31 Março, 2009
O direito ao sossego: uma garantia violada
“Hoje volto a tratar do direito que todos têm ao sossego, ao descanso, ao silêncio, direito este cada dia mais violado abertamente.
O interessante dessa garantia legal, é que ela é uma espécie de ausência: implica num obstáculo à ação das outras pessoas. Nos tempos atuais das grandes cidades e metrópoles ela se dá num "vazio", numa falta, num espaço, digamos assim intocado.
Parece que nas sociedades industrializadas contemporâneas, nesta era capitalista do império globalizante em que vivemos, tudo faz barulho. Existe mesmo uma busca incessante em sua produção: são músicas em altos volumes nas lojas e nos restaurantes, nos clubes, nas academias, nos intervalos dos espetáculos teatrais e nos cinemas, nos estádios de futebol, onde há também o barulho das torcidas que atinge toda a redondeza; nas festas de aniversário e de casamento; são shows ao vivo em estádios que vão muito além de suas arquibancadas; são bares, boates e danceterias que invadem o espaço dos vizinhos etc.
De fato, todo o sistema é assim. Há excesso de ruído por todos os lados: dos veículos nas ruas, das máquinas nas fábricas, das construções, das oficinas etc. Trata-se de um enorme amontoado de ações barulhentas, algumas ensurdecedoras, nem sempre em nome do tão sonhado progresso.”
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30 Março, 2009
Sociedade e tédio
Olgária Mattos, Carta Maior
Sociedade do conhecimento” e “técnicas da informação” constituem a aceleração do tempo, baseada na circulação ininterrupta das revoluções tecnológicas e do capital no mercado financeiro. Diferentemente da noção de crise econômica, o atual impasse é cultural, é crise da cultura que perdeu autonomia, adaptada agora às contingências da financeirização e dos sofismas políticos de que é portadora,como as indústrias do conhecimento.
Estas promovem os saberes a serviço exclusivo da economia, abrangendo todos os aspectos da vida, do mundo do trabalho aos laços afetivos, da intimidade até a educação. Seu poder de controle se expressa em uma cultura da incuriosidade, uma sociedade desmotivada e sem projeto, dominada pela “queda tendencial do valor espírito” e de sua capacidade de criar e reconhecer valores, mundo empobrecido pelo extraordinário achatamento da experiência do tempo, plasmado na imediatez e na pressa.
O homem contemporâneo só tem tempo para suas urgências; sua curiosidade é insaciável, mas se contenta com pouco.
Eric Fromm refere-se ao traço do presente que consiste em “fazer de tudo para economizar tempo e, quando o conseguimos, nós o matamos porque não sabemos o que fazer com ele.” Nos anos 1840, Marx analisava o trabalho alienado escrevendo que o trabalhador, quando no trabalho, está fora de si, porque não realiza uma livre atividade física e espiritual, mas martiriza seu corpo e arruína seu espírito. Só se sente junto a si mesmo quando fora do trabalho. Na modernidade, fora do trabalho tampouco o trabalhador se encontra junto a si, o indivíduo tendo perdido o controle dos usos do tempo e de sua própria vida. A organização institucional do tempo é um dos atributos mais eminentes da dominação.”
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Pão pra toda obra
Marcio Alemão, Carta Capital"Passei muitas tardes de minha adolescência fazendo pães.
Lembrei disso porque na semana que passou comprei um pacote de farinha de centeio e, por vários dias, abri a geladeira e constatei que o fermento em tabletes lá estava. Eu só precisava pegar o fermento, misturar as farinhas, acrescentar água, sal e um pouco de açúcar, sovar, deixar descansar, trabalhar um pouco mais, formar o pão, esperar crescer mais uma vez e levar ao forno.
Nada complicado. Mas é um trabalho que exige tempo, paciência e, principalmente, vontade de fazê-lo. Ando sem o menor ânimo para fazer pão. E acredite: um bom pão caseiro não pode ser feito de qualquer jeito. O pão é um símbolo e tanto. Exige respeito. Nos tempos em que Zé Rodrix e um montão de gente queriam apenas uma casa no campo, fazer pão e arroz integral era o segundo passo. Acho que deu para entender que o primeiro era a aquisição da casa.
Ouvia muitas histórias nessa época. Era o tempo que a macrô fisgou Gil e Caetano. Nesse tempo passei boa parte das tardes de um verão em São Vicente (como era bonita a Ilha Porchat) a ler sobre o assunto.
Se é para ser sincero, vamos lá. Não lembro de absolutamente nada do que li. Era uma cruzada solitária. Nem me passou pela cabeça trocar alguma ideia com a minha mãe. Meu pai aparecia no fim de semana e imagino o que ele teria pensado se eu o abordasse dizendo que o arroz integral deveria fazer parte da família porque isso deixaria nossos chakras mais disponíveis. Meu irmão mais velho estava interessado em outro tipo de descoberta e alimentação.”
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Plano de duas feministas
Fabiane Borges e Hilan Bensusan, LMD Brasil
“Preliminares? Conheci Élida no fim dos anos 60, acho que numa manifestação um pouco antes do AI-5. Encontrei-a muitas vezes na casa de Joyce, uma militante que reunia apenas mulheres na sua casa às sextas-feiras, depois que o regime fechou. Eram reuniões intermináveis. Muitas vezes ficávamos todas bêbadas e víamos pela fresta da janela do apartamento no Leme o sol nascer na praia. Joyce havia estado nos bastidores da passeata dos 100 mil, mas naquele ano estava se desquitando e andava querendo descobrir a solidariedade feminina. Sua solidariedade às vezes parecia intimidade – ela queria achar que na cama o feminismo é lesbianismo. Élida não parecia ter achado isso, mas quase não saía daquele apartamento. Elas eram o núcleo de uma conspiração de mulheres com braços por todos os lados. Éramos todas jovens mulheres de menos de trinta anos e já quase todas esposas. Depois vieram os anos duros, muitas perderam amigos, tiveram maridos desaparecidos e quase todas exilaram-se. Ainda lembro daquelas noites como espaços abertos em nossas vidas cada vez mais encurraladas. Élida tornou-se psicóloga e saiu pelo mundo – acho que se exilou logo depois que a Joyce parou com suas reuniões de sextas-feiras. Tinha notícias dela de Paris, da Turquia, de praias remotas escrevendo livros. Encontrei-a depois de mais de trinta anos na saída de um evento sobre travestismo e prazer. Ela não havia mudado quase nada, os mesmos cabelos pretos – ela sempre pintava – os olhos verdes e muitos panos cobrindo os ombros. Eu acho que a reconheci primeiro porque eu sei que eu estava muito mudada. Sentamos em um café e eu disse:
— Élida, você tá ainda tão bonita, não mudou nada, me conta tudo, tudo! Bem devagar...
— To fodida minha nega! Tô voltando pro Rio cheia de idéias, mas sem conseguir botar os pés no chão até hoje. Ainda me apaixonei por um estudante da faculdade, isso ta me deixando alcólatra de novo... Um uísque com gelo, por favor!
— Ah, é aquele moço que estava conversando com você? Ele é muito bonito mesmo, pensei que fosse um transexual...
— Não, nem é. Eu também andei azarando esse, mas saí em seguida, é muito cheio de neura e me chamava de mami quando a gente trepava, ahi é demais pra mim. Queria tanto ser chamada de novo de princesa, linda, essas coisas que a gente ouvia naquela época, quase quarenta anos atrás, o tempo voa amiga. Ando tão nostálgica ultimamente. Na real nesses últimos anos tenho a maior despesa do mundo com os homens. Quem diria! Mas pelo menos me divirto ainda, tem gente daquela época, os que sobraram, que não fazem idéia do que seja isso. Querida, conta de você, o que aconteceu com você?”
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29 Março, 2009
Fidel e a Carta de Vargas
"Muitas vezes para se entender melhor os dias de hoje é importante mergulhar em fatos da história. No caso brasileiro, o início dos anos 50 é sintomático. Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja gestão foi uma das maiores tragédias da história republicana, voltou-se contra a Era Vargas. Cardoso queria a todo custo acabar com os resquícios desse período, não só privatizando estatais a preço de banana, como também flexibilizando a legislação trabalhista. Neste caso, não teve força política. Hoje, alguns empresários que se consideram modernos e têm muito espaço na mídia continuam a pressionar no sentido de alcançar o objetivo contra os trabalhadores.
Vargas, mesmo não sendo de esquerda, teve um destacado posicionamento antiimperialista, como demonstra a sua carta-testamento divulgada logo após o suicídio em 24 da agosto de 1954, provocado pela direita então conhecida como entreguista. Getúlio na ocasião não foi entendido por alguns setores que se consideravam revolucionários.
Muitos historiados e mesmo agrupamentos políticos de esquerda absorveram algumas teses antigetulistas da direita, chefiada na ocasião por Carlos Lacerda, o baluarte do partido União Democrática Nacional (UDN), que de democrático tinha apenas o nome, pois seus integrantes viviam conspirando nos quartéis pregando a quebra da ordem constitucional.
Para ser ter uma idéia de como algumas cabeças se deixaram enredar pelo linchamento de Vargas promovido pela mídia conservadora, naquele fatídico 24 de agosto de 1954, a manchete golpista do jornal Imprensa Popular, do Partido Comunista Brasileiro, repetia a da Tribuna da Imprensa, então de propriedade do famigerado Lacerda. Resultado: o povo nas ruas reagiu empastelando a Tribuna da Imprensa e a Imprensa Popular, para não falar das viaturas incendiadas da rádio Globo, de propriedade de Roberto Marinho.”
