31 Maio, 2009

O silêncio e a paz de Jonas

Janio Ferreira Soares, Terra Magazine

“Nas minhas primeiras idas a Salvador várias coisas me encantaram. Dentre elas, a escada rolante da Fundação Politécnica; o elevador Lacerda; a banana split da Lobrás; o cheiro das maçãs de uma banca perto do Cine Guarani; o vai e vem das meninas com suas calças azuis e desbotadas, e, principalmente, a imagem "de cinema" da televisão. Diante dela eu varava as noites e ficava até depois de encerrada a programação, apenas vendo o indiozinho da Itapoan piscando no escuro da sala. Mas tinha um programa em especial que me fascinava e me deixava vidrado diante da tela azulada da velha ABC. Chamava-se Som Exportação.

Foi nele que eu vi pela primeira vez uma turma que eu apenas conhecia de ouvir falar, ou então de algumas canções que conseguiam transpor a Serra do Padre e ecoavam pelas ruas de terra da velha cidade de Glória (BA) através do rádio e da difusora da praça. Desde Ivan Lins dizendo que o seu peito percebeu que o mar é uma gota comparado ao pranto seu, passando por Milton Nascimento - soltando a voz nas estradas -, até Elis Regina, implorando uma casa no campo pra poder compor muitos rocks rurais, tudo cheirava a novidade para olhos acostumados a ver parentes conversando sob umbuzeiros em flor, e ouvidos habituados a zumbidos de asas de colibris cortando as intermináveis manhãs.

Talvez por isso eu tenha me identificado de imediato com três cabeludos que apareceram por lá tocando uma levada diferente, que misturava o rock do Alabama com o blues de Minas Gerais, cujo resultado - dava para antever - fatalmente transitaria pelo Rio São Francisco, passaria por Pilão Arcado e Sento Sé, e desaguaria entre a montanha e o mar. Sá, Rodrix e Guarabira, eram seus nomes. O prazer foi todo meu.”
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30 Maio, 2009

A cultura brasileira no paredão

O pau come pra todos os lados neste desabrido diálogo de Aldir Blanc e Marcelo Mirisola sobre as “ostras” da cena cultural do país. Discorde, concorde, conteste, comente, mas não deixe de ler

Marcelo Mirisola, Congresso em Foco

Faz um tempão que não vejo o Canal Brasil. Uma das poucas coisas que sinto falta na televisão, confesso. Anteontem, fiquei sabendo que Aldir Blanc tem presença garantida lá no 66. Foi um amigo meu, o Nilo, quem me alertou: “O Aldir Blanc soltou os cachorros numa editora. Tava lendo os trechos que os caras censuraram. Cambada de bundões!”

A partir daí, pensei comigo mesmo: quero saber do que se trata. Vou tentar entrevistar o Aldir Blanc. Essa censura disfarçada de “edição” já encheu meu saco. Comigo aconteceu algo parecido. Em Paraty, quando cobria aquela palhaçada para o jornal Zero Hora, também me censuraram. De lá pra cá foi só chega pra lá, isolamento e essa babaquice generalizada que se instalou na mente das pessoas. E virou uma obsessão pra mim. Daí que tenho a obrigação de fazer um alerta ao leitor do Congresso em Foco. Por causa dessa minha obsessão, mania persecutória ou inhaca adquirida, e diante da minha incapacidade de respirar no meio desse lixo todo, algumas perguntas que faço ao Aldir Blanc são praticamente iguais às que fiz ao Nilsão Primitivo. Se as faço é porque me infernizam, e porque urgem.

Perguntas e respostas foram enviadas por e-mail.

Que editora é essa que o censurou? Por que a babaquice generalizou-se na terra, no mar e no ar?

Aldir Blanc – Para colocar a coisa em termos precisos, o departamento jurídico da Desiderata “sugeriu” a retirada de alguns aforismos, que prefiro chamar de esculhambações, do livro Guimbas. Acho que a causa de todas as babaquices é que imitamos os americanos em tudo e criou-se uma indústria de indenizações por qualquer merda.

Os departamentos de marketing e jurídico são o novo DIP, a nova KGB? Não pega bem ter talento hoje em dia?

Marketing, como escrevi no próprio Guimbas, é uma profissão que ricocheteia. Não acho que talento entre nisso. É só um jogo de oportunismos.

Entendi. No lugar do talento, a vigarice, o oportunismo. Só não entendo por que continuar chamado os “produtos” dessa esterilidade de “arte”. Que se reconheça a canga e a filhadaputagem, e estamos conversados. E o Guimbas? Você vai procurar outra editora?

Quanto ao Guimbas, há uma certa confusão. Nem a editora (nem eu) soube dos cortes e ainda estou esperando ver o que vai acontecer com o livro sobre o Vasco, que também teria sido podado pelo mesmo departamento jurídico, atuando de beque-da-roça na Agir. O pretenso motivo é duro de engolir: eu teria batido muito pesado em Eurico Miranda. Pomba, eu entreguei o livro pronto no ano passado, em plena gestão do Eurico. Que graça teria um livro sobre o Vasco sem bater no Eurico? Esse ainda não foi lançado. Talvez vá pra escanteio, não sei de nada certo ainda.”
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Festival do Minuto (2003), “Ela Me Entende

Intervalo da consciência

O que temos como legado desses tempos em que vivemos não é fácil de descrever ou diagnosticar com a simplicidade tão comum aos que se cercam de certezas absolutas, inapeláveis, definitivas.

Eduardo Bomfim, Vermelho.org

O correto, acredito, é a compreensão de um Brasil cheio de contradições, por se fazer na maioria das coisas, em um mundo em profunda mutação científica e tecnológica, em meio a uma crise econômica mundial profunda onde paradigmas tidos como irrefutáveis desmoronam diariamente.

Tudo isso, produz uma crise multilateral que atinge os conceitos sobre a economia, a falência dos modelos das instituições internacionais surgidas após a segunda grande guerra mundial. Mas não fica somente restrita às bases objetivas das sociedades contemporâneas - as relações de produção, o mercado, o comércio internacional etc.

O que emerge, igualmente, é uma crise moral e nas estruturas sociais, de caráter multilateral, ou seja, em várias direções. E aqui não vai uma observação de conteúdo falso moralista ou puritana, mas a constatação do problema da moral sob o ângulo da cidadania e da coisa pública.

O que se apresenta é uma falência dos valores que compunham essa determinada época sob a égide do capital hegemônico, transformado em Deus, no Alfa e no Ômega das sociedades, como aquele antigo remédio, a “Maravilha Curativa”, a alquimia, a mística, para todos os males da saúde.”
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Caneta ou ferramenta?

Frei Betto, Adital

“Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor, que você lê, lê e não entende, a quem recorre?

O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas - 350 anos -, ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.

Você sabia que de cada 100 brasileiros(as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas), nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do IBGE, divulgado no último 22 de maio.

O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado do castelo, estar "pouco se lixando" para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007 apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas.

Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de ONGs, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.”
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29 Maio, 2009

Verdades e mentiras sobre o fim dos jornais

Julio Daio Borges, Digestivo Cultural

"Os jornais não vão acabar" ― Os jornais estão acabando. Até a Veja já sabe. É natural que jornalistas ― e demais envolvidos na cadeia produtiva de um jornal ― neguem a evidência até a morte. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que tenham o mínimo de honestidade para informar, ao público leitor, quando a realidade se torna absolutamente incontrastável. Assim, na próxima vez que você encontrar um jornalista, e ele tentar te convencer do contrário, só existem duas alternativas: ou ele está mentindo deslavadamente (para preservar sua posição) ou ele está imperdoavelmente mal-informado.

"Uma mídia não substitui a outra, assim como a TV não substituiu o rádio etc." ― É muito bonito esse discurso, mas ele é falacioso. Ninguém, em sã consciência, nega que o jornal perdeu espaço para o rádio (na primeira metade do século XX); que, por sua vez, perdeu espaço para a TV (na segunda metade do século XX); que, por sua vez, está perdendo espaço para a internet (no começo do século XXI). Estamos falando do tempo das pessoas ― e, como qualquer grandeza física, ele não é infinito. Historicamente, e culturalmente, se você quiser pensar: qual rádio tem hoje a penetração que a Rádio Nacional teve nos anos 30? E qual televisão tem hoje a penetração que a TV Record teve nos anos 60? Quem é maior, a Globo ou o Google?

"Mas o CD não acabou com o LP; e o download não acabou com o CD" ― OK, não acabou. Mas quantos CDs você comprou ultimamente? E quantos LPs? Nenhuma mídia física precisa ser varrida da face da Terra para que seja decretada oficialmente a sua extinção. Estamos falando num sentido mais amplo. O CD, para a circulação de música, tornou-se irrelevante. E, mesmo com o download pago, a indústria fonográfica não se reergueu como antes. É lógico que os jornais não vão sumir da nossa vista para sempre ― mas se tornarão, como veículos, cada vez menos relevantes; como o CD, no caso da música, não serão mais centrais para a circulação da informação.

