do metrô uma sala de vidro. Trata-se de um posto tira-dúvidas. Qualquer passante com dificuldades em português e matemática pode entrar e, gratuitamente, receber uma breve aula particular sobre fatoração ou análise sintática, raiz quadrada ou ortografia. Ao ler o cartaz com os dizeres "Tire aqui suas dúvidas de português e matemática", a criança disse ao pai:

— Ah, então é daqui que as pessoas vêm tirar suas dúvidas! Pai, deixa eu pegar uma pra mim!

O erro nos ajuda a acertar com esmero. Um erro não é mero equívoco. Erra redondamente quem menospreza o poder criativo do erro.

Uma professora me contou que, no início de sua carreira, faz mais de 30 anos, tinha em sala de aula um aluno que falava "truxe" em vez de "trouxe". O menino vivia trazendo coisas: "Professora, eu truxe o lanche! Professora, eu truxe o caderno! Professora, eu truxe a lição de casa!"
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13 Maio, 2011

Será que o Bonner tinha razão?

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“As emissoras de TV vivem quebrando a cabeça para descobrir o porquê da baixa audiência de alguns de seus programas e para isso criam comitês formados pela sua alta direção, grupos de discussão especializados e gastam milhões investindo em melhorias de cenário e conteúdo. Mas os números insistem em descer a ladeira.

Entretanto, uma dessas emissoras, desde os anos noventa, descobriu uma arma secreta usada para alavancar a audiência de muitos programas. Estou falando do SBT, que usou e abusou da série mexicana infantil “Chaves” para preencher horários, nos quais os números do ibope deixavam a desejar. E o pior (ou melhor?) é que sempre deu resultado.

Silvio Santos, de olho no sobe e desce da audiência, aprendeu direitinho como escalar o Chaves na hora certa, sem horário definido O seriado tanto poderia ser programado de manhã, como no fim da tarde e até mesmo no lugar de um telejornal, passando-o lá para o final da noite.

Com o tempo, Silvio foi descobrindo outras maneiras, mais modernas talvez, de driblar os baixos índices de audiência, mas não dispensou os serviços de Chavez e de seu amigo Chapolin, o anti super-heroi mexicano que também ajudou bastante o SBT a elevar preciosos pontos no ranking da preferência popular.

A Record, sempre de olho nas boas idéias das concorrentes, pronta para imitá-las quando dão certo, resolveu seguir os passos do SBT, e hoje, pela identidade de seus programas, principalmente no domingo, as duas chegam até a confundir o telespectador tamanha a semelhança entre as duas. A emissora da Barra Funda, a exemplo da TV da Anhanguera, resolveu escalar o Pica-pau em horário nobre na tentativa de recuperar público.”
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Críticas a Higienópolis provocam onda de ofensas a judeus

Dayanne Sousa, Terra Magazine

“Comentários de cunho ofensivo contra judeus se propagaram na internet depois de noticiado que o governo de São Paulo mudou o plano do metrô e não construiria mais uma estação no bairro de Higienópolis.

A região da Zona Oeste de São Paulo é conhecida por ter muitos moradores judeus. Já há dois dias, a polêmica do metrô virou um dos assuntos mais comentados no Twitter. Desde quarta-feira, dezenas de tweets ligando o fato de forma ofensiva a judeus ou ao holocausto já foram publicados.

Em meio a sátiras, os comentários preconceituosos. "O nome é Higienópolis, mas o correto seria forno de cremação, já que lá é lotado de Judeus", escreveu o perfil @ateucristao, que se identifica como Milton Fernandes.

Em seguida, publicou: "Qual a diferença entre uma pizza e um judeu? A pizza não grita quando vai para o forno". Depois que outros internautas o ameaçaram denunciar para a polícia, o homem insistiu que se tratava de uma brincadeira. A Polícia Federal recebe denúncias anônimas de crimes de ódio em seu site denuncia.pf.gov.br

A mudança nos planos de construir a estação no bairro de classe alta ocorreu depois de pressões da Associação Defenda Higienópolis Os moradores temiam o crescimento de "ocorrências indesejáveis" - ou seja, da violência.