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28 Março, 2009
Estréia - "Che" narra guerrilha e tomada do poder em Cuba
Alysson Oliveira, Cineweb"O médico e revolucionário (entre outras coisas) argentino Ernesto "Che" Guevara é uma figura tão polêmica quanto fascinante. Assim sendo, sua trajetória comporta bem mais do que um único filme. No caso do diretor Steven Soderbergh, ele fez dois, e o primeiro deles, "Che", chega aos cinemas de São Paulo, Rio e Campinas, nesta sexta-feira.
Certamente, Soderbergh não foi o primeiro a inspirar-se na aventurosa vida de Che. Em 2004, o brasileiro Walter Salles dirigiu "Diários de Motocicleta", baseado num livro de memórias de uma viagem da juventude do médico argentino.
No ano passado, o documentário "Personal Che", de Adriana Mariño e Douglas Duarte, mostrou o quanto o personagem é visto por vários ângulos, desde vilão até santo milagreiro.
O filme de Soderbergh não busca responder quem foi realmente Che Guevara e qual a sua importância para a história do século 20. Trabalhando a partir de um roteiro assinado por Peter Buchman ("Jurassic Park 3"), baseado num livro de memórias do próprio revolucionário, o diretor filma com distanciamento quase documental dois momentos na vida do personagem: a campanha para a tomada do poder em Cuba, em 1959, e a visita à ONU em Nova York, em 1964.
Filmada em preto-e-branco, com uma imagem com aspecto de envelhecida, a viagem de Che (Benicio Del Toro, premiado como melhor ator em Cannes 2008 por esse trabalho) intercala as cenas de guerrilha ao lado de Fidel Castro (Demián Bichir). Nos Estados Unidos, o revolucionário se torna santo e demônio ao mesmo tempo.
Reuters / Foto: Yuriko Nakao
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O que importa
"Um. Abasteço o carro. É noite. Calor. Que tal uma picolé? Vou até a lojinha do posto. Perto da porta, três crianças me pedem que eu compre algo para elas. Pedem não, exigem. Dou-me conta que elas têm consciência da situação: são crianças pobres, com fome; e eu adulto com grana sobrando: xeque-mate.
Entro na loja, pego um saco grande de salgadinhos, mostro para a moça da caixa e aviso: "já pago". Abro a porta e entrego ao maiorzinho. Ele não sorri, nem agradece. Ok, decido, era isso. Mas logo noto que a questão ainda me incomoda. Talvez uma Fanta vá bem, crianças gostam de Fanta. Apanho uma grande e abro a porta - desta vez virá um sorriso, estou certo.
Não. Não estou. Pegam a Fanta sem sequer olhar para mim. E aí me vem uma indignação, é claro. Mas logo me dou conta da situação e trato de me conter: por alguma razão essas crianças não estão aceitando suborno. Ou será que imaginei que iria pagar a dívida que tenho com elas com um saco de salgadinhos e um refri?”
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27 Março, 2009
Algumas coisas cretinas
Sírio Possenti, Terra Magazine“Poucas coisas são mais cretinas do que citar um poema para "provar" a existência de uma regra de gramática. Pior: por que os mesmos sábios nunca citam "pronominais", por exemplo? (Pronominais (Oswald de Andrade): Dê-me um cigarro / Diz a gramática / Do professor e do aluno / E do mulato sabido / Mas o bom negro e o bom branco / Da Nação Brasileira / Dizem todos os dias / Deixa disso camarada / Me dá um cigarro).
Imagino como deve ser chato para um poeta trabalhar duro para escrevinhar seus textos e depois ouvir perguntas irrelevantes sobre eles. Por exemplo, Pessoa (o Caieiro que ele criou) escreveu "Quis que o não conhecêssemos" e "Por isso se nos não mostrou'?". Alguém publica os versos num jornal.
O nobre leitor, em vez tirar do texto algum proveito estético ou admirar a construção da frase que lhe parece inusitada ou tentar entender se a ordem das palavras tem alguma coisa a ver com o ritmo do verso em pronúncia lusitana ou com efeitos de arcaísmo, em vez de todas essas alternativas razoáveis, em vez de tentar descobrir sozinho, consultando um livro (já que a questão parece lhe interessar, deve ter livros que tratam disso) decide perguntar aos sábios o que é isso, que tipo de colocação do "o" e do "se" é essa que ele nunca viu e que estranha, apesar de ou exatamente porque sempre estudou os manuais dos mesmos sábios, se isso pode ou se não pode, se essa ordem está prevista ou não pelos almanaques.
Os sábios respondem - sim, eles respondem, vivem disso, como os que aconselham a fazer aplicações financeiras ou depilação !! - que a construção existe e depois peroram ignorantemente sobre a necessidade de ensinar isso na escola, sem se dar conta (o que revela que são mais pascácios do que sábios) que esse é o único tipo de coisa em que a escola insiste, sem resultado nenhum para o domínio ativo da língua escrita, mas com excelentes efeitos para o bolso deles, dos sábios.”
Foto: reprodução (relógio de Dali)
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Aconselhamentos aos casais ― módulo II
“Conforme prometido, os conselhos da revista O Cruzeiro aos maridos, em 1935, pelo "chronista" Luiz Raymundo, amplamente divulgados para uma classe média que vivia entre guerras e saudava Getúlio Vargas. Interessantes os maiôs da época, os campeões de natação dos clubes urbanos e os cabelos das "coquettes" nas colunas sociais, em sua maioria, respeitáveis senhoras casadas.
Na seção "Conselhos ao esposo", Raymundo afirma que um homem deve estar sempre barbeado "de fresco", coisa pela qual sempre lutei pela vida afora. Deve haver mulher que goste de lamber pelos, mas nunca foi meu caso, nem sob os disfarces do terrível cavanhaque.
O cronista continua o texto indicando que o marido não se irrite quando a mulher pedir dinheiro, e nem mesmo que o cônjuge peça satisfação sobre os gastos dela. Isso é coisa de mulher. Que a deixe livre para resolver os gastos da casa e, eventualmente, os da perua.
Dentro de casa, homem não deve andar de pijama e chinelos. Deve deixar sempre os "objectos em ordem" e jamais se esquecer: ela não é uma das criadas. "Você já passou da idade em que necessitava de uma ama." Ora, vejam só! Enquanto ela põe o café, ele deve fingir que isso não é tarefa da criada. Um equilíbrio que exige inteligência. Nada se diz, no manual, sobre se homens têm aptidão para pôr, eles mesmos, a mesa e o café. Não sei se em pouco mais de oito décadas deu tempo de aprender. Acho que sim.”
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26 Março, 2009
A Crise da música ― Parte 1
“Não é de hoje que o mercado da música está
Também é preciso oferecer ao consumidor uma saída de compra legalizada, facilitada ― sem qualquer tipo de complicação ou entrave ― e a um preço atrativo. O iTunes conseguiu isso unido um hardware "cool" a uma compra segura e rápida. Recentemente avançou e baniu o DRM, esse absurdo que agride o comprador legítimo. Punir o usuário legal, seja com DRM ou proteção anticópia é uma estupidez sem tamanho. Castigam quem devia ser premiado.
A internet é tida como vilã, mas é preciso lembrar que com as rádios e TV dominadas pelo jabá e pelo comercialesco, a Web ajuda os amantes da música que querem novas opções. Parece também ser necessário oferecer vários tipos de serviço, diversificá-lo, como compra avulsa e assinatura, e em vários formatos, como premium ou até mesmo free. Dar várias opções para que o consumidor escolha o que é melhor para ele. O streaming é a palavra do momento, já que há a tendência de as pessoas fazerem menos downloads, privilegiando o consumo diretamente online, como no MySpace, YouTube, Last.fm e outros.”
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25 Março, 2009
Cinema realidade
“CENA 1 - Imagens de um amanhecer num dia frio. Barracas frágeis, sem aquecimento, enfileiradas uma ao lado da outra, num terreno baldio. Dentro delas, estão acampadas famílias de profissionais de variadas atividades que foram obrigadas a abandonar suas casas por falta de pagamento.
Na mesma sequência, crianças em idade escolar se apertam dentro das barracas para trocar de roupa na hora de ir para a escola. Do lado de fora, crianças menores brincam com os poucos brinquedos que restaram. Sem banheiro, o jeito é se lavar na água de um chafariz próximo e improvisar um local afastado para as necessidades físicas.
CENA 2 – Imagens de cachorros de raça andando sem rumo pelas ruas com ar de abandonados. E estão mesmo. Foram deixados para trás pelas centenas de famílias que ficaram sem moradia e sem condições de alimentar mais uma boca, mesmo sendo canina.Por isso, a solução desesperada foi engolir as lágrimas e o apego aos animais de estimação dos bons tempos, largando-os na rua para que fossem recolhidos por associações de proteção aos animais.
CENA 3 – Corta para outro local, onde há uma fila que dá volta no quarteirão, onde aparecem pessoas aparentando cansaço e desânimo. São desempregados à procura de trabalho, levam a carreira debaixo do braço numa pasta de cartolina. Eles não pensam em ganhar como no antigo trabalho, querem apenas sobreviver nem que seja por $7 dólares a hora para limpar o chão de algum restaurante, arrumar cama em hotel ou servir refeições como garçom.”