"A crise dos jornais é dos EUA, e não chegará ao Brasil" ― Mentira, porque já chegou. E chegou antes da crise atual. Você sabe quanto a Folha ― então "o maior jornal do País" ― vendia nos anos 90? Nos tempos gloriosos dos brindes dominicais, chegava a vender algo na casa do milhão. E, recentemente, você sabe qual a circulação do jornal que ultrapassou a Folha e se tornou "o maior do País"? 300 mil exemplares. Menos de um terço do recorde dos anos 90. E você sabe quais são os números do primeiro trimestre de 2009? O Globo (260 mil), O Estado de S. Paulo (217 mil), Diário de S. Paulo (61 mil), Correio Braziliense (52 mil) e Jornal da Tarde (50 mil).”
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28 Maio, 2009

O "Minha Casa" é um avanço, mas segregação urbana fica intocada

Há, no programa "Minha Casa, Minha Vida" avanços importantes em relação à regularização fundiária e custos cartoriais, assuntos até então quase intocáveis no Brasil. Pela primeira vez, de forma explícita, há subsídios significativos para a baixa renda (R$ 16 bilhões entre 0 e 3 salários mínimos). O pacote, todavia, não se refere à matéria urbanística e deixa a desejar em relação aos temas da habitação social, se considerarmos tudo o que avançamos conceitualmente sobre esse assunto no Brasil. A análise é de Ermínia Maricato.

Ermínia Maricato, Carta Maior

O Pacote Habitacional lançado pelo Governo Federal em abril de 2009 – Minha Casa Minha Vida (MP n. 459, 25/03/2009) pretende financiar a produção de moradias para, antes de mais nada, minimizar o impacto da crise internacional sobre o emprego no Brasil. A prioridade é essa e ela não é pouco importante, ao contrário, ela é emergencial. A violência aumenta com o desemprego. Este não é a única causa daquela mas uma das principais senão a principal.

Vivemos o aumento da violência e do desemprego durante mais de duas décadas, a partir de 1980. A queda do crescimento econômico, o ajuste fiscal, o recuo das políticas públicas nos conduziram à tragédia urbana que hoje vivemos. Atingimos um padrão alto de violência nas cidades e o aumento do desemprego nesse momento pode significar o risco da integridade dos nossos pescoços, sejam aqueles adornados por metais preciosos sejam aqueles contornados por golas puídas. E o governo acerta quando remete à construção civil o foco da tarefa pois ela cria demandas para trás (ferro, vidro, cerâmica, cimento, areia, etc) e para a frente (eletrodomésticos, mobiliários, para as novas moradias) e, consequentemente muito emprego. Há, na MP 459 avanços importantes em relação à regularização fundiária e custos cartoriais, assuntos até então quase intocáveis no Brasil. E pela primeira vez, de forma explícita, há subsídios significativos do OGU para a baixa renda (R$ 16 bilhões entre 0 e 3 s.m.).

O pacote não se refere, entretanto, à matéria urbanística e deixa a desejar em relação aos temas da habitação social (se considerarmos tudo o que avançamos conceitualmente sobre esse tema no Brasil) Também não se refere ao emprego que pretende criar. Se em relação ao emprego provavelmente iremos constatar a continuidade das condições precárias e predatórias que caracterizam a força de trabalho na Construção Civil, tratada frequentemente como besta de carga (nem as ferramentas mais básicas mereceram um design que alivie o esforço do trabalhador) em matéria urbanística podemos prever, com toda a certeza, alguns impactos negativos que os novos conjuntos irão gerar por suas localizações inadequadas.”
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O incômodo das quotas

Mair Pena Neto, Direto da Redação

Uma liminar do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro suspendeu os efeitos do sistema de cotas para o ingresso de estudantes carentes nas universidades estaduais. No episódio, impressionam duas coisas: a celeridade do tribunal, que contrasta com a morosidade do sistema judiciário brasileiro, e a insistência em combater uma política afirmativa que vem dando resultados.

A liminar foi concedida por ação de inconstitucionalidade movida pelo deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP). Só pelo sobrenome do proponente já não deveria ter sido considerada, mas a maioria dos ilustres membros do tribunal votou contra o relator do processo, desembargador Sérgio Cavalieri, que pediu o indeferimento da liminar sob o argumento de que a política de ação afirmativa tem por finalidade a igualdade formal e material.

É incrível como essa questão das cotas incomoda parte da sociedade brasileira, habituada a ignorar os problemas da educação fundamental no país, para cuja melhora não move um dedo, mas esperneia para colocar seus filhos na universidade pública. É verdade que o problema original está na incapacidade do Estado de prover educação de qualidade nos níveis fundamental e médio, mas seria injusto alijar de uma boa formação superior as vítimas desta falha.

O sistema de cotas se propõe a enfrentar esse problema de frente, sem paternalismos, ao contrário do que pregam os seus detratores. As universidades estaduais do Rio de Janeiro reservam 45% das vagas para cotistas com renda inferior a 960 reais. Destas, 20% são para negros, 20% para egressos de escolas públicas e 5% para portadores de deficiências, indígenas e filhos de policiais. À exceção desta última categoria, cuja inclusão desconheço os motivos, as demais me parecem justas. A maioria das vagas (55%) continua distribuída por critério universal.”
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27 Maio, 2009

Tenda de milagres

Nirlando Beirão, Carta Capital

“Paulo Coelho, “o fenômeno dos 100 milhões de livros”, como celebrou The New Yorker, a revista dos glitterati de Manhattan e adjacências, sabe quanto é difícil ser profeta em sua própria terra.

Foi no Brasil, é verdade, que ele desa-brochou, 22 anos atrás, com o recordista Diário de um Mago, instaurando o inebriante sortilégio mercadológico de peregrinos, anjos, demônios, duendes, mestres, adivinhos, fadas, aliens e santos.

Mas aquele que é hoje o escritor manuseado pelos Clintons, Chiracs e Mandellas, oráculo consultado em Davos pelos gurus da globalização, personalidade convidada para se sentar, de fraque e gravata branca, em banquete da rainha em Buckingham, padece aqui de uma dieta de admiração crítica e de afetos sinceros.

Ainda é sucesso de vendas no rés do chão do mercado editorial, porta-voz do escapismo em pílulas para os hipocondríacos da credulidade. Porém, no Brasil, vende hoje menos do que já vendeu e vende hoje menos do que na França, na Itália, na Rússia, mesmo no Irã, perdendo aqui para a competição pouco edificante de uma subliteratura de eclipses, crepúsculos e amanheceres que dissimula a malandragem de copiar sabe quem? Paulo Coelho.

Se o público verde-amarelo de Paulo Coelho vai paulatinamente perdendo o encanto por Paulo Coelho, esvaída talvez a fé no pendor curativo de seus aforismos, o que dizer então dos, hum, bem-pensantes, aqueles para quem o sucesso multinacional do bruxo dispara muito mais constrangimento do que orgulho? A praga de rejeição empapou até a trajetória de O Mago, a formidável biografia de 630 páginas tecida pelo talento minucioso do jornalista Fernando Morais.

Obra com tal pedigree era para ser o best seller de 2008, avalanche de vendas, fila nas livrarias, nem que fosse por certas pimentas que Fernando Morais salpica ao longo da saga louca e improvável de um personagem no fundo tão fluido que a gente às vezes teme ser produto da imaginação dele próprio. Não, a biografia, o biógrafo e o biografado, coitadinhos, terão de se contentar com a consagração internacional.”
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Festival do Minuto, “Fome de Groove”

A educação e os comics: instantâneos brasileiros

As escolas públicas de São Paulo adotaram histórias em quadrinhos com conotação sexual, no ensino de crianças entre 8 e 9 anos. A escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”.

Olgária Mattos, Carta Maior

A imprensa divulgou a notícia de que as escolas públicas de São Paulo, a fim de “estimular a leitura e a escrita” no aprendizado da língua portuguesa, haviam adotado, para crianças entre oito e nove anos, histórias em quadrinhos. A publicação foi considerada imprópria por conter palavrões que, como se sabe, portam conotação sexual. Considere-se, também, além do estilo do desenho, a dificuldade de leitura de seus balões, que se deve ao traçado das letras, desenho e letras plenamente adequados ao gênero.

Assim, a questão não é a história em quadrinho, mas a adoção, pelas escolas, de uma expressão literária de distração “para adolescentes e adultos”, uma vez que a árdua tarefa da educação é introduzir a criança no universo do conhecimento, formando-lhe a sensibilidade e o pensamento, para que ela possa apropriar-se, progressivamente, de um repertório mais amplo e diverso daquele de que dispõe por sua inserção social e pela cultura de massa.

Confundindo educação e entretenimento, cedendo à adaptação da escola ao gosto das mídias, esta escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”. Adorno escrevia nos anos 1940 que a mídia determinou uma cisão entre “cultura de elite” e “ cultura popular”, protagonizando a cultura média midática, que difunde um conhecimento medíocre para a grande massa. Para ele, a indústria cultural seria, então, produzida “para os ignorantes”. Em seguida, seria levada a cabo “pelos ignorantes”, por equipes técnicas que não estabelecem nenhum contato ou contato apenas episódico com o mundo da cultura. Acrescente-se o ideário de que a dificuldade em alfabetizar, bem como em despertar interesse pelos saberes escolares, devem-se ao pressuposto de a escola não estar adaptada ao universo do “ educando”. Na verdade, talvez a crise esteja em a escola ter-se adaptado à carência do status quo , que corresponde à indigência das próprias elites educacionais.”
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Sociologia da música caipira & da música sertaneja

Algumas pessoas indagaram por que, volta e meia, encaixo algum trecho de músicas em meus escritos. Outras sugeriram abordagem da celeuma música caipira & música sertaneja, que mencionei em ''O nheco nheco balançado, cum fungado e cafuné'' (O TEMPO, 19.5.2009). Muitas outras estranharam que uma ''pessoa viajada como você'' (no caso, eu!) cultue essa coisa atávica da caipirada: o gosto pela sanfona, moda de viola etc...