O humorista Danilo Gentili foi um dos primeiros a provocar reações de seguidores ao escrever: "Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão, foram parar em Auschwitz".

Outros perfis na rede também tem sido questionados por comentários. Em resposta ao @ateucristao, Carlos Santos escreveu: "Gosto dos judeus como gosto da minha água. Com gás". "Por isso eu não gosto de judeus", completou outro. "Hitler estava certo em tirar o dinheiro desse povo judeu", acrescentou Mika Sampaio.”

10 Maio, 2011

Matou Osama e saiu pra comer um hambúrguer

Eberth Vêncio, Revista Bula

“Em pronunciamento oficial ao planeta, o síndico do ocidente, Barack Obama, afirmou que o mundo está melhor sem Osama Bin Laden. Na duvidosa versão norte-americana (sempre se pode mentir um pouquinho a fim de que a verdade prevaleça), o saudita foi trucidado no Paquistão, recolheram dele amostras de sangue para estudo de DNA (“sangue esparramado é o que não faltava”, vangloria-se a Inteligência Americana) e fizeram também algumas fotografias do defunto. Como num filme de 007, o cadáver foi atirado de um helicóptero em alto-mar para ser comido pelos tubarões.

Se eu fosse tão inteligente quanto a CIA, se eu ao menos tivesse um ódio parecido com aquele que o povo americano nutria pelo Osama, eu não descartava o seu corpo desta maneira, mas o embalsamava, escondia nalgum recanto da América. Ora, se os ianques estocam até mesmo exemplares de extraterrestres invasores, por que não o fariam com Osama? Seria apenas mais um segredo de Estado guardado a sete chaves pela cúpula mais poderosa (e uma das mais prepotentes) da Terra.

Poucas vezes eu vi tanta comemoração popular por conta da morte de um ser humano (embora muitos garantam que Osama não era deste mundo, mas uma encarnação do próprio satanás). Milhares de pessoas em todo o mundo foram às ruas, enrolados em bandeiras, em manifestações ufanistas, a fim de se rejubilarem pelo massacre ao líder da Al-Qaeda.

A alegria estampada nos rostos dos manifestantes pode ser comparada àquela observada há dez anos, em alguns países muçulmanos, por ocasião do atentado monumental ao World Trade Center em Nova Iorque, em que cerca de três mil pessoas sucumbiram sob escombros de concreto, ferro retorcido e fuselagem de avião. Lembro-me perfeitamente daquele dia assustador em que cheguei a pensar que, finalmente, o fim do mundo tinha chegado. É. Mas alegria de pobre dura pouco, e o mundo não acabou. Ainda não fora daquela vez que uma borracha celestial seria passada sobre a humanidade, a fim de começarmos tudo outra vez, do zero, das amebas.”
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09 Maio, 2011

O vagabundo imortal

Rodolpho Motta Lima, Direto da Redação

“Ia escrever sobre o “caso Bin Laden”, mas o Mair, em sua coluna, já disse o que deve ser dito. Apenas fico aqui pensando como estamos caminhando, nós, os seres humanos: de um lado a indignidade, a selvageria, a perversidade injustificável dos atos terroristas; do outro lado, a triste admissão, no “mundo democrático” - e logo pelo governo Obama ! - da tortura como um modo eficaz de informações...

Troco, então, o objeto do meu texto, por algo que valha muito mais a pena, como símbolo da humanidade. E a motivação corre por conta do lançamento de um novo livro sobre Charles Chaplin (Chaplin, uma vida, de Stephen Weissman), centrado em episódios dramáticos da infância desse formidável artista.

Quando eu era criança – um tempo em que a televisão apenas engatinhava e nós construíamos nosso mundo onírico a partir da inventiva que o rádio nos obrigava a ter, ou com a magia em que o cinema nos envolvia -, lembro-me que, menino do subúrbio do Engenho Novo, havia um vizinho, certamente mais bem estabelecido na vida que o restante dos moradores dali, que promovia, uma vez por semana, uma sessão noturna doméstica de filmes que encantavam a garotada.