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Movimento de artistas quer democratizar o mercado fonográfico pela Internet
Carolina Ribeiro, Observatório do Direito à ComunicaçãoNão é de hoje que o mercado fonográfico vive uma realidade baseada em dois pólos bem distintos. De um lado, uma minoria de artistas fabricados pelas grandes gravadoras que obtêm prestígio ao serem reproduzidos em programas de grande audiência em emissoras de rádio e TV e ocupam a maioria das prateleiras das lojas de discos. De outro, milhões de músicos cada vez mais conhecidos por um disperso público na internet buscando alternativas para viver da produção artística.
Nos últimos anos, este embate foi fortemente remodelado pelas mudanças por que passa o setor em razão da popularização das tecnologias de produção e da ascensão da Internet como meio de distribuição e consumo de músicas. Este cenário coloca em xeque o modelo de negócio das grandes gravadoras e abre um desafiador caminho para a cultura livre no mundo e no Brasil.
Neste quadro, um conjunto de artistas e ativistas pretendem transformar incerteza em possibilidades, buscando alternativas à ditadura das grandes gravadoras e dos meios de comunicação de massa. Eles se reuniram em Brasília, no último dia 15, para iniciar a construção de um movimento denominado “Música Para Baixar” (MPB). De acordo com Fernando Anitelli, da Trupe Teatro Mágico, de São Paulo, uma das promotoras da atividade, a idéia do MPB é uma reação à percepção de que a indústria cultural no Brasil se constituiu como um “sistema muito engessado”.
Os integrantes do movimento MPB apostam na crise do modelo dominante para gerar formas mais democráticas de produção e distribuição de músicas. Segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos, em 2007, a venda de fonogramas digitais via internet no mundo cresceu 40%, movimentando US$ 2,9 bilhões e alcançando cerca de 15% do mercado. Já no Brasil, o crescimento foi de 157% no mesmo ano, com este segmento arrecadando R$ 24,5 milhões e chegando a 8% do mercado nacional.”
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Estranha passagem
Márcio Alemão, Terra Magazine“Sobre Clodovil, o homem de TV, eu não tenho muito a dizer. Lembro de seu momento como conselheiro de moda, no TV Mulher da Globo, nos anos 80, exibindo grande habilidade para fazer rápidos croquis de suas sugestões.
Não me lembro jamais - pode ter sido coincidência, uma coincidência de décadas - de tê-lo visto feliz.
Pessoas felizes são simples assim: exalam felicidade, contagiam, fazem os outros se sentirem bem. Falei da Hebe semanas atrás. Um bom exemplo. Pessoas felizes não passam todo o tempo tentando provar de maneira agressiva que são muito mais felizes que os outros.
Todas as vezes que vi o Clodovil no ar ele estava se defendendo. Dizendo-se realizadíssimo, não devedor de nada, senhor absoluto de todas as verdades, atacava terceiros todo o tempo. Sabia de coisas desse e de outros mundos.Dizia-se feliz, muito feliz.
Não me lembro de tê-lo visto sorrir.”
Foto: José Cruz / ABr
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24 Março, 2009
O viver melhor ou o bem viver?
"Na ideologia dominante, todo mundo quer viver melhor e desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Comumente associa esta qualidade de vida ao Produto Interno Bruto (PIB) de cada pais. O PIB representa todas as riquezas materiais que um país produz. Se este é o critério, então os países melhor colocados são os Estados Unidos, seguidos do Japão, Alemanha, Suécia e outros. Este PIB é uma medida inventada pelo capitalismo para estimular a produção crescente de bens materiais a serem consumidos.
Nos últimos anos, dado o crescimento da pobreza e da urbanização favelizada do mundo e até por um senso de decência, a ONU introduziu a categoria IDH, o "Índice de Desenvolvimento Humano". Nele se elencam valores intangíveis como saúde, educação, igualdade social, cuidado para com a natureza, equidade de gênero e outros. Enriqueceu o sentido de "qualidade de vida" que era entendido de forma muito materialista: goza de boa qualidade de vida quem mais e melhor consome.
Consoante o IDH a pequena Cuba apresenta-se melhor situada que os EUA, embora com um PIB comparativamente ínfimo.
Acima de todos os países está o Butão, espremido entre a China e Índia aos pés do Himalaia, muito pobre materialmente mas que estatuiu oficialmente o "Índice de Felicidade Interna Bruta". Este não é medido por critérios quantitativos mas qualitativos, como boa governança das autoridades, eqüitativa distribuição dos excedentes da agricultura de subsistência, da extração vegetal e da venda de energia para a Índia, boa saúde e educação e especialmente bom nível de cooperação de todos para garantir a paz social.”
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RJ: Pesquisa revela que 37% dos jovens votariam em MV Bill

“MV Bill, senador? Pesquisa encomendada pela CUFA - Central Única de Favelas revela que 37% dos jovens do Estado do Rio de Janeiro votariam no rapper, um dos fundadores da organização. Os jovens representam 14% do eleitorado do Rio de Janeiro (cerca de 1.587.000 eleitores até 24 anos).
A pesquisa foi motivada pelas recentes declarações de Caetano Veloso. Em 1º de Março deste ano, no show comemorativo pelo aniversário do Rio de Janeiro na Cidade de Deus, o cantor baiano “lançou” a candidatura de MV Bill ao senado e convocou a população a votar no rapper.
Realizada pelo IBPS – Instituto Brasileiro de Pesquisa Social entre os dias 6 e 10 de março, a pesquisa entrevistou, por telefone, 1.100 pessoas em todo o Estado do Rio de Janeiro. A margem de erro é de três pontos percentuais.”
Blog das Ruas
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23 Março, 2009
A revolução de saber das coisas
“Uma amiga, de 24 anos, estranhou quando lhe contei ter evitado as palavras "ditadura" e "golpe" ao entrevistar alguns velhinhos para um livro. A nossa conversa, vale ressaltar, aconteceu antes da "ditabranda", infeliz expressão cunhada pela Folha de São Paulo em um editorial, que serviu pelo menos para presenciarmos uma reação dos sempre calados intelectuais brasileiros.
Pois bem. No meu caso, a intenção não era polemizar ou opinar sobre a ditadura. Ao contrário, eu apenas pretendia entrevistar senhores que imaginava serem bem conservadores naqueles anos, e a política servia como mero pano de fundo do assunto principal ― o mercado de capitais da época. Intuitivamente, expliquei à amiga, busquei um termo mais neutro, "regime militar", para formular minhas perguntas, sem que isso representasse um problema para mim nem um risco para o andamento da entrevista. Como ela é recém formada, e eu já tenho uns bons anos de estrada, falei da importância de o jornalista se "mimetizar" em determinadas situações ― defendi que vale apelar para a indumentária, usar jargões, enfim, buscar uma identificação que quebre o "gelo" ou a resistência do entrevistado.
― Mas eu não conseguiria jamais usar a expressão "revolução", porque aí seria demais para mim ― ressaltei. Se o diálogo acontecesse algumas semanas depois, teria brincado que "ditabranda" eu não falaria nem sob tortura.
O fato é que quando mencionei "revolução", o espanto da minha amiga me chocou: ela nunca soube que o golpe militar foi chamado assim por seus idealizadores. Muito menos que a palavra ainda é usada por alguns militares e velhinhos conservadores. Aprendeu nos livros de história todos os detalhes do golpe, e ponto final. Vou falar o quê? Os livros estão corretíssimos, a discussão "golpe ou revolução" tornou-se completamente obsoleta com a vitória final da democracia, mas mesmo assim fiquei pensando se seus professores não deveriam ter destacado a tentativa semântica de dar um cunho popular à ação tramada dentro dos quartéis.”
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Graffiti toma conta das galerias de arte
"De 19 de março até 26 de abril, o Museu Brasileiro da Escultura recebe a exposição "Graffiti Fine Art". Sob curadoria de Binho Ribeiro, o evento fará três exposições com nove artistas, que irão apresentar ao público o melhor da arte urbana: graffiti.
A primeira de 19 a 29 de março, traz obras dos artistas Binho Ribeiro, Does e Dalata. A segunda acontece de 2 a 12 de abril, com Anjo, Graphis e o americano Cern. A última, de 16 a 26 de abril, mostra obras de Chivitz, Nove e Presto.Binho Ribeiro, o curador, é também expositor e afirma que o intuito do evento é mostrar o graffiti como ele é feito nas ruas para promover a discussão sobre arte contemporânea.
- Acho que a entrada do graffiti nos museus brasileiros tem muito a ver com um contexto mundial que vive a cultura desta arte.
Para o curador, há um amadurecimento dos artistas. E prossegue: "Não adianta os museus abrirem suas portas sem que os artistas estejam prontos para colocar suas obras lá", pondera.”
Foto: Binho Barreto, divulgação
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22 Março, 2009
Equipe comemora em S. Bernardo encerramento de filme sobre Lula
Terra“A trupe do filme Lula, O Filho do Brasil, de Fábio Barreto, comemorou o encerramento das filmagens no Vera Cruz Bar, na cidade de São Bernardo do Campo, na quinta-feira (19).
Acompanhado do elenco e da equipe de produção do longa, o prefeito Luiz Marinho agradeceu a presença do diretor Fábio Barreto na cidade e afirmou que a produção marca o início de projetos que serão realizados na cidade com a reativação dos Estúdios Vera Cruz.