Fatima Oliveira, Vermelho.org

Amo música e gosto de cantar. Não tenho uma voz e tanto, mas sou afinadíssima em meu naipe de contralto. Sou muito musical e do tempo em que canto orfeônico era uma disciplina escolar. Aprendi a solfejar e a ler partitura... Em ''Guarnicê para a música na educação básica'', louvei a obrigatoriedade do ensino da música na educação básica: lei nº 11.769, de 18.8.2008, sob a justificativa de que ''estudos e pesquisas mostram que a aprendizagem musical contribui para o desenvolvimento cognitivo, psicomotor, emocional e afetivo e, principalmente, para a construção de valores pessoais e sociais de crianças, jovens e adultos'' (O TEMPO, 26.8.2008).

Ser desasnada em música é um privilégio. Participei de corais do primário à universidade. Foi integrando corais que aprendi a ética da convivência grupal, a deferência à disciplina e o adestramento para a fusão de sopranos e contraltos (vozes femininas), e tenores e baixos (vozes masculinas) em doce harmonia que aparentam ser uma única voz. Um coral é um bem cultural incomensurável, fonte donde jorra incessantemente a educação musical e o culto ao belo.

Voltando às disputas discursivas música caipira & sertaneja, recorro a Elizete Ignácio Garcia, em ''Música Caipira e Música Sertaneja: classificações e discursos sobre autenticidades na perspectiva de críticos e artistas'', que discorre sobre as tentativas de delimitação, definição e diferenciação entre música caipira (autêntica?) e sertaneja (inautêntica?) para ''analisar a relação entre as diversas classificações e reclassificações feitas em torno dos gêneros musicais conhecidos como música caipira e música sertaneja e o debate sobre a ?autenticidade? na e da música''. Seria a música sertaneja um gênero rural urbanizado? Talvez.”
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Mercado da fé

Frei Beto, Adital

“Como os supermercados, as Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação.

Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há, sim, preconceitos explícitos em relação a outras tradições religiosas, em especial às de raízes africanas, como o candomblé e a macumba, e ao espiritismo.

Se não cuidarmos agora, essa demonização de expressões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes fundamentalistas, como a "síndrome de cruzada", a convicção de que, em nome de Deus, o outro precisa ser desmoralizado e destruído.

Quem mais se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi rainha nunca perde a majestade... Nos últimos anos, o número de católicos no Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73.8% da população. E nada indica que haveremos de recuperar terreno em futuro próximo.

Paquiderme numa avenida de trânsito acelerado, a Igreja Católica não consegue se modernizar. Sua estrutura piramidal faz com que tudo gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto são coadjuvantes. Aos leigos não é dada formação, exceto a do catecismo infantil. Compare-se o catecismo católico à escola dominical das Igrejas protestantes históricas e se verá a diferença de qualidade.

Crianças e jovens católicos têm, em geral, quase nenhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com Deus se estreitam mais pela culpa que pela relação amorosa.”
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26 Maio, 2009

A polêmica dos quadrinhos

Gian Danton, Digestivo Cultural

“Recentemente a história em quadrinhos 10 na área, um na banheira e ninguém no gol (Via Lettera, 2002, 112 págs.) foi alvo de grande polêmica envolvendo a compra da mesma para bibliotecas públicas do Estado de São Paulo. A escolha da obra revela, por si só, um preconceito: 10 na área... foi produzida para um público adulto, mas foi comprada pelo Governo do Estado de São Paulo para ser lido por crianças de oito anos. Quem escolheu a obra partiu da ideia equivocada de que toda HQ é infantil.

O episódio lamentável tomou proporções ainda maiores quando foi divulgado na mídia. O que se viu foi um show de desinformação. Falou-se que se tratava de uma apostila, que os autores eram depravados sexuais preocupados em perverter crianças... a maioria dos jornalistas não se deu ao trabalho de pesquisar do que se tratava. Se o fizessem, descobririam que 10 na área... é uma coletânea de quadrinhos sobre futebol, publicada em 2002, na época da Copa, e destinada ao público adulto. Não foi feita como quadrinho didático ou mesmo paradidático.

As próprias autoridades não se preocuparam em esclarecer a situação, talvez porque fosse mais fácil jogar a culpa sobre os quadrinistas do que em assumir os erros de um técnico na área de educação que não conhece quadrinhos.

Em entrevista ao jornal SPTV, o governador José Serra falou sobre o caso. A jornalista não perguntou a opinião do governador sobre a qualidade do material nem pediu uma análise estética, mas o governador fez questão de dizer "Achei a obra um horror... tudo de muito mau gosto... o desenho, tudo". Mais à frente, na mesma entrevista, o governador foi indagado sobre o livro de geografia distribuído pelo Governo do Estado, em que apareciam dois "Paraguais". "Esse é um caso muito menos grave", assegurou o governador. Muito menos grave? Como? No caso de 10 na área..., a obra é boa, fato demonstrado pelos prêmios recebidos por ela e seus autores (entre eles, os irmãos Bá, ganhadores do prêmio Eisner, o mais importante dos quadrinhos), só foi mal-escolhida. No caso do livro de geografia, a obra tem um erro gravíssimo, uma distorção da realidade, que compromete todo o conteúdo.”
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A quem pertence a Terra?

Leonardo Boff, Adital

“No Brasil se discute muito a questão da internacionalização da Amazônia ou a quem pertence essa rica porção do planeta Terra. Sem querer entrar nesta discussão que um dia retomarei, percebo que ela remete a outra ainda mais fundamental: a quem pertence a Terra?

Muitas são as respostas possíveis, algumas verdadeiras, outras insuficientes ou até falsas. Com certa naturalidade poderíamos responder: a Terra pertence aos humanos. Apelamos até à palavra das Escrituras que nos dizem: "entrego-vos tudo... propagai-vos pela Terra e dominai-a" (Gn 9,3.7). Estranhamente, os humanos irromperam no cenário da evolução quando a Terra estava em 99,98% pronta. Eles não assistiram ao seu nascimento nem ela precisou deles para organizar sua complexidade e biodiversidade. Como pode lhes pertencer? Só a ignorância unida à arrogância os faz pretender a posse da Terra.

Poderíamos ainda responder: a Terra pertence aos seres mais numerosos que a habitam. Então ela pertenceria aos microorganismos - bactérias, fungos, vírus - pois constituem 95% de todos os seres vivos. Segundo o conceituado biólogo E. Wilson um grama de terra contem cerca de 10 bilhões de bactérias de 6 mil espécies diferentes. Imaginemos os quintilhões de quintilhões de micro-organismos que habitam a totalidade dos solos terrestres. Todos estes têm mais direito de posse da Terra do que nós, seja por sua ancestralidade, seja pelo número seja pela função de garantir a vitalidade do planeta.”
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25 Maio, 2009

''A violência não é uma finalidade, é um meio''

Premiado como melhor diretor, filipino Brillante Mendoza inspirou-se em um fato real para rodar Kinatay

Luiz Carlos Merten, O Estado de São Paulo

Brillante Mendoza faz um cinema que pode definir como difícil. O sexo explícito em Serbis, a violência em Kinatay - o retrato que ele faz das Filipinas coloca na tela um mundo muitas vezes assustador. Mas, no limite, o que impressiona talvez nem sejam os temas, mas a mise-en-scène, essa maneira de usar o tempo para incomodar o espectador.

Mendoza foi recompensado pelo júri por sua direção "brilhante". Antes da premiação, ele havia conversado com a reportagem no jardim do Grand Hotel, em plena Croisette.

Não sei o que incomoda mais em seu filme, se as cenas em que a prostituta é decepada ou a viagem de van até o local do crime. Aquilo é tempo real, não?

Comecei no cinema filmando em tempo real e, embora Kinatay se passe num período mais longo, um dia e uma noite, é importante concentrar certos momentos, justamente para provocar a reação do espectador. Você ainda não sabe o que vai acontecer com esses personagens, mas o incômodo já o prepara para alguma coisa fora de série. Isso também é uma reação minha ao cinema e à TV que fazem sucesso em meu país. Nós, filipinos, consumimos muito as séries norte-americanas e as produções de Hollywood. Desenvolvi o meu método narrativo, que vai contra essa tendência. Mas, para chegar a ele, vi muitos filmes dos mestres estrangeiros e filipinos. Espero que o fato de estar em Cannes seja um estímulo para que outros diretores filipinos persigam a “nossa” maneira de narrar.”
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Serbis

Honrar a vida

Maria Clara Bingemer (Teóloga e Professora da PUC), JB Online

“Dizem que as crianças hoje já nascem sabendo. Que não são mais como antes, imobilizadas em cueiros, proibidas de tomar banho até o cordão umbilical cair, de olhinhos fechados até o final do primeiro mês de vida etc. Dizem que os bebês hoje já nascem ligados em tudo e não são mais aqueles serezinhos meio à parte do mundo, que se moviam apenas entre o seio túrgido de leite e o escurinho do berço.

Foi essa a sensação que tive ao lançar meu primeiro olhar sobre Maria Antonia. Nasceu de olhos muito abertos, com expressão tão inteligente e concentrada, que parecia impossível serem verdadeiras as palavras da enfermeira, que insistia em dizer: "Ela não vê nada por agora. Só escuta". Em todo caso, na dúvida, olhei bem para ela também. E acho que naquele primeiro momento já estabelecemos uma relação viva e verdadeira entre avó e neta.