Era em um quintal, cercado de árvores frondosas, nos fundos da casa grande em que ele morava com a família. A gente levava de casa as próprias cadeiras, ia chegando e se instalando. E ele, diante dos nossos olhos maravilhados, montava no fundo do quintal a parafernália fílmica, com seus grandes rolos de fita de celulose.

Creio que foi ali, mais do que no ambiente do cinema propriamente dito - que, no meu caso, eram as salas dos pulguentos cines Real e Edson ou do moderno Santa Alice - que tomei contato com os fazedores de sonho das crianças, que iam desde os desenhos de Tom e Jerry e do Picapau aos filmes de Walt Disney, passando pelos seriados de Tom Mix, Batman ou Super-Homem, enveredando pelas trapalhadas do Gordo e o Magro ou dos Três Patetas,e culminando com os filmes – curtos ou longos – desse formidável artista que no Brasil se popularizou como Carlitos, falecido em 1977, aos 88 anos.”
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08 Maio, 2011

Cinco coisas que você deve saber sobre o Transtorno Bipolar do Humor

Mireia C. Roso e Rosilda Antonio, Envolverde

“O Transtorno Bipolar é uma doença grave, limitante e que pode causar prejuízos importantes na vida de uma pessoa. A partir do aumento de estudos científicos nessa área, o diagnóstico tornou-se mais preciso e, por isto, cada vez mais pessoas são diagnosticadas como portadoras deste transtorno. De uma maneira geral, a principal característica do Transtorno Bipolar é a presença de instabilidade ou oscilação do humor. A pessoa bipolar apresenta fases de depressão e fases de mania ou euforia que se alternam ao longo do tempo. Pode manifestar-se de varias formas, dependendo da duração e intensidade das fases de mania e depressão.

Na euforia ou mania, ocorre uma ativação dos processos psíquicos, o humor do paciente fica exaltado, “para cima”, com aumento de energia, de forma desproporcional ou sem relação com eventos da vida. O paciente pode se irritar facilmente e o fluxo de ideias fica acelerado. Também pode acontecer de, subitamente, o indivíduo passar a ter ideias bizarras, místicas ou espirituais que não fazem parte de suas crenças habituais. A alegria ou exaltação que normalmente as pessoas sentem não é tão duradoura, nem oferece riscos como a que ocorre no estado de euforia – que podem durar dias, semanas ou meses. Além disso, na mania acontecem mudanças importantes no comportamento, saúde física e raciocínio (o pensamento acelerado, característico da mania, nunca acontece em estado de normalidade). A família e as pessoas à volta percebem claramente as mudanças que, em geral, acontecem de forma abrupta.

Os principais sintomas da Mania ou Hipomania são:
- Aumento da Energia: excesso de atividade no trabalho, estudos, compras, aumento de conversas ao telefone, de sexo, exercícios, viagens ou noites na internet;

- Humor irritável ou mais raramente eufórico;

- Aumento da agressividade, presença de impaciência;

- Aceleração de pensamentos, muitas ideias, devaneios e distrações presentes;

- Aumento da atividade mental, muitas ideias e planos;

- Pensamentos com conteúdo exageradamente positivo: otimismo, sentimento de superioridade, arrogância, coragem, perda de timidez;

- Aumento da impulsividade e de atividades de risco (esporte, gastos, sexo);

- Abuso e/ou dependência de álcool e/ou drogas;

- Diminuição da necessidade de sono;

Na depressão, ocorre uma diminuição da energia, do prazer e a presença de tristeza e/ou irritabilidade. O indivíduo deprimido percebe que seus sentimentos diferem de uma tristeza normal sentida anteriormente ou do luto. A pessoa deprimida reage às situações estressantes com sofrimento maior e mais prolongado, desproporcional ao estímulo. Tudo se transforma em problema e os problemas tornam-se mais pesados e difíceis de resolver. Quem sente tristeza normal, busca a companhia de outras pessoas, mas a pessoa com depressão prefere se isolar. Quando o indivíduo está triste, procura se ajudar; a pessoa deprimida não consegue acreditar na eficácia de qualquer ajuda, está descrente, sem interesse e força de vontade. Alguns pacientes deprimidos tentam se distrair e disfarçar a depressão, mas acabam irritados e sem paciência pelo esforço em aparentar bem-estar. Em casos mais graves, a pessoa fica muito lenta, com dificuldade de concentração e raciocínio e a velocidade do pensamento diminui. Assim como na mania, esta alteração da velocidade normal do pensamento é algo que não ocorre em estado de normalidade.”
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06 Maio, 2011

Isso não obsta!