O projeto inclui a geração empregos para os jovens da cidade com as produções cinematográficas e transformação do Vera Cruz em um polo de produção e formação profissional para a área de audiovisual.
O filme, que teve cenas rodadas em diversas partes do município, como o estádio 1º de Maio, a igreja da Praça Matriz, o Cemitério da Paulicéia e o Sindicato dos Metalúrgicos, além do próprio Vera Cruz, teve as últimas gravações realizadas em São Bernardo no dia 19, na Igreja Santa Filomena, Centro, cena em que Lula se casa com Lurdes, sua primeira mulher, interpretada por Cléo Pires.
O roteiro do filme é inspirado no livro Lula, O Filho do Brasil, escrito pela jornalista Denise Paraná, que entrevistou familiares próximos para poder adaptar a história do presidente da República.”
Vermelho.org
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Venezuela vai legalizar os casamentos de homossexuais
O novo estatuto será chamado de “associações de convivência”. O Projecto de lei Orgânica para a Equidade e Igualdade de Género “está quase pronto” e a poucos dias de ser objecto de deliberação no Parlamento.
A lei resulta de vários encontros que os deputados da Assembleia Nacional tiveram com várias organizações de homossexuais e outras de direitos humanos. A Constituição venezuelana estabelece que todas as pessoas têm o direito a estabelecer a orientação e a identidade sexual da sua preferência de forma livre e sem descriminação.
O projecto em fase final de discussão prevê que duas pessoas do mesmo sexo possam unir-se legalmente e que isso tenha efeitos jurídicos, desde logo patrimoniais.”
Público.PT
21 Março, 2009
Trinta e três
Tony Monti, Terra Magazine"Corriam. No canto inferior da tela, o cronômetro marcava segundos, décimos e centésimos. Quando o primeiro passou a linha, a frase "world record" apareceu como legenda. Alguns minutos depois, a cronometragem oficial anunciou o tempo corrigido, três centésimos mais lento, quinta melhor marca da história. Imaginei que, escolhessem qualquer um dos atletas e filmassem com dois por cento de aceleração, teríamos um filme do recorde mundial. Os jornais do dia seguinte informariam sobre o feito ao atento leitor do caderno de esportes, ainda que alguns décimos a mais ou a menos não possam ser percebidos por quem vê a prova.
Na semana passada, enquanto a Globo transmitia o jogo do Palmeiras, o narrador, desatento às imagens exibidas, dizia que no outro estádio, no jogo do Corinthians, o relógio marcava vinte e um do primeiro tempo. Futebol não é apenas o que acontece em campo. Ronaldo poderia fazer mais um gol e isto seria comentado mesmo que, em uma hipótese absurda neste mundo paparazzo, ninguém o tivesse filmado. Sim, há a bola, onze contra onze, as traves, o verde do gramado - o mundo concreto -, mas minha atenção agora é para a materialidade do que se diz, em palavras e em imagens, o tecido das frases que moldam o que acontece.
Utilizemos, para fins analíticos, o seguinte critério para medir a relevância de um acontecimento: se o que acontece gera muitos comentários, ele é significativo, segundo este critério, para as pessoas que o comentam (não proponho fazer a avaliação para o que se diz nos jornais, quero apenas brincar com uma idéia). Ronaldo, neste critério, é significativo. O que ele faz é notícia mesmo que, por imposição de um contrato, as imagens da partida em que ele está envolvido não sejam transmitidas.”
Foto: Lance!Net
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A esperança como atitude crítica
“A esperança é uma das três virtudes teologais, ao lado da fé e do amor. Rima com confiança, termo que deriva de fé: quem acredita, espera; e quem espera, acredita. Esperar é confiar.
Vivemos um momento novo da história da América Latina. Com a eleição de governos democrático-populares, a esperança dá sinais de se transformar em realidade. Há esperança de que se priorizem as questões sociais e se reduzam significativamente as desigualdades que caracterizam o Continente.
Para Jesus, a esperança se coloca lá na frente, no Reino de Deus, que marca o fim e a plenitude da história, e não lá em cima, enquanto postura verticalista de quem ignora a existência deste mundo ou a rejeita. Hoje, a expressão Reino de Deus possui conotação vaga, metafórica. Pode-se, porém, imaginar o que significava falar disso em pleno reino de César... Não há dúvida da ressonância política do termo, pois Jesus ousou anunciar um outro Reino que não o de César e, por isso, pagou com a vida.
Hoje, a esperança tem conotação secular - a utopia. É curioso observar que, antes do Renascimento, não se falava em utopia. Esta resultou da dessacralização do mundo, da morte dos deuses e, portanto, da necessidade de projetar ou visualizar o mundo futuro. Na medida em que o ser humano, com o advento da modernidade, começou a dominar os recursos técnicos e científicos que interferem no curso da natureza e aprimoram a nossa convivência social, surge a necessidade de antever o modelo ideal, assim como o artista que faz a escultura traz na cabeça ou no papel o desenho da obra terminada. Como afirmou Ernst Bloch, a razão não pode florescer sem esperanças, e a esperança não pode falar sem razão (Karl Marx, Bolonha, 1972, 60).
O marxismo foi a primeira grande religião secular, capaz de traduzir a esperança em sociedade ideal. Ele introduziu na cultura ocidental a consciência histórica, a percepção do tempo como processo histórico, a tal ponto que o ser humano passou a prefigurar sua existência, não mais em referência aos valores subjetivos, mas ao devir, lutando contra os obstáculos que, no ainda-não, impedem a realização do que se espera como ideal libertador.”
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20 Março, 2009
Denúncia contra racismo cresce no Rio
“As denúncias de racismo no Rio de Janeiro têm aumentado. É o que revela balanço do Disk Preconceito, divulgado ontem pela Comissão de Combate às Discriminações e Preconceito da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Há quatro meses em funcionamento, o serviço atendeu cerca de 80 pessoas. As informações são da Agência Brasil.O serviço oferece apoio jurídico e social. Além disso, presta informações sobre como notificar a violência, orientando as vítimas a registrarem ocorrência em uma delegacia de polícia. Advogados também acompanham o envio dos inquéritos ao Ministério Público. Até o fim de fevereiro, 31 denúncias se tornaram processos, que devem ser analisados pela Justiça.
De acordo com a presidente da comissão, a deputada estadual Beatriz Santos, a maior parte dos casos era de injúria. "Coisas como macaco e crioulo fedido", informou durante audiência pública. Segundo a deputada, a maior parte das vítimas era de mulheres negras, mas também há registro de pessoas com deficiência, na capital e no interior.”
Tribuna da Imprensa
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Nova Lei Rouanet terá maior presença do governo
"Na próxima segunda-feira, 23 de março, o ministério da Cultura e a Casa Civil devem apresentar para consulta pública o Projeto de Lei que cria o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura. Em outras palavras, trata-se de uma remodelação da Lei Rouanet, da criação da nova Lei de Financiamento de Atividades Culturais.
O projeto já está há mais de uma semana na Casa Civil e no ministério da Fazenda. Terra Magazine teve acesso à integra da proposta e publica logo abaixo o seu cerne e contornos.
Às 14 horas de hoje Terra Magazine mostra aos internautas o que já está pronto e decidido na nova lei. Ajustes finos ainda estão sendo feitos no caminho entre a Casa Civil, o MinC e a Fazenda e, portanto, o que ainda não está fechado não será exposto.
Objetivo central, segundo a ótica do ministério dirigido por Juca Ferreira: democratização dos processos de decisão e aplicação dos investimentos públicos em cultura e diversificação das fontes de investimentos.
O que isto quer dizer, o que há por trás desse fraseado?
O fraseado nasce, no entender do governo, de números incontestáveis. Nos 17 anos de vigência da Lei Rouanet R$ 8 bilhões foram repassados para atividades culturais Brasil afora. Nos últimos 5 anos, para que se tenha uma ideia, a metade, 50% do dinheiro aplicado em projetos culturais foi destinado, concentrado, em apenas 3% dos que captavam.
Repita-se: a metade do investido nos últimos 5 anos ficou nas mãos de 3% dos que pretendiam fazer filmes, encenar peças de teatro, montar shows, orquestras, concertos, escrever livros...
E "Brasil afora", como dito aí acima, não é o termo exato. Para ser exato: em 2007, 80% dos recursos foram destinados a estados do Sudeste e do Sul. O Nordeste captou 6% e o Norte 3%. E mesmo no Sudeste são flagrantes as distorções.”
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19 Março, 2009
Marcelo Tas firma acordo com a Telefônica para divulgar serviço no Twitter
Mariana Lang, Folha Online “O diário norte-americano "The Wall Street Journal" acendeu uma polêmica na internet brasileira nesta quinta-feira (19), ao publicar uma reportagem afirmando que, graças à popularidade do apresentador Marcelo Tas na internet, ele teria sido contratado pela Telefônica. O jornalista vai divulgar em seu Twitter o Xtreme, serviço da empresa espanhola que oferece TV fechada, internet e telefone por fibra óptica. À Folha Online, o âncora do "CQC" confirmou o contrato firmado com a companhia. Segundo ele, embora o título da reportagem ("No Brasil, Telefônica aposta em 'twittadas' de celebridades", em tradução) sugira que ele irá fazer "lobby" da empresa, o conteúdo apresentado está correto.