Os olhos de Maria Antonia já nasceram perscrutadores, curiosos, observadores, ternos, pensativos. E pensei no Evangelho, quando Jesus diz que os olhos são a lâmpada do corpo. No caso dela, são sem dúvida a luz que revela seu rostinho adorável, encimado por uma quantidade de cabelos escuros como nunca vi em bebê algum. Olhando no fundo daqueles olhos, sentia a vida outra vez brotando nova e fresca em nossa família. Foi uma longa contemplação a que fiz na manhã da sexta-feira, 15 de maio, através do vidro do berçário, quando seu pai, meu filho, a trouxe nos braços e a apresentou, emocionado e cheio de orgulho, aos avós ansiosos. E eu fui então admitida à visão de seus olhos grandes, sérios e profundos.

O nascimento de Maria Antonia traz de novo o convite constante e insistente a honrar a vida. Ao lado dela, choravam, olhavam, mexiam braços e pernas dezenas de outros bebês, que eram diligentemente lavados, tratados, vestidos e cobertos pelas enfermeiras que depois os levavam para as mães que os esperavam com os seios repletos de leite e de amor. Era impossível não se sentir comovido vendo aquele movimento da vida que recebia os primeiros cuidados e iniciava seu longo e belo caminho em direção ao crescimento e à plenitude. Era impossível não crer no amor que ama primeiro e sai de si para criar, sempre único, sempre original, sempre irrepetível.”
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Carne de cavalo

Lecticia Cavalcanti, Terra Magazine

“O cavalo é o mais elegante dos animais. E um dos mais antigos também. Seu mais remoto ancestral, o "Hyracohteriun", viveu há sessenta milhões de anos. Do gênero Equus, é da mesma família do asno e da zebra - embora, quando cruzem entre si, produzam híbridos (não férteis) como a mula.
No início, para o homem, foram apenas alimento; até que, aos poucos, acabaram sendo domesticados. Passaram então a ser úteis na agricultura e no transporte - puxando carroças, carruagens e até bondes. Em montarias, também, chegando a ter grande importância nas guerras. Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, o Grande, o acompanhou em todas as suas conquistas. Vizir levou Napoleão, de Paris a Moscou, e ali suportou temperaturas de até 60º abaixo de zero; depois, derrotado, fez o percurso de volta, de Moscou a Paris (1812).

No exército, ainda hoje, se chama "unidade de cavalaria" aos equipamentos que substituíram esses cavalos. Faltando lembrar que nenhum outro animal se presta tanto à prática de esportes - corrida, pólo, equitação. Não só isso. Ajuda também na recuperação da coordenação motora de deficientes físicos (equoterapia).

Por ter tantas qualidades, ou só por preconceito quem sabe, venha talvez o desprezo por comer sua carne (hipofagia). Esse preconceito vem desde o início das religiões. Judaísmo, Islamismo e Budismo simplesmente proibiam seu consumo. Também a Igreja Católica, ao tempo do papa Zacarias (século VIII) - pela preocupação com a crescente popularidade das festas pagãs, onde essa carne era largamente consumida. Depois passou-se a permitir seu consumo apenas em períodos de escassez de alimentos.

"Um cavalo dá de comer a duzentas pessoas", assim escreveu Leonardo da Vinci em seu "Caderno de Cozinha". Recomendando até uma sopa de cavalo - "a melhor maneira de ingerir um cavalo é esta: deve-se prepará-lo como a sopa de vaca, mas no lugar de três cenouras, três cebolas". No aspecto, a carne de cavalo é semelhante à do boi, embora mais gordurosa, de cor mais intensa, e de sabor mais forte e adocicado.”
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24 Maio, 2009

A moça dos Sem Teto

Rui Martins, Direto da Redação

“Ela se chama Ivanete, Ivanete de Araújo, alta, morena, decidida mas de voz calma, tem por volta dos 24 anos. Eu a conheci aqui em Berna, num encontro promovido pela Anistia Internacional, sobre um outro MST tão detestado quanto os que lutam por ter uma terra para cultivar, trata-se do Movimento dos Sem Teto, que luta por um lugar onde morar.

Ivanete é o que se costuma chamar de combatente da base e por isso merece e impõe respeito, pois, antes de ser a coordenadora-geral dos Sem Teto, movimento que enfrenta as autoridades da prefeitura de São Paulo, viveu debaixo da ponte ou mais precisamente debaixo de um dos viadutos da metrópole paulistana, como ainda vivem tantos outros desabrigdos.

“Debaixo da ponte, não se tem nenhuma privacidade” , diz ela, e as pessoas escutando suas palavras traduzidas para o alemão, ficam imaginando o que aquela moça, ali sentada, pode ter vivido – adolescente, pés sujos e decalços, sem ter onde tomar banho e sempre com a mesma roupa, em síntese um pedaço da vida roubado pela pobreza.

Alguém um dia passou por lá e Ivanete, sem escola e sem ajuda, considerada gente da rua, entrou para a luta pela ocupação dos prédios desabitados da capital paulistana. Existem 450 mil casas, apartamentos fechados, sem uso, muitos se deteriorando, quase ruindo, nos quais são proibidos de entrar outras centenas de milhares de pessoas sem abrigo, sem dinheiro para pagar um aluguel ou vivendo num barraco de lata e papelão numa favela.

Existe um documentário sobre a ação dos Sem Teto, com o alegre título de Dia de Festa, na verdade o dia de ocupação, geralmente de um prédio das administrações federal, estadual ou municipal ou um prédio privado esperando o momento de ser demolido.”
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23 Maio, 2009

José Carlos Ruy: Com quantas Capitus se faz uma literatura?

Ou melhor, quantos Bentinhos e Capitus cabem em uma literatura? Pelo recém lançado romance de Chico Buarque, Leite Derramado, sempre cabe mais um, apresentado de forma nova, enriquecida por multiplas determinações, para usar a famosa expressão cunhada por Karl Marx.

José Carlos Ruy, Vermelho.org

Eulálio e sua sonhada Matilde, o casal desencontrado, protagonista das memórias de um centenário, recoloca, em outra circunstância, antagonismo semelhante ao que atormentou a consciência do primeiro Betinho, o de Dom Casmurro (Machado de Assis, de 1899). Um registro mais recente do mesmo drama é o caso de Nina e Valdo, de Crônica da casa assassinada (Lúcio Cardoso, de 1959). São tramas em que uma leitura superficial, e corriqueira, ressalta a traição feminina como tema, sem perceber o que há de mais profundo nelas: o pavor masculino da traição da mulher. O problema, nesta variante de leitura, é masculino e não feminino.

Mas isto é apenas o enredo para expor uma problemática mais complexa: o auge e a decadência de uma mesma oligarquia. Em Machado, ele é exposto com maestria em Dom Casmurro, e faz parte da aguda análise daquela elite que compõe seus romances da maturidade. Em Lúcio Cardoso, o cenário da lancinante decadência é um pequeno município da Serra da Mantiqueira, onde os Menezes tentam manter a mesma ultrapassada hierarquia social herdada dos séculos anteriores e que agora está completamente fora da realidade.

As memórias de Eulálio d´Assumpção - com o "d´" e o "p" nobilitantes no sobrenome - não tem esse sofrimento. É como se fosse o ponto de chegada da trajetória, ladeira abaixo, daquela mesma elite. Seu avô, um figurão do Império, dono de fazendas de cacau na Bahia e de café em São Paulo, estariam à vontade nos romances de Machado de Assis. Eulálio, já sem fortuna, relata - na verdade, delira - suas memórias no leito de um hospital público, às vésperas de completar cem anos. Desfila preconceitos de classe da mesma forma que essas famílias decadentes que fazem o teatro das grandezas sociais das gerações passadas, e agora perdidas.”
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Chico Buarque, “Leite Derramado”

Inverno é hora de arrumar um amor

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

“Estimados milhares de leitores dessa coluna. Se você é casado, namorado, ou possui algum relacionamento estável o suficiente para durar os três meses que se avizinham, sorte a sua. Nem pense em querer discutir o relacionamento, curtir novos desafios ou olhar pra gracinha do 803 com cobiça. Nem pense em ousadias, dispense o analista, largue a literatura que auto-ajude você a procurar o seu real eu e se enfie nas cobertas a cada noite sabendo que você é um privilegiado possuidor de alguém pra chamar de seu ou sua.

Opine aqui:
» O que você gostaria de fazer com seu amor neste inverno?

Esqueça as emoções fortes e pense na lombar congelando nessas noites frias e solitárias. Considere-se um sujeito ou uma sujeita que deu sorte na loteria da vida e somente tire o nariz da toca quando o degelo estiver pra lá de confirmado, preferencialmente depois de outubro.

E olhem que o inverno aqui no Norte profundo (essa região que se estende desde a área acima do Paraná até o Amazonas) não tem nada de tão assustador. Mas como eu me tornei adulto no Rio Grande do Sul, olhar o céu mudando de cor e os dias se tornarem mais curtos é a lembrança de como a vida pode ser dura quando a gente é só e a novela acabou e o jornal das dez da noite também e só nos resta o quarto frio e triste a aquela cama queen-size que a gente comprou num acesso de otimismo, quando achou que a rainha do nosso coração ia ficar com a gente ao menos até a coroação de um dos dois acontecer.

Eu leio muito sobre as pessoas hoje e elas adoram declarar que são solteiras e felizes, hu-hu. Poderosas e donas do próprio nariz, curtindo a vida adoidado, indo pra balada e prometendo não voltar enquanto a lingerie estiver no lugar ou em estado sólido, hu-hu.”
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Diário de Fernando: Nos cárceres da ditadura militar brasileira

Frei Betto, Adital

“Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público: trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos (1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentes cadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algo inusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado a conviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.