Mouzar Benedito, Revista Fórum / Envolverde

“Antes de viajar para o Nordeste pela primeira vez, eu achava que a palavra acolá existia só nas palavras cruzadas, ninguém falava isso. Mas entre nordestinos vi que não só existe como é muito empregada. O que não existia entre muitos nordestinos eram as palavras ali e lá. Lá era acolá, e ali era acolazinho.

Aprendi muitas novas palavras no Nordeste. Por exemplo: lá não se falava tapete, e sim alcatifa. Um tipo de vaso de barro era alguidar. Pote grande, para armazenar bastante água, era porrão. Ficar bravo era retar, ou ficar retado. Em Barra, no Oeste da Bahia, onde o bispo Cappio protesta contra a transposição do Rio São Francisco antes de recuperá-lo, moça bonita era berlota. Por falar em moça bonita, namorando uma no Ceará fiquei sabendo uma época que “califun caiu de moda”. Califun ou calefon era sinônimo de sutiã.

Com a chegada da televisão, muita coisa mudou, a linguagem foi meio padronizada, embora permaneçam muitas expressões regionais. Mas tem palavras que ― sejam de onde for ― me deixam invocado. Acho besta, por exemplo, cara que quer colocar um pouco de humor num texto e, quando quer dizer de coisas de antigamente, diz “de antanho” ou “dos tempos de antanho”. Não tenho nada contra a palavra antanho, mas acho feia. Assim como acho muito feias as palavras fronha e regozijo.

Muitas palavras eu pronunciava errado de propósito, por achar feia a forma correta, como é o caso de lagarto e lagartixa, que eu e muitos conterrâneos pronunciávamos largato e largatixa.

Lembrei-me agora de pessoas que “descobrem” uma palavra e a acham maravilhosa, mas nem sempre entendem seu significado. Uma história famosa é de um sambista que foi ao velório de um amigo e no cumprimento à viúva disse apenas: “Que coincidência!”. Havia conhecido a palavra pouco tempo antes e achava que era uma expressão de lamento.”
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05 Maio, 2011

Gentileza gera gentileza

Não é fácil ser solidário e gentil quando as contas não estão em dia

Cássia D’Aquino, Mulheres em Ação

O dinheiro tem o poder de influenciar nossos planos e emoções. De fato, é mesmo improvável que alguém endividado até o pescoço, atolado em cheques especiais impagáveis ou faturas de cartão superlativas, encontre tempo, disposição e energia para pensar em algo que não seja o dinheiro (ou a falta dele). Não há dúvida que é muito mais fácil ser ético, solidário e gentil quando as contas estão em dia e o futuro assegurado por bom planos de investimento.

Mas há gente, no entanto, que, mesmo tendo grana, exagera na dose e dá ao assunto mais atenção e trela do que ele merece. Sem nem ter a desculpa de ser profissional da área (!) vive só de pensar e falar sobre dinheiro. Gente assim é chata, sem assunto nem charme e, pior, quase sempre atropela os sentimentos e ouvidos dos outros.