"Há um contrato para divulgação do Xtreme, serviço de banda larga que acho ótimo. Inicialmente, fiz comerciais de vídeo que circularão apenas na internet. O Twitter será usado para indicação de filmes, palestras, com a 'tag' [palavra-chave] identificadora do serviço. Não haverá elogios à Telefônica, serão postagens de minha autoria, sem qualquer ingerência da empresa sobre o que eu escrever, com total transparência", afirmou Tas, cuja página do Twitter é acompanhada por mais de 18 mil internautas.
A reportagem do "The Wall Street Journal" teve grande repercussão no universo do microblog. Algumas pessoas que leem o que escreve Tas (os chamados "seguidores") chegaram a ameaçar deixar de acompanhar sua página.”
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A fuga como castigo
“Em um condado de Ohio, Champaign, no interior dos Estados Unidos, uma severa juíza condenou um rapaz a pagar uma multa de 150 dólares por ouvir os seus artistas preferidos de rap em um volume muito alto, enquanto dirigia pelas ruas da cidade. O carro é daqueles preparados com baterias de buzinas estereofônicas, que por onde passam deixam uma esteira de som ensurdecedor, como se fosse uma discoteca ambulante que distribui de lado a lado da rua, de porta em porta, doses estridentes de ritmos sincopados e intermináveis ladainhas como rezas a plenos pulmões, que perturbam o ouvido de forma macabra.
No entanto, a sentença incluía uma concessão da senhora juíza: se o rapaz aceitasse ouvir 20 horas de música dos grandes maestros, Bach, Händel, Mozart, Beethoven, Schubert, Wagner, a multa seria reduzida a 10 por cento do seu valor original, a apenas 15 dólares. O rapaz, pressionado pela má sorte de ter violado as leis que proíbem o abuso dos ouvidos alheios, aceitou, constrangido, a oportunidade que recebia de saldar de forma pouco usual o seu delito. Então, tendo o réu manifestado estar de acordo, a juíza, que ao parecer também é apaixonada por música, elaborou o repertório de composições destinadas ao castigo auditivo, e enviou um delegado à biblioteca pública para buscar os CDs selecionados.
Do alto da sua autoridade de administradora da justiça, agiu como uma mãe de família, amantíssima, porém intransigente, que julga saber muito bem o que o seu filho necessita como corretivo; ou como uma velha professora primária, que sabe escolher do seu catálogo pedagógico as medidas repressivas apropriadas, capazes de endireitar o caráter quando ainda há tempo. Dessa forma, a lista de compositores que forneceu ao transgressor, para o seu bem, estava destinada a purgar os seus gostos, como se fosse um laxante que faria com que as suas tripas ficassem transparentes.”
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Crise (de vergonha na cara?)
“Você, com certeza, toma café, almoça e janta a tal da crise. Mas na opinião de um executivo das Casas Bahia (li isso no editorial do jornal do mercado publicitário Meio&Mensagem de 2 de fevereiro), as classes mais populares continuam consumindo porque não estão impactadas pelas notícias alarmantes. O assunto é abordado com mais profundidade em veículos/programas jornalísticos que teriam menos audiência nas classes C, D e E. Então, como "quando os olhos não veem, o coração não sente", o pessoal segue comprando.
http://www.mmonline.com.br/
Já as classes mais abastadas e bem-informadas, mesmo que não estejam sentindo na prática os aguilhões da recessão cutucando o bolso, botam o pé no freio por prevenção. E, assim, o mercado sente a diminuição na compra de carros e vinhos importados, mas não na de feijão, arroz e geladeiras à prazo.
Passados quatro ou cinco meses do início da crise, já se começa a falar que ela não está tão forte. Alguns pensam que nem mesmo chegou por aqui. Parece aqueles furacões que desviam a rota antes de atingir determinada região. O problema com a crise é que ela não aparece nas imagens de satélite. E aí tudo cheira a especulação.
Será que a crise existe mesmo? Eu poderia dizer que sim porque, teoricamente, senti na pele. Um contrato definitivo de trabalho, em certa instituição de ensino de Curitiba, virou temporário. Nem dá para reclamar muito, se for comparar com os professores que estavam lá há anos e foram demitidos praticamente no fim do ano letivo, quando já era tarde para buscar emprego em outras faculdades. O motivo alegado, nem preciso falar: cortes para sobreviver à crise.
Com certeza existem situações em que as vendas foram afetadas, os prejuízos tomaram o lugar dos lucros, a sombra da bancarrota pairou sobre as cabeças. Porém, muita gente se questiona: a crise não acabou virando desculpa para algumas empresas tomarem certas medidas, que vão da demissão ao aumento de preços, e que teriam sido extremamente impopulares em um período de bonança?
Complexos cenários econômicos, impactados por variáveis inalcançáveis para a maior parte dos mortais, tornam difícil a um leigo ter uma opinião técnica sobre o assunto. Mas a gente pode traçar um paralelo com a vida pessoal, e aí fica mais fácil entender.”
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18 Março, 2009
Gramsci - do fundo do cárcere
Fernando Rego (In Memoriam), Terra Magazine"O silêncio interrompido: gritos, sussurros e conversas. A cela, a solidão. A mosca descrevendo rodopios no espaço. A caneta, o papel e a escrita - asas que o conduzem para fora dos muros e das grades. Escrever compulsivamente, fugir da brutalização carcerária; transformar cada detalhe em material de reflexão: um mundo feito de retalhos, colcha tecida parcimoniosamente por dedos zelosos, a partir de sobras de panos. O resultado salta aos olhos, mosaico colorido: assim são as Cartas do Cárcere, de Antonio Gramsci. Sua leitura exige paciência; aí se escondem mistérios em cada linha, ou apenas em uma palavra, jarro de flores na janela.
Gramsci escreve intensamente sobre política, filosofia e história. No entanto, somente 50 anos após sua morte, seus escritos foram publicados. Analisando todo e qualquer assunto a partir do materialismo histórico, constrói, então, sua teoria e teses. Aqui, interessa-nos as cartas dirigidas à cunhada Tatiana (Tânia), irmã de Giulia. Nelas, derrama Gramsci suas queixas, seu humor cáustico, suas esperanças e cria pequenas rusgas com que parece deleitar-se:
"Recebi sua carta do dia 12 e propus a mim mesmo, friamente, cinicamente, deixá-la enraivecida" (Cartas do Cárcere, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, p. 64).
Mas finaliza: "Não se zangue muito, querida Tânia, quero-lhe um bem enorme e ficaria mesmo desesperado se lhe causasse um desgosto muito grande" (p. 66).
A Tânia também recorre quando dúvidas atormentam-lhe acerca de seu estado psicológico: "Tânia, como médica, você deve me dar um conselho precisamente técnico..." (p. 70). Mas, Gramsci sabe que a dedicação (a servidão) de Tânia provoca transtornos, que a deixam fatigada e mesmo nervosa, uma vez que, por mais que a ele se dedique, não consegue suprir inteiramente suas necessidades. Nesses momentos, Gramsci modifica-se: as cartas passam a abordar miudezas do cotidiano, imaginárias ou reais, como o comportamento dos pardais que, ocasionalmente, lhe fariam companhia. Assim, faz Tânia sorrir.
Gramsci sabia que alguém ligado a ele, como Tânia, estaria sempre envolta em perigo e tensão. Confessava então:
"Cara Tânia, tenho sempre muito medo de que você esteja pior do que escreve e que possa se encontrar em alguma dificuldade. Por minha causa. Este é um estado de espírito que ninguém pode destruir. Está radicado em mim. Sabe que no passado levei sempre uma vida de urso na caverna justamente por causa desse estado de espírito..." (p. 75).
Tânia é, também, para ele, uma aluna, e aluna especial, pois extensão de seu corpo. Por isso mesmo, busca aperfeiçoá-la, fazendo-a sentir e ver como ele próprio:
"Fico satisfeito pelo fato que Milão lhe agrade e ofereça possibilidade de distração. Visitou os museus e galerias? Porque do ponto de vista da estrutura urbana penso que a curiosidade se esgota muito ligeiro..." (p. 86).”
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Menos igreja, mais striptease
“Enquanto os jornais acreditarem que podem emitir juízo sobre a igreja, a igreja nunca nos deixará viver livremente nossas vidas. Durante dias, temos assistido a um estéril debate sobre a excomunhão dos médicos e da mãe da menina de nove anos que, estuprada pelo padrasto, esperava dois filhos e submeteu-se a uma cirurgia abortiva, respaldada pela lei. Ainda horrorizados, ouvimos o religioso argumentar que a excomunhão é legítima e que o aborto é mais grave que o estupro, por isso a punição aos médicos e não ao padrasto, autor da barbárie. Então, de repente todos nós nos sentimos um pouco versados nos assuntos de Deus. E, debaixo do nojo, nada nos resta a fazer quando o real se sobrepõe assim, dessa maneira.
O que nós não entendemos é que os jornais não deveriam tratar dos assuntos de Deus e da igreja. A igreja tem o direito de tomar as decisões respaldadas pelas suas crenças, pelos seus códigos, pelos seus ideais. Esse é um assunto dos religiosos e a relação que estabelece com os seus fiéis não nos compete. A religião deve ser objeto de debate público apenas quando ela mesma infringe a lei, o que não é o caso. A igreja não deseja mais comungar com os médicos. Está bem.”