Assim como o "Diário de Anne Frank" nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obras publicadas sobre o período.

Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.

O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniu neste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.”
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Maisa, do SBT, tem licença para trabalhar cassada pela Justiça

Redação, Portal IMPRENSA

"Nesta sexta-feira (22), a Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Osasco cassou a licença que permitia que Maisa Silva, apresentadora do SBT, que acaba de completar sete anos, pudesse trabalhar.

Por se tratar de uma menor, o Ministério Público do Estado de São Paulo não dá detalhes da ação, mas o SBT garantiu, segundo a Folha Online, que a cassação não atinge os programas apresentados por Maisa: "Sábado Animado" e "Domingo Animado".

Já quanto à participação da menina no "Programa Silvio Santos", a emissora afirma que vai respeitar a decisão judicial e que Maisa não deve aparecer na atração no próximo domingo (24), ainda que a gravação tenha sido feita há mais de vinte dias.

MPF questiona Ministério das Comunicações

“O Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em exercício, Pedro Antonio de Oliveira Machado, enviou nesta sexta-feira (22) um ofício ao Ministério das Comunicações para saber se o órgão tomará alguma providência em relação à exposição de Maisa Silva, de seis anos, no "Programa Silvio Santos", do SBT. O prazo para a resposta são cinco dias úteis depois do recebimento.”
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22 Maio, 2009

Celibatários nas praias do século XXI

Javier Darío Restrepo, Terra Magazine

"O mundo de hoje está curado de espantos sexuais: o sexo oral é tema de conversas desde que a imprensa xeretou as intimidades do presidente Clinton; as seções sobre sexo em jornais e revistas tratam, sem rubores, de tema que o Kama Sutra esqueceu e que o gênero picaresco deixou de lado, apesar da sua cínica acalmação. Nenhum segredo sobre o sexo parece ser-nos alheio.

No entanto, estão soando gritos de escândalo e de curiosidade adolescente diante do flerte de um casal em uma praia, porque ele é um gentil e popular sacerdote da televisão, da rádio e da imprensa. Escândalo sincero? Curiosidade? Hipocrisia?

Um sacerdote apaixonado em Miami, ou as mulheres seduzidas e grávidas do presidente Lugo, quando ainda usava a mitra, ocupam espaços e imagens na televisão, colunas na imprensa, fazem as beatas se benzerem e os incrédulos sorrirem, astutos e satisfeitos, e converteram em um tema deliciosamente picante o celibato dos sacerdotes.

O celibato no Concílio.
Apesar da imprensa de então ter afirmado que o Concílio Vaticano se reunia para autorizar o casamento dos padres, o certo é que não foi um tema da sua agenda, apesar da quantidade de folhetos, cartas, estudos e propostas que circularam pelos corredores da aula conciliar e pelas caixas postais dos quase 2.000 participantes nas suas sessões. Até um escrito assinado por 81 médicos, sociólogos e escritores, urgia um estudo sobre o tema. O Papa considerou inoportuno o debate público, mas deixou aberta a possibilidade de que os padres conciliares apresentassem os seus escritos, que a presidência do Concílio os faria chegar até as suas mãos.

Um desses escritos foi o do monsenhor Koop, bispo de Lins, no Brasil. Pedia clero casado para salvar a Igreja na América Latina, um continente com 35% dos fiéis de toda a Igreja e apenas com 6% dos seus sacerdotes. Calculava-se então que para o ano 2000 o continente precisaria de 125.000 sacerdotes mais e que a esse número somente se chegaria com sacerdotes casados. Um dos teólogos assessores do concílio escreveu naqueles dias que a Igreja deveria renunciar ao celibato como forma de encontrar um clero suficientemente numeroso.

Mas, além disso, como resolver o problema dos sacerdotes que não haviam sido capazes de cumprir os seus votos e que se haviam convertido em motivo de escândalo?”
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Um Twitter só para escritores

Marcelo Spalding, Digestivo Cultural

“Vou confessar uma coisa: morro de inveja do IMDB, o enorme catálogo on-line com informações sobre todos os filmes possíveis e impossíveis. O funcionamento é simples e o cruzamento de dados, completo: acessando Tom Hanks você pode clicar em Philadelphia e lá vai lembrar que Denzel Washington estava no elenco, e saber que um, ano antes, em 1992, Denzel esteve em Malcolm X, junto com Angela Bassett, que não me lembra filme algum mas é muito bonita.

Bem, agora imagine um grande catálogo de livros, com todos os títulos do mundo, organizados por título, autor, sinopse, ano de publicação, língua original, traduções... O sistema já teria até nome: Biblioteca de Babel, em homenagem a Borges. E ele, sim, teria informação sobre todos os livros; acessando Stern chegaríamos em Machado, e dele em Eça de Queirós, e de Eça em Saramago, e as teias que formam qualquer arte ficariam ali, escancaradas para o deleite dos leitores e aprendizes.

Outro sistema que invejo um pouco, menos que o IMDB mas o bastante para querer tempo e dinheiro para inventar algo semelhante voltado para a literatura, é o MySpace. Imagine um MyBooks? Mas nele não poderiam estar só os chatos que usam a internet como gaveta e abarrotam nossa grande rede, era preciso que os grandes escritores vivos aderissem ao MyBooks, que seria agregado a uma espécie de Twitter literário, e lá os autores postariam as novidades dos seus trabalhos, avisariam sobre eventos dos quais participariam, e por aí vai.

Como sonhar não custa, já fico imaginando quem eu seguiria, quais os 10 escritores vivos que eu não deixaria de seguir. Vejamos:

Jose Saramago: não é só para posar de intelectual que começo pelo Nobel, mestre de nossa língua e ofício, dono de obra vasta e complexa, reconhecido pelo mundo, amado pelos brasileiros e renegado em Portugal. Saramago coloca qualquer leitor no seu lugar, lembrando-nos do quão difícil é fazer boa literatura e mesmo acompanhar boa literatura. Por isso, tenho uma meta de ler um Saramago por ano; por isso e também para ler Saramago ainda por muito tempo. Até agora, O Evangelho Segundo Jesus Cristo é o que mais me marcou.

Gonçalo M. Tavares: já que estamos na terrinha, este poeta, contista, romancista e obstinado escritor merece ser seguido. O mais recente romance que li dele, Jerusalém, além de super premiado está em lugar de destaque na minha estante. Sem contar a belíssima série de minihistórias de seu O Bairro, como O Senhor Valéry e O Senhor Henri. Um caso raro de escritor que une inventividade com densidade.”
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21 Maio, 2009

Coisas da Política - Ação imediata contra o perigo

Mauro Santayana, JB Online

“A Polícia Federal e as autoridades estaduais começam a desmantelar o movimento neonazista que se articula no Sul do país. Não se trata de uma manifestação de enfermidade mental, apenas. Além das várias demonstrações de brutalidade de jovens tatuados com a suástica, contra negros e mestiços, são cometidos assassinatos, como ocorreu recentemente em um subúrbio de Curitiba. Membros desses movimentos planejavam atentados contra sinagogas, e assassinatos de judeus e negros. O governador Roberto Requião, diante do fato, tomou medidas imediatas, determinando à polícia que identifique os grupos neonazistas e encaminhe os seus responsáveis à Justiça.
O problema não é novo, e remonta aos anos 30, quando os nazistas se organizaram de tal forma, na região, que mantinham mais de mil escolas e várias estações de rádio. Um gauleiter do Partido Nazista exercia abertamente as suas funções de delegado de Hitler. Poucos lustros depois da derrota do nazismo, voltaram a rearticular-se.

Ampliaram agora sua ação, fomentando o separatismo do Sul, sob o pretexto da presumida superioridade da raça branca, que é maioria na região. Entre muitos descendentes de alemães e poloneses remanesce o antissemitismo como manifestação atávica de ódio. Entre os italianos, há ainda os saudosistas do fascismo, que se correspondem com os neofascistas da Legga Lombarda. Os projetos de separatismo são mais graves do que muitos imaginam. Eles se baseiam no antigo projeto de Hitler, de construir, no Sul do Continente, e a partir do Paraná, uma Germânia Austral, que englobaria também a Argentina, parte do Paraguai e da Bolívia, e o Chile.

Sempre que há notícias desses movimentos, costumamos balançar os ombros, uns, e sorrir, outros. Não podemos imaginar que eles possam crescer e ameaçar a unidade nacional. É melhor não menosprezá-los. Temos que os localizar, identificar seus líderes, impedir sua articulação, neutralizá-los, enquanto é tempo. Estamos cometendo o erro de transformar a sociedade brasileira em um arquipélago de falsas etnias. Asseguramos aos índios direitos que são negados aos outros brasileiros, entre eles, o do acesso à terra necessária à sobrevivência. Reconhecemos a algumas povoações, sob o pretexto de que são remanescentes dos antigos quilombos, propriedade sobre áreas muito mais amplas daquelas que realmente ocupam e nelas trabalham.”
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Being Miguel Fallabela

Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Inspirei-me numa entrevista de Miguel Fallabela à UOL para escrever minha colaboração semanal para o Direto da Redação. Fallabela é daquelas pessoas que, costuma-se dizer, que não têm papas na lingua, fala o que pensa e o que acha de acordo com seus sentimentos, sem se preocupar com o politicamente correto imposto por algum patrão ou emissora em que esteja, no caso a Globo. E, aparentemente, ela não se importa quando ele diz o que lhe vem à cabeça, afinal ter alguém com essa credibilidade em seu cast é um privilégio nesse deserto de cabeças pensantes que circulam pelas colunas televisivas.