Num e noutro caso - no excesso ou escassez de atenção ao dinheiro- a indelicadeza de sentimentos resulta na ausência de gentileza com o próximo. E, assim, o mundo vai ficando cada vez mais árido, mais tenso e cada vez menos cordial.”
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04 Maio, 2011

A passagem de Einstein pelo Brasil

Urariano Motta, Direto da Redação

“Dizem os registros que de 4 a 12 de maio de 1925, o quarto de número 400 do Hotel Glória, na cidade do Rio de Janeiro, abrigou um dos maiores cientistas de todos os séculos. Mas ninguém fala do desastre cômico da passagem do astro da física pelo Brasil.
Na chegada de Einstein ao porto do Rio de Janeiro só não lhe tocaram Cidade Maravilhosa porque a banda não poderia tocar o que ainda não existia. Mas as fotos mostram o cientista em um mar de curiosos, que lhe acenavam e sorriam como se ele fosse um astro de cinema. Se tivesse tempo para refletir, certamente diria o que certa vez comentou Borges, ao ser cumprimentado por muitas pessoas nas ruas de Buenos Aires: “eles acenam para um homem que pensam que sou eu”.

Dali, sempre cercado por uma comitiva das mais doutas toupeiras, visitou o Presidente da República, e deu três conferências, a primeira no Clube de Engenharia, a segunda na Escola Politécnica e a última na Academia Brasileira de Ciências. Com direito a almoços e jantares nos intervalos, em locais diferentes, no prazo de uma semana. Os organizadores da sua agenda conseguiram o que parecia impossível em 1925: transformar a bela cidade do Rio de Janeiro em uma anticidade.

E cabe aqui, de passagem, uma visão dos responsáveis por seus dias no Brasil, os doutores que o cercavam. Não havia, entre eles, um só físico ou um só matemático. Os doutores eram médicos, advogados, políticos, militares, embaixadores, e alguns engenheiros. Os doutores clássicos do Brasil: donos de uma posição social, e que por isso mereciam e merecem o tratamento honroso, como depois seria exemplo o Doutor Jornalista Roberto Marinho. Com tal gente, o resultado foi o que se viu.

Na primeira palestra, no Clube de Engenharia, o salão ficou completa e absolutamente lotado. Políticos, graduados oficiais das três forças armadas, altos funcionários, engenheiros, esposas e filhos e filhinhos, todos muito unidos na mais absoluta ignorância do que vinha a ser aquele indivíduo estranho e suas ainda mais estranhas idéias. Com a vantagem, que os deixava ainda mais unidos, de não entenderem uma só palavra da língua alemã. O que importava era ver o homem famoso em ação.”
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03 Maio, 2011

A humanidade na lata de lixo


Eberth Vêncio, Revista Bula

“A não ser os lunáticos (seres animados que vivem a salvo das agruras deste mundão véio e sem porteira) e os celerados (criaturas praticamente sem classificação plausível na escala animal), todos se sentiram muito chocados com o episódio da mulher que abandonou a filha recém-nascida dentro de uma caçamba de entulhos numa cidade do interior paulista.

Por mórbida curiosidade, pesquisando na internet, eu constatei inúmeras estórias similares de abandono de crianças em locais os mais escusos, como latrinas, bueiros, lixeiras, matagais, fossas e lotes baldios. Por que carga d’água simplesmente não se entrega a criança renegada numa delegacia, hospital ou igreja é algo pouco compreensível... Capturada pelos detentores das leis mundanas, a mulher justificou o ato agarrando-se à condição de vitimada pela “depressão pós-parto”.

Nos últimos anos, com o avanço da humanidade (e o aparente retrocesso das relações humanas) a depressão tem se tornado uma das doenças mais prevalentes no planeta, disputando espaço pau a pau com a diarréia, a verminose, o bicho-de-pé e o alcoolismo. Piadinhas à parte, o incremento das doenças mentais faz supor (na minha sincera opinião, praticamente jogam sobre a raça humana uma pá de cal) estarmos trilhando caminhos equivocados que nos conduzem à desesperança e, pior que tudo, ao vazio existencial. O que pode ser pior do que o nada?

A Depressão Pós-Parto é um transtorno relativamente frequente durante o puerpério (dias que sucedem ao parto) que pode se apresentar em graus variados, desde uma melancolia branda (baby blues) até quadros psicóticos em que a mãe, se não tratada e contida pelos seus pares, atenta contra a integridade do neonato, podendo até mesmo matá-lo por abandono ou dano físico.”
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02 Maio, 2011

Abortamento, um tema de dor

Dora Martins, Radioagência NP / Brasil de Fato

“Pergunte-se a quem quiser, e qualquer um vai dizer ser contra o aborto. E, convenhamos, nenhuma mulher acha bom ou agradável submeter-se a um abortamento, ou abortar, sozinha, seu feto.