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17 Março, 2009
"A Escola e a Letra": escritores brasileiros e suas influências
“Organizado por Flávio Aguiar e Og Doria, o livro "A Escola e a Letra" (lançamento da Boitempo Editorial), reúne texos de autores brasileiros buscando captar a influência que a escola desempenhou em suas obras. "Quase todo escritor brasileiro tem um professor, um colega, um pedaço de escola a recordar e que aí, ou com esse personagem, se deu algo da escolha de escrever”, resume Flávio Aguiar. "A Escola e a Letra" será lançado dia 19 de março, em Porto Alegre, e dia 1° de abril, em São Paulo.Redação, Carta Maior
Quais impressões os mais importantes escritores brasileiros levaram da escola? De que forma os processos de aprendizagem pelos quais passaram deixaram marcas em suas obras? As respostas podem ser descobertas na leitura dos cinqüenta textos que compõem o livro A Escola e a Letra, organizado por Flávio Aguiar e Og Doria, e publicado pela Boitempo Editorial.
São contos, crônicas, trechos de romances e memórias que juntos, formam um panorama dos pontos de vista de autores como Machado de Assis, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rubem Braga, Clarice Lispector, Osman Lins, Rubem Fonseca, Vinícius de Moraes, Nélida Piñon, Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, entre outros, sobre a escola.
O livro tem lançamentos marcados para Porto Alegre e São Paulo. Na capital gaúcha, ocorrerá no dia 19 de março (quinta-feira), a partir das 19 horas, no Teatro da Casa de Cultura Mário Quintana (Rua dos Andradas, 736, 6° andar). Haverá leitura de textos por Flávio Aguiar, Luiz Augusto Fischer e Maria Helena Martins. Em São Paulo, o lançamento será no dia 1° de abril, na Choperia do Sesc Pompéia (Rua Clélia, 93, Pompéia), com leituras de Flávio Aguiar, Afonso Romano de Sant'Anna, Boris Schnaiderman, Ivan Angelo e Roniwalter Jatobá.”
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Mirar Battisti, acertar a multidão
Giuseppe Cocco, LMD Brasil
No dia 1º de março de 2009 faleceu em Paris, Giancarlo Santilli. Tinha 57 anos e morreu de câncer. A história de Giancarlo é exemplar para abrir mais uma pequena janela na incrível cobertura que a grande mídia brasileira está fazendo no caso de Cesare Battisti, dedicada a “sentenciá-lo” como se fosse "terrorista" – ou tentando talvez impor ao STF o ponto de vista do governo italiano. Em matéria publicada em 1º de março de 2009, O Estado de São Paulo – para citar apenas um órgão de imprensa – afirma o contrário de todas as evidências: "STF vai extraditar Battisti, se seguir rito" [1], lê-se logo no título. Não se sabe que critérios dariam tanta segurança aos jornalistas João Bosco Rabello e Felipe Recondo para afirmar tal coisa, pois o STF recusou a extradição de todos os italianos refugiados no Brasil, a partir de acusações relacionadas a eventos dos movimentos da década de 1970 [2].
O que a mídia deveria constatar, se fosse isenta, é que uma decisão diferente do STF seria uma ruptura com sua própria jurisprudência: uma ruptura que não teria explicações jurídicas, mas sim políticas. Mas lembremos das manchetes produzidas logo depois da concessão, pelo ministro Tarso Genro, de refúgio a Battisti. Falavam em "dois pesos e duas medidas" entre a decisão relativa ao “terrorista” (Battisti) e a “deportação” (inventada) dos atletas de Cuba! Está fartamente demonstrado, hoje que os atletas voltaram a Cuba porque quiseram fazê-lo. Exatamente o que se sabia, à época. Exatamente o contrário do que os jornais publicavam. O vexame e a falta de profissionalismo, aparentemente, não são suficiente para que se peça desculpas.
A hipocrisia da mídia conservadora combina-se à histeria da cruzada de um colunista e do editor de um semanário que se pretende alternativa à mídia de mercado. Já vimos em outros momento que o conhecimento deles da história política da Itália contemporânea é simplório e redutor. Mas há uma “outra” linha de argumentação capital nessa Carta. Sempre com o objetivo de defender “pela esquerda” a extradição de Battisti, Mino Carta e Walter Maierovitch recorrem sistematicamente a entrevistas ou citações dos que eles chamam de “magistrados vermelhos” italianos. A mobilização das entrevistas desses magistrados rossi se faz, em primeiro lugar, com o objetivo de confundir as tradicionais clivagens políticas e, em segundo lugar, os campos de atuação. Mistura-se luta contra o terrorismo e repressão dos crimes de colarinho branco, pelo simples fato de os ditos magistrados “vermelhos” atuarem na repressão da corrupção e/ou da máfia e outras formas do crime organizado italiano.”
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16 Março, 2009
Diversidade leva classe média à escola pública
Antonio Góis, Folha de São Paulo“Num país em que a maioria das famílias de classe média ou alta vê o ensino privado como única opção, uma parcela desse grupo foge à regra e matricula os filhos em escolas públicas. Muitos procuram algo que os colégios particulares, por serem pagos, são incapazes de proporcionar: um ambiente diversificado, onde convivem alunos de vários níveis socioculturais.
Foi esta a opção de Andréa Beltrão, atriz que interpretou uma professora no filme "Verônica", lançado neste ano.
Mãe de três filhos, ela diz que a escolha foi natural. "Eu estudei em escola pública. Minha mãe deu aula no Pedro 2º [colégio federal no Rio]. Por isso, quis para meus filhos uma escola em que o critério de entrada não fosse o dinheiro", diz. Casos como o dos filhos de Andréa ainda são minoria nas famílias mais ricas.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, tabulados pela Folha, mostram que em 2007 apenas 16% das crianças nas famílias de maior renda (mais de cinco salários mínimos per capita) estudavam em escolas públicas. Em 2001, eram 12%.
Como não abre mão da qualidade, esse movimento da classe média em direção à escola pública ainda é restrito aos poucos estabelecimentos estatais que conseguem manter alto padrão de aprendizagem.
É o caso da escola municipal Minas Gerais, no Rio, incluída em 2006 numa lista do Ministério da Educação e do Unicef de escolas públicas modelo. Além de atender crianças mais pobres, a escola atrai uma parcela da classe média, como o funcionário público Luiz Eduardo Ricon. Seus dois filhos, de nove e 14 anos, estudavam num colégio particular até o ano passado.”
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“Os jovens não são tão babacas quanto se pode imaginar”
Gisela Anauate, Época
O filme francês Entre os muros da escola, uma ficção que se passa numa sala de aula e usa técnicas de documentário, estreia no Brasil neste final de semana. O grande vencedor do festival de Cannes de 2008 foi baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo ex-professor e jornalista François Bégaudeau, que faz seu próprio papel no longa-metragem. O diretor Laurent Cantet veio a São Paulo para divulgar o trabalho. Em entrevista a ÉPOCA falou sobre seu complicado processo de elaboração.
ÉPOCA – O senhor já disse que o filme Entre os muros da escola pode ser visto como um microcosmo da sociedade francesa. Por quê?
Laurent Cantet – A composição multiétnica da sala de aula mostrada no filme é representativa da população de certos bairros de Paris, ou mesmo em outras cidades da França. Por isso, não é uma visão global. Tenho a impressão de que as questões que são levantadas pelo filme, sobre as quais temos um pouco de medo de pensar, são essenciais para a sociedade. Precisamos discutir a imigração, o que é fazer parte de uma comunidade e como os países podem ajudar a acolher os que chegam. Podemos pensar como esse intercâmbio que acontece na escola, e, mais amplamente, na sociedade, pode contribuir para a cultura. Olhar para o pequeno mundo da sala de aula é também olhar as coisas praticamente em sua origem, pois é o momento em que esses jovens começam a pensar em si mesmos dentro da sociedade. Precisamos levar em conta as questões que eles se colocam, às vezes de forma torta, ou agressiva. Quando a aluna Esmeralda diz "não tenho orgulho de ser francesa", é importante que escutemos. É importante entender o que leva os jovens a sair quebrando janelas e queimando carros. O que Esmeralda diz é que a França não lhe dá a sensação de que a aceita; ela não se sente querida pela comunidade. A maior parte desses garotos não é de imigrantes, mas de filhos e netos de imigrantes. Mesmo duas gerações adiante, eles ainda têm a sensação de estar à margem da sociedade. E a escola é um lugar interessante a se observar porque é um dos últimos em que essa mistura realmente acontece. Num futuro bem próximo, vai haver uma seleção; uns vão partir para um lado, outros para outro. Na vida cotidiana, geralmente ficamos num círculo de pessoas que se parecem um pouco conosco, não há tanto essa miscelânea como há talvez numa sala de aula.
ÉPOCA – Essa fala de Esmeralda surgiu durante as oficinas que precederam as filmagens?
Cantet – Não tenho certeza se ela disse isso durante uma oficina ou durante a própria filmagem. É por isso também que tive vontade de trabalhar com a oficina. Mesmo se tivéssemos diálogos e frases definidos no roteiro, também deixei espaço para que essas improvisações pudessem acontecer. Depois, cabe a nós explorá-las, a seguir com elas.
ÉPOCA – Como foi exatamente todo o processo?
Cantet – No começo do ano escolar, visitamos várias salas de aula convidando os alunos para participar das oficinas. 50 alunos apareceram no primeiro encontro para ver do que se tratava. Os que estavam menos interessados saíram nos ateliês seguintes, e ficamos com 24 alunos que são os que aparecem no filme. Não fui eu quem escolheu, foram eles que decidiram ir até o fim.