Fallabela joga a polêmica no ar quando afirma com todas as letras que “o nível mental das pessoas que assistem tevê no Brasil está por volta de 9 anos de idade”. Não acredito que ele tenha dito isso para humilhar ou espezinhar o brasileiro, e sim para levantar a questão da falta de leitura de nosso povo. Fallabela afirma que, em suas andanças pelo mundo, descobriu por exemplo que um jovem francês lê 200 vezes mais do que um adolescente brasileiro.

Para uns, Fallabela é maldito por dizer o que pensa sem preâmbulos, mas para outros é verdadeiro e sincero e é assim que ele faz sucesso em suas novelas e peças de teatro, sem contar sua atuação como ator. Ele consegue, como poucos, captar a sutileza do comportamento humano em suas várias camadas sociais. E com isso nos faz rir e até chorar.”
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20 Maio, 2009

50 anos depois, "Hiroshima" ainda encanta

André Setaro, Terra Magazine

“Entre os grandes autores de cinema de todos os tempos (Chaplin, Welles, Fellini, Dreyer, Bergman, tantos!), um dos meus preferidos é Alain Resnais, inventor de fórmulas, realizador do específico cinematográfico, e não poderia, neste 2009, deixar de registrar, aqui, os 50 anos de uma obra-prima, de um filme "divisor-de-água", que traumatizou durante a linguagem cinematográfica então estabelecida. E este filme é "Hiroshima, mon amour", que nos introduz, pela primeira vez, como notou a ensaísta Nathalie Weinstoc, no procedimento dialético da consciência, no processo da subjetividade. Em imagens de cinzas, noite e luz.

E Alain Resnais, ainda que com seus provectos 87 anos de idade, apresenta, no recente Festival de Cannes, seu último "opus": "Les herbes folles", com seus atores constantes e queridos: André Dussolier e Sabine Azéma. Pode parecer incrível que um cineasta ainda possa ter a capacidade de inventar cinematograficamente. Mas Resnais consegue a proeza em "Amores parisientes" ("On connaît la chanson", 1997), "Beijo na boca, não!" ("Pas sur la bouche", 2003) e "Medos privados em lugares públicos" ("Coeurs", 2006), este último considerado o melhor filme do ano retrasado e em cartaz na capital paulista por mais de um ano sem interrupção.

A visão de "Hiroshima, mon amour" ainda adolescente me fascinou e se constituiu num filme "propulsor" para o meu entendimento do cinema como um veículo de expressão artística. Não o vi, porém, em seu lançamento, mas quatro anos depois numa sessão matinal no cine Guarany, de Salvador, quando, aos sábados, acontecia as projeções do Clube de Cinema da Bahia patrocinadas por Walter da Silveira.”
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Jovens da periferia relembram morte de 493 pessoas em São Paulo



Pelo terceiro ano consecutivo, jovens da periferia realizam protesto em memória ao episódio conhecido como “crimes de maio”, que vitimou 493 pessoas, maioria jovens. Haverá um varal gigante no viaduto com 493 camisetas que lembram as vitimas, os jovens que morrem “anonimamente” na periferia e as propostas de mortes feitas para a juventude, como a redução da maioridade penal. Ato ocorre nesta quarta-feira (20), em São Paulo.

Redação, Carta Maior

No mês em que volta à pauta do Senado a proposta de redução da maioridade penal, jovens de diversos cantos das periferias da cidade de São Paulo realizarão, nesta quarta-feira, 20 de maio, as 18 horas, em frente ao prédio sede da Prefeitura – Viaduto do Chá, um Ato em defesa da Vida e em protesto às 493 mortes do episódio conhecido como “Crimes de Maio”, ocorrido em 2006, quando uma onda de ataques do crime organizado provocou uma guerra, vitimando sobretudo jovens (96,3% das vítimas eram pessoas entre 21 e 31 anos segundo o CREMESP).

Haverá um varal gigante no viaduto com 493 camisetas que lembram as vitimas, os jovens que morrem “anonimamente” na periferia e as propostas de mortes feitas para a juventude, como a redução da maioridade penal.

Parentes das vítimas, membros de organizações e movimentos sociais estarão no Ato. Espera-se também a presença de autoridades, que já foram informadas do Ato Público.

Uma carta aberta e um manifesto (disponibilizados em www.comunidadecidada.org.br) foram entregues a diversas autoridades do poder público (prefeito, governador, presidentes da assembléia legislativa e câmara municipal e todas as lideranças partidárias).

Flávio Munhoz, presidente da Comunidade Cidadã, umas das organizadoras do Ato, lembra que “já se passaram três anos do episódio e nenhuma medida concreta foi adotada para impedir que o crime organizado recrute, como ”mão de obra barata”, jovens da periferia como soldados desta guerra”. De acordo com o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), apenas 20 mortes foram esclarecidas, a maioria de agentes do Estado, como policiais e bombeiros. Até junho de 2007, outros 36 casos tinham sido arquivados.”
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Eu odeio a Petrobrás

19 Maio, 2009

Latinos tomam conta dos EUA

Eliakim Araujo, direto da Redação

"O Bureau do Censo nos Estados Unidos divulgou na quinta-feira o resultado do recenseamento de julho de 2008. Os estrangeiros e os grupos minoritários estão ocupando cada vez mais espaço na terra de Tio Sam.

Um terço da população do país é formada por minorias, com supremacia absoluta dos hispânicos. As minorias somam 104.6 milhões de pessoas, ou 34% da população total do país, que subiu para 304.059.724. Com relação aos hispânicos (ou latinos), pode-se dizer que um em cada seis residentes nos Estados Unidos, ou seja, 46.9 milhões é hispânico ou de origem hispânica.

Apesar do ódio que certos grupos conservadores - com resquícios ainda da famigerada Ku klux Klan - que encontram apoio em setores da mídia, a presença dos latinos é vista com otimismo por intelectuais e estudiosos do fenômeno migratório. Ken Gronbach, autor de "The Age Curve: How to Profit from the Growing Demographic Trend", assinala que a rápida expansão da população latina tem um saudável impacto sobre a economia. Veja o que ele diz:

"Os latinos salvaram o nosso país. Eles representam 14 por cento da população, mas 25 por cento de todos os nascimentos. Os Estados Unidos são a única nação industrializada ocidental com uma taxa de fertilidade 2,2 por cento, acima da taxa de mortalidade".

Uma curiosidade: os brasileiros nos EUA são considerados como latinos para efeito de estatística.”
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Vinheta, “Ser Nordestino”


18 Maio, 2009

Difícil recomeço

Giedre Moura, Revista Brasil

"A vida na prisão, e depois dela, impõe práticas de resistência e muita gente luta para não retroceder. Proporcionar oportunidades para o exercício digno da liberdade ainda é uma de nossas grandes dívidas sociais

São Paulo está diferente aos olhos de Pedro (nome fictício). O número de carros aumentou, os sentidos das ruas mudaram e pontos de referência como outdoors e letreiros gigantescos deixaram de existir. Pedro sempre morou na capital paulista, mas deixou de se relacionar com a cidade por 11 anos, 3 meses e 10 dias, isolado pelas celas de um presídio. Preso por assalto aos 21 anos de idade, Pedro, agora com 32, descreveu para a reportagem da Revista do Brasil a sensação de encarar a nova cidade velha 24 horas depois de deixar a carceragem. “Enfim, a liberdade, estou na rua tem um dia. É isso o que a gente mais quer quando está lá dentro, mas quando sai não sabe por onde começar.”
Ansiedade e felicidade. Medo e esperança. Esse turbilhão de emoções é típico de quem cumpriu sua pena, busca a reinserção na sociedade, não deve mais nada à Justiça e não deseja voltar a dever. O retorno não é nada fácil. Os ex-detentos, a maioria com baixa escolaridade e sem formação profissional, vivem ainda sob o forte estigma de crimes cometidos no passado e costumam amargar os últimos lugares na hora da disputa por um emprego.

Para tentar reverter essa situação, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) lançaram recentemente o programa Começar de Novo, com o objetivo de sensibilizar a população para a necessidade de reinserir, no mercado de trabalho e na sociedade, presos que já cumpriram suas penas. “Todo mundo tem falado muito de responsabilidade social, empresas divulgam projetos, mas são raros os programas para ajudar o ex-detento. Com a ressocialização dessas pessoas poderíamos reduzir a reincidência e a criminalidade”, afirma Antônio Humberto, conselheiro do CNJ.

A campanha engloba parcerias com entidades como Sesi, Senai e Fiesp para proporcionar treinamento e capacitação dos presos para o trabalho. Pretende também criar um sistema de bolsa de vagas para centralizar a oferta de empregos. O próprio STF destinará vagas para 40 pessoas sentenciadas, egressas de prisões em 2009, que receberão salários na casa dos R$ 600, e o CNJ espera que outros órgãos públicos façam o mesmo. Também foi fechado um acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e com a Fifa para contratação de ex-detentos em obras da Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. “A assistência à pessoa que está deixando o sistema penal é fundamental. Temos iniciativas e programas em todo o país, mas ainda são projetos isolados, é muito pouco”, afirma Ana Cristina de Alencar, do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça.”
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O sexo dos clérigos

Tomás Eloy Martinez, The New York Times

"Quase se perdem na memória os tempos em que a Igreja Católica enfrentou desafios tão ásperos quanto os destes últimos anos.
O que acontece não tem a profundidade do cisma litúrgico do bispo Marcel Lefebvre nem o fervor revisionista na interpretação dos Evangelhos que desencadearam a Teologia da Libertação, e sim as violações de uma obrigação que não é matéria de dogma, mas de continua perturbação: o sexo dos clérigos.