O aborto acontece, quase sempre, no escuro da alma, no medo, na insegurança, na tristeza. Não é algo desejado e por isso não é defendido por ninguém. O que se coloca em discussão, e se faz necessário, é olhar para a questão do abortamento tal como ele se põe - uma questão de saúde pública, de saúde e de vida da mulher.

Uma revista feminina, neste mês, entrevistou as nove ministras do governo Dilma. E a todas foi feita a pergunta: "a senhora é a favor da legalização do aborto?". Todas, de um jeito ou de outro, responderam que sim, que são a favor de a mulher ter o direito de abortar. Mas, perderam, quase todas, uma boa oportunidade de, naquele tipo de veículo de comunicação, voltado ao chamado "público feminino", apresentarem suas respostas de modo mais firme, contundente e esclarecedor. Especialmente por serem todas mulheres, a ocuparem um cargo expressivo no atual governo do estado brasileiro. Estado esse que ainda faz vistas grossas para um milhão de abortos feitos no país, anualmente.

Em alguns estados brasileiros, o aborto é a primeira causa de mortalidade materna. Abortos feitos aos milhares, todos os dias, na clandestinidade, sem qualquer cuidado, de modo precário e inseguro para a mulher. Milhares morrem; outras, se não morrem, suportam sequelas físicas e/ou psicológicas perenes. E, seguem todas, mortas ou vivas, com a pecha de criminosas. O que não se pode mais esconder embaixo do tapete é a discussão sobre a legalização do aborto, afastar dela a conduta criminosa. É por aí que se deve conduzir o debate e o foco da luta de todos, mulheres e homens.”
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01 Maio, 2011

E daí que Jimmy não é humano?


Romeu Prisco, Direto da Redação

“Recentemente, a imprensa deu destaque a uma decisão incomum do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Através da sua 2ª Câmara Criminal, a corte negou pedido de habeas corpus para o chimpanzé Jimmy. Uma vez concedida a ordem, a idéia seria transferir o animal para um santuário ecológico, onde ele ficaria mais próximo do seu habitat. A negativa fundamentou-se no fato de Jimmy não pertencer à espécie humana, assim destituído, portanto, da faculdade de ser beneficiário daquele procedimento legal.

Em tempos modernos, inúmeros municípios e vários Estados brasileiros já possuem legislação de proteção aos animais, a maioria proibindo sua exibição em espetáculos circenses. Porém, há também normas legais, que vão desde a proibição de trabalho dos animais em jornadas superiores a oito horas, caso dos cavalos usados na tração de veículos de duas ou mais rodas, até a proibição da locação de cães, para "serviços" de vigilância em casas de família e estabelecimentos comerciais.

No caso do chimpanzé Jimmy, não seria exagero dizer que o fundamento da decisão beirou o preconceito. Outros poderiam ser os motivos de decisão, que também parece ter, subliminarmente, aspectos políticos, já que Jimmy seria transferido de uma cidade fluminense (Niterói) para uma cidade paulista (Sorocaba), embora não se pretenda, neste texto, analisar onde o símio ficaria mais confortável.

Tal como tratado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Jimmy foi equiparado a um objeto. Entretanto, se objeto não é titular de direitos, os animais o são. Portanto, sendo titular de direitos, não há por que negar-lhes uma ordem de habeas corpus. Claro que eles, animais, não podem requerê-la diretamente, devendo terceiros fazê-lo em seu lugar, como ocorre com menores de idade e incapazes, sujeitos à tutela legal. Se alguém duvidar que os animais sejam titulares de direitos, tal como os humanos, basta ler o inciso 2, do artigo 14, da Declaração Universal dos Direitos dos Animais:

"Os direitos do animal devem ser defendidos pela lei como os direitos do homem."
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