Entrevista Completa, ::Aqui::
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15 Março, 2009
A carta do pai
Alberto Luiz Fonseca, Terra Magazine“Filha, querida.
Tanta coisa... Hoje foi um dia cheio. Fogo. Tenho de cozinhar, arrumar a casinha, tudo aqui recai sobre mim. Claro, não há empregada por perto! Mal há o correio para que eu possa lhe enviar essas cartas, você sabe.
No entanto, e respondendo à sua pergunta na última carta, não, não sei quando voltarei a viver numa cidade grande.
Difícil, viver assim? É... Mas, eu odeio ainda mais as coisas da cidade, filha. Aqui tenho tranquilidade, nada me ocupa, fora do meu "horário de trabalho" doméstico.
Não tenho almoços, eventos noturnos. Todo meu tempo é meu, livre. Para eu fazer dele o que quiser: ler, passear, ver as estrelas. SIM! Temos belas estrelas aqui, lembra-se? (Você veio muito rápido, né, nem pôde passar a noite, pena.)
Aqui tudo fica quieto. Minha casa, que você chama de "cabaninha" desde quando veio me ver, é meu santuário. Não se compara com apartamento bacana da capital. Mas, e então? Vaidade. Temos tantas, né? A nossa mesma, que nos incomoda mais.
Mudando de assunto, e você, como vai? O Romeu, o Romerinho, como vão todos na nossa pequena família?
Olha, me lembrei de uma reflexão que tenho feito esses dias, que eu queria te contar. É sobre como viver a vida. Qual o melhor meio de viver a vida da gente? Esta pergunta está em todos os livros de auto-ajuda, certo?”
Enredo Completo, ::Aqui::
Saramago diz que culto da frivolidade é inquietante
Em entrevista, o escritor português reconheceu que o sucesso das suas obras é "um enigma", pois o "culto actual da frivolidade é inquietante". Apesar de não ser fácil ler os seus livros, Saramago mostra-se satisfeito por ter conseguido chegar a mais de três milhões de leitores em todo o mundo.
Título infeliz
"Fazer as coisas às cegas é fazê-las sem saber o que se quere fazer realmente, e não é isso o que ocorre nesta história, em onde todos os personagens são cegos de verdade", explicou hoje durante o lançamento do filme em Madri o escritor português que, por outro lado, sempre elogiou a adaptação de Meirelles.
"É uma adaptação quase perfeita -porque não há nada perfeito- do romance. Não gosto de adaptações literárias para o cinema, como ocorreu com 'Guerra e paz', por exemplo, mas sou muito de antipatias e simpatias, e a equipe (de Meirelles) me caiu bem desde o primeiro momento", afirmou o escritor.
Por isso, Saramago conta que deu "total liberdade para fazer o que quisessem", uma liberdade que Meirelles deixou de lado em mais de uma ocasião, "porque já com o roteiro nas mãos, tinha que recorrer constantemente ao livro para saber o que na realidade queria contar", apontou o cineasta.
Meirelles, que abriu a última edição do Festival de Cannes com este longa-metragem, aproveita o fato de a humanidade estar paralisada por uma misteriosa epidemia de cegueira, para explorar o bom e o mau da natureza humana.”
Vermelho.org
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14 Março, 2009
Os fios do labirinto
Paulo Nassar, Terra Magazine“Entre os séculos XVI e XVIII, era comum nas cidades europeias contratar um magistrado para promover o reordenamento político e jurídico, colocando-o acima das disputas e interesses de facções. Calvino (1509-1564), por exemplo, reorganizou a Igreja e o Estado de Genebra, abrindo caminho para a cidade se transformasse num vigoroso núcleo protestante. Rousseau(1712-1778), o autor de Do Contrato Social, por pouco, não exerceu idêntica função na Córsega.
Hoje, essa figura já não existe mais e as sociedades em crise são obrigadas a encarar seus próprios problemas. É exatamente esse o fio do labirinto para sair da atual turbulência econômica: a ativa participação do corpo social.
O traço em comum com o passado é que, na origem da crise, encontra-se o conflito recorrente entre o interesse público e o interesse privado. Na Europa dos fins da Idade Média e da ascensão da burguesia, no século XVIII, a efervescência política estava polarizada entre o velho regime monárquico, autocrático e autoritário, e a moderna república, com seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Uma, a monarquia, de limites nacionais; a outra, a república, de horizontes universais.
Agora, o choque se dá entre a ambição de uma sociedade global que corrija desigualdades e promova a integração da humanidade, de um lado, e , de outro, uma globalização egoísta, que serve apenas a interesses individuais ou de grupos.
É essa a natureza profunda da crise do presente. Criou-se uma imagem de que o Estado é a essência da ineficiência, a iniciativa privada justamente o oposto. Os fatos não corresponderam à realidade. E a imagem construída com pés de barro ruiu. Esqueceu-se a origem do Estado, nascido para permitir que o capitalismo mercantil pudesse realizar suas plenas potencialidades. Esqueceu-se a origem da palavra privado, que, no princípio, na Grécia Antiga, significava privação. Privação de liberdade para mulheres, estrangeiros e escravos que não podiam participar da ágora, isto é, da liberdade de discutir em praça pública os temas maiores, como a justiça, as leis, a república e a própria liberdade.”
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Direito ao aborto
“Embora contrário ao aborto, admito a sua descriminalização em certos casos, como o de estupro, e não apoio a postura do arcebispo de Olinda e Recife ao exigir de uma criança de 9 anos assumir uma gravidez indesejada sob grave risco à sua sobrevivência física (pois a psíquica está lesada) e ainda excomungar os que a ajudaram a interrompê-la.
Ao longo da história, a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva quanto ao aborto. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situa-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado ser humano. Até hoje, nem a ciência nem a teologia tem a resposta exata. A questão permanece em aberto.
Santo Agostinho (sec. IV) admite que só a partir de 40 dias após a fecundação se pode falar em pessoa. Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) reafirma não reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a "alma racional".
Esta posição virou doutrina oficial da Igreja a partir do Concílio de Trento (séc. XVI). Mas foi contestada por teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. III) e de santo Alberto Magno (séc. XIII), defendem a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo. Esta tese foi incorporada pela encíclica Apostolica Sedis (1869), na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.
No século XX, introduz-se a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto em caso de gravidez tubária ou câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro.”
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13 Março, 2009
Com Andréa Beltrão, ataques do PCC vão para as telas do cinema
Reuters“O dia em que São Paulo parou virou filme com estreia prevista para o início do ano que vem. "Salve geral" narra um episódio de ficção inspirado nos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), o maior confronto contra forças policias do Estado.
"Para mim, foi o 11 de Setembro de São Paulo. Mobilizou a cidade toda e, pela imprensa, o Brasil. O pânico se instalou", disse à Reuters o cineasta Sergio Rezende, responsável pela direção e que já comandou Zuzu Angel (2006), Guerra de Canudos (1997) e Lamarca (1994).
Co-roteirista, ele conta que foi atraído pelo "descontrole que toma conta de tudo, em que o Estado perde o controle".
Uma primeira versão de "Salve geral" - código usado pelo PCC- foi apresentada à distribuidora Columbia há uma semana, quando se discutiu a data do lançamento, ainda incerta. Falta a sonorização e a música na produção orçada em 6 milhões de reais.
A história, que teve as filmagens finalizadas há alguns dias, é centrada em Lúcia, uma professora de piano viúva, vivida pela atriz Andréa Beltrão, que passa por dificuldades financeiras e tem a missão de tirar o filho da cadeia.
Rafael (Lee Thalor) está preso por ter se envolvido em um incidente de trânsito que acabou em assassinato. Para ajudá-lo, Lúcia acaba se envolvendo com o PCC, levando para a cadeia celulares e mensagens. A sigla do comando, no entanto, não é mencionada no filme.”
O Globo / Foto: Divulgação
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Da tristeza dessa cana não temos sequer lonjura
"Ah! O caminhão. O caminhão que não era uma idéia, não era uma abstração. Era um caminhão determinado. Era uma condução. Uma história social que ia e vinha todos os dias pela BR-381. Só domingo deixava quieto. Mas na segunda lá estava ele indo e vindoAugusto Juncal, Brasil de Fato
Luzia despertou com medo agulhado na coluna. Dor fina de motivo não adivinhado. Quis livrar-se do medo. Em vão. Era égua desembestada que de nada adiantava a força do braço no cabresto. Um pesar de gravidade tanta, que teve que rolar até a borda da cama, jogar primeiro pernas para fora, puxando coberta que resistia sobre ela, apoiando flanco sobre magro braço, forçando cama, para alçar tronco e levantar. Não levantou ainda. Sentou-se. Ligeiramente curvada, cabeça despencada para a frente, queixo projetando-se sobre o tórax: um contorno no escuro que ainda havia no quarto.
Lá fora madrugada envelhecia lutando para conservar o breu de suas horas escuras. O pesar da sua gravidade foi um sonho que teve. Seus pés tatearam chão em busca das havaianas. Respirou, reuniu forças, levantou. Coxeando, coxeando foi fazer café. Luzia, Luzia, com essa perna coxa que te amaria? Pegou capanga nova que tinha costurado para Isaías. Colocou dentro marmita: batata, macarrão, carne, arroz. Feijão. Fechou bem a capanga. No quarto, Isaías de um só pulo deixou a cama, jogando pernas dentro das calças, enfiando-se dentro da camisa que tava dentro de outra camisa, mangote. Caçou boné pendurado na parede, colocou na cabeça cobrindo pescoço, ombros. Afivelou velcro. Catou caneleira no canto do quarto arriada sobre botina, já tomando das mãos da noite escura do quarto bainha, facão e podão. Podão de amolar facão: 18, 20,18,20, para não perder tempo, 18, 20, 18, 20, menos não pode não, menos que isso é fome.