Primeiro foram os delitos de pedofilia que, em dezembro de 2002, provocaram a renúncia do cardeal de Boston, Bernard Law, de quem se suspeitou de ocultação; 450 demandas milionárias por décadas de abusos contra menores deixaram a arquidiocese à beira da falência.

Agora, mais uma vez, como costuma acontecer, o escândalo surge quando vem à tona algo que se tentava ocultar: a descendência do ex-bispo paraguaio Fernando Lugo. Aqueles atos aberrantes e a aparição de três filhos gerados pelo agora presidente do Paraguai durante os seus anos de ministério colocam em dúvida o valor da repressão sexual na vida católica.

O bispo de Ciudad del Este, no Alto Paraná, Paraguai, Rogelio Livieres, disse que os seus pares sabiam sobre Lugo faz tempo.
Não sei por que se mascaram os temas da Igreja e não se ventilam. Na nossa época isso é péssimo porque "tudo se descobre no final", afirmou Livieres.

E encontrou uma instantânea refutação oficial: "O Conselho Episcopal Permanente lamenta e rejeita as expressões do monsenhor Livieres, que dá a entender que houve encobrimento e cumplicidade dos bispos do Paraguai sobre a conduta moral do então membro do colegiado episcopal, monsenhor Fernando Lugo".

As palavras de Livieres lembram às que o argentino monsenhor Jerónimo Podestá, impulsor do Movimento Latino-americano de Sacerdotes Casados, escreveu, em 1990, ao então presidente do Episcopado Argentino, cardeal Raúl Primatesta:

"Vejo com pesar que, em geral, vocês tenham uma visão bastante 'alienada' e tímida: não sabem o que pensam e sentem as pessoas no mundo de hoje. A Igreja é o Povo de Deus e vocês sabem disso, mas no fundo continuam pensando que vocês são a Igreja".
Terra Magazine / Foto CNN
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Phil Borst, “Zworykin” (2009)


Cultura, gelo e limão

Marta Barcellos, Digestivo cultural

“Uma grande empresa de produtos de limpeza destinava boa parte de sua verba para entender os consumidores. Ou seja, gastava rios de dinheiro com pesquisas de opinião, consultores, publicitários. Nada, porém, teve tanto impacto para o presidente da companhia como o dia em que ele próprio resolveu espiar o comportamento de um comprador em um supermercado chique de São Paulo. Fingindo distração, ele observou um homem maduro, com o carrinho repleto de vinhos caros, comparando os preços dos limpadores multiuso. A diferença era de centavos, mesmo assim o sujeito se deu ao trabalho de escolher o mais barato, preterindo a marca da tal empresa.

O executivo não escondia sua indignação quando me contou o episódio. Que lógica havia no comportamento de alguém que esbanjava R$ 100,00 em uma garrafa de bebida, sem pestanejar, e "compensava" isso economizando centavos que não somariam R$ 1,00 nas gôndolas de produtos de limpeza? Nenhuma, claro. É bobagem cobrar coerência desse consumidor. Ou de qualquer outro: a mulher que se endivida por uma bolsa de grife, o rico que compra DVD em camelô, o adolescente que paga R$ 100,00 para assistir ao show de seu artista favorito de binóculo, mas não aceita pagar R$ 1,00 para baixar as suas músicas na internet.

Comparar consumo cultural com a compra no supermercado pode parecer desbaratado, mas não é. Somos igualmente irracionais, movidos por sentimentos inconfessáveis até para o analista, na hora de atribuir valor às coisas. Aliás, a hora, assim como o lugar, é algo que pode fazer toda a diferença. Em um café charmoso, uma pessoa aceita pagar três vezes mais por 237 mililitros de Coca-Cola, que vem numa embalagem de vidro apelidada de Mae West, numa alusão às curvas da atriz americana. No supermercado, espera por uma promoção para a garrafa de 2 litros. O líquido preto, emblemático da nossa sociedade de consumo, é o mesmo.”
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17 Maio, 2009

Índios de Mato Grosso do Sul se matam por amor e paixão, analisa antropólogo

Gilberto Costa, Agência Brasil

"No ano passado, 94 índios tiveram morte violenta. Segundo levantamento feito pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foram 60 assassinatos e 34 suicídios. As mortes estão concentradas entre os Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, onde ocorreram 42 assassinatos e todos os casos de suicídio.

Para o Cimi, as mortes ocorrem, entre outras causas, devido a conflitos entre os indígenas pressionados pelo avanço do agronegócio sobre as terras que ocupavam. A concentração de índios em reservas, demarcadas ainda no tempo da República Velha, força o convívio entre famílias inimigas e potencializa as tensões. Essa não é, no entanto, a única razão para as mortes.

Além dos males fundiários, enfrentados por diversos indígenas em todo o território nacional, há outras razões mais universais afligindoos índios que vivem no cone sul de MS.

O sentimento de paixão, o amor proibido e o conflito de gerações afetam tragicamente os Guarani Kaiowá, explica o antropólogo Fábio Mura, que desde 1991 estuda a etnia e é doutor em antropologia social pelo Museu Nacional no Rio de Janeiro e professor pela Universidade Federal da Paraíba. Leia,a seguir, os principais trechos da entrevista realizada com o pesquisador.

Agência Brasil - O que acontece em Mato Grosso do Sul é resultado do processo civilizatório nas áreas de fronteira agrícola?
Fábio Mura - Sim, sem dúvida. Ilustra claramente que existe um movimento por parte do Estado brasileiro de ocupação de espaços dentro do território nacional com objetivo de desenvolvimento, seguindo um determinado tipo de lógica que impacta a organização social e territorial dos indígenas.

ABr - Segundo relatório do Conselho Indigenista Missionário, a região concentra a maior parte dos casos de assassinatos e todos os episódios de suicídio entre os índios. Por que isso acontece lá?
Mura - Os Guarani têm uma especificidade em relação a outros grupos indígenas até mesmo da região se comparados, por exemplo, com os Terena. É complicado lidar com situação de redução territorial extrema. Até a metade da década de 60, os índios ainda tinham espaço de ocupação próprio, que não era compartilhado com os brancos. Esse tipo de ocupação mantinha as famílias indígenas, que são famílias extensas, de até quatro gerações, e que constituem comunidades políticas locais de até 200 pessoas. Naquela época, quando havia tensão interna dentro desses grupos, ocorria uma cisão e os índios podiam se distanciar uns dos outros e constituir uma comunidade em outro lugar.
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Podem rir de mim

"Por que algumas pessoas aceitam ser humilhadas pelo grupo de amigos ou em programas de tevê

Verônica Mambrini, ISTOÉ

“Para muita gente, falar em público é a imagem do terror. Começa com o medo de ser julgado e o pavor de gaguejar ou suar frio. A possibilidade de um sorriso maldoso ou uma crítica aberta é suficiente para fazer as pernas tremerem e a vergonha ruborizar a face. Por que então cada vez mais pessoas optam por se expor espontaneamente a situações vexatórias? Por todos os lados, é fácil achar alguém que desafina no karaokê, vive dando bola fora no futebol ou tropeçando na pista de dança e parece não se incomodar em ser ridicularizado. Na internet e na televisão, pipocam situações constrangedoras, divulgadas pelo próprio protagonista ou por amigos.
Desafinar não é problema para a analista de sistemas Melissa Pissuto, 30 anos. Com cerca de mil músicas no karaokê de casa e muita vontade de cantar, ela solta a voz até sozinha. "Uma vez, me empolguei tanto que, quando percebi, os vizinhos estavam vaiando", conta Melissa, que não se sentiu inibida de continuar subindo ao palco para testar os limites do gogó. Ela não se preocupa se sua voz agrada ou não. O importante é se divertir com o grupo. A gerente de novas mídias Eli Mafra, 21 anos, está no mesmo time. "Não me importo de pagar mico no karaokê desde que esteja com os meus amigos, que vão rir comigo", diz.

Uma coisa é certa: só mostra a cara quem tem algo a ganhar. "As pessoas só expõem aquilo que dão conta, e com motivo. Pode ser crescimento pessoal ou algo que ajude a dar significado à situação", diz a terapeuta e professora da Unifesp Ana Lucia Horta. "A vergonha está muito ligada a valores impostos socialmente." A secretária Adriana Masetti, 41 anos, passou por situações embaraçosas quando se interessou pelo universo do vinho. "Certa vez, peguei a taça de forma errada, e percebi que as pessoas reparavam, olhavam feio", conta ela, que resolveu estudar o assunto.

Ao contrário do que prega o senso comum, um estudo da Universidade de Michigan, do ano passado, demonstrou que crianças com maior autoestima tendem a se tornar agressivas quando expostas à humilhação. Na pesquisa, elas disputaram uma partida contra um computador, induzidas a acreditar que estavam jogando contra alguém do mesmo sexo e idade. As que tinham a autoestima mais elevada tiveram respostas mais agressivas quando acharam que tinham perdido para um oponente semelhante. "A vergonha é paralisante e destrutiva.”
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Clone de Bush

John Hemingway, Direto da Redação

“Eu não votei em Obama (preferia Dennis Kucinich ou Ron Paul), mas sinceramente nunca pensei que o nosso novo presidente iria revelar-se um clone tão perfeito de seu antecessor. Corrija-me se eu estiver errado, mas parece que tudo que Bush fez Obama quer fazer, apenas desta vez será "melhor" e com mais "esperança" e sentido de "mudança".

Por exemplo, se os Bushmen em suas últimas semanas em Washington foram acusados de socorrer Wall Street, Obama está agora terminando o trabalho iniciado pelos Neocons e um pouco mais. Dificilmente inimiga dos Banksters, a administração Obama chegou com todos os tipos de planos para despejar trilhões de dólares em bancos insolventes e companhias de investimento que nos levaram a essa bagunça em primeiro lugar.

Nada, na verdade, é demasiado bom para a aristocracia financeira da América e tudo o que atravessar o caminho daqueles que estão no 1% mais rico do país para recuperar suas perdas serão varridos para o lado. Recentemente, o Senado examinou um projeto que permitiria a proprietários de casas em dificuldades financeiras declararem-se insolventes nos tribunais de falência. Apoiaria o nosso Presidente esta medida que iria ajudar o homem comum? Não, diz o grande Obama, isso seria prejudicar os bancos, e o presidente não usaria sua considerável influência para persuadir senadores democratas a aprovar a lei. O projeto acabou derrotado por 45 a 65.

Prosseguindo em sua missão de tornar-se mais Neocon do que os próprios Neocons, nosso novo presidente manifestou-se a favor da tortura, ou, pelo menos, avisou que não pretende acusar aqueles que são claramente culpados deste crime federal. Todos os agentes da CIA, os militares e funcionários da administração Bush, incluindo Cheney e o próprio W, nada terão a temer, enquanto Obama estiver na Casa Branca.

Mas o que este estudioso constitucionalista, este ex-presidente da Harvard Law Review tem a dizer sobre os Comissões Militares que foram criadas em Guantánamo, como uma espécie de tribunal de cangurus, para julgar (e condenar) todos os "combatentes inimigos" que lá foram torturados durante anos? Será que Obama acredita na santidade da Constituição? Será que ele deseja restaurar os direitos democráticos que foram sistematicamente violados durante os oito anos da administração Bush? Não, realmente. Segundo o Wall Street Journal, Obama está considerando a prisão de suspeitos de terrorismo indefinidamente, habeas corpus é amaldiçoado. Isso significa que, tal como na era Bush, se o líder do mundo livre diz que um homem deve apodrecer em uma de nossas prisões pelo resto da vida, então que seja assim.”
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16 Maio, 2009

Os Piores Trabalhos do Mundo

Marcelo Carneiro da Cunha, Terra Magazine

"Estimados leitores. Recentemente todos acompanharam com atenção a disputa pelo que o pessoal chamou de Melhor Emprego do Mundo, numa ilha na Austrália, acredito. Essa coluna tomou isso como um desafio. Afinal, se é emprego, não pode ser a melhor coisa para fazer, e se é na Austrália, não pode ser no melhor lugar do mundo.
Mas, no mesmo espírito ecumênico que levou o Papa Bento XVI á Palestina espalhar a discórdia e a incompreensão, a coluna apresenta aos leitores, após extensas pesquisas unindo os dados do IBGE com a turma da padoca aqui da esquina, que revelam aqueles que são, em princípio, os Dez Piores Trabalhos do Mundo. Leia. Decida. Envie seu voto. Colabore. Não seja um inútil. Compareça. Pense fora da caixinha. Adicione e não subtraia. Enfim, prove que você não está entre os listados abaixo. A coluna agradece o seu empenho.

Os Piores Trabalhos do Mundo

1) Dono de cachorro

Você dá um duro danado e não ganha absolutamente nada que não venha na forma de lambida, e não da sua namorada. Você precisa pagar o tratamento contra vermes e remover as pulgas, e o bicho nem sequer vai ao banco por você. Se for fêmea, ela engravida de doze cachorrinhos, todos seus. Se for macho, vai querer fazer amor com o seu joelho, e a única parte boa é que você vai ter alguém disposto a fazer amor com você, se bem que nunca dizendo palavras de carinho no seu ouvido, porque cachorros raramente são assim tão altos. Para coroar o seu trabalho, dono de cachorro é aquele infeliz que anda atrás do seu au au todos os dias, com um saquinho plástico na mão, pronto para recolher o que o seu cachorrinho quiser deixar sobre a calçada. Ser dono de cachorro significa fazer um trabalho que, se não fosse tão bem pago, seria insuportável.

2) Faxineiro de sauna na rua Augusta

Um faxineiro de sauna da rua Augusta é um ator que só topou ficar ali enquanto não pintava algo melhor e acabou se apaixonando pelo local de trabalho e por um rapaz musculoso, fazendeiro das Alterosas. Um faxineiro de sauna da rua Augusta poderia escrever um tratado sobre a inconstância e aparente fluidez das relações humanas, enquanto ele se encarrega pessoalmente de dar um jeito no quesito fluidez. Um faxineiro de sauna na rua Augusta tem a nobre missão de preservar a imagem família do local se fazendo passar por um membro da família, por vezes. Um faxineiro é um sujeito que reordena o mundo e luta contra o caos, tendo sorte quando o caos não é grande demais ou versado em capoeira cambojana.Um faxineiro de sauna na rua Augusta é um modelo de sobrevivência em condições duras, semi-duras e duríssimas. Um faxineiro de sauna é um brasileiro e não desiste jamais, nem quando o espírito do Freddy Mercury baixa naquela parte da cidade e tudo vira uma loucura.

3) Papai Noel

Ser Papai Noel é padecer num banco de shopping e torcer para que o Natal passe logo e ele possa voltar a ser mecânico desempregado. O Papai Noel não pode gostar muito de crianças, para não se arriscar a um processo por pedofilia. O Papai Noel sofre de desidratação contínua e não pode nem ao menos ir para o trabalho levando uma garrafa de soro fisiológico presa ao braço. O Papai Noel não gosta de criança que faz xixi no colo, mas não pode dizer isso sem ser preso, nessa época politicamente correta. Papai Noel não pode recomendar a loja onde ganha comissão e tem que ser sempre um bom velhinho, mesmo quando só pensa em dar um pulo no laguinho da área de alimentação.

Papai Noel não faz sucesso com as meninas, porque assim que elas se tornam grandinhas, elas deixam de acreditar nele. Papai Noel torce pro Grêmio. Papai Noel odeia Natal e fica sem trabalho até a Páscoa, quando volta a sair à rua fantasiado de ovo ou de coelhinho. Ser Papai Noel significa viver acreditando em nenhum de vocês dois.”
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Piratas, ontem e hoje

Frei Betto, Adital

“São estarrecedoras as notícias sobre piratas nas costas da Somália. Para mim, é quase como encontrar, hoje, dinossauros em plena Amazônia. Piratas eram, até agora, lendários personagens de minha infância. No carnaval, fantasiados ou não de piratas (lenço de seda vermelho na cabeça, tapa-olho preto e espada de pau), cantávamos alegres a famosa marchinha de 1947: "Eu sou o pirata da perna de pau / do olho de vidro / da cara de mau..."

Súbito, eis notícias de que, em pleno século XXI, há piratas de verdade atacando grandes embarcações no litoral da Somália. É Homero quem, na Odisseia, cita pela primeira vez ‘pirata’, termo que deriva do grego ‘assaltar’.

Entre os séculos XVI e XVIII, os piratas infestaram os mares do Caribe. A atual Ilha da Juventude, em Cuba, era conhecida como Ilha do Tesouro e ensejou várias histórias de aventuras. Ali os piratas escondiam seus botins.

Todos os piratas são bandidos? O historiador usamericano Marcus Rediker, no livro Villains of all nations (Vilões de todas as nações), descreve as dramáticas condições em que trabalhavam os marujos ingleses nos séculos passados. Viviam num inferno flutuante, tratados como escravos. Quem se rebelasse era chicoteado como o nosso João Cândido, o "almirante negro" da Revolta da Chibata (1910). Os reincidentes, atirados aos tubarões; os sobreviventes, recebiam salários de fome.

Os marujos foragidos da desumana marinha de suas majestades tornaram-se piratas e criaram, diante disso, uma "outra marinha possível": aboliram a tortura, passaram a escolher seus comandantes por eleição, partilhavam entre si os botins. Enquanto eles assaltavam navios, a marinha européia saqueava países - na Ásia, na África e na América Latina. A história de nosso Continente que o diga...”
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Simonal, a reabilitação

Urariano Mota, Direto da Redação

“Com o filme "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei", começou a reabilitação de Wilson Simonal. Não se conclui outra coisa, quando se lêem os artigos publicados em todo o Brasil. Em todos os jornais, os críticos mais parecem uma orquestra afinada para uma só composição, para um só samba de uma nota só. Em toda a mídia se repetem as saudações ao documentário, à sua imparcialidade, etc. etc.

Na Folha de São Paulo, no texto com o título épico "Simonal refaz saga do cantor", entre outras coisas se escreve:

"Aconteceu no final de 1971. Por suspeitar que estivesse sendo roubado, o cantor teria mandado bater no contador de sua empresa. Só que o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado. Não demora até que os jornais liguem as pontas -não necessariamente cobertos de verdade- e publiquem a manchete: ‘O cantor Wilson Simonal é informante dos órgãos de segurança do Estado’...

Mais que biografar a ascensão e queda meteóricas de um ídolo - e isso é feito de maneira empolgante-, o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito".

Observem que:

1. O cantor "teria mandado bater no contador". Teria, em lugar de Mandou.

2. "...o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado". Por acidente, ele foi parar no Dops.

3. "...o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito." Absolvê-lo... Não demora, a família entrará com processo na Anistia.”
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