Na cozinha o cheiro do café fresco abria brecha na pobreza da casa, precária de construção e de outras precariedades. Cheiro bom. Quase um prazer. Luiza deu-lhe uma caneca generosa. Ele colocou-se sob a soleira. Não bebeu ainda. Observou o chumbo do dia amanhecendo. 18, 20, 18, 20 toneladas por dia. Soprou e bebeu.
Eram assim as manhãs madrugadas: silenciosas. Sem bom dia, sem beijo, nenhum afeto. Mas sempre, por aqui e acolá, um olhar de carinho, que meio existia, meio não existia. Mas que no fundo só parecia não existir. Parecia mais de cuidado que de carinho. Isaías e Luzia não se amavam: cuidavam-se. Que na verdade, dá no mesmo. E sobre isso não vale a pena filosofar.
"A luva!" Isaías voltou ao quarto para pegá-la largando a caneca sobre a mesa.
Caneca sobre mesa: luz da cor amarela do plástico da caneca ressaltando das quatro tábuas enegrecidas e carcomidas.”
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Duas notas
(...)
“Vou dizer duas palavras sobre o caso Cesare Battisti:
a) todos os que se posicionaram contra a decisão do ministro Tarso Genro destacaram que ele foi contra um parecer do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Mas ninguém deu importância ao fato de que o resultado da votação final nesse órgão foi 3 a 2. Ou seja, não houve unanimidade.
De vez em quando ouço ou leio pedaços de notícias sobre julgamentos e assim fiquei sabendo que resultados não unânimes em júris são bom argumento para recursos. Dito de outra forma, Tarso Genro estava acompanhado, em sua decisão, por pelo menos dois membros do Conare.
b) não conheço quase nada sobre o funcionamento de justiça italiana, mas desconfio seriamente da movimentação política e das pressões que ministros e parlamentares daquele país fizeram para tentar alterar a decisão do ministro brasileiro. Em casos assim, tomo posições pelo faro: entre as posições de Berlusconi e as de Tarso Genro, nunca terei dúvidas.
Aliás, este é um princípio que sigo mais ou menos religiosamente: como é impossível inteirar-me de todos os assuntos, em muitos casos sigo critérios ideológicos. Na dúvida, não fico jamais com as posições da direita. Posso dar exemplos: se ligar a TV Senado e o Agripino Maia estiver na tribuna criticando uma posição qualquer, passada ou futura, de nosso governo ou de outro, já sei que minha posição seria defender o que ele critica. É óbvio que a mesma posição vale para Berlusconi e para seu ministério. Reconheço que decisões tomadas segundo esse critério podem me levar a arrependimentos e a mudanças posteriores.”
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12 Março, 2009
Deusas do cotidiano
Sérgio Vaz, LMD Brasil
“De todos os hinos entoados em louvor às revoluções nos campos de batalhas, nenhum, por mais belo que seja, tem a força das canções de ninar cantada no colo das mães”
O nome dessas mulheres eu não sei, não lembro e nem preciso saber. São nomes comuns, em meio a tantos outros espalhados por esse chão duro chamado Brasil.
Mas a maioria delas eu conheço bem, são donas de um mesmo destino: as miseráveis que roubam remédios para aliviar as angústias dos filhos. É quando a pobreza não é dor, é angústia também. São as ladras de Victor Hugo.
Donas da insustentável leveza do ser, as infantes guerreiras enfrentam a lei da gravidade. Permanecem de pé ante aos dragões comedores de sonhos que escondem na gravidade da lei. Das trincheiras do ninho enfrentam moinhos de mós afiadas para protegerem a pança dos pequeninos. São as Quixotes de Miguel de Cervantes.
Místicas, não raro, estão sempre nuas em sentimentos. Quando precisam, cruas, esmolam com o corpo, e se postam à espera do punhal do prazer que cravam no seu ventre.”
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O Arcebispo da Inquisição
“Todo o mundo soube que Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, excomungou os médicos que praticaram um aborto em uma criança de nove anos. Mas quase ninguém soube que o aborto não se fez onde a menina estivera internada, no IMIP, porque o arcebispo ameaçou romper o contrato que esse hospital mantém com a Santa Casa. De fato e de direito, para evitar a santa ira, os médicos cumpriram com o dever na Maternidade da Encruzilhada, em outra terra e contrato.
E mais não se disse, porque na notícia é comum a expulsão da história. Vê-se o fato – e peço perdão por não resistir à tentação do trocadilho – vê-se o feto, mas se esquecem os antecedentes. O arcebispo que ganhou o mundo há muito anunciou os seus sinais, quando assumiu a direção das almas católicas em Olinda e no Recife.
Pois Dom José Cardoso tem uma sombra. Ela se chama Dom Hélder Câmara. Há correspondências que ajudam a semelhança, que se casam nesse estranho conúbio e associação. A começar pela altura, física. Dom José Cardoso e Dom Hélder Câmara têm ambos a mesma estatura. À vista desarmada, dir-se-ia que os dois medem os mesmos 1 metro e 58, se muito. Ambos são nordestinos, Hélder, do Ceará, José, de Pernambuco. Ambos se encontraram na Arquidiocese de Olinda e Recife. Mas aqui terminam as semelhanças.”
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11 Março, 2009
O Estado cínico
Cláudio Fonteles (Ex-Procurador-Geral da República), JB Online“A discussão sobre o aborto assume grande relevo porque necessariamente diz com o tipo de sociedade em que almejamos viver: a sociedade amorosa, fraterna, solidária ou a sociedade do egoísmo, do abandono, da violência. E, porque a discussão é assim posta, assim devendo ser, efetivamente, o Estado, como a sociedade politicamente organizada, tem que enfrentar a questão e não, cinicamente, reduzi-la à esfera de opção individual.
A mulher e o embrião, ou o feto, se já alcançado estágio posterior na gestação, que está em seu ventre, são as grandes vítimas do cinismo estatal.
A mulher porque ou por todos abandonada - seu homem, sua família, seus amigos - ou porque, e o que é pior por assim caracterizar um estado de coisas, teme venha a ser abandonada pelo homem, pela família, pelos amigos.
A mulher porque incentivada, e estimulada, pela propaganda oficial e privada a desfazer-se da vida, presente em seu ser, como se a vida fosse um estorvo, um empecilho, um obstáculo que deve ser eliminado em nome, hipocritamente do direito à liberdade de escolha.
Não há liberdade de escolha quando a escolha é matar o indefeso.
O embrião, ou o feto, porque vida em gestação, mas, repito, vida-presente não se lhes permite a interação amorosa, já plenamente, ainda que no espaço intra-uterino, com sua mãe, e com os demais, caso esses não adotem a covarde conduta do abandono da mulher.”
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IDH: um milhão de histórias sobre o Brasil
“o programa das nações unidas para o desenvolvimento, PNUD, está começando a computar o novo IDH, o índice de desenvolvimento humano do país. o IDH diz, na prática, como estamos como pessoas e, de muitas formas, quão saudável é a sociedade. o retrato nacional descrito pelo IDH desce ao nível de municípios e vilas e, se bem usado, ajuda a definir as políticas, estratégias, práticas e investimentos que mudariam os lugares mais miseráveis do brasil.
o PNUD resolveu perguntar, através do site brasilpontoaponto.org.br, o que é que precisa mudar no brasil pras nossas vidas melhorarem de verdade. a consulta é aberta a qualquer interessado em dar sua opinião e vai ajudar a definir o tema do relatório de desenvolvimento humano. ao aliar opiniões qualitativas aos dados quantitativos sobre onde estamos bem e onde precisamos melhorar, a esperança é produzir um retrato mais fiel de um país que, na maioria de suas comunidades, ainda precisa melhorar muito.”
Blog: Dia a dia, bit a bit
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10 Março, 2009
O mundo como ele realmente é
Cris Ambrósio, Digestivo cultural Nada mais perigoso do que generalizações, mas talvez seja possível dizer que a maioria esmagadora dos ratos de bibliotecas, frequentadores de sebos, leitores da McSweeney's e da Granta, enfim, dos obcecados por livros em geral, devem esse amor ao contato constante com a literatura desde quando eram crianças. Com essa relação que nada diz respeito ao clima de obrigatoriedade dos anos escolares ainda por vir, o hábito da leitura evolui e torna-se parte da pessoa.
Eventualmente, essa pessoa provavelmente irá se acostumar com enredos metafóricos, parabólicos e difíceis. E também estará perfeitamente habituada a criar as mais diversas interpretações para esses livros tão complicados, tão adultos. Quem sabe o consolo para tanta intelectualidade cansativa seja a memória de tempos inocentes nos quais se lia coisas com figuras coloridas de traços delicados, palavras fáceis e histórias simples.
É de se imaginar o choque em saber que a inocência que deveria estar presente nesses livros, ou pelo menos em alguns deles, não existia. Eu senti um exemplo disso recentemente, em razão de uma exposição montada no Morgan Library & Museum,